Posts com

Índex* – Fevereiro, 2014

 Certa borboleta pode ser vista 

– Graciosa – nos pampas do Brasil,

Somente ao meio-dia em ponto –

Depois, sua liberdade expira.

E uma especiaria, que eclode e fenece,

À mercê de tua colheita –

Como as estrelas que conheceste à noite

E que, pela manhã, te são alheias.

(Poemas escolhidos, Emily Dickinson, Tradução: Ivo Bender,

Edição Bilíngue, Coleção L&PM Pocket, Porto Alegre: L&PM, 2008)

Cuidando do jardim, na espera das borboletas no Índex de Fevereiro, 2014 do blog de Patricia Tenório.

As joaninhas não mentem | Patricia Tenório (PE – Brasil).

Pequenas ficções CXXIV | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Tempo do quase nada | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

A favor da independência feminina | Mara Narciso (MG – Brasil).

Convite “Época de morangos” | Rafaella Vieira (PE – Brasil).

E novos links:

-> Patricia Tenório – Revista Cruviana: http://www.revistacruviana.com

-> Isabelle Macor-Filarska (França) – Recours au Poème: http://www.recoursaupoeme.fr/krzysztof-siwczyk/trois-po%C3%A8mes-traduits-par-isabelle-macor-filarska

-> Luis Ruffato (MG – Brasil) –  El Pais: http://brasil.elpais.com/autor/luiz_fernando_ruffato_de_souza/a/

-> Antônio Ailton (MA – Brasil) – Revista Investigações: http://www.repositorios.ufpe.br/revistas/index.php/INV/article/view/379#.Uv6JKt2A2Ow.facebook

Agradeço a todos(as) que participaram, a próxima postagem será em 30 de Março de 2014, abraço bem grande,

Patricia Tenório.

________________________________________

Index* – February, 2014

Some such Butterfly be seen

On Brazilian Pampas –

Just at noon – no later – Sweet –

then – the License closes – 

Some such Spice – express and pass –

Subject to Your Plucking –

As the Stars – You knew last Night –

Foreigners – This Morning –

(Chosen poems, Emily Dickinson, Translation: Ivo Bender,

Bilingual edition, Colection L&PM Pocket, Porto Alegre: L&PM, 2008)

 Taking care of the garden, waiting for butterflies on the Index of February, 2014 in the blog of Patricia Tenorio.

The ladybugs don’t lie | Patricia Tenorio (PE – Brasil).

Small fictions CXXIV | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Time’s almost nothing | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

In favor of female independence | Mara Narciso (MG – Brasil).

Invitation “Season of strawberries” | Rafaella Vieira (PE – Brasil).

And new links:

-> Patricia Tenório – Revista Cruviana: http://www.revistacruviana.com

-> Isabelle Macor-Filarska (France) – Recours au Poème: http://www.recoursaupoeme.fr/krzysztof-siwczyk/trois-po%C3%A8mes-traduits-par-isabelle-macor-filarska

-> Luis Ruffato (MG – Brasil) – El Pais: http://brasil.elpais.com/autor/luiz_fernando_ruffato_de_souza/a/

-> Antônio Ailton (MA – Brasil) – Revista Investigações: http://www.repositorios.ufpe.br/revistas/index.php/INV/article/view/379#.Uv6JKt2A2Ow.facebook

Thank you all who participated, the next post will be on March 30, 2014, a big hug,

Patricia Tenorio.

Nos jardins de Monet

 

**

_______________________________________

* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Nos Jardins de Monet – Giverny, França. In Monet’s Gardens – Giverny – France.

“As joaninhas não mentem”* | Patricia Tenório**

Capa As joaninhas não mentem - Patricia Tenório

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Três gerações de mulheres são convidadas a salvar o Rei do Amor Perfeito. Ele está preso na mais alta torre da Vila do Castelo. Ariana é convidada a entregar-se a esse abismo, onde se ama e é amado.

Mas o que não sabem, nem Ariana nem o Príncipe Átila quando Ariana aceita o convite, é que se inicia a grande busca por si mesmo que todos nós faremos até o fim de nossos dias.”

 

O Sol***

           A culpa afundava pés na Terra, pedia perdão e os olhos não percebendo. Nos olhos se revelava, a Imperatriz assim saberia. Verdades, mentiras, e as palavras eram vãs.

Raiva e perdão lutavam em um corpo maior e forte. Mãos de uma mulher nova, mas não era amarga. Conservara pureza, ao menos a pureza dos quinze verões, os verões que convidaram o outono cinza dourado das folhas caídas e belas.

