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Índex* – Maio, 2015

Eu descobri

(Tão) simples

Assim

Que gosto mesmo

(É) mais de

Mim

Hoje em dia

Chamam de egoísmo

O que seria 

Individualismo sadio

(Em outros tempos)

Quando eu era

Menina

Ouvia da aeromoça

A filosofia de avião:

De que só ajudasse 

Ao outro

A colocar a (própria)

Máscara

Quando a si mesmo

Colocar

Quando a si mesmo

Amar

Para ao outro poder 

Como a si mesmo

Amar

E a si mesmo

Amar

E a si…

(“Voo 727 e outras histórias”, Patricia Tenório, 24/05/15, 16h15)

Amar ao próximo como a si mesmo no Índex de Maio, 2015 do blog de Patricia Tenório.

“Eu, comigo e Deus” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

A ceia e outras histórias | Conceição Alves (PE – Brasil).

Nas pontas dos pés | Antonio Fabiano (PB/SP – Brasil).

Nova Crônica de Marly Mota (PE – Brasil).

“Durmo beija-flor e acordo sempre-viva” | Mara Narciso (MG – Brasil).

XIX Jornada de Estudos e Lançamento Revista Veredas Nº 17 (PE – Brasil).

E os links do mês:

“Biografia de um homem comum”, de Luiz Rufatto (SP – Brasil), na coluna Brasil do El País: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/29/opinion/1430319907_540182.html

“Transe Encontro”, de Danuza Lima (PE – Brasil), na coluna PalavraTório do blog de Adriano Portela (PE – Brasil) Parlatório: http://parlatorio.com/transe-encontro/

Agradeço a participação de todos e todas. A próxima postagem será em 28 de Junho de 2015. Um abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Tenório.

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Index* – May, 2015

I discovered

(So) simple

Indeed

I like more

(It’s) more of

Me

Nowadays

They call selfshiness

What it could be called 

Healthy individualism

(In other days)

When I was a

Little girl

I’ve heard from the stewardess

The philosophy of the plane:

That one only helped

Another 

To put the (own)

Mask

When yourself

Put

When yourself

Love

To another can 

As to yourself

Love

And to yourself

Love

And to you…

(“Flight 727 and other stories”, Patricia Tenório, 05/24//15, 4h15 p.m.)

Love another as to yourself in the Index of May, 2015 in the blog of Patricia Tenório.

“Me, myself and God” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

The supper and other stories | Conceição Alves (PE – Brasil).

On the tiptoe | Antonio Fabiano (PB/SP – Brasil).

New Chronicle of Marly Mota (PE – Brasil).

“I sleep hummingbird and wake up evergreen” | Mara Narciso (MG – Brasil).

XIX Jorney of Studies and Launching of Magazine Veredas N. 17 (PE – Brasil).

Ant the links of the month:

“Biography of an ordinary man”, from Luiz Rufatto (SP – Brasil), in the column Brasil of El País: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/29/opinion/1430319907_540182.html

“Trance Meeting”, from Danuza Lima (PE – Brasil), in the column PalavraTório in the blog of Adriano Portela (PE – Brasil) Parlatório: http://parlatorio.com/transe-encontro/

Thank you for the participation of everyone. The next post will be on 28th June, 2015. A big hug and see you there,

Patricia Tenório.

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foto Index

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Um novo dia, para amar ao outro, como a si mesmo… Another day, to love another, as to yourself…

“Eu, comigo e Deus” | Patricia Tenório*

16/01/14

 

Ficava em 20, Maresfield Gardens, num subúrbio de Londres. Vindo de metrô, descia na estação de Hampstead Northern, atravessava a rua e subia uma ladeira. Me perdi duas vezes até encontrar a placa da casa-museu, uma casa de dois andares, tipicamente inglesa. A rua estava calma, com as folhas das árvores levitando pelo chão.

Ao entrar, encontrei uma senhora, bem velhinha, que vendia os bilhetes e souvenirs. Ela me disse que não podia fotografar, mas me chamou a um canto da loja e perguntou:

– Quer ver onde Freud encontrou Deus?

