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Índex* – Abril, 2015

“– Estou mais

Para São Pedro

Do que

Para São Paulo” – 

Ao padre

Confessei

“– Como assim?” –

Me perguntou

O padre

Com a batina

Arrastando

Em plena

Confissão

 

“– Porque em São Paulo

Eu abraçaria

Aquele que 

Me feriu

Aquele que

Cuspiu no rosto

Rasgou-me as vestes

E repartiu com

Os três guardas

Em São Pedro

Eu negaria

As três vezes

Ainda mesmo

Antes do galo cantar

 

Em São Paulo

Há caridade

Em São Pedro

As pernas

São todas bambas

As culpas

São todas nossas

Que ao ombro

Cristo levou

Que nas chagas

Expiou

E lavou

E limpou

Os nossos tão grandes pecados”

(“Domingo da Misericórdia”,  Patricia Tenório,  11/04/15, 08h51)

 

 

Um Domingo Pleno de Misericórdia, Perdão, Paz & Poesia no Índex de Abril, 2015 do blog de Patricia Tenório.

A fenomenologia da escrita na língua estrangeira | Patricia Tenório (PE – Brasil).

Três crônicas de Marly Mota (PE – Brasil).

“AMOR À PRIMEIRA VISTA” | Edir Meirelles (RJ – Brasil).

A três primeiras crônicas de “Torre Malakoff” | Paulo Paiva (PE – Brasil).

“Multirão” | Diversos. Organização Poeta de Meia-Tigela (CE – Brasil).

“Milagreira” & “Manga-espada” | Iara Maria Carvalho (RN – Brasil). 

E os novos links de:

Danuza Lima (PE – Brasil) na coluna PalavraTório do blog Parlatório de Adriano Portela (PE – Brasil): http://parlatorio.com/calado-dia/

(Entre)Laços do Coração blog coletivo coordenado por ResoMar (PE – Brasil) que volta ao ar 01/05/15: http://entrelacosdocoracao.com.br/

Agradeço imensamente todas as participações, a próxima postagem será em 31 de Maio de 2015, um abraço bem grande,

 

Patricia Tenório.

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Index*, – Abril, 2015

“– I am more

For St. Peter

Than

For St. Paul” – 

To the priest

I confessed

“– What do you mean?” –

Asked me

The priest

With the cassok

Dragging on the ground

In full

Confession

 

“– Because in St. Paul

I’d embrace

That one that 

Hurt me

That one that

Spat in my face

Tore my clothes

And dealt them with

The three guards

In St. Peter

I’d deny

The three times

Even still

Before the cock crows

 

In St. Paul

There’s charity

In St. Peter

The legs

Are all wobbly

The blames

Are all ours

That over the shoulder

Christ took

That in the wounds

He atoned

And washed

And cleaned

Our so big sins”

(“Mercy Sunday”,  Patricia Tenório,  04/11/15, 08:51 a.m.)

 

 

A Sunday Full of Mercy, Forgiveness, Peace & Poetry in the April, 2015 Index of the blog of Patricia Tenório.

The phenomenology of writing in a foreign language | Patricia Tenório (PE – Brasil).

Three chronicles from Marly Mota (PE – Brasil).

“LOVE AT FIRST SIGHT” | Edir Meirelles (RJ – Brasil).

The three first chronicles from “Torre Malakoff” | Paulo Paiva (PE – Brasil).

“Multirão” | Miscellaneous. Organization Poeta de Meia-Tigela (CE – Brasil).

“Milagreira” & “Manga-espada” | Iara Maria Carvalho (RN – Brasil). 

And the new links from:

Danuza Lima (PE – Brasil) in the column PalavraTório from the blog Parlatório of Adriano Portela (PE – Brasil): http://parlatorio.com/calado-dia/

(Entre)Laços do Coração group blog coordinated by ResoMar (PE – Brasil) that returns to the air on 05/01/15: http://entrelacosdocoracao.com.br/

I greatly appreciate all the shares, the new post will be on 31st May, 2015, a big hug,

Patricia Tenório.

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UERJ 1

UERJ 2

 

Paço Imperial

Praça Tiradentes

Café Colombo 1

Café Colombo 2

Café Colombo 3

Pedra da Gávea - IML

IML 1

IML 2

IML 3

IML 4

IML 5

Praia do Flamengo

Copacabana 1 - Copacabana Praia

Copacabana 2 - Copacabana Palace

 

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Misericórdia, Paz & Luz no Rio de Janeiro – 450 anos. Mercy, Peace & Light in Rio de Janeiro – 450 years.

