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Índex* – Junho, 2015

Uma loba

Do tamanho do 

Universo

Quer me devorar

Por inteiro

E não tenho

Mãos

Para impedir o seu

Desejo

Procuro em mim

Uma fresta de alegria

Por onde possa

Me esgueirar

Por onde tente

Me amparar

E fugir

Do seu encalço

E correr 

Da sua boca

Os dentes

Tão afiados

Irão estraçalhar 

O que (ainda) preservo

Intacto

Ouço o céu

Dos vagalumes

Eles dizem o que 

Eu sou

Eles mostram 

Uma saída

E (ao menos) tateando

E (ao mesmo) retornando

Vou escapando de mim

E da loba

Que em mim habita

(“A loba má e chapeuzinho amarelinho”, Patricia Tenório, 08/06/15, 06h08)

 

“Faça amor, não faça guerra” no Índex de Junho, 2015 do blog de Patricia Tenório.

Três contos de “Vinte e um” | Patricia Tenório (Recife, PE – Brasil).

A música de Marcioney Mike Nascimento (Recife, PE – Brasil).

Duas crônicas de Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

Dois Poemas de Emilson Zorzi (Jundiaí, SP – Brasil). 

Novela-Folhetim “Cambono” – XVLª Parte | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

E os links do mês:

-> Homenagem à escritora Luzilá Gonçalves (Garanhuns, PE – Brasil) no FLIG 2015 – Garanhuns, PE – Brasil:

http://g1.globo.com/pe/caruaru-regiao/noticia/2015/06/homenageada-do-fig-escreve-sobre-dona-da-terra-que-originou-garanhuns

-> Os “Cactos” de Danuza Lima (Recife, PE – Brasil) na coluna PalavraTório do blog Parlatório de Adriano Portela (Recife, PE – Brasil)

http://parlatorio.com/cactos/

Agradeço imensamente a colaboração, a próxima postagem será em 26 de Julho, 2015, um abraço bem grande e até lá,

Patricia Tenório.

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Index* – June, 2015

A female wolf

With the size of  the

Universe

Wants to devour me

Enterely

And I don’t have

Hands

To prevent me from her

Wish

I search in me

A crack of joy

Where I can

Sneak

Where I try to

Hold myself

And escape

From her porsuit

And run 

From her mouth

The teeth

So sharp

They will smash

What I (still) preserv

Intact

I hear the sky

Of fireflies

They say what 

I am

They show 

An exit

And (at least) groping

And (to the same) returning

I will slipping away from me

And the female wolf

That in me dwells

(“The bad female wolf and the yellowing little hat”, Patricia Tenório, 06/08/15, 06h08 a.m.)

“Make love, don’t make war” in the Index of June, 2015 in the blog of Patricia Tenório.

Three short stories from “Twenty one” | Patricia Tenório (Recife, PE – Brasil).

The music from Marcioney Mike Nascimento (Recife, PE – Brasil).

Two chronicles from Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

Two Poems from Emilson Zorzi (Jundiaí, SP – Brasil). 

The Novel-Folhetim “Cambono” – Part XVL | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

And the links of the month:

-> Homage to the writer Luzilá Gonçalves (Garanhuns, PE – Brasil) in the FLIG 2015 – Garanhuns, PE – Brasil:

http://g1.globo.com/pe/caruaru-regiao/noticia/2015/06/homenageada-do-fig-escreve-sobre-dona-da-terra-que-originou-garanhuns

-> The “Cactus” of Danuza Lima (Recife, PE – Brasil) in the  column PalavraTório in the blog Parlatório from Adriano Portela (Recife, PE – Brasil)

http://parlatorio.com/cactos/

Thank you very much from the colaboration, the next post will be on 26th July, 2015, a big hug and see you there,

Patricia Tenório.

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foto 1 (2)

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Todas as cores do Arco-Íris da loba Patricia Tenório… All colors of the Rainbow from the female wolf Patricia Tenório… 

Três contos de “Vinte e um”* | Patricia Tenório**

Alice no espelho

 

Alice ainda não havia se visto no espelho. As duas perninhas sentadas, os bracinhos estendidos até as mãos tocarem as mãos.

