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Índex* – Julho, 2015

Eu sonho

Com um mundo 

Que há de vir

Onde o negro dê a mão

Ao branco

Os sexos sejam apenas 

Sexos

E o homem não seja

O olho invertido da 

Mulher

Olho para trás

E vejo somente

Espinhos

Caminho um passo

De cada vez

E colho flores murchas

Amores perfeitos 

Do que fui um dia

A criança que gera

A mulher que gera

Aquela velhinha

De cabelos brancos

Que dá a mão 

Ao negro

Que não se importa

Com os sexos

Serem apenas sexos

E eu

Me apaixonar

Por você

(“Um livro por vir ou Quando Tenório encontra Blanchot”, Patricia Tenório, 01/07/15, 04h23)

Quando a Poesia encontra a Teoria no Índex de Julho, 2015 do blog de Patricia Tenório.

Poemas de Mestrado – A Prefiguração do Fim | Patricia Tenório (Recife, PE – Brasil).

A Arte de Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva (Recife, PE – Brasil).

Último dia em Paraty | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

Conversa de pai | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

Fotografia para Imaginar | Gilberto Perin (Porto Alegre, RS – Brasil) e outros.

A Poesia de Alves de Aquino (Poeta de Meia-Tigela) (Mucambo, CE – Brasil) e Dércio Braúna (Limoeiro do Norte, CE – Brasil).

O Convite de Adélio Amaro (Algarvia, Açores – Portugal).

E o meu muito obrigada a todos e todas que fizeram parte dessa postagem especial, a próxima postagem será em 30/08/2015, um grande abraço e até lá,

Patricia Tenório.

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Index* – July, 2015

I dream

With a world

To-be

Where the black give hand 

To the white

The sexes are only

Sexes

And the man is not

The inverted eye of the

Woman

I look back

And see only

Thorns

I walk a step

At a time

And harvest withered flowers

Pansies

Do I once was

The child that generates

The woman that generates

That white-haired old lady

Giving hand

To the black

Who doesn’t care 

That sexes

Are only sexes

And I

Fall in love

With you

(“A book to-be or When Tenório meets Blanchot”, Patricia Tenório, 07/01/15, 04:23 a.m.)

When Poetry meets Theory in the Index of July, 2015 in the blog of Patricia Tenório.

Master’s Poems – Foreshadowing of the End | Patricia Tenório (Recife, PE – Brasil).

The Art of Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva (Recife, PE – Brasil).

Last day in Paraty | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

Father talk | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

Photography for Imagine | Gilberto Perin (Porto Alegre, RS – Brasil) and others.

The Poetry of Alves de Aquino (Poeta de Meia-Tigela) (Mucambo, CE – Brasil) and Dércio Braúna (Limoeiro do Norte, CE – Brasil).

The Invitation from Adélio Amaro (Algarvia, Açores – Portugal).

And all my gratitude to all that made part of this special post, the next post will be on 08/30/2015, a big hug and see you there,

Patricia Tenório.

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foto 1 (3)

foto 2 (4)

foto 3 (1)

**

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

**A Sala de Leitura César Leal, CAC – UFPE, Recife – PE, Brasil, onde a Teoria se encontrou com a Poesia… The Reeding Room César Leal, CAC – UFPE, Recife – PE, Brasil, where Theory met Poetry… 

Poemas de Mestrado* – A Prefiguração do Fim | Patricia Tenório**

Foram 4 anos, 80 poemas, professores e colegas especiais e queridos…

Sou a mesma e diversa… Sou feita agora de Poesia e Teoria que habitam o mais recôndito, âmago, espaço precioso do meu ser…

E em gratidão a todos, a Deus, à Vida, e a este que me fez ver as Letras com outros olhos, o Senhor Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde, lhes ofereço…

 

