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Índex* – Abril, 2014

Viver é muito perigoso.

(Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa)

O perigo e a beleza da vida no Índex de Abril, 2014 do blog de Patricia Tenório.

“Diálogos” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

Convite Alba Iulia, Romênia | Sans nom Fără nume, Patricia Tenório.

“A última volta do ponteiro” | Adriano Portela (PE – Brasil).

“Querido Diário Peregrino” | Poemas de Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Fotografias de Wagner Okasaki (SP – Brasil).

NAUvoadora (PE – Brasil).

E o novo link de Fred Caju (PE – Brasil): www.fredcaju.blogspot.com

Agradeço a participação de todos(as).  A próxima postagem será em 25 de Maio de 2014.

Grande abraço e até lá!

Patricia Tenório.

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Index* – April, 2014

Living is very dangerous.

(Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa)

The danger and the beauty in the Index of April, 2014 from the blog of Patricia Tenório.

“Dialogues” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

Invitation to Alba Iulia, Romênia | Sans nom Fără nume, Patricia Tenório.

“The last lap of the pointer” | Adriano Portela (PE – Brasil).

“Dear Diary Pilgrim” | Poems from Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Photos from Wagner Okasaki (SP – Brasil).

NAUvoadora (PE – Brasil).

And the new link from Fred Caju (PE – Brasil): www.fredcaju.blogspot.com

I thank you for the participation of all.  The next post will be on 25th May, 2014.

Big hug and see you there!

Patricia Tenório.

foto (2)

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** O farol que nos guia nas veredas perigosas da vida. Enviada por Luciana Tenório Carvalho (AL – Brasil). The lighthouse that guides us in the dangerous paths of life. Sent by Luciana Tenório Carvalho (AL – Brasil) .

“Diálogos”* | Patricia Tenório**

Capa de Diálogos - Patricia Tenório

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Diálogos

Patricia Tenório

Contos, 2010

80 páginas

 

“Se pensarmos bem, todo texto é um diálogo com um lugar, um passado, um futuro. Mas o que está por trás desse diálogo? Qual é essa busca?

Ao dialogarmos, descobrimos réstias da luz de nós mesmos, réstias de uma verdade que passaremos toda a vida escavando, entrevendo nuances, adivinhando gestos.

Neste pequeno livro, percorro várias paragens, estabelecendo diversos diálogos, na tentativa de captar o que o outro me apresenta, me estimula, me perturba.”

 

O domador de bolas de sabão([1])

            Tu me plocs me pla, eu me plocs me plon. E ploc lá, ploc qui, não ploca plocon. No placa plo, no placa pli, plaquê, plaqui, não plaploquê.

No se plaque a plocon de plocagem de um ploc plocante, não se ploquê pla.

Placa ploc pla, plisser plum plonger plinecante.

Plic, ploc e plonc.

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=QG1Y05p2ezw

Olhos fechados([2])

Não quero olhar o mundo.

Mas se fecho os olhos e o guardo em mim, vêm as lembranças, atormentam, torno a olhar o mundo como uma forma de escapar.

No escuro dos olhos fechados, existe todo um universo de fantasmas que assustam porque acredito neles, vejo através de um espectro a menina que fui um dia, chora e chora porque não me reconhece mais.

Não quero falar da verdade.

Ela habita em mim tão lúcida e dolorosa que sou capaz de contar suas vértebras, uma a uma, perder a conta e recomeçar, Sísifo subindo a montanha, empurrando a si, sabendo que nada adiantará tamanho esforço – não sairá do lugar, continuará o mesmo, apesar daquela ruga no lado esquerdo do rosto.

As nuvens não são feitas de algodão.

Não posso sair do meu corpo e acabar com o ar que me falta, frio nas mãos, a garganta seca, vertigem rodando e rodando até repousar em terreno fértil onde posso encontrar algum sentido.

O pouso efêmero.

Novo ar que me falta, frio nas mãos, a garganta seca. Peço ajuda a meu amigo, ele só pode me aguardar na próxima parada, piscar, oferecer o ombro. Então posso chorar e chorar a cachoeira dos olhos até a camisa azul cor de céu. O lenço branco estendido.

Lembro quando brincávamos juntos. Naquela porção de instante as almas não se falavam, unas, duas, eu e meu amigo. Podíamos saber o que o outro sentia pelo arfar dos pulmões, o tamborilar em cima da mesa, palavra engasgada que não saltava aos lábios e inundava o ar.

Meu amigo.

Ele ali buscando as palavras nos meus olhos e o meu sofrimento de grande tornava-se fino, transparente.

Meu doce amigo.

Vejo-o se afastando na plataforma, nem olha para trás, mas sei a dor que carrega no peito: não somos mais o espelho um do outro, não posso mais ver brilhar nele as cores das minhas virtudes ou a neblina dos meus limites.

Fiquei apenas com os sonhos, um leve aroma de terra molhada, aquele último aceno, e a sensação de um dia ter visto esta cena.

