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Índex* – Fevereiro, 2015

A dor alivia

Por um segundo

Entro

Na lua nova

No mar aberto

De Maracaípe

 

Uma chuva fina cai e mistura

O sal

A água

A luz que vem de dentro

E uma amiga-irmã me chama

– Vem, vem

Para além do arco íris

(“Arco Íris”, Patricia Tenório, D’Agostinho, 2010)

O alívio de um instante que a Arte nos dá no Índex de Fevereiro, 2015 no blog de Patricia Tenório.

“O Major – Eterno é o Espírito” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

Um poema e uma crônica | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“Rumeur” suivi de “Chère Madame Schubert” | Ewa Lipska (Polônia) | Traduction Isabelle Macor-Filarska (França).

Os links do mês:

14 ª Revista Mulheres e Literatura com artigos de Tiago Silva (PB – Brasil) e Patricia Tenório: 

http://litcult.net/site/category/mulheresrev/revista-mulheres-e-literatura-vol-14-2015/

VI Encontro Nacional O Insólito como Questão na Narrativa Ficcional:

http://www.sepel.uerj.br/eventos.html

Danuza Lima (PE – Brasil) no PalavraTório, coluna do Parlatório de Adriano Portela (PE – Brasil):

http://parlatorio.com/sob-a-via-crucis-do-corpo/

 

Excepcionalmente, a postagem de Fevereiro, 2015 foi antecipada em 1 dia. A próxima postagem será em 29 de Março de 2015. Um abraço bem grande em todos e todas,

Patricia Tenório.

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Index* – February, 2015

The pain eases

For a second

In the new moon

I go into

The open sea

Of Maracaípe

 

A fine rain falls and mixes

The salt

The water

The light that comes from within

And a sister-friend calls me

– Come, come

Beyond the rainbow

(“Rainbow”, Patricia Tenório, D’Agostinho, 2010)

The relief of a moment that Art gives us in the Index of February, 2015 in the blog of Patricia Tenório.

“The Major – Eternal is the Spirit” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

A poem and a chronic | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“Rumeur” suivi de “Chère Madame Schubert” | Ewa Lipska (Poland) | Traduction Isabelle Macor-Filarska (France).

The links of the month:

14th Magazine Women and Literature with articles of Tiago Silva (PB – Brasil) and Patricia Tenório: 

http://litcult.net/site/category/mulheresrev/revista-mulheres-e-literatura-vol-14-2015/

The VIth National Meeting The Unusual as Question in Ficcional Narrative:

http://www.sepel.uerj.br/eventos.html

Danuza Lima (PE – Brasil) in PalavraTório, the column of Parlatório from Adriano Portela (PE – Brasil):

http://parlatorio.com/sob-a-via-crucis-do-corpo/

 

Excepcionaly, the posting of February, 2015 was antecipated in 1 day. The next post will be on 29th March, 2015. A big hug in everyone,

Patricia Tenório.

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foto

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** O mar aberto de Maracaípe… The open sea of Maracaípe…

“O Major – Eterno é o Espírito”* | Patricia Tenório**

Apito

Usina Triunfo, 1978

 

O apito soava. Longo, indo, indo, até não mais se ouvir, presente, há alguns minutos apenas. Sereno. A fumaça da chaminé, devagar, diminuindo, desaparecendo. Nem se via mais. Nuvens, restos, escondendo alaranjado, róseo, aquarela. Ainda dava para sentir o calor do sol. Uma brisa suave carregava o dia. Andorinhas vinham dos Andes, tantas, muitas. Barulho ensurdecedor, procuravam árvores, fios, muros. Pousando, fazer verão. Descanso, vir de tão longe, frio. Ali, calor, quietude. Reinavam agora, donas, não lhe pertencia mais, o bueiro ia além dos olhos, arranha-céu. Podiam ainda sentir o calor, apagando, indo.

 

Na Rua de Santa Rita os preparativos começavam. D. Zefa trazia uma toalha comprida, ela mesma fizera, trabalhosa. A outra, surrada, anos repetida. Mesmo ritual sempre.

– Os copos, Rosa. Se apresse, os copos.

– Mas a mesa tá pensa. Chama o Mestre Lu, precisa consertar o pé desse lado. Vai acabar quebrando copo, prato, tudo, Dinda.

– Então, corre, chama ele, mulher. Eu não tenho o dia todo, o povo chega já, já.

 

Mestre Lu subiu na encosta da Casa Grande. Dali via-se toda a usina, melhor lugar, vista. O que é que ele dizia, mesmo?

– O apito da usina quando pára é igual uma pessoa fechando os olhos. Que nem a morte.

Limpava as mãos, calejadas. Foi um dia difícil, tanta coisa para fazer, mas ficou muito bonito. Do jeito que ele gostava. Ia ficar feliz se estivesse lá. Mestre Lu sentiu um esquentar no peito, as bochechas pegando fogo. Sentiu a presença ao olhar para a usina, abriu um sorriso.

(…)

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* Primeira página, primeiro capítulo de O Major – Eterno é o Espírito, Patricia Tenório, Edição do Autor, 2005, Menção honrosa em ficção no Prêmios Literários Cidade do Recife, 2005.