Mas que surpresa, o gelado do espelho! O gelado das minhas mãos!

Me levantei devagar, do tamanho das pernas, meio tonta, caminhei de lá para cá. A outra Alice parecia se divertir com o passeio, pois sorria, como se fosse me contar algum segredo.

De repente, papai chegou: a porta era por onde papai chegava e mamãe saía, aprendi. Mas babá não me deixava chegar perto da porta para não me machucar.

O que mais cansava era a espera. E não ser compreendida. Quando chorava pedindo o boneco de borracha para coçar as gengivas dos dentes que teimavam em não nascer, me trocavam a fralda, me davam banho, comida, água, suco. E não adiantava chorar, não adiantava resmungar porque ninguém me entendia.

Gostava quando Pedro vinha brincar. Pedro com os cachos nos cabelos. Até que a mãe de Pedro resolveu os cortar.

– Para engrossar o fio.

Disse a mamãe. Achava bonito o falar da mamãe. Era tão explicado… Ela falava devagar, olhando nos olhos, e dava para entender só olhando para os olhos dela, prestando bem atenção.

Mas a minha boca não acompanhava a boca da mamãe. Mesmo quando me via no espelho, movia os braços, as pernas, a cabeça, mas a boca não falava as palavras da mamãe. Só saía choro e resmungava, e reclamava a dor de não entenderem os aaa, os ooo, a quase palavra que caía pelo chão.

Foi Pedro que falou primeiro, juntou primeiro o mmm e o ããã, e tia Clara chorou, tia Clara abraçava o filho como se o visse pela primeira vez. Pedro olhou para a mãe, olhou para mim e não disse mais nada. Passou o resto da tarde calado de tão assustado.

Eu fiquei muda, sozinha com as minhas palavras silenciosas. Por que elas não falavam? Por que não manifestavam o que eu sentia, o que eu pedia, meu desejo mais profundo? De tanto pedir caí no sono, ali, na sala de visitas, ali, no colo da babá.

E sonhei com um outro espaço. Onde tudo que eu tocava falava por conta própria e eu não precisava mais falar: a cadeira, o sofá, o tapete reclamava todo passo que eu dava. E o Pedro pulava de alegria, pois não ia mais assustar a tia Clara com as palavras que nem mesmo ele quis falar. As coisas por si falavam, as coisas por nós falavam e todos nos entendiam, babá, a cozinheira, tia Clara, mamãe, papai…

Acordei com o bigode de papai me dando beijo. E não sei de onde veio – vai ver foi o sofá, fofinho, bonitinho que juntou o ppp com o ááá, colocou em minha boca, para agradar o papai.

 

Clube de Suicidas

 

No princípio era para ser um clube de suicidas. Se chegava, se cadastrava, pulava do décimo terceiro andar, no décimo terceiro prédio, da avenida Treze de Maio.

Ou nos degraus da escadaria do Cristo Redentor, na frente dos trilhos, o bondinho da floresta, na Tijuca, Santa Tereza, no Palácio do Catete onde Getulio se matou.

Mas se José chegasse, se cadastrasse e pulasse, tudo assim continuaria, tudo assim permaneceria um eterno se matar. Porque José chegou com sonhos, desses que não se vendem, se dão. Desses que não se têm, se imaginam. E alguns dos suicidas, em vez de se jogar, iam lá, bem de mansinho, ouvir os sonhos de José, os sonhos que ele não sabia escrever, só falar; não sabia o porquê, só o lembrar.

E não se esquecia, nenhum dos sonhos se esvaía de sua mente criativa. Que se assustava às vezes de tanto muito pensar, por achar tão reais os personagens, senhores de si e dele mesmo. Mandavam-no caminhar todos os dias, do Flamengo até a Urca, dar comida aos macaquinhos e voltar para o seu lar. Não tinha mais o emprego, pois da noite eles fugiam, os personagens, para no dia atrapalhar, com sono e cansaço, o emprego do José.

Tinha visto de um tudo: cachorro mandando em dono e velhinho abandonado, sentado na barraquinha de coco para o neto obedecer, porque iam aparecer uns amigos em sua casa.

