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Índex* – Janeiro, 2015

Às vezes o coração, rasgado pela

dor, vira retalho. Recomenda-se,

nestes casos, costurá-lo com uma

linha chamada recomeço.

É o suficiente.

(Anônimo, enviado por Angélica Correia Crispim Teixeira)

Recomeçando a cada dia, começando todo um ano com Arte, Amor & Coração no Índex de Janeiro de 2015 no blog de Patricia Tenório (PE – Brasil).

Sobre “Monocular ID-entidade” de Ítalo Dantas (PE – Brasil) e Felipe de Andrade (PE – Brasil) | Patricia Tenório.

Nunca mais o paraíso | Marcelo Pérez (Argentina/PE – Brasil).

Ser civilizado dá trabalho | Mara Narciso (MG – Brasil).

“Cancioneiro da Terra” | Antonio Fabiano (PB/RN/SP – Brasil).

A Epifania em Fernando de Mendonça (SP/PE – Brasil) | Patricia Tenório.

E Danuza Lima (PE – Brasil) na nova coluna PalavraTório do blog Parlatório de Adriano Portela (PE – Brasil):  http://parlatorio.com/entre-agua-e-ceu-coletivo-nauvoadora/

Agradeço imensamente a participação de todos, a próxima postagem será em 22 de Fevereiro de 2015, grande abraço e até lá,

Patricia Tenório.

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Index* – January, 2015

Sometimes the heart, torn by

pain, turns retail. It is recomended,

in these cases, sew with a 

line called resumption.

It’s enough.

(Anonymous, sent by Angélica Correia Crispim Teixeira)

 

Resuming each day, starting a whole year with Art, Love & Heart in the Index of January of 2015 in the blog of Patricia Tenório (PE – Brasil).

About “Monocular ID-entity” from Ítalo Dantas (PE – Brasil) and Felipe de Andrade (PE – Brasil) | Patricia Tenório.

Never more paradise | Marcelo Pérez (Argentina/PE – Brasil).

Being civilized takes work | Mara Narciso (MG – Brasil).

“Songbook of the Earth” | Antonio Fabiano (PB/RN/SP – Brasil).

Epiphany in Fernando de Mendonça (SP/PE – Brasil) | Patricia Tenório.

And Danuza Lima (PE – Brasil) in the new column PalavraTório of the blog Parlatório from Adriano Portela (PE – Brasil):  http://parlatorio.com/entre-agua-e-ceu-coletivo-nauvoadora/

I greatly appreciate the participation of all, the next post will be on 22nd February, 2015, big hug and until there,

Patricia Tenório.

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foto (3)

**

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Recomeçando a cada dia… Resuming each day…

Sobre “Monocular ID-entidade” de Ítalo Dantas e Felipe de Andrade* | Patricia Tenório**

23/01/2015

 

To see the Summer Sky

Is Poetry, though never in a Book it lie –

True Poems flee 

(Emily Dickinson)

            A dedicatória na primeira página do volume artesalmente confeccionado por Ítalo Dantas e Felipe de Andrade do seu Monocular ID-entidade é muito reveladora. Na língua original, o inglês da poetisa americana Emily Dickinson (1830-1886), com as maiúsculas e travessões de Emily Dickinson, preservando o que ela pensou, conservando o sagrado de sua escritura.

Sabemos que os cadernos da poetisa foram encontrados por sua irmã Lavínia após a sua morte. Lá estavam eles, feitos de papel carta, costurados à mão, guardados a sete chaves os 1.775 poemas escritos entre 1850 até 1886 quando faleceu[1]. Ela escrevia pela necessidade máxima e compulsiva de escrever, pelo ato da escritura que manipula alguma parte escondida do cérebro, acessível de maneira semelhante nas leituras epifânicas de um livro bom.

Esse era o segredo também de Joubert. O escritor-que-nunca-escreveu-um-livro, amigo “de Valéry a Gide”, apresentado pelo escritor e ensaísta francês Maurice Blanchot (1907-2003) em O livro por vir, nos fala da recusa de tornar público o que possuía de mais precioso.

