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Índex* – Outubro, 2015

 

– Deus habita todas as minhas células – disse Clara a uma amiga.

Ele fez soar o tom mais límpido do oceano na concha do meu ouvido.

Ontem o texto veio por inteiro à minha mente, veio cheirando a jasmim.

Então, as árvores eram mais verdes, as nuvens embranquecendo,

o céu transparente de um azul assim do jeito de uma palavra que se fez carne e habitou entre nós.

E eu vi que era bom.

(“Quando Clara encontrou Júlia”, Patricia Tenório, 23/09/15, 07h45)

Quando há Epifania no Índex de Outubro, 2015 do blog de Patricia Tenório.

“Notas sobre o Talento na Criação Literária” | Patricia Tenório (Recife, PE – Brasil).

“Há mal em legislar em causa própria?” | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

“Castíssimo” | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

Circuito Poético de Xique-Xique – Versão Recife, PE | Hudson Silva (Teresina, PI – Brasil), Thais Rabelo (BA – Brasil), Vinícius Gomes (Recife, PE – Brasil), Antonio Ailton (MA – Brasil), Patricia Tenório (Recife,PE – Brasil), Danuza Lima (Recife, PE – Brasil), Fernando Ivo (Recife, PE – Brasil), Ricardo Nonato (BA – Brasil).

E o novo link da coluna de Adriano Portela (Recife, PE – Brasil) no Parlatório: http://parlatorio.com/um-livro-de-acao-o-esqueleto-de-carneiro-vilela/  

 

Muito obrigada pelo carinho, força e participação, a próxima postagem será em 29 de Novembro de 2015, um abraço grande,

Patricia Tenório.

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Index* – October, 2015

– God dwells all my cells – said Clara to a friend.

He sounded the clearest tone of the ocean in the hollow of my ear.

Yesterday the text came entirely to my mind, it came smelling of jasmine.

Then, the trees were greener, the clouds whitening,

the clear sky of a blue so blue in a way like a word that became flesh and dwellt among us.

And I saw it was good.

(“When Clara met Julia”, Patricia Tenório, 09/23/15, 07:45 a.m.)

When there’s Epiphany in the Index of October, 2015 in the blog of Patricia Tenório.

“Notes about the Talent in the Literary Creation” | Patricia Tenório (Recife, PE – Brasil).

“There is hardly to legislate in behalf of ourselves?” | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

“Chaste” | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

Poetic Circuit of Xique-Xique – Version Recife, PE | Hudson Silva (Teresina, PI – Brasil), Thais Rabelo (BA – Brasil), Vinícius Gomes (Recife, PE – Brasil), Antonio Ailton (MA – Brasil), Patricia Tenório (Recife,PE – Brasil), Danuza Lima (Recife, PE – Brasil), Fernando Ivo (Recife, PE – Brasil), Ricardo Nonato (BA – Brasil).

And the new link of the column from Adriano Portela (Recife, PE – Brasil) in Parlatório: http://parlatorio.com/um-livro-de-acao-o-esqueleto-de-carneiro-vilela/  

 

Thank you for caring, strenght and participation, the next post will be on 29th November, 2015, a big hug,

Patricia Tenório.

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

**O Sol sempre nasce a cada dia… The Sun always rises each day… 

“Notas sobre o Talento na Criação Literária”* | Patricia Tenório**

14/06/13

 

A pergunta

Na décima quarta aula de “A poética do ensaio”, disciplina ministrada pelo professor Lourival Holanda, no Centro de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco foi levantada uma questão para mim instigante. Digamos mais do que instigante, desconcertante.

– Existe talento?

À questão se juntaram outras e outras, feito um fio de novelo sem fim que desfiamos.

– Todos podem escrever?

– Não existe vocação, mas vocações?

– O talento está morto? O que existe é o trabalho e o estudo?

Tentei dar respostas, ali, à queima-roupa, sem parar, sem investigar o motivo do incômodo gerado em mim, a inquietação talvez por não ter certeza daquelas palavras que saíam de minha boca, talvez por me fazer uma(s) outra(s) pergunta(s) que eu não desejava fazer naquele instante.

– Por que sou escritora?

– Será que tenho talento para escrever?

– Alguém nasce escritor ou torna-se escritor?

Durante os três meses em que estudamos sobre “A poética do ensaio” navegamos por entre diversos teóricos, tentamos trazer para perto de nós uma forma de escrever ensaio de maneira leve, mas sempre fundada na teoria, no que foi construído anteriormente, mas buscando o nosso olhar próprio. Individual.

Mas antes de tudo precisava responder a mim mesma a grande questão, a maior de todas.

– Por que preciso escrever?

Lembro-me das Cartas a um jovem poeta, em que Rainer Maria Rilke escreve ao iniciante Franz Xavier Kappus que lhe apresenta seus primeiros poemas na expectativa de um conselho, de algum reconhecimento. Mas Rilke lhe responde com uma nova pergunta.

 

“O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?”[1]

 

Pois bem, caro Rilke, a pergunta está lançada. Mas como respondê-la, como organizá-la em aproximadamente dez páginas?

Assim como em “O Filme-Ensaio” de Arlindo Machado,[2] devo “eleger um ponto de vista”, recortar um tempo e um espaço para nesta “quadratura do círculo” concentrar a investigação, potencializá-la até o máximo, e dela sair com alguma espécie de conhecimento próprio, pensado por mim. Ou ao menos organizado por mim.

Sigo a intuição e a primeira coisa que busco é a origem da palavra “talento”. É de origem latina. Refere-se à tendência que o indivíduo possui para exercer uma determinada atividade. Mais à frente descubro que a primeira aparição da palavra foi no cristianismo, com A Parábola dos Talentos. Nela um senhor precisa viajar e deixa com seus servos: cinco talentos com o primeiro, dois com o segundo e um talento com o terceiro. O primeiro e o segundo servos exercem os talentos, frutificando-os e duplicando-os, o que gera uma enorme satisfação ao senhor que, ao voltar de viagem, os convida para “regozijar-se” com ele. Quanto ao terceiro… O terceiro servo, por temer “a dureza” de seu senhor, esconde o único talento na terra para devolvê-lo intacto quando de seu retorno. Não precisamos contar o resto da história para saber que “esse servo inútil” será “jogado nas trevas exteriores” onde “haverá choro e ranger de dentes”.[3]

Continuo seguindo a intuição e ela me elenca livros. Livros que li recentemente, livros que há tempos respirei suas páginas, aspirei a seus ensinamentos e que, de maneira sub-reptícia, fazem parte de mim agora. Assim como Auguste Rodin sugere aos seus discípulos.

 

“Apoderai-vos das regras da técnica, e depois esquecei-as todas e cedei à inspiração.”[4]

 

“Apoderai-vos das regras da técnica.” Mas se “todos podem ser escritores”, se “o talento está morto”, “se não existe uma vocação, mas vocações”, o que diferenciaria um escritor de um engenheiro, de um médico, de um advogado? Ou melhor, todos poderiam ser engenheiros, médicos, advogados?

 

Perdoando Deus

A pergunta ainda angustia. Mas a dúvida nos põe em movimento e “a dúvida é a mãe do ensaio”, ouvi em aula, e introjectei. Introjectei e me enxerguei naquela frase, “porque ela já estava dentro de mim”, e ela “quebrou as minhas certezas”, porque nada mais mórbido do que o inquestionável. A dúvida que Clarice/Personagem Lispector se faz em “Perdoando Deus”. A dúvida por passear distraidamente pela avenida Copacabana no Rio de Janeiro e se sentir tão “boa”, e “livre”, e “a mãe de Deus” é bruscamente interrompida pela visão de um rato no meio do caminho. A dúvida que a faz pensar se é isso mesmo o que deseja veementemente, com todas as suas forças, com todas as suas células.

– Morreria, se lhe fosse vedado escrever?

Adélia Prado questiona também essa “mão de Deus” quando escreve. Essa inspiração? Esse talento? Essa vocação? Quando em “Oráculos de maio” diz da sina de todo poeta.

 

“Ao escolher palavras com que narrar minha

angústia,

eu já respiro melhor.

A uns Deus os quer doentes,

a outros quer escrevendo.”

 

Mas como se “perdoando Deus” por esta sina…

 

“Sei que Deus mora em mim

como em sua melhor casa.

Sou sua paisagem,

sua retorta alquímica

e para sua alegria

seus dois olhos.

Mas esta letra é minha.” [5]

 

No filme de Milos Forman, Amadeus (1984), Antonio (F. Murray Abraham) Salieri não perdoa a Deus por entregar o dom, o talento da música ao jovem e indecente Amadeus (Tom Hulce) Mozart. “O talento se vê no rosto?”, ele pergunta. Por que os esforços de Salieri, que dedica toda uma vida, a sua própria castidade para ser agraciado por Deus com o gênio, a nota justa, a música que eleve o ser humano da sua condição de rés do chão ao mais alto e divino cume do desejo: a eternidade?

Talvez Milos Forman em Amadeus tentasse impingir sua filosofia da genialidade. De que uns nascem com a tendência, com a espontaneidade, com a liberdade para escrever partituras inteiras apenas na mente, e, ao transpô-las para o papel, não há rasuras. Outros penam, e suam, e se esforçam noites a fio para retirar uma simples nota do silêncio. Mas busquemos o equilíbrio. Vamos aos livros, vamos aos mestres e escutemos o que Ariano Suassuna tem a nos dizer.

 

A ave de rapina

Não sei se foi pessoalmente ou de ouvir falar sobre uma “quase” pergunta que um jornalista capcioso fez ao escritor paraibano, radicado no Recife, Ariano Suassuna.

– As histórias que o senhor escreve estão nos cordéis, nos contos populares…

Ariano, com o seu jeito irônico e perspicaz, intuiu de pronto.

– O senhor quer dizer, se as histórias estavam todas aí, na boca do povo, o que é que eu fiz mesmo?

O jornalista, em silêncio.

– Eu escrevi, rapaz!

Se as histórias de Ariano poderiam ser contadas, e narradas, e escritas por qualquer um, por que foi que justamente ele tomou papel e lápis e “elegeu um ponto de vista” no tempo e espaço e se apropriou dos personagens e os deu vida feito se fossem seus?

Mas em Iniciação à estética[6] o próprio Ariano Suassuna nos alerta para o que é essencial.

 

“… no ofício e na técnica está tudo o que numa Arte pode ser ensinado, tudo aquilo que é governado pelas vias certas e determinadas da Arte, coisa indispensável ao iniciante, mas que, no máximo, forma um bom artesão.”

 

Ariano bebe em Notions d’Esthétique, de Charles Lalo, que define o ofício como “a parte material da Arte”, enquanto “a técnica é o ofício vivo adaptado”. Tomando o ofício como “tudo o que pode ser ensinado”, Ariano concorda com Auguste Rodin quando afirma que esse “tudo” deve ser apreendido até ser esquecido, até entrar no sangue, até ser o “leão” com “o carneiro assimilado” de Paul Valéry. Quanto à técnica, seria para Lalo a busca pela voz própria do artista, seu caminho único, individual:

 

“No ser organizado que é uma obra, o ofício aprendido é o corpo, o ideal imaginário é a alma e a técnica viva é a Arte, corpo e alma.”

 

Mas Ariano Suassuna vai além de Charles Lalo quando considera um terceiro campo da criação artística: o campo da forma. A forma governada pela “imaginação criadora” não anuncia dia e hora, não escolhe local ou situação para se manifestar. É preciso estar atento, mas ao mesmo tempo distraído, porque “a originalidade” somente se manifesta de maneira “verdadeira” quando prontos e distraídos caminhamos pela avenida Copacabana do Rio de Janeiro e “a imaginação criadora” desce “do sol como uma ave de rapina” em nosso chão, e não temos mais chão, e não possuímos mais certezas, a dúvida nos faz uma pergunta e somos tomados, o corpo inteiro, a alma inteira, por essa única e grandiosa pergunta.

 

O ponto cego

Edgar Allan Poe investiga em “A filosofia da composição”[7] como o seu poema mais célebre, “O Corvo”, é construído. Navegando na busca do tom, extensão, forma e clímax, Poe procura provocar um efeito o mais universal possível para o seu leitor, efeito que para ele é o da tristeza, da melancolia pela perda da mulher amada, a Beleza como “província do poema”. O poeta descreve os passos, os desvios, os caminhos percorridos na construção de sua torre de marfim, torre alva que contrasta com a plumagem de seu “Corvo”, provocando a reação esperada, a catarse prevista para todo e qualquer ser humano.

Mas seria o artista detentor de tal poder? Teria ele a condição de, à medida que escreve, ou esculpe, ou pinta, ou dedilha um instrumento tentando arrancar dele “uma simples nota do silêncio”, enxergar esse ponto cego?

O fato é que, independentemente de o conseguir ou não, “enxergar o ponto cego”, o artista, e tomando aqui especificamente o caso do escritor, só tem condições de “ao menos roçar” esse ponto cego ao entrar, ao mergulhar em si, no seu interior.

Sabemos o quanto essa tarefa é quase impossível na sociedade em que vivemos. Sociedade do espetáculo, do simulacro, em que é preciso ser visto para ser lido, em que nos transformamos apenas em uma imagem de nós mesmos; o escritor é infinitamente tentado   a aparecer mais do que ser, aparecer em congressos, feiras literárias, debates e palestras. Não sobra tempo, enfim, para ser o que mais interessa, que é ser escritor, ou melhor, para exercer o que seu próprio nome exige: escrever.

Ah, se retornássemos aos clássicos, aos grandes – e este é sempre o principal conselho nas oficinas literárias, nos cursos universitários ou não de formação de escritores… Se déssemos ouvidos ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) talvez nem fôssemos escritores na “sociedade do espetáculo” em que vivemos. Pois para ele, para Schopenhauer:[8]

 

“(…) ninguém se dedicaria seriamente a um assunto se não fosse impelido pela necessidade, pela fome.”

 

Ele fala da fome (a necessidade premente de Rilke), ele fala da individuação (a letra “própria” de Adélia). Mas essa fome e essa individuação necessitam da ponte do mergulho em si, o mergulho nessas águas turbulentas em que não há garantias de se retornar lúcido e são, assim como nos dizeres da entrada do Centro Psiquiátrico Pedro II no Rio de Janeiro, onde a prof. dra. Nise da Silveira fundou o Museu do Inconsciente:

 

“A diferença entre o louco e o artista é que o artista vai e volta; o louco não.”

E o artista volta maior, trazendo em suas mãos, “em suas tão dolorosas mãos”, o conhecimento que a arte lhe dá de maneira gratuita, assim como de maneira gratuita recebemos do amor.

 

Pensar por si mesmo

Schopenhauer critica veementemente os eruditos, aqueles que, assim como ele mesmo cita Alexander Pope, vivem “sempre lendo para nunca serem lidos”. Claro que Schopenhauer não está criticando a leitura, especialmente dos antigos, da fonte, dos gregos, da Bíblia, dos textos que nos constituíram. Mas o filósofo alemão está criticando a falta de coragem para ousar “caminhar com as próprias pernas”, mesmo que sujeito a mais quedas que acertos, mais desvios que sucessos. Porque esses “longos, perigosos e tortuosos caminhos” nos plasmam, são nossos, únicos e de mais ninguém.

É preciso conhecer o antigo para, se assim o desejar, desconstruí-lo. É preciso ler para escrever, assim como é preciso ingerir para digerir. Mas é preciso o tempo da digestão, da decantação, da escolha do que me apetece, do que me interessa, para poder desse algo produzir frutos bons e próprios.

O que faríamos se estivéssemos exilados em um país distante, distantes de nossa biblioteca particular, de tudo o que lemos e seguidamente retornamos, e consultamos, e frequentamos para termos a certeza de que estamos no caminho certo?

Isso ocorreu com Eric Auerbach no momento em que escreveu a sua obra mais (re)conhecida, Mimesis, a representação da realidade na literatura ocidental. Segundo Roland Bourneuf,[9] estava Auerbach exilado em Istambul, judeu que era fugindo da perseguição nazista, e desprovido de seus livros e/ou edições suficientemente boas para apoiá-lo e servir-lhe de âncora para seu pensamento. Mas Borneuf considera isso uma “sorte”, por abandonar Auerbach “frente a frente” com seu “texto nu”, tal ele precisasse retirar das entranhas a sua matéria-prima e plasmá-la a partir do que foi apreendido e “assimilado” feito o “carneiro” de Valéry – repito-me, mas esta é uma das imagens que mais representa o aprendizado para mim.

Interessante Auerbach tratar da história da “representação da realidade na literatura ocidental” tendo que lidar diretamente com os signos das lembranças dos textos incrustados em si, e não com a sua “representação” escrita nos livros. Ou como Schopenhauer afirma:

 

“(…) aqueles que são estimulados pelas próprias coisas têm seu pensamento voltado para elas de modo direto.”[10]

 

E leiamos “as próprias coisas” de Schopenhauer como um “pensar por si mesmo”, escalar o próprio monte, ainda que correndo o risco de no cume dessa montanha mais alta, de ar mais puro e rarefeito, encontrarmos nada mais nada menos que o eco do nosso próprio nome.

 

A poesia é o que nos escapa

 

Mário Quintana insistia em um verso seu que “não perguntasse qual era o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa”.

Tentei aqui, “aproximadamente em dez páginas”, buscar as “apostas às respostas” que me “fiz um dia”.

A poesia, a literatura, o ensaio, é o que nos escapa. Pensamos em escrever um texto e descobrimos outro. Iniciamos um diálogo, e não sabemos o que diremos daqui a um minuto, daqui a um segundo, daqui a uma página, daqui a cinco palavras. Entramos no jogo do texto de maneira diferente de um jogo tradicional: sem querer vencer, sem querer o fim do jogo, o encontro do significado, pois com ele estagnamos e cristalizamos e criamos raízes tão profundas na pedra que já não nos sabemos gente ou pedra, vivos ou inertes, dinâmicos ou estáticos, e precisamos, por sermos curiosos, por sermos espantados, precisamos sempre continuar, sempre buscar a origem dessa “fome que nos come”, desse “verme que nos corrói”, dessa “angústia criadora” que nos põe em movimento, o poema que nos roça, o rio heraclitiano em que somos diversos e ainda somos os mesmos, o Uno no Diverso de Huberto Rohden.

Volto ao início. Volto ao dicionário no qual busquei a origem da palavra “talento”. Procuro a sua palavra irmã “vocação” e descubro uma curiosidade: no sentido jurídico, “vocação” remete à “convocação feita a alguém para que esta pessoa tome posse daquilo que lhe pertence por direito”.

“Tomar posse daquilo que me pertence por direito.” Talvez seja essa uma das respostas. Talvez seja nessa exaustão em que me encontro onde “apascentarei a alma” e descortinarei algum repouso. Repouso que pressinto ser passageiro, o silêncio após a sinfonia, a estiagem após a tempestade, a brisa após o vendaval.

Para, quem sabe, depois de tudo, de esvaziar o pensamento, de alicerçar tantos estudos, tantos autores, tantas vozes, os ruídos, de algum lugar, longe, longe, e lá de dentro eu escutar, e auscultar um bum-bum-bum que é meu, e só meu, de mais nada e mais ninguém. Um doce murmúrio chamado escrita.

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* O presente texto refere-se ao trabalho final da disciplina “A poética do ensaio”, ministrada pelo prof. dr. Lourival Holanda, no período de março a junho de 2013, no Centro de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, que cursei como aluna ouvinte.

** Patricia (Gonçalves) Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Está no prelo, a ser lançado em fevereiro de 2016 pela editora espanhola Mundi Book Ediciones, Vinte e um, uma coletânea em português e espanhol de vinte e um contos escritos entre novembro de 2011 e janeiro de 2014. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino.  Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(1) RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta e A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. Tradução: Paulo Rónai e Cecília Meirelles. São Paulo: Globo, 2001, p. 26.

(2) MACHADO, Arlindo. “O Filme-Ensaio”. Em http://www.slideshare.net/ArquivoColetivo/filmeensaio-por-arlindo-machado.

(3) Evangelho Segundo São Mateus, 25, 14-30.

(4) RODIN, Auguste in ROHDEN, Huberto. Filosofia da arte. São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 35.

(5) PRADO, Adélia. Oráculos de maio in Cadernos de Literatura Brasileira. Número 9. São Paulo: Instituto Moreira Salles. 2000, p. 96.

(6) SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002, pp. 235-240.

(7) POE, Edgar Allan. Poemas e ensaios. Tradução: Oscar Mendes, Milton Amado. Revisão e notas: Carmen Vera Cirne Lima. 3ª ed. revista. São Paulo: Globo, 1999, pp. 101-114.

(8) SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever. Tradução, organização, prefácio e notas: Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM, 2007, pp. 19-54.

(9) http://id.erudit.org/iderudit/500105ar referente a Erich Auerbach, Mimésis, la représentation de la réalité dans la littérature occidentale, Roland Bourneuf. Traduzido do alemão por Cornélius Heim. Paris: Gallimard, 1968, 559 p.

(10) Idem (8), p. 58.

“Há mal em legislar em causa própria?” | Mara Narciso*

7 de outubro de 2015

Depois que cuidei do meu pai em cadeira-de-rodas por cinco anos, ficou difícil ver alguém sendo empurrado por um cuidador. Tudo volta a minha mente, e todas as dores que passamos juntos me fazem sofrer. Desculpem, mas eu choro.

É tão fácil ser indiferente ao sofrimento do outro. Hoje eu tive a oportunidade de ver um idoso sendo maltratado por uma cuidadora. Foi na TV e ambos eram atores. O objetivo era medir o grau de indignação das pessoas que passavam e viam a cena. Quando a atriz falava com voz firme, mas de forma socialmente aceitável, que forçaria o idoso a beber água goela abaixo, ninguém se tocou. Apenas quando ela falou mais alto, fingindo que tomaria uma atitude mais forte, as pessoas olhavam e paravam. Várias pessoas choraram, e boa parte falou duro com ela, ameaçando chamar a polícia. Apenas uma mulher de Moçambique contemporizou, e, falando baixo, tentou fazê-la mudar o comportamento.

Era apenas uma encenação, mas alertou a audiência de que agora mesmo estão acontecendo maus-tratos semelhantes. Dentro de casa, velhos são torturados, humilhados, e ao mesmo tempo, quem os maltrata usufrui as suas aposentadorias. Os filhos se exasperam com a lentidão e as dificuldades dos idosos. Perdem a paciência, gritam, e até os agridem fisicamente, esquecendo quem está a sua frente.

Quanto mais avançado é um país, mais seus idosos são reverenciados, porque trazem dentro de si o conhecimento, a experiência e a tradição. Construíram o mundo que aí está, e a juventude sustenta-se sobre o que antes foi criado. Aqui no país do futuro, boa parte do saber está na juventude, que domina a tecnologia, e não mais na maturidade. Também por isso desprezam quem não sabe o que eles sabem e não faz o que eles fazem. Isso torna os jovens senhores de si, ou até mais do que isso, fazendo-os lidar com as pessoas mais velhas de forma preconceituosa, tratando-as com pouco caso, debochando das suas falhas.

Assunto chato. Quem quer ler sobre isso? Um jovem não vai ler. Mas é coisa que está à frente de todos. Hoje fui atravessar uma rua de bairro, que dá acesso da Unimontes ao centro, tendo velocidade de avenida. Estacionei, desci, e fiquei esperando meu momento de atravessar. Não há faixa e nem sinal, mas, com paciência, logo chegaria a minha vez. Um senhor, de mais de 80 anos, próximo a mim, decidiu atravessar calmamente, já que os carros se distanciaram um pouquinho. Fiquei olhando-o cortar a rua. Eu não fui, e observei o motorista do carro que chegou e teve de parar. Balançando a cabeça de forma a sugerir que o senhor era um pobre coitado, ele, impaciente, esperou o homem atravessar, mas deixava claro que o tempo dele era urgente.

Quem chega aos 60 anos no Brasil, é por lei, alguém que não pode esperar e nem andar um pouco mais, precisa estacionar mais perto do local de destino, necessita ser vacinado contra gripe, tem preferência em filas e paga meia-entrada em eventos (ainda que a lei sancionada hoje reduza a 40% o meio ingresso). Para ter esse direito, aqui em Montes Claros é preciso ir à MCTrans levando RG e comprovante de residência. Receberá a carteira e poderá usufruir desses direitos.

Num país que tem preconceito contra quem completou seis décadas, não há interesse em alardear que se chegou a essa etapa. Parece ser melhor evitar tal rótulo, mas há controvérsias. Se por um lado a pessoa procura mostrar jovialidade, por outro quer usar as regalias que lhe são facultadas. Parece estranho, mas é assim.

Já li um dia que “pintar os cabelos não é nada; atitude de verdade é não pinta-los”. Concordo. Preconceituosamente, e em parte por imposição social (nem sei até que ponto é uma escolha minha), vejo a mulher de cabelos brancos como uma pessoa de aparência frágil, que, em última análise parece que “entregou os pontos”.  Por sua vez, quem optou por não pintar os cabelos a cada 15 a 20 dias, pois eles crescem na razão de um cm por mês, sendo o crescimento maior no verão, sentem-se libertados pela coragem, e entendem que seguir a determinação social é uma escravidão.

Finalizando, escrevo o óbvio, direcionado ao rapaz ao volante, que, de biquinho, e sacudindo a cabeça desaprovou o passo lento do senhor: mantenha a sua pressa e antecipe a sua morte, porque senão ficará velho, atravessará a rua de forma arrastada, e encontrará um jovem que desaprovará a sua ousadia. Ou não?

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* Contato: yanmar@terra.com.br

“Castíssimo” | Clauder Arcanjo*

Terno escuro e fechado, chapéu de massa, passo medido e compassado. Na mão direita, o Livro Santo.

Cortava as ruas, sempre sereno e um pouco cabisbaixo; nos lábios, como se um soletrar baixinho de salmos e de passagens bíblicas.

Senhor da Casa Azul, sobrado alto, vetusto e imponente na Rua das Quitandas. Construção quase da época do Rei; comentavam. Herança de família, uma das mais tradicionais do Vale das Palmas. No longínquo sertão de dentro, distante léguas e mais quilômetros de lonjuras da dita civilização.

Seu nome: José Damasceno Abreu Rodrigo Costa de Menezes. Sobrenome espichado, para levar, no seu bojo, toda a porção de ramos genealógicos que se misturaram no sangue, na língua e no gênio.

Todas as manhãs, sobraçado com Dona Germânia, o compromisso com a Santa Missa. Na Igreja Matriz de São Jerônimo. No mesmo banco, à primeira hora da matina.

Rodrigo Costa de Menezes chegava antes do pároco, a quem considerava um preguiçoso, confidenciava à sereníssima esposa.