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

Um poema e uma crônica | Clauder Arcanjo*

Louvação à chuva

 

Crestada pelo sêmen do sol,

A terra paria cardos e espinhos.

Amasiada com os urubus e os espinhos,

O sertão gestava mortos, cruzes e ossos.

 

Eu, grávido de nuvens e sonhos,

Adorava os moucos deuses da chuva.

Os quais, raras e poucas vezes,

Me atendiam; sabiam-me

Pecador provinciano indigno.

 

Quando chovia, eu endoidava sob as bicas,

Na louca, real e festiva louvação à chuva.

 

Mensagem de Dércio Braúna

 

Meu caríssimo Clauder,

Nesta sexta em que tudo se agita (o carnaval já é, antes de mesmo de ser), venho lhe confirmar e agradecer, imensamente, as escrituras que me enviaste: Cancioneiro da terra, de Antonio Fabiano; e o teu Pílulas para o silêncio. O primeiro chegou-me na quarta, o teu chegou-me ontem.

Da poesia de Antonio Fabiano, dedilhei versos esparsos. E me parece, pelo que espreitei, poeta senhor do ofício, de uma talhada, burilada lira. Ou melhor, de uma “lira luminar de três mil sóis” [no poema “Lira e toada”]. Que coisa bela! Mas, como disse, ainda hei de enveredar pelo fiar telúrico do poeta Fabiano.

De tua escrevência, contrariando a prática de certos pretensos sábios, fui além da orelha e das duas primeiras páginas (risos!).

E não poderia deixar aqui de registrar meu assombro com tua voracidade criadora. Impressiona esse labor de escrita. É uma inveja que confesso: quem me dera essa disciplina em enfrentar o deus branco que nos espreita, e, por tantas vezes, nos domina e “humilha, com sua paz vazia” [p. 86]. Mas a isto já deste a resposta: “escrever e (d)escrever é minha sina” [p. 28]. E quando de sina se trata, todo cansaço e toda entrega logo se convertem em novo e renovado empenho, em nova e renovada fé de recomeçar.

Ontem, por toda a noite, tomei de tuas pílulas.

Pílulas da certeira ironia nesse tempo nosso, em que “assim [achincalhante] caminha a municipalidade” (e não só, bem sabemos), os “pretensos sábios” [que nada sabem, que nada leem], os pregadores descarnados [“se você acha que tesão profana o amor, case-se com um eunuco”!, p. 69], e tantos, tantos mais.

Pílulas das confissões que não nos cabe calar: “escrevo para chamar pelos meus fantasmas, conclamar todos os meus medos e advertir da propriedade das minhas faltas” [p. 62]. Confesso que, ante essa confissão tua, detive-me. Na noite que me envolvia, com seu silêncio cortado apenas pelo latido distante de um cão-sentinela, parei a pensar. (E não é isso que deve uma escrita: nos parar, nos interromper o ordinário do dia, do afazer costumeiro, para nos atirar aos pés certas pedras ao caminho?).

Pílulas para dar caminho ao pensamento: “a língua de um povo traz, na sua carne, a marca dos seus mitos, o ferro de suas tragédias e a ferrugem de sua história” [p. 131]. Que dizer diante disto? Um imenso correr de linhas (um longo e erudito ensaio, por exemplo) não bastaria para dizer o que diz esta linha breve na sua beleza contundente. Que dizer destas outras (contundentes linhas)?: “se levares a tua pena ao centro das tragédias humanas, e não desistires da palavra, quem sabe escreverás algo que valha a pena ser vivido.” [p. 144]. Ora se não é isto que há tanto tenho tentado, em minhas escrevências, dizer? Assino em baixo, se assim me permitires, essa pílula, camarada.

Pílulas de pura poesia, arcana, primeva: “há uma cidade talássica na noite dos mares extintos” [p. 96]. Que boa inveja me deu essa pílula-pérola!

Pílulas para nos emaranhar nos mundos alheios que são (porque os fazemos) nossos (e não é mesmo assim que deve ser?!): “E agora, José?…” [p. 100]

E agora, Clauder, que mais dizer?

Digo tão somente que me sinto honrado em poder partilhar esse estar inquieto no mundo que tua escrita lança a ele (vasto mundo).

Muito, muitíssimo obrigado, caro amigo, por essas pílulas lançadas ao coração dos sentintes.

Grande abraço deste escrevente,

Dércio Braúna

 

***

 

Caro amigo e mestre Dércio Braúna:

Acordo sempre cedo, tangido pelos galos de uma telúrica madrugada, leio, rabisco e, ao abrir o computador, esta sua nótula-regalo.

O que dizer, além de agradecer? Agradecer porque vale a pena ser lido por um leitor silente e profundamente lírico. Leitor que, ao nos ler, nos faz crer na esperança de uma nova literatura, de uma nova vida, de um novo mundo. Mundo mais poético e, por conseguinte, mais humano e melhor.

Obrigado, amigo Dércio, que a saúde e a Poesia estejam convosco. Amém.

Deste seu admirador,

Clauder Arcanjo.

 

 

* Contato: clauderarcanjo@gmail.com

“Rumeur” suivi de “Chère Madame Schubert” | Ewa Lipska | Traduction Isabelle Macor

Rumeur suivi de Chère Madame Schubert - Ewa Lipska - Traduction Isabelle Macor-Filarska