O jardim antes coberto de frutas e flores estava solitário e murmuroso. Vento carregando os últimos traços do Paraíso que Ariana elegera como morada eterna, onde plantara suas mudas. Morada que sabia ser passageira. Passageira da vida e da morte.

Mesmo assim querendo ficar, pedia licenças e perdões. Não precisava. A Imperatriz abriu-lhe os braços, o perdão no calor das mãos dadas. O cheiro bom de lavanda aconchegando lágrimas.

Preparou um banho no tacho de madeira. Água morna, pétalas de rosas e óleos de carinho. Ajudava a retirar nódoas e nós da vida, esfregou as costas da Princesa, trazendo toalha branca e macia para enxugar.

Conversavam em silêncio. Os pensamentos se encontrando no calor da lareira,  sorviam um chá de ervas de calma e paciência. A cura assim viria. A Imperatriz não precisando desperdiçar palavras.

Ariana bem soubera, as respostas abrindo-se em pétalas de sabedoria. Desbravando florestas, vales intocados de dor, perdão, despedida. Despedindo-se do Príncipe.

Nas chamas da lareira deixava ao Tempo as devidas providências. Se assim houvesse que ser, assim deveria ser. Não impedindo mais o fluxo da pequena grande vida que se iniciava.

Havia tanto a resolver nesta nova vida. Consertar cercas, derrubar muros de incompreensão com os que eram seus, à Princesa pertenciam. Não os queria súditos: Amores Eternos. Descobrira que os Amores Eternos não se perdem.

O Outono se apresentava. As chuvas grossas e insistentes. Ventanias lembrando cuidados, janelas que deveriam se fechar, por horas apenas. Dias apenas. Meses apenas. Valeria sacrifício?

Sempre valendo sacrifício quando a chuva partia e o Sol mandava notícias. E precisava avisá-los. Avisar que cresceu, que os queria conhecer. Descobrir histórias e nomes. Então se lembrou dos nomes dos irmãos.

Um Mateus, o outro Marcos e Tiago. Ainda havia Lucas e Felipe. E o último? Agoniava-se em tentativas, riscava com a pena azul embebida em tintas, tentava adivinhar, pois não mais se lembrava.

Justamente o mais próximo, o que mais queria conhecê-la, o que a chamava em brincadeiras e esconde-esconde. Ao que não dava ouvidos, nem pronunciava palavras. Não o queria porque o queria tanto.

Queria e amava demais o irmão mais próximo. Amava o irmão mais próximo tal a ela mesma. Com os cuidados que consigo possuía. Com o carinho velado e contido, mas presente, nunca esquecera calor no peito ao vê-lo.

Fora o único que acreditara. O único pedindo presença, considerações. Contava histórias, tentava alisar-lhe cabelo. Ela fugira, tão boba e fugira. De que maneira saber? Hoje sabia, hoje a certeza revelada no rosto.

O nome lhe aparecendo, vivo e iluminado. Cores na memória desciam ao papel branco e se escrevia, o nome mais doce e precioso, aquele a quem daria o maior abraço, o abraço de boas-vindas, a bem-aventurança de ser irmã de Pedro.

         A carta a se fechar, selada, não mais retornaria às mãos duvidosas. As mãos não mais duvidando, a crença instalava-se no bem-querer de irmãos. Pais e filhos seriam, uma família seriam. Até o encontro definitivo com Ária.

Não mais sonhando, os pesadelos afastaram-se da casa da Imperatriz. A lembrança do Príncipe desfazendo-se, ocupava-se com os preparativos. No final da jornada, pensativa sentava ao lado da Imperatriz na lareira.

O fogo aquecia pés, mãos e espírito, voltava os pensamentos para a Torre não muito distante. As perguntas retornando tal vindas de uma Cruzada, montando cavalos sedentos de respostas e paz.

No Inverno as perguntas vigorosas inquietando-a mais, sopravam ouvidos e gelando alegrias. A Imperatriz nem sempre presente, Ariana sentia-se mais que só, não havia medo. Uma certeza enfrentava perguntas e as desafiara.

Mergulhava em livros, aguardando resposta. Do pai e irmãos. Resposta da Vida e do Sol. O Sol não vinha, escondido nas nuvens negras e carregadas de lágrimas de chuva.