— Acabe com essas coisas, José Damasceno. Respeite o pastor do Senhor! — clamava Dona Germânia. Somente ela o chamava pelos dois primeiros nomes.

— Só respeito quem se dá ao respeito, minha senhora! Olhe o estado que este padreco sobe ao altar: cabelo assanhado, olhos remelentos, voz de quem largou o sono à força. Sem falar no bocejar entre as palavras de Deus. Para mim, que me perdoe o Senhor Deus Pai Todo-poderoso, um amasiado da preguiça.

— José?!… Pelo amor do Nosso Senhor Jesus Cristo! — e ela baixava a cabeça ainda mais, como se a ler o missal.

Rodrigo Costa de Menezes, depois da missa, postava-se na cadeira de balanço no alpendre, e levava horas e horas a abençoar as dezenas de afilhados que acorriam à Casa Azul.

— Bênção, padrinho!

— Deus o abençoe, meu filho. Juízo e temência a Deus, ouviu? Entre e coma alguma coisa. Gertrudes, sirva meu afilhado.

As palavras eram sopradas em uma voz forte, limpa. Ao tempo em que, entre uma xícara e outra de café amargo e forte, Rodrigo Costa de Menezes esticava a mão direita, com o anelão de ouro ofertado ao beijo dos apadrinhados.

Na hora do almoço, a oração de agradecimento ao “pão nosso de cada dia”. Ele servia-se antes de todos, mas com frugalidade; só exagerava quando a sobremesa era o doce de mamão com coco, apurado com rapadura.

— Deste jeito, você ainda acaba comigo, velha Gertrudes! Acaba, acaba… — era mais agradecimento do que admoestação à velha cozinheira.

Da mesa para a rede. Lá, pastoreado pela gata Dalmira, a soneca de meia hora. Sono curto e pesado.

Acordava com os olhos esbugalhados; levantava-se depressa, os pés no chinelão de couro a murmurar contra si próprio.

— Isto são modos. Um cabrão como você, José Damascento, está pegando manha de malandro? Onde já se viu?… Ora, ora!… — e lavava o rosto, a disfarçar o bocejo a abrir-lhe a bocarra, apesar do esforço ao contrário.

— Negro Deusdite? Negro Deusdite? Onde anda este cabra, meu povo?

— Estou aqui fora, Senhor!

— Deixe de conversaria, Deusdite, e vamos para os compromissos. Está tudo pronto para a minha obra de caridade de hoje?

— Claro, tá tudo no lombo das burras. Conforme o senhor me orientou.

— Não é hora de mais trelelê. Minhas promessas com as obras de Cristo são compromissos inadiáveis. Vamos logo embora! Germânia, já estou indo. Só voltarei bem tarde.

— Deus o leve, guarde e traga de volta, meu castíssimo esposo.

A gata Dalmira passava-lhe o rabo felpudo entre as pernas, e Rodrigo Costa de Menezes sentia o arrepio da saída.

Frente ao sobrado, duas burras cardãs carregadas e dois cavalos ajaezados e bem selados. Saíam no meio da tarde, rumo à Freguesia do Lampejo. Lá, dar-se-ia mais uma obra de caridade do herdeiro do velho Costa de Menezes.

 

***

 

O retorno na madrugada alta. Negro Deusdite à frente, a puxar o cabresto do cavalo do patrão; e com as duas burras cardãs atrás, a lhe seguirem o passo.

— Dona Germânia, cheguei, seu cas-tís-si-mo! — a voz embargada pelo vinho da caridade, regiamente servido na Freguesia do Lampejo.

Antes de entrar, a gata Dalmira passou-lhe o rabo felpudo entre as pernas bambas, e José Damasceno Abreu Rodrigo Costa de Menezes, cabelo assanhado, olhos remelentos, voz de quem largou o sono à força, sem falar no bocejar entre as palavras de Deus… sentiu o arrepio da chegada.

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