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Índex* – Outubro, 2014

Desaprendi

A contar estórias

Feito se

Desaprende

Cantigas de ninar

 

Basta somente

Deitar na cama

A criança

Que um dia eu fui

Alisar os seus cabelos

E dizer que

O lobo mau

Está longe

Longe

 

E nada

E ninguém

Vai atrapalhar

A nuvem roçar

A lua cheia

Que se esconde

Em seu ouvido

 (“Carochinha ao contrário ou A desaprendiz de estórias”, Patricia Tenório, 10/10/14, 20h00)

 

A criança que habita em nós e nos salva no Índex de Outubro do blog de Patricia Tenório.

“Reverência” em “Grãos” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

VII ENCONTRO DE LITERATURA INFANTOJUVENIL E II ENCONTRO INTERNACIONAL DE LITERATURA INFANTOJUVENIL DA UNICAP | Coord. Prof. Robson Teles (PE – Brasil).

Poema do Dia | Alcides Buss (SC – Brasil).

“Uma garça no asfalto” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“Documentando novos espaços: os vídeos caseiros de Derek Jarman” | Adriana Pinto Azevedo (RJ – Brasil).

“Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico” | Claudio Willer (SP – Brasil).

E as novidades do Suplemento Cultural de Santa Catarina (84) [ô catarina] (SC – Brasil): www.fcc.sc.gob.br/ocatarina

Agradeço o carinho e contribuição de todos e todas, a próxima postagem será em 30 de Novembro de 2014, um abraço bem grande e até lá,

Patricia Tenório.

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Index* – October, 2014

I’ve unlearned

To storyteling

As if

We unlearn

Singing lullabies

 

Just only

Lying in bed

The child

One day I went

Smoothing her hair

And to say

The Bad Wolf

Is far

Far away

 

And nothing

And no one

Will muddle

The cloud brush

The full moon

Hidding itself

In her ear

 (“The Counter Fairies on the contrary or The unlearning storyteller”, Patricia Tenório, 10/10/14, 8 pm)

 

The child that dwells in us and saves us in the Index of October in the blog of Patricia Tenório.

“Reverence” in “Grains” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

VIIth MEETING OF LITERATURE FOR CHILDWOOD AND YOUTH AND IInd INTERNATIONAL MEETING OF LITERATURE FOR CHILDWOOD AND YOUTH OF UNICAP | Coord. Prof. Robson Teles (PE – Brasil).

Poem of the Day | Alcides Buss (SC – Brasil).

“A heron on the asfalt” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“Documenting new spaces: the home videos of Derek Jarman” | Adriana Pinto Azevedo (RJ – Brasil).

“The rebels: Beat Generation and mystical anarchism” | Claudio Willer (SP – Brasil).

And the news of the Cultural Supplement of Santa Catarina (84) [ô catarina] (SC – Brasil): www.fcc.sc.gob.br/ocatarina

I appreciate the kindness and contribution of each and all, the next post will be on 30th November, 2014, a big hug and see you there,

Patricia Tenório.

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post. Este mês, por causa do 2º turno das eleições (26 de Outubro de 2014), antecipamos o envio da Newsletter.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post. This month, because of the 2nd turn of the elections (26th October, 2014), we anticipate the sent of the Newsletter.

**Oh! Porto Alegre! 

“Reverência”* em “Grãos” | Patricia Tenório**

Reverência

 

Hoje na escola me perguntaram qual a história mais rápida que vivi. Bah, eu me acho um bom contador de histórias. Não é a toa que os guris do mirante no bairro de Santa Tereza me chamam quando os gringos vão ver a vista da cidade.

É Gabriel pra cá, Gabriel pra lá, não dão sossego. Mas essa pergunta da professora me fez encafuscar as idéias para achar alguma que presta.

Olha que minhas idéias não atrapalham. Minha mãe me chama de um Pretinho inteligente, eu encho o peito e levanto a cabeça: sei o que sou. Lá vem a pergunta… Vai, volta nos meus pensamentos e não me deixa em paz.

Que bom seria se eu não soubesse contar histórias! Iriam parar de me chamar assim, toda vez que estou fazendo nada, só olhando pro céu com a cabeça vazia.

O passarinho voou bem perto, logo quando estava na Praça da Matriz com o estilingue de lado; preparei a pedra, a pontaria certa – o poeta me puxou a camisa, balançou a cabeça e disse pra eu passar mais tarde n’A rua dos Cataventos.

Eu que não me meto com poesia; deixa pra lá, só sei contar histórias. E a mais curta? O sino da Igreja de Nossa Senhora das Dores vai tocar daqui um pouquinho; correndo chego a tempo de ficar embaixo, de costas, o dilindar no pé da barriga.

Feito quando ficava boiando e boiando no rio Guaíba, a Rua da Praia ainda nem existia, a gente pulava e o sol esquentando rosto, os pés e as mãos, a água entrando pelos ouvidos e se guardando no coração.

Bum-bum-bum, o sino e o coração se conversam, esta igreja é muito velha e nunca acabou de construir. Dizem, foi por causa de uma maldição: um escravo que foi preso por engano lançou.

Não acredito em fantasmas, não senhor. Eu até faço em noite de lua cheia uns assustados para as minhas primas. É assim: pego uma abóbora, faço dente, faço olho, coloco uma vela dentro e visto um corpo de lençol. As gurias correm pra valer.

Os cavalos soltos na pradaria da Jacobina não me metem medo. Saio do rio, nu mesmo, não me importo, monto neles e seguro a crina, e galopo, galopo, o frio vai escorrendo devagarzinho pelas costas.

Dá tempo de ainda pegar a comunhão. Fiz catequese, sim senhor. Me preparei bem, não perdia uma aula. E quando a hóstia branca bateu na minha língua pela primeira vez pensei que ia chegar nas nuvens.

Mas eu acho que cheguei. Só um instante e cheguei. Quando a menina, aquela  de tranças vermelhas, o senhor sabe, da escola dominical… A menina de tranças vermelhas colou um beijo na minha bochecha quente.

Foi quando senti que meus sapatos floridos se levantavam na direção do céu.

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* Extraído de Grãos, Patricia Tenório. Rio de Janeiro: Calibán, 2007.

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

VII ENCONTRO DE LITERATURA INFANTOJUVENIL E II ENCONTRO INTERNACIONAL DE LITERATURA INFANTOJUVENIL DA UNICAP | Coord. Prof. Robson Teles

encontro-de-literatura-infanto-juvenil-2014-2

 

PROGRAMAÇÃO

Dia 29/10

18h30 às 21h30

Auditório G1 – Bloco G, 1º andar

 

AberturaPe. Pedro Rubens (Reitor da UNICAP)

Prof. Degislando Nóbrega (Diretor do CTCH/UNICAP)

Profª Flávia Silveira (Coordenadora do Curso de Letras/UNICAP)

 

ConferênciaUM OLHAR POÉTICO SOBRE AS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA O PICADEIRO – Williams Santana(Ator/Encenador/Palhaço/Historiador/ Especialista em Gestão Cultural/Mestrando em Cultura e Sociedade pela UFBA/Presidente do Centro CARCARÁ/Professor do Curso de Especialização em Gestão Cultural da UFBA/Gestor do Teatro Luiz Mendonça do Parque Dona Lindu)

 

MESA 1 – LITERATURA E CIRCO: INTERDISCURSOS

 

Fátima Pontes (Diretora da Escola Pernambucana de Circo)

Liliane Jamir (Doutora em Literatura e Cultura/Professora da FAFIRE)

 

Luciano Pontes (Escritor/Ator/Palhaço/Contador de Histórias da Cia Meias Palavras) – DAS BOBICES E DAS COISAS SÉRIAS NA LITERATURA PARA A INFÂNCIA

 

Coordenação: Prof. Robson Teles

Dia 30/10

17h às 18h30

SESSÃO DE COMUNICAÇÕES – Sala 405, Bloco B, 1° andar

 

19h às 21h30

Auditório G1 – Bloco G, 1º andar

 

 

MESA 2: INTERFACES

 

Patricia Tenório (Escritora/Mestranda em Teoria Literária/UFPE) – “A CRIANÇA E A MARIONETE”, DE HENRI ROUSSEAU E “O ANIVERSÁRIO DA INFANTA”, DE OSCAR WILDE: UMA TEORIA DA FICÇÃO

 

Camila Herculano (Graduanda em Psicologia pela FG) – A INFLUÊNCIA DO CIRCO NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

 

Giulia Cooper (Atriz/Artista Circense/Fundadora da Caravana Tapioca/Graduanda em Filosofia-UNICAP) – FORMAS DE COMICIDADE: O RISO NO CIRCO E NA LITERATURA A PARTIR DE BERGSON

 

Maria do Carmo de Siqueira Nino (Professora da UFPE/Doutora em Artes Plásticas e Ciência das Artes/Artista Plástica) – CINEMA E CIRCO: UMA CINEMATOGROFIA

 

Coordenação: Profª Haidée Fonseca

 

Dia 31/10

19h às 21h30

Auditório G1 – Bloco G, 1º andar

 

Ivonete Melo (Atriz/Presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos de Pernambuco-SATED) – PROFISSÃO CIRCENSE E SUAS DEMANDAS

 

Carmen Teresa Navas Reyes (Cônsul Geral da República Bolivariana da Venezuela em Recife) – INTERCÂMBIO CULTURAL

 

Palestra 1: PANORAMA DO CIRCO NA VENEZUELA – Niky García (Diretor da Fundação do Circo Nacional de Venezuela/Ator/Artista Circense/Especialista Cultural)

 

Palestra 2: PANORAMA DO CIRCO NO BRASIL – Zezo Oliveira (Artista/Diretor de Artes em Circo/Ex-Diretor da Escola Nacional de Circo do Brasil/Assistente em Artes Circenses da SECULTE-PE/Mestre em Educação pela UNIRIO)

 

Encerramento: Performance com Niky García

Poema do Dia | Alcides Buss

UM HINO À INFÂNCIA

Aquele que acha, sombrio,
que tudo está perdido,

não viu a ave de luz
em sua nave verbal

guardada no quintal
da alma, em meio

a outras aves, em bando
capazes de trazer o céu

ao seu jardim, então
deserto e em rebuliço,

e as ruínas adentrar
com fibras cristalinas,

fazendo transformar-se
a sombra sobre a vida

no sonho da criança
que acredita em si.

http://www.alcidesbuss.com/

Enviada em 12/10/14.

“Uma garça no asfalto”* | Clauder Arcanjo**

Uma garça no asfalto

 

 As cidades andam espantando as cores de suas ruas, escorraçando a felicidade de suas calçadas, ofertando seus ventres ao estéril deus asfalto, erigindo estátuas aos mitos das alturas dos prédios gaiolas, prédios arranha-céus e prende-vidas.

Parece que queremos banir o humano de nossas províncias, transformando nossas avenidas em moradas das máquinas, enterrando de vez o que lembra o poético, o telúrico, aquilo que lembra gente.

Não pense o leitor desavisado que isto é coisa de cidade A ou B. Não. O movimento é bem orquestrado, vem invadindo, insidiosamente, todos os cantos deste nosso querido Brasil. É claro que algumas cidades já apresentam sinais avançados do tipo de câncer a que ora me refiro, motivo de desabafo desta minha crônica. Nas megalópoles, quadro terminal. Nem pense em sorrir por entre suas ruas, nem ouse saudar alguém com um singelo bom-dia, nem se arvore no papel de se sentar em uma de suas calçadas. Se você assim o fizer, receberá a pecha de desocupado, louco, maluco, ou coisa que o valha. E os nossos jardins? Nada de vaso de flores nas varandas! Begônias nas lapelas, nem pensar (muito de nossos jovens têm de correr aos dicionários e enciclopédias para conhecer a beleza dessa rosa). É o progresso!, gritam os bobos da modernidade. Por que perder tempo com rosas?! E as substituem pela frieza tétrica das margaridas desenxabidas de plástico. O insípido e descolorido progresso!

Estamos, infelizmente, nos acostumando com essa vida. Vemo-nos a acordar com o barulho enlouquecedor de um despertador estressado, de fazer nossa higiene matinal às pressas, de tomar nosso café na rua, de sair de nossas casas às carreiras, sem tempo de uma bênção aos nossos filhos, sem nem pensar em um carinhoso beijo em nossas esposas. É a velocidade dos tempos globalizados, gritam em nossos ouvidos os surdos para a vida. Eu é que não me acostumo com esse condicionamento.

Rumamos para os nossos trabalhos, onde achamos perda de tempo uma conversa amiga, onde um computador nos isola do trabalho em equipe, sítio da rotina acachapante que viola o prazer do trabalho feliz.

Muitos de nós nem voltamos para almoçar em família. Um tal de um “fast-food” nos espera: um sanduíche, que, apesar de todas as tentativas enganadoras do marketing avassalador que nos despejam todos os dias, só tem gosto de palha. O sabor já foi despedido desses troços, que teimam em chamar de comida, faz tempo. Nada de suco, nada de sentar para comer. Não, tão somente uma refeição rápida, em pé, sem conversa, correndo de volta para o batente.

Ao fim do expediente, vazios de tudo, nos dirigimos para casa. Entramos exaustos em nossos lares, jogamo-nos em uma poltrona funda, e somos invadidos pelas verdades da televisão. Verdades empacotadas. É só abrir os ouvidos e deixarmos os arautos dos novos tempos resumirem tudo e despejarem as mentiras travestidas de certezas em nossas mentes. Jantamos separados de nossos filhos, que se separam em seus quartos. A noite cai, o sono vem e… tudo de novo no outro dia.

Mas, ontem, algo diferente cortou este meu mundo.

Dirigia-me para o trabalho, mecanicamente, pensamento sem rumo, quando um vulto de uma brancura ímpar circunvoou sobre meu carro.

Não era um branco qualquer. Era o de uma pureza quase angelical. Voando na minha frente, chamando minha atenção. Parei e refleti. “Uma garça perdida neste mundo de asfalto!”.

A garça fez a volta logo à frente, veio em minha direção, abriu suas asas majestosas e seguiu, sobrevoando as casas, banhando de branco as pálidas residências de nossa cidade.

Um riso se me alargou no rosto, e pensei: “Bendita garça, veio provar que o branco ainda existe!”.

Segui para o trabalho com aquela g(r)a(r)ça no peito e aquele branco nos olhos.

 

* Crônica extraída de Uma garça no asfalto, Clauder Arcanjo. Taubaté, SP: LetraSelvagem, 2014.

** Enviado por Clauder Arcanjo: clauderarcanjo@gmail.com

“Documentando novos espaços: os vídeos caseiros de Derek Jarman”* | Adriana Pinto Azevedo**

“Make your desires reality”, uma garota punk diz diretamente para o espectador. “I started to dance. I wanted to find… gravity”. O longa Jubilee (1978), de Derek Jarman, é então atravessado por uma cena com outra textura, como em um devaneio. Nela, uma bailarina rodopia diante de uma fogueira, alimentada por páginas de livros. A câmera ágil acompanha as cinzas que voam com o vento, e revela outros personagens saídos do mesmo universo onírico: um rapaz com o rosto coberto por uma máscara feita com saco de papel, e outro, nu, que veste uma máscara do filósofo grego Sócrates. A interferência é o curta Jordan’s Dance, filmado por Jarman em Super-8 um ano antes de decidir incluí-lo na composição do longa.

Menos conhecida do público, a produção de curtas-metragens de Derek Jarman é bastante expressiva. Eles começaram a ser criados em 1972, quando estudante norte-americano Marc Balet o apresentou a Super-8 portátil da Kodak. Jarman se referia a eles como home movies, referência direta aos filmes caseiros que povoaram sua infância, obras de seu pai e de seu avô, ambos cineastas amadores. Inspirado pela estética da colagem punk, o diretor incorporou algum desses filmes no seu longa The Last of England (1989).

“Eu tento deixar tudo muito próximo do conceito de casa, o que talvez seja algo difícil já que eu sou gay. É difícil construir um lar sendo um homem gay. Meus filmes caseiros, portanto, retrataram um mundo muito diferente daquele apresentado pelo meu avô e pelo meu pai”, declararia Jarman. Na análise de Jim Ellis, “A função ideológica dos filmes caseiros não é documentar mas de trazer o que é ser uma família e um lar para a tela, e os Super-8 de Jarman não são diferentes, construindo o mundo das festas de Bankside como uma nova versão do lar”.

A ressignificação do “familiar” e do “lar” é uma pista do que Derek Jarman viria a fazer nos filmes do New Queer Cinema nos anos 90. Vinte anos antes, em seus primeiros home movies e filmes experimentais, já podemos notar elementos da nova vanguarda estético-política em formação, como a experimentação radical da forma e o interesse na criação de novos imaginários geográficos e desejantes.

Os seus curtas em Super-8 são divididos em três grupos. O primeiro é composto de filmes com temáticas que envolvem pessoas, lugares e ventos, tais como A Journey to Avebury (1971), Asden’s Walk on Mon (1973) e Stolen Apples for Karen Blixen (1973). Derek, que também era pintor, fez nesses filmes o que não podia alcançar em seus quadros: “O mundo da pintura era estéril, um mundo vazio”. Filmando em locações ao ar livre, com planos estáticos de paisagens e cores acentuadas – como a imagem alaranjada das paisagens de A Jorney to Avebury – o jovem cineasta tinha a oportunidade de levar pequenos grupos de amigos, em vez de uma equipe de 32 assistentes, para realizar as filmagens: “O que eu achei foi comunidade. Eu descobri o meu mundo nos filmes”.

No segundo grupo é marcado por atmosferas simbólicas e mágicas – alguns dos quais pelos filmes caseiros de Kenneth Anger. Em Art of Mirrors (1973), curta de apenas 6 minutos, Jarman borra as fronteiras entre espectador e filme. Três figuras estão na imagem, filmada em tons de verde intenso: um homem de terno, que usa uma máscara de pano com um rosto monstruoso; uma mulher de vestido de gala negro, e um outro homem vestindo um fraque. O homem de máscara segura um espelho circular através do qual emite uma forte luz direto para a câmera.

Um terceiro grupo de curtas é composto pelos vídeos produzidos para a MTV, criada em 1981. Nessa época, Jarman atentou para o potencial comercial de seus Super-8 e produziu clipes de bandas como Pet Shop Boys, Orange Juice e The Smiths. Algumas técnicas desenvolvidas para o clipe The Queen is Dead (1986), do The Smiths, o inspiraram mais tarde para algumas das colagens de The Last of England.

É possível considerar o conjunto de curtas de Derek Jarman como um projeto mais amplo, mas também como peças de arte individuais. Neste projeto tão interessante quanto seus longas-metragens mais conhecidos, Jarman conseguiu produzir o que não alcançava em suas pinturas: a possibilidade de descoberta, de criação e de vivência de novos territórios.

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Extraído de Derek Jarman – Cinema é liberdade. Organização: Alessandra Castañeda, Raphael Fonseca e Victor Dias. Rio de Janeiro: Jurubeba Produções, 2014.

** Adriana Pinto Azevedo é doutoranda pelo programa de Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio, e desenvolve parte da sua pesquisa na Université Lille 3, na França. Atualmente investiga as novas formas de criação do corpo no pornoativismo contemporâneo transnacional e as relações entre arte e ativismo queer, tema que atravessa também sua produção artística.

“Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico”* |Claudio Willer

NOTA INTRODUTÓRIA

 

Este ensaio foi preparado durante meu pós-doutorado em Letras sobre o tema “Religiões estranhas, misticismo e poesia”, como bolsista da FAPESP, no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Entregue em novembro de 2011, teve revisões e recebeu acréscimos em 2012.

Coincidindo com o início do meu pós-doutorado, havia relido Visões de Cody, de Jack Kerouac, que acabara de sair na edição brasileira. E descobri The Search of the Millennium, de Norman Cohn, sobre rebeliões religiosas medievais. A leitura quase simultânea contribuiu para que eu enxergasse bastante anarquismo místico em Kerouac e outros integrantes da Geração Beat. A citação de Visões de Cody que inicia o presente ensaio, “Tudo me pertence porque eu sou pobre”, serviu como ponte entre o registro alucinado do beat e o levantamento de episódios medievais pelo historiador. Dentre esses, especialmente a heresia do Espírito Livre. Por isso, a frase tornou-se um mote, repetido em artigos sobre Kerouac e a Geração Beat escritos desde então, devidamente consignados na bibliografia.[1] Aqui, a versão mais extensa do que vinha tentando transmitir.

Estava familiarizado com a Geração Beat havia décadas. Além de traduzir Ginsberg, produzir artigos a respeito, dar palestras e cursos, já havia encaminhado ao editor meu Geração Beat, publicado em 2009. Mas o novo empreendimento intelectual me levou a ler ou reler toda ou quase toda a obra de Kerouac. A maior parte deste ensaio trata dele. Isso se justifica pelo papel central que desempenhou na formação e difusão do movimento; por interpretações de sua obra poderem ser projetadas em outros beats; e, principalmente, por Kerouac ser substancioso. Em face de restrições que ainda persistem, procuro destacar seu valor. Também examino outros beats: Ginsberg – focalizando afinidades e relações de oposição simétrica com Kerouac –, Corso, McClure, Di Prima, Snyder, Ferlinghetti, Burroughs.

Reclamar de dificuldades de acesso à bibliografia deve ser um chavão nesta modalidade de pesquisa. Norman Cohn observava, na década de 1960, que a heresia do Espírito Livre era pouco estudada em comparação com outras rebeliões e dissidências religiosas, a exemplo daquela dos cátaros da Provença. Aparentemente, a situação continua a mesma: a consulta a coleções recentes de ensaios sobre a Idade Média[2] ou as enciclopédias sobre religião[3] mostrou que não há quase nada a respeito, embora se encontrem substanciosos ensaios sobre os cátaros. De um modo geral, antinomismos e combinações de misticismo e transgressão, especialmente licenciosidade, continuam um assunto à margem – à exceção de estudos sobre misticismo judaico, graças ao impulso que receberam de Gershom Scholem. Isso também acontece com o gnosticismo de Prisciliano, na Península Ibérica. Sua caracterização como seita licenciosa pode ser encontrada em um filme extraordinário: Via láctea, de Luis Buñuel. Mas livros que o examinam como tal são inencontráveis.

Completar a bibliografia sobre a Geração Beat é mais fácil. Kerouac e Ginsberg foram integralmente editados – no caso de Kerouac, com a publicação, a partir de 2000, de textos antes dados como perdidos, do manuscrito original de On the Road, passando por E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques, sua parceria com Burroughs, até o recente O mar é meu irmão.[4] Mas um poeta da qualidade de Philip Lamantia quase desapareceu do mercado.[5] Tipos especialmente originais como Bob Kaufman têm difusão restrita. De Gregory Corso, há edições. Mas algumas citações do autor de Bomb são afetadas por um desses fenômenos do mercado editorial: tenho os originais de uma excelente seleção preparada pelo poeta Márcio Simões; seria lançada por uma editora que, contudo, desistiu. Enquanto não se resolverem as negociações de edição permanecerão neste ensaio citações de Corso e Simões órfãs, editorialmente falando.

