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Índex* – Maio, 2014

O escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si,

e o mundo que o faz ser quem é: quando falo de escrever,

o que primeiro me vem à mente não é um romance, um poema ou a tradição literária,

mas uma pessoa que fecha a porta, senta-se diante da mesa e, sozinha, volta-se para dentro:

cercada pelas suas sombras, constrói um mundo novo com as palavras.

(A maleta do meu pai, Orhan Pamuk)

– Eu sempre quis que vocês admirassem meu jejum – disse o artista da fome.

– Nós o admiramos – retrucou o inspetor – por que não haveríamos de admirar?

– Mas não deviam admirar – disse o jejuador.

– Bem, então, não admiramos – disse o inspetor. Por que é que não devemos admirar?

– Porque eu preciso jejuar, não posso evita-lo – disse o artista da fome.

 (O artista da fome, Franz Kafka)

A experiência da fome no Índex de Maio, 2014 do blog de Patricia Tenório.

“Sans nom/ Fără nume” | Patricia Tenório (PE-Brasil).

Festival Alba Transilvania, Alba Iulia, Romênia, Maio, 2014.

“As Crônicas de Aia” | José Augusto Nobre de Medeiros (RN-Brasil).

Une vraie histoire | Enviada por Youcef Amier (França).

XVIII Jornada de Estudos Traços Freudianos Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise (PE-Brasil).

Agradeço a participação de todos(as), a próxima postagem será em 29 de Junho de 2014.

Até lá,

Patricia Tenório.

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Index* – May, 2014

The writer is someone who spends years patiently trying to discover a second being inside him,

and the world that makes you who you are : when I speak of writing,

what first comes to mind is not a novel, a poem, or literary tradition,

but a person who closes the door, sits down at the table, and alone, turns inward:

surrounded by their shadows, builds a new world with words.

( The case of my father, Orhan Pamuk )

 I always wanted you to admire my fasting – said the hunger artist .

 We admire – said Inspector – why should not we admire ?

 But you should not admire – said the fasting person .

 Well then , we don’t admire – the inspector said . Why should not we admire ?

 Because I need to fast , I can not avoid it – said the hunger artist .

(The Hunger Artist , Franz Kafka )

The experience of hunger in the Index of May, 2014 in the blog of Patricia Tenório.

“Sans nom/ Fără nume” | Patricia Tenório (PE-Brasil).

Festival Alba Transilvania, Alba Iulia, Romania, May, 2014.

“The Cronicles of Aia” | José Augusto Nobre de Medeiros (RN-Brasil).

One true history | Sent by Youcef Amier (France).

XVIII Jorney of Studies Freudian Traces Lacanian Paths School of Psychoanalysis (PE-Brasil).

I appreciate the participation of all, the next post will be on 29th June, 2014.

See you there,

Patricia Tenório.

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Praga III

Praga VI

Praga VII

Praga VIII

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

**Imagens de Praga, terra natal d”O artista da fome”, Franz Kafka. Images of Prague, birth land from “The hunger artist”, Franz Kafka.

“Sans nom/ Fără nume” | Patricia Tenório

Fara nume

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poemas, Contos e Crônicas, 2013 / Poèmes, histoires et croniques, 2013

Francês e Romeno / Français et Roumain

ISBN: 978-973-148-145-6

Preço / Prix: 10,00 euros

100 páginas / pages

 

O oitavo livro da escritora brasileira Patricia Tenório vem para consolidar seu caminho pelo mundo das palavras desde 2004, há quase 10 anos. Desta vez, contos, poemas e crônicas publicados, na maior parte, em seus sete livros anteriores aparecem aqui em outras línguas: o francês (tradução efetuada pela própria autora com a colaboração da tradutora e poetisa francesa Isabelle Macor-Filarska) e o romeno (traduzido pela tradutora e poetisa romena Flavia Cosma).

Com o selo da editora romena Ars Longa, Sans nom/ Fără nume vem ao encontro do desejo de todo artista de se comunicar com o Outro, com “diversos artistas”, em “diversas linguagens”.