(meta)ficção

12/03/14

Ela escrevendo a carta

Escrevia a vida

E temia

Cada palavra em seu lugar

Contava as sílabas

Feito uma parábola

Que de carne

Se fez veias

E pulsou

Explodindo as células

Rotas

Envelhecidas

As rugas transparecendo

Na mão que escreveu

Palavras

Escreveu a vida

E temia

Cada palavra em seu lugar

(Diante da Imagem de Escher, “Drawing hands”, 1948, Litogravura)

*

Mesa de dissecação

02/04/14

O pôr-do-sol bateu em mim

Feito alma reticente

De algum herdeiro meu

Trouxe o espírito da noite

Que imprimi no corpo

Em forma de estrela cadente

Em forma de um sinal doente

Que o médico extirpou

Meu ventre está cheio

De mil possibilidades

E apenas o verso

Lúdico

Único

Crente

Descortinará o sol

Que agora nasce em meu umbigo

(Diante da Imagem de Gunther Von Hagens, Plastinação do corpo humano)

*

Pecado é não escrever poesia

26/04/14

Pego a linha

E vou costurando

As palavras

Prego no peito

E brota sangue

Entre as letras

Entre os signos

Entre-sentindo

O que não sei explicar

Nem dizer

Apenas roçar

O corpo das palavras

Nesta mão que escreve

Porque

Pecado é não escrever poesia

*

Deita no meu ombro amigo

03/07/14

Nos encontramos

Meio por acaso

Meio por destino

Para falar de

Vida

Amor

Poesia

São tantas

Estórias

De ninar acordado

Tantos sonhos

Começando

Devagarinho

Devagarinho

Até se chamar

Amizade

*

Evangelho segundo o eu mesmo

30/07/14

Hoje

Fui em busca

De um livro

Que me disse

O que ansiava

Escutar

Há muito tempo

Estudar

É estar

Apaixonado por si mesmo

E ao mesmo tempo

Se apaixonar por quem o

Escreve

Por o que se lê

Por o que se sonha

Por séculos e séculos

Amém

*

Para não dizer… Saudade

11/08/14, 17h20

O medo

É uma casinha

Sem portas

Onde a coragem

Quer entrar

Aliso

Teus cabelos encaracolados

E não percebo

Estrelas

Saindo dos teus ouvidos

Querendo

Dizer besteiras

Que me façam

Esquecer

O medo

A coragem

E apenas

Um sentimento

Azul

Pulsando

Aqui

No meu peito

*

Era uma vez… Um nome ou A teoria da tradução

06/09/14, 18h00

Traduzir

Um poema

É transformar

Uma pétala

Em flor

Virar

Revirar

Os dois lados

De uma mesma

Moeda

E não encontrar

O sentido

Justo

A palavra

Correta

Apenas

O roçar de letras

Embalsamadas

Em óleos

Ancestrais

Traducir

Un poema

Es transformar

Un pétalo

En la flor

Girar

Voltear

Ambos lados

De la misma

Moneda

Y no se encuentrar

El sentido

Justo

La palabra

Correcta

Sólo

El roce de letras

Embalsamadas

En los aceites

Ancestrales

*

A invenção de Morel

18/09/14, 06h00

Estou perdendo

O poder da fala

Cada vez

Que encontro a ti

Cada vez

Que viro e reviro

A palavra chamada

Amor

A palavra chamada

Ódio

Entre

Pais e filhos

Homens e mulheres

Amantes e amados

Coisas e objetos sagrados

Cada um

Tem duas faces

Cada um

Tem duas chances

De ser

Melhor ou pior

Eterno ou mortal

Além do bem

Além do mal

Todos presos

Numa mesma ilha

*

Quando o ninho esvaziou

07/12/14, 19h02

Juntem-se a mim

As estrelas

Solitárias

Vamos sair

Em roda

Pela praia

O manguezal

As ladeiras

De Olinda

E o Recife Antigo

Andam chorando

Nas noites de lua cheia

Pois o homem

E a mulher

Da meia-noite

Não se encontram mais

No dia

Em que o mar

Bebeu a areia

*

(Entre)Textualidade

30/06/15, 04h50

Acordo

Em meio-à-noite

Com a

Luz a guiar

A ponta

Dos meus dedos

Tecendo palavras

Costurando frases

E o poema

Em mim nasce

Feito amor

De primeira vez

Feito quando abres

O presente

Que embrulhei

Em papel jornal

E descortinas

Um sorriso

E realça

Em tua boca

O verso que busquei

E lutei

E forjei

Entre os meus dedos

Nus

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1 - foto

Intersemiose 2013-2

foto 1 (2)