A fenomenologia da escrita na língua estrangeira* | Patricia Tenório**

Agosto, 2008

Para Karla Melo

 

A partir da Fenomenologia da Percepção[1], estudo desenvolvido por Merleau-Ponty, procurei dialogar com a experiência da escrita na língua francesa no período que passei em Paris entre setembro de 2006 e janeiro de 2007[2]: processo de individuação decorrido da necessidade de me expressar numa língua estrangeira, de fazer a ponte do sentido ao signo proferido pela palavra nova que se aprende e se apreende ao mesmo tempo – um nascer em outra língua. E ao nascer se descobre um mundo novo, repleto de infinitas possibilidades, enxergando as coisas elas mesmas, na essência, desprovidas das camadas de informação saturada e direcionada dos meios de comunicação em massa.

Na busca pela aprendizagem da língua estrangeira, recorri ao instrumento principal do artista que é questionar a realidade apresentada na tentativa de lhe conceder sentido, e este sentido revelado pela experiência realizada no contato com a língua, digo mais, com a cultura de maneira geral.

Porque a língua não é somente formada pelas palavras, sua etimologia e lingüística. Ela é um leque de influências oriundo das artes produzidas no país ao qual pertence. Essa estrangeridade percebida na estada em Paris me permitiu abrir espaços em branco no meu imaginário.

Tomemos como ponto de partida as artes plásticas. Tracei um itinerário para conhecer toda a cidade no primeiro dos quatro meses que ali permaneceria. E quando me refiro a conhecer a cidade valho-me de todas as formas de expressão do povo francês, em especial o parisiense, contando para este objetivo com a visita a museus, parques, degustação da culinária típica, dos vinhos, ler os clássicos, caminhar pela cidade para aspirá-la a plenos pulmões, viajar aos arredores, conhecer os parisienses, seus costumes – o que adiante detalharei mais profundamente.

A primeira visita foi ao Musée D´Orsay. Dividi por andares e a cada tarde apreciava as obras de um grupo de artistas afins. Intuitivamente, comecei pelos Realistas. O quanto me assombrou ao defrontar com L´Origine du Monde, de Gustave Courbet: o impacto direto da obra sobre o espectador desavisado, me fez tomar a caneta e caderno de anotações – costume ainda não muito exercido por mim na época – e derramar no papel tudo o que me vinha à mente. Ainda não havia uma história, ou um tema específico. Mas percebi, com o acúmulo das informações de cada dia, e a leitura do quadro de Theodore Chasériau, Tepidarium – O banho das odaliscas, que surge toda uma imagem que resultará em O Banho[3]. L´Origine Du Monde, ao despertar signos adormecidos em minha psique, também desperta signos relacionados, como o aroma de um afeto, o gosto de um cabernet, a textura da tinta a óleo, as cores fortes da paleta do pintor, que se unindo e fazendo sentido refaz na libido um gesto semelhante ao produzido pelo artista plástico quando retratou o sexo feminino de maneira direta, sem subterfúgios, em contato imediato com o leitor que se choca, para desarmando-se poder fluir toda uma carga estética no papel.

Pode-se questionar se este mesmo impacto das obras de arte em minhas visitas aos museus e a leitura de livros referentes a tais artistas não seriam equivalentes ao esforço para se reportar a uma ou outra cultura, a imersão no universo pictórico, a língua que outrora se falava, a ambiência artística, me transportando a uma realidade que permite experimentar, assim como os signos se revelam na coexistência uns com os outros e no poder de conexão que são capazes de produzir.

É o que encontro no caso da visita a Montmartre, no restaurante La Mére Catherine, quando entre vinhos e soup d´oignon me deparo com um artista a pintar uma tela nomeada de Vins Fins. Se ele pode tomar o pincel e retratar o que não se vê por traz do que se vê, por que não eu poderia o mesmo? Passo a copiá-lo em Montmartre, buscando captar cada movimento do pincel, me transpondo da mesa ao lado para o interior do meu personagem, tomando da mesma mão, escolhendo as mesmas tintas, me desfazendo de mim, apreendendo o que é ser outro.

No aprendizado da língua estrangeira se recorre ao que existe e sub-existe na língua, silencioso e inexpressável, capaz de calar a maior pulsão pela palavra apenas pelo fato dela se ver refletida nela mesma, causando o assombro estético, satisfazendo o gozo artístico.

A experiência de apreensão de outra língua é símile ao não conhecimento de língua alguma, em que, desprovido de palavras que se conectam ao sentido, podemos entrar em contato com o signo mesmo e aí então beber da fonte da verdade e conhecimento.

A distinção entre a língua estrangeira apreendida e a língua materna ressalta nesta prismas nunca antes vislumbrados mas sempre existentes, tal um véu de nuances que se descortinam na penumbra do nascer do sol.

É no vácuo da língua materna e da língua apreendida que se constrói o fazer artístico, na estrangeridade, na alteridade, no sair do ser narcísico em direção ao outro desconhecido, sem garantias, abismo a ser preenchido pela linguagem escrita, a arte que busca saída para a necessidade de expressão.

A leitura da cidade e suas nuances, os aromas, os dizeres das placas descobertas no Jardin Du Luxembourg.