Le huitième livre de l’écrivain brésilien Patricia Tenorio vient consolider son chemin à travers le monde des mots, depuis 2004, il y a presque dix ans. Cette fois-ci, des histoires, des poèmes et des chroniques publiées, la plupart, de ses sept livres précédents apparaissent ici dans d’autres langues: en français (traduction faite par l’auteur en collaboration avec la traductrice et poète française Isabelle-Macor Filarska) et en roumain (traduit par la traductrice et poète roumaine Flavia Cosma).

Avec l’empreinte de la Maison d’Edition Roumanie Ars Longa, Sans nom/ Fără nume vient pour répondre au désir de chaque artiste de communiquer avec l’Autre, avec “différents artistes” dans “différentes langues”.

 

Un nume

 

Vroiam să iau numele tău

Şi să-l ascund în adâncul cel mai adânc al fiinţei mele

Unde pot să-ţi caut rostul şi să descopăr

De ce nu-mi ieşi din gânduri

Să găsesc un loc liniştit

Unde să-l las în anonimat

Eu întreb şi tu nu răspunzi

Pentru că tu ştii, oh, dragostea mea

Tu ştii că nu există adevăr.

Decembrie 2006

 

 Nom

Je voudrais prendre ton nom

Et le cacher dans la profondeur de moi-même

Où je peux chercher ton sens et découvrir

Pourquoi tu ne sors pas de mes pensées

Trouver un lieu tranquille

Pour l’y laisser anonyme

Je demande et tu ne réponds pas

Parce que tu sais, oh, mon cher

Tu sais qu’il n’y a pas de vérité.

Décembre 2006

Traduit de « Grãos », Maison d´Edition Calibán, Brésil, 2007

   

      Nome             

 

Eu queria prender teu nome

E guardar na profundidade de mim

Onde eu possa procurar teu sentido e descobrir

Porque não sais de meus pensamentos

Encontrando um lugar tranqüilo

Para ali deixar anônimo

Eu pergunto e não respondes

Porque tu sabes, oh, meu querido

Tu sabes que não existe a verdade.

Extraído de « Grãos », Editora Calibán, Brasil, 2007

Perna

  

In fiecare zi de îndată ce răsare soarele, ei vin să-mi dea un pupic în pat. Sosesc pas cu pas, ca şi cum n-ar dori nimic, ori simplu ca şi cum ar vrea să-mi facă o surpriză. Şi iată, eu deschid ochii, decepţia se aşterne pe feţele lor, farsa e jucată.

Când copii mei intră în camera mea ca să-mi spună: “La revedere mamă, mergem la şcoală”, simt o plăcere de neuitat, atât în zilele când sunt obosită pentru că am revenit prea târziu de la muncă, sau în zilele când am petrecut bine cu o seară înainte.  Ei sosesc aducându-mi o amintire dintr-un timp foarte depărtat şi în acelaşi timp foarte apropiat…

Timpul în care eram şi eu aşa de mică, când intram în camera părinţilor mei şi mă strecuram între ei sub cearceafurile de bumbac, căutând o mângâiere, un sărut pe păr, parfumul de iasomie al mamei, parfumul de lavandă a tatălui meu, şi mă simţeam persoana cea mai în siguranţă din lume.

Copii mei au plecat la şcoală. O lacrimă se scurge încet pe faţa mea şi moare pe pernă.

 

Mai 2007

L´Oreiller

            Tous les jours, sitôt le soleil levé, ils viennent me donner un baiser au lit. Pas à pas, ils arrivent, comme s’ils ne voulaient rien, ou simplement comme s’ils voulaient faire une surprise. Et voilà, j’ouvre les yeux, la déception se peint sur leur visage, la pièce est jouée.

Quand mes enfants entrent dans ma chambre pour dire « Au revoir, maman, nous allons à l’école », j’éprouve un plaisir inoubliable, aussi bien les jours où je suis fatiguée quand je rentre trop tard du travail, que les jours où j’ai passé une bonne soirée. Ils arrivent avec le souvenir d’un temps très lointain et en même temps si proche…

Le temps où j’étais aussi petite, quand j’entrais dans la chambre de mes parents et me glissais entre eux deux sous les draps de coton, en cherchant une caresse, un bisou dans mes cheveux, l’odeur de jasmin de ma mère, le parfum de lavande de mon père, et je me sentais la personne la plus sûre du monde.

Mes enfants sont partis à l’école. Une larme roule lentement sur mon visage et meurt sur l’oreiller.

 

Mai 2007

Traduit de « Grãos », Maison d´Edition Calibán, Brésil, 2007

O Travesseiro

  

Todos os dias, assim que o sol nasce, eles vêm me dar um beijo na cama. Passo a passo chegam, como se não quisessem nada, ou simplesmente como se quisessem fazer uma surpresa. Então eu abro os olhos, a decepção estampada nos rostos, a peça está montada.

Quando meus filhos entram no meu quarto para dizer um Até logo, mamãe, nós vamos à escola, eu provo um prazer inesquecível, tanto nos dias em que estou cansada quando chego muito tarde do trabalho, quanto naqueles em que saí com meus amigos. Eles chegam com a lembrança de um tempo tão distante e ao mesmo tempo tão próximo.

O tempo em que eu era também pequena, quando entrava no quarto de meus pais e me escorregava entre os dois sob os lençóis de algodão, procurando um carinho, um beijo nos meus cabelos, o cheiro de jasmim de minha mãe, um perfume de lavanda de meu pai, e eu me sentia a pessoa mais segura do mundo.

Meus filhos partiram para a escola. Uma lágrima rola lentamente sobre meu rosto e morre no travesseiro.

 

Extraído de « Grãos », Editora Calibán, Brasil, 2007

Fără nume

 

 

Fetiţa căuta cuvântul perfect

Care în treacăt i-a atins pielea într-un vis

Pe când porii ei răspândeau aroma de iasomie

Şi literele îmbălsămate în uleiuri ancestrale

Cădeau pe gâtul ei

Cerându-i să le legene,

Să le lase să-i spună poveşti

Pentru a adormi într-un somn nou

Pentru a visa stele, galaxii pierdute

Şi acel cuvânt perfect, rătăcitor prin spaţiu

Martie 2009

Sans nom

La petite fille cherchait le mot parfait

Qui lui avait effleuré la peau dans un rêve

Ses pores exhalaient l´arôme du jasmin

Et les lettres embaumées dans les huiles ancestrales

Tombèrent sur son cou

Lui demandant de la bercer,

De lui raconter des histoires

Pour dormir d’un sommeil nouveau

Rêver des étoiles, des galaxies perdues

Et le mot parfait vaquait dans l’espace

Mars 2009

 

Sem nome

A menina buscava a palavra perfeita

Que lhe roçara a pele num sonho

Os poros exalavam aroma de jasmim

E as letras embalsamadas nos óleos ancestrais

Tombaram em seu colo

Pedindo ninar, contar histórias

Para dormir um sono novo

Sonhar estrelas, galáxias perdidas

E a palavra perfeita vagando pelo espaço

 

 Março 2009

 

 

Festival Alba Transilvania, Alba Iulia, Romênia/Roumanie, Maio/Mai, 2014

É com imensa alegria que posto alguns textos, poemas de escritores, poetas, e antes de tudo, pessoas extraordinárias que tive o prazer de conhecer quando da minha passagem pela Romênia… Agradeço o carinho com que me receberam e espero encontrá-los em breve…

Patricia Tenório.

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C’est avec une grande joie que je vous mets quelques textes, poèmes par des auteurs, des poètes, et surtout des gens extraordinaires qui j’ai eu le plaisir de connaître quand de mon passage à travers la Roumanie … J’apprécie la gentillesse que j’ai reçu et j’espère les trouver dans bientôt …

Patricia Tenório.

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Le silence blanc, Christian Tămaș. Traduction Christian Tămaș. Iași: Ars Longa, 2013.

I

La ville

 

Il montait, sans bruit, les marches de l’escalier étroit, en les comptant mentalement, comme d’habitude, et en s’arrêtant de temps en temps pour reprendre son souffle. Pendant qu’il montait, il avait l’impression que le grondement de dehors se faisait moins sentir, interrompu parfois par le hurlement agaçant des sirens et par des coups de feu isolés. Après s’être arrêté trois fois, il monta les dernières marches et se s’arrêta devant une porte massive em chêne ou noyer (il ne se rappelait plus três bien les paroles du propriètaire à ce sujet au moment où il s’était installé dans l’appartement trois mois auparavant). Mais le loyer il l’avait payé um mois seulement, car, deux semaines plus tard, la grande folie, comme il lui plaisait de s’exprimer, avait commencé et tout avait éclaté…

[…]

Psaumes, Dorel Vișan. Traduction et preface Christian Tămaș. Iași: Ars Longa, 2013.