foto 2 (3)

***

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O último poema em homenagem a seu objeto de estudo de mestrado, “Oscar Wilde”, será postado em 02/08/2015 no Facebook de Patricia Tenório.

** Escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem oito livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.brWriter of poems, short stories and novels since 2004, has published eight books and is master’s degree in Literary Theory at the Federal University of Pernambuco, line of research Intersemiosis, with the project The picture of Dorian Gray, from Oscar Wilde: an indicial, augustinian and prefigural novel, under the guidence of Prof. Dr. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contacts: www.patriciatenorio.com.br and patriciatenorio@uol.com.br

** Turmas de mestrado de 2013 e 2014 e Prof. Maria do Carmo Nino, todos e todas a quem quero tanto bem…

A Arte de Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva*

foto (4)

Sobre criar asas sem perder as raízes

Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva

Caneta posca, caneta estabilo, aquarela e lápis de cor sobre papel cartão

40 cm x 30 cm

A árvore da vida

Patricia Tenório

04/07/15, 06h15

Eu vim para

O mundo

Para sentir

Todas as dores

O sofrimento de cada um

A ferida de cada uma

Minha filha pintou

Uma mulher de raízes

Ela abraça a humanidade

Ela acolhe os infelizes

E nessa nossa sina

De artista que trabalha

E sente

E pulsa

Nas veias abertas

Da vida

Encontro você

Que me enxerga

E me apreende

Por inteiro

E eu já não me sinto

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* Contato: duda.tenorio.ds@hotmail.com

Último dia em Paraty | Mara Narciso*

10 de julho de 2015

“Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, tocando coisas de amor.” (A Banda, Chico Buarque de Holanda, 1966).

 

O início da apresentação do Grupo Carroça Mamulengo de Rio Claro, MG, estava marcado para as 9 horas da manhã na Praça da Matriz, no último dia da XIII FLIP, Festa Literária Internacional de Paraty. O público chegou aos poucos, juntamente com os atores, uns jovens bonitos, e da mesma família, sendo duas duplas de gêmeos, uma de rapazes e outra de moças, capitaneados pela mãe de um deles. Trouxeram suas crianças, e a atividade faria parte da Flipinha, dedicada ao público infantil.

Os jovens circenses colocaram um lençol colorido no centro da praça e nele se sentaram, improvisando um camarim. Com espelhos nas mãos tiraram objetos mágicos da sacola e iniciaram a pintura dos seus rostos, primeiro com uma base branca, e depois cor preta nas sobrancelhas, boca vermelha e nariz de palhaço. As crianças, filhas dos artistas, também estavam se trocando e se pintando. Eram pessoas bonitas. Algumas delas trazendo instrumentos musicais, sentaram-se nos bancos e começaram a ensaiar alguns acordes. Outros traziam pernas de pau longas, protegidas por grandes sacos de pano.

A platéia foi se formando e invadiu a cena fotografando e filmando. Os atores vestiam roupas de cores alegres e foram subindo nas suas pernas-de-pau. As moças estavam com longos e charmosos vestidos. Mal começaram a andar lá no alto, já impressionavam pela habilidade. A música começou, embalando o aquecimento. Então, eles fizeram uma roda, chamando o público, e de lá de cima seguraram as mãos dos cá de baixo. O grupo fingia o abrir e fechar de uma porteira, imitando o ruído com a voz, abrindo e fechando os braços. Após alguns minutos chamaram a assistência para acompanhá-los ruas afora, o que já seria surpreendente, considerando-se o calçamento da cidade, com pedras altas e irregulares, com sulcos e monturos, onde é difícil caminhar devagar, mesmo de tênis. Com pernas-de-pau?

