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Índex* – Junho, 2016

Quando a vejo

Ao luar

Parece uma serpente 

Que por algum desvio

No destino

Perdeu o poder

De matar

*

Brilha a lua

Brilha a minha

Face obscura

Por saber

Que existe

Uma saída

Por sentir

Que insiste

Uma ideia

De vencer 

Um pouco mais

De mim mesma

(“Os dois lados da minha moeda”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 19/06/16, 17h20)

 

Vencendo um pouco mais de mim mesma no Índex de Junho, 2016 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

O homem despedaçado | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Compulsão Agridoce | Antonio Aílton (MA – Brasil).

Coisas: poemas etc | Pedro Américo de Farias (PE – Brasil).

Memórias de um hiperbóreo & Antologia Cosmopolita | Oleg Almeida (Bielo-Rússia/DF – Brasil).

Pílulas para o silêncio | Píldoras para el silencio | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

 

E os links do mês:

Maria Rizolete Fernandes envia poeta e pintor salmantinos, Alfredo Alencart e Miguel Elias (Salamanca – Espanha)www.salamancartvaldia.es/not/119724/drama-refugiados-desde-sensibilidad-alencart-miguel-elias

O site de Laila Ribeiro Silva (MG/RS – Brasil)www.sobrelivros.com.br

 

Agradeço a participação, a próxima postagem será em 31 de Julho de 2016, um grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

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Index* – June, 2016

 

When I see her

At the moonlight

She looks like a snake

Which for some deviation

In destiny

Lost power

To kill

*

Shines the moon

Shines my 

Hazy face

Knowing

That exists

An exit

Feeling

That insists

An ideia

To win 

A little more

From myself

(“Both sides of my coin”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/19/16, 5h20 p.m.)

 

Winning a little more of myself on the Index of June, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

The broken man | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Compulsion Bittersweet | Antonio Aílton (MA – Brasil).

Things: poems etc | Pedro Américo de Farias (PE – Brasil).

Memoirs of Hyperborean & Cosmopolitan Antology | Oleg Almeida (Belarus/DF – Brasil).

Pills for silence | Píldoras para el silencio | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

 

And the links of the month:

Maria Rizolete Fernandes sends the salmantins poet and painter Alfredo Alencart and Miguel Elias (Salamanca – Spain)www.salamancartvaldia.es/not/119724/drama-refugiados-desde-sensibilidad-alencart-miguel-elias

The site of Laila Ribeiro Silva (MG/RS – Brasil)www.sobrelivros.com.br

 

I thank for the participation, the next post will be on July 31, 2016, a big hug and see you there,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Os lançamentos de “A menina do olho verde” – Recife e Porto Alegre… The launchings of “The green eye girl” – Recife and Porto Alegre.

O homem despedaçado* | Gustavo Melo Czekster**

Um mundo de moscas

Influenciado pelos estudos de Pascal e Newton, Montanelli afirmou, no princípio do século XVIII, que os homens não passavam de um delírio das moscas. Essa declaração incendiou o mundo civilizado, encontrando entre seus defensores Fleming, Jones e Desnèuve. Contudo, foi no século XX, com Anton Lopez, de Madri, que ela mais se desenvolveu, reforçando inclusive as ideias de Lamarck no que diz respeito à teoria dos caracteres adquiridos.

Anton Lopez expandiu a sabedoria de Montanelli e disse que os homens não só eram delírios como também foram criados pelas moscas. Isso explicaria o fato delas ajuntarem-se sobre cadáveres, dos quais retirariam pedaços microscópicos para construir outra pessoa. Lopez admitia a hipótese das moscas memorizarem os mortos para posterior reconstrução deliral, linha de raciocínio seguida pelos admiradores de Montanelli, circunstância que o absolveu diante dos seus iguais. A declaração que equiparava Deus às moscas, feita no seio de um país católico, despertou compreensível furor, forçando Lopez a buscar refúgio em outro local.