As lágrimas secavam, um dia secariam. Mesmo tanta mágoa, um dia secaria. Tornando-se fértil, abraçando sementes e terra nua, se transformando em milagres. Esperaria nos meses, as noites maiores que os dias.

Os livros eram os maiores amigos. O Tempo os unindo, fortes e inseparáveis, mostrando generoso à Princesa que neles encontraria as respostas às perguntas insistentes.

Os cabelos de Ariana tão crescidos, deixavam cachos rubi exalando cheiro do vinho que experimentara pela primeira vez com a Imperatriz. Um vinho rubro, rubro o vinho e fechado.

Tal fechada estava a Princesa, fechada às pessoas e aos sons. Não mais emitia palavras, as palavras precisando ser poupadas. Para hora certa e exata, quando teriam serventia.

Sem desperdiçá-las, o vento não as carregaria para longe. Não mais buscando, mas fazendo a parte que lhe cabia. O que era preciso e necessário. Um passo, outro, respirando apenas o ar que precisava.

O ar era um tesouro, um tesouro que as árvores lhe pediam, ela o doando com prazer. Para que mais? O egoísmo tentava entranhar-se sob as cobertas de lã na noite escura.

Não pensar nos outros, nos irmãos que viriam? O pai, Seu Jorge. Viriam? Seriam perdidos? Tarde para o encontro? Um encontro, seria ele próximo, data e hora, dia e Sol?

Porque seria em um dia de Sol que eles viriam. Assim queria e desejava. Não mais tempestades e agonias, não mais lágrimas de chuva e raios de pensamentos tortuosos. A calmaria sendo a maior das mães.

Antes… Uma mudança. As chuvas, aos poucos as chuvas cessando, o vento encontrando pousada, a Terra aparecendo depois de tantas águas. E lento, lento e sempre, a desaparecerem como nuvens viajantes.

O dia a nascer mais e mais e mais cedo, despedia-se na noite, um pouco e um pouco mais tarde. Os bem-te-vis tocam árvores ainda nuas e tímidas. Eles, generosos, não as deixariam solitárias.

Abria uma cortina de névoa, o Rei Sol. Humilde, o Rei Sol era humilde ao fim do Inverno. Humilde e silencioso. Tocando a Terra suave, para não despertá-la inteira. Apenas avisando da sua breve chegada com a Primavera.

Ainda não chegando, pousando nuvens, convidava brisa em espantar ventanias. Colorindo em lilases e ocre o entardecer em pincéis delicados. O presente pedia perfeição.

A Terra, feito noiva em dia de festa, arrumava-se toda, enviando pombas de boas novas, a todos convidando, a todos abraçar, dos mais belos aos mais tímidos, dos risonhos aos mais descrentes.

Porque a Esperança brotava nas sementes que Ariana obedecendo à Terra lhe plantava, e escavando, sujava mãos, mãos que não mais se importavam, ser Princesa, o nome que não iria desperdiçar.

Que viessem, o pai, Seu Jorge, e os irmãos. Porque os sabia a caminho. Não recebendo resposta e os sabia a caminho. O coração revelando, dizia o pouco que precisava agitado no peito.

Na doação que sabia, no Amor Perfeito, Amor sem querer nada em troca, apenas pelo simples e óbvio prazer de amar. Recebendo o suave calor dos braços. Porque amava.

O calor suavizando mágoas, envolvendo feridas, alisando cabelos pouco acarinhados, pois tão pouco pedia, um pouco, tal um copo de água mendigado e querido.

As palavras mais e mais áridas, porque nada se fala na plenitude. Esgotam-se os assuntos e permanece inebriada em um mar de bem-querer, suave mar, suave rio de venturas, a silenciosa paralisia da Felicidade.

Quer assim permanecer, por toda uma vida, não se permite o término de um ciclo. Deste modo deveria ser: um ciclo apenas. O início clamando pelo término antes mesmo de percorrer um meio de ser.

Passando da água para o vinho, do maior dos erros, egoísmo supremo, para uma caridade de querer seguir vida afora, inaugurando religião. Religião casada com a Verdade, a Verdade de Ariana ao centro.

A Verdade que descobria, cada momento, a cada nascer e pôr do Sol, semente florescida, girassol abrindo-se, tímido e corajoso, piscando pétalas em chamar atenções, um pequeno menino se mostrando.

Nem mais menina era, as dezesseis primaveras se aproximando e a Esperança, a doce Esperança em encontrar Amores que não foram vividos, na intensidade e dever. Porque se deve amar.