 

“A minha gente sofrida esqueceu-se da dor, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor.”

 

Com a agilidade de jovens treinados e com boa força nas pernas, o grupo avançou célere pelas ruas pedregosas de Paraty, acompanhado pelo relativamente pequeno grupo, a princípio, que estava na praça naquela manhã fria. Seus filhos seguiram o grupo. A banda de música atrás, com atores igualmente vestidos de alegria. Tocavam músicas cantantes e conhecidas, entre modinhas de carnaval e populares. A caminhada, que era rápida, passou a ser praticamente uma corrida, e a alegria do grupo e da música envolveu o público, que nessa altura era uma pequena multidão que se acotovelava nas ruas estreitas da cidade histórica, felizmente plana.

Os intrépidos atores circenses faziam hábeis malabarismos, corriam, saltavam, dançavam, dobravam as pernas-de-pau à altura da cabeça e levantavam acima dos seus braços estendidos para cima, uma das moças, também de perna-de-pau. Loucura total! A carregavam como a um andor, e, ao ritmo e em conjunto a depositavam delicadamente no chão.  Também seus filhos foram içados. A empolgação do grupo invadia os presentes, que, sem saber exatamente como, estavam magnetizados por tudo, energia, música e euforia, coisa incompreensível para quem acaba de chegar. Os que ouviram a música em casa, foram atraídos por ela, saíam à varanda, à porta ou lá no alto, esticavam pescoço, braços e mãos, capturados pela situação, sendo impelidos para a rua. O contágio da alegria atuava como cachaça. Paraty é, sim, sinônima de cachaça.

Quem acompanhava, corria e dançava, escancarando um riso rasgado de felicidade. O som dos instrumentos e o magnetismo dos participantes hipnotizaram os presentes, que extasiados, seguiram o grupo por quase duas horas, sem avaliar tempo, nem cansaço. Depois do circuito pelas ruas, voltaram para a praça, onde uma grande corrente humana, de mãos dadas, deu um abraço nela. A brincadeira seguiu-se por mais alguns minutos, com integração dos dois grupos, platéia e elenco. Atados pelas mãos, altos e baixos, adultos e crianças rodopiaram na praça num grande caracol.

 

“E para o meu desencanto, o que era doce acabou, tudo tomou seu lugar, depois que a banda passou.”

 

O nível da atração Carroça Mamulengo é de primeira grandeza, sendo facilmente alçado ao patamar de clímax de toda a festa. A perícia dos jovens artistas é alimento para o espírito, e tal instante de felicidade é o melhor convite para uma volta.

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Paraty 2015 147____________________________

* Contato: yanmar@terra.com.br

Conversa de pai | Clauder Arcanjo*

Para Ricardo Cardoso Busch

 

Se achegou, pediu para entrar, entrou e ficou calado. De uma certa forma, pois, de vez em quando, reclamava algo consigo mesmo, em tom baixinho.

Como eu estava ocupado com a leitura de um importante documento, de início não pude lhe dar atenção. Contudo, como ele permanecia sentado à minha frente, e os reclames só aumentavam, mudando de tom de sussurro para um rosnar de protesto, elevei a cabeça e lhe saudei:

— Como vão as coisas?

Assim mesmo, sem a mínima pretensão de entabular uma conversa profícua, mas tão só tangido pela obrigação.

Ele me pôs uns olhos grandes, resguardados por sobrancelhas assanhadas e pastoreados por um comprido nariz adunco.

Havia, logo percebi, naquele rosto grande um não sei o quê de menino sofrido. As rugas dos anos não o marcavam com o sinete da velhice, pensei.

Puxou um papel do bolso da calça e, com um certo tremor de dúvida, confidenciou-me:

— Depois que li o seu livro, amigo, resolvi, também, escrever algo…

Parou, limpou os lábios grossos, em seguida, olhou para o chão.

Como quem é tocado pela literatura sempre me ganha a simpatia, incentivei-o:

— Que bom! Mostre-me.

— Confesso que me apropriei de certas passagens de suas crônicas. Em especial, daquelas que aborda a família. Seria um plágio da minha parte? — enquanto falava, estendia-me o braço, com o papel dobrado na ponta dos dedos.

— Não se preocupe com isto. Em literatura, meu caro, um texto é semente para tantos outros. Deixe-me lê-lo.

Quase que foi necessário tomar o pequeno papel das suas mãos. Quando assim o fiz, corri depressa os olhos para o papel. Ele me pediu, encarecidamente, um tempo:

— Quero lhe explicar algo, antes que você o leia.

Era um homenzarrão me pedindo paciência. Quase ri do seu modo polido e do seu jeito frágil.

— Você bem sabe como um texto literário me instiga. Logo, cuide de ser breve e sintético.

Ajeitou-se na cadeira, aproximou-se um pouco mais da minha mesa, e asseverou-me:

— A profissão… Melhor, o ofício de pai não é fácil. Ou melhor seria me referir a “sacerdócio de ser pai”? Tanto faz, você, como pai, me entende.

— Sim, claro, sei… — interrompi-o, impaciente, como a instigá-lo a cortar caminho, a ser breve.

— Pois bem, tenho três filhos e, cada um deles, me desafia. O do meio, em especial. Este é mais contestador, reativo a tudo que procuro lhe ensinar, fechado dentro do seu próprio mundo. E, quando de lá sai, me bombardeia com ironia, em achados de zombaria que me tiram do sério. Em certas ocasiões, tive assomos de fúria… contive-me, graças a Deus, a tempo.

— Sei, sei.

— Depois que li uma das suas crônicas, aquela em forma de carta a seu pai, decidi mudar de tática. Quem sabe uma carta minha não o tocaria?

— Claro, por que não?

— Bom, agora pode lê-lo — ao autorizar-me, ele fechou os olhos.

Não sei por qual razão, porém decidi lê-lo em voz alta. Estávamos sozinhos, e tenho, por mania, sentir a oralidade do escrito.

Limpei a garganta, caprichando na modulação da voz.

Era uma epístola tomada pela força de um pai carinhoso e dedicado. Senti orgulho do meu ofício de escrevinhador, pela capacidade de ter influenciado aquele pai em se fazer escritor. Ou seria conselheiro-escritor?

Ao término da leitura, levantei o rosto do manuscrito e… flagrei uma lágrima a lavar a face paternal daquele bom homem.

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* Contato: clauderarcanjo@gmail.com

Fotografias para Imaginar | Gilberto Perin* e outros

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foto (5)

Fotografias para Imaginar, Gilberto Perin e outros.

Porto Alegre, RS: Multiarte, 2015.

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“Toda foto tem múltiplos significados;

 de fato ver algo na forma de uma foto

é enfrentar um objeto potencial de fascínio”.

Susan Sontag (1933-2004) em “Sobre Fotografia”

 

1

Numa fotografia, o essencial é aquilo que se vê através do olho do fotógrafo ou o que está fora desse olhar, aquilo que não aparece no enquadramento da câmera? Ou é o que imaginamos a partir daquilo que é apresentado? Ou são emoções e pensamentos que surgem a partir da fotografia apresentada?

Algumas dessas questões impulsionaram o critério de seleção das 16 imagens para a exposição “Fotografias para Imaginar”, de Gilberto Perin, apresentada em novembro de 2012, na Galeria Espaço IAB, em Porto Alegre (RS – Brasil).

As fotos feitas no Brasil e Exterior revelam espaços sem a presença humana, propondo que o limite documental da fotografia seja ultrapassado, rompendo a fronteira do visível, reconstruindo a realidade com outro olhar – além daquele esboçado e recortado pelo fotógrafo. Afinal, “a Fotografia é o aparecimento de eu próprio como o outro”, afirma Roland Barthes (1915-1980) em “A Câmara Clara”.

2

O projeto do livro “Fotografias para Imaginar”, com a incorporação do olhar de 16 artistas e 16 escritores, foi criado para ampliar a experiência do fotógrafo Gilberto Perin

Cada um expressou-se sob o estímulo da foto escolhida por ele. Os artistas criaram novas obras através de uma interferência/ apropriação/recriação/estímulo a partir das imagens. Cada fotografia escolhida por um escritor instigou a criação para um conto/poema/texto experimental que surgiu da imaginação dele. É isso que esse livro apresenta: a foto original; mais uma obra recriada a partir dela; e mais um texto a partir da impressão que ela causa em cada um deles.

 

3

Inspirado nessa experiência de transversalidade de conteúdos e com tantos talentos reunidos, o livro “Fotografias para Imaginar” tem também um sentido de prosseguimento com a experiência integrada entre fotografia, texto e obras visuais.

A partir dessa edição, financiada pelo Fumproarte da Secretaria da Cultura da Prefeitura de Porto Alegre, foi criado um projeto para professores trabalharem com alunos na faixa etária de 12 a 17 anos. Suzana Saldanha, atriz e Mestre em Teatro-Educação, sistematizou o projeto para que os professores apliquem nas escolas do ensino fundamental e médio uma oficina teórica-prática onde os participantes serão estimulados a criar a partir de fotos, textos e obras visuais desse livro. O objetivo é instigar a imaginação, a memória, o senso estético e crítico, além de promover a reflexão, discussão e trocas coletivas propiciando a formação de um cidadão consciente e crítico.

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Porto Alegre RS - Gilberto Perin

Porto Alegre, RS | Gilberto Perin

foto 2 (3)

Universo Berta | Denis Siminovich

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Circular | Cíntia Moscovich

 

Na cozinha,

o grande coração da casa

pulsa.

Mãos sábias batem a casca contra a quina,

palpitações redondas de gema e clara,

estremecimentos e estalidos da gordura,

a borda a se tornar franja de ouro moreno.

Há uma festa na frigideira:

ovo frito é um acontecimento.

O caldo grosso dos grãos,

de temperos desabridos,

celebração de cebolas e alhos,

louros e paios,

borbulhas espessas

em sacrifício contra a fome.

No prato esgotado, todas as artérias da casa latejam.

Então, já não a carne descolada dos ossos

virada em tenros fios de substância;

o arroz que veio de ontem

vira sobra num projeto

para a mesa de amanhã.

A escumadeira, aleijada de cabo,

se joga na pia,

desespero de suicídio

na lâmina da espuma.

Na louça suja, bate a esperança saciada da casa.

Os azulejos se perfilam, operantes.

Todos os canos aguardam o jorro da torneira,

redemoinho que se esvai num bafio rançoso

de gordura, cebola e o enjoo de sabão

ordinário.

Amanhã,

a cozinha será de novo coração e artéria,

e todas as fomes serão continuação previsível da vida.

Por agora,

cumpre a tarefa de lavar,

esfregar

e

limpar

para amanhã,

amanhã

e

amanhã

começar tudo de novo,

mais uma vez e

para sempre

esse desespero perpétuo-circular,

essa desgraça em que a boca do fim engole

o rabo

do começo.

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foto 1 (3)

Camaquã, RS | Gilberto Perin

foto 2 (4)

After Dark | André Venzon

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| Luiz Antonio de Assis Brasil

Nenhum vazio o é por inteiro. O vazio é povoado por reminiscências:

coisas ditas, sussurradas, exclamadas e, na maior parte das vezes,

que apenas percorreram o fio do pensamento. Por isso, todo vazio

conta uma história, mesmo o Vazio primordial, do qual tudo surgiu,

era uma história latente, que os séculos preencheram com galáxias e

deram origem a nós, os seres humanos.

