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Índex* – Dezembro, 2014

O velhinho vai

O menino vem

O Tempo passa

E nem sentimos

Que passou

Alçou asas

E voou

Eu aqui

O vivo

Ele ali

Me inveja

Pois só sabe

Passar

E passar

Nos doze meses

Do ano

 (“Adeus, Oh, Tempo Velho!”, Patricia Tenório, 20/12/14, 10h18)

A Arte maior do que a Vida, maior do que o Tempo no Índex de Dezembro de 2014 no blog de Patricia Tenório.

“O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção)” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

“Radiola: Conversa de Música” | Damião Nobre (RN – Brasil).

“Pétalas” | Florina da Escóssia (RN – Brasil).

“Ginnungagap: Um Livro de Contos e Começos” | Haroudo Satiro Xavier Filho (PE – Brasil).

“Dissonante” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

E o desejo de um 2015 de muita Paz, Saúde, Luz, Amor & Poesia para todos, todas, a próxima postagem será em 25 de Janeiro de 2015, um grande abraço e até próximo ano,

Patricia Tenório. 

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Index* – December, 2014

The old man goes

The boy comes

Time passes by

And we don’t feel

It passed through

It lifted wings

And flew

I am here

Living it

It is there

Envying me

‘Cause it only knows

To pass 

And passing by

Within twelve months

Of the year

 (“Farewell, Oh, Old Time!”, Patricia Tenório, 12/20/14, 10h18)

 

Art bigger than Life, bigger than Time in the Index of December, 2014 in the blog of Patricia Tenório.

“The unlearner of stories (Notes for a Fiction Theory)” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

“Radiola: Music Talk” | Damião Nobre (RN – Brasil).

“Petal” | Florina da Escóssia (RN – Brasil).

“Ginnungagap: A Book of Tales and Begginings” | Haroudo Satiro Xavier Filho (PE – Brasil).

“Dissonant” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

And the desire of a 2015 with a lot of Peace, Health, Light, Love & Poetry for all, the next post will be on 25th January, 2015, a big hug and see you next year,

Patricia Tenório.

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Foto Índex Janeiro 2014

Nos jardins de Monet

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Praga III

Praga VIII

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4 - foto 4(1)

1 - foto 1(4)

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** O Tempo passando nos doze meses do ano no blog de Patricia Tenório… Time passing by within twelve months of the year in the blog of Patricia Tenório…

“O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção)”* | Patricia Tenório**

(…)

A solidão nos faz imaginar as pessoas que não conhecemos feito velhos amigos nossos, onde as qualidades são as nossas, os defeitos, os esquecemos, os escondemos, para não nos vermos por inteiro, para não nos vermos em um espelho.

Meu novo amigo era mais do que um amigo imaginário, porque era feito de carne e osso, e habitava a cela ao lado. Ele não fazia barulho durante a noite, não falava comigo durante o dia. Mas quando cruzávamos o olhar, as poucas vezes em que cruzávamos o olhar, era feito a eternidade existisse por um segundo, ou mesmo o tempo não houvesse mais.

(…)

Uma amizade recomeçada é o vaso trincado em mil pedaços, e mesmo assim inteiro e pode-se ver através de cada rachadura. É preciso um bocado de humildade para reconhecer as fissuras, e que a culpa não é de um só, é de cada um em movimento com o outro, o que se quebrou foi a dança do amor infinito, que é a mesma dança do ódio que se acabou.

Quando se perde tudo, quando não se tem mais nada, sentimos o vazio apaziguar a alma, preencher fissuras, e o peso de nossos corpos sobre a esteira fina de palha aquece os nossos corações.

(…)

Há duas semanas não escrevo. É sempre mais difícil recomeçar do que insistir no treino diário. É preciso lapidar o tempo inteiro o diamante, é preciso polir todos os dias a pedra de mármore, para que se faça nascer a escritura.

Muitas vezes o que se encontra não é válido para mostrar nem aos amigos, não vale o esforço que se gastou. Mas o movimento da mão que escreve sobre o papel grosso manipula uma parte escondida do cérebro que somente a experiência constante promove, somente o exercício diário traz à tona. Uma parte que costumo chamar de coração.

(…)

Um diálogo é feito do inesperado, é feito do imprevisível, ao mesmo tempo em que usamos toda a nossa bagagem na teia que está sendo tecida. Não sabemos o que diremos no instante seguinte, porque precisamos da palavra do outro a ser enlaçada com a nossa palavra, e promover significado, e conceder explicação.

Feito em um circo, em um número de acrobacias, quando não sabemos como os artistas farão para manter o equilíbrio e não cair, ou mesmo os malabares com bolas-palavras trocadas pelo ar, soltas pelo ar correndo o risco de tropeçarem umas nas outras e provocarem um encontro mortal.

Cuidávamos de nossas palavras, eu e o meu companheiro de diálogo, como se fôssemos esses malabares que, com os pés no chão, olhavam para o alto, olhavam para as suas bolas-palavras navegando pelo ar, flutuando pelo ar em busca de sentido.

(…)

Será possível o futuro se comunicar com o passado? O tempo ocupar dois lugares ao mesmo tempo? Se nesta frase que acabei de escrever ele ocupa o princípio e o final, porque não poderia ocupar lugares bem distantes do planeta, momentos diferentes que se fazem simultâneos, apenas pela sensibilidade do ser que o percebe? O artista seria esse grande captador de momentos diversos, afastados entre si anos, séculos, vidas, mas sempre pronto para toma-los para si feito pequenas conchas e tecer todo um oceano de sentidos apenas com o manusear da palavra escrita.

(…)

Quando se entra em um livro de maneira tão intensa, de maneira tão inteira se mergulha nas palavras, se permanece imerso nas palavras como se não houvesse tempo, como se não houvesse espaço, e se deixa transformar em outro ser humano. A escrita e a leitura se confundem, feito duas setas contrárias da mesma flecha: do sentido para quem escreve, do sentido para quem lê.

E neste balé imaginário, nesta troca de fluidos entre corpos nasce a inspiração, que não é a das musas, não provém dos deuses, mas das partículas aceleradas desses corpos em movimento.

Quando se fecha um livro, tudo se desfaz, tudo desaprende para se aprender de novo, tudo se libera do passado original, para ser original com uma nova cor, um novo rosto, um novo roçar dos meus olhos nesta frase que se encerra.

(…)

A morte é a desaprendiz da vida, e tudo o que vivemos se reverte em seu contrário. Tudo o que pensamos garantir com o trabalho, com o dinheiro, com o poder, está sendo gasto para sempre, está sendo posto para sempre no mundo de Hades, e coberto para sempre com o esquecimento.

Desaprendemos para poder viver. Não nos lembramos, pois já não suportamos mais o peso das mortes cristalizadas dos atos que eu fiz, de quem eu magoei, dos erros que cometi. Só existe um porém para a morte, só existe uma saída para todo esquecimento. Uma saída que é água para o fogo, paz para a guerra, bálsamo para a ferida. Uma saída que se chama amor.

(…)

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Trechos de O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção, Patricia Tenório. Em “Revisando”…

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br.

“Radiola: Conversa de Música” | Damião Nobre*

VIRUNDUNS**

Quem nunca cantou a letra de uma canção cometendo erros absurdos e virando motivo de gozação que atire a primeira pedra. Os erros são explicáveis e decorrem de vários fatores. Quem canta o faz da forma que entendeu. A estranheza da letra, o uso de gíria e termos de uso restrito em determinadas “tribos”, a dicção do intérprete, o conhecimento linguístico de quem ouve e reproduz, a idade, a cultura são fatores que modificam o entendimento. Se não temos dialetos, os regionalismos também dificultam a compreensão de determinados termos e, assim, palavras usadas no Rio Grande do Sul, por exemplo, podem se tornar às vezes incompreensíveis no Rio Grande do Norte e vice-versa. Na música regional os problemas podem ser maiores, mas na chamada MPB o problema também existe. Djavan, com suas letras bem características, é um exemplo significativo de confusão no entendimento.

Muita gente deve se lembrar do episódio ocorrido com o jogador Beto, num jogo da seleção brasileira. Quando os microfones da televisão captaram sua voz, ele cantava o hino nacional mais ou menos assim “O hino, o inspirano e os magisplacius…

Pois bem, foi exatamente inspirando-se no hino nacional (Ouviram do Ipiranga às margens plácidas) que surgiu o termo VIRUNDUM para designar letras de músicas mal entendidas e cantadas de forma errada. Há três anos, existe um blog na Internet onde o tema é este, com contribuições as mais engraçadas.

Além dos motivos já citados, o uso de termos de outra língua pode confundir o ouvinte como o “l’argent” de Amigo é pra essas coisas, mas parece não haver termo que provoque mais confusão que Trenchtown, da canção Alagados, antigo hit do grupo Paralamas do Sucesso. Cada pessoa entende e canta de um jeito. A propósito, Trenchtown é um gueto localizado na Jamaica, onde morou Bob Marley e título de um de seus discos mais conhecidos. Para competir com o virundum de Alagados, somente o sucesso Noite do prazer, da banda Brylho, que tinha como vocalista o cantor Cláudio Zoli com o verso “tocando B. B. King sem parar”, transformado, via de regra, em “trocando de biquíni sem parar”.

Há várias histórias que tentam explicar a origem do termo VIRUNDUM. Uma delas dá como seu criador, o jornalista Paulo Francis, um dos mais importantes intelectuais do Brasil, no final do século que passou, especialmente na época da ditadura, fundador e um dos principais colaboradores do jornal O PASQUIM, uma verdadeira lenda na história da imprensa e da comunicação em nosso país. Pode ser.

Finalizando, vou enumerar alguns dos mais famosos e conhecidos virunduns.

Divirtam-se.

Eu sou aquele que errou (Máscara Negra)

Meu frango olhando a primavera (Meu pequeno Cachoeiro)

Quitéria tem um peixe (Borbulhas de amor)

Tira essa bermuda que eu quero ver seu sexo (Como eu quero)

Ao sair do avião, um divisor, um irmão (Açaí)

Cortando o fio dental (Como nossos pais)

Scubidu dos sete mares (Descobridor dos sete mares)

Os alpinistas estão chegando (Os alquimistas estão chegando)

Respeita o ôi de baixo do seu pai (Respeita Januário)

Um homem pra chamar Dirceu (Mesmo que seja eu)

Biologia, eu quero uma pra viver (Ideologia)

 

Publicada na edição de nº 26, de março de 2006.

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* Damião Nobre de Medeiros é médico e membro da Academia de Medicina do Rio Grande do Norte. Contato: damiaonobre@hotmail.com   

** Extraído de Radiola: conversa de música, Damião Nobre. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2014.

“Pétalas”* | Florina da Escóssia**

A Lauro da Escóssia

 

Dizem que puxei a meu avô

Que gosto de livros

Do soletrar

De versos

Do rimar

Que durmo bem

Mas, bem, gosto de sonhar.

Dizem que não posso negar

Trouxe no gene

O cheiro de tinta

O verbo solto

Que aprisiona

Mas tende a libertar.

Dizem que saí ao meu avô

No cabelo puro ouro

No jeito afobado

No joelho que arde

Ao caminhar.

Dizem tudo isso

Aceito sem reclamar

E sinto uma saudade danada

A me apunhalar.

*

Pasárgada

 

Lá sinto

O que o mundo pode me dar

Lá fico

Para ver a banda passar

Lá eu sei

Onde posso chegar

Lá tudo pode se transformar

Tal qual um coração que ama

Sem mistérios escondidos

Irmão do corpo amado

Muitos segredos conhecidos.

Lá deito-me e rolo

Sem medo de me machucar

Lá sinto

O carinho mais puro a me banhar

E paraliso os sentidos

Vendo o tempo fluir

Lá faço

Amor sem ter que me preocupar

Sem hipocrisia ferina

Idêntico a uma criança

Igual à brisa do mar

Na total bonança

Lá eu sei

Para onde vou

Lá eu sei

Quem sou

Lá eu sei

Como eu dou ou não dou

Lá tenho

Certeza de onde estou

Em total harmonia

Com a natureza

Em sintonia

Com o amor.

*

Brilho do olhar

 

Cheirar, beijar, roçar a minha pele na sua

Tentar chegar mais perto

Viver cada segundo juntinho

Me dando sempre mais um pouquinho

Sem importar

Se alguém vai comentar.

Desvendar os mistérios

Que existem em seu olhar

Acho que essa foi a missão

Que entregaram ao meu coração.

Sentir, dormir e unir

Seu corpo ao meu

Querendo mais que mero comício

Pois assim as paixões têm início

Com muito tesão

Findam no coração.

Distinguir quantos brilhos

Cintilam no brilho do teu olhar

Sinto que essa é a tentação

Que faz parte da minha paixão

Juntar, amarrar os meus cabelos aos seus

Que ao vento estão em desalinho

Nos fazendo por dentro um burburinho

Quando com sinceridade

Sentimos a presença de quem

Realmente nos quer.

Confirmar quantas vezes for preciso

Que o teu é o mais bonito

Sei que essa é a melodia

Que cantarei com harmonia.

Querendo na verdade, me envolver

Ou me desentender com você

Só assim poderemos

Sentir o peso de nós mesmos

Nessa relação de embaraços

De amores aos sobressaltos

E, se preciso, justificar

Que toda energia e força

Que em raios verdes transborda

Sempre me farão suspirar.

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Extraídos de Pétalas, Florina da Escóssia. Natal, RN: Sarau das Letras, 2014.

** Contato: Através de Clauder Arcanjo (clauderarcanjo@gmail.com) e David Leite (davidleite@hotmail.com).

“Ginnungagap: Um Livro de Contos e Começos” | Haroudo Satiro Xavier Filho

Alice*

 

O sol desfilava em encantadora veste de luz.

No chão, Alice tratava o solo com desprezo. A enxada abria espaço para a horta, não uma plantação, mas um canteiro.

Ela suava. Seus braços agiam como extensão da ferramenta. Duros, escuros, sedentos, finos. Como os fiapos de carne que devorava na janta rala.

 

A menina dormia na escuridão. Chorando entre lençóis velhos, perfumados de raiz e folhas do sertão.

Ouvia a mãe respirando.

Com o ar, parece entrar uma floresta de espinhos longos, soltos, então, em gemidos intensos.

E seu choro crescia e afogava o mundo em sonhos.

 

O galo acordava Alice, num canto que sempre lhe parecia o último.

A menina pegava na enxada e brincava com o galo, fazendo que o ia acertar.

O pássaro velho, descolorido, pulava e batia suas cinzas asas, da cor de um dos olhos que na velhice se perdeu.

Mas parecia feliz, assim como a menina, que não ouvira ainda seu último canto de despertar.

 

A mulher coloca a comida da velha.

Raízes, pequenos frutos, aveia que comprou na vila, leite que ganhou do vizinho que a enxerga como vaca.

A menina come com a mãe. O olhar preocupado se despeja em gestos de cuidado, ajudando a pele esticada a achar a boca desdentada.

Carrega para o quarto o cansado saco de ossos.

Despeja o volume no estrado e olha a estrada seca.

Sussurra no ouvido peludo e vai.

 

Na venda, a mulher atrai olhares.

A carne não se esconde na sujeira do rosto e do vestido.

A mulher do dono da venda a olha com desprezo. Sabe ela, desde menina, que fora ontem e amanhã será.