Motivo e missão de toda a vida da Princesa, se coroava por ter se descoberto, o Reinado que possuía no âmago mais que âmago e queria a todos os súditos entregar graças e dons.

Não se Reina sem a entrega. Entregando-se descobria luz e cor, enfeitando uma coroa de valores bons. Generosa, a Princesa, se doando fazia amigos, poderia abrir as janelas do quarto agora.

Não havendo mais medos, temores de feridas e encolhimentos de desconfianças. Ao cair, se assim fosse, sabia levantar-se, cabeça ao alto, se levantaria, insistente, se levantaria.

Uma loucura tonteava olhos e trazia aos lábios o mais aberto dos sorrisos. Sorriso de criança se fazendo mulher, dançando ao redor da Imperatriz desaparecida, que a entendia, pois era sábia.

A menina abrira os olhos e agora enxergava Vida e Amores. Estava pronta, a sua menina, a sua doce e pura Ariana, a suave e desiludida Mulher, a corajosa e insistente Princesa.

Joaninhas descobrindo verdades nos grãos da Terra que revelava segredos, nos passos miúdos sussurraram em sonho, e deixavam pegadas a serem seguidas no jardim de Ariana. Os passos leves e seguidos, leves e persistentes, não desistiam no caminho.

O caminho seco, sem rios para acarinhar, o Verão que se apresentava. Forte e seco. Porque das frutas se tirariam néctar e mel. Antes já foram regadas as flores das árvores frutíferas.

O suficiente para os que a procuravam, atravessando veredas que a Primavera deixara por bondade. Amiga de Ariana, a Primavera, também sabendo ser no Verão quando as mãos de Ariana estavam mais plenas.

Seu Jorge no cavalo Alado pousava o último passo. Seu Jorge sem os dragões da culpa e do juízo. As lágrimas secas e curandeiras da carta de Ariana, atravessando distâncias e se aquietando nas mãos do pai sempre amado.

O Amor nunca o abandonando. Nem com a partida de Ária, nem com a perda de Ariana, perda de um momento, instante celebrado nas quatro estações. Trouxera os filhos, varões que precisavam do carinho da Menina-Mulher.

Abrindo portões, cansados e pensantes, os portões se abrindo e deixando momentos não vividos, palavras não seladas, olhares não trocados, o suave dar-se de mãos.

Os abraços entre lágrimas, a mesa posta de alegrias no universo possível e utópico da Princesa. Que fez, construiu sem pedir licença, como se fosse possível apenas pedir à Vida.

A Vida lhe retribuindo. Por ter-lhe plantado Terra, regado flores, enamorado Sol, banhado Rios, respirado Aromas e sorvido Mares. Com o sal entre os lábios a dizer-lhe o sabor do mel.

Porque era preciso distinguir. Os bons dos maus momentos, as alegrias e tristezas vieram umas para engrandecer as outras, haveria sentido em possuí-las. As chuvas reconhecendo Sol. O Sol brilhante e vigoroso que os aquecia em abraços.

Traziam à mesa. Pães, doces em compotas. Frutas e vinho. O leitão assado, tanto teimara em comemorar. A chegada. A Família. Agora era uma Família, a Princesa Ariana, a Imperatriz e de repente…

Avistou Irmã Clara, seguira os passos dos amigos, a curiosidade empurrando hábito alvo e luminoso. Que mesmo em trincheiras perigosas temeu infortúnio. A sorte lhe sorrindo.

A memória envolvia a todos, nas orações, dádivas do Deus no qual acreditaram, procurando se esquecer das lembranças de Ária. Mas naquele instante nunca esteve tão presente. Unia a todos, os amigos, filhos e filha.

A filha salvadora, porque os salvara da maldição. A maldição de nunca descobrirem Amor Perfeito, Amor que dá e recebe, troca sem perceber e se adianta em mais ofertas.

As palavras livres em serem ouvidas e tocadas e acariciadas e tomadas para si, guardando um tesouro escondido e agora apresentado. Não mais temiam, sentir Amor no peito aquecido, sentir que o outro existe, olhar-se no espelho.

Um orgulho de ser apenas quem é, um orgulho mimado e doce. O mel lambendo lábios, os lábios brilhantes e delicados, agora palavras delicadas deles saíam e saltavam aos ouvidos sedentos de considerações.

O respeito era a única lei. Respeito às diferenças acertadas e resolvidas, as respostas às perguntas nunca feitas e dolorosas. O Silêncio não mais se fazendo presente.