 

L´écrivain dit presque tout pour être compris. Dans la peinture, il s´établit comme un point mystérieux entre l´âme des personnages et celui du spectateur.

(Eugène Delacroix)

 

O escritor diz quase tudo para ser compreendido. Na pintura, se estabelece como um ponto misterioso entre a alma dos personagens e aquela do espectador.

(Eugène Delacroix)

 

Ou no Quai Voltaire, trechos de As Flores do Mal, de Charles Baudelaire.

 

L´aurore grelottante em robe rose et verte s´avançait lentement sur la Seine déserte et le sombre Paris, en se frottant les yeux empoignait ses outils, vieillard laborieux. 

(Les Fleurs du Mal, Le crépuscule du matin, Charles Baudelaire)

 

A aurora arrepiante em veste rosa e verde avançava lentamente sobre o Sena deserto e a sombria Paris, quando esfregando os olhos empunhasse suas ferramentas, velho trabalhador.

(As Flores do Mal, O crepúsculo da manhã, Charles Baudelaire)

 

Como se apreciando o cenário das pontes do Rio Sena fôssemos convidados a escrever no mesmo pulso, como ao lermos um poema nos colocamos no lugar do autor e comungamos verdadeiramente a dor por ele vivenciada e nada nos resta que a necessidade de nos expressar em ressonância com este lugar, este País Anterior suposto por Yves Bonnefoy.

 

Je nommerai désert ce château que tu fus,

Nuit cette voix, absence ton visage,

Et quand tu tomberas dans la terre stérile

Je nommerai néant l´éclair qui t´a porté.

 

Mourir est um pays que tu aimais. Je viens

Mais éternellement par tes sombres chemins.

Je détruits ton désir, ta forme, ta mémoire,

Je suis ton ennemi qui n´aura de pitié.

 

Je te nommerai guerre et je prendrai

Sur toi les libertés de la guerre et j´aurai

Dans mes mains ton visage obscur et traversé,

Dans mon coeur ce pays qu´illumine l´orage.

 

(Vrai Nom – Du mouvement et de l´immobilité de Douve, Yves Bonnefoy)

 

Nomearei deserto este castelo que tu fostes.

Noite esta voz, ausência teu rosto,

E quando tombares na terra estéril

Nomearei nada o relâmpago que te trouxe.

 

Morrer é um país que tu amavas. Eu venho

Eternamente por teus caminhos sombrios.

Destruo teu desejo, tua forma, tua memória,

Sou teu inimigo que não terá piedade.

 

Te nomearei guerra e prenderei

Sobre ti as liberdades da guerra e terei

Nas minhas mãos teu rosto obscuro e atravessado,

No meu coração este país que ilumina a tempestade.

 

(Verdadeiro Nome – Do movimento e da imobilidade do Fosso, Yves Bonnefoy)

 

*

 

Je voudrais prendre ton nom

Et cacher dans la profoundeur de moi-même

Où je peux chercher ton sens et découvrir

Pourquoi tu ne sors pas de mes pensées

En trouvant un lieu tranquille

Pour l’y laisser anonyme

Je demande et tu ne réponds pas

Parce que tu sais, oh, mon cher

Tu sais qu’il n’y a pas la vérité.

                       

(Nom – Grains, Patricia Tenório)

 

Eu queria prender teu nome   

E guardar na profundidade de mim  

Onde possa procurar teu sentido e descobrir

Porque não sais de meus pensamentos

Encontrando um lugar tranqüilo           

Para ali deixar anônimo

Eu pergunto e não respondes

Porque tu sabes, oh, meu querido

Tu sabes que não existe a verdade.

 

(Nome – Grãos, Patricia Tenório)

 

E por que a expressão em poesia ao invés da prosa? Em alguns momentos, a poesia pareceu ser a única saída: diante da mais profunda dor, fosse ela saudade (Fotografia, Estrela), ou assombro diante do inominável, quando em Marseille – porque para se conhecer Paris é preciso conhecer seus arredores para da análise se fazer a síntese -, do contato com obras de Jean-Paul Riopelle no Museu Cantini, reagi na forma mais violenta possível (Aborto, Terror, Pernas). Ou na visita ao Museu de Artes Africanas, Oceânicas, Americanas, em meio a uma infinidade de máscaras tribais, sou atraída sem saber por uma máscara da tribo brasileira Munducuru (Chakras). Ou no Museu de Arte Moderna de Strasbourg, tentei decifrar histórias em poesia (Quatro Cantos), ou curta prosa poética (Absinto, Acrobata ou Madame X). Apenas no distanciamento físico e temporal foi possível se compor em prosa mais longa (Labyrinthe, Grafite, Au Sud de Nulle Part, Chuva, Le Mirroir).