Parei um instante com a pergunta. Poderia ficar séculos remoendo em minha mente uma resposta digna de meus estudos, digna da lucidez, digna de…

– Não acredito em Deus.

Ela me olhou de mansinho. Passou a mão enrugada no meu rosto jovem. Puxou-me pelo braço.

– Venha mesmo assim.

Eu não sabia se ia ou corria embora. Mas resolvi arriscar, e resolvi caminhar pelo pequeno jardim, e me sentei em uma das espreguiçadeiras, onde um dia sentou Freud com o suposto visitante.

– Foi aqui.

Ela me deixou a sós. A sós com meus pensamentos. A sós com a possibilidade de ser Freud algum dia, um dia de verão londrino, sentando numa espreguiçadeira, com uma jarra de limonada rósea na mesa ao lado.

– Deus está aqui.

Freud se engasgou com o gelo da limonada rósea quando a moça (que será uma velhinha) trouxe um senhor de barba branca, comprida, para sentar na outra espreguiçadeira.

Ficaram os dois fazendo ninho em suas barbas brancas. “Então, assim que era Deus?”, pensou Freud, ele e os seus pensamentos que não paravam de pensar.

– Sim, sou mesmo assim. Ou de outra forma qualquer. Mas quis te aparecer como ao povo judeu, judeu que tu és.

– … produto da minha imaginação…

– Herança da tua fé.

Freud serviu-se de mais limonada. Serviu também a Deus.

– Aceita?

– Obrigado.

– Mas, ao que devo a visita?

– Tu deves saber.

– Não sei.

– Adivinha.

– Não sou bom com jogos.

– Mas desvendas estórias.

A limonada estava doce demais. Freud serviu-se de algumas pedras de gelo.

– Algum de seus filhos.

– O maior de todos.

– O Cristo?

– Exatamente. Há séculos me atormenta um fato. Por isso vim aqui falar contigo.

– Sou todo ouvidos.

– O Horto das Oliveiras.

– O Horto das Oliveiras… Da grande angústia… O suor de sangue…

– Teria ele vacilado? Será que ali meu filho, meu grande filho, o maior de todos, me traiu?

– Por que me pergunta isso? Pelo que dizem, você sabe de tudo…

– Mas eu quero saber o que tu pensas.

– Você sabe o que eu penso…

– Quero ouvir-te falar.

Freud se levantou da espreguiçadeira. Eram duas cadeiras espreguiçadeiras pintadas de branco. Antes, porém, eram na madeira, sem pintura, com apenas uma camada de verniz.

– Se eu acreditasse em você – disse Freud caminhando pelo jardim, em um típico dia de verão londrino –, eu diria que seu filho não o traiu. Aliás, nunca ele foi mais fiel do que naquele momento em que, suando sangue, antecipando tudo o que iria sofrer num futuro próximo, bem próximo, pediu “Pai, afasta de mim este cálice de amargura”, para, logo em seguida, voltar atrás e dizer “Que seja feita a tua vontade, e não a minha”.

– Mas tu não acreditas em mim.

Freud tirou do bolso uma pequena caixa de charutos.

– Aceita?

– Não, obrigado.

Acendeu o charuto, deu uns cinco passos e voltou a sentar na espreguiçadeira.

– Eu diria que ele não o traiu. As circunstâncias eram propícias para que desistisse: ele sabia que os amigos o abandonariam, que seria torturado e morto, o que tinha a seu favor? Até hoje me pergunto: “O que tinha a seu favor?” Um louco alemão que extermina judeus feito ele? Que por isso precisou fugir para a Inglaterra? Um câncer na boca que o impediria de falar? Um futuro mais que incerto, com dissidências entre os seus seguidores, julgamentos cretinos dos seus estudiosos? Não, não, ele não o traiu. Ele permaneceu coeso, coerente, com toda a sua humanidade, continuou escrevendo e fumando o seu charuto, e vivendo o restante da vida que ainda possuía.

A conversa estava fluindo bem quando a moça (que um dia será uma velhinha) interrompeu.

– Tem um rapaz, barbudo, cabelos longos, querendo falar com os senhores.

– Arrá! Agora vai ficar interessante, “Deus”! ‒ Freud fez o gesto de aspas.

Deus deu de ombros.

– Pode mandar o rapaz entrar, Fräulein, e traga mais uma cadeira para ele.

O jovem, barbudo, cabelos longos, atravessando o jardim lentamente, conversando com a moça, que seria velha um dia, explicando a diferença entre as margaridas e os girassóis, acompanhando o voo das borboletas.

Ao se aproximar de Deus e Freud, o jovem parou. Cumprimentou Deus com a cabeça. Olhou diretamente para Freud e falou:

– Prazer, sou o Cristo.

– Prazer, Sigmund Freud.

A espreguiçadeira devidamente arranjada, a limonada rósea servida.

– Bonita casa, Sigmund.

– Obrigado, Cristo, gentileza sua.

De repente, Freud começou a rir. Ria balançando os óculos, balançando o charuto, fazendo as cinzas caírem na grama bem aparada do jardim de verão londrino.

– Só falta agora o Espírito Santo!

– Mas ele já está aqui, Sigmund. Lembre-se, “Onde dois ou mais estiverem reunidos…”.

– E sua santa Mãe?

– Freud…

– Desculpe, Deus, mas não pude resistir… É tão hilário, tão absurdo! Ter vocês aqui! Os dois. Quer dizer, os três.

– Não acredita, não é, Sigmund? Quer ver minhas chagas, feito Tomé?

– Acredito no poder da mente, oh, Cristo. Acredito no poder da minha imaginação, que viaja quase dois mil anos para conversar com você e com seu pai, graças ao “Espírito Santo” – Freud com as aspas nos dedos.

Ficaram os três se entreolhando: Freud, Deus e Cristo. O Espírito Santo deveria estar protegendo o lugar, pois ninguém mais chegou e interrompeu o colóquio divino-humano.

– Mas como você ia dizendo, Deus…

– Não, eras tu quem transcorria sobre a não traição do meu filho, o maior de todos.

– Obrigado, Pai.

– Mas por que me pergunta, se ele está aqui? Ele próprio pode responder.

– Mas ele já respondeu com a própria vida. Basta.

– Sigmund, queremos saber o que você pensa.

– Mas vocês o sabem!

– Será?

– E não seria? Se vocês forem quem dizem que são e fazem o que dizem que fazem, decerto possuem a minha resposta. A propósito, como conseguiram chegar aqui e entrar com tanta facilidade? Fräulein é muito desconfiada com visitas… Entendam, o meu caso é muito delicado. Estou numa posição em que todos querem saber o que penso: o que penso de Hitler, dos campos de concentração, da mente humana, dos sonhos, de jovens escritores que um dia virão aqui visitar esta mesma casa, atravessar o mesmo jardim, e (talvez) quem sabe sentar nesta cadeira com seu bloco de anotações, caneta em punho e fazer surgir palavras – desconexas, a princípio –, mas que em seguida irão se conectando, e congruindo, e se mostrando lúcidas e coerentes. Acredito nessas palavras, nessas, eu acredito. Acredito porque foram ruminadas, e ficaram rondando e rodando a cabeça jovem sem dar explicações, simplesmente existindo. Até que o toque de uma pessoa amada, o sorriso de uma criança, ou apenas um dia de verão londrino, entre margaridas e girassóis, as borboletas em seu voo solitário, até que um desses elementos extraordinários da vida trouxesse à tona o sentido dessas palavras. O sentido que as aproximou do seu centro, e nada mais importava para quem escrevia, porque ao centro chegou.

A senhora bem velhinha tocou no meu ombro.

– Faltam dez minutos para o museu fechar.

Fiquei assim, sem palavras, meu corpo, sem movimento, porque estive eu, comigo e Deus durante a tarde inteira e não senti a tarde passar. Como se o passado, o presente e o futuro houvessem se fundido em um tempo só, e como se os personagens tivessem preenchido meu corpo, ao mesmo tempo.

