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Índex* – Agosto, 2014

Entre Recife

E Maceió

Posso ocupar

Dois lugares

E ao mesmo tempo

Não pertencer a

Nenhum

 

Passa o tempo

Passam os mares e os rios

Que inundam

As areias

Os manguezais

E deixam

Esse gosto de

Saudade

Do que eu fui

Menina

Do que eu sou

Mulher

Desaparecendo

Na fumacinha

Do trem a vapor

(“De volta para Catende”, Patricia Tenório, 02/08/14)

O “entrelugar” das artes no Índex de Agosto, 2014 no blog de Patricia Tenório.

“A mulher pela metade” | Patricia Tenório (PE-Brasil).

Convite “La Otra Oscuridad” | Luis Raúl Calvo (Argentina).

“Chão dos Simples” | Manoel Onofre Jr. (RN-Brasil).

“Quantas vidas você viveu” | Mara Narciso (MG-Brasil).

“Alguns livros potiguares” | Chumbo Pinheiro (RN-Brasil).

“Arcanos Maiores e a Valsa Leve” | Alessandra Bessa (CE-Brasil).

“Abecedário Nordestino: Caminho das Águas” | Dominique Berthé (França/PE-Brasil).

E a entrevista com Adriano Portela (PE-Brasil) no Parlatório:  https://www.youtube.com/watch?v=dppkQy1jhrY

Muito obrigada pela participação de todos e todas, a próxima postagem será 28 de Setembro de 2014, um abraço bem grande da

Patricia Tenório.

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Index* – August, 2014

Between Recife

And Maceió

I can take

Two places

And at the same time

Not belonging to

None

 

Passes the time

Pass the seas and the rivers

Flooding

The sands

The mangroves

And leave

This taste of

Missing

When I was a

Girl

When I am a

Woman

Desapearing

In the little smoke

Of the stream train

(“Back to Catende”, Patricia Tenório, 08/02/14)

The “between place” in the arts in the Index of August, 2014 in the blog of Patricia Tenório.

“The woman in half” | Patricia Tenório (PE-Brasil).

Invitation “The Other Obscurity” | Luis Raúl Calvo (Argentina).

“Ground of Simple” | Manoel Onofre Jr. (RN-Brasil).

“How many lives you have lived” | Mara Narciso (MG-Brasil).

“Some potiguars books” | Chumbo Pinheiro (RN-Brasil).

“Major Arcans and the Light Waltz” | Alessandra Bessa (CE-Brasil).

“Northeast Abecedaire: Way of Waters” | Dominique Berthé (França/PE-Brasil).

And the interview with Adriano Portela (PE-Brasil) in Parlatório:  https://www.youtube.com/watch?v=dppkQy1jhrY

Thank you very much for the participation of all, the next post will be on 28th September, 2014, a big hug from

Patricia Tenório.

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** O “entrelugar” entre Maceió (AL-Brasil) e Recife (PE-Brasil).  The “between place” between Maceió (AL-Brasil) and Recife (PE-Brasil).

“A mulher pela metade” | Patricia Tenório*

Capa Mulher pela metade - Pequena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A mulher pela metade

Patricia Tenório

Ficção, 2009

ISBN: 978-85-87025

Preço: R$ 30,00

92 páginas

 

Em A mulher pela metade, Patricia Tenório mescla realidade e ficção. Num cenário apocalíptico, os personagens através de questionamentos buscam caminhos, fazem escolhas, desconstroem pré-conceitos para tentar descobrir o significado de suas vidas na construção de um mundo mais humano.

 

 Outro eu**

                        Me dê sua mão, eu lhe dou a minha

                        Receba a luz da estrela guia

                        Que nos chama a um passeio celeste

                        E abre espaço aos nossos sonhos

 

                        Pudera na minha inocência inspirada

                        Nos seus olhos cobertos de cristal

                        Achar aquele pedaço de mim perdido

                        E me acolher nos seus braços longos

 

                        Então não mais de mim precisaria

                        Me abandonando neste rio morno

                        Passearia por suas chagas abertas

                        Seus pesos, suas levezas

 

                        Para lhe sentir por inteiro

                        E daquela mesma mão fazer a minha

                        Que escreve e sonha com um balão dourado

                        Percorrendo um mundo de outros tempos

                        Outras vidas

                        Outro

                        Eu

           

           Gênesis**

     