Não fora traído, o Silêncio. No final do dia esperava, Ariana precisando manter Felicidade, guardar que não esvaísse mãos e dedos finos. Sábio Silêncio ensinando-lhe entrega, deixando ir a quem se ama.

As pombas deslizavam com o mais belo dos vôos, as lágrimas de Saudade de Ariana, Saudade pedindo que agarrasse com todas as forças e não permitisse despedidas. As pombas em mais um suave vôo rasante.

Iam e voltavam, as pombas. Sempre retornando, nas Primaveras e Verões. Nas celebrações da Vida. Família para sempre seriam e Ariana não mais duvidava. A Fé lhe estampando rosto sereno e em Paz.

Recolhendo pratos, copos e talheres bem postos, numa mesa bem posta. Pratos brancos enfeitados em corações vermelhos. A limpeza dos pecados e destinos deixando-a mais calma e sorridente. A hora da colheita chegando e precisava ser colhida.

Os ramalhetes se formando, aos poucos, lentos e fogosos, os ramalhetes das flores que a Princesa plantara, três estações se passaram, e completando Ciclo. As obrigações que ainda possuía. Não mais lhes reclamava.

Fechava os olhos e sentia aromas. Poderia saber, andando de olhos fechados por entre flores quais eram: Orquídeas, Jasmins e Bem-me-queres. Conhecia pelos nomes e corações em botão, quando em primaveras as plantara.

Nos Girassóis fez moradia. Encontrava Ária e seus segredos. Os mistérios da mãe, mistérios que eram desvendados a toda Menina-Mulher, ali entre flores tão amadas na Vida de quem lhe possuía.

Girando cabeça ao redor do Astro-Rei, flutuando ao encontro do trono da Rainha que se tornara, a Rainha descansando da jornada.  A missão de Amor Próprio antes de todos.

Ao mesmo Tempo a todos amando, ao mesmo e imediato Tempo. Que sorria invejoso, pois ela poderia permanecer e o Tempo passaria. Mesmo em idades, rugas que lhe marcavam rosto, o rosto da Rainha. Mesmo assim permanecendo em espírito.

As Joaninhas insistindo à procura do caminho, o Salgueiro onde Ariana sonhava. Porque não se pode sonhar sozinha. E o doce sorriso trazendo lembranças. O doce e tímido sorriso jamais roubado.

Não o querendo roubado: entregue de corpo e alma, coração e vontade. Para que assim eterno fosse. Tal eterno era sentimento que lhe restava, embora o Tempo insistisse em apagar pegadas. Pegadas de areias do Mar.

A brisa carregando perfumes tão conhecidos, perfumes de apenas segundos, minutos de encontro. Encontro que não imaginavam mais possuir, saudades do que não se tem.

Porque se pode sentir saudades do jamais vivido, saudades do nunca tocado, do sempre sentido, e guardado, escondido, e negado, possuído, e em toda e misteriosa alma presente.

Os olhos, meigos e preguiçosos, abriam-se os olhos da Rainha. A Rainha do Amor Perfeito que tanto sonhara, os sonhos se desfazendo em realidade sonhada, desejada, alcançada.

E entre os Beija-flores e Querubins, Sabiás e Bem-te-vis, Bem-me-queres e os Girassóis rodando e girando pétalas em reverência, no Jardim das Borboletas, exalando cores e Jasmins, anunciando, chegando… O Rei do Amor Perfeito.

As Joaninhas Não Mentem.

 

____________________________________

* Prêmio de Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convívio, da Itália, 2008.

** Patricia Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa (outubro de 2013). Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente (2014) se prepara para cursar o mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural. Contato: patriciatenorio@uol.com.br.

*** Sétimo e último capítulo de As joaninhas não mentem, Patricia Tenório, Editora Calibán, Rio de Janeiro, 2006.

Pequenas ficções CXXIV* | Clauder Arcanjo**

Para Aurélio Pinheiro

(In memoriam)

 

Dádiva

 

Chinelos de rabicho, óculos de arame, calças puídas, velho chapéu de couro sobre a barriga… vazia. Na rede do alpendre. Sozinho. Melhor: ele, o cachorro magro e suas pulgas.

Ao longe, anúncio da manhã. Na barra do dia, a força do verão, única dádiva na triste sina. Dele, do cão e… das pulgas.

 

***

 

Voo

 

Os olhos terrosos, em chama, a sonhar; pupilas voadoras. Pés rachados, cansados da terra, em desejo de novas aterrissagens, posse de campos, e céus, longínquos.

