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Índex* – Março, 2015

Estou perdendo

O tempo

De dizer adeus

Estou encontrando

Eu mesma

Sozinha à noite

Tentando lembrar

O que fizemos de errado

Que palavras tristes

Poderíamos ter dito

Poderíamos ter salvo

Para outro dia

Para outra vida

Porque na extrema

Hora

De nossa morte

Não esqueceremos

O amor que demos

O amor que recebemos

(“Para meus caríssimos inimigos ou Para sempre Alice”, Patricia Tenório, 13/03/15, 20h40)

O amor que demos, o amor que recebemos no Índex de Março, 2015 no blog de Patricia Tenório.

O conto “O Grito” (Revisitado) | Patricia Tenório (PE – Brasil).

O novo livro digital de poemas “Appunti di Viaggio” | Alfredo Tagliavia (Itália).

A novela-folhetim “CAMBONO” (PARTE XXXII) | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

O convite para o VI Encontro Nacional “O insólito como Questão na Narrativa Ficcional” | Instituto de Letras UERJ (RJ – Brasil).

E o novo link de Danuza Lima (PE – Brasil) no blog Parlatório de Adriano Portela (PE – Brasil): http://parlatorio.com/labirinticos-elis-regina/

Mais uma vez antecipamos a postagem, agradecemos a participação, a próxima postagem será em 26 de Abril de 2015 e um abraço bem grande,

Patricia Tenório

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Index* – March, 2015

I’m loosing

The time

To say goodbye

I’m finding

Myself

Alone at night

Trying to remember

What we did wrong

What sad words

We could have told

We could have saved

To another day

To another life

’Cause in the extreme

Hour

Of our death

We won’t forget

The love we gave

The love we get

(“To my dearest enemies or Still Alice”, Patricia Tenório, 13/03/15, 20h40)

 

The love we gave, the love we get in the Index of March, 2015 in the blog of Patricia Tenório.

The tale “The Scream” (Revisited) | Patricia Tenório (PE – Brasil).

The new digital book of poems “Appunti di Viaggio” | Alfredo Tagliavia (Italy).

The novel-feuilleton “CAMBONO” (PART XXXII) | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

The invitation to the VI National Meeting “The unusual as Question in Fiction Narrative” | Institute of  Letters UERJ (RJ – Brasil).

And the new link of Danuza Lima (PE – Brasil) in the blog Parlatório from Adriano Portela (PE – Brasil): http://parlatorio.com/labirinticos-elis-regina/

Once again we anticipate posting, thank you for the participation, the next post will be on 26th April, 2015 and a big hug,

Patricia Tenório

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Entre o Sol e a Lua de Boa Viagem (Recife – PE – Brasil)… Between the Sun and the Moon of Boa Viagem (Recife – PE – Brasil)…

“O Grito” (Revisitado)* | Patricia Tenório**

No começo foi o grito.

Anésia Pacheco e Chaves

 

Acendo o abajur e a lâmpada queimada não ajuda a chegar ao banheiro, lavar o rosto, olhar no espelho quebrado.

Me olhar no espelho quebrado.

Crescem rugas no meu rosto estranho. Não pertenço a este lugar? Desde ontem vejo coisas, sinto coisas e não sei o que dizer.

– Aceita este homem…

Bebo um café bem forte. Tão forte o café que a garganta arrepia as amídalas, desperta as papilas.

– … na saúde e na doença…

Tomo um banho demorado. Faço espuma com o sabão, ensaboo o corpo inteiro à procura de mim mesma.

– … respeitando-se…

Que sorte ser feriado! Não preciso levar as crianças ao colégio, a roupa na lavanderia, o cachorro para passear…

– … como seu futuro ex-marido?

Carlos veio ontem visitar as crianças com os papéis do divórcio. Devo ler com calma, assinar com calma, consultar com calma o advogado. O advogado, olhos cor do céu.

Um novo céu.

Um novo dia.

Acompanho os alunos na visita ao museu. Pedro é o maior de todos. Pedro, com seus nove anos e a cadeira de rodas.

– Tenho superpoderes, professora!