 

152 Seigneur, depuis une éternité…

 

Seigneur, je te chante depuis une éternité

Et tout comme une toupie je tourne

Sans cesse autour de Toi…

Et je ne sais pas dans la nuit

Si c’est Toi ou c’est moi qui crie (?)

Est-ce que

je m’agenouille humblement devant Toi

Ou vainement je cherche à regarder en moi (?)

Je suis seul, Seigneur,

Mais pas tant seul

Que je ne puisse lever

Afin d’ajouter une pierre à Ta construction

Je crains la viellesse

J’ai peur de ne pas pouvoir cueillir

Les fruits de mes yeux, de mes oreilles…

Chiures perdues parmi les étoilles…

Indigne serviteur sans renom que je suis

Indigne d’être ton tapis

Sur lequel Tu puisses marcher à la Dernière Cène

Accepte-moi, Segneur, pour l’amour

Et la haine que j’éprouve pour Toi

Et chausse-Toi de moi…

Jette-moi dans l’abîme

Afin de donner un sens à tes œuvres.

Mais Céleste Père

Dans la dernière nuit

Fais-moi sortir de la foule à la lumière…

Lave-moi, essuie-moi, lange-moi

Afin que je puisse brûler comme l’étoile du berger

Et Te bercer dans mes bras

Comme si Tu étais mon enfant…

 

Între Răsărit și Apus  / Entre le Lever et le Coucher, Sonia Elvireanu. Traduction Sonia Elvireanu.  Iași: Ars Longa, 2014.

 

Entre le lever et le coucher

 

Entre moi et toi,

le coucher du soleil,

une trace sur le sable brûlant,

le vert éclatant de la mer,

égaré sur la plage,

la morsure du jour,

un cris dans les paumes,

le seuil entre le ciel et la terre.

*

Je fais une pirouette dans les nuages,

je t’aperçois dans le coucher,

sur l’île en flames,

le saut du blesse.

*

Je suis encore le lever.

 

Poème du silence / Poemul tăcerii, Ioan Hădărig. Alba Iulia: Altip, 2013.

 

ce temps chassé dans

le bruit de la scie

partage la rivière

en silence et vie

en nuit de brouillard

et les pas des voyageurs

qui rejoignent les yeux fânés.

 

je ressens l’impuissance de me dévorer

à travers les paroles attachés aux larmes

comme le bourdonnement d’une chandelle

 

et je me tais

 

le brouillard a enseveli mes yeux

dans le silence d’une saison chassée par les murmures

 

j’existe encore.

 

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Alba Iulia I

 

Alba Iulia VI

Alba Iulia VII

 

 

Alba Iulia II

 

 * Imagens de (1) Alba Iulia, (2) Dorel Vișan, Christian Tămaș, Flavia Cosma, Patricia Tenório, Rodica Chira e  Sonia Elvireanu no Festival Alba Transilvânia, (3)  Christian Tămaș, Brandusa Tămaș, Flavia Cosma e Patricia Tenório no Festival Alba Transilvânia, (4) Mosteiro próximo a Alba Iulia.   Images de (1) Alba Iulia, (2) Dorel Vișan, Christian Tămaș, Flavia Cosma, Patricia Tenório, Rodica Chira et  Sonia Elvireanu dans le Festival Alba Transilvania, (3)  Christian Tămaș, Brandusa Tămaș, Flavia Cosma et Patricia Tenório dans le Festival Alba Transilvânia, (4) Monastère près de Alba Iulia.  

“As Crônicas de Aia” | José Augusto Nobre de Medeiros

Medo de alma

 

Nos dias de hoje já não é tão comum as pessoas ficarem conversando sobre almas e assombrações, talvez devido ao avanço tecnológico e também ao esquecimento das tradições. Mas antigamente eram muito comuns em rodas de crianças e de adultos as histórias sobre almas e assombrações. Nas cidades do interior eram mais comuns ainda.

São tantas as lendas urbanas sobre assombrações que em um só livro seria incapaz o relato de todas elas, mas algumas ficaram mais famosas e muitas pessoas juram de pé junto que passaram por aquelas situações.

Morei em frente ao cemitério do Alecrim durante mais de vinte anos, e minha mãe ainda permanece morando na mesma casa. As lendas e histórias se sobrepunham ao adágio popular e muitas pessoas não tinham a coragem de nos visitar com medo do cemitério.

Contava uma dessas lendas que um taxista pegou uma passageira, muito bonita e elegante, na saída de uma festa em um clube da época, Assen, América, Aero ou Albatroz, tanto faz, e ela mandou seguir para o bairro do Alecrim. Chegando em frente ao cemitério, mandou parar em frente ao portão da Rua Fonseca e Silva, e o motorista estranhou, pois não havia casas por ali, e perguntou onde ela morava. Ela foi logo dizendo “moro aqui mesmo”, descendo do carro e entrando no cemitério sem nem abrir o portão. O motorista disparou e parou no bar Quintandinha, na Praça Gentil Ferreira, morto de medo. Essa mulher ficou conhecida como A Mulher de Branco, e, vez por outra, se falava nela para fazer susto a alguém.

Pois bem, eu nunca fui muito medroso e essas histórias, se bem contadas, até me arrepiavam, mas não metiam medo. Tanto que jogávamos bola à noite na rua lateral do cemitério, em frente à atual casa de minha mãe, quando ainda nem havia calçamento, e, quando a bola caía dentro do cemitério, apenas eu e Amaro, que era bem mais velho, tínhamos coragem de ir buscar, enquanto os demais ficavam tentando nos amedrontar.

Mas certa vez tive um susto danado. O cine Rio Grande exibia uma sessão aos sábados à noite que se iniciava às vinte e três horas. Era uma sessão em que só passavam bons filmes, e ao sair por volta de uma hora da manhã, tudo estava deserto, muito diferente de hoje, que é o horário que muitos estão saindo para as baladas.

Fui assistir ao filme “A sentinela das portas do inferno”. Era um filme de muito suspense, onde uma freira vivia em frente a uma janela de um apartamento e um padre descobria que neste apartamento existia um portal do qual ela era guardiã e que se houvesse descuido as criaturas do inferno invadiriam a terra.

Havia pouquíssimas pessoas no cinema e saí muito sugestionado, entrando rapidamente no carro e disparando para casa, que era pertinho, sem deixar de me arrepiar ao passar em frente ao portão do cemitério.

Na nossa casa havia um pequeno beco lateral de acesso a uma vila e também ao quarto onde eu dormia, e chegando tarde da noite era por lá que se entrava. Parei o carro na calçada e desci rapidamente sem nem olhar para os lados. Quando estava tentando abrir a porta lateral do meu quarto, algo passou voando por entre as minhas pernas e só escutei o barulho do portão de ferro da vila batendo contra a parede. Se fosse cardíaco teria morrido naquela hora. Que susto!

Nesse pequeno espaço de tempo de no máximo trinta segundos, as cenas do filme, a história da mulher de branco e tantas outras passaram como um raio em minha memória. De volta à realidade, ainda consegui escutar lá no fundo da minha razão o miado de um gato que tinha sido o autor da façanha.

Nunca mais fui a uma sessão da madrugada no Rio Grande.

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Extraído de As Crônicas de Aia, José Augusto Nobre de Medeiros. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2014.

** José Augusto Nobre de Medeiros é engenheiro químico e grande contador de estórias. Contato: aquaservice@uol.com.br

Une vraie histoire* | Envoyé par Youcef Amier

Soumia, 17 ans et demi, lutte depuis trois ans contre un cancer des os. Malgré trois opérations le mal se généralise. Elle se sait condamnée à brève échéance et, bien que croyante, elle redoute la montée de la souffrance : “Plutôt mourir que de souffrir autant”. Elle est hospitalisée et toute une équipe médicale l’entoure de soins affectueux, en soutenant son courage et sa foi, en veillant à ce qu’elle ne manque pas de calmant pour atténuer ses douleurs. Parfois cela va mieux, elle veut écouter de la musique, lire Hayat, faire des mots croisés, regarder la télé… Parfois on la trouve prostrée, engourdie par les drogues…Souvent elle gémit, et même crie sa douleur. Estomac, foie, poumons, le mal est partout.

Un matin, je la trouve au plus mal. Elle se sent mourir. Je la reverrai toujours prononçant de toutes ses lèvres sa profession de foi, sans qu’aucun son ne sorte de sa bouche, ses grands yeux tournés vers le ciel, avec une concentration et une solennité extraordinaire. Je lui tiens la main, accompagnant sa prière : “Soumia, Dieu, le Miséricordieux, plein de tendresse, t’attend, il est prêt à t’accueillir”. Elle approuve d’une pression des doigts. Le 25 mars 1999, Soumia est partie vers son Créateur: Foule énorme au cimetière. Huit jours après, sa maman me confie le petit cahier sur lequel elle avait transcrit trois poèmes, écrits depuis qu’elle se savait condamnée (voir encadrés). Ce sont ces poèmes qui tracent en filigrane tout le parcours spirituel extraordinaire de cette jeune fille. Mais essayons de pénétrer, avec ce qu’elle nous a laissé par écrit, dans le mystère de ce qu’elle a vécu au plus profond d’elle-même. À 15 ans une jeune fille a la vie grande ouverte devant elle : elle rêve de son avenir, de l’amour d’une famille. Dans son corps et dans son cœur il y a des énergies nouvelles et elle est naturellement toute penchée vers le futur. C’est la nature des choses… Pendant son adolescence, Soumia fait par contre une expérience très différente : atteinte d’une maladie très grave, un cancer des os, qui se répand vite dans tout son corps, elle connaît bientôt la crainte, l’angoisse, les va-et-vient vers l’hôpital, les soins douloureux, l’interrogation sur l’avenir.

La plupart des adolescentes algériennes ont un cahier ou un album, où elles conservent documents, photos, lettres, textes, etc. qui leur sont chers. Soumia ne fait pas exception. Elle se confie à son cahier, comme l’on se confie à une amie intime, à qui on livre ses sentiments et ses pensées les plus secrètes : “Le temps a changé ma ressemblance et a dispersé mon savoir. Il m’a fait perdre ma beauté et ma jeunesse. – O temps tu m’as trahi.” Il faut dire que Soumia avait confiance en l’équipe médicale qui s’occupait d’elle. Il lui arrivait peut-être de laisser sortir un mot, un soupir, quelques phrases qui révélaient son état d’âme, le désespoir qui s’était emparé d’elle. Peut-être même a-t-elle fait lire à I’un ou à l’autre ces réflexions sur le cahier. Un médecin lui répond par écrit : “Ce que tu as appris dans ton épreuve, les autres mettent de nombreuses années de leur existence à le comprendre”.

Sur le papier, des traces de larmes nous révèlent que cet écrit a dû faire une grande impression sur Soumia. Est-ce là que commence la remontée vers l’espérance ? Peut- être. Dans le deuxième poème, le ton change : Soumia semble regarder en face sa maladie, et même la mort inéluctable devant elle, mais : “Ma douleur ne vient pas d’un amour éperdu, ni d’une passion, mais du Seigneur des mondes”. Et plus loin : “C’est toi Seigneur, notre berger, notre bienfaiteur, celui qui nous fait vivre et mourir”. Plus le physique cède devant le mal qui avance, plus l’esprit se ressaisit : lucidité, courage, douleur acceptée, foi, jusqu’à “L’éclat de mon espoir”, comme elle a voulu titrer son dernier poème : “Dieu m’a donné ma suffisance de foi…Sois la bienvenue, ô mort ! Je n’ai pas peur de toi, mais de la rencontre de mon Seigneur”.

C’est dans ces dispositions que Soumia est partie à la rencontre de son Seigneur. L’impact de ces longues semaines de souffrance et de courage de Soumia a été très fort sur tous ceux, parents, amis, personnel hospitalier qui l’ont accompagnée jusqu’au bout.

Soumia, nous garderons le souvenir de ton douloureux sourire au cours de ton épreuve et de ta foi lumineuse. Puissent ces quelques poèmes que tu nous as laissés, nous aider à affronter la vie avec plus de courage… tant il est vrai que ce sont ceux qui vont mourir qui nous apprennent à vivre.

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* Envoyé par Youcef Amier. Contact: amier435@gmail.com

XVIII Jornada de Estudos Traços Freudianos Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise

CARTAZ jornada

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Participação de Patricia Tenório com “O cuidado de si em O retrato de Dorian Gray e De Profundis, de Oscar Wilde”.