 

Mas, de fato, que arte é a minha? Que fim ela se propõe? O que ela produz? O que faz com que ela nasça e exista? O que pretendo e quero fazer ao exercê-la? Será escrever e assegurar-me de ser lido? Única ambição de tanta gente! será isso o que desejo?… É o que devo examinar atentamente, longamente, e até que eu o saiba.[2]

 

Ítalo/Felipe – e não sabemos qual dos dois, feito quisessem se anonimizar à la artistas do medievo, cavaleiros de Canções de Gesta, cantadores de Canções de Amigo – avisa(m) logo no prefácio do perigo a ser enfrentado:

 

aviso ao leitor atento:

desatente-se

*

[…]

Este é o ponto de virada,

onde o “Eu” assume sua ID

-entidade definitiva.

Eu. […]

Desejo, logo resisto.

*

re-

sign

{i}ficar O(n.m.) sign-o.

 

Trilhando os “longos, perigosos, tortuosos” caminhos da arte, para onde o artista vai, mas não possui garantias de volta, aquilo que Hermann Hesse (1877-1962) avisou que era para “os poucos, os loucos, os bons”[3], ou que Walt Whitman compreende que “Só o que a si mesmo prova a todo homem e mulher existe”[4], estão ali, escancarados, e descobertos, e ferida exposta em Ítalo Dantas e Felipe de Andrade.

 

O medo da dor é mais forte que a própria dor.

I

Assombra-me esta ideia de que um dia

Cessarão os ponteiros da existência,

E não virão os anjos à excrescência

Da mais primordial anatomia

 

De maneira sartriana eles estão sós, e carregam essa mais absoluta solidão em seus peitos juvenis, em seus peitos que ainda têm muito a ver, e sofrer, e chorar, mas também amar, e levantar, e se refazer das cinzas, feito fênix de verso e luz.

 

Poema (?) Cinza

 

O tempo vem e gentilmente nos dobra:

o futuro ao mais forte pertence.

Sozinhos.

Lá se foi a luta

e a guerra…

Só nos resta levantar a cabeça

procurando o sol (será que ele ainda

[está lá?)

e rezar para que alguém nos escute,

para que sejamos iguais, ou sejamos

                        [levados embora.

 

Então nos resta apenas pedir a Ítalo Dantas e Felipe de Andrade, jovens “alunos de poesia” feito eles mesmos se autodenominam, que não desistam, e insistam, e persistam, mesmo se tiverem que continuar costurando seus livros feito Emily Dickinson, mesmo que não publiquem em editoras poderosas, que permaneçam nesse espaço sagrado que Joubert buscava, ansiava avidamente, “Aqui, estou fora das coisas civis e na pura região da Arte”[5]. Ou feito a dedicatória/epígrafe que encabeça Monocular ID-entidade, que eu peço delicadamente a licença a Ítalo/Felipe/Emily de a traduzir.

 

Ver o Céu de Verão

É Poesia, mas nunca em um Livro mentem –

Verdadeiros Poemas fogem 

 

– Continuemos!

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foto 1

foto 2

 

foto 3

 

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Ítalo Dantas e Felipe de Andrade são “jovens estudantes” da Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco e da Graduação em Engenharia da Universidade Federal Rural de Pernambuco respectivamente. Contato: italodantas95@hotmail.com

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

(1) BENDER, Ivo in DICKINSON, Emily.  Poemas escolhidos. Tradução: Ivo Bender. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 9.

(2) JOUBERT in BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Tradução: Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005. – (Tópicos), p. 75.

(3) HESSE, Hermann. O lobo da estepe. Tradução e prefácio de Ivo Barroso. 29ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2005.

(4) WHITMAN, Walt. Canção de mim mesmo. In Folhas de Relva. Tradução e pósfácio de Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008; 2ª reimpressão, p. 85.

(5) JOUBERT in BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Tradução: Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005. – (Tópicos), p. 76.

Nunca mais o paraíso | Marcelo Pérez*

16/01/2015

 

Que nunca mais ninguém

Nem drone

gorila

nem turbante

Atire, fure, mate

uma criança.

 

Nunca uma foto mais

De mãe alçando mãos

Para um céu que não existe

de frente aos quatro mínimos cadáveres

furos como insulto

olhos para um nunca

nunca mais

sem brinquedos.