– Vai passear, avô! Que mico eu ter de ter um velho em minha casa…

E José viu o velhinho, sentado, abandonado na barraquinha de coco.

Mas um menino, pixotinho, bonitinho, veio em sua direção. Alisou o rosto, enrugado, tão cansado de falta de amor, respeito e também compreensão. O menino pequenino, como se adivinhando, como se acarinhando o rosto do velhinho e de José, soltou umas palavrinhas sem sentido e ao mesmo tempo tudo se esclareceu, tudo então se converteu num alegre Carnaval.

– O que perde grande é. O último será o primeiro, vovozinho e seu José. Vão contar para o mundo inteiro que o mundo continua, a vida não acabou…

… E o sonho é de quem sonha, mas também de quem acredita, e insiste, e desiste de chegar, se cadastrar, e pular do décimo terceiro prédio, da avenida Treze de Maio, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

 

Vinte e um

 

Ele perguntou o que era terça;

ela, perigosamente, não respondeu.

 

O que não se sabe sobre os terroristas é que eles levam uma vida perfeitamente normal. Se apaixonam, desiludem, se iludem com as promessas de vida eterna e dezenas de virgens flutuantes.

Oham sabia das virgens, cria nas virgens como ao próprio corpo armado, coberto com a túnica preta e o turbante branco. O que Oham não sabia era que uma das virgens atravessava o seu espaço no exato instante em que iria disparar as bombas.

– O senhor sabe quando é terça?

Ela lhe perguntou. Com tantos ao redor. Com olhos de pantera, ela perguntou. Será que sabia? Será que lhe adivinhou?

Yasmine era filha única, neta única de marajá. Ela poderia estar em casa, com as tantas amas, os muitos escravos, a pensar em nada, a não pensar. Mas para que deixar de viver a vida, experimentar a vida no seu sabor, nos aromas, no calor do mercado, o colorido das especiarias, que sabor tem o açafrão para Yasmine?

– O que tem na terça-feira?

O rapaz lhe perguntou. O rapaz de olhos vivos, mais vivos que os seus, mais vida nos lábios grossos e os dentes de marfim, o turbante branco emoldurando o rosto, a túnica preta cobrindo o corpo alto, esguio.

Ele não desconfiou que o perigo ali se achava. Naqueles dedos finos. Naquele véu de púrpura. Os olhos de pantera adentravam os olhos seus, sondavam a alma por mistérios, e ali, no centro, no âmago do espaço seu, Yasmine o desvendou, Yasmine lhe sentiu a cintura, sentiu as bombas, o disparador.

– O que tem na terça-feira?

– É o dia.

– O dia?

– Do meu aniversário.

– Quantos anos?

– Vinte e um.

– Também tenho vinte e um.

– Por que então as bombas?

– Por que então o véu de púrpura?

Yasmine ali sentou. No chão. Na calçada do mercado. Onde Oham já devia ter disparado, já devia ter se entregado à vida eterna e às virgens prometidas.

Mas as lágrimas de Yasmine o atraíram para o chão. Na calçada do mercado. Tocou a mão de Yasmine. Ela não se esquivou. E assim permaneceram, o tempo da explosão, o tempo da fuga de casa de Yasmine, do paraíso de Oham.

Porque, se quiser, se vive tantas possibilidades, muitas vidas, muitas virgens num mesmo instante, num mesmo toque, num único beijo da virgem Yasmine e do homem-bomba Oham.

 

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* Vinte e um é uma coleção de vinte e um textos inéditos escritos entre 2010 e 2013 por Patricia Tenório.

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente (2015) se prepara para defender a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE com o projeto O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: Um Romance Indicial, Agostiniano e Prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino.  Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

A música de Marcioney Mike Nascimento*

https://www.facebook.com/bruno.malungo/videos/826558894085259/?autoplay_reason=ugc_default_allowed

“Bruno Malungo – Seguindo teus passos”

COMPOSIÇÃO: Bruno Malungo
BAIXO ACÚSTICO: Mike Drums
CAJON: Junior Nascimento
VOZ E VIOLÃO: Bruno Malungo

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* Contato: +55 81 99841-3650