 

      httpv://www.youtube.com/watch?v=VY7d7QXOSGY

Prisão Perpétua([3])

                                                                                      Não existem fatos, só interpretações.                                                                                              

Friedrich Nietzsche

 

A cor púrpura dos cabelos caíam em cachos por sobre meus ombros. Saía do coiffeur, na Île de St Louis, os livros de francês debaixo do braço ao encontro de mamãe.

– Almoçamos no Deux Magots?

No céu formavam-se nuvens espessas, não vai dar tempo de chegar, e os meus cabelos arrumados?

– Onde se pega o ônibus para a Rive Droite?

O menino me apontava a estação. Um menino negro, boina vermelha, vendia jornais antigos. Tive a impressão de ver uma foto minha nas páginas policiais.

– O ônibus, mademoisele! O ônibus para a Rive Droite!

O perdera. O menino não estava mais lá, desapareceu por entre a bruma do quai. A Notre-Dame cantava os sinos me lembrando do atraso. Desci as escadas na direção do Sena, quem sabe ainda pegue o Bateau Mouche?

– Quer uma carona?

Um barco azul. Um rapaz, pele clara, olhos cinza, dirigia as velas, o som alto saía das cabines, duas moças dançavam com outro rapaz louro.

– Para onde vão?

– Para onde você quiser.

– Preciso chegar logo à Rive Droite, no Deux Magots. Marquei com a minha mãe de almoçarmos lá, estou muito atrasada.

– Talvez demore um pouco. A chuva se aproxima com força. Você tem como avisá-la?

Enviei a mensagem de celular, mãe, vou me atrasar um pouco, peça a champagne rosé.

Clarice recebe uma mensagem. Acorda Pedro e lhe mostra.

– Você quer beber conosco? Esta é Sofia, Marguerite, Denis.

– Prazer, me chamo Virgínia. E você, como se chama?

– Como quiser me chamar.

Sofia puxou o rapaz sem nome, deu-lhe um beijo olhando em minha direção. A bebida no estômago vazio?, as nuvens balançando o barco?, os ponteiros do relógio que avançavam?, avançavam, na proa do barco azul, via a água sendo cortada em duas, queria mostrar à minha mãe para ela descrever no livro.

O celular de Clarice recebeu uma vídeo mensagem.

– Por que está aqui sozinha?

– Não estava me sentindo bem na cabine. E você não me diz seu nome.

– Se eu disser você me dá um beijo?

– Mas… E Sofia?

– Somos apenas amigos. E não se deve perder o momento. Pode ser que nunca mais nos encontremos.

– Minha mãe avisou que isso poderia acontecer.

– De estarmos aqui juntos?

– Eu poderia me apaixonar por alguém proibido.

O vento soprava sobre o meu cabelo desalinhando o que antes me fora arrumado com zelo.

– O significado das palavras têm muito menos a ver com a razão do que com a causa.

– Por que me diz isso?

– Você entenderá um dia.

Ele me tomou nos braços, levou ao quarto verde, retirando as roupas até me ver nua e indefesa. As mãos suaves deslizavam cada parte do corpo, girando em círculo os dedos sobre os seios nus, beijando os bicos, o umbigo, o sexo virgem, com a língua morna penetrou o âmago do meu ser retirando estrelas que reluziam no teto da cabine. Sofia fotografava com o meu celular. Ele beijava meus cílios molhados.

– Por que chora?

– Nunca fui tão feliz.

– Não se apegue a nada, minha pequena Virgínia. O barco está chegando à Rive Droite.

Denis, Marguerite e Sofia abriram a porta sanfonada da cabine. Procurava minhas roupas, o quarto nu, não havia lençóis ou toalhas e ele não estava mais lá.

Clarice e Pedro chegaram ao hospital. Pediram para ver com urgência a filha na UTI. As fotos continuavam chegando ao celular.

– Sua vadia! Eu só precisei fechar os olhos para você roubar meu marido!

– Eu não sabia. Ele disse que você era apenas uma amiga.

– Amigos que se beijam na boca?

– Sofia, você sabe como ele é.

– Não se meta nisso, Marguerite. Cuide do seu homem que eu cuido do meu.

A minha cabeça doía. Tentava cobrir o corpo com os cachos lisos, a cor púrpura escorrendo por entre as pernas, soluçando, soluçando.

– Venha, Virgínia. Emprestarei uma das minhas roupas.

Havia um aquário no quarto de Marguerite. Peixes dourados nadavam suavemente. Por entre eles, vi uma cama de hospital.

– Recebemos estas fotos, doutor. São de hoje.

O médico de olhos cinza, pele clara olhava o celular de Clarice.

– Mas vejam: desde o acidente de barco que o estado da paciente permanece o mesmo.

Meus olhos viram os olhos que me pertenciam. Eu estava lá, cabeça raspada, corpo nu coberto por um lençol branco, o rosto pálido não se mexendo, como eu poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo? Se há pouco eu fora desvirginada por alguém que nem sabia o nome? Se os meus cabelos cobriam os ombros e eu sentia o vestido branco de Marguerite colar na minha pele rosa? Se descia do barco azul me despedindo de todos, mas ele não estava lá? Nunca mais o veria?

Entrei na Rue Bonaparte, avistava a Eglise de Saint Germain de Près. Daqui a pouco verei minha mãe, almoçaremos um quiche Loraine com salada verde, beberemos champagne rosé nas mesinhas de fora do Deux Magots.

httpv://www.youtube.com/watch?v=EAAPVLPxN98


(1) Em Paris, no pátio do Museu Georges Pompidou, assistindo a uma apresentação d´O domador de bolas de sabão.

(2) Quando fechei os olhos.

(3) Sonho após receber uma mensagem de celular por engano.

Textos extraídos de Diálogos, Patricia Tenório, 2010, Editora Calibán.

** Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

 

Convite para Alba Iulia, Romênia | “Sans nom / Fără nume”, Patricia Tenório

Sans nom-Fara nume

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Perseide-Alba Iulia

“A última volta do ponteiro”* | Adriano Portela**

“Foi uma gritaria na varanda, um corre-corre entre as moças, e dentro de alguns minutos eis que apareceu dona Eugênia, uma morena alta, de cabelos encaracolados e corpo escultural, proprietária de uns cuidadosos 45 anos. Ela, como toda boa dama, veio até a porta receber o cliente e o levou para a melhor suíte, ou seja, o seu quarto. Jean parecia um animal, queria sexo de imediato e se mostrava muito nervoso. Mas a anfitriã do bordel, que já sabia lidar com todo tipo de homem, logo conheceu que ele escondia algo e começou, aos poucos, o questionamento. Este era um método que ela usava nessas ocasiões: os homens desabafavam e acabavam pagando mais caro pelas horas de consolo. Até que, em um determinado momento, Jean não aguentou e se abriu com dona Eugênia. Ele contou praticamente todo o seu drama.”

Quarta capa de A última volta do ponteiro, Adriano Portela, Ed. do Autor, 2011.

** Adriano Portela é jornalista, escritor, professor universitário, cineasta e produtor cultural. Blogs: www.escritorioliterario.blogspot.com e www.portelafilmes.blogspot.com

 

“Querido Diário Peregrino”* | Poemas de Bernadete Bruto** & Fotografias de Wagner Okasaki***

Querido Diário Peregrino

Somos Flores

Neste mundo

Somos flores

Delicadas

Grandes

Pequenas

Coloridas

Diversificadas

Pelos canteiros da vida

precisamos ser

cuidadas

protegidas

Jamais despedaçadas!

Catador de Lixo

O homem suarento

puxa a carroça

no lixo remexe

para criar seu sustento

no mundo

sem perder a dignidade

nem procura um caminho

mais fácil da imoralidade

Este homem valente

Sem titulação

Pela cidade execrado

Merece ser louvado!

Concorrência

Vejo muitas pessoas

Concorrendo pelo mundo

Quem é mais?

Quem tem mais?

Quem é melhor?

Mais! Mais!

Quem dá mais?

Quem dá mais

por um pouco de paz?

Poemas selecionados de Querido Diário Peregrino, Poemas de Bernadete Bruto & Fotografias de Wagner Okasaki, Novoestilo Edições do Autor, 2014.

** Bernadete Bruto é poeta, artista e metroviária. Contato: www.bernadetebruto.com

*** Wagner Okasaki é graduado em Agronomia e participou de várias exposições de fotografia, entre elas, Paraty em Foco 2011.

Fanzine da NAUvoadora*

Doce

Maria 

Tenho uma canção

Que alimenta um ferro quente

Entrando na cabeça

E vai devorando tudo que somos,

Me dê o poder do sonho

Para ter vida própria.

Quem sou?

Aquele que ama sozinho,

Sofre por dois,

Chora por todos,

Eu estou lá dentro

Dos escombros

Formado por chuvas de verão

(Senhorinho)

 

“Carpideira”

Que se reparta o corpo.

E a pele desvista-se

revelando a parte rubra,

a renda de veias suturadas

pela areia. Que as órbitas

vidrando detrás dessas portas

outrora abre fechando-se

agora soterrando a luz,

sob o cadeado da pálpebra,

nos sulcos da face,

ceguem a sede que matou-te

e teus filhos, rosário em fronteira

de ti, girando, dança e mosaico,

cantem para esquartejar-te

sobre estas quatro patas

tu que és na mesa posta

o pão de barro. Peça de ossos

e nervos. Mata também

a fome da tua prole

não foge animal em transe

não volte ao pó antes

não antes que teu sangue

talhe nessas bocas uma pedra

e duas serpentes.

(Jonatas Onofre)

 

Post-mortem

debruçado na sacada

diante do cemitério

de prédios e automóveis

eu ainda espero teu

espectro de ar esquelético

atravessar a cavalo

o hemisfério norte

pra inverter meus

pólos magnéticos

ou me dar um beijo

de boa sorte.

(Camillo José)

 

* Poemas extraídos de NAUvoadora – Revista Literária de Igarassu. Enviado por Danuza Lima. Contatos: danuzakryshna@gmail.com e www.nauvoadora.blogspot.com