 

Nunca mais

 

Porque se assim não houver,

Não haverá…

 

Eu hei-de levantar

Os satanazes de todas a poesia

Desde antes dos homeros

Das bíblias

Dos corãos

das torás

Dos blasfemos

 

Incendiarei de lástima a vergonha

os deixarei onde estão

de novo no começo

O rabo preso ao galho

catar-se mutuamente

piolhos de gabinete

 

não fere

não arrepia

a mãe

a mão

o morno ainda

pano umedecido

 

mas o que estava à frente

que nunca mais está

pra amanhã desses olhos

desligados

ocos de sonho

lisos

é um deus roubado a nós

roubado ao cada um

de todos

o que viria a ser

 

o paraíso em que nenhum deles

se converteria

 

mas assim

tão estupida

mente roubada

 

sim

estava ali

esse era o paraíso.

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Segundo Sidney Rocha, Marcelo Pérez é o mais brasileiro dos argentinos… Contato: perezman@hotlink.com.br

Ser civilizado dá trabalho | Mara Narciso*

5 de janeiro 2015

Ainda bem que os princípios civilizatórios existem há milênios, senão seria impossível a convivência social nos campos e cidades. O Código de Hamurabi com seus 282 artigos (1810 aC), o Talmud (século III dC) com as seis ordens judaicas, e os Dez Mandamentos ou decálogo, que segundo a Bíblia foram escritos por Deus e dados a Moisés, contêm leis e preceitos para ordenar e organizar os humanos.

Cada indivíduo tem seu rol de princípios pétreos e que jamais serão desobedecidos. Outros conceitos costumam ser flexibilizados e negociados intimamente, de forma que numa mesma família há quem aceite determinados comportamentos, enquanto outros os vetam. A religião é a principal normatizadora de condutas, mas, o exemplo dos pais é o que determina as maneiras sociais, desde a fala até os negócios. Existem ainda a boa e a má índole, e pessoas que, por mais que lhes seja ensinado, são aéticas e amorais. Há os hipócritas, que pregam algo e agem de maneira oposta, inclusive pessoas religiosas. Mas não se deve tentar igualar os desiguais.

Viver em sociedade obriga cada um a adotar hábitos de higiene e sociais, como civilidade e boas maneiras, sem os quais nada funcionaria. Procura-se estar ao lado de pessoas sensatas, equilibradas, suaves, cuja maneira de agir é naturalmente uma aula de boa convivência, mesmo sem impor nada. Diz-se que a educação paterna de antes era melhor que a de hoje, bem mais liberal, e que essa liberalidade está exagerada, e que se deveria recuar nesse quesito. São épocas e maneiras diferentes de educar. Lê-se, sendo contado como vantagem, que o pai não precisava falar nada e apenas um olhar era suficiente para as ordens serem seguidas. Naquela época raros pais demonstravam carinho pelos filhos. A obediência cega, sem questionamento, estava indicada para esposa e descendência.

Educar pelo amor e compreensão rende melhores resultados. Praticar o bem pelo bem em si, sem pensar em recompensa ou reconhecimento é ser de fato bom, ainda que o prazer de praticar o bem seja também uma forma de vaidade. Que se ensine a bondade às crianças e se formarão cidadãos.   A sociedade é um lugar de aparências. Fala-se tanto em amigo falso. É falso aquele que trai a confiança, ouve fraquezas de alguém e as divulga, promete e não cumpre, engana, pega dinheiro e não paga ou rouba a companheira do amigo.

Socialmente falando há quem seja uma farsa completa e acabada. Será que o que se vê chega perto do real? Quem sou eu? Quem é ele? Qual é a sua real face? A começar pelo odor que exala. Alguém produz perfume de rosas em sua pele? A beleza ostentada é a verdade? Recorrer aos recursos ofertados para melhorar é vergonhoso?

De todas, uma das maiores convenções é o que se chama de moda. Quem não se cuida é tido como desleixado, especialmente quem não cumpre as normas atuais de cores, cheiros e sabores. Quem reclama de certas exigências, e, ainda que contrariado, cumpre o que lhe foi solicitado quanto a comportamentos de ter, estar, ficar, usar, usufruir, está fazendo o jogo do consumo de bens e serviços daqueles que impõem que não se pode engordar nem envelhecer, que o cabelo anelado é feio, que o nariz não pode ser largo, que barriga grande não é bonito, que gorduras nas laterais da cintura precisam ser “lipoaspiradas”, que cabelo branco e rugas são uma afronta. Estar só é vergonhoso. E, querendo ou não, vão quase todos obedecendo a essas ordens, mansamente, vendo-se um ou outro que se rebela, e recebe severa crítica. Isso é ser livre?