Duas crônicas de Mara Narciso*

Ebulição

13 de junho de 2015

O menino é engraçadinho, pele clara, cabelos anelados, jeito de anjinho, mas só o jeito. Em todos os lugares aonde chega, embora tenha três anos, causa estranheza e sustos sequenciais. Naturalmente surge sentimento de rejeição em quem está perto. A antipatia atinge crianças e adultos. Ainda que corra de um lado ao outro com carinha sorridente, com extroversão e falta de censura próprios da idade, vai perturbando o ambiente e angariando sentimentos negativos. A velocidade da sua movimentação preocupa. A destruição que acarreta desaponta. Quem pode, tira seus pertences da frente, num gesto de proteger o que é seu. O natural é reparar a anormalidade acelerada e sem lógica, avançando em cima de tudo que encontra, quebrando, jogando no chão, numa interminável corrida ao impossível, indo e voltando sem parar.

Uma passada de olhos capta o cansaço da mãe, que, no mesmo ritmo do filho procura acompanhá-lo, cercando seus desatinos, segurando de cá, pegando no colo acolá, numa manifestação de eterno segundo lugar, pois jamais chegará antes dele. Algumas vezes chega junto. Poucos entenderão a sua luta, mesmo que compreendam que a criança tem um problema de comportamento. Raros haverão de se solidarizar. A maioria lançará pedras em direção à mãe, acusando-a de não conseguir controlar a amplidão de movimentos do filho, um corredor atípico.

Cai e se machuca de instante em instante, pelo exagero dos passos acelerados e maiores do que as pernas. Por isso mesmo desaba. Bate a cabeça nas quinas, em curto espaço de tempo. Desconhece os desníveis e perigos de cair num buraco ou numa escada. As mãos se agitam no ar, antes mesmo de alcançar o objetivo que ele nem sabe qual será. A curiosidade é do tamanho do mundo e o medo inexiste. Avança velozmente sobre tudo, numa ânsia inexplicável de experimentar a vida instantaneamente, antes que alguém o segure e o impeça de perceber com a ponta dos dedos. A sua maneira de viver em alta velocidade gera uma aventura alucinante. Para ele e sua mãe.

Pegar algo para abandoná-lo no momento seguinte, como se a conquista fosse primordial, e mantê-la, dispensável. Assim se dá a desconstrução do local em que está. Há sempre coisas para conhecer nesse mundo grande. Então, vai enlarguecendo suas fronteiras, querendo outra coisa adiante. Age como um conquistador dos sete mares, que deseja ter algo, mas tendo-o já não o quer mais e o abandona para seguir viagem. Olhando um menino assim, fica-se a imaginar o que se passa em sua mente, e como são seus pensamentos. Devem ser tão rápidos quanto a sua ação exteriorizada, e se não for muito bem olhado se acidenta grave. Até morre. Precisa ter sua mão agarrada o tempo todo.

Quando vai crescendo, e perde a graça, os poucos que lhe eram condescendentes abandonam essa postura e receitam pancada. Alguns se atrevem a sugerir esta ou aquela atitude, criticando a mãe por não bater o suficiente para domá-lo. São ingênuas e inúteis ideias. Tal menino é indomável. A medicina fala que ele tem TDAH, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, caracterizado por déficit de atenção, impulsividade e hiperatividade. Há setores da Psiquiatria que negam a sua existência, e afirmam tratar-se de criação de Indústria Farmacêutica, que, de forma imoral quer vender Ritalina (metilfenidato). Provam que isso não existe nem no Japão e nem na França. Contestada ou não, a correria perdura até entrar e avançar na puberdade. Os problemas sociais e as perdas pessoais continuam. O fracasso escolar é a norma.

Uma mulher me contou que o filho de dez anos apanhava do pai, que fazer dever era uma tortura, que na escola não escrevia nada, mas que nas provas orais tirava boa nota. Caminhava o tempo todo e mal conseguia ficar na sala de aulas. Era hostilizado pelos colegas que o provocavam, e ele revidava, chegando machucado em casa. A inteligência era acima da média, e sofria muito com os apelidos de burro, de doido, e outros. Que eu não poderia imaginar o sofrimento que era aquilo.