Asas utópicas, cativas dos novos horizontes.

De repente, a ousadia do pulo.

Em poucos segundos de voo, a visão telúrica da eternidade.

 

***

 

Interlúdio

 

Deu-me a paz mesquinha de meia hora. Na varanda da meia-noite.

Cuidei, então, de juntar os cacos de mim; reuni forças desconhecidas e mergulhei nas suas águas. Fundas, escuras, barrentas, tempestuosas… em pane de paixão.

Instantes depois, emerso das trevas, resfolegando desventuras, vi-me incredulamente vivo. Quiçá já morto de mim, silente na ribalta das ilusões.

Pouco depois, composto e refeito, suspirei por novo entreato, de remorso pela ressurreição.

 

Reflexão Domingueira CCLXXXVI

O nada do nada perguntou pela conta do infinito e verificou, na última prova dos noves, o resultado: noves fora nada. E mais nada.

 

Reflexão Domingueira CCLXXXVII

 

Se ele se propuser a ler todos os cânones literários, suspeita, nada mais surgirá da sua provinciana pena.

 

____________________________________________

Publicado em O Mossoroense, Mossoró-RN, em 09/02/2014.

** Clauder Arcanjo é escritor, poeta, editor. Contato:  clauderarcanjo@gmail.com

 

Tempo do quase nada* | David de Medeiros Leite**

A François Silvestre

 

Somos rebentos (que desgastam

as mãos da parteira),

expelidos por um tempo de frivolidade.

 

De um tempo

onde o ideal

– redundantemente utópico –

sucumbe a forças indolentes

causando náuseas

pelo apequenado

e  confuso  conhecimento.

 

De um tempo

ornado de pragmatismo

protótipos estereótipos

– pobres em efígies –

desalterando

corações serenos em selvagens.

 

De um tempo

que nos faz confundir

visões ampliadas

com  pororocas  humanas.

 

De um tempo

onde a  mansidão

transfigura-se em  birutas de ares revoltos

nos levando como papelote usado

por parecermos pouco ou quase nada.

 

_________________________________

Publicado em http://www.jairolima.org/#!david-de-medeiros-leite/c1ytf

** David de Medeiros Leite é escritor, poeta e editor. Contato: davidmleite@hotmail.com

A favor da independência feminina | Mara Narciso*

26 de janeiro de 2014

Tive uma amiga que foi minha fonte de inspiração para toda a vida. Tive, porque a perdi. Nasceu em 1920, e aos 13 anos trabalhava num escritório de contabilidade. Pasmem, era o ano de 1933, a minha mãe nem tinha nascido e ela já trabalhava em uma área tida, ainda hoje, como masculina. Os números atraem poucas mulheres, mas ela estava lá. O seu pioneirismo serviu para desbravar uma estrada difícil para nós que viríamos a seguir. Foi profissional brilhante, casou-se, teve quatro filhos, separou-se, venceu. Seu nome? Ismar Ferreira, grande mulher que perdi em 19 de junho de 2010, pouco antes dos seus 90 anos.

A minha mãe, Milena Narciso, formou-se em medicina aos 40 anos em 1974. Naquela época, ainda se formavam poucas mulheres na área médica. A revolução sexual já andava longe, mas ela era submetida à pressão masculina da qual, apenas muito depois, conseguiu se desvencilhar. Foi outra mulher que deu força às suas contemporâneas e descendentes. Dia 28 de janeiro completa-se 11 anos que ela partiu.

O que nos restou, mulheres nascidas na segunda metade do século passado? Quando a situação aperta, lembramos em como as nossas avós foram felizes em suas medíocres vidas, entre a cama e o fogão. Precisavam servir, atender e obedecer aos seus maridos infieis, estar grávidas por quase todo o tempo da juventude, que poderia ir dos 15 aos 45 anos, e gerar de 10 a 20 filhos, às vezes mais, como minha bisavó Florisbela de Souza Lima que teve 24 filhos. O grande problema era ter força física para lavar, passar, arrumar, cozinhar, costurar, olhar um monte de menino, amamentar, e algumas também cuidar da roça. No geral, era preciso suportar a indiferença e infidelidade do marido, fatos institucionalizados. Eram desconsideradas como pessoas pensantes.

A mulher de hoje é livre, autônoma e independente, mas nem sempre respeitada em sua individualidade. Quando se fala em Dia Internacional da Mