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Índex* – Julho, 2014

Estrela da manhã

Esclarece os sonhos

Acalma os juízos

Me faz ver

O que não sei fazer

Sozinha

 

Pudera

Poder

Plantar

Em cada coração

A paz

Que tu me inspiras

Neste exato momento

Além do bem

Além do mal

Com ou sem religiões

Raças ou conceitos políticos

 

Apenas

A tua luz

A tua voz

No meu ouvido

Me pedindo

Para acordar

 

(“Gentileza”, Patricia Tenório, 15/07/14)

Um pouco mais de Gentileza no Índex de Julho, 2014 do blog de Patricia Tenório.

“Grãos” | Patricia Tenório (PE-Brasil).

“Mattinata” | Fernando Monteiro (PE-Brasil).

“Um conto por dia” | Carol Bradley (PE-Brasil).

“Livro do Desassossego” | Fernando Pessoa | Narrado por João Paulo Araújo (PE-Brasil). 

“Sobre “Laydo: em hora de dormir” | Diogo Bruno Calife (PE-Brasil) | Por Patricia Gonçalves Tenório.

E os links de Alexandre Brito (RS-Brasil) – www.alexandrebrito.net.br

Fernando de Mendonça (SP/PE-Brasil) – www.blognandodijesus.blogspot.com.br

Jornal Ô Catarina (SC-Brasil) – www.fcc.sc.gov.br/ocatarina

Agradeço imensamente a todos os participantes, a próxima postagem será no dia 31 de Agosto de 2014, um abraço bem grande da

Patricia Tenório.

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Index* – July, 2014

Morning Star

Clarify the dreams

Calm the judgements

Make me see

What I can not do

Alone

 

May

I can

Plant

In each heart

The peace

That you inspire me

In this precise moment

Beyond Good

Beyond Evil

With or without religions

Races or political concepts

 

Only

Your light

Your voice

In my ear

Asking me

To wake up

(“Kindness”, Patricia Tenório, 07/15/14)

 

A little bit more of “Kindness” in the Index of July, 2014 in the blog of Patricia Tenório.

“Grains” | Patricia Tenório (PE-Brasil).

“Dawn” | Fernando Monteiro (PE-Brasil).

“One story a day” | Carol Bradley (PE-Brasil).

“Book of Disquiet” | Fernando Pessoa | Narrated by João Paulo Araújo (PE-Brasil). 

“About “Laydo: at bedtime” | Diogo Bruno Calife (PE-Brasil) | By Patricia Gonçalves Tenório.

And the links of Alexandre Brito (RS-Brasil) – www.alexandrebrito.net.br

Fernando de Mendonça (SP/PE-Brasil) – www.blognandodijesus.blogspot.com.br

Newspapper Ô Catarina (SC-Brasil) – www.fcc.sc.gov.br/ocatarina

Thank you very much to all participants, the next post will be on August, 31, 2014, a big hug from

Patricia Tenório.

 

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foto 1

foto 2

 

foto 3

 

A Estrela da Manhã / The Morning Star

 

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

“Grãos”* | Patricia Tenório**

Capa Grãos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Grãos

Contos, Crônicas e Poesias, 2007

ISBN: 978-85-87025-25-8

Preço: R$ 15,00

128 páginas

Editora Calibán

 

“O que mais se destaca neste estranho livro é o emprego de uma linguagem aparentemente simples, transparente como a água que bebemos, a conviver num contexto de prosa e poesia. As tramas e os enredos sutilmente tecidos mal aparecem. No entanto, quando emergem à superfície de nossa mente, logo se esboroam numa teia de sugestões que falam mais pelo silêncio meditativo que pela força nua do poder da construção verbal.

Grãos não sugere, apenas, a força misteriosa das palavras, mas também a possibilidade de germinar em nosso íntimo novos seres, assim como ocorre com as sementes que, guardadas sob o signo da multiplicação, frutificam.”

 

*Prêmio Dicéa Ferraz em Poesia e Conto da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, 2008.

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

 

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A Prova

(Extraído de Grãos, Editora Calibán, 2007)

Eu queria dizer que em cada amor existe ódio e em cada ódio, um pouco de amor.

Vou logo lhe avisando: essa história não é das melhores. Se tiver coração mole ou preconceitos, procure outro passatempo, veio ao lugar errado. Mas se for dos meus, daqueles que persistem sem nunca perder a esperança…

Então vamos lá, você que insiste. Meu nome é Charles, os mais amigos – se bem que não os possuo em quantidade – me chamam de Charlie. E eu posso lhe considerar um amigo: não chegou até aqui?

Para variar se trata de uma mulher. Não se ofenda, cara amiga; verá que não sou de todo mal. E os homens que estão quase me deixando de lado, façam um esforço, valerá a pena.

Ela se chama Lívia. E não é uma mulher qualquer. Tivemos um relacionamento tempestuoso, daqueles que não têm hora, lugar ou problema para se encontrar, e sempre era muito bom. Não me leve a mal, se veio ler cenas quentes e de volúpia, ligue a TV, alugue um filme: não é de meu feitio.

Mas onde estava mesmo?  Ah, Lívia. Acho que sempre pensou  que  eu  a   amava. Ligava para mim, lá estava eu, mandava o motorista me apanhar, qualquer situação, trabalhando ou não – se bem que ultimamente ando meio desocupado. Mas nesse dia foi diferente.

Fumando meu charuto cubano – gosto de umas regalias – à beira da piscina de um hotel que não vem ao caso nome e lugar. Bem, estava eu, tranqüilo, fumando meu charuto e uma taça do melhor Cabernet Sauvignon, safra 1996, chileno. Era uma festa de três, meu caro. E eu comandando.

Quando num repente… Não, foi suave, leve, tal ela sempre é, saindo de um mergulho, subindo as escadarias da piscina, a água se despindo de seu corpo, um metro e oitenta, pernas longas e delineadas por muita musculação, a cintura a que tanto me enrosquei, e os seios, ah, os seios…

É melhor parar por aqui: prometi que não iria contar cenas picantes. E não vou, sou um homem de palavra. Permita voltar à minha história que é o melhor que faço.

Lívia pareceu não me ver, enrolou-se no roupão, branco e felpudo, caminhava folgada, os quadris em uma louca dança – boa dançarina que é. Notei que falou alguma coisa ao garçom. Fiquei perdido em meus pensamentos quando a vi entrar no hall largo do hotel.

Se deveria segui-la, fazia tanto tempo. A última vez que a vi usava um vestido vermelho e decotado nas costas, o colo liso e estonteante quase saltava para mim naqueles dois seres imaginários… Calma, Charlie, olha a empolgação. Os cabelos soltos – os cabelos dela são de um tom que não sei descrever, meio ocre, meio mel, sempre perfumados, um doce e inebriante perfume.

Mas os olhos… Cor daquela piscina que em visão me apareceu, uma visão rápida e derradeira, talvez não devesse receber o bilhete do garçom, talvez não o lesse e inquietasse a alma com o convite para subir à cobertura do hotel luxuoso.

E quando apertei a campainha, percebi minha perdição. Estava repetindo o que me havia prometido jamais repetir, e por um instante, um ínfimo instante decidi que daria as costas e conseguiria chegar ao elevador antes que aqueles demorados segundos passassem e ela, ainda de biquíni, abrisse a porta e me convidasse para entrar.

Tudo acabou: promessas, dizeres e maldizeres. As palavras não contam numa hora dessas. O gosto de seus lábios me fazia retirar o blazer bege de linho e desabotoava a gola da camisa quando a maldita campainha tocou. Novamente.

Mas não era eu. Um rapaz – muito mais novo é verdade – alto, moreno, bem apessoado, tenho de confessar, entrou com ares de dono do apartamento, Lívia nos apresentou.

– Este é meu namorado, Joel.

Não preciso dizer mais nada, caro amigo. Seria um grande e tolo desperdício de palavras. Mas lhe peço, humildemente: não se vá. Espere mais um minutinho, não vai se arrepender.

A mesa estava bem posta na varanda, Lívia nos deixou conversando – agora, imagine sobre o que conversaríamos. Mas sou um cavalheiro, nunca, jamais me verá fazendo confusão, não faz parte de meu vocabulário.

Conversamos sobre tudo e parecia que não havíamos dito nada um ao outro, acendi mais um charuto.  A vontade era de lhe dar algumas baforadas, mas mantive a classe em cada um dos longos minutos que Lívia tomou seu vaporoso banho, a porta do banheiro um pouco entreaberta.

Foi então que tive a mesma visão, o vestido vermelho – deveria estar me provocando – sentou-se com o leve sorriso desenhado entre os alvos dentes na cadeira vazia entre mim e Joel.

As trivialidades desfilando, tal intermináveis desfiles que de Lívia assisti. As garrafas de champanhe Veuve Clicquot indo e vindo, caviar Beluga e fois gras entrecortando nossas risadas. Sim, meu caro, porque eu estava me divertindo.

Se tem uma coisa que nunca perco é o bom-humor. E naquela hora, não me era esforço algum usá-lo e da melhor maneira. A refeição foi deliciosa.

Nos licores, entre Frangélicos e Amarulas o nosso amigo se despediu. Disse-me que foi um enorme prazer, mas precisava fazer uma sessão de fotos na piscina,  a  equipe  de jornalistas o esperava. Bem que achei o rosto familiar: deve ter sido em alguma sessão de filme pornô de segunda categoria. Mas eu não assisto a filmes pornográficos.

Lívia, adivinhando os pensamentos, retirou as minhas dúvidas; fazia filmes de ação, o tal Joel.

– É uma boa pessoa, me faz companhia.

Mas eu também fazia companhia e por que me deixou?

– Charlie, você deve estar se perguntando por que está aqui.

Ela estava adivinhando mesmo todos os meus pensamentos.

– Faz muito tempo que desejava falar com você, e não havia a coragem.

Este nunca foi o seu forte, meu bem.

– O tempo está se acabando.

Não gostei dessa última frase. Mas às vezes o diálogo nos foge do controle.

– Estou com um tumor cerebral. E não tem jeito, Charlie, tentei de tudo, o melhor que a medicina pode oferecer.

É nessas horas, meu amigo, que tudo pára. O segundo elastece, os minutos congelam, e a paisagem vira uma grande e insolúvel fotografia.

Não sabia o que sentir. Se há alguns minutos queria estrangular aquela mulher, agora desejava levá-la ao colo, à cama e fazer como sempre o mais suave dos amores. Entendia tudo, o porquê da minha presença naquela cobertura à la Luiz XV com vista para toda a praia de Copacabana.

– O que vou lhe pedir só pode ser feito por você, meu querido.

Não me chame de meu querido…

– Joel não sabe de nada.

E porque não disse para o seu namoradinho?

– Ele não me ama como você.

Estará sendo cínica? Por que esses olhos de lágrimas?

– Quero que me prometa algo.

Promessas, promessas.

– Quando estiver no hospital – o que provavelmente acontecerá em breve – peço que dê um jeito de desligar os aparelhos. Não quero viver em cima de uma cama, quem sabe lúcida e sem poder falar, andar, ser quem eu sou.

E aqui estou eu, meu amigo. Na UTI mais cara que vi em toda a minha vida, em frente à mulher que amo, os olhos parados, brilhantes, como se soubessem porque estou aqui.

Tudo ficou claro. Eu sabia o que fazer. Em passos leves me aproximei da cama, dei-lhe um doce beijo na testa ressecada, mas ainda bela – vi uma pequena lágrima escorrendo por sua face pálida.

Olhei para a parafernália de botões da máquina que a mantinha viva. Fiz o que meu coração mandava, dei alguns passos e saí sem olhar para trás.

Eu queria dizer que em cada amor existe ódio e em cada ódio, um pouco de amor.

Foi um prazer conhecê-lo, meu caro.

“Mattinata”* | Fernando Monteiro

1

 

Primeiros sinais da manhã

na madrugada ainda de mão fechada

sobre a garganta das árvores.

 

No escuro antes da alba

de flautas geladas,

flui mais que o orvalho

nublado do piar de pássaros:

uma, duas, três vezes

três aves até ser incontável,

por toda parte, um parque

de canoros fantasmas

na hora da nossa sorte,

amém.

 

Morte de horas atrás,

azar recente do ontem

irreal, absurdo

 

(como a palavra “azar”

que não dá azar quando

repetida por azar).

 

Azar, azar, azar.

Piar, piar, piar

e retinir do bronze de sinos

na distância matinal,

enquanto tão próximas

são as dissonantes aves

com o silêncio da solidão

a dois no quarto.

 

Um oculto coro

perto

longe

como agora estamos,

unidos

separados

apesar da palavra “amem”

sem o assento de Deus

para sempre esmagando-a

desde o trono da divindade

vazio como a dispensa dos pobres.

 

 

2

 

Os excitados passarinhos (assim,

no diminutivo das penas)

sabem do coração cerrado

da noite que passou?…

 

Na manhã de empoeiradas árvores,

o rio claro de presente

sucede o escuro mar

do que já foi,

do que ficou para trás,

e não podem saber sobre seus anúncios de cantores

soarem mais fúnebres do que o dobrar

das matinas aos dois ouvidos humanos

divididos pelas sombras do que foi dito

e do que foi calado antes da alba,

na hora anterior ao amanhecer

dos proclamas festivos

de aves invisíveis

como o canário da infância.

 

De harmonia furtiva,

a manhã nova continua o breve instante

de acreditar matinalmente em Deus,

para logo maquinalmente desacreditar

Dele,

no seguimento do dia ateu das longas

iniquidades permitidas se tudo

é apenas e tão somente

o presente interminável

que finge contar as horas

sem contas a ajustar

com nenhuma divindade boa,

antiga,

nova,

impiedosa,

misericordiosa

etc.

 

3

 

Essa também é a hora

de claramente perceber

que tudo se passa na fixidez

do permanente agora

paradoxal nas palavras

ontem

anteontem

semana passada

mês findo

ano passado

décadas atrás…

 

Não há fuga do tempo

que não apague

o que nem parecia

vir a ser sob as ondas

já borrado?…

 

Qual era a praia alegre

do ultrapassado dia

datado no falso calendário?

 

“Nos separamos na manhã

de tanto de tanto de ano nenhum”,

está escrito no diário

que será esquecido num navio

afundado na mais funda fossa

dos oceanos da infelicidade.

 

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* Extraídos de Mattinata, Fernando Monteiro. Sol Negro Edições – Natal – RN e Edições Nephelibata – São Pedro de Alcântara – SC, 2012.

“Um conto por dia”* | Carol Bradley

Contato

Publicado em 29 de maio de 2013 – 6:01h. Carol Bradley

 

Hoje, Joana deu o último suspiro… Essa frase no Facebook do chefe deixou Júlio indeciso. Deveria dar os pêsames mesmo sem saber se seria uma tia, prima ou irmã? Seria melhor ignorar a informação? Como estava havia um mês no novo trabalho, achou que demonstrar solidariedade seria uma forma de se aproximar do seu diretor.

Sr. Fernando, toda perda é sofrida, dolorosa, mas faz parte da vida. Certamente Joana agora descansa em um local de paz, de luz. Favor informar sobre horário do enterro e missa de sétimo dia. Se precisar de um ombro amigo, pode contar comigo.

Mandou a mensagem e esperou ansioso pela resposta. Acreditava que angariar a simpatia do chefe seria um bom início para subir alguns degraus na carreira. Quem sabe em pouco tempo assumiria um cargo de gerência? Um bom relacionamento com quem detinha poder na empresa era fundamental para os seus planos. Normalmente, fragilizadas, as pessoas ficam mais abertas ao outro, pensou. Meia hora depois chegou a tão esperada resposta.

Obrigado pela preocupação, mas Joana já foi enterrada e não haverá missa, era nossa cachorrinha de estimação.

 

Terapia

Publicado em 20 de dezembro de 2012 – 7:16h. Carol Bradley

 

Julieta foi para a sessão semanal de terapia. Estava especialmente bela. Com um vestido vermelho, justo. Decote generoso, fenda na perna, salto alto. Dr. Pimenta não pôde deixar de reparar. A paciente já se tratava havia mais de um ano com o médico. Nesse período, a mudança interior refletiu no exterior. Emagreceu, clareou os cabelos, descobriu a maquiagem.