Em Paris, no Musée Guimet de Artes Asiáticas, penetro no minimalismo dos signos (Id, Yang, Ying, Plat, Wanli) dos objetos chineses; deles me aproprio e transfiro significado e significante à medida que se reconstroem no meu imaginário, tal a retina inverte a imagem enviando traduções ao cérebro receptivo.

Mas a apropriação é inconsciente, agindo por causa própria e com a única intenção de se expressar. Por exemplo, Pandôva. Foi preciso dois anos para que eu tomasse posse do significado do que aparentemente provinha de uma espécie de sonho e alucinação. Quando acordo numa madrugada de dezembro de 2006 com o texto pronto na mente e, ao transcrevê-lo, começo a sentir a dormência a partir dos pés e mãos, enraizando-se para todo corpo, não era apenas o psiquismo que eclodia pelo acúmulo de estímulos sensoriais de leituras várias: a linguagem se metamorfoseava na escritora em construção. Naquele momento previ acontecimentos futuros da vida pessoal simbolizados e expliquei heranças arquetípicas. Não que a literatura possa se confundir com a psicanálise, mas ali, naquela intersecção, elas se comunicaram e revelaram um sentido totalmente desconhecido para quem a escrevia.

Nesta época pensava em francês, escrevia em português e vice-versa, sem a preocupação com as fronteiras que somente mais tarde me foi necessária na revisão dos textos para o livro Grãos.

Decerto poderia questionar o porquê desta distância no tempo e no espaço para que se faça uma análise minuciosa do processo criativo de então. Em primeiro lugar, não se enxerga o próprio corpo em movimento. É preciso afastar-se o suficiente como a um filme em que poderemos observar detalhes antes imperceptíveis, e que ressaltam uma leve tendência do pensamento: uma escolha de palavras que estavam atreladas a um contexto de maneira tão absorta e por isso invisível, toda carga emocional descia numa nuvem escura sobre os cílios de outrora, hoje se desanuviam as cores e odores, o nostálgico nos posiciona feito espectadores de nós mesmos e faz do sentimento fugidio que tentávamos captar no passado, aquele que agora por nós perpassa como flecha rasgando as novas camadas de embotamento do tempo.

Não há arte sem vivência e se transcende na consciência da dor insuportável do viver. Para o artista que sente na carne o mundo selvagem em que habita, imprime na expressão o bálsamo das suas próprias chagas, destrói-se para poder se reconstruir (Colagem – Museu Picasso) e com isso suporta mais um pouco, até a dor dilacerar-lhe novamente o nervo exposto e com isso produzir novo quadro, novo texto, novo bálsamo.

O movimento se dá em direção ao inominado, com a boa intenção do olhar receptivo e o impacto que a vivência nos provoca. Por exemplo, caminhar pelas ruas da Cidade Luz para se perder, admirando a paisagem como a primeira vez que a enxerga, me fez encontrar detalhes que antes não estavam lá, que podem ter sido percebidos por uma quantidade restrita de pessoas sensíveis e expressos em infinitas possibilidades. As placas de Baudelaire e Delacroix, um Clube de Poetas por trás da Assembléia Nacional, o Marco Zero no chão do pátio da Notre Dame, o aroma das verduras e frutas no mercado da Bastille, o livro que o filho caçula mais gosta de ouvir, Devine Combien Je T´aime, numa pequena livraria do Marais, tudo estava, tudo permanecia na esperança de ser captado por um olhar sensível.

O estar perdido é a busca deste lugar já conhecido, que permite a construção das paredes psíquicas do ser por suas próprias condições. O estar só no mundo contando com essas características que somente a si pertencem. É como pisar em círculos de madeira que vão aparecendo a medida em que o passo toca o vazio, e mais outro passo, e mais outro círculo de madeira. O caminhar para fora, metáfora do caminhar para dentro, investigando possibilidades e tomando anotações, rabiscos de histórias também metaforizadas. Nestas histórias curtas me reconheço, não como o presente de aulas na Sorbonne ou com Isabelle pelos cafés da cidade, mas como um ser-a-vir, uma espécie de símbolo se instalava nos textos que aos poucos se desvendariam.

Não se pode esquecer das relações humanas. O protótipo do parisiense fechado e avesso às amizades se desfaz no momento em que os convido a uma noite de queijos e vinhos no meu pequeno apartamento alugado à Rue de Saints-Pères em Saint-Germain des Près. A primeira impressão é de desconfiança e o abismo parece intransponível. Mas quando se recorre à tentativa de entendimento de quem não domina a língua, e utiliza de mímicas ou desenhos para se expressar, a empatia se instala: o ajudar ao próximo como a si mesmo passa de pura filosofia cristã para o ato simples e gratuito.

Procurava encontrar o sentido da minha passagem por Paris, além dos ateliers, além dos museus, seus Renoirs, Monets, Cézannes, Rodins; procurava o mesmo rosto que agora enxergo com um pouco mais de nitidez, a uma semana de retornar à Cidade Luz após dois anos sem percebê-la com toda minha alma. O passado que era presente não entrevia esta fresta de tempo onde eu poderia significar uma leitura de acontecimentos alinhavados a partir do que me produziu aquela experiência durante quatro meses. Os grãos aprisionados durante o tempo que leva a germinação, quando pode se enraizar no corpo novo que contém o antigo. As entranhas geram o novo ser, acúmulo de experiências, estudos, leituras diversas, das paisagens às letras inscritas no português, no francês, as línguas se intertextualizando e produzindo fagulhas de entendimento.

Silêncio. Percorrendo as ruas de outono, sob a chuva fina e o pulsar do coração embalando os ouvidos, a minha voz com a minha voz apenas. E registro as folhas caídas na Ile de St-Lois e seus mercadinhos variados, ou me assombro perante a tumba de Napoleão, ou na busca cavaleresca de uma livraria portuguesa para lançar meu livro[4] no 13º arrondissement ou na Rue Du Chevaleret, quando, após um mês percorrendo Paris a pé, me deparo com o emaranhado de conexões do Metrô, me apavoro diante do submergir a cidade, da mesma maneira que antes a desbravava ao ar livre com o sol lambendo o rosto.

O escrever diante da obra de arte, ou paisagem, monumento, livro pleno de afeto encontrado nas ruelas do Marais aciona ressonâncias, manipula o “barro” da psique do artista que vai se construindo ao mesmo tempo em que escreve, escreve e se inscreve sob a máscara de seus personagens, constituindo a si próprio e enxergando os ajustes a serem feitos na sua personalidade.

Se a princípio a aprendizagem da língua francesa me sufocava pela minha aparente incapacidade de absorção, foi exatamente neste ponto que a fenda da linguagem se instaurou revelando uma terceira língua provisória, distante e ao mesmo tempo próxima do passado (português) quanto do futuro (francês), permitindo entrar em contato com os signos pura e simplesmente, transferindo para o encapsulamento aquilo que não poderia ser dito nem numa língua nem na outra.

Por isso a fragmentação do todo, a diversidade no uno, para poder então das cinzas se compor fogueira de sentidos, de iluminações, gênese do futuro romance que entrevejo em bruma – A mulher pela metade. Tal um entrelaçar de hastes da forma da linguagem, que estão ali enquanto necessárias à construção do bloco central, do núcleo da história a ser contada e, ao tomar consciência, solidificam-se, as hastes transfiguradas pela certeza de que o bloco não se diluirá no contexto e não passará despercebido por quem o escreve.

Ao sair de si, uma outra pessoa se observa, fica à margem da existência; então aquela realidade pode ser transformada, nem é história nem é ficção: passa-se ao circunscrito espontâneo e inconsciente da linguagem, quando maneja a si mesma sem perceber-se manejada, deixando ao leitor – que pode ser a própria escritora no futuro – a tarefa de decifrá-la e lhe impor sentido.

 

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Posfácio de A mulher pela metade, Patricia Tenório, Editora Calibán, 2009.

** Escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem oito livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br.

** Writer of poems, short stories and novels since 2004, has published eight books and is master’s degree in Literary Theory at the Federal University of Pernambuco, line of research Intersemiosis, with the project The picture of Dorian Gray, from Oscar Wilde: an indicial, augustinian and prefigural novel, under the guidence of Prof. Dr. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contacts: www.patriciatenorio.com.br and patriciatenorio@uol.com.br

*** Fotos durante “A fenomenologia da percepção” de Paris e seus arredores.

[1] MERLEAU-PONTY, M. “Sobre a fenomenologia da linguagem”; “A linguagem indireta e as vozes do silêncio”. In: Maurice Merleau-Ponty. Textos Selecionados. São Paulo: Abril Cultural, 1980 (col. Os Pensadores).

[2] Época em que me submeti a ateliers para escritores e de poesia, o primeiro na Universidade Sorbonne – Paris IV com Laurenne Gèrvasi e o segundo com a poetisa e tradutora Isabelle Macor-Filarska. Fazia apenas um ano que iniciara o curso de francês básico, motivo pelo qual me inscrevi na Aliança Francesa, à Boulevard Raspail, no intensivo, turno manhã, um mês antes de iniciar o atelier da Sorbonne.

[3] O Banho e demais textos citados estão em Grãos, Editora Calibán, 2007, compilação do resultado desta experiência em Paris.

[4] As Joaninhas não Mentem, Editora Calibán, 2006

 

Três crônicas de Marly Mota*

ARQUEOLOGIA  FAMILIAR

                                                                                          

Andei arrumando umas papeladas, revendo e recuperando um pouco desse fato consumado que se chama tempo. Velhos sonhos a morrer na gaveta. Entre retratos, objetos,  cartas, encontro um postal sem data, com a minha letra de colegial aplicada: “Volte logo, já sinto saudades.” A quem teria enviado?  Misturadas às miudezas, dentinhos de leite da criançada. Porta-moedas com algumas de 2.000 réis de prata-1888, homenageando Petrus II.  Um dedal de ouro com ele, minha tia avó Sinhá Teté costurava os vestidos das minhas bonecas. Um par de abotoadura de prata do meu pai. Estojo de retrato “Ambrótipo” com grupo de mulheres, de outras eras: Escolástica, Serafina, Triphonia, eternamente jovens com românticos vestidos, em atitude pensativa encostadas a uma coluna, à espera de um amor. Homens de fraque e cartola, com datas antigas. Um lenço de linho com bordados richelieu. Livrinho de 1ª Comunhão de capa perolada.  Um leque com letras gravadas, abrindo-o as libélulas pareciam libertarem-se da longa  imobilidade. Algumas peças preciosas de linho belga dos enxovais de casamentos sonhados pelas tias solteironas, que foram passando de casa em casa, de gaveta em gaveta. Seria possível rasgar cartas e retratos acumulados por várias  gerações? Na verdade, a gente conserva essas tralhas desarrumadas pela vida. Mas, está tudo inteiro. É só sacudir a poeira do tempo.

Febril, com gripe daquelas que derrubam a gente, lembrei-me de quando não se usava termômetro, só a mão carinhosa da mãe, para saber da febre. Remédios indesejáveis tomados em troca de histórias de Trancoso, contos da carochinha contadas por Sá Ana, sempre depois dos trabalhos da cozinha. Meu pai, antes de sair de casa solenemente  perguntava qual seria o melhor presente, para ajudar na convalescença, livro ou lápis de cor ? Eu preferia os dois.  Na sobrecarregada vida de hoje sobra espaço para os amigos e bem-quereres, nesta alinhavada  pesquisa de  arqueologia  familiar.

Aos amigos da União brasileira de Escritores, sessão Rio de janeiro, especialmente à  Presidente Lúcia Regina de Lucena e Stella Leonardos, Secretária  Geral, meus  agradecimentos por  terem dado  o meu modesto nome ao diploma:“Prêmio Poesia  Marly Mota,”concedido a escritora e poeta Patricia Tenório, pernambucana do Recife. À nossa presidente Fátima Quintas, que conduz com eficácia à Academia Pernambucana de Letras fará uma  homenagem à vencedora do Premio.

 

Flor Marly Mota

 

 

CAMINHO   DOS   SONHOS

                                                                     

A vida não caminha sem os sonhos. Deles temos necessidade, para suportar o dia-a-dia.  Deixá-los morrer, confinados na memória e nas gavetas,  por quê ?  Lá estão, cartas, fotos, diários, cartões, desenhos. De um em particular de quando menina de oito anos, segurando uma flor, me fez a caricatura, o meu primo Capiba. Dos sonhos carecem os escritores, poetas, compositores, artistas, arquitetos, políticos, e tantos mais. Guardo  na memória  e nas gavetas, as minhas fantasias como refúgio. Há um provérbio chinês: Nunca ria dos sonhos dos outro. Quem não tem sonhos tem muito pouco.

Muitos afirmam que os sonhos influenciam decisões. Os  milhares de sonhos que a Mega-Sena sugere, os que  se aventuram através do democrático e popular “jogo do bicho:”  Sonhar viajando dá camelo, com ônibus colorido, pavão, com a polícia, dá macaco, com traição, dá cobra.  Sá Ana, nossa ama, jogava dois tostões no “bicho.” Seu sonho: botar um dente de ouro.

Ah! Como sonhei com o cinema e com galãs dos filmes americanos!  Quem  não lembra do tema musical Summertime in Venice, e  Que c´ést  triste Venise,   na voz inconfundivel de Charles Asnavour, que encantada  ouvi  sob as  pontes que cruzam os canais.  Na Praça  que  Napoleão  considerava  a  mais bela do mundo, os cafés, com as suas orquestras  e repertórios  belle-èpoque,  de operetas antigas. Ouve-se Fascinação,  com os pombos, às centenas, voando diante  da Basílica  de São Marcos. Há  um  belo apelo,  no amor que se tem por Veneza.

No livro de Cândido Portinari –1903-1962 – O Menino de Brodosque, ele diz para o filho João Candido: Sabe por que  é que pintei meninos em gangorra e balanço? Para  botá-los  no ar feitos anjos. Balançando-me à sombra da mangueira do quintal da minha casa, só Deus sabe até onde o sonho me levava.

O artista catalão Salvador Dalí afirmava que o sonho foi o seu instrumento de trabalho. O músico Paul Mc Cartney compôs, inspirado num sonho, Yesterday, inscrita no livro Guinness dos Recordes, como a música pop de maior sucesso.

