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Índex – Março, 2014

Ao escolher palavras com que narrar minha 

angústia,

eu já respiro melhor. 

A uns Deus os quer doentes,

a outros quer escrevendo.

(Oráculos de maio, Adélia Prado, p. 83)

A “angústia criativa” no Índex de Março de 2014 no blog de Patricia Tenório.

O Major – Eterno é o Espírito | Patricia Tenório (PE – Brasil).

Poemas de Rizolete Fernandes (RN – Brasil), traducidos por A. P. Alencart (Espanha) y Violeta Boncheva (Bulgária)

Nilto Maciel (CE – Brasil) & Patricia Tenório em Literatura sem Fronteiras.

Antologia Poetas da Capunga (PE – Brasil). 

“Vupa” | José Juva (PE – Brasil).

Cilene Santos (PE – Brasil) & Roland Barthes.

Agradeço a participação de todos e a próxima postagem será em 27 de Abril de 2014.

Até lá!

Patricia Tenório.

 

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Index – March, 2014

When choosing words that describe my

anxiety,

I already breathe better.

The ones God wants patients,

the others wants writing. 

(Oracles of May, Adélia Prado, p. 83)

The “creative anxiety” in the  Index of March of 2014 in the blog of Patricia Tenório.

The Major – Eternal is the Spirit | Patricia Tenório (PE – Brasil).

Poems from Rizolete Fernandes (RN – Brasil), translated by A. P. Alencart (Spain) and Violeta Boncheva (Bulgaria)

Nilto Maciel (CE – Brasil) & Patricia Tenório in Literature without Borders.

Anthology Poets of Capunga (PE – Brasil). 

“Vupa” | José Juva (PE – Brasil).

Cilene Santos (PE – Brasil) & Roland Barthes.

I appreciate the participation of all and the next post will be on 27th April, 2014.

See you soon!

Patricia Tenório.

foto

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Mãos em prece de “A catedral”, Auguste Rodin, 1908, Musée Rodin, Paris. Hands in prayer from “The cathedral”, Auguste Rodin, 1908, Musée Rodin, Paris. 

“O Major – Eterno é o Espírito”*| Patricia Tenório**

 

Capa Major José Tenório - Patricia Tenório - Maior

 

 

 

 

 

 

 

O Major – Eterno é o Espírito

Biografia Romanceada, 2005

Edição do Autor

288 páginas

 

“A apaixonante história do Major José Tenório, um Dom Quixote que desbravou as fronteiras da Zona da Mata canavieira de Alagoas e deu origem a uma das mais influentes famílias da região: a Família Tenório.

A viagem da neta, Patricia Tenório, às suas raízes, e a descoberta de que a plenitude só é possível quando encontramos a quem pertencemos…”

 

Presente***

Novembro, 2005

 

Sempre gostei muito de livros. Ler, escrever esteve entre minhas atividades prediletas. Isso foi tão marcante na minha vida que em 2001 resolvi abrir uma livraria – a Domenico Livraria. Funcionou de março de 2002 a março de 2004. Lidei com autores, editores, artistas, mestres da área.  Eram ministradas no auditório da Domenico cursos, palestras, oficinas. Mas havia um em especial que me despertava uma inveja – saudável, é verdade. A inveja de ver o Mestre e seus pupilos conversando sobre a arte das palavras. A Oficina Literária Raimundo Carrero.

O dia-a-dia da livraria me consumia as horas e impedia que mergulhasse naquele universo mágico. Mas como em tudo na vida, aconteceu na hora certa. Ao fechar a Domenico, bateu uma vontade enorme de escrever. Era compulsivo, um caos se instalou em meu ser e tornou-se inevitável. Ou escrevia ou a morte. Meio trágico assim, mas que descobri, no primeiro dia de aula na Livraria Nobel, Agosto de 2004, ser essa mesma dor, agonia que todo escritor passa. Então as torneiras se abriram, e jorrou de tudo. Minha vida, angústias, questionamentos. E com toda a paciência de um sábio, Carrero foi me guiando, ensinando o caminho das pedras, um caminho tortuoso na maioria das vezes, em que somente o autor pode descobri-lo, fracasso e glória própria.  A eterna orgia.