– Sim, temos todos superpoderes, Pedro. Você, na cadeira de rodas, pode chegar mais rápido. O Flávio, com os óculos, enxerga melhor. A Alice, o aparelho nos dentes… tão afiados os dentes da Alice. Mas não temos, nenhum de nós, o poder de desaparecer e aparecer em outro lugar… Por isso, meninos e meninas, eu na frente, porque somente eu sei o caminho!

O caminho diferente hoje, no museu de sempre. Os quadros de sempre e ninguém me avisou, que, no meio da exposição de Gauguin, e Van Gogh, e Tarsila do Amaral, lá estava ele, impávido, silencioso, tão silencioso como sua morte certa, como se me contasse algum segredo vindo do caixão.

– Desculpe, professora, esquecemos de avisar que esta área está reservada ao velório do Doutor Muniz.

Não quero saber do segurança, dos quadros, dos alunos, só o morto me interessa, só o morto atravessa a sala enorme sem jardins. Por que nem os girassóis, nem a pergunta de onde somos, mas para onde iremos, Sr. Muniz? O senhor agora sabe, o senhor agora entende como tudo aconteceu. Como Carlos me deixou. Como Carlos deixou de me amar amando outra, ou será que amou outra para deixar de me amar?

– São tão estranhos, os mortos…

São tão estranhos, os homens… E ali me aquietei. Ao lado da viúva. (A amante?) Da filha. (Uma bastarda?) O caixão. Um homem de bigode e barbas brancas. Ele não olhava para mim. Não olhava mais ninguém. Mas, se eu me abaixasse, se por um instante escutasse, sairia o que dos seus pulmões?

– No começo foi o grito.

Lembro aqui, sentada, parada, com os alunos pulando ao meu redor, o segurança falando ao meu redor, que ouvi aquela frase, eu li aquela frase, no começo foi o grito, em alguma exposição. Mas o que importa agora? A arte, os artistas, os alunos, se o Sr. Muniz está morto?

– Não conheço o Sr. Muniz.

E a viúva (amante?), a filha (bastarda?) seguraram a minha mão. Aqueceram a minha mão como se ao defunto aquecessem, como se ao defunto quisessem fazer ressurgir e descobrir o que há do outro lado.

– Ele é mais feliz agora.

Saberá de tudo agora? Com a viúva e a filha em minhas mãos? Que eu traí Carlos primeiro, com o carteiro, o padeiro, o açougueiro, a amiga da sua prima. Com a prima também?

– Era um homem muito justo.

E a justiça, Sr. Muniz? A quem se aplicaria, a quem se gritaria pedindo o perdão?

240px-O_Grito

O Grito, Edvard Munch

Óleo sobre Tela, Têmpera e Pastel, 1893

Galeria Nacional, Oslo

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* O Grito recebeu Menção Honrosa em Março de 2012 na Categoria Contos do Concurso Literário da UBE-Canoas, RS. Link permanente: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3514

* Escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br.

 

“Appunti di Viaggio” | Alfredo Tagliavia

Alfredo Tagliavia

 

Appunti Di Viaggio

da parte di Alfredo Tagliavia

“Appunti Di Viaggio” è una raccolta di trenta poesie scritte da Alfredo Tagliavia tra il 2007 e il 2014, a cavallo fra due lunghi viaggi fatti dall’autore a Recife, nel Nordeste del Brasile, di cui si avvertono le atmosfere un po’ ovunque, alternate a descrizioni di Roma, Napoli, Lisbona e altri luoghi reali o immaginati del mondo. La maggior parte delle poesie è scritta in italiano, alcune sono in portoghese, una è in romanesco ed una in napoletano. La copertina ed il progetto grafico sono a cura di Silvia Piccinini.

Accesso a il libro: http://ita.calameo.com/books/004190365ed8797d07684

CAMBONO (PARTE XXXII)* | Clauder Arcanjo**

Pausa para as bodas de Ivan

 

Para Dulce Cavalcante

 

Aqui estou, caro leitor, de volta. Novo, de novo. Enfim, graças ao bom Deus, eu consegui resistir ao ataque da muriçoca do capítulo anterior.

É mais do que chegada a hora de retornarmos ao núcleo da minha novela-folhetim: a saga do herói Adamastor Serbiatus Calvino, o nosso valoroso Cambono.

Como vocês ficaram sabendo, estavam, mais de trezentos licanienses, à porta da Farmácia do Galvino, em busca de conhecimento acerca dos boatos que cercavam o nosso protagonista.

— Por onde anda o nosso prefeito, minha gente?! A coisa já virou caso de segurança nacional! — disparava, entredentes, o líder da oposição; sempre a pedir o impeachment do alcaide, por qualquer risco de fósforo.

— Isto vai acabar atraindo a fúria santa dos céus sobre o nosso sagrado chão. Valha-nos, Nosso Senhor Jesus Cristo! — temia o beato Salustiano Celestial, sempre a anunciar o fim do mundo, a torto e a direito.

— Desgraça maior é a mancebia da tua única filha, beato “disgramado”. Seu carola de uma figa! — vazou, anonimamente, do meio da multidão.

— Quem foi o filho de uma mãe que falou isto? Apareça, se for homem, seu bosta! — irado, o beato Salustiano corria os olhos injetados à cata do agressor. Na mão direita, a palavra santa de Deus; na esquerda, o punhal afiado: a “palavra” profana do homem.

— Vamos manter a ordem e o silêncio, meu povo! Se não, acreditem, o professor Galvino, amigo dos bons modos e da paz, não vai esclarecer as questões que nos afligem — as palavras do Seu Zequinha Coletor obraram o milagre da conciliação e da concórdia, pelo menos nos próximos cinco minutos.

Sete horas da manhã, em ponto, parecia um comício, tanta era a quantidade de pessoas reunidas frente à farmácia.

Meia hora depois, os portões principais se abriram. Opa!… Desculpe-me, empolguei-me com a história e falei como se estivesse narrando a abertura do estádio para um jogo de futebol. Também, leitor, o escritor se empolga, e, algumas vezes, a sua pena toma rumos desconhecidos. Para isto é que existem os revisores e que se necessita do tal do copidesque.

Continuemos. Hoje, não estou para divagâncias, nem muito menos para elucubrações. A prosa enxuta, concisa e exata é o mote que me inspira, me ilumina e me guia. Não me deixarei navegar nos oceanos das digressões descabidas, nas poetiquices da forma, no flanar a esmo pelas ondas revoltas do acaso e pelas procelas do imprevisto. Serei claro e sem adjetivações. Um Graciliano Ramos redivivo. Apesar de cearense, dei férias à minha porção José de Alencar.

O quê?!… Eu já me entreguei à esbórnia do verbo!?…

Você, rabugento leitor, é mais chato de que os meus críticos. Mais desleal do que a mais renitente das tosses brabas, mais espezinhador do que o espinho mais afiado. Seu cretino!…

Tudo bem, tudo bem. Já estou de volta, seu filho de um verbo descarnado!

Ao abrir a porta da farmácia, o Antônio do Eurico, assistente de vendas, teve um susto daqueles.

— Se for para comprar Viagra, vou logo avisando: só temos duas caixas de resto — anunciou com sua voz enfermiça.

A multidão, que guardava uma paz armada, quase que invadiu o recinto.

Mais uma vez, Zequinha Coletor abrandou os ânimos com sua serena admoestação:

— Sentem-se todos. O Professor Galvino Arcanjo irá proferir uma aula, respondendo a todas as nossas dúvidas. Por favor, sentem-se.

A legião de exaltados cuidou de sentar-se à frente da farmácia.

Aproveitando o movimento, uma pessoa passou por trás de todos e, de forma imperceptível, entrou no estabelecimento, dirigindo-se ao balcão. Falou baixinho ao balconista, pedindo-lhe uma medicação.

Na saída, também tentando o anonimato, quis sair pelos fundos. No entanto, sua presença foi notada.

— Alguém furou o bloqueio. Vejam, ele está tentando escafeder-se pela porta que dá para o Mercado Público.