Casualmente, sonho tocando piano, chego até a ouvir o som do teclado. Às vezes, o sonho chega com pesadelo, levando-me, aflita, a lugares nunca dantes visitados.   (…) A ninguém que passava eu poderia / estender a mão, querer falar / Pedir fraternidade e companhia / Era só na paisagem milenar… Fragmento do poema  Perto e Longe, de Ribeiro Couto, guardado na Gaveta dos Sonhos.        

Crônica Marly Mota

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* Marly  Mota é artista plástica, poetisa, cronista e membro da Academia Pernambucana de Letras. Contato:  marlym@hotlink.com.br  

                                                          

                                                            

                               

                                                             

“AMOR À PRIMA VISTA” | Edir Meirelles – UBE – RJ

por fotografias te conheci

foi amor à prima vista

nosso primeiro encontro foi

onírico

a paixão se concretizou

 

ao contato com teu corpo tépido

tuas curvas sensuais

teu hálito perfumado

teu corpo escultural

teus seios encantadores

entranhas oceânicas

o ventre abrasador

 

teu calor inebriou-me

acariciou o meu corpo todo

beijou os meus pés

como se eu fora um anjo

enamorado estava

deslumbrado permaneço

no compasso de nossas pulsações

não abandono teu regaço

quero-te mais

 

e cada vez mais acariciar-te

à luz do sol

ou dias de mormaço

nas noites de luar e céu estrelado

declaro diante de todos o meu amor

à ti – bela Copacabana.

 

Vila de Noel, RJ, 27 de março de 2010.

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Participante da ANTOLOGIA RIO DE JANEIRO 450

 

As três primeiras crônicas de “Torre Malakoff”* | Paulo Paiva**

Torre Malakoff

 

Na Praça do Arsenal de Marinha, a velha torre, antiga entrada do Estaleiro Naval, reina soberana. Em 1905 era o edifício mais alto da cidade que detinha a primazia de ser o segundo polo de Construção Naval do país. Estava em curso a Guerra da Criméia, entre o Japão e a Rússia. O povo deu-lhe esse nome em alusão a uma edificação que existia no país eslavo.

À direita da Torre o prédio da Capitania dos Portos, antes utilizada pela Escola de Aprendizes Marinheiros de Pernambuco, e posteriormente pelos Fuzileiros Navais.

À sua esquerda o edifício da extinta Western Telegraph onde meu pai expedia telegramas quando queria rapidez. Eu achava muito importante o hall do edifício e os caixas que recebiam as fórmulas telegráficas dos remetentes.

Ainda à esquerda da edificação, a Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus. Paralela, a Rua da Guia, no passado reduto da prostituição. O quadrado vai se formando. De volta à Torre, em frente à Capitania, o prédio neoclássico que pertenceu ao Serviço do Patrimônio Histórico situado ao lado da Avenida Alfredo Lisboa, que o recifense só chama de Cais do Porto. Ali se vê os acidentes geográficos que deram o nome à cidade: Arrecife dos Navios.

Caminhando pelo cais, chega-se ao Marco Zero, fincado no centro de um Largo de onde se tinha acesso aos navios de passageiros ancorados nos diversos armazéns. Esse Marco Zero eu conheci sob o nome de Praça Barão do Rio Branco. Ali se tomavam catraias para se chegar aos grandes barcos fundeados ao largo.

Há alguma coisa de diferente naquele lugar. Por lá pairam espectros dos antigos habitantes da cidade que ali se reuniam nos grandes acontecimentos.

É nas proximidades da Torre Malakoff que sinto toda a pujança do Recife, no dizer de Carlos Pena Filho, metade roubado ao mar, metade à imaginação.

 

À Beira do Caminho

 

Fui assistir ao show do Erasmo Carlos. A última vez que o vira foi na segunda metade da década de 60, na extinta TV-Rio, em Copacabana. O Tremendão continua o mesmo: a voz fraca, músicas mais faladas que cantadas. Veste jeans, um colar aparecendo na camiseta, um casaco de couro, e pulseira hippie dos anos setenta. Os cabelos continuam grande, mas ficou careca. Não pinta o branco exuberante o que me fez mentalmente lhe cumprimentar. Enquanto canta, balança o corpo desengonçadamente, e tem dificuldade em se agachar. Isso eu entendo perfeitamente.

Alterna um rock mais pesado com velhas canções. A plateia, em sua maioria sessentões, se agita ao escutar baladas do início da carreira do compositor. Quando cantarola Gatinha Manhosa o rapaz que fui, cheio de sonhos e esperança, vindo não sei de onde, adeja pela plateia, e ao passar por mim não me reconhece.

Então, de maneira insólita, me emociono. O espetáculo termina e enquanto vou embora observo os presentes, um pouco triste, mas sentindo que por alguns momentos voltei ao tempo em que éramos todos jovens.

 

A Casa Materna

 

No dia em que sua mãe faria cem anos, se viva fosse, o homem retorna ao lar. Tudo está como antes, com exceção do pequeno gramado que ele aparava, agora extinto. As rosas, entretanto, são mantidas da mesma maneira, graças ao desvelo da irmã mais nova.

Ao passar pelo portão sentiu a antiga atmosfera familiar, suave e perene. A sala com os mesmos móveis, o vime persistindo em se manter novo. Os quartos com as velhas camas. Na cozinha rescendem os cheiros conhecidos. Numa pequena estante, livros antigos. Pega uma coleção de História do Brasil, de Rocha Pombo, que sua mãe lera muitas vezes. Ela lia tudo que lhe vinha às mãos e gostaria muito de ter sido professora de História.

Conhece cada recanto da morada com minúcias. O quarto que era seu mantém a escrivaninha em que se sentava para estudar, ler e sonhar.

Na sala o vetusto mostrando Jesus com o coração descoberto, cheio de flechas. Quando lhe perguntara – ainda menino – o que significava aquelas setas ela dissera que a cada pecado cometido, nós lançávamos uma flecha no coração Dele. Toda vez que pecava, o menino pedia perdão a Jesus por isso.

Empurra a porta de tela da cozinha e passa para o quintal onde o pé de Jambo-do-Pará e a Goiabeira ainda permanecem, embora sem o vigor de antes. Constata o óbvio: as árvores estão como ele, caminhando para o decesso. No oitão, a mangueira vizinha derruba no jardim inúmeros manguitos, que sua mãe adorava.

Ali habitava a delicadeza transmitida por ela a todos com que conviveu. Morreu há quatro anos, e naquela noite – e em muitas outras – o homem, embora sexagenário, sem ela sentiu-se sozinho na vida e perdido no mundo.

 

04/11/2012

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Extraídas de Torre Malakoff. Paulo Afonso de Paiva. Recife, PE – Brasil: Edição do Autor, 2014.

** Contato: paivap50@gmail.com.br

“Multirão”* | Diversos. Organização Poeta de Meia-Tigela**

O rato roeu

o resto que

o rei me deu,

e morreu

 

eu sou o rato

e o resto sou eu…

 

(Clébio Duarte)

 

Faço poesia com teus olhos

e com tudo de ti

daquilo que não existe

e do que poderia

 

não sei rimar

não quero rimar

 

rimar é o meu reverso

de poema

 

a não ser que

a rima rime por mim

 

apenas

quero tocar

o mundo

fazer amor com

as palavras

 

como quem

deseja

deseja

deseja

 

(Alessandra Bessa)

 

 

Jogo

 

Apitos atordoados levitam entre espelhos

Uma neblina interrogativa nos chama ante o vazio do viver

Velhos dados evacuados

 

(André Álcman)

 

 

esboço de poema anotado em uma partitura

 

o meu amor

é bandolim

afinado em ré

e o que sou

quando junto dela:

uma valsa

tocada em si bemol

 

(não falo de amor:

toque-desejo-posse

falo de harmonia:

acordes que se completam)

 

(Léo Prudêncio)

 

 

TELEGRAMA

 

SOU AQUELE QUE PROCLAMA

“NUNCA CHEGAREI A MIM”

MAS PRA ME DESDIZER VIM

HOJE NESTE TELEGRAMA

 

(O POETA DE MEIA-TIGELA)

 

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Extraídos de Multirão. Diversos. Organização Poeta de Meia-Tigela. Fortaleza, CE – Brasil: Expressão Gráfica e Editora, 2014.

** Contato: http://opoetademeiatigela.blogspot.com.br/

“Milagreira”* & “Manga-espada”** | Iara Maria Carvalho***

Herança*

 

há um sentimento indígena

no torto passo que dou

no pouco tato que tenho:

 

vou sentindo oca

a raiz em que me lenho.

 

 

Trajeto*

 

fui acontecida

desde a noite de natal

quando no cimo da árvore

cravaram espinho

pedra

e mel

 

morri no nome

quando não pude nadar

 

cantar então é um enorme

cacto

na garganta.

 

Manga-espada**

 

Tão grande a árvore que pensa o menino

desconhecer o céu.

 

Sai cantando as frutas no chão

e desenvolve com elas uma história de

ternura, violência e terra chovida.

 

Corre um rio quente e amarelo pelos seus

cotovelos

e o menino se deixa capturar por um ranço

quase invisível

que lhe atravessa o pescoço.

 

Sente o esquisito gosto da liberdade.

 

E se alegra.

 

Correndo de uma sombra a outra,

o menino que cheirava à manga

 

aprendeu a cheirar o mundo.

 

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* Extraídos de Milagreira. Iara Maria Carvalho. Currais Novos, RN: Casarão de Poesia Edições, 2011.

** Extraído de Manga-espada. Revista Cultural do Grupo Casarão de Poesia. Ano 01. Número 01. Currais Novos, RN, Março de 2013.

*** Contato: macabea33@gmail.com