Dezembro de 2004. Antologia – livro coletânea de diversos contos, alunos da Oficina Raimundo Carrero, Editora Bagaço, Recife, Pernambuco. A constatação de que é possível, existe uma luz realmente no fim da teimosia nas palavras. Não havia mais volta, minha sina estava traçada, desejava mais do que tudo na vida. Escrever, escrever, escrever. Participei com o conto “Lentes Cor-de-Rosa”. Nessa mesma época recebi o convite de minha família e a idéia do jornalista e consultor cultural Ênio Lins de escrever uma biografia – escolhi que fosse romanceada – do meu avô, em homenagem ao seu centenário, aconteceria no ano de 2005. Além do prazer em fazer meu primeiro livro, existia uma missão maior que era unir a família em torno de seu patrono, por isso também o Memorial, a Fundação, com a participação de Carmem Lúcia Dantas, museóloga, Wilma Nóbrega, bibliotecária, Roseane Torres, psicóloga, Gisela Abad, designer gráfica.

Novembro de 2005. O livro está pronto. Ele é meio o que vejo, meio o que sou. Vivi o eterno sofrimento de lapidar, levar o ferro ao torno, moldar, lutando contra inimigos inexoráveis: o tempo, o aprendizado do ofício e a maturidade artística.  Escrito em prazo menor que o ideal (seis meses sendo dois meses para cada etapa, entrevistas, escrevendo,  revisão), fiz a escolha de sacrificar a perfeição em detrimento do presente que gostaria de dar para ele, “O Major”, meu querido avô, em 05 de Novembro de 2005 – data de seu aniversário. O meu melhor presente – o que podia, tinha condições no momento.

Mas o maior presente de todos, sem dúvida alguma, foi minha volta à casa paterna. O ser humano só é pleno, inteiro quando retorna às suas raízes, quando descobre a quem pertence, aceitando as diferenças, orgulhando-se do mesmo sangue, raça, obstinação, teimosia, força. Fé. Abraçar minha família, pais, irmãos, primos, tios não tem, jamais terá preço. É um prazer único, para sempre carregado em lugar especial de meu mais que íntimo âmago.

E a meu avô, o Major José Tenório, presente em cada mínimo instante dessa minha primeira viagem no mundo das palavras…

 

Imagem1

O Major José Tenório

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*Menção honrosa em ficção no Prêmios Literários Cidade do Recife, 2005.

** Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005);  As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa (outubro de 2013). Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente (2014) se prepara para cursar o mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural. Contato: patriciatenorio@uol.com.br.

*** Presente é a última página de O Major – Eterno é o Espírito.

Poemas de Rizolete Fernandes, traducidos por A. P. Alencart y Violeta Boncheva

Rizolete Fernandes es una poeta brasileña que participó en el pasado XVI Encuentro de Poetas Iberoamericanos, celebrado en Salamanca el mes de octubre de 2013. Entonces fue traducida por el poeta Alfredo Pérez Alencart, profesor de la Universidad de Salamanca. Y ahora es una notable poeta búlgara, Violeta Boncheva, quien ha trasvasado a su idioma, desde la versión de Alencart, los poemas de Rizolete, que Crear en Salamanca publica agradeciendo a Boika Deneva, directora de la revista digital “Horcas Literarias”, por permitirnos utilizarlos para este interesante tríptico: tres poemas, tres idiomas.

Rizolete Fernandes  (Caraúbas, Río Grande do Norte, Brasil, 1949). Se licenció en Sociología y desde un principio comenzó a colaborar en movimientos sociales que trabajaban por una mayor igualdad y justicia social. Ahora, jubilada de su empleo en la Compañía de Desarrollo Industrial del Estado, su lucha la hace a través de la escritura. Ha publicado  libros de crónicas y de ensayo histórico. En poesía tiene los siguientes títulos: Lunas Desnudas (2006), Canciones de Abril (2010) y Viento de la Tarde (Sarau das Letras, 2013). Es miembro de la Unión Brasileña de Escritores.

РИЗОЛЕТЕ ФЕРНАНДЕС (Караубас), е родена в Рио де Жанейро, 1949 г. Има университетско образование, спецалност Социология и в началото на своята кариера започва да сътрудничи на всички  движения, борещи се за социално равенство. Нейната борба е чрез средствата на литературата. Има публикувани книги с исторически есета и хроники, както и поетичните: „Голи луни”, 2006,  „Песните на април”, 2010, „Следобеден вятър”, 2013. Член е на Съюза на бразилските писатели.

 

ALTA COSTURA

 

Ao te ver desfilar

sinto vestir-me o peito

metros de desejo

de pôr teu corpo nos moldes

tecidos e fantasia

do meu íntimo ateliê

 

A afiada tesoura do querer

recorta o justo modelo

que realça teu perfil

nos desfiles em que te imagino

sob aplausos em diversas

temporadas de passarela

 

 

ALTA COSTURA

 

Viéndote desfilar

siento que metros de deseo

cubren mi pecho

de poner tu cuerpo modelando

prendas y fantasías

de mi íntimo taller.

 

La tijera, afilada de querencias,

corta la exacta prenda

que realza tu perfil

en las pasarelas donte te imagino

bajo aplausos en todas

las temporadas.

 

 

ЛУКСОЗНИ ОБЛЕКЛА

 

Виждайки те да дефилираш,

чувствам колко количества материя

покриват гърдите ми,

ако ги покрия с твоето тяло,

моделирайки украшения и фантазии

от моята интимна работилница.

 

Ножицата, наточена с желание,

срязва точното бижу,

което подчертава профила ти

на модния подиум,

на който си те представям

под аплодисментите

на всички

сезони.

 

 

CHARME

 

Não bastasse a algazarra de ritmos

que tua presença

faz em meu peito acordar

o horizonte de mistérios

a desvendar em teu sorriso

a enlouquecida lira

das tuas palavras

a vibrar em meus ouvidos

ainda por cima

incandesce a chama

desse olhar

como se meu corpo fora

de todo amor que há receptáculo

e fosses a fonte única

do que se convencionou

magnetismo e charme nomear

 

 

SEDUCCIÓN

 

Como si no fuese suficiente

la algarada de ritmos que tu presencia

despierta en mi pecho

el horizonte de misterios

revelando en tu sonrisa

la enloquecida lira

de tus palabras

vibrando en mis oídos

por si fuera poco

se exalta la llama

de esa mirada

como si mi cuerpo fuera

receptáculo de todo el amor que hay

y fueses la única fuente

de lo que se convino llamar

magnetismo y seducción.

 

 

СЪБЛАЗНЯВАНЕ

 

Като че ли би бил достатъчен

шума от ритмите,

които твоето присъствие събужда

в гърдите ми,

хоризонт от мистерии,

разкриващи се в твоята усмивка,

полудяла лира на думите ти,

вибрираща  в слуха ми,

която  екзалтира пламъка на онзи поглед,

 

сякаш тялото е подслон

на всички любови,

които съществуват.

 

FENÔMENOS

 

Pela janela da tarde distraída

entrevejo deslocar-se em passos lentos

a nuvem  que ameaça

fazer por água abaixo os planos meus

 

No instante seguinte

espio um arco-íris ornar o firmamento

então minha alma apascentada

e contrita pensa em Deus

 

 

FENÓMENOS

 

Por la ventana de la tarde distraída

entreveo trasladarse muy despacio

la nube que amenaza

hacer que mis planes pasen por agua

 

Momentos después

un arco iris adorna el firmamento

entonces mi alma apacentada

y contrita piensa en Dios

 

 

ФЕНОМЕНИ

 

През разсеяния следобеден прозорец

съзирам как много бавно се премества

облакът

който заплашва намеренията ми

да отплават с водите му

 

Мигове по-късно

една дъга украсява свода

и тогава душата ми

разпалва желания

 

и съкрушена

търси Бог

 

http://literaturnibesilki.com/details.php?recordID=2728

http://www.crearensalamanca.com/poemas-de-rizolete-fernandes-traducidos-por-a-p-alencart-y-violeta-boncheva/

Nilto Maciel & Patricia Tenório em Literatura sem Fronteiras*

Dois capitulinhos

Nilto Maciel

Confúcio Galvez lembrava um galo: penas coloridas e esvoaçantes, bico afiado, esporões de aço, andar de príncipe britânico, voz de cantor de ópera. No entanto, não pensava em homem, não bicava ninguém, não esporava nem o vento, não morava em castelo e mal sabia “Touradas em Madri”. Arriscava umas frases: “Eu fui às touradas em Madri e quase não volto mais aqui”. Desafinava; riam dele. E cresceu assim, com ares de ave e chão de estrelas. Sempre de bico aberto: “Minha vida era um palco iluminado”. Andava pelo morro, subia e descia ladeiras, de olho nas cabrochas com latas d’água na cabeça, “Sobe o morro e não se cansa, lá vai Maria”. Experimentou rabiscar letras e rimas. As melodias, noites mel dormidas. Talvez doces, quem sabe azedas. Também sambou, desengonçado feito mamulengo. Viajou a Recife e encontrou o povo a pular nas ruas. Diante do frevo, extasiou-se: queixo caído, vestimenta de lorde, pés em transe. As meninas pareciam franguinhas ao sol do meio-dia. Misturou-se aos dançantes e se abrigou à sombra do homem da meia-noite e dos mil e um bonecos de pano. Entre passos e pulos, terminou grudado a certa pintassilga. Passado o carnaval, buscou outras mulatas, cavalgou mulas sem cabeça pelos sertões de Minas, perdeu-se em labirintos, maravilhou-se à frente da dança frenética dos bilros do Ceará e se fatigou de tanto vadiar. Então se casou com Camilinha Petres. E tiveram muitos filhos.

E assim se encerra esta história colorida. Porém, se inicia outra. A tragédia. Pois o tal Confúcio Galvez resolveu mudar de vida, ao se sentir relegado aos cantos da própria casa. Por todos os lados, televisões, computadores, celulares, viagens de Camilinha (tornada Camilona e gorda). Confúcio procurou as penas coloridas e nada encontrou, a não ser uma peruca dourada. E foi embora pra Pasárgada. Tempos depois, aborrecido de sonhar, voltou às ruas da infância e da juventude.

Em outro fevereiro, se enfeitou de urubu e conheceu Dalva de Oliveira, senhora alegre, mas nem tanto.  E lhe contou num dia o equivalente a cem anos de solidão. Casara-se com fulano, blablablá; passara a infância na serra da Meruoca, blebleblé; nascera filha, bliblibli; o fulano vivia com sicranas e beltranas, bloblobló; beberam umas cervejas, blublublu. O bicho velho se recordou, então, dos tempos de terreiro cheio de galinhas e franguinhas e quis ser galo de novo. No dia seguinte, reparou bem a filha de Dalva, grávida de alguns meses. Conversaram e cantaram durante noventa dias e noventa noites, até nascer linda menina. E, alguns anos depois (para encurtar o blablebli), ocorreu o capítulo trágico da vida de Confúcio. Blo-blu.

Fortaleza, 4 de fevereiro de 2014.

 

Sessão da tarde

Patricia Tenório

 

27/02/14

Era um ladrão bem desligado. Esquecia as armas do ofício em casa, na mesa de bar, na cantina da escola, onde trabalhava meio expediente para ajudar com as contas do mês.

Não era fácil se lembrar do roubo de cada dia. Então anotava, um a um, na caderneta de papel pautado. Ficava assim imaginando um roubo novo, inventivo. Não queria que suas vítimas o achassem monótono, repetindo as mesmas artimanhas do artista da TV.

Assistia à sessão da tarde toda vez que chegava da escola, onde havia fritado tantas batatinhas, feito quantos hambúrgueres e estava cansado de não sair do lugar. Mas o ator era charmoso, usava um bigode fino e luvas pretas de borracha.

E se ele enfim parasse, no meio da multidão, e exigisse o prêmio por esquecer que era ladrão todo dia, e todo dia inventasse uma nova história de um possível roubo? Ele foi assim, bem decidido, e não se sentia mais desligado do mundo, pertencia ao mundo agora, feito a antena da TV.

No meio da praça, no meio da multidão, deu uns três tiros para cima, e com o megafone sobre o bigode fino, as luvas pretas de borracha, gritou em alto e bom som.

– Se não me derem um milhão, eu me mato!

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http://literaturasemfronteiras.blogspot.com.br/2014/03/

niltomaciel@uol.com.br

patriciatenorio@uol.com.br

 

Antologia Poetas da Capunga*

Carla Vanessa Sales

 

O todo sem a parte é todo… Mas prefere contar com a parte

(Por um Gregório de Matos convertido e agora apelidado “Boca do Céu”)

 

O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte se faz todo, sendo parte,

Onde a parte? Onde o todo?

 

Em todo Corpo está Deus todo,

E, mesmo Todo, chama ao Corpo cada parte,

E feito em partes todo em toda parte,

Em qualquer parte sempre fica o Todo.

 

Pé, mão, olho, todo sentido seja do Todo parte,

Pois, feito Jesus Cabeça do Corpo todo,

Por isso é Todo – e também é parte.

 

Mas nós, parte única do todo,

Todo dia sejamos, sem partir, só parte,

Membro-parte desse Corpo-todo.

 

 

Diógenes Oliveira

 

Da minha amada,

não gostaria de largar primeiro

para não deixá-la só,

sofrendo a saudade da solidão,

Ela certamente dirá o mesmo.

Mas a prioridade da liberdade das vidas

Apraz o Senhor a resoluta decisão.

 

Paradoxo

 

A vida é um percurso rápido.

Passa célere como uma sombra

perpetrando subitamente a morte.

É uma veloz transição contrastante

que afronta a negação:

começo-fim,

claro-escuro,

verso-anverso

aleive-verdade.

Como num quadro de giz

ao transpor a esponja do destino,

apaga as riquezas, o orgulho, a vaidade

e vão-se os encômios,

sem parentes,

sem amigos,

sem amores.

 

A morte também não é o fim.

É o começo de uma vida metafísica.

Assim como o casulo que foi túmulo da lagarta

a sua cavidade é o berço da borboleta.

 

O fim justifica o começo de tudo.

 

Fernando de Mendonça

 

Súplica

 

Olha-me.

 

Pés fincados, terra seca

Alta dor, mão erguida

Interno peito, um clamor

 

Eis-me.

 

 

Mar

 

O Espírito que paira sobre ti

Viu

As palavras e versos

Que a ti dedicados foram

Que dos teus mistérios surgiram

Por ilustres e desconhecidos

Sujeitos que pensaram viver.

 

Que o Espírito olhe para o agora

Eu

Ser tentante

Na luta para descrever o não dito

Esperança iludida que ouçam

O que tenho de mais particularmente meu.

 

Ah, deixa-me mergulhar

Deixa-me misturar em ti

Ser onda bravia em formação

Para um dia à frente

Ser lembrado pelos mais experientes

capitães.

 

Deixa-me flutuar cândido

Vibrar no interior úmido

Do mistério que acompanhou o início

Confundindo a origem da vida

Como um feto na criação

Deixa-me.

 

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Antologia Poetas da Capunga, Organização Inaldo Tenório de Moura Cavalcanti e Leny de Amorim Silva Malheiros. Recife: Comunigraf Editora, 2009. Contato: nandodijesus@gmail.com

“Vupa”* | José Juva

deixo na boca

a sugestão da tempestade

 

lúcido como uma navalha

só ponta

 

anoto

os haicais

da chuva

 

e recolho

o horizonte

do antebraço

 

estendido sobre o cais.

 

perdido

entre não ter asas

e não saber nadar

 

coisas da pele

 

a fresta

a farpa

 

ver com o corpo

o corpo iluminado

 

azul somente.

 

estar nu

nu como um dente

 

estar coisa

cio S/A

 

estarestar

 

estar éter.

 

 

eu quero o verde de todos séculos.

 

tragam rosa

colher na boca e outros poemas

o silêncio dos minerais azuis

e o abraço cego

do poeta aproximado

 

acendam um lampião

e risquem a minha cabeça

no chão da linguagem iluminada

 

bebam o vinho sangue

essa palavra doce

que escorre cedo

pela foice da lembrança

 

durmam longe da noite

na véspera do abismo

 

eu ficarei no incêndio.

 

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* Poemas extraídos de Vupa, de José Juva. Livrinho de Papel Finíssimo Editora. Recife, 2012.

Contatos: jose.juva@hotmail.com e www.josejuva.blogspot.com

Cilene Santos* & Roland Barthes

Manhã de Sol

No meu quintal
O varal virou uma vitrine
Viva e colorida.
Esvoaçam as roupas
Diáfanas.
Nuvens brancas, baixinhas,
Passeiam
E confundem-se ao sol
Com a alvura dos lençóis
Que voam felizes.
Num momento te vejo
Entre as asas flutuantes
Do linho.
Ah! Uma delas tem a cor
Do mel do teu olhar.

 

“Leio em “Bouvard et Pécuchet” esta frase, que me dá prazer: “Toalhas, lençóis, guardanapos pendiam verticalmente, presos por pregadores de madeira a cordas estendidas”.”

(O prazer do texto, Roland Barthes. São Paulo: Perspectiva, 2008, p. 34)

 

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* Contato: cileneportugues@hotmail.com