Engana-se. Eu sei o que é isso. Trago duas histórias, a minha experiência como mãe de filho hiperativo, que hoje tem 31 anos de idade, descrita inicialmente, e a outra. Quem não acredita nessa doença inventada para vender remédio, que traga uma solução. Eu encontrei um caminho conhecendo, amando, cuidando, compreendendo, segurando a mão, levantando bandeiras, alertando, mostrando aos outros a minha experiência. O tratamento começou aos dois anos de idade e dura até hoje. Ter um filho hiperativo é como receber uma bomba a ser detonada num momento incerto. Há tempo de gritar e se descabelar, mas o custo e o cansaço compensam.

 

Aproxima quem está longe e afasta quem está perto

20 de junho de 2015

Culpa antes creditada a televisão, há tempos a internet é acusada de acabar com a conversa na sala ou à mesa do jantar. Ou na rua e até no bar. Também a rede fez aumentar o número de escritores e reduzir o de leitores. Apenas textos curtos são lidos. Passou de um parágrafo, poucos se atrevem a ir até o fim. Cada época com seus costumes e há 20 anos foi criada a primeira rede social, ClassMates nos Estados Unidos e Canadá, para reunir colegas. Seguiram-se Friendster, MySpace (2003) e LinkedIn. Depois vieram Orkut (extinto) e Facebook em 2004. O Youtube começou em 2005 para receber vídeos e o Twitter com mensagens de 140 caracteres em 2006. O Whatsapp, propriedade do Facebook, foi criado em 2009. No Brasil, 83% dos internautas estão no Facebook e 58% no Whatsapp (dados do governo em 2015).

Desde 1993 vejo pessoas da minha família conectadas à internet, surfando e falando ser uma maravilha esta ferramenta de comunicação instantânea. Entrei em 2000 e comecei a fazer amigos virtuais no chat Terra em 2001. Estive em redes sociais das quais perdi a senha e o nome, participei do Orkut e hoje estou no Twitter, Google, Facebook e Whatsapp. Desde fevereiro de 2015 foi criado no Whatsapp o grupo Família Narciso para aproximar pessoas da segunda à quarta geração, filhos, netos e bisnetos de Petronilho Narciso. A lista telefônica da agenda migra automaticamente quando se faz o download do programa, mas para entrar no grupo é preciso solicitar ao moderador.

No momento, somos 42 e a opinião geral é de que está sendo uma agradável experiência. De cinco da manhã, – os madrugadores acordam o galo-, e até depois de meia noite os fãs do corujão estão dando notícias. Não nos afastamos completamente, mas os netos e bisnetos dos tios, já estavam meio distantes, e este grupo está propiciando conhecer melhor os primos e recriar laços de afeto e amizade. No momento não há quem more no exterior, pois quem lá esteve já voltou. As viagens para fora do país são frequentes, dado o alto número de pessoas, gerações diferentes, interesses múltiplos, o que torna a troca de informações dinâmica e útil.

No sentido norte sul há quem more no Oiapoque (Amapá) e Açailândia (Maranhão) e quem more em Florianópolis (Santa Catarina). No sentido leste oeste, há quem resida no estado de São Paulo e em Minas Gerais. Boa parte está em Montes Claros, para onde meu avô se mudou rapazinho. A comunicação a cada momento leva o grupo para vários lugares através de textos, fotos, áudios e vídeos. Nos dias mais movimentados em uma hora podem chegar dezenas de mensagens. É preciso tirar o som de aviso, senão ninguém trabalha. Apenas a luzinha fica piscando.

Melhor enviar mensagens curtas. Por escrito, é preciso ter cautela e não levar ao pé da letra. É preferível não procurar nas entrelinhas. O texto digitado não tem entonação, e pode causar mal-entendidos. O melhor é escrever com clareza, e não retrucar. Tem dado certo. Esta regra vale não só para a família de sangue como também para outros contatos. A educação e a compostura precisam valer, e o que se faz online repercute na vida real. No caso do nosso grupo familiar tem sido benéfico na alegria e na tristeza e quando o assunto pede sigilo, fala-se no reservado.