Examinar religiosidade e misticismo no âmbito da Geração Beat não é novidade. John Tytell, em seu pioneiro ensaio de 1976 sobre Ginsberg, Kerouac e Burroughs, Naked Angels, já os havia associado ao gnosticismo. Semelhante associação reaparece em obras que tratam especificamente da doutrina gnóstica, a exemplo do posfácio de Richard Smith para The Nag Hammadi Library in English, a reunião de escritos gnósticos preparada por James M. Robinson. Li ensaios mais recentes sobre esse tema, o da religiosidade entre os beats. Um deles é Gregory Corso: Doubting Thomist, de Kirby Oslon; tratando, portanto, especificamente daquele poeta – mas com aportes valiosos ao tema geral, a Geração Beat, inclusive em tópicos de crítica literária, e não só de teologia. Outro é The Bop Apocalypse: The Religious Visions of Kerouac, Gisberg and Burroughs, de John Lardas. Propositadamente, fiz com que a encomenda do livro chegasse quando meu texto já estava quase finalizado. Lardas adota um enfoque spengleriano. Já havia, então, relido A decadência do Ocidente e observado divergências entre a cosmovisão de Kerouac, spengleriano declarado, e aquela do historiador alemão; em particular, no modo de avaliar felás, camponeses pobres, e na discussão da “segunda religiosidade”. Onde Lardas e outros enxergaram Spengler, encontrei Platão, ou categorias platônicas. Especialmente, após uma releitura do Fedro, o valor conferido à tradição e ao arcaico; a correlata valorização da transmissão oral; a identificação do conhecimento à anamnese; o retorno ao mito.

Normalmente, estudos literários adotam um quadro de referências, um paradigma. No ensaio de Lardas, o paradigma é Spengler; no de Olson, o tomismo. Meu principal paradigma, penso, é o que já escrevi sobre a Geração Beat, especialmente o livro homônimo de 2009; e sobre misticismo transgressivo e religiões estranhas na poesia, em minha tese de doutorado e sua edição em livro, Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna, de 2010. Indiquei com a partícula cf. os trechos em que me repito ou retomo o que já havia publicado.

Os agradecimentos a quem contribuiu para a realização deste trabalho começam pela professora Viviana Bosi, minha supervisora de pós-doutorado; por um anônimo e generoso parecerista da FAPESP; pelo professor Edu Teruki Otsuka, da USP, autor de um parecer mais que elogioso. Abrangem meus fornecedores de bibliografia beat: além daqueles consignados no prefácio da minha tradução de Ginsberg (sempre reiterando que a contribuição de Roberto Piva, leitor voraz, foi inigualável) e de Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna, devo mencionar Romulo Pizzi, Mauro Jorge Santos, Assis de Mello, Márcio Simões, Carlos Figueiredo, André Telles do Rosário e Henrik Aeshna.

Ao lançar Geração Beat, em 2009, afirmei em entrevistas que o livro era uma continuação, uma nova etapa do que vinha escrevendo. Direi o mesmo se me perguntarem sobre este Os rebeldes. Pretendo prosseguir. Assunto não faltará.



Extraído de Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico, Claudio Willer. 1ª ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014.

(1) São os artigos na coletânea Letras em revista, de 2009, nas revistas Cult e Reserva Cultural e no jornal O Estado de S. Paulo, todos de 2010.

(2) Por exemplo, os sete enormes volumes de The New Cambridge of Medieval History, de 2005, organizado por Paul Fouracre (Cambridge University Press).

(3) Como a monumental The Encyclopaedia of Religion, com seus dezesseis volumes, coordenada por Mircea Eliade, de 1987.

(4) Em citações usou-se a edição inglesa (2011). (N.E.)

(5) Afinal, Lamantia foi ou não foi beat? Ele dizia que não. Está fora de registros importantes. Mas está presente em outros; e a ligação real, tal como documentada por Kerouac em Anjos da desolação, autoriza-me a incluí-lo; mais ainda porque sua poética e sua devoção religiosa, tal como comentadas aqui, são caso particular de traços e qualidades partilhadas pela beat como movimento.