Então, acontecem as justificativas exageradas de que se comeu muito no fim-de-ano, que não deu tempo disso ou daquilo, pois se o corpo não está como o exigido, pelo menos o discurso está afinado. Fazem o que não querem para saciar o mercado, ainda que seja para dar satisfação aos parentes e amigos próximos.  No final e afinal a farsa se perpetua. Um grupo de pessoas cumpre o ritual para ser incluído. E quando alguém sai deliberadamente daquilo que é esperado, é apontado com o dedo. E para voltar, pode faltar caminho.

A miscelânea de temas se justifica, seja no aspecto moral, cívico ou físico, o mais exigido, porque quando se cumpre leis, normas e ordens, algumas são boas e outras absurdas, e ainda assim continuam a ser obedecidas.

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* Mara Narciso é escritora, médica e amante da vida… Contato: yanmar@terra.com.br

“Cancioneiro da Terra”* | Antonio Fabiano**

ALMA POTI

 

Em chãos da Paraíba eu nasci,

Mas cedo vim morar no Rio Grande.

Minh’alma fez-se então monja poti,

Aberta a toda sina que Deus mande.

 

Lancei raízes nesta terra Norte…

Daqui sou filho – alma e coração!

Laços tão fortes que nem mesmo a morte

Pode quebra-los… Quão benditos são!…

 

E desde então eu canto um canto novo!

Trago nas mãos as linhas do meu povo!…

Na bênção de ser filho desta terra

 

Transborda a minha taça! O sangue brada!…

A minha sorte ufana, burilada,

Exulta mais e toda graça esmera!…

 

PRECE VESPERTINA

 

O sol em lume vai morrendo agora,

Pelo caminho branco do sertão.

Há um silêncio imenso nesta hora.

O mundo perde a cor, em mutação…

 

Desenha o céu, na terra, o esplendor

Duma suave prece, sinfonia,

Como na velha ermida: Ave Maria…

No coração do homem, uma dor…

 

As árvores fantasmas, silenciosas,

Erguem as mãos ao céu, dizem a Deus

Um louvor diferente… Nesses breus

 

Todas as coisas dormem. Copiosas

Só as corujas flertam, as vadias,

Nas sombras raras, pálidas, vazias…

 

CANCIONEIRO

 

Vem a noite serena sobre a terra

Em branca nostalgia – negro vão…

O homem sertanejo que espera

As chuvas de inverno abre a mão

 

E harpeja na viola da esfera

A música sagrada do seu pão

Com ritmo de água que na serra

Compõe cancioneiro – coração.

 

À noite quando chora o sertanejo

Na tábua de silêncio do seu chão

Brotar faz esperança do desejo…

 

E reza pela chuva que bem tarda

Mas que um dia chega – salvação!

E dorme na espera sempre larga…

 

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Poemas extraídos de Cancioneiro da Terra, Antonio Fabiano. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2014.

** Antonio Fabiano da Silva Santos nasceu em 05 de julho de 1979. É natural de Patos-PB, porém cresceu e viveu em Cerro Corá-RN até o ano de seu ingresso na Ordem do Carmelo Descalço (2004) onde passou a chamar-se Frei Fabiano de Santa Maria do Monte Carmelo. Formou-se em Letras pela UFRN e Filosofia e Teologia na PUC de Minas Gerais. Publicou pela Taba Cultural Editora do Rio de Janeiro em 2012 os seus livros de poemas Sazonadas e Girassóis Noturnos. Reside atualmente em um convento do estado de São Paulo. Contato: www.antoniofabiano.blogspot.com.br  

A Epifania em Fernando de Mendonça* | Patricia Tenório**

02/01/2015

– Fernando de Mendonça me assombra!

Quando recebi 23 de Novembro, do escritor paulista-pernambucano Fernando de Mendonça (1984), estremeci.

Lembrei com um estrondo de trovão, com um lampejo de pensamento o dia em que li, “de uma sentada só”, Um Detalhe em H[1], o primeiro livro de ficção de Fernando. Era uma tarde no mês de Junho de 2013. Penso que chovia um pouco – feito chovia ontem. Não me lembro. Não sei. Só sei que os personagens Hugo e Helena, que carregam o “H” maiúsculo em suas costas, me retiraram do centro, me desestabilizaram, e eu não conseguia colocar mais os meus pés no chão.

Recebo 23 de Novembro. A capa, cor de prata, após a capa ouro de Um Detalhe em H poderia refletir uma predileção pelo primogênito em detrimento ao segundo filho de Fernando. Mas lembrei – e não lembro onde, quem, lido ou escutado – que no Antigo Testamento houve uma época em que o ouro valia menos que a prata, e isto é bem significativo aqui nos dois livros do autor.

Quase um mês após o recebimento de 23 de Novembro, no primeiro dia do ano, tomo o livro em minhas mãos. Sento na minha cadeira predileta da biblioteca. Começo a folheá-lo, sentir o aroma das páginas recém-impressas, o toque nas letras recém-impressas com a ponta de meus dedos, e é feito me transportasse para o momento da sua concepção, lá em 2007 – nos informa a biografia-poema-em-prosa no final do livro. Não, não começo pelo final, mas pareço advinha-lo, e essa náusea que, durante a leitura de 23, vai aumentando, e crescendo, até atingir o insuportável.

Fernando narra a história de Irene. Uma jovem esposa, mãe de família, que trabalha com editoração de livros, e que, nas antevésperas de seu aniversário de 28 anos, se vê encurralada, se percebe em vertigem com o seu próprio abismo.

Notamos Um Detalhe em H inserido em 23 de Novembro, dialogando com 23 de Novembro. O uso da lagartixa na abertura daquele, em um cenário deste que nos remete ao cenário daquele – o quarto de hotel em Irene, o quarto de casa em Hugo – reforça o sentimento kafkaniano em Fernando de Mendonça, reforça a minha náusea, a minha desestabilização ao ler as suas linhas por inteiro.

A epígrafe do livro, extraída de Um Sopro de Vida, de Clarice Lispector talvez possa me salvar quando leio que

 

Tenho a impressão de que alguém vive a minha vida,

que o que se passa nada tem a ver comigo,

há uma mola mecânica em alguma parte de mim

Eu quero simplesmente isso: o impossível. Ver Deus.

 

e me remete a Anna Akhmátova quando no poema “Terceira” diz

 

Uma outra mulher ocupou

o lugar especialmente reservado para mim

e usa o meu nome

deixando para mim só o apelido, com o qual

fiz provavelmente, tudo o que havia para ser feito.[2]

 

A epígrafe de Clarice Lispector, grande paixão literária de Fernando, nos indexa ao momento em que aquela se encontra com a escrita de Katherine Mansfield e afirma, assombrada: “Mas esse livro sou eu!”[3]

Talvez a minha náusea, a minha angústia em começar a ler o livro de Fernando seja a mesma angústia de Clarice frente ao livro de Katherine, seja a mesma angústia de Ulisses/Homero ao atravessar amarrado no mastro o canto das sereias para poder escutá-lo e não se suicidar, talvez seja a mesma angústia de O lobo da estepe, de Hermann Hesse, nas vésperas de seu aniversário.

 

A profunda convicção de que aquela saída de emergência estava constantemente aberta lhe dava forças, fazia-o sentir a curiosidade de provar seu sentimento até as últimas instâncias. (…) Finalmente, aos quarenta e seis anos de idade, deu com uma ideia feliz, mas não inofensiva, que lhe causava não raro deleite. Fixou a data de seu quinquagésimo aniversário como o dia no qual se permitiria o suicídio. Nesse dia, convencionara consigo mesmo, podia usar a saída de emergência, segundo a disposição que demonstrasse.[4]

 

O fato de saber que o aniversário de Fernando de Mendonça é no dia 23 de Novembro – dois dias após o meu aniversário – leva a considerar este efeito de real para o qual ele me convida. Para se afastar mais do personagem principal, escolhe que seja do sexo feminino, casada, com uma filhinha de 4 anos, morando em Boa Viagem. Mas Boa Viagem é um bairro da Recife que Fernando habita desde os 18 anos. E Boa Viagem é o bairro em que resido desde 1996. [5]

Começo a ver as ruas do bairro descritas por Fernando, sinto o aroma da praia, as cores do quiosque onde Irene bebe a sua água de côco e conhece o Homem sem nome, o Homem com o H maiúsculo de Hugo e Helena. O hotel se parece com um hotel recém construído no final de Boa Viagem, já no bairro do Pina, e posso sentir a textura do carpete do corredor para o quarto de hotel onde Irene “passa” entre aspas o final de semana, porque ela não está lá, está de passagem, assim feito eu estou de passagem pelas páginas do livro de Fernando. Mas nunca mais Irene será a mesma, nunca mais eu serei a mesma, nunca mais alguém será a mesma pessoa após se esbarrar, se encontrar com tamanha violência com sua pergunta original, quando a pergunta e a resposta coexistem, coabitam o mesmo não-lugar, o mesmo não-tempo do Mito pessoal. [6]