                      Te aceito

                        Te escolho

                        Jogo os dados

                        Entre a parede e o chão de mármore

                        Eles vêm plenos de apostas

                        Às respostas

                        Que por ti fiz um dia

                       

                         Abro a janela do quarto

                        É azul

                        É sol que brilha

                        Incendeia esta matéria efêmera

                        Que se chama corpo

                        Que já foi tua

                        Ainda é tua

                       

                           Lembro a primeira vez

                        Aquieto o coração

                        Brinco de esconde-esconde

                        Entre um pulsar e outro

                        Tu estás lá

                        Tu me sondas

                       

                        Encho os pulmões com

                        A tua presença

                        Implodo na natureza

                        Dos teus sentidos

                        Sou a parte que me destes

                        Nesta caminhada terrena

                        Que volta

                        Retrocede

                        Até o grão de mostarda 

           

    Silêncio**

    

Olho suas mãos

            Viro, reviro as duas faces

            Linhas imaginárias de vida e morte

            Não lhe quero morto – lhe abandono

           

Penso que não sei mais

            Juntar letras e lhes empregar espírito

            Elas caem sobre a mesa

            Desconectam-se

            Perdem o rumo que outrora desejei

           

Talvez devêssemos ficar sozinhos

            Em frente ao espelho de nossas almas

            E pudéssemos ver

            O que pelos corpos não transparecia

            Que fomos feitos um para o outro?

            Que já vivemos outras vidas?

            Não sei, não sei

            E balançando a cabeça me chega uma faísca

            De luz

            Revelação

            De que no toque de suas mãos

            Encontrei o sentido que quis dar às palavras

            E não mais delas precisei

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Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural, sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo Nino. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

** Poemas extraídos de A mulher pela metade, Editora Calibán, Rio de Janeiro, 2009.

Convite “La Otra Oscuridad” | Luis Raúl Calvo

Livro La Otra Oscuridad

La Editorial “Sarau Das Letras” de Brasil y el Café Literario “Antonio Aliberti” te invitan a la presentación del libro “La Otra Oscuridad”, de Luis Raúl Calvo, antología poética publicada en versión bilingue portugués-español en dicho país hermano.
La presentación estará a cargo del poeta José Emilio Tallarico quien mantendrá un diálogo con el autor.
Leerán textos de la obra la intérprete de poesía Sara Dassat y la escritora brasileña Patricia Tenorio-quien realizó la traducción al portugués- quien viene especialmente a Buenos Aires para este evento. La parte musical estará a cargo del músico Paco Rizzo.
Te esperamos el viernes 5 de Septiembre a las 20 hs en San José 524 (Café Montserrat).

 

 

                                                                                   

“Chão dos Simples”* | Manoel Onofre Jr.

AS DOS SANTOS**

 

            As meninas dos Santos punham em rebuliço o casarão do seu pai, Prof. Sizenando dos Santos, nos tempos áureos da pacata cidade de Serra Nova. Levavam a vida em saraus, reunidas as cinco na sala da frente com Mariquinha, a caçula, no meio, tocando violão. Modinhas saíam, então, de suas bocas e ganhavam docemente a noite da rua. Algum passante poderia dizer: “Moças vivedeiras”.

Dez anos depois, tais saraus não mais se realizavam. E o que é pior: as meninas, para desgosto próprio, continuavam solteiras em absoluto. Quitéria Velha, grande língua de trapo, disse num resmungo, certa vez, emoldurada na inevitável janela: “Essas moças não se casam nem mesmo para que a gente tenha o que falar neste oco do mundo”.

Lá na igreja matriz a imagem de Santo Antônio, por motivos óbvios, cobria-se de fitas e flores. Acrescido de cores extras na sua vestimenta, Santo Antônio parecia egresso do baile de carnaval do Barracão. A propósito, Lucena chegou a comentar isto para a mulher do Coletor, recebendo uma rabanada, seguida da expressão: “O senhor é um herege”.

O fato é que, apesar das fitas – ou por isso mesmo –, o casamenteiro não se dignava casar as meninas dos Santos. Certo dia, porém, amanheceu, com certeza, bem humorado, pois Mariquinha tornou-se noiva de um caixeiro viajante de nome Abdias. A senhorita Mariquinha, convém assinalar, não era mais uma “flor de moça”. Já Abdias constituía muito pouco do que se convenciona dizer “rapaz apessoado”. Davam-se bem, portanto.