Então, tempo e espaço me coabitaram. Ou melhor, tempos e personagens. Porque fui Deus, Freud e Cristo, fui o Espírito Santo entre eles.

Minhas mãos tremiam, e muito me custou juntar o bloco de anotações, a caneta, a mochila. As pernas também estavam bambas, e foi com dificuldade que me levantei e me apoiei na senhora bem velhinha para atravessar o jardim, a loja de souvenirs, a casa-museu de dois andares e chegar até a porta do 20, Maresfield Gardens.

A velhinha me acenou em despedida. Parecia mais jovem do que eu, eu que havia envelhecido séculos em uma tarde.

Ao me lembrar disso tudo, hoje, eu, com meus filhos e netos, sinto como se o tempo não houvesse passado, ou como se houvesse passado tão rápido que estivesse próxima a hora do reencontro com os personagens, no mesmo jardim inglês, naquelas espreguiçadeiras brancas.

– Vejam, ainda guardo comigo a ponta do charuto de Freud!

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* Patricia Gonçalves Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa (outubro de 2013). Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente (2015) se prepara para defender a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE com o projeto O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino.  Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

A ceia e outras histórias* | Conceição Alves**

A Arte de Narrar

O ser humano, desde os seus primórdios, sempre se apresentou como aquele que tem, por fundamento ontológico, a necessidade de narrar, de transmitir sua história e experiências ao longo da vida.

Em tempos remotos, anterior à escrita, no interior das grutas, na superfície das rochas, o homem primitivo nos deixou o testemunho de sua passagem pela Terra, pintando seu cotidiano, na forma mais rudimentar, utilizando-se do recurso às imagens para se comunicar.

Com a invenção da imprensa alcança-se, definitivamente a possibilidade de se divulgar, para um número maior de leitores, as informações e fatos de nossa história como também esse modo singular de fazer arte através da escrita, que é a Literatura. Contar uma história da vida real ou do mundo imaginário da ficção, sob as mais diversas formas de narrar; crônica, conto, novela, romance. Um fato histórico, a saga de uma família, uma biografia, a cena de um crime, uma história de amor e muitas outras.

O ser humano sempre foi um contador de histórias, motivado por uma intensa e profunda necessidade de comunicação, através desses diversos caminhos e estilos encontrados pelos escritores para transmitir pensamentos, emoções, sonhos e fantasias.

Todas as histórias, que alguém contou, viveram, como a vida da história, por centenas de anos ou tempo algum (as que ninguém contou).

Aquelas que resolvemos contar emergem do mais profundo do nosso coração e foram guardadas ao longo de uma existência, à espera da oportunidade que nos damos quando narramos. Histórias vivenciadas ou escutadas, e também as que foram contadas pelos que se foram deste mundo sem registrar sua identidade permanecendo no anonimato.

 

A novela e o conto curto

A diferença entre um relato curto (conto) e uma novela reside no seguinte: um relato curto pode tratar de um crime; uma novela trata do criminoso, e os feitos derivam de uma estrutura psicológica que o escritor terá descrito previamente. Por conseguinte, essa diferença entre os dois tipos de relatos não é muito grande; por exemplo, um escritor pode escrever um conto longo e publicar como uma “novela curta” e mais tarde, uma editora qualquer publicar como “relato longo”, ou um conto. Por exemplo, a maioria dos contos de Machado de Assis é longa e muitos chamam de novela. Isso significa que a literatura tem essa liberdade.

De um modo geral, as novelas cumprem uma condição que não se encontra nos relatos curtos: o requisito de que o leitor simpatize ou se familiarize a tal ponto com o protagonista que se sinta impulsionado a acreditar que faria o mesmo em suas circunstâncias ou, no caso da narrativa evasiva, que gostaria de fazer o mesmo. Em conto curto não é necessário criar tal identificação, primeiro por não haver espaço suficiente para proporcionar tantos dados; segundo como se põe a ênfase nos feitos e não no autor dos mesmos, carece realmente de importância – dentro de alguns limites razoáveis, obviamente – quem é o criminoso. Dessa forma, conhecem-se os protagonistas por seus atos; e numa novela ocorre o contrário, descrevem-se os personagens e depois fazem algo pessoal, devirado de sua natureza individual.