Quando três dos presentes tentaram correr para pegar o fugitivo, eis que surge o cabo Jacinto Gamão. Com a sua conhecida fúria de pau-mandado, ele correu os olhos pela multidão, como se os ameaçasse com o seu conhecido, e fornido, cacete de juá. Pegou o fujão pela gola da camisa, tirando o cabra do chão, soprando-lhe nas fuças:

— Para onde você pensa que vai, meu filho?!

Mais do que ligeiro, cabo Jacinto meteu a mão no bolso do sujeito e sacou o fármaco. Na sua visão, o objeto da questão.

— Isto é para o meu futuro sogro, amigo! Ele casará amanhã e anda, por demais, fraco das forças. Como a minha sogra, viúva e um pouco gasta pelos anos, já não é um pixotinha, estou levando o azulzinho para injetar ânimo nas carnes daquele cabra frouxo.

— Nome e endereço do nominado? — inquiriu Jacinto. Como se estivesse num inquérito na delegacia.

— O nome do noivo é Ivan Perobino Abuelo. Quanto à minha sogra, a viúva, seu nome é Senhora Therezinha Ferreira Valladares de Jesus; com dois “h” e com dois “l”.

— Com dois “h” e com dois “l”? Que frescura mais besta é esta, seu cabra? Esta mulher é das estranjas? — o cabo Jacinto Gamão assuntou, já com os miolos fervendo, e com a mão no companheiro cacete de juá.

Do meio da multidão, alguém gritou:

— Este sujeitinho que está falando com o cabo Jacinto é o baiano, minha gente! O tal do macumbeiro que está botando a perder o coitado do Adamastor Serbiatus Calvino, o neto de Dona Parmênides Augusta!

Menino, correu um vento de alvoroço no meio da turba ignara, que a coisa ia descambar para uma revolução popular. Os homens foram se abaixando, cada um arrancando uma pedra de paralelepípedo da rua; as mulheres, subindo as saias, foram limpando as unhas afiadas: armas preferidas das damas de Licânia, em especial quando combinadas com a língua carregada de fuxicos, palavrões e urros.

Percebendo o risco do motim, o cabo Jacinto Gamão passou a gritar:

— O Coronel mandou dispersar. Deixem tudo com a Lei. Vão pra casa! Xô, xô, xô!… Se não o pau vai cantar, ouviram? E vocês sabem como o meu cacete de juá a-do-ra amaciar lombo de gente.

Nada de surtir efeito. De olhos injetados, a multidão caminhava, armada e em volúpias de ódio, em direção ao indigitado.

Quando a cena descambava para o exercício da (in)justiça popular, o conhecido linchamento, Seu Zequinha Coletor anunciou:

— Vejam como o nascente está bonito! Vem chuva grossa, meu povo!…

Nas ribeiras de Licânia, chuva é coisa mais valiosa do que milagre. Todos deram as costas para a cena da prisão do baiano macumbeiro, o Senhor Formigão Gallo dos Anjos, mulato alto, filho de São Salvador da Bahia.

— Estas torres anunciam chuvarada para o final da tarde! — foram as palavras do Manuel Alves, metido a meteorologista das bandas de Licânia.

— Tire os seus olhos do nascente, Manuel! Se não, você vai secar as nuvens! — achincalhou, algum (des)conhecido, da calçada da bodega do Edir, a confraria dos pimbas-brancas.

Nisto, alguém gritou:

— O macumbeiro fugiu!

Cabo Jacinto havia sido atingido por uma notória cacetada na cabeça e se encontrava quedo; ressonando, placidamente, como um inofensivo menino.

Fiquemos por aqui. Próxima semana, continuarei com tal mistério; porém, prometo, eu casarei o Ivan Perolino Abuelo. Que Deus permita!

Bom domingo.

 

Cambono é uma novela-folhetim de Clauder Arcanjo publicada aos domingos na Gazeta do Oeste (Mossoró – RN), no caderno Expressão, coluna Questão de Prosa.

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com

VI Encontro Nacional “O insólito como Questão na Narrativa Ficcional” | Instituto de Letras UERJ

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