Bom dia, julieta, tudo bem? Tudo ótimo. Doutor, essa semana eu conheci um rapaz. Continue. Eu estava na praia com uns amigos e ele chegou. Estava de sunga preta. Sem camisa. Malha, com certeza, pensei. Conversamos bastante. Ele também é servidor público, também é formado em Direito. Muitas coincidências, você não acha? Deve ser o destino. Eu estava de biquíni branco. Percebi ele me olhando. Aquele olhar de quem quer saborear uma fruta da época. O calor estava quase insuportável. Fomos para o mar. Senti a perna dele roçando na minha. Arrepiei. Continue. De repente veio uma onda e me desequilibrou. Quase levo um caldo. Ele me segurou pela cintura. Aquela mão de homem, que segura firme. Ficamos bem próximos. Os corpos colados. Nos beijamos. Um beijo molhado e salgado. Gostoso. Continue. Estávamos no fundo. Sentia sua mão alisando meu corpo. O relógio tocou. Doutor, acabou meu tempo. Não se preocupe, pode continuar.

 

Contemplação

Publicado em 18 de outubro de 2012 – 6:37h. Carol Bradley

 

O verão começou. O sol brilha no céu de Porto de Galinhas. Caminhando na praia, o mar lambe meus pés. Arrepio. Azul e verde misturados pelas ondas fortes. A criança pula amarelinha. O sorriso estampado na pele morena. Deito na canga. Sinto o sol penetrando meu corpo. Os gringos têm que comprar vitamina D na farmácia. Sorte minha.

Um homem se aproxima. Galego, pele clara, forte. Olá, você sabe onde é a Pousada Jurubeba? Pelo sotaque percebo que não é conterrâneo. Pode seguir caminhando, é depois daquela curva. Duas barrocas surgem no canto da boca. Ele comenta, eu adoro o jeito que vocês falam: podi, oxi, vixe. Você é carioca? Da gema. Conversamos mais um pouco. Disse que era a primeira vez em Pernambuco e estava de férias do banco. Nunca imaginei que o Nordeste tivesse tantas belezas. Sorri. Quer ir na pousada tomar uma cerveja? Fica para outro dia. Vou encontrar umas amigas agora. Me despedi do menino do Rio. Voltei admirando aquele dia colorido. Caminhava e agradecia a Deus pelo espetáculo da natureza. Ao lado de conchas brancas, marrom, rosa, havia uma água viva. Quase imperceptível repousando na areia. Levantei o pé antes de completar a pisada. No belo, também há perigo.

 

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* Extraídos de Um conto por dia, Carol Bradley. Recife: Editora Bagaço, 2014

Contatos: www.umcontopordia.com.br e carolbradley@uol.com.br

“Livro do Desassossego” |Fernando Pessoa | Narrado por João Paulo Araújo*

“Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O

som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram

na própria alma, como a esperança constante que se desfaz

no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas

choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam

os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se

me tornou o segredo da noite e a confidência do abismo.

Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam

em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos

nos alagamentos da emoção!

Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido,

aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amamos e perdemos

e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido,

que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos

quando sentíamos; o que era uma memória e críamos

que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e

fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na

praia, no decurso noturno do meu passeio à beira-mar…

Quem sabe sequer o que pensa, ou o que deseja? Quem

sabe o que é para si-mesmo? Quantas coisas a música sugere

e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda

e choramos, e não foram nunca! Como uma voz solta da paz

deitada ao comprido, a enrolação da onda estoura e esfria e

há um salivar audível pela praia invisível fora.

Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim

vagueio, incorpóreo e humano, com o coração parado como

uma praia, e todo o mar de tudo, na noite em que vivemos,

batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu eterno passeio noturno

à beira-mar!”

 

Livro do Desassossego – Fernando Pessoa – Narrado por Joao Paulo Araujo

 

(PESSOA, Fernando. Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Seleção e Introdução Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 188)

* Narração: João Paulo Araújo. joaopauloaraujo@live.com

Sobre “Laydo: em hora de dormir” | Diogo Bruno Calife* | Por Patricia Gonçalves Tenório**

Capa de Laydo - Diogo Calife

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Existe um livro escrito pela Prof. Dra. Virgínia Axline da Universidade Estadual de Ohio, EUA, chamado Dibs: em busca de si mesmo (1986). Trata da história de Dibs, um menino que chega à ludoterapia da Dra. Axline sem conversar, sem brincar, isolado em si mesmo, em um mundo inacessível para seus pais e as pessoas ao seu redor.

Essa história marcou profundamente a minha adolescência, e me acompanhou até a fase adulta, até eu ser mãe. Considero que isto se deva ao fato do que a tradutora para o português do Brasil, a Prof. Célia Soares Linhares das Universidade do Maranhão e Universidade Federal Fluminense, menciona em uma nota na 13ª edição do livro.

“É um convite para entender e amar a criança que continua escondida em cada um de nós e sentir a grandiosidade da participação no mistério cósmico que nos une às montanhas, ao mar, às chuvas, às árvores, aos passarinhos e a todos os animais, às crianças, aos jovens, aos adultos num agigantamento do nosso ser e num aprofundamento de nossa originalidade pessoal”. (Linhares in Axline, 1986, p. 9)

Quando recebi Laydo: em hora de dormir (2013), de Diogo Bruno Calife das mãos de sua mãe, Rejane Calife, imediatamente o remeti a Dibs, e a esse mergulho em si mesmo que nos alerta Prof. Axline, Prof. Linhares e o próprio Diogo Calife. Narra a estória de Laydo, que pensando estar perdendo tempo ao dormir, vai ao encontro de seus amigos Lagarto, Ratinho Azul e Dr. Caramujo para não deixá-los também dormir, pois “a gente perde muito tempo dormindo, tem muita coisa acontecendo”.

Diogo tem 16 anos e autismo. Criou – texto e ilustrações – um livro “quando muita gente tenta e não consegue” (Rejane e Roberto Calife, pais de Diogo). E criou um livro sobre “a perda de tempo” tão comum na nossa sociedade acelerada que não quer “perder tempo” cuidando de si. Paradoxalmente, Diogo, vencendo todas as dificuldades para se expressar nesse mundo que o cerca, consegue dizer muito mais das nossas próprias dificuldades de entrar em si, se conhecer, se encontrar, para somente então ter condições de sair de si ao encontro do outro. O que os antigos faziam com frequência ao final do dia, feito nos lembra Foucault (2013, p. 46) com “a insistência sobre a atenção que convém ter para consigo mesmo”, feito nos acalanta Sêneca em Da tranquilidade da alma.

“Não há nada mais relaxante do que ficar entre as paredes de nosso lar. Que ninguém me furte um único dia, já que nunca poderia me compensar tão grande perda. Neste local, a alma fica dedicada a si mesma, pode ser cultivada, nada nem nenhum juízo alheio pode afetá-la. Livre dos cuidados particulares e públicos, dedica-se à tranquilidade”. (Sêneca, 2009, p. 38)

Que os exemplos de Dibs, Diogo e os que acreditaram neles (Dra. Virgínia Axline, Rejane e Roberto Calife) nos incentivem a nunca deixar de acreditar em nossos sonhos, e mais importante, a sempre acreditar no poder dos sentimentos, dos afetos, no poder transformador do amor, que possibilita o “agigantamento do nosso ser” e o “aprofundamento de nossa originalidade pessoal”.

 

Referências bibliográficas

 

AXLINE, Virgínia M.. Dibs: em busca de si mesmo. Tradução: Célia Soares Linhares. 13ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1986.

CALIFE, Diogo Bruno. Laydo: em hora de dormir. Texto e ilustração: Diogo Bruno Calife. Nota biográfica do autor: Rejane e Roberto Calife. Recife: Editora Coqueiro, 2013.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 3: o cuidado de si. Tradução Maria Thereza da Costa Albuquerque. 12ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2013.

SÊNECA, Lúcio Anneo. Da vida retirada; Da tranquilidade da alma; Da felicidade. Tradução Lúcia Sá Rebello e Ellen Itanjara Neves Vranas. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

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* Contatos: rejane.calife@uol.com.br e roberto.calife@tagsi.com.br

**  Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br