O vazio se transforma em drama quando significa também silêncio. O

silêncio é uma das expressões mais versadas na cultura. A música

não existiria se não fosse o silêncio. Os monges retiram-se ao silêncio

penitencial, e mesmo as aves, no vazio da noite, impõem-se horas em

que seu canto fica no aguardo de um novo dia.

Numa sala vazia e silenciosa nos defrontamos com nossa própria

condição, sempre tão precária e incompleta, e é fácil o caminho da

angústia – exceto se um pormenor, por pequeno que seja, o vestígio

de alguém que ali esteve, nos faz reconstruir uma narrativa salvadora.

Então respiramos: não estamos sós.

 

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* Contato: gilbertoperin@hotmail.com

 

A Poesia de Alves de Aquino (O Poeta de Meia-Tigela) e Dércio Braúna

Miravilha – Liriai o campo dos olhos, Alves de Aquino – O Poeta de Meia-Tigela. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2015.

Contato: poetademeiatigela@yahoo.com.br

 

1-4.

PAUL KLEE OU TREVO DE QUATRO DORES

Eu-Poeta em meu Quarto leio rasgo

O que leio à luz cheia de uma lua

Que me vê mas não sabe se sou trasgo

Ou anjo asa postiça da espádua

Eu-Poeta em meu Quarto leio assombro

O que leio à luz prata de uma cheia

Lua que me lê sem saber se sou escombro

Da sombra que me assombra e que se alteia

(Da sombra uma escaleira e nesta Insetos

Aos livros enrastejam se insinuam

Transformando-se em letras alfabetos

Que rerrasgo em vão: eles não recuam)

Eu-Poeta em meu Quarto me desleio

Me rasgo e me releio, luo cheio

5-8.

EU TRAGO UMA PALAVRA ATRAVESSADA

Eu trago uma palavra atravessada

Entre os olhos a mesma que me flecha

(Aguilhão) coração sexo – uma seta

Grã – longitudinal mas cujas farpas

(Sim visto que se trata de farpada

Ságita) se me fincam dos pés à

Fronte. Palavra-áspide molesta

Inteira dentes / ela envenenada

Avonde / sepe feita só de presas

Fera que cresce e de dentro me aperta

Eu trago uma palavra engargantada

Colar de pregos sobre a minha fala

Eu trago uma palavra que me traga

E que seja talvez tu. Talvez sejas

MIRABILIA. MIRAÇÃO

Você me sorri pássaros Me diz

Bálsamos e crisântemos Me ensina

Relâmpagos Me faz sonho raiz

Plantada em nuvem Sândalo neblina

Me transpira poemas tal Hafiz

Me esculpe a face em luz ou vento Assina

Na minh’alma com tinta d’água giz

Assobia azuis sombras opalinas

Me leva a passear em seus quadris

Me perfumam seus olhos Me calcina

Sua presença seu ventre-motriz

Você me voceíza predestina

Me comunga me Francisca de assis

Me sana milagre desassassina

Aridez lavrada pela carne disto, Dércio Braúna. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2015.

 

I

No princípio era a carne.

Havia o paraíso.

Depois

(artefato monumental da carne)

veio o verbo.

VI

No princípio

(e depois,

e depois de depois,

como há de ser)

era a carne e seu aprendizado dessa lavra antiga

de lanho e corte,

de lantejo e dor,

de alimentação e desespero de existir.

IX

O deus de mim só há parido nas paredes dessa

carne aos gritos,

que sente.

A poesia também pode ser isso:

a dor com que durmo lavrado completamente.

 

O Convite de Adélio Amaro*

Convite Único

 

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* Contato: adelio.amaro@gmail.com