 

A Ceia

Nove horas da manhã. Desde o dia anterior encolheram-se num canto. Não o olhavam, não olhava para ninguém. Mesmo quando escolhido para morrer, seus algozes nunca imaginariam nele qualquer anseio. Estava ali parado, a espera da morte certa e com horário definido. A faca sendo amolada numa pedra para cortar-lhe o pescoço.

Nove e quinze. O fim se aproxima e aquela ansiedade aumenta. Pulo em pulo, os pés amarrados. Cai para o quintal do vizinho e com mais um esforço desesperado consegue soltar um dos pés. Livra-se das amarras. Corre, corre. Assim vai percorrendo toda a vizinhança até desaparecer mato adentro numa luta selvagem pela vida.

Tinha que decidir por si mesmo os caminhos a tomar. Sozinho, corria mudo e concentrado. Às vezes, naquela fuga desatinada, descansava por trás de alguma moita, ofegante. Tinha tempo de se refazer e por uns instantes parecia livre.

Ouvia um grande barulho atrás de si. Parou mais uma vez para gozar a fuga. Crianças corriam numa algazarra só. Uma intensa competição:

– Pega ele aí! Vamos ver quem alcança primeiro!

Caiu num buraco e levantou-se. Sumiu novamente.

– Olha ele ali, atrás daquela moita.

– Pega! Pega!

– Conseguimos!

Exclamaram os que acompanharam a caçada. Eram mais de quinze.

 

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Extraídos de A ceia e outras histórias. Conceição Alves. Recife: Ed. do Autor, Impressão CEPE, 2015.

** Contato: mconceicaolima@hotmail.com

Nas pontas dos pés* | Antonio Fabiano**

O Bailarino

Com as pontas dos pés

O bailarino tocava as copas das árvores.

O bailarino girava

Vestido de lua e vento

Sob o céu noturno

De milhões de olhos acesos.

Deslizava como dedos

Ao piano

Em sonata de Chopin.

O bailarino bailava

Sob a luz

Da esbugalhada lua

Sob o riso

De um asteroide

– risco –

Astros vivos e morrentes

Lume luz.

Vestido de desalento

O bailarino voava

Por sobre as copas das árvores

Enchia de nada a noite

Cortava o espaço dormente…

E a sua solidão

Sabida só pela boca

Tangida só pelas cordas

De um trágico anfitrião

Desafinava no tempo

Caía em folhas ao vento

Por sob as copas das árvores

Ainda que fora disso

Muito acima de seus pés

Este hábil bailarino

Bailasse mais que a soberba

Roda gigante da vida

Que roda e gira possante

Na vertusta e estonteante

Velocidade da luz.

 

Grão Milagre

 

Houve um tempo em que eu pensei não ser

O que era e estava lá desde o princípio…

Houve um tempo em que eu tentei

Calar a música que tocava

No fundo do meu ser silente.

Tudo era como dizer ao sol que não nascesse

Ou dar ordens aos ventos

Para que seguissem outro curso.

Eu descobri então que não se pode interromper

Com as mãos a dança de um rio…

A gente é e para isso nasce.

O pulso às vezes dói mas é sublime e

– mesmo que eu não quisesse –

Morava e ainda mora e há de morar

Nas veias como em ostra o grão milagre!…

 

Poema Simplicíssimo

 

Um poema que tivesse

Toda a poesia do mundo

Eu to daria – se soubesse!

 

Um poema que unisse

Luz e sublimação

E que fugisse

Logo da minha mão

Assim que eu o desse

A ti – em canção –

 

(Indo pousar na messe

Do teu coração)

 

Eu to daria – se pudesse!