Pode-se viajar graciosamente e comer com os olhos nas fotos postadas. O curioso é que a vida dos outros parece mais interessante do que a nossa, num dado momento. Esta proximidade gera alegrias (até euforia com as conquistas alheias) e preocupação com provas, testes, exames médicos, doenças e mortes. Em todas as situações é melhor participar e repartir. A solidariedade conforta, acalenta e torna-se colo. Isso nos tem propiciado maior proximidade, afeto e aconchego. E quando a reunião é ao vivo, sente-se maior acolhida por se estar a par das informações mais importantes. Alerto para que o uso seja racional (alguém sabe o que seja isto?), para não cair no efeito colateral mais frequente da internet: afastar quem a gente ama, por falta de tempo de se olhar nos olhos, afagar os cabelos, abraçar. Tudo dividido é melhor. Especialmente pele com pele.

 

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* Contato: yanmar@terra.com.br

Dois Poemas de Emilson Zorzi*

“Giz (porque deixa marcas na mão)”

Giz, me diz
na calçada o que me trás
antes que o tempo.
pelo tempo
de feliz, traga tormento
e da tempestade,
aliás, lilás,
escreva em garrafais
o que os náufragos
deixam em garrafas e nada mais.

14/06/2015

 

As Contas de Maria

Maria não era mulher de contar história,
fazer de conta,
talvez, o máximo que podia,
era contar números,
aqueles, já íntimos que sabia de cor contar nos dedos.
Maria, além, era bordadeira,
costureira,
pregava as contas em seus vestidos
e arrematava-as com certeza de quantas deveria pregar,
conta de cabeça.
Era exímia pregadora,
da bíblia, nem se fala.
Acreditava em Deus, desde pequena,
pelos vários contos, santos,
que despejavam em seus ouvidos.
Aprendeu a acreditar,
creditava votos de fé,
como se precisasse pagar alguma conta.
Maria não fazia de conta, as contas que eram feitas por Maria,
que não se dava conta da mulher que é,
que prega,
conta,
canta
enquanto sonha, cansada.
Maria, mulher de muitos contos,
não de réis,
nem de reis,
nem de príncipes,
nem de sapos.
Maria, igual a não todas as Marias
única mão
de tantas já quantas,
filhas de Alzira
mãe de Maria e de tantas outras santas.

2006

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* Contato: epzz.zorzi@ig.com.br

Novela-Folhetim “Cambono” – XLVª Parte | Clauder Arcanjo*

Cambono Conselheiro

21/06/2015

Para Raimundo Carrero

 

Cidade pequena adora calçada e conversa fiada. Licânia não era diferente de nenhuma outra. Tinha suas veleidades, entretanto. Uma delas: nunca falava sem motivo, asseveravam as pias Filhas de Maria, a tricotarem o fio da vida alheia nas calçadas varridas pelo frescor do aracati.

Muito bem, após o retorno do esquadrão de busca a Cambono, capitaneado pelo valoroso Cabo Jacinto Gamão, correu uma ventania de fuxico brabo pelas ribeiras do Acaraú.

— O cabra virou santo!

— Dizem que come menos do que um beija-flor, mas permanece forte feito um touro.

— Quem vai lá não volta o mesmo. Olha como anda sem beber nenhuma carraspana o Zé Aguiar! Logo ele que entornava todas: um pé de cana dos diabos. Um verdadeiro milagre! E dos grandes.

— E o Cabo Jacinto? O sujeitinho anda uma moça de tão delicado. Nunca mais desceu o seu cacete de juá no lombo de seu ninguém. Sabiam?

Enfim, Cambono era assunto de igreja, de praça, de cabaré e de todas as rodas. Quer dos partidários dos pimbas-pretas, quer dos pimbas-brancas.

João Américo, sempre metido no seu paletó de vetusta racionalidade, resolveu discorrer acerca do singular fenômeno.

Antes, ele pediu uma pinga, limpou a garganta, para, em seguida, despejar a sua tonitruante e hiperbólica verborragia pseudo-acadêmica:

— O caso é digno de uma banca de Harvard. Sociologia, metida com a Filosofia, a Teologia e a Antropologia, tudo é matéria pouca para explicar o que se sucede. No entanto, vejamos, eu formulei a minha tese. Não sem antes pisar, e repisar, várias hipóteses.

De repente, calou-se, limpando, lentamente, a boca seca com o seu lenço branco de cambraia. Num longo e espichado meio minuto.

Apenas e tão somente com o fito de que a plateia reclamasse, e clamasse, a sua continuação.

— Vamos, João Américo, tira por dentro! Despeja logo, vai! — clamou, de olhos acesos e inquietos, o Paulino Marlley.

— Prevejo tempos negros no nosso amanhã. Apocalípticos tempos! — praguejava Zé Funéreo.

— Cala esta boca, filhote de coveiro! — gritou um gaiato, escondido lá no meio da mundiça.

— A morte nunca foi a pior das coisas nesta nossa vida tão Severina! — defendeu, pela trocentésima vez, Zé Funéreo.

João Américo, preocupado com o rumo da prosa, cuidou de segurá-la pelo cabresto:

— Vocês querem ou não querem saber da minha teoria camboniana?

Os curiosos deram um chega pra lá no Zé Funéreo e bradaram:

— Queremos! Lógico que nós queremos.

— Bem. Muuuuuuito bem! Como discorria antes, quando fui sumária e funereamente interrompido, as ciências, quer no terreno das Humanidades, quer no império das Exatas, foram dissecadas por mim. Melhor, palmilhadas. Com arte e engenho, diga-se, camonianamente, a bem da verdade.

— Tira por dentro, João Américo! Havia, despeja logo, vai! — protestou, a um palmo de uma crise apoplética, o Paulino Marlley.

João Américo, treinado e escolado no campo do suspense, deu duas voltas em torno de si, andou com as mãos para trás um dois passos para a esquerda e dois para a direita, voltando ao centro da assistência. Quando a curiosidade fervia, quase em ponto de ebulição, ele despejou:

— Não há em mim a menor dúvida. Temos um novo missionário em nosso sertão. No passado, existiram vários. O mais famoso, protagonista da obra-prima de Euclides da Cunha, foi Antônio Conselheiro. Pois, muito bem, Licânia entrará para a história como pátria de Cambono Conselheiro.

João Américo soltou a conclusão, deu as costas e saiu.

Um vento frito correu nas copas das carnaubeiras da praça, os benjamins despejaram suas flores amarelas sobre os presentes e, pouco depois, uma rasga-mortalha cortou os ares, com o seu agourento anúncio, rasgo de pavor e medo.

A plateia arrepiou-se. Dizem que os mais frouxos se urinaram. E os mais corajosos trincaram os dentes, correndo, mais do que depressa, no rumo de casa.

Foi uma noite longa e esquisita. Tão esquisita que ninguém compareceu ao Caneco Amassado; as putas, por conseguinte, dormiram cedo, pois não tiveram freguesia.

Na manhã seguinte, uma multidão foi vista se dirigindo à caverna de Cambono. Na sua grande maioria, aleijados, pobres e flagelados. Seres destituídos de esperança, fraquejados pelas inclemências do clima e pela falta de piedade dos mais favorecidos. Firmes sob o sol severo, a renovarem as últimas forças naquele caminhar.

Quando chegaram à caverna prometida, ajoelharam-se. Com pouco entoaram um canto gutural, mais gemido do que canto.

Meia hora depois, Cambono, portando o seu cajado, com sua aura de esperança, surgiu.

— O que traz vocês até aqui, meus irmãos? — falava numa brandura de quem se fizera abençoado.

Um a um, todos os presentes ajoelharam-se.

Uma nuvem temporã cobriu todos os presentes, ao tempo em que vários pássaros chilreavam, como se festejando a antecipação do inverno naquele árido chão.

Cambono caminhou entre eles, silenciosamente, assustado com tanto sofrimento daquele povo.

Abriu os braços, elevou as mãos para os céus e, num grito de revolta e chamamento, rogou:

— Senhor, Senhor?… Onde estás que não respondes?

A noite caiu, e uma chuva grossa lavou a todos, espécie de bênção divinal.

Com aquele batismo, Cambono se fez santo.

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* Contato: clauderarcanjo@gmail.com