As selvas da América do Sul eram o lugar ideal para desenvolver seus estudos: as moscas, as chuvas abundantes, o calor onipresente. Além disso, foi de especial razão para a escolha do local a obra de temática indígena escrita pelo padre Caetano Moraes, pois algumas lendas tratavam do mesmo assunto pesquisado pelo espanhol. Um desses mitos mencionava o Curupak-in-Otre, ou Homem-Mosca, um ser que, mesmo tendo forma humana, pensava como mosca; chamava atenção a impossibilidade de tal criatura banhar-se, temendo a fragmentação.

Utilizando parâmetros matemáticos definidos por Descartes e Pitágoras (com uma leve influência nunca admitida do indiano Bakhti), Lopez definiu que, para cada pessoa do mundo, existe um número de moscas correspondente ao seu número de células. Essa conclusão pode ser sintetizada no seguinte postulado: Ncel = m, Ɐp, onde p é uma pessoa qualquer, Ncel é o volume das células deste marco referencial e m é o número de moscas correspondente a essa pessoa.

Na época em que a fórmula foi idealizada, não se sabia com precisão o número de células de uma pessoa, que é de natureza variável. Grandes matemáticos (entre os quais Gillan, McPherson e Oppenheimer) concentraram nesse ponto as suas críticas, pois Ncel seria um termo impossível de ser calculado em grupos, somente de forma individual, o que retiraria o mérito da descoberta.

Sem saber das polêmicas que viria a despertar, Lopez produziu o único trabalho científico da sua vida, divulgado na edição de maio de 1949 do American Journal of  Philosophy. Com o título de Um mundo de moscas, Lopez suscitou conhecimentos cabalísticos, teorias físicas e biológicas, excertos católicos, fatos da História, movimentos topogeográficos e delírios sonhadores, condensando em exíguas cinco páginas sua ideia a respeito do fim do mundo. Ao aplicar a equação criada, expandindo ao máximo o seu alcance, ele atribuiu um valor arbitrário para Ncel (quatro milhões) e concluiu: se, para cada pessoa, existem quatro milhões de células, por conseguinte, o mesmo número de moscas está presente, altamente compactado, na proporção de um para um.

Cada mosca mede cerca de um centímetro e pesa em torno de 0,1 miligrama. Quatro milhões de moscas equivalem a quatro milhões de centímetros de quatrocentos mil miligramas, o que implica dizer que cada pessoa da Terra é igual a quarenta quilômetros e 0,4 quilo de moscas. Tomando por base a população média da Terra na época, ele chegou a um total de moscas capaz de cobrir toda a superfície do planeta em cinco camadas sobrepostas, além de possuir um peso descomunal.

Com base nesses sólidos cálculos, Lopez afirmou que o maior perigo para a sobrevivência humana seria o fenômeno chamado de diáspora, a separação das moscas que tornam as pessoas coesas. Defendeu ainda a ideia de um rígido controle das moscas que trafegam impunes pelo mundo, pois poderiam estar carregando consigo pessoas já falecidas ou criar novas e esdrúxulas combinações de seres humanos, como uma fusão de Napoleão e Dickens. Esse estudo foi recebido com estardalhaço nos meios científicos, e há evidências de que grandes indústrias de armamentos investiram em pesquisas sobre venenos contra moscas.

Após publicar o estudo, Anton Lopez refugiou-se em uma floresta. As poucas pessoas que conseguiram encontrá-lo deparavam-se com um homem nu, de barba comprida e olhos insanos, dedicado à compreensão das moscas. Elas enchiam todo o lugar com seu zumbido insistente, e os visitantes ocasionais encantavam-se ao ver o domínio que o recluso exercia sobre as pequenas criaturas.

Certo dia, Anton Lopez desapareceu. Restaram somente os seus desenhos de homens formados por moscas, obras que, pela simetria e noção do corpo humano, assemelhavam-se aos esboços de Leonardo da Vinci e aos quadros de Archimboldo. A última pessoa que viu Anton Lopez foi o homem que levava a comida uma vez por semana ao sítio. De acordo com a sua versão: “O senhor Lopez estava vestido, o que não era normal, e as moscas estavam dentro da sua roupa, mexendo de um lado para o outro. Às vezes, uma saía da boca, outra do nariz, outra da orelha. Ele não parava de andar e não dizia coisa com coisa”. Infelizmente, a veracidade do depoimento nunca foi confirmada: dias depois, encontraram a testemunha dentro de um valo, coberta de moscas.

Há relatos de que Anton Lopez deixou um diário, intitulado Compendius muscarum, boato também carecendo de confirmação. As moscas que infestavam a sua casa desapareceram. Uma frase rabiscada no chão, última herança do pensador espanhol, até hoje é fruto de controvérsia: “Os homens são delírios das moscas, que não passam de uma ilusão dos homens”.

 

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CZEKSTER, Gustavo Melo. Um mundo de moscas. In O homem despedaçado. Porto Alegre: Dublinense, 2011, p 19-22.

** Contatogusczekster@gmail.com

“Compulsão agridoce”* | Antonio Aílton**

O jardim de Po Chü-yi

 

Dizem aí que Fulano é um grande poeta

que tem estilo, e até consegue imitar

a si mesmo, para conservar sua marca

Que é como Picasso depois de Les Demoiselles

Quanto a mim, sei que meu pequeno jardim

não é como o das grandes casas de portões vermelhos

dos poetas que olham desdenhosos o outro lado do bulevar

Não é como os planejados para a entrada dos grandes colégios

nem como os que embelezam ainda mais os fluxos do sol

que rebatem nas vitrines das grandes empresas

Em meu pequeno jardim, eu sei, há flores

grandes e minúsculas, coloridas e tristes, às vezzes

perfumadas

e há também flores falsas como é natural das plantas

flores enjambradas e ervas daninhas que tenho preguiça

de tirar, ou não sei como

então deixo aos poucos amigos quando vêm beber vinho

olharem e dizer: “ô, isso cresceu aí…”, e respiondo: “foi mesmo…”

Então vamos beber um pouco mais de vinho, e aponto

uma velha espreguiçadeira herdada de Po Chü-yi

poeta mais sábio que todos nós juntos, e que após ouvir

o alaúde

perguntava:

“Por que suspirar por grandes terraços, açudes

quando um pequeno jardim é tudo quanto basta?”

 

Hayao Miyazaki

 

Grande é o mundo, nós o dominaremos

com a pequenina flor salpicada de crianças

e vendavais

um bastão, uma velhinha, um carrinho quebrado

que sobrou da última guerra

Mas o espírito é como uma fagulha, um vento singelo

que sopra ainda tenro dos pés de limão

de onde nasce a primavera e as gargalhadas da infância

La vêm elas,

as pequeninas correndo pelos campos

espalhando novas sementes nos balancinhos

novas lentes para cegueira

desentranhando a catarata do meu olho

Agora vejo o que parece Totoro, quase no meio da chuva

o mundo é vasto quando estamos dentro

nós o dominamos ao nascermos sempre

e de novo

entre suas viagens e paisagens

pântanos e bolinhas de fuligem

até completarmos o ciclo de volta

para nossa mãe,

a casa

 

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AÍLTON, Antonio. Compulsão Agridoce. Prefácio: Lourival Holanda. Jundiaí, SP: Paco Editorial, 2015, p. 18 e 40.

** Contatoailtonpoiesis@gmail.com

Coisas: poemas etc* | Pedro Américo de Farias

Poética do desassossego

1

Silêncio           sim

resvalo

pelo ralo

silêncio            não

 

desassossego

 

verbo rebelde

cego de reima

revel sou

não sem visão

 

revelo             não

resvalo

raiva de aflição

pelo ralo

 

revelo               sim

desassossego

silêncio             não

resvalo

 

revelo               sim

pelo ralo

 

2

Não me calo

profissão de fé

poeta

calo serei não por acaso ou

prazer

ouvir e cantar de sim e

não

de não calar se o calo

aperta

coisa de negar não de

esquecer

não é por nada nem por

querer

minha língua rude roída

rói

sagrado dogma

abaixo do qual ferve a

fogueira

verve fogosa queima o

silêncio

sobre a labareda

 

3

Fantasma em fúria

quebro quebrantos

 

sem leme nem rumo

cato gravetos da memória

na preamar do esquecimento

 

bandeira a meio pau

vela e mastro quebrados

 

escolho as máscaras

do figurino que me desenha

na face a cicatriz da derrota

mastigo agouros e agruras

em cadeias aprisionadas

 

4

Corvo de Poe

signo da angústia

vigia noturno

espera notícia

que possa levar

da comédia humana

 

5

Resto de paisagem e sombra

a brisa do desejo atrasa

adia-se a primavera

passarinhos migram

silencia o canto

 

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FARIAS, Pedro Américo de. Coisas: poemas etc. Prefácio: Lourival Holanda. Recife: Linguaraz Editor, 2015, p. 14-16.

Memórias dum hiperbóreo* & Antologia Cosmopolita** | Oleg Almeida***

* ALMEIDA, Oleg. Memórias dum hiperbóreo. Apresentação: Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008, p. 9-11.

 

I.

 

Quem sou eu?

Uma gota de tinta lilás

que balança na ponta da pena,

contendo em si toda a sabedoria do mundo

a começar por Tales?

A própria pena arrancada a um ganso qualquer

pela destra dum sábio hipermetrope?

O ganso que mora num sítio,

de tão sossegado, quase paradisíaco,

e passa dias inteiros a chapinhar,

junto com outros gansos e patos,

numa lagoa esverdeada?

O sítio que se situa

no meio duma vasta campina

rica em ervas daninhas e flores exuberantes:

ninguém consegue localizá-lo,

porém todos sabem que existe?

Essa tal de campina,

cujo nome autêntico me saiu da cabeça,

fazendo parte dum país extraordinário,

dado a brincadeiras e cheio de desespero?

Esse país singular,

o da esfera e do losango,

dos músculos duros e corações macios,

que conquistara – disso não tenho dúvida – todo o planeta,

se fora menos sentimental?

O nosso planeta veloz

que voa através do espaço

e muda, e por vezes, de cor e de rumo,

embora de sua órbita nunca se ausente

nem deixe de ser azul?

O espaço caótico e gelado

que engloba milhões de planetas iguais ao nosso,

berço do evangelho e da barbárie,

apenas um pingo de tinta lilás

que balança, teimoso, na ponta da pena divina:

está por cair, mas não cai?

Quem sou eu neste jogo de sombras,

pergunto-me a mim mesmo,

não acho resposta satisfatória

e adormeço zangado.

…………………………………………………………………………………………………………………….

Olhai, ó Senhor, para mim

com Vosso sorriso bondoso e complacente,

dai-me um pouco de luz olímpica;

perdoai a vontade insana

de ler o final da história, antes que seja escrito,

de quebrar, com alarde, a casca da noz sagrada

e comer o miolo,

de penetrar o impenetrável!…

Sei que não sei de nada;

confesso, a contragosto, que nada conheço,

que sempre me escapa a verdade sutil,

e fica a saudade do Éden desmoronado.

A minha quadra tem cinco alexandrinos,

o meu passado carbonizado

está presente em tudo o que faço hoje.

Sinto-me oco.

Preciso de paz, ó Senhor,

de afeto, de compreensão,

duma força a guiar-me.

Sou homem…

Foram medíocres as escolas que terminei,

foram ruins as ideias que me inspiraram,

talvez tenham sido inúteis os meus sacrifícios.

Quem sabe perder, nunca perde a luta!

…………………………………………………………………………………………………………………….

Sou Crates de Tebas,

o último dos mendigos que se arrasta –

réprobo, maltrapilho, filósofo –

pela estrada da vida,

entrando nas casas alheias sem papas na língua

nem boas-vindas.

Sou Hermes, o Mensageiro,

que ultrapassa a correr o tempo alígero

e salta as maiores montanhas.

Sou ínfimo e sublime,

como só pode ser um pedaço de carne dotado de espírito:

a minha vitória resulta das minhas fraquezass,

o cosmo, que me enclausura, íntegro cabe no meu pensamento.

Sou um molusco tirado da concha

e uma das bólides que desafiam o céu noturno.

Sou homem.

 

** ALMEIDA, Oleg. Antologia Cosmopolita. Apresentação: Affonso Romano de Sant’Anna. 1. ed. Rio de Janeiro: 7Letras, 2013, p. 9 e 21.

 

Introdução  

 

Leiam-me, por favor.

Não precisam gostar de meus textos, contanto que os conheçam. Escritos, ao longo dos anos, em português, russo ou francês, far-lhes-ão companhia. Se lidos de modo cordial, darão margem a críticas e sorrisos; se lidos por ócio, produzirão, sabe lá o diabo, certo incômodo. Mesmo quem os detestar não terá prejuízo.

Leiam-me a qualquer momento: de noite e de dia, nas horas vagas e saturadas, em pleno verão e no ápice do inverno. Leiam-me em toda parte: à mesa de seu jantar e na sala de espera do médico, recostados em seus sofás e de pé na parada de ônibus. Não existem lugar nem horário ruins para lerem um livro. Saciem-se de poesia, misturem-na com churrascos e noticiários – eis o meu desafio!

Leiam-me por motivos sérios e nulos, cientes de a leitura imotivada ser muito melhor que a compulsória. Talvez fiquem bravos com minha filosofia e meu estilo lhes cause estupor. Não carreguem o cenho: até o veneno da cascavel planteia seu lado se não salutar pelo menos útil.

Uma vez lido, ponham este meu livro em sua estante ou joguem-no fora. Pouco importa o paradeiro futuro dele. Podem esculhambá-lo quanto quiserem, mas não me censurem por tê-lo escrito: fiz isso movido pela necessidade de conversar com alguém que me compreendesse. A compreensão é um dos pilares da irmandade universal.

Não procuro por seus favores: o público justifica, em si, o trabalho do escritor. O fato de uma obra cair no esquecimento, colhendo a outra louros e galardões, não altera nada. O essencial é que ambas as obras tenham leitores, escassos ou numerosos.

E não se encabulem, se pegos com minhas quimeras na mão, porque ler é regar as sementes da imortalidade.

 

Clímax

 

Neste momento

não há mais temor nem decência, nem mesmo bom-senso:

nosso desejo é a primeira e única lei do mundo.

Gira, ó mundo, e pula da órbita fora e faz-te em pedaços –

somos teus amos selvagens, teus anjos seviciadores!

Neste momento

as nossas moléculas se arrojam, se juntam e se ajustam,

dando início à explosão duma supernova,

nossas salivas fervilham e nossas mãos estão livres

para fazer tudo quanto quiserem, e nossos corpos se tornam

vastos, imensuráveis, de sorte a englobarem

todas as alegrias terrenas, até a última chispa.

Neste momento,

que passa e nunca volve (caso volvesse,

seria a réplica trivial duma obra-prima),

desafiamos a Convenção e mandamos a Regra às traças

em nome da cósmica força que nos atrai um à outra,

e tu me chamas, terna e simplesmente, de teu amado

e adormeces, cansada e cheia de dengues, cá no meu peito,

sem suspeitar que sejamos, por um sexagésimo de segundo,

Cronos e Reia, sem mais nem menos, gulosos

pais soberanos do próximo século d’ouro.

 

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*** Contatooleg_almeida@hotmail.com

Pílulas para o silêncio* | Píldoras para el silencio* | Clauder Arcanjo**

 

XII

Novidades descabidas

Novedades descabelladas

 

Sabe da última? O homem mata o homem e põe a culpa no destino.

Sabe da novidade? O homem prevê o fim do mundo e põe a culpa em Nostradamus.

Sabe da derradeira? O homem “adora” velhas novidades e põe a culpa em… pobres de nós: “malditos poetas-prosadores”.

 

¿Sabe la última? El hombre mata al hombre y echa la culpa al destino.

¿Sabe la novedad? El hombre intuye el fin del mundo y echa la culpa a Nostradamus.

¿Sabe lo definitivo? El hombre “adora” vieja novedades y echa la culpa a… pobres de nosotros: “malditos poetas-prosistas”.

***

 

Ontem sonhei com o hoje; e tive pesadelos, velhos e revelhos, com o futuro de amanhã.

Seria eu um precipitado egocêntrico?

 

Ayer soñé con el hoy, y tuve pesadillas, viejas y reviejas, acerca del futuro de mañana.

¿Es que soy un egocéntrico anticipado?

***

 

Nos dias de hoje, em casa de ferreiro – devido à santificação da modernidade – espeto não há.

 

En días de este tiempo, en casa del herrero – debido a la santificación de la modernidad – pincho no hay.

***

 

De Davi, a funda certeza. De Nonato, a não vida. De Jó, a teimosa paciência. De Cristo, a arguta parábola. De Sansão, a paixão por Dalila.

E, de todos eles, a dependência eterna de ser: homem.

 

De David, la profunda certeza. De Nonato, la no vida. De Job, la terca paciencia. De Cristo, la aguda parábola. De Sansón, la pasión por Dalila.

Y, de todos ellos, la dependencia eterna de ser: hombre.

***

 

Se o escritor amansar a pena, a prosa fenecerá… E o visgo da vida, indômito por nascença, se fará mero enxame de parágrafos, ao se tornar contido e sem fel na folha posta, e indisposta.

 

Si el escritor amansa la pluma, la prosa desfallecerá… Y la seta de la vida, indómita por naturaleza, se hará simple enjambre; al volverse contenido y sin fiel en la hoja puesta, resulta desmotivante.

***

 

Diálogo entre dois psicólogos da província.

– Você é um seguidor de Freud ou de Jung?

– De nenhum deles, caro colega. Aqui na província, ao contrário dos grandes centros, nada prescrito por esses dois grandes teóricos funciona.

– Como assim?

– Tenha um pouco de paciência. Nos meses vindouros, publicarei uma obra acerca do Complexo de Jeca Provinciano. Uma revolução nos tratados da moderna psicanálise, acredite.

– …

 

Diálogo entre dos psicólogos de la provincia.

– ¿Tú eres seguidor de Freud o de Jung?

– De ninguno de ellos, apreciado colega. Aquí en la provincia, al contrario de las grandes ciudades, no funciona nada de lo prescrito por esos dos grandes teóricos.

– ¿Cómo es eso?

– Tenga un poco de calma. En los próximos meses publicaré una obra acerca del Complejo del Paleto Provinciano. Una revolución en los tratados del psicoanálisis moderno, créalo.

– …

 

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ARCANJO, Clauder. Pílulas para o silêncio. Píldoras para el silencio. Tradução de Alfredo Pérez Alencart. Revisão: David Leite, José Nicodemos, Lilia Souza, Manoel Onofre Júnior e Sânzio de Azevedo. Mossoró, RN: Sarau das Letras / Salamanca – Espanha: Trilce Ediciones, 2014, p. 47-49.

** Contatoclauderarcanjo@gmail.com