E seu marido imita cão em beira de feira.

Pergunta-lhe das flores, da mãe, puxa o livro quase desfiado, de fiados, que são tantos.

A mulher escolhe sem pressa, em seu corpo de menina, com olhos emprestados pela velha.

Pega comida, uma boneca, absorventes, sabonete, uma panela… olha para o sutiã e, sem jeito, o mede por fora do vestido e o inclui na compra.

O homem anota sem pressa, mas sabe o olhar da esposa nas costas e não pia nem murmura.

Dessa vez.

 

Alice caminha em longas pernas, que, diminutas, chegam à casa sem jardim.

Olha a enxada e o canteiro. Olha o galo. Olha a porta e vai ver a mãe.

O corpo morto se mexe com o balanço.

Dura, a velha abre os olhos e sorri.

A menina acaricia as rachaduras que imitam a terra sob o sol.

Sorri, faz comida, fala da vila.

O silêncio lhe responde com olhares e voracidade.

Só abre a boca para comer e depois pergunta:

– O canteiro?

– Já?

– Por favor.

A menina olha triste para a mãe idosa.

Seu mundo era casa, era jardim.

Mas não era música. Era sol e chão.

E foi pegar a enxada.

 

O galo chamava a menina todo dia, que acordava, brincava e preparava o canteiro, que ficava fundo e sulcado e comprido, todo dia mais.

O vizinho olhava as pernas da mulher que labutava a terra e, como quem não quisesse nada, ele levava presentes.

Ausentes eram respostas que o mimassem.

Mas ele vira a mãe e sabia bem a dor da solidão. Esperaria.

E os dias iam, e o canteiro parecia se despir para a abraçar.

 

Ainda molhado era o lençol daquele dia, quando o galo, rouco, cantou uma última vez.

Serviu para a mãe no almoço e levou a velha para passear.

Deitou no canteiro e não levantou mais.

A velha chorou e esperou.

Chegando a noite, a menina enterrou bem a mãe para que animais não lhe devorassem a carne.

Deitou cansada, saudosa do galo.

 

A menina acordou feliz.

Foi para o canteiro, e viu, devagar, a mãe nascendo.

Não mais que uma muda, que se tornaria um dia, mulher.

Sem pensar duas vezes, deu nome a flor: Alice.

E saiu para a vila.

Precisava de um novo galo.

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* Extraído de Ginnungagap: um livro de contos e começos, Haroudo Satiro Xavier Filho. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2013 – (Coleção Novos Talentos).

 

 

“Dissonante”* | Leonam Cunha**

MUSA REVOLUCIONADA

 

Apenas beber-te

Assim

– Fora a poesia complexa!,

Sem céu

Sem diabo –

Assim.

Apenas tragar-te

Assim

– Desmetrificadamente

Como no mundo, tudo –

Assim:

Ameaçando o perfeito

Pondo ao centro

Um tiro torto.

Assim

– Sem prisões,

Sem delongas.

Apenas beber-te

Tragar-te

Musa Revolucionada.

 

GLOSA

 

Meus avós herdam, da seca,

As rachaduras.

Meus pais têm as mãos

Calejadas

Eu só sei que nasci

Dentro do mar

 

E carrego às secas

O mar de mim.

 

VERSOS FOTOGRAFADOS DO ABISMO

 

Apoio-me sobre os braços de uma cadeira.

Os braços quebram.

Eu arreio – de barro

 

Penduro-me nas nuvens. Céu e mais outro!

As nuvens somem.

Eu arreio – no chão de areia

 

Arreia em mim tudo isso!

Dá-me chicotadas

E rapa-me a cabeleira

 

No entanto, tentarei calçar o tijolo do poeta!

Matar-me-ão sete vezes por dia;

Noutras cometerei suicídio.

Todavia, continuarei tentando…

 

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Extraídos de Dissonante, Leonam Cunha. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2014.

** Contato:  leonam_cunha@hotmail.com