 

Um poema de verso forte

Como a sorte

E feliz como a raiz

Mais nobre que o céu cobre –

A ti o faria

Com alegria!

 

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Extraídos de Nas pontas dos pés. Antonio Fabiano. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2015.

Contato: www.antoniofabiano.blogspot.com.br

Nova Crônica de Marly Mota*

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Contato: marlym@hotlink.com.br

 

 

 

 

 

“Durmo beija-flor e acordo sempre-viva” | Mara Narciso*

22 de maio de 2015

A afirmativa “eu não gosto, eu não entendo (de) poesia” é burra. Meu amigo, o escritor Pedro Bondaczuk ensina-me há oito anos em seus férteis textos, que o melhor jeito de começar o dia é lendo um poema, em voz alta, repetindo-o, para ter bom aproveitamento. Não desdenhava da sugestão, mas achava graça da solenidade quase religiosa. Pensava dessa forma, porque não tinha encontrado o meu livro de poemas. Curioso é que comecei a lê-lo quase por obrigação.

Era preciso começar, pois a autora, de uma alegria explosiva, para a qual faltam superlativos é por si mesma um chamariz. Tudo nela é imenso, do sorriso à cor vermelha dos cabelos, da pele clara à extensão do seu abraço. É professora, literata, atriz, dança e canta. É casada e tem dois filhos. Nasceu em Francisco Sá, antes Brejo das Almas, e mora em Montes Claros.

Pratica ciclismo, anda de vestidos longos estampados com desenhos berrantes, e caso precise de se vestir de palhaço, faz isso de forma alegórica, com estardalhaço e o suprassumo da naturalidade. Sua maneira exagerada contrapõe com a delicadeza das suas idéias. Fui ao lançamento do seu mais recente livro, o sexto publicado individualmente, e ouvi atenta a leitura do prefácio escrito por Ivana Rebello. Encontrei bons amigos, e já na hora de sair, decidi-me por voltar, pegar o livro, tirar uma foto com a autora, dar outro abraço em Karla Celene Campos.

Olhei a capa, uma foto da pensativa poeta diante da lareira, e pensei no desafio que é ler poemas. Nas orelhas, o escrito de Georgino Júnior fazia um convite, quase uma profecia: “cheguem-se logo leitores, e aproveitem”. Em cena a primeira página. Os versos estavam soltos, sem ponto, sem vírgula, um após outro, uma palavra abaixo da outra. A falta de pontuação lembra a ausência de armadura que pauta a vida de Karla Celene, mulher sem peias, hiperbólica em afetos, graça e sorrisos. Tudo em Karla é emoção.

“Cultivo coisas inusitadas dentro de mim

Músicas coloridas

Arco-iris pássaros que voam

E borboletas no interior da barriga

Por isso amanheço dos temporais

E rediviva

Durmo beija-flor

E acordo sempre-viva”

 

Estou embasbacada com o mundo pictórico para o qual Karla Celene me convidou a entrar, mergulhar e me lambuzar. Foram-me escancaradas muitas delícias cujo sabor eu desconhecia. Passei por sustos gostosos e gozosos, como se para tais suspenses eu ficasse em crise de asma, e por fim ligassem-me o oxigênio. E após melhorar o fôlego, chega-me um beijo na boca, um inesquecível beijo roubado.

Karla Celene Campos, o seu livro “O Lado de dentro das coisas” disseca sem meias palavras suas verdades inteiras, numa gostosa sessão de anatomia, mostrando o lado luminoso das paixões, das dores e das alegrias. Sinto-me grávida de supremo êxtase. Agora eu tenho um livro de cabeceira, para começar o dia lendo um poema em voz alta:

 

“A vida

Brevíssimo instante

É a pedrinha de açúcar

Lançada

Ao mar”

 

Karla Celene e eu, O lado de dentro das coisas

 

Karla Celene e Mara Narciso:

O Lado de dentro das coisas

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* Contato: yanmar@terra.com.br

XIX JORNADA DE ESTUDOS E LANÇAMENTO REVISTA VEREDAS Nº 17

Jornada Veredas