“Irene sabia”, afirma o livro que leio. A personagem que é desestabilizada pela leitura de um livro que está editorando sabia que se encontrara com seu Mito pessoal, que havia sido assombrada por seu Duplo. E, assim feito Narciso, encontra-se paralisada com sua própria imagem no espelho das águas, no espelho das páginas escritas por Fernando de Mendonça encontra-se a resposta para a pergunta da leitora que escreve, para a escritora que lê o que não saberia escrever porque guardado no mais profundo âmago, que somente um bom livro pode trazer à tona.

 

– (…) Mas, pela primeira vez, sinto que esbarro em algo realmente grande. Sabe estes livros que nos marcam de um jeito especial? Estes que parecem ter vindo com um remetente para nós? Estou até assustada com a pertinência deste para mim.

– Conte-me algum dos contos. O que mais gostou.

– Acho que não consigo. Não é apenas pelo que acontece nele. Vai mais fundo. E aqui eu sei que não estou confundindo gosto com costume, pois já os li, reli, e não me acostumei a eles.

– Aos melhores livros, a gente não se acostuma, mas sobrevive.[7]

 

– Fernando de Mendonça me assombra!

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foto 1

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foto 4

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Fernando de Mendonça é escritor, crítico cinematográfico, cantor de Música Sacra. Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, lançou o seu primeiro livro em 2012, A Modernidade em Diálogo: o fluir das artes em ‘Água Viva, resultado da pesquisa premiada como melhor dissertação do ano pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE, linha de pesquisa Intersemiose. Um Detalhe em H, 2012, é seu primeiro livro de ficção e é lançado em Agosto de 2013. 23 de Novembro, 2014, promete ser a sequência de uma “escrita intersemiótica” de Fernando de Mendonça até o infinito…  Contato: nandodijesus@gmail.com   

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

(1) MENDONÇA, Fernando de. Um Detalhe em H. Recife: Grupo Paés, 2012. Veja também: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4809

(2) AKHMÁTOVA, Anna. “Terceira” in  Antologia Poética. Seleção, tradução, apresentação e notas: Lauro Machado Coelho. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009, p. 126.

(3) LISPECTOR, Clarice. Aprendendo a Viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 22.

(4) HESSE, Hermann. O lobo da estepe. Tradução e prefácio de Ivo Barroso. 29ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 60.

(5) Cecília de Almeida Salles em Crítica genética: fundamentos dos estudos genéticos sobre o processo de criação artística, 3ª ed. revista, São Paulo: EDUC, 2008, p. 25, nos fala que a “obra não é, mas vai se tornando, ao longo de um processo que envolve uma rede complexa de acontecimentos”. Esse “efeito de real” provocado pela leitura de 23 de Novembro teria a ver com as coincidências biográficas entre o livro e a leitora, mas, principalmente, com o pacto bem sucedido d‘O Jogo do Texto’ de Wolfgang Iser (em A literatura e o leitor: textos de estética da recepção, Tradução e Organização: Luís da Costa Lima, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 108), quando a manutenção do movimento do jogo ficcional com a não tomada de decisões adia o seu final.  

(6) Segundo André Jolles em Formas Simples: Legenda, Saga, Mito, Adivinha, Ditado, Caso, Memorável, Conto, Chiste, Tradução de Álvaro Cabral, São Paulo: Cultrix, 1976, p. 88, quando “o universo se cria assim para o homem, por pergunta e resposta, tem lugar a Forma a que chamamos Mito”.   

(7) MENDONÇA, Fernando de.  23 de Novembro. Recife: Grupo Paés, 2014, p. 60.  

A Epifania em Fernando de Mendonça* | Patricia Tenório**

02/01/2015

– Fernando de Mendonça me assombra!

Quando recebi 23 de Novembro, do escritor paulista-pernambucano Fernando de Mendonça (1984), estremeci.

Lembrei com um estrondo de trovão, com um lampejo de pensamento o dia em que li, “de uma sentada só”, Um Detalhe em H[1], o primeiro livro de ficção de Fernando. Era uma tarde no mês de Junho de 2013. Penso que chovia um pouco – feito chovia ontem. Não me lembro. Não sei. Só sei que os personagens Hugo e Helena, que carregam o “H” maiúsculo em suas costas, me retiraram do centro, me desestabilizaram, e eu não conseguia colocar mais os meus pés no chão.

Recebo 23 de Novembro. A capa, cor de prata, após a capa ouro de Um Detalhe em H poderia refletir uma predileção pelo primogênito em detrimento ao segundo filho de Fernando. Mas lembrei – e não lembro onde, quem, lido ou escutado – que no Antigo Testamento houve uma época em que o ouro valia menos que a prata, e isto é bem significativo aqui nos dois livros do autor.

Quase um mês após o recebimento de 23 de Novembro, no primeiro dia do ano, tomo o livro em minhas mãos. Sento na minha cadeira predileta da biblioteca. Começo a folheá-lo, sentir o aroma das páginas recém-impressas, o toque nas letras recém-impressas com a ponta de meus dedos, e é feito me transportasse para o momento da sua concepção, lá em 2007 – nos informa a biografia-poema-em-prosa no final do livro. Não, não começo pelo final, mas pareço advinha-lo, e essa náusea que, durante a leitura de 23, vai aumentando, e crescendo, até atingir o insuportável.

Fernando narra a história de Irene. Uma jovem esposa, mãe de família, que trabalha com editoração de livros, e que, nas antevésperas de seu aniversário de 28 anos, se vê encurralada, se percebe em vertigem com o seu próprio abismo.

Notamos Um Detalhe em H inserido em 23 de Novembro, dialogando com 23 de Novembro. O uso da lagartixa na abertura daquele, em um cenário deste que nos remete ao cenário daquele – o quarto de hotel em Irene, o quarto de casa em Hugo – reforça o sentimento kafkaniano em Fernando de Mendonça, reforça a minha náusea, a minha desestabilização ao ler as suas linhas por inteiro.

A epígrafe do livro, extraída de Um Sopro de Vida, de Clarice Lispector talvez possa me salvar quando leio que

 

Tenho a impressão de que alguém vive a minha vida,

que o que se passa nada tem a ver comigo,

há uma mola mecânica em alguma parte de mim

Eu quero simplesmente isso: o impossível. Ver Deus.

 

e me remete a Anna Akhmátova quando no poema “Terceira” diz

 

Uma outra mulher ocupou

o lugar especialmente reservado para mim

e usa o meu nome

deixando para mim só o apelido, com o qual

fiz provavelmente, tudo o que havia para ser feito.[2]

 

A epígrafe de Clarice Lispector, grande paixão literária de Fernando, nos indexa ao momento em que aquela se encontra com a escrita de Katherine Mansfield e afirma, assombrada: “Mas esse livro sou eu!”[3]

Talvez a minha náusea, a minha angústia em começar a ler o livro de Fernando seja a mesma angústia de Clarice frente ao livro de Katherine, seja a mesma angústia de Ulisses/Homero ao atravessar amarrado no mastro o canto das sereias para poder escutá-lo e não se suicidar, talvez seja a mesma angústia de O lobo da estepe, de Hermann Hesse, nas vésperas de seu aniversário.

 

A profunda convicção de que aquela saída de emergência estava constantemente aberta lhe dava forças, fazia-o sentir a curiosidade de provar seu sentimento até as últimas instâncias. (…) Finalmente, aos quarenta e seis anos de idade, deu com uma ideia feliz, mas não inofensiva, que lhe causava não raro deleite. Fixou a data de seu quinquagésimo aniversário como o dia no qual se permitiria o suicídio. Nesse dia, convencionara consigo mesmo, podia usar a saída de emergência, segundo a disposição que demonstrasse.[4]

 

O fato de saber que o aniversário de Fernando de Mendonça é no dia 23 de Novembro – dois dias após o meu aniversário – leva a considerar este efeito de real para o qual ele me convida. Para se afastar mais do personagem principal, escolhe que seja do sexo feminino, casada, com uma filhinha de 4 anos, morando em Boa Viagem. Mas Boa Viagem é um bairro da Recife que Fernando habita desde os 18 anos. E Boa Viagem é o bairro em que resido desde 1996. [5]

