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Índex* – Março, 2016

Que o sonho

Não se transforme

Em velho

Vai e vem

Do dia a dia

 

Que a hora

Em mim

Apague

Qualquer impressão

De angústia

Qualquer invasão

De penúria

 

Aposto 

Num texto bom

Que há de vir

Entre uma linha 

E outra

Entre uma palavra

E o som

Da minha própria 

Voz

 

Até 

Imaginar-me 

Nua

Diante da

Platéia escura

Dos meus 

Ais

 

(“No Theatro São Pedro”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 19/03/16, 18h43)

 

Um novo texto por vir no Índex de Março, 2016 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

“O Bartleby que nos habita ou Uma voz vinda de outro lugar” “De Thomas Mann a Paul Valéry: Um olhar [pernambucano-gaúcho] entre a Prosa e a Poesia” | Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife, PE – Brasil).

Editora Mundi Book (Madrid – Espanha) & Patricia (Gonçalves) Tenório convidam | lançamento do livro “Vinte e um”.

Poemas de Alan Britt (EUA).

“Agenda ambiciosa” | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

“Doutor João Moção” | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

Agradeço o carinho e envio de textos, a próxima postagem será em 24 de abril, 2016, um grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – March, 2016

That dream

Doesn’t become

In old

Comes and goes

From day by day

*

That hour

In me

Erase

Any impression

Of distress

Any invasion

Of penury

*

I bet

In a good text

To come

Between one line

And another

Between one word

And the sound

Of my own

Voice

*

Until 

Imagine myself 

Naked

Before the

Dark audience

Of my

Sorrows

(“In the Theater Saint Peter”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 03/19/16, 6h43 p.m.)

A new text to come in the Index of March, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

“The Bartleby that dwelleth us or A voice  from elsewhere” “From Thomas Mann to Paul Valéry: One [pernambucano-gaúcho] look between Prose and Poetry” | Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife, PE – Brasil).

Mundi Book Publisher (Madrid – Spain) & Patricia (Gonçalves) Tenório invite | launching of the book “Twenty one”.

Poems from Alan Britt (USA).

“Ambitious agenda” | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

“Doctor João Moção” | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

I thank you for the kindness and sending texts, the next post will be on 24th April, 2016, a big hug and see you there,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** No Theatro São Pedro (Porto Alegre, RS – Brasil)… In the Theater Saint Peter (Porto Alegre, RS – Brasil)…

“O Bartleby que nos habita ou Uma voz vinda de outro lugar” | Patricia Tenório[1]

Sábado, 12/03/2016

 

São 14h15 no Bistrô do Solar na Praça da Matriz, Centro Histórico de Porto Alegre. Conheci o Bistrô na última quinta-feira quando vim (re)ler Bartleby, o escriturário,[2] do escritor norte-americano nascido em Nova York Herman Melville (1819-1891).

A (re)leitura deste conto de Melville faz parte da elaboração e reflexão de diversos textos que precisavam ser elaborados, e ruminados, e digeridos nessa segunda semana do terceiro mês do ano – Março das águas fluidas e imaginárias do Tom (Jobim).

O texto âncora do presente estudo encontra-se em Bartleby e companhia,[3] do escritor espanhol nascido em Barcelona Enrique Vila-Matas (1948). Nesse conjunto de “fragmentos”, esse diário ou caderno de notas de rodapé, Vila-Matas forja um personagem de si mesmo à medida que, diferente da vida real,  se propõe “corcunda”, sem “sorte com as mulheres”, e, principalmente, um “escritor do Não”. Na juventude, esse QuaseWatt – como se apelida na segunda metade de Bartleby e companhia – lançou um único livro, única arma contra a opressão paterna, livro que o fez abandonar essa mesma luta e o relegou ao “mal endêmico das letras contemporâneas, a pulsão negativa ou a atração pelo nada”[4] por causa de uma simples “dedicatória ditada” pelo pai.[5]

Os bartlebys são esses “seres em que habita uma profunda negação do mundo”.[6] O nome é originário (e tomado emprestado) por QuaseWatt/Vila-Matas do conto de Melville, Bartleby, o personagem por sua vez (também) em segunda mão, apresentado e narrado por seu chefe, um advogado proeminente, conselheiro do Tribunal de Chancelaria, e que, em um belo (ou “feio”) dia, resolve solicitar um serviço ao seu recém-contratado escriturário:

“Era nessa exata posição que eu me encontrava quando chamei-o, dizendo rapidamente o que queria que ele fizesse – mais precisamente checar um pequeno documento comigo. Imagine minha surpresa, ou melhor, minha consternação, quando, sem se mover de sua privacidade, Bartleby respondeu num tom de voz singularmente suave e firme:

– Prefiro não fazer.”[7]

A resposta – ou não resposta – de Bartleby gera no “advogado proeminente”, no “QuaseWatt” de Vila-Matas, e nesta pessoa que vos escreve, o “mal endêmico das letras contemporâneas”, o mal-estar por sentir/pressentir que nada mais pode ser escrito, apesar – e principalmente – dessa urgência veemente em escrever.

(Interessante lembrar que Melville ao publicar sua obra mais conhecida, Moby Dick (1851), não alcança a popularidade dos seus textos anteriores. À medida que opta por temas mais profundos, é relegado por seus próprios leitores a ser um escritor do Não, leitores que preferiam seus “simples relatos de aventuras”.)

“Apenas da pulsão negativa, apenas do labirinto do Não pode surgir a escrita por vir”,[8] nos alivia QuaseWatt/Vila-Matas. A “escrita por vir” nos remete a O livro por vir,[9] do escritor e ensaísta francês, nascido em Quain, Saône-et-Loire, Maurice Blanchot (1907-2003).

“O livro por vir”, o Livro de Mallarmé, “numeroso” e impossível de ser escrito, é o mesmo do autor “sem livro, escritor sem escrito”: Joubert.

“Joubert teve esse dom. Nunca escreveu um livro. Apenas preparou-se para escrever um, buscando com resolução as condições justas que lhe permitiriam escrevê-lo. Depois esqueceu até mesmo esse propósito. Mais precisamente, o que ele buscava, a fonte da escrita, o espaço para escrever, a luz para circunscrever no espaço, exigiu dele, fortaleceu nele disposições que o tornaram impróprio para qualquer trabalho literário comum, ou fizeram com que o evitasse. Ele foi, assim, um dos primeiros escritores completamente modernos, preferindo o centro à esfera, sacrificando os resultados à descoberta de suas condições, e não escrevendo para acrescentar um livro a outro, mas para se tornar mestre do ponto de que lhe pareciam sair todos os livros e que, uma vez encontrado, o dispensaria de escrever.”[10]

QuaseWatt/Vila-Matas desfia o novelo de lã dos escritores do Não: além dos próprios Joubert e Melville, apresenta Robert Walser, este afirma que “escrever que não se pode escrever também é escrever”;[11] Juan Rulfo, que em Maio de 1954 começou a escrever um romance “como se alguém me ditasse o livro”,[12] e esse livro era Pedro Páramo; Felipe Alfau afirma que, ao aprender inglês, um latino feito ele perde uma das características raciais: “aceitar as coisas como elas vêm”,[13] e, ao não aceitar, o faz emudecer para sempre.