Com a notícia, toda Serra Nova arreliou-se; não se comentava outra coisa nas cozinhas e salas-de-frente, fosse no Jacu ou no Caminho do Cemitério. Debaixo do pé de fícus do Dr. Aristóteles, o caso, como não podia deixar de ser, era motivo para as conversas.

Enquanto isso, o noivo ia e vinha nas suas andanças de vendedor de remédios, hospedando-se, quando em Serra Nova, na casa do Prof. Sizenando.

Marcou-se o casamento. Comprou-se o enxoval.

Um belo dia, Abdias partiu de viagem para convidar, pessoalmente – disse ele –, a parentela da capital.

Esta viagem não teve volta, para desespero de Mariquinha – a esta altura com um projeto de homem no ventre – e para decepção das matronas serranovenses que já adiantavam na imaginação a cerimônia nupcial. Felizmente, o caso ficou esquecido. Mariquinha abortou discretamente. E a animação da Festa da Padroeira, naquele ano, foi espetacular.

Passaram pela cidadezinha trezentos e tantos dias de tédio…

Numa linda manhã de abril – como diria Dr. Chiquinho mais tarde no cemitério – o coração do Prof. Sizenando deixou de bater. Consternação geral. Choro, dobre de finados, irradiação constante da Marcha Fúnebre de Chopin pela amplificadora.

Das filhas do Professor, Mariquinha, que guardava a cicatriz de tragédias não muito remotas, sentiu em dobro a perda. Quis entrar num convento. Não consentiram, e ela passou a usar longos vestidos pretos, semelhantes a hábitos de freira.

 

Na hora do ângelus anda no ar de Serra Nova uma paz convidativa a pensamentos de eternidade. A gente local, porém, não se incomoda com isso. Conversa pelas calçadas, falando mal da vida alheia.

O sino bate azul-profundo, grave, grave. Daqui a pouco passará Mariquinha dos Santos, riscando o quadro da praça com o seu vestido preto na direção da igreja.

Das irmãs dos Santos é a que, na verdade, ainda vive. A outra restante – Filó – está caducando e com a mania de dizer nomes feios que não se sabe como foram aprendidos.

 

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Enviado por Clauder Arcanjo: clauderarcanjo@gmail.com

** Extraído de Chão dos Simples, Manoel Onofre Jr. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2014.

“Quantas vidas você viveu?” | Mara Narciso*

17 de agosto de 2014

“Quem vive mais do que uma vida, também deve morrer mais que uma morte.” Oscar Wilde (1854-1900)

Isso nos é apresentado a todo instante, desde a mudança de ano até a alternância de governos, ou ainda ovos quebrados para se fazer omeletes. Não há renascer sem antes haver uma perda, vista aqui como morte, antes de algo novo acontecer.

A começar pela careta da criança ao comer sua primeira sopinha, ao degustar o sal depois de meses sorvendo o doce leite materno. Adiante largar o peito, seguido do caminhar, do cair, do machucar. Depois chega a consciência da passagem do tempo. “Adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize no ano que vai nascer”, e os fogos pipocando e a criança chorando alto, acima do som dos foguetes. “Mas o que foi?” “Estou triste. O ano velho morreu!” Esta é a primeira e inesquecível morte. Depois, mudar de ano letivo e de professora causa insegurança. É preciso paciência para enfrentar os calundus dos pequenos, que vão se adaptando às novas ordens.

Os choros dos adultos podem ser difíceis de entender. Quando têm uma coisa, pretendem avançar para alcançar outra, e sabem que para ter algo é preciso largar a anterior. Assim, mudam de carro, de casa, de emprego, de amigos, de relacionamento. Nem sempre para melhor. E para cada etapa, vem a adaptação, tão dolorosa que pode ser fatal. Há mudanças de cidade que se mostram dramáticas, com sérios desdobramentos. Pessoas que engordam vinte quilos em um ano. Outras melhoram de vida, passam no sonhado concurso, estão ganhando bem, mas se não buscarem ajuda psiquiátrica, entram em combustão, fracassam, morrem. Para quem não se prepara, aposentar-se pode ser se acabar.

As mudanças de estado civil, começando de solteiro para casado, pesam no comportamento. Casar é um verbo tão pesado quanto morrer. É preciso dar uma grande festa, e a cada ano novos itens são acrescentados. Se antes já era quase um circo, hoje tem o picadeiro completo. É preciso mimar os convidados com presentes e bombons. O baque do fato em si pode ser grande, não sendo incomum namorar dez anos e ficar casado três meses. O que é uma nova morte, por ter de recuar, vender, recomeçar. O divórcio é uma catástrofe.

Padres largam a batina, profissionais mudam de ramo, médicos trocam de especialidade. É possível mudar de sexo, religião ou time de futebol. O avançar da vida exige mudanças, e estas passam por pequenas mortes e grandes prejuízos, e outro tanto de ganhos. Nesse vai e vem anda solta a opinião alheia, que, pelo menos da boca pra fora não afeta ninguém, mas que, na conversa com o travesseiro, impinge novos morreres.

Muitos querem mudar de vida, viver a existência de alguém que nem existe. Boa parte dos desaparecidos cujos rostos estão nas contas de luz e água, foi comprar cigarros e nunca mais voltou. O que queria mesmo era uma nova vida e foi atrás dela, levando apenas a vontade. Alguns foram vítimas de crimes, mas outros não querem ser achados e trocaram de face e de nome.

Ex-presidiários, cuja pena tem oficialmente o objetivo de resgate, fazendo a pessoa arrepender-se do crime e não voltar a cometê-lo, podem querer e querem muito, que tudo seja esquecido. As nossas prisões propiciam isso, ou mesmo nós somos capazes desse esquecimento?

Pais nômades, que mudam de estado ou país de tempos em tempos, levando seus filhos, podem fazer das memórias deles, uma colcha de retalhos de lugares e pessoas, num caldo de culturas. Um dia, algum dos filhos pode querer se fixar, passar uma borracha no que traz misturado, e amar um canto só.

Pode-se querer esquecer o passado, ou parte dele, excluindo momentos traumáticos. Há recursos de hipnose para esse fim. Melhor seria desenvolver uma amnésia seletiva, que possibilitasse escolher o que lembrar. O terrível, o que feriu de morte, seria enterrado fundo, e coberto com concreto forte.

A vida pode ser vivida com intensidade de paixão, em todo seu esplendor. Mas antes da mudança, o preço é deixar ir o que já passou, envolvendo uma interessante dinâmica.

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Enviado por Mara Narciso:  yanmar@terra.com.br

 

“Alguns Livros Potiguares”*|Chumbo Pinheiro

Ensaio sobre o Selo

 

            Inspirado por suas experiências pessoais e motivado por um contato inicial ainda no período escolar em um colégio público estadual em Natal, capital do Rio Grande do Norte, Cleudivan Jânio de Araújo, seridoense nascido em Currais Novos em 1977 e radicado em Natal, despertou seu interesse pela filatelia. Um interesse que se em algum momento parecia esquecido, na verdade estava apenas adormecido e vez por outra despertava agitando os ideais do jovem estudante.

O segundo contato com o selo se deu logo no primeiro trabalho formal onde Jânio de Araújo fora admitido como estagiário na função de atendente em uma Agência dos Correios Franqueada. Este encontro ou reencontro marcou o início da coleção que culminou com sua participação em várias exposições filatélicas chegando a receber importantes premiações em algumas delas.

Mantendo e fortalecendo seu interesse pela filatelia, realizou concurso público para a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos na qual obteve êxito e atua desde 1997 se aproximando ainda mais dos pequenos, coloridos e valiosos pedacinhos de papel que já haviam se tornado objeto de coleção, passando a ser inspiração acadêmica e objeto da pesquisa monográfica que resultou tanto para história da filatelia quanto para história do Rio Grande do Norte e para educação escolar.

No livro “O Rio Grande do Norte nos Selos Postais do Brasil: Filatelia como fonte de conhecimento”, Cleudivan Jânio de Araújo não só propõe a utilização do selo como material didático auxiliar a ser utilizado em sala de aula para fomentar o conhecimento da história do Estado, como também, faz um resgate da história do Rio Grande do Norte através das estampilhas.

O autor inicia sua análise a partir da atividade que diferencia e caracteriza o homem em relação aos demais animais que é a capacidade da representação gráfica como forma de comunicar seu cotidiano e suas impressões, registradas inicialmente através das pinturas rupestres nas cavernas quando ainda vivia como nômade.

A história tem registrado os empreendimentos humanos entre os quais as viagens e aventuras que têm marcado os mais diversos períodos. Jânio explora um pouco destes fatos desde a descoberta da escrita; cita os mensageiros persas e a comunicação entre as satrapias e as viagens do italiano Marco Polo, até chegar “A gênese do selo postal”, na Inglaterra durante a primeira metade do século XIX. Em seguida narra “A origem da correspondência no Brasil”; a implantação do selo postal, onde registra, apresenta e comenta a partir das ilustrações os primeiros selos emitidos em terras brasileiras.

No último capítulo do livro, Jânio de Araújo discorre sobre “O Rio Grande do Norte nos selos postais brasileiros” e como o Estado é representado na filatelia nacional destacando-se conforme sua pesquisa os fatos ligados à aviação, algumas personalidades, eventos, monumentos artísticos e culturais que identificam simbolicamente a terra potiguar.

A publicação deste trabalho pioneiro do ponto de vista do estudo da filatelia no Rio Grande do Norte, (antecedido apenas por notas e artigos publicados em jornais locais) torna-se importante também pelo seu caráter formativo e informativo, podendo servir como ponto de partida não só para professores que desejam utilizar o selo como material didático, como também para futuras pesquisas, valorização e ampliação da divulgação dos potenciais turísticos e culturais do Estado.

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Enviado por David Leite: davidmleite@hotmail.com

** Extraído de Alguns Livros Potiguares, Chumbo Pinheiro. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2014.

“Arcanos Maiores e A Valsa Leve”* | Alessandra Bessa

Parte 1

Arcanos Maiores

III

 

Nunca vou deixar de fazer o que

quero fazer pela opinião

dos outros!

Estou aqui

fui chamada

por um algo tão forte

que me põe de pé

nesse momento

um algo tão forte

que me faz respirar

sem eu mesma querer

um algo tão forte

que me faz não ter domínio

de mim mesma

Nunca vou deixar de fazer nada

que quero fazer pelos outros

pela crítica

pela prisão

pela repreensão

pelo jugo

assim como não faço obrigada a fazer

pois, para mim,

Os outros são objetivações da vida

e eu obedeço somente o além desta

O além de tudo

A minha energia é uma forma que

Se materializa

Aquilo que me faz

Aquilo que me fez

Aquilo que resulta tudo e a todos: é

muito forte!

E eu obedeço.

O resto são insetos: moscas varejeiras…

XX

 

Tudo permanece tão dentro de mim

Que não se manifesta

Fica dando facada

Em meu espírito

As memórias

Castigam-me

Congelam-me

Tacitamente

E de repente Paralisada. Absolutamente

Me calarei

Na reflexão

Infinita…

Parte 2

A Valsa Leve

Querubins de sonhos longe daqui

 

Eu virei uma pessoa muito séria

E já não consigo sentir tanta graça assim

Não é tão fácil viver dessa maneira

Descanso todos os querubins de sonhos longe

daqui

(Não conseguem ter ar dentro dessa multidão

de dor)

Meus lábios se tocam e não abrem

Minhas mãos estão sempre e somente no ros-

to ou debaixo do queixo

E vendo todo mundo rir

Eu não consigo ser jovem

Sempre fui velha

Uma velhinha que finge sorrir

Pois eu não sou dessa nova

Era

Eu me perdi…

Talvez nunca tão longe como agora.

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Poemas extraídos de Arcanos Maiores e A Valsa Leve, Alessandra Bessa. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2014.

** Enviado pelo Poeta de Meia-Tigela:  poetademeiatigela@yahoo.com.br

“Abecedário Nordestino: Caminho das Águas” | Dominique Berthé

Entre Água Branca e Zabelê: A compreensão de uma paisagem*

Maria do Carmo Nino**

 

 

As viagens são os viajantes.

O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.

Fernando Pessoa

 

O poeta Fernando Pessoa nos lembra que a vida é o que dela fazemos, e é em nós mesmos que achamos os enigmas do mundo e também suas eventuais soluções. A motivação encontrada por uma artista para realizar sua obra tem a ver com o descobrimento, ao longo de toda uma vida, de quais são as necessidades intrinsecamente pessoais para preencher o campo de forças gravitacionais composto pelo simples fato de ele existir, pelo seu pertencimento ao mundo, quase como um confronto pessoal urgente e inadiável.

Dominique Berthé, artista plástica francesa radicada há vários anos no Recife, traz o apelo da viagem para sua própria vida e também no ato mesmo de olhar. Será por isso que ao conhecer seu trabalho me recordei de Francis Ponge, um poeta conterrâneo seu que nos sinaliza o entrelaçamento entre voyage e voir? O que dizer dessa artista senão que ela opera ludicamente um retorno da poesia por todos os meios expressivos que lhe são disponíveis, pela prática, pela observação e pelo verbo?

No projeto ABECEDÁRIO NORDESTINO, EXERCÍCIO DE ESTILO, efetivado através de uma bolsa do 47º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, a artista cumpriu um impressionante itinerário de viagens de mais de 3.500 km por algumas capitais e cidades do interior do Nordeste brasileiro e coletou um material muito significativo e abundante de imagens de pessoas, lugares, detalhes e texturas, e parte deste rico conjunto foi mostrado na exposição ocorrida no Mamam em 2012, relacionada ao evento.

As regras gerais estavam estabelecidas desde o início desta aventura, embora incluísse, é claro, a possibilidade da flânerie e do prazer inconfessável do encontro fortuito: na ordenação das 26 letras do nosso alfabeto ocidental, delineia-se um dicionário amoroso barthesiano de fragmentos e memórias depuradas desses encontros e afetos que deveria se complementar no formato de um livro (ou vários deles), resultado das afinidades eletivas da acuidade do seu olhar ao longo dessa odisseia.

Lembremos que a história do dicionário aponta sobretudo para uma ambição iluminista, traz intrínseca a ideia de entendimento, de compreensão, palavra esta cuja etimologia nos indica a noção de apreensão, inclusão dentro do ângulo de visão, um prender com (consigo) que Dominique tem agora a possibilidade de compartilhar neste livro de formato panorâmico que o leitor tem em mãos. Mas o que nos traz mesmo Dominique sobre a sua vivência com a paisagem brasileira nordestina?

Uma paisagem no contexto da arte, ainda que pese sua associação a uma visão pictórica baseada na representação da natureza, está longe de ser reduzida a um dado mensurável e estável relativo ao meio ambiente e muito menos apenas no contorno morfológico de suas inúmeras concretudes. Vai além da simples morfologia de seu espaço, existindo em um entrelaçamento dinâmico sobre os olhares e as vivências das relações sociais que nelas se cruzam ininterruptamente. Natureza, história e mito se amalgamam, tendo a figura humana e sua experiência estética como cerne principal.

Nesta experiência vivenciada por Dominique, vemos que antes de tudo trata-se de uma paisagem que não se restringe à ideia de território, espaço, ambiente, natureza, mas encontrou sua plena razão de ser numa experiência fenomenológica, estesia completa em um confronto com todos os sentidos, em que as cores e os cheiros são sensações que permanecem na memória, e da qual a fotografia resultante é uma testemunha privilegiada. Revela assim sua relação com a arte, em que a criação se dá pelos sentidos, pela imaginação, razão e pelo trabalho.

É fascinante ouvi-la falar do processo de aquisição de cada uma das imagens, das histórias sobre os contatos com algumas pessoas a fim de conhecer dados pitorescos sobre costumes locais, conversas que aprofundaram a pesquisa linguística e constituem um fator importante para a posterior construção narrativa. No bem-humorado gosto pelo jogo e pela liberdade, o que se coloca é a própria ideia de criação poético-visual a ser estabelecida entre os nomes ou seus fragmentos, em que, via metalinguagem, o processo e os consequentes resultados passam a proposta de um desafio a ser resolvido pelo leitor.

Este livro/obra atua então para nós como um convite a uma viagem sem deslocamentos territoriais, ao abrigar fatos, detalhes e transformá-los em memória individual e coletiva, num fluxo contínuo e diário de consciência para um e todos. Como diria ainda Fernando Pessoa: “Viajar? Para viajar basta existir […] É em nós que as paisagens têm paisagem”.

 

Coqueiro-Seco-Al

calma-coqueiro-seco-Al

mae-d´agua-Pb

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Extraído de Abecedário Nordestino: Caminho das Águas, Dominique Berthé. Recife: Zoludesign, 2014.

** Orientadora do 47º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco. Contato: carmonino@gmail.com

*** (1) e (2) Coqueiro Seco, Alagoas; (3) Mãe D’Água, Paraíba. Fotos de Dominique Berthé extraídas de Abecedário Nordestino: Caminho das Águas.