Começo a ver as ruas do bairro descritas por Fernando, sinto o aroma da praia, as cores do quiosque onde Irene bebe a sua água de côco e conhece o Homem sem nome, o Homem com o H maiúsculo de Hugo e Helena. O hotel se parece com um hotel recém construído no final de Boa Viagem, já no bairro do Pina, e posso sentir a textura do carpete do corredor para o quarto de hotel onde Irene “passa” entre aspas o final de semana, porque ela não está lá, está de passagem, assim feito eu estou de passagem pelas páginas do livro de Fernando. Mas nunca mais Irene será a mesma, nunca mais eu serei a mesma, nunca mais alguém será a mesma pessoa após se esbarrar, se encontrar com tamanha violência com sua pergunta original, quando a pergunta e a resposta coexistem, coabitam o mesmo não-lugar, o mesmo não-tempo do Mito pessoal. [6]

“Irene sabia”, afirma o livro que leio. A personagem que é desestabilizada pela leitura de um livro que está editorando sabia que se encontrara com seu Mito pessoal, que havia sido assombrada por seu Duplo. E, assim feito Narciso, encontra-se paralisada com sua própria imagem no espelho das águas, no espelho das páginas escritas por Fernando de Mendonça encontra-se a resposta para a pergunta da leitora que escreve, para a escritora que lê o que não saberia escrever porque guardado no mais profundo âmago, que somente um bom livro pode trazer à tona.

 

– (…) Mas, pela primeira vez, sinto que esbarro em algo realmente grande. Sabe estes livros que nos marcam de um jeito especial? Estes que parecem ter vindo com um remetente para nós? Estou até assustada com a pertinência deste para mim.

– Conte-me algum dos contos. O que mais gostou.

– Acho que não consigo. Não é apenas pelo que acontece nele. Vai mais fundo. E aqui eu sei que não estou confundindo gosto com costume, pois já os li, reli, e não me acostumei a eles.

– Aos melhores livros, a gente não se acostuma, mas sobrevive.[7]

 

– Fernando de Mendonça me assombra!

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* Fernando de Mendonça é escritor, crítico cinematográfico, cantor de Música Sacra. Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, lançou o seu primeiro livro em 2012, A Modernidade em Diálogo: o fluir das artes em ‘Água Viva, resultado da pesquisa premiada como melhor dissertação do ano pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE, linha de pesquisa Intersemiose. Um Detalhe em H, 2012, é seu primeiro livro de ficção e é lançado em Agosto de 2013. 23 de Novembro, 2014, promete ser a sequência de uma “escrita intersemiótica” de Fernando de Mendonça até o infinito…  Contato: nandodijesus@gmail.com   

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

(1) MENDONÇA, Fernando de. Um Detalhe em H. Recife: Grupo Paés, 2012. Veja também: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4809

(2) AKHMÁTOVA, Anna. “Terceira” in  Antologia Poética. Seleção, tradução, apresentação e notas: Lauro Machado Coelho. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009, p. 126.

(3) LISPECTOR, Clarice. Aprendendo a Viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 22.

(4) HESSE, Hermann. O lobo da estepe. Tradução e prefácio de Ivo Barroso. 29ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 60.

(5) Cecília de Almeida Salles em Crítica genética: fundamentos dos estudos genéticos sobre o processo de criação artística, 3ª ed. revista, São Paulo: EDUC, 2008, p. 25, nos fala que a “obra não é, mas vai se tornando, ao longo de um processo que envolve uma rede complexa de acontecimentos”. Esse “efeito de real” provocado pela leitura de 23 de Novembro teria a ver com as coincidências biográficas entre o livro e a leitora, mas, principalmente, com o pacto bem sucedido d‘O Jogo do Texto’ de Wolfgang Iser (em A literatura e o leitor: textos de estética da recepção, Tradução e Organização: Luís da Costa Lima, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 108), quando a manutenção do movimento do jogo ficcional com a não tomada de decisões adia o seu final.  

(6) Segundo André Jolles em Formas Simples: Legenda, Saga, Mito, Adivinha, Ditado, Caso, Memorável, Conto, Chiste, Tradução de Álvaro Cabral, São Paulo: Cultrix, 1976, p. 88, quando “o universo se cria assim para o homem, por pergunta e resposta, tem lugar a Forma a que chamamos Mito”.   

(7) MENDONÇA, Fernando de.  23 de Novembro. Recife: Grupo Paés, 2014, p. 60.