Mas nada se compara ao maior ágrafo de todos os tempos: o Senhor, escritor do Não porque nunca escreveu uma linha, o filósofo grego, nascido em Atenas, Sócrates (circa 469 a.C. – 399 a.C.).

Encontramos em Sócrates aquilo que a romancista, roteirista, poetisa, dramaturga (apesar de) francesa nascida em Saigon, Marguerite (Donnadieu) Duras (1914-1996) afirmava com assombro: “Escrever, também é não falar. É calar-se. É uivar sem ruído”.[14]

Vamos ouvir esse “uivar sem ruído” de Sócrates em outro texto a ser “elaborado, e ruminado, e digerido” neste pequeno ensaio, nesta possível escrita que não se escreve: a Teoria-Poética Uma voz vinda de outro lugar,[15]  também do escritor e ensaísta francês Maurice Blanchot.

Blanchot aborda alguns escritores do vazio: os poetas Louis-René des Forêts (1918-2000), René Char (1907-1988) e Paul Celan (1920-1970), e o filósofo, historiador das ideias, teórico social, crítico literário Michel Foucault (1926-1984). Iremos nos deter nos poetas.

Na primeira parte de seu “livro fragmentário”, Blanchot analisa poemas de Louis-René des Fôrets sob a ótica da “anacruse” – do grego anakrousis, nota ou sequência de notas que precedem o primeiro tempo forte do primeiro compasso de uma música.

“Assim, o augural da primeira ou da extrema infância provou – no primeiro compasso – um silêncio-grito, ainda animal e contudo já humano. Vai manter o emblema desse primeiro silêncio (mas era esse o primeiro? Não existia, na antecedência do não ser – a pátria ou a “mátria” vazia – uma comunicação silenciosa, a mais íntima, a mais reservada?), silêncio ao qual ele é PROMETIDO e do qual, através de um impossível desafio, ele se faz uma PROMESSA?”[16]

A “pátria/mátria” vazia de Blanchot ajuda – quando aborda “A Besta Indomável” de René Char – a desfiar mais ainda o “novelo de lã” de QuaseWatt/Vila-Matas em busca desse “escritor do Não” primordial, atávico, original Sócrates, aquele que por sua vez se aproxima com a sua não-escrita do “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” do Cristo no Evangelho Segundo São João – esse “E” que também é anacruse, um contratempo, fora do tempo, pois o Verbo é consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo no Eterno, quando os tempos ainda não haviam sido criados, essa “voz vinda” de um “outro lugar”.

Sócrates, segundo Blanchot, propõe que nos afastemos da palavra escrita, porque é na linguagem falada – e reforçamos, em especial no diálogo que é construído no momento exato em que falamos –, que “a palavra está segura de encontrar viva na presença daquele que a pronuncia uma garantia”.[17]

Eis aí uma (possível) chave para decifrar os “escritores do Não” de QuaseWatt/Vila-Matas, inaugurados em Sócrates, que por sua vez é ao mesmo tempo prefiguração e imitação do Cristo, o Verbo encarnado, “E” que está fora do Tempo por ser Eterno.

“Por trás da palavra do escrito, ninguém está presente, mas ela dá voz à ausência, assim como no oráculo onde fala o divino o próprio deus jamais está presente em sua palavra, e é a ausência de deus, então, que fala. E o oráculo, não mais que a escrita, não se justifica, não se explica, não se defende: não há diálogo com a escrita e não há diálogo com o deus. Sócrates permanece assombrado com esse silêncio que fala.”[18]

“O assombro com esse silêncio que fala”. “O silêncio: um diálogo de mil palavras”.[19] A chave para tentar decifrar o enigma de QuaseWatt/Vila-Matas, o enigma que diz “Decifra-me ou te devoro”.

“Sou meramente uma voz escrita, quase sem vida privada nem pública, sou uma voz que atira palavras que de fragmento em fragmento vão enunciando a longa história da sombra de Bartleby sobre as literaturas contemporâneas. Sou QuaseWatt, sou mero fluxo discursivo. Nunca despertei paixões, muito menos agora, que sou apenas uma voz. Sou QuaseWatt. Eu as deixo dizer, minhas palavras, mas que dizem em vão. Sou QuaseWatt e em minha vida só houve três coisas: a impossibilidade de escrever, a possibilidade de fazê-lo e a solidão física, evidentemente, que é com a qual agora sigo adiante.”[20]

São 17h35 no Bistrô do Solar na Praça da Matriz, Centro Histórico de Porto Alegre. As três horas e vinte minutos de escrita (quase) contínua acalmam (um pouco) a minh’alma de mãe saudosa dos três filhos, de mulher ausente da cidade que nasceu e (que também) ama, Recife. Mas como se eu escrevesse as últimas palavras escritas acolhidas pela paisagem azul de Porto Alegre, que bem poderia ser a paisagem azul dos Açores de QuaseWatt, onde “Aqui acabam as palavras, aqui finda o mundo que conheço…”,[21] vou fazendo desaparecer minhas letras, vou deixando transparecer minha escrita, me unindo a Beckett, QuaseWatt, Vila-Matas, Joubert, Blanchot, Sócrates…, até as palavras me abandonarem e “com isso tudo está dito”.[22]

 

P(ost) S(criptum): Apenas uma Nota Póstuma de reclamação a Vila-Matas: quando “fala” de Oscar Wilde[23] afirma que este passou os dois últimos anos de sua vida de “grande felicidade”, podendo realizar o que admirava em Platão e Aristóteles (e porque não “dizer” em Sócrates?): “a inatividade total” como “a mais nobre forma da energia”. Wilde não escreveu mais após a prisão em 1895 por homossexualidade – com excessão do poema “A balada do Cárcere de Reading” e a longa carta ao seu ex-amante Lorde Alfred Douglas De Profundis (ambos de 1897) –, não escreveu mais, não porque desejava então imprimir “a inatividade total” dos gregos antigos em sua vida, mas porque foi execrado, e punido, e expulso da comunidade literátia e intelectual da Inglaterra vitoriana. Mas lembro que eu mesma disse que Enrique Vila-Matas “forjou um personagem de si mesmo” em Bartleby e companhia, o QuaseWatt. Então  “com isso tudo está dito”. E perdoado.

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* Para baixar o arquivo em PDF: O Bartleby que nos habita ou Uma voz vinda de outro lugar – Patricia (Gonçalves) Tenório – 120316

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(1) Patricia (Gonçalves) Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem oito livros publicados (O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007),  A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (2013)) e dois no prelo (Vinte e um / Veintiuno (a ser lançado em 11 (Lisboa) e 13 (Madri) de abril de 2016) e A menina do olho verde (a ser lançado (Livraria Cultura RioMar Recife) em 28 de maio de 2016)).  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo, o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(2) MELVILLE, Herman. Bartleby, o escriturário. Tradução: Cássia Zanon. 2 ed. Porto Alegre: L&PM, (1853 in) 2008.

(3) VILA-MATAS, Enrique. Bartleby e companhia. Tradução: Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac & Naify, (2000 in) 2004.

(4) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 10.

(5) Em Políticas da escrita, Tradução: Raquel Ramalhete… [et al], Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, p. 9, o filósofo francês nascido em Argel, Argélia Jacques Rancière (1940) afirma que a escrita “é o regime errante da letra órfã cuja legitimidade nenhum pai garante, mas é também a própria textura da lei, a inscrição imutável do que a comunidade tem em comum.”

(6) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., p. 9, (2000 in) 2004, itálico da edição.

(7) MELVILLE, Herman. Op. cit., (1853 in) 2008, p. 30.

(8) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 11.

(9) BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Tradução: Leila Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, (1959 in) 2005.

(10) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (1959 in) 2005, p. 70.

(11) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 11.

(12) RULFO, Juan apud VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 14.

(13) ALFAU, Felipe apud VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 19.

(14) DURAS, Marguerite apud VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 25.

(15) BLANCHOT, Maurice. Uma voz vinda de outro lugar. Tradução: Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Rocco, (2002 in) 2011.

(16) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 45.

(17) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 53.

(18) BLANCHOT, Maurice. Op. cit., (2002 in) 2011, p. 55-56.

(19) Essa frase (minha?) encontra-se em “Como funciona a ficção em Se um viajante numa noite de inverno : James Wood, Italo Calvino e Patricia Tenório juntos”, vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6464. Escrito de 18/02/2016 a 21/02/2016. Última atualização: 28 de fevereiro de 2016.

(20) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 55.

(21) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 168.

(22) BECKETT, Samuel apud VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 188.

(23) VILA-MATAS, Enrique. Op. cit., (2000 in) 2004, p. 119-121.

“De Thomas Mann a Paul Valéry: Um olhar [pernambucano-gaúcho] entre a Prosa e a Poesia” | Patricia Tenório[1]

Sábado, 19/03/2016

14h00

O restaurante Bistrô do Solar está fechado hoje. Talvez por causa da Feira de Produtos Ecológicos que ocorreu no sábado da semana passada enquanto eu escrevia “O Bartleby que nos habita ou Uma voz vinda de outro lugar”.[2] Não sei. A única certeza que tenho é que deixei naquele lugar um pouco da angústia sofrida por todo(a) Artista que se exila ou por vontade própria ou porque as circunstâncias assim o determinam.

Porto Alegre me acolhe em um momento de muita instabilidade. Em minha vida. Em nosso país. Mas não quero falar de política nesses tempos tenebrosos que estamos vivendo – ou quem sabe seja falando de Poesia, Teoria, Literatura que eu possa transmutar a angústia dupla que abate a minh’alma de Poeta.

Uma das grandes questões de todo(a) Poeta, de todo(a) Ficcionista, é o limite entre essas duas searas, esses dois Universos paralelos que, tentarei refletir hoje neste breve estudo, não seriam tão paralelos assim. Alguns textos se apresentam para a minha análise, e, entre eles, escolho como base, como se fosse um “novelo de lã a ser desfiado” com outros textos: A morte em Veneza,[3] do escritor alemão nascido em Lübeck e Prêmio Nobel de Literatura (1929) Thomas Mann (1875-1955), e “Poesia e pensamento abstracto”[4] do filósofo, escritor e poeta francês nascido em Sète Paul Valéry (1871-1945).

Mudemos a ordem. Comecemos com “Poesia e pensamento abstracto”, de Paul Valéry.

Nesse ensaio de quarenta páginas, Valéry analisa o risco que o Poeta corre ao refletir sobre o pensamento abstrato ou mesmo sobre o próprio fazer poético.

“Alguns chegam até a pensar que mesmo a meditação sobre a sua arte, o rigor do raciocínio aplicado à cultura das rosas, não podem senão perder um poeta, já que o principal e mais sedutor objecto do seu desejo deve ser o de comunicar a impressão de um estado nascente (e afortunadamente nascente) de emoção criadora, que, em virtude da surpresa e do prazer, possa indefinidamente subtrair o poema a toda a reflexão crítica ulterior.”[5]

Paul Valéry contrapõe a essa opinião “de origem escolar” o caminho do pensamento próprio, sustenta “que é necessário vigiar os primeiros contactos de um problema com o nosso espírito”.[6] Ou, em outras palavras: é preciso que o(a) Poeta/Artista construa com suas próprias mãos, desfie com suas próprias mãos o “novelo de lã” que de nós mesmos emana.

É a minha própria vida que se espanta, e é ela que deve, se puder, fornecer-me as minhas respostas, porque apenas nas reacções da nossa vida pode residir toda a força e como que a necessidade da nossa verdade.”[7]

O poeta e filósfo francês descobre em si – e somente em si – o melhor analista do que constrói com as próprias mãos, e a relação entre a sua obra e o mundo que o cerca. Ele é a favor da experiência “vivida na pele”, sentida na pele para dela extrair “fagulhas” de (auto)conhecimento, (auto)conhecimento que não pode ser arrancado por nada, por ninguém, por circunstância externa alguma.

O lógico não poderia ser um lógico se não pudesse ser mais do que um lógico, afirma “em outras palavras” Valéry. O(A) Poeta carrega em si várias possibilidades que irão se concretizando (ou não) ao longo da sua trajetória artística. O que interessa para nós – o que interessa para mim – é o transitar por essa linha tênue entre a Poesia e o Pensamento Abstrato (ou podemos chamar Teoria), entre a Poesia e a Prosa ficcional.

O poeta francês narra uma caminhada que fez “para se descontrair”. Ele conta de uma Epifania em forma de ritmo que, se músico fosse, a transformaria em partitura no exato instante em que a sentiu. Essa relação entre as artes, essa Intersemiose mal-sucedida, mas que seria possível uma “concretização” caso Valéry possuísse a técnica de um profissional da Música ou fosse alguém portador da “tendência”[8] musical.

É quando estamos prontos para enveredarmos por Thomas Mann e A morte em Veneza.

Descobrimos que trata-se de uma novela (publicada em 1911), novela que, diferente do romance, é reconhecida pelo tamanho (mais curto) e pelo final “estrondoso” que a nós se apresenta. Mas o que nos interessa no atual instante do presente estudo é saber (ou ao menos tentar saber) qual a relação entre a “Poesia” e pensamento abstrato  (de Valéry) e a “Prosa” ficcional (de Thomas Mann).

O consagrado escritor Gustav Aschenbach “(ou von Aschenbach)” passeia tranquilamente “para se descontrair” depois de uma árdua manhã de trabalho. Ele percorre as ruas de Munique e – como todo bom escritor que se preze – observa os personagens que circulam ao seu redor. Ele aguarda o bonde diante do Cemitério Norte e suas lápides auspiciosas. De repente, um “homem cuja aparência invulgar”, um homem do “tipo ruivo”, passa diante de si e muda completamente o seu destino. O homem ruivo aparenta ser um estrangeiro, e ao estrangeiro lança o pensamento de Aschenbach e terminamos por desembarcar em Veneza, a cidade da suA morte anunciada já no título da novela de Mann.

“Era o desejo de viajar, nada mais, mas que o acossava com a força de um acesso, intensificando-se às raias de uma paixão e mesmo de uma alucinação. E sua ânsia tornava-o vidente. A imaginação, ainda não sossegada depois de tantas horas de labuta, criava para seu uso exemplos de todos os prodígios e terrores da Terra multiforme, no afã de visualizá-los em sua totalidade.”[9]

Esse “desejo de viajar” de Aschenbach provocado por uma caminhada, desencadeado pelo encontro com o “homem ruivo”, beira o “estado poético-epifânico” da caminhada de Valéry. Desse “pôr-se em movimento” nasce a Epifania em Valéry, brota o anseio por novas paragens no personagem de Mann. Porém, Valéry alerta o pintor Degas que “pensa” escrever versos quando “lê” discursos interiores ou imagens que “poderiam ter sido expressas em palavras.”[10]

“Há portanto outra coisa, uma modificação, uma transformação, brusca ou não, espontânea ou não, laboriosa ou não, que se interpõe necessariamente entre esse pensamento produtor de ideias, essa actividade e essa multiplicidade de questões e de resoluções interiores; além disso, esses discursos tão diferentes dos discursos habituais como são os versos, bizarramente ordenados, que não respondem a necessidade alguma, a não ser à necessidade que eles próprios devem criar; que não falam senão de coisas ausentes ou profunda e secretamente pressentidas, são estranhos discursos, que parecem feitos por outro personagem que não aquele que os diz, e destinar-se a outro que não o que os escuta. Em suma, trata-se de uma linguagem numa linguagem.”[11]

“A poesia é uma arte da linguagem. A linguagem é, todavia, uma criação da prática”.[12] Valéry ensina na Poesia aquilo que o poeta, dramaturgo, romancista, ensaísta, professor da UFPE paraibano radicado no Recife Ariano Suassuna (1927-2014) ensina na Teoria em Introdução à Estética:[13] que é preciso a Forma (ou o Talento, a Tendência), o Ofício (ou o Trabalho contínuo) e a Técnica (ou o Estudo diário) para um Artista dar o salto, para transmutar-se de simples artesão naquele que recebe a “ave de rapina da inspiração criadora” e a põe em prática na construção de uma obra de arte.

O poeta e filósofo francês afirma que a linguagem pode produzir dois tipos de efeitos totalmente distintos. Um é aquele que ao se compreender “as minhas palavras” elas são, enquanto compreendidas, “abolidas”, e com isso desaparecem. Passam para o sentido de cada um que me ouve, e desaparecem.

Compreender consiste na substituição mais ou menos rápida de um sistema de sonoridades, durações e signos por uma outra coisa, que é em suma uma modificação ou uma reorganização interior da pessoa a quem se fala. E eis a contraprova desta proposição: a pessoa que não compreende repete, ou faz-se repetir as palavras.”[14]

O contraponto de Valéry a essa linguagem que se transforma em não-linguagem e “desaparece” encontrar-se-ia no “universo poético”. Na Poesia, “ficamos insensivelmente transformados”, vivemos, respiramos, pensamos “sob leis que já não são as da ordem prática”.[15] Com isso retornamos ao nosso personagem Gustav (von) Aschenbach.

Antes de desembarcar em Veneza, Gustav experimenta pela segunda vez a prefiguração do que iria acontecer em sua vida. Ele, escritor renomado, consagrado por sua disciplina e rigor, ao ver o “homem ruivo” diante do Cemitério Norte, age “sob leis que já não são as da ordem prática”. Deseja viajar para lugares exóticos. Ao escolher Veneza, encontra-se novamente diante daquilo qua mais teme, e ao mesmo tempo fascina. E no que irá se transformar ao final da novela.

“Mas apenas Aschenbach o olhara melhor, percebeu com uma espécie de horror que era um falso jovem. Tratava-se de um velho, sem dúvida alguma! Rugas lhe circundavam os olhos e a boca. O suave carmesim das faces era maquiagem; a cabeleira castanha sob o panamá de fita multicor, uma peruca; o pescoço, flácido, macilento. O bigodinho como que colado e a mosca no queixo estavam pintados. A dentadura amarelada, completa, que ele exibia quando dava risadas, não passava de uma prótese barata, e as mãos, com anéis-sinetes em ambos os indicadores, traíam o ancião.”[16]

Podemos encontrar essa “prefiguração” de Aschenbach do que iria se “preencher” no seu futuro no conceito de Figura[17] que o filólogo alemão nascido em Berlim Erich Auerbach (1892-1957) utiliza na análise, a seu ver, dos principais textos da literatura ocidental em Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental.[18]

“O trabalho interpretativo mais impressionante desta espécie ocorreu nos primeiros séculos do Cristianismo, como consequência da missão entre pagãos, e foi realizado por Paulo e pelos Pais da Igreja; eles re-interpretaram toda a tradição judaica numa série de figuras a prognosticar a aparição de Cristo, e indicaram ao Império Romano o seu lugar dentro do plano divino da salvação. Portanto, enquanto, por um lado, a realidade do Velho Testamento aparece como verdade plena, com pretensões à hegemonia, estas mesmas pretensões obrigam-na a uma constante modificação interpretativa do seu próprio conteúdo; este sofre durante milênios um desenvolvimento constante e ativo com a vida do homem na Europa.”[19]

Com o intuito de angariar mais fieis, os primeiros padres, ou Pais da Igreja Cristã tentaram ligar figuras do Antigo Testamento (Moisés, Davi, Elias, Josué…) com a figura do Cristo no Novo Testamento, Cristo que é a realização máxima da promessa. Auerbach em Mimesis exerce esse indiciamento entre os textos, de Homero a Virgínia Woolf, um texto prefigurando o outro, até a “realização máxima” com a chegada do romance moderno.

Gustav (von) Aschenbach/Thomas Mann executa em A morte em Veneza o que, de maneira semelhante, Paul Valéry nos convida a refletir: sobre a “prefiguração” com futuro “preenchimento” na “criança que fomos” e que “trazia em si várias possibilidades”.

“Tendo aprendido a servir-se das suas pernas, a criança descobrirá que pode não apenas andar como também correr e até dançar. Trata-se de um grande acontecimento. Num só lance, ela inventou e descobriu uma espécie de utilidade de segunda ordem para os seus membros, uma generalização da sua fórmula de movimento. Com efeito, enquanto a marcha é, em suma, uma actividade deveras monótona e pouco susceptível de aperfeiçoamento, essa nova forma de acção, a Dança, permite uma infinidade de criações, de variações ou de figuras.”[20]

Estamos em uma encruzilhada – mas que intuo irá nos levar a um ponto em comum. Por um lado, podemos tratar da comparação que Paul Valéry faz entre a Marcha e a Dança, a Prosa e a Poesia. Por outro lado, podemos tratar da “inutilidade da arte” trazida à tona por Thomas Mann em A morte em Veneza quando retoma o diálogo entre Fedro e Sócrates lá atrás nos tempos gregos.

Comecemos (novamente) com Valéry.

A Marcha visa um objetivo. A Dança não. A primeira é finita e se encerra ao atingirmos o objeto de nosso desejo. A Dança é “um sistema de actos, mas que têm em si próprios a sua finalidade”.[21] Não vai para lugar nenhum. Conserva “um certo estado”, mesmo que não saia do lugar.

A Marcha está para a Prosa, assim como a Dança está para a Poesia, confirma Valéry. Apesar de servirem-se “das mesmas palavras”, “sintaxe”, “formas”, “sons ou timbres”, os dois tipos de representação escrita se distinguem pelo que afeta em nosso “organismo psíquico e nervoso”, poderíamos assim dizer. “Quando o homem que anda atinge o seu fim”, “essa posse logo anula definitivamente o seu acto; o efeito devora a causa, o fim absorveu o meio”,[22] continua o filósofo e poeta francês. Mas será que a Marcha, a Prosa não seria mais parecida com a Dança, o Poema que Valéry tanto distancia e que “não morre de ter vivido”?[23]

Quem sabe Aschenbach/Mann nos ajude…

Gustav discorre sobre Sócrates e Fedro. A reflexão é provocada (e justificada) pela paixão dórica que sente pelo jovem Tadzio – os dóricos ficaram conhecidos como aqueles senhores mais velhos que na Grécia antiga mantinham feito amantes e instruíam ao mesmo tempo os seus pupilos. Leiamos o trecho de Aschenbach.

“E por entre cumprimentos e galanteios humorísticos, Sócrates instruía a Fedro sobre o anseio e a virtude. Falava-lhe da emoção ardente que acomete um indivíduo sensível sempre que seus olhos avistam um síbolo da beleza eterna; falava-lhe dos desejos de pessoas profanas, maldosas, incapazes de pensar em beleza, em face da sua imagem, e que não sabem reverenciá-la; falava-lhe do pavor sagrado, a dominar os nobres, logo que se lhes apresente um semblante divino ou um corpo perfeito; descrevia como então estremecem, perdem o juízo, mal se atrevem a lançar um único olhar e como veneram a quem possui a beleza. Até mesmo lhe ofereceriam sacrifícios, como a um ídolo, se não receassem que os outros os considerassem malucos. Pois a beleza, meu caro Fedro, só ela é ao mesmo tempo adorável e visível.”[24]

Aschenbach não estaria falando o mesmo que Valéry? Sobre a “inutilidade da arte”? Sobre “a beleza é o caminho que conduz o homem sensível ao espírito”?[25] De que entre “a Voz e o Pensamento, entre o Pensamento e a Voz, entre a Presença e a Ausência, oscila o pêndulo poético”?[26] E que para nós, não apenas “o pêndulo poético”, mas também o “pêndulo ficcional”, porque a “felicidade do escritor reside no pensamento que possa ser convertido inteiramente em sentimento e no sentir capaz de se tornar inteiramente pensar”?[27]

A Poesia não nos ensina nada – afirma Valéry. Mas a Prosa ficcional também – afirmamos nós. E ousamos dizer que o fazer Teórico também. No momento em que “soldamos” um verso de poema, no instante em que construímos um parágrafo da mais pura ficção, ou quando extraímos do nosso fazer poético, do nosso forjar ficcional, a mais brilhante centelha de Teoria. Porque “todo o verdadeiro poeta é necessariamente um crítico de primeira categoria”.[28] E dessa (auto)crítica nasce o (auto)conhecimento que a verdadeira Arte nos fornece de maneira gratuita.

“Eu disse no entanto que o poeta tem o seu pensamento abstracto e, se se quiser, a sua filosofia; e disse também que esta se exercia no próprio agir de poeta. Disse-o porque o observei em mim e em alguns outros. Não tenho outra referência, outra pretensão ou outra desculpa aqui e em qualquer outra parte, para além do recurso à minha própria experiência ou à observação mais comum.”[29]

A forma às vezes nos chega sem que saibamos com que conteúdo preencher. A “prefiguração” de Auerbach, de Auschenbach (interessante a semelhança dos nomes!) também se parece com essa forma vazia, essa “carcaça” do poema que o poeta romântico John Keats (1795-1821) em carta a Richard Woodhouse em 1818 atribui a todo “verdadeiro” poeta, e que nos apropriamos, e abrangemos, e atribuímos a todo(a) aquele(a) que se esvazia para a futura Poesia, Ficção, Teoria preencher.

“Quanto à personalidade poética em si (quero dizer essa espécie à qual pertenço, se sou alguma coisa; essa espécie diversa do sublime wordworthiano ou egotístico…), ela não é ela própria – ela não tem eu – é tudo e é nada – não tem personalidade – aprecia a luz e a sombra – vive no prazer, seja ela má ou boa, alta ou baixa, rica ou pobre, vil ou nobre – tem deleite igual ao conceber um Iago ou uma Imogênia. O que choca o filósofo virtuoso deleita o poeta camaleão. […] O poeta é o mais impoético de tudo o que existe, porque não tem identidade, continuamente adentra e enche outro corpo. O sol, a lua, o mar e os homens e mulheres, que são criaturas de impulso, são poéticos e têm um atributo imutável; o poeta não tem nenhum, nenhuma identidade. É certamente a mais impoética de todas as criaturas de Deus.”[30]

 

Ontem, sábado, 19/03/2016. 18h40. Estava no Theatro São Pedro para assistir a uma peça originalmente dirigida por Marília Pêra.[31] No café do teatro, as palavras se juntaram e tentaram resumir os sentimentos que por mim perpassavam, as angústias da “linguagem numa linguagem” que em mim atravessavam.

Que o sonho

Não se transforme

Em velho

Vai e vem

Do dia a dia

Que a hora

Em mim

Apague

Qualquer impressão

De angústia

Qualquer invasão

De penúria

Aposto

Num texto bom

Que há

De vir

Entre uma linha

E outra

Entre uma palavra

E o som

Da minha própria

Voz

Até

Imaginar-me

Nua

Diante da

Platéia escura

Dos meus

Ais

(“No Theatro São Pedro”)

Hoje, domingo, 20/03/2016. 18h01. Procuro retirar dessas quase dez páginas aquilo que Paul Valéry encerra o seu ensaio sobre Poesia e pensamento abstrato: “uma ideia de algum eu maravilhosamente superior a Mim”.[32] Aquilo que o personagem Gustav (von) Aschenbach aponta no final da sua vida, no final da novela de Thomas Mann.

“A cabeça de Aschenbach, recostada no espaldar da cadeira, acompanhara lentamente os movimentos do que já andava longe. Nesse instante, porém, ergueu-se, como para ir ao encontro desse olhar, e logo depois abaixou-se sobre o peito, de modo que os olhos espiavam sob as pálpebras, enquanto a fisionomia apresentava a expressão lassa, ensimesmada, de sono profundo. Parecia-lhe, no entanto, que o pálido e gracioso psicagogo lá fora sorria para ele, que lhe acenava e, desprendendo a mão do quadril, apontava para regiões distantes. Parecia-lhe que ele flutuava à sua frente, rumo ao vazio imenso, cheio de promessas. E como tantas e tantas vezes fizera, pôs-se a segui-lo.”[33]

 

Para não dizer que não falei de política.

Post Scriptum:

1) O filósofo, sociólogo, musicólogo, compositor alemão nascido em Frankfurt Theodor Adorno (1903-1969) em “Palestra sobre lírica e sociedade” afirma:

“Pois a própria linguagem é algo duplo. Através de suas configurações, a linguagem se molda inteiramente aos impulsos subjetivos; um pouco mais, e se poderia chegar a pensar que somente ela os faz amadurecer. Mas ela continua sendo, por outro lado, o meio dos conceitos, algo que estabelece uma inelutável referência ao universal e à sociedade. As mais altas composições líricas são, por isso, aquelas nas quais o sujeito, sem qualquer resíduo da mera matéria, soa na linguagem, até que a própria linguagem ganha voz.”[34]

2) Na Introdução de Baudelaire ao Surrealismo, o crítico literário suíço nascido em Genebra e especializado em literatura francesa Marcel Raymond (1897-1981) afirma que a tarefa do poeta é “perceber analogias, correspondências” e produzir associações entre diferentes áreas:

“Associações deste tipo podem produzir-se espontaneamente entre sensações que não pertencem ao mesmo registro e isso se dá provavelmente graças a uma comunidade, existente entre elas, de tonalidade afetiva cuja lógica, na maioria dos casos, é incapaz de explicar. Vasto campo aberto ao poeta, que não mais se julgará obrigado a identificar uma forma a uma forma e um som a um outro, mas que acolherá ousadamente metáforas cujos termos evocarão sensações de ordem diferente.”[35]

3) E a crítica à fotografia no “Salão de 1859” do teórico de arte e poeta francês nascido em Paris Charles(-Pierre) Baudelaire (1821-1867) – e leiamos aqui no lugar da fotografia, a política.

“A poesia e o progresso são dois ambiciosos que se detestam com um ódio institivo e, quando se cruzam no mesmo caminho, é preciso que um se submeta ao outro. Se se permitir que a fotografia substitua a arte em alguma de suas funções, em breve ela a suplantará – ou a corromperá – completamente, graças à aliança natural que encontrará na estupidez da multidão. É necessário, portanto, que ela se limite ao seu verdadeiro dever, que é a de ser a serva das ciências e das artes, mas a humilíma serva, como a imprensa e a estenografia, que não criaram nem suplantaram a literatura.”[36]

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* Para baixar o arquivo em PDF: De Thomas Mann a Paul Valéry – Um olhar [pernambucano-gaúcho] entre a Prosa e a Poesia – Patricia (Gonçalves) Tenório

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(1) Patricia (Gonçalves) Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem oito livros publicados (O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007),  A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (2013)) e dois no prelo (Vinte e um / Veintiuno (a ser lançado em 11 (Lisboa) e 13 (Madri) de abril de 2016) e A menina do olho verde (a ser lançado (Livraria Cultura RioMar Recife) em 28 de maio de 2016)).  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo, o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(2) Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6502. Escrito em 12/03//2016. Última atualização: 26 de março de 2016.

(3) MANN, Thomas. A morte em Veneza in A morte em Veneza; Tonio Kröger. Tradução: Herbert Caro, Mário Luiz Frungillo. Ensaios: Anatol Rosenfeld. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

(4) VALÉRY, Paul. Poesia e pensamento abstracto. In Discurso sobre a estética – Poesia e pensamento abstracto. Prefácio: Pedro Schachtt Pereira. Portugal: Vega, 1995 – Coleção Passagens.

(5) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 53-54.

(6) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 55.

(7) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 59, itálico da edição.

(8) Em “Notas sobre o Talento na Criação Literária” trato dessa mesma “tendência” que Paul Valéry afirma não possuir e que o possibilitaria transformar em Arte a Epifania que em si experimenta. Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6279. Escrito em 14/06/2013. Última atualização: 25 de outubro de 2015.

(9) MANN, Thomas. Op. cit., p. 13.

(10) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 67, itálico da edição.

(11) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 67-68, itálico da edição.

(12) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 68.

(13) SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002, pp. 235-240.

(14) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 69, itálico da edição.

(15) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 70.

(16) MANN, Thomas. Op. cit., p. 26.

(17) AUERBACH, Erich. Figura. Tradução: Duda Machado. Revisão da tradução: José Marcos Macedo e Samuel Titan Jr. São Paulo: Ática, (1938 in) 1997.

(18) AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Vários tradutores. São Paulo: Perspectiva, (1946 in) 2011.

(19) AUERBACH, Erich. Op. cit., (1946 in) 2011, p. 13.

(20) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 75.

(21) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 77.

(22) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 78.

(23) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 79.

(24) MANN, Thomas. Op. cit., p. 54.

(25) MANN, Thomas. Op. cit., p. 54-55.

(26) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 81.

(27) MANN, Thomas. Op. cit., p. 55.

(28) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 85.

(29) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 87.

(30) KEATS, John. Ode sobre a melancolia e outros poemas. Organização e tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Hedra, 2010, p. 35-36.

(31) Depois do Amor. Elenco: Danielle Winits e Maria Eduarda de Carvalho. Autor: Fernando Duarte. Direção: Marília Pêra. Diretor Assistente: Fernando Philbert. Direção de Produção: Cássia Vilasbôas e Fernando Duarte. Realização: Nove Produções.

(32) VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 91, itálico da edição.

(33) MANN, Thomas. Op. cit., p. 83.

(34) ADORNO, Theodor W.. Palestra sobre lírica e sociedade. In Notas de literatura I. Tradução e apresentação: Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, (1974 in) 2012, p. 74.

(35) RAYMOND, Marcel. Introdução. In De Baudelaire ao Surrealismo. Tradução: Fúlvia M. L. Moretto e Guacira Marcondes Machado. São Paulo: Edusp, (1933 in) 1997, p. 21.

(35) BAUDELAIRE, Charles. O Público Moderno e a Fotografia – Salão de 1859. In Poesia e Prosa. Edição organizada por Ivo Barreto. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, (1859 in) 2002, p. 802.

Editora Mundi Book & Patricia (Gonçalves) Tenório convidam | lançamento do livro “Vinte e um”

Mundi Book Ediciones & Patricia (Gonçalves) Tenório invitan | presentación del libro “Veintiuno

cartel patricia

Lisboa: (11/04/2016)

Biblioteca Municipal dos Coruchéus

R. Alberto de Oliveira

+351 21 817 2049

17h00

 

cartel patricia2

Madrid: (13/04/2016)

Universidade Complutense de Madrid

Av. Séneca, 2 – 28040

+34 914 520 400

17h00

 

O universo de sub-universos relatados de Patricia Tenório

Diego Vadillo Lopez

 

Trazem todas os relatos de Patricia Tenório contidos neste volume o mesmo DNA. Todos compartilham os traços fisionômicos assim como o insinuante – e desconcertante – contorno em espiral que conduz ao desenlace surpreendente.

O especular, o cotidiano-inédito… lutam em uma disputa – que não é tal – redundante na fresca e suave brisa – entre lírica e onírica – que inunda o âmbito em que se desdobram as breves peças em prosa com que nos aprovem deleitar Patricia Tenório.

Não saberia dizer com exatidão se nestes relatos se faz cotidiano o inédito, ou, ao contrário, se empurra o cotidiano até a borda do precipício do mais sugestivo e imprevisível deslocamento lírico.

Partindo de abordagens somente de maneira acidental relacionadas com a mais diametral ilusão da realidade, nossa “contista” faz ilusionismo com a tal ilusão; manda recados envoltos em narrativa ambrosia.

Cada relato é um flanco existencial contemplado transcendentalmente por Tenório, restando-lhe, a tempo, gravidade à tal transcendência mediante o refinamento e, às vezes, ocasional uso da ironia.

Lançados como sugestões não isentas de fundo substancial, os relatos que o leitor vai encontrar neste livro pertencem a um universo – esse, particular da autora que os concebeu –, um universo preso no universo-livro que os situa ao alcance da mão do predisposto a incursionar.

A própria vida é fornecedora prodigiosa das mais peculiares situações, mostrando-se-nos estas de maneira mais ou menos perceptível. Mas precisamente quando são resgatadas, dentre a folhagem vivencial menos exposta, com espírito recreativo, então podemos dizer, em referência a quem o faz, que estamos ante uma artista – uma criadora –, artista por saber como entretecer arte usando os vimes selecionados dentre os que o espaço da realidade lhe ofereceu. E isso é precisamente o que faz nossa escritora, a de sobrenome donjuanesco.

 

El universo de relatados sub-universos de Patricia Tenório

Diego Vadillo López

 

Portan todos los relatos de Patricia Tenório contenidos en este volumen el mismo ADN. Todos comparten rasgos fisonómicos así como el insinuante —y desconcertante— contoneo en espiral conducente al sorpresivo desenlace.

Lo especular, lo cotidiano-inaudito… forcejean en una disputa —que no es tal— redundante en la fresca y suave brisa —entre lírica y onírica— que anega el ámbito en que se despliegan las breves piezas en prosa con que tiene a bien deleitarnos Patricia Tenório.

No sabría decir con exactitud si en estos relatos se hace cotidiano lo inaudito o, al contrario, se empuja a lo cotidiano hacia el borde del precipicio de la más sugestiva e imprevisible dislocación lírica.

Partiendo de planteamientos solo accidentalmente emparentados con la más diametral ilusión de realidad, nuestra “cuentista” hace ilusionismo con dicha ilusión; manda recados envueltos en narrativa ambrosía.

Cada relato es un flanco existencial contemplado trascendentemente por Tenório, restándole, al tiempo, gravedad a dicha trascendencia mediante el afinado y, a veces, desenfadado uso de la ironía.

Lanzados como sugerencias no exentas de enjundioso trasfondo, los relatos que el lector encontrará en este libro pertenecen a un universo —ese, particular, de la autora que los concibió—, un universo atrapado en el universo-libro que los sitúa al alcance de la mano del predispuesto a incursionar.

La vida misma es prodigiosa oferente de las más peculiares situaciones, mostrándosenos estas de manera más o menos perceptible. Pero precisamente cuando son rescatadas, de entre el follaje vivencial menos expuesto, con espíritu recreativo, entonces podemos decir en referencia a quien lo hace que estamos ante un artista —un creador—, artista por saber cómo entretejer arte usando los mimbres seleccionados de entre los que el espacio de realidad le ofreció. Y eso es precisamente lo que hace nuestra escritora, la de donjuanesco apellido.

 

 

 

Poems from Alan Britt*

Violin Smoke. Alan Britt. Translated by Sohár Pál. Irodalmi Jelen Könyvek, 2015.

 

Magic

 

Our words shed misery

like shotgun cartridges

red as December holly berries

littering the book prints

of childhood misadventures.

 

And happy words exist

for those who can afford them.

 

So, words, now, are hostages,

if I hear you correctly,

for this impossible life

to which we all aspire?

 

I say

strip the words down again,

like Lorca;

the greatest of all the warrior troubadours,

who died for us

puny civilians.

 

Destiny

 

Each poem has its destiny.

 

So, why interfere?

 

Intellectual leaps are obtained

through blind Faith, anyway.

 

Or, we could continue slinging

fresh feces from behind the bars

of our miserable cages.

 

 

Lost Among the Hours. Alan Britt. New York City, USA: Rain Mountain Press, 2014.

 

One more time

 

I gave myself to the universe.

 

What more can I give?

 

I’m down to one eye

and one lung.

 

If ashes from souls dumped into urns

are designed to nourish us,

why then do we still carry

nuclear clubs into heaven

and complain

about guardian angels

behaving like rented Geishas

in upscale Manhattan hotels?

 

Time to prison-break,

don’t you think –

that is,

if time were

a lusty hourglass

with Pablo’s

Isla Negra sand

feathering its crystal waist?

 

 

Alianza. 5 U. S. Poets in Ecuador. Alan Britt et al. Rio Rico, Arizona, USA: CypressBooks, 2015.

 

Neruda Sings Whitman

 

It was like the invisible salt of waves,

you said, when you were just about

an internal combustion me –

all heart, no dark energy.

 

You said pinch the head off Ozymandias,

so poor folks could get their fill,

& fill they did, for a moment, until

United Fruit snatched it away, again.

 

You named the names required of thruth.

 

Alternative?

 

If now I believe in dark energy,

& there seems to be good evidence

for it, then surely I believe in you,

Pablo, son of Walt, incomparable

poet of love & mischief.

 

 

Neruda Canta a Whitman

 

Era como la sal invisible de las olas,

decías, cuando no eras sino

un yo de combustión interna –

todo corazón, nada de energía oscura.

 

Dijiste arrancad la cabeza de Osymandias,

que la pobre gente pudiera saciarse,

y saciáronse, por un instante, hasta que

Fruta Unida se lo arrebató, una vez más.

 

Nombraste los nombres que requerían la verdad.

 

¿Alternativa?

 

Si ahora creo en la energía oscura,

& parece haber buena evidencia

de ello, entonces creo en ti con certeza,

Pablo, hijo de Walt, poeta

incomparable del amor y la picardía.

 

(Translated by Ricardo Pérez-Salamero García)

 

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* Contact: http://alanbritt.wordpress.com/

“Agenda ambiciosa” | Mara Narciso*

19 de março de 2016

O meu discreto amigo, com menos de 50 anos, é um homem apaixonado não correspondido. Fechado, digno, não se mostra, assim, muitos não veem nada nele, exceto a sua exuberante dor, que flameja em seu rosto por todos os momentos do seu dia. Não se casou, não tem filho, não tem vida social. É um poeta trabalhador recluso. A sua amada, adorada, venerada musa é por ele cultuada como uma santa no altar. Não por ser santa, no sentido habitual da palavra, mas por ser inacessível, ter dono, estar noutra esfera e, aparentemente não ter interesse em dedicar-lhe nem alguns míseros minutos por dia. A prioridade dela são todas as outras coisas para depois, nalgum minuto parado do mês, vir mexer com meu sofrido amigo. Ela tem outro, aquele outro que deveria preencher-lhe as necessidades, mas tal parece não acontecer. Seu tempero existencial inclui municiar o amor desesperançado deste sofrido amigo. Este molho acaba dando motivação ao estranho casal: ele, louco de amor e ela interessada em manter o fã, o regra três, não deixando desaparecer o último sopro desse amor lacrimejante, que não se apaga porque ela não deixa, embora não o queira.

O casal em questão é gente simples. Ele reclama de si mesmo pelas ações e verbos não conjugados vida afora. Diz-se frustrado, omisso e pouco realizado, mesmo no trabalho. Refere não ter coragem e nem força para dar um ponto final a esse sentimento, porém tem energia e décadas para viver. Avisa que já fez a sua escolha: ou ela ou nenhuma outra. Nada ou ninguém o demoverá desse amor suicida do qual de vez em quando recebe um telefonema que, de tão esperado é atendido na aflição, com o coração a ribombar, quase a explodir. O toque do celular e o espiar do número dela o faz dar um salto. O tempo de silêncio mais prolongado, estratégia usada por ela, é castigo para torturar, manipular, bater até fazê-lo implorar. Há quem não queira escravo, mas há quem o aprecie ou até queira sê-lo. Então, medidos em conta-gotas, esses sons de escassas palavras, frias, sem promessas, são esmolas que aparecem de vez em quando, não para nutrir, menos ainda para salvar, apenas para evitar o desfecho letal.

Observar tal escolha, ver alguém optar por essa maneira de amar exige esforços que a racionalidade duvida. Alguns sofredores por vocação preferem esperar por uma coisa que nem nome tem do que não ter nada para esperar. Alguém atrevido, querendo interromper tal castigo, mesmo odiado pela audácia se vê impelido a falar: restos não são presentes e migalhas não são banquetes. Para com isso! Diante de tamanha coragem, vem artilharia pesada, mas já esperada.

O mercado feminino busca por homem trabalhador, bonito, inteligente, educado, sensível e apaixonado. Mas ele precisa valorizar-se, ainda que seja ajudado pela medicina e seus antidepressivos. Resgatar um bom amigo pode ser um desafio pretensioso, uma agenda ambiciosa por uma causa justa, que é impedir um coração nobre de se fulminar inutilmente. Caso não tenha forças para virar a mesa, suba sobre ela. De lá poderá ver qual é o seu verdadeiro tamanho e qual lugar do mundo poderá ocupar. O desencontro não precisa ser eterno.

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* Contato: yanmar@terra.com.br

 

“Doutor João Moção” | Clauder Arcanjo*

Num dia azul de um céu profundamente azul e limpo, um homem andava a passos lentos pelas ruas desertas da cidade. De meia idade, portando óculos de tartaruga, chapéu de massa, paletó de linho, cabelos ralos e em desalinho.

Ele, ao tempo em que flanava, estranhava toda aquela pasmaceira; mas o desfile de nuvens brancas, naquele céu tão lindo, fazia com que ele não caísse no fosso escuro das profundas indagações. Que isto de se indagar é coisa por demais perigosa. Seu nome: João Moção.

Quando pequeno, Joãozinho. Nas dobras da infância, brincava e divertia-se como poucos. Joãozinho pra cá, Joãozinho pra lá. Numa folgança só. Ninguém nunca cuidara de seu sobrenome. Até que, certa tarde, surgiu na cidade um homenzarrão metido a amigo do vernáculo.

— Sua designação patronímica completa, inquieto pirralho?

— …

Estas reticências, caro leitor, saíram do cocuruto do menino Joãozinho, seguidas por um arregalo de olhos de quem se espantou na corda do pânico.

— Perdeste a língua, fedelho?

Como criança, quando suspeita do perigo, não leva desaforo para casa, Joãozinho devolveu-lhe:

— Fedelho?! Quem fede aqui é a sua mãe!

Escapou da sua boca, e logo se arrependeu; o homem era alto e forte, e andava de braços com uma pilha de livros. Serviria para arma de rebolo; mal pensou Joãozinho, o senhor lhe respondeu:

— Sei que és inimigo contumaz da sintaxe, da morfologia… enfim, de todos os nobres regramentos da Última Flor do Lácio; a quem, com certeza, tu vilipendias, tal como a horda de analfabetos deste desmundo.

— Ô seu Zé! Diacho de tanta coisa esquisita que sai da sua boca! Vixe Maria, parece mais um cabra das estranjas!

Professor Gaudêncio Campos gostou daquele pimpolho. Não sabia se era a força que ele carregava no olhar, ou a coragem de enfrentar aquilo que não entendia; enquanto muitos simplesmente calavam-se e baixavam a cabeça ao seu discurso letrado.

— Estudas?

— Não. Não tive chance. Nem meu pai tem condição para o meu sustento na escola. A enxada tem sido meu lápis desde cedo, seu dotô.

— Pois comparece ao Patronato amanhã, quero dar-te uma chance de conhecer o maravilhoso mundo do conhecimento. O teu nome?

— Joãozinho, senhor.

— Não gosto de apelidos, nem de diminutivos idiossincráticos. O teu nome completo?

— Sabe que eu num sei.

— Mesmo assim, aparece. A aula iniciar-se-á às 7 da manhã. Em ponto.

E despediram-se. Sem abraços, sem recomendações, sem nada mais.

Joãozinho correu para casa. De início, não disse nada aos seus pais. Depois do caldo de milho, antes de apagarem a lamparina para cobrir a casa com o escuro da noite, ele achegou-se à mãe, revelando-lhe o convite que recebera. “Reze, durma… de manhã, a gente vê!”

No outro dia, Bastião, o pai, saiu bem cedo para o roçado; e Maria, mãe de Joãozinho, o liberou para a escola.

O garoto levava na mão o seu batistério. Único documento que, segundo Coronel Florisvaldo Alcântara, trazia o nome completo do afilhado.

O pequeno aprendeu rápido e ligeiro. Logo se destacou como o mais atinado e atilado, inteligente de dar gosto ao velho professor Gaudêncio.

Foi pulando de ano, avançando no campo da sabedoria escolar. Até que Licânia se fez pequena para ele. Como o professor Gaudêncio Torquato queria-o doutor, cuidou de conseguir-lhe uma vaga no internato da Capital.

— Nunca te esqueças da simbologia do teu patronímico: João Moção. João, em homenagem ao santo poeta evangelista. Moção, que fique bem claro, pois serás sempre um grande moço ao se fazer amigo do saber.

 

***

 

Tudo aquilo, numa corrente de lembranças, corria frente aos seus olhos míopes, enquanto João Moção caminhava na província vazia. Melhor, Doutor João Moção. O céu azul, com nuvens cândidas, como única testemunha. Fizera-se catedrático, notável advogado em terras distantes e estranhas; porém, hoje, ele resolvera voltar.

Trinta anos se passaram. Pai e mãe, mortos. Os irmãos, esquecidos. Ele, a flanar, cabisbaixo e dilacerado, a estranhar tamanho vazio… O desfilar de nuvens alvas naquele firmamento tão lindo, como um desagravo, fazia-o vencido; jogando-o no fosso escuro, consagrado às profundas indagações. “Nome?” “Reze, durma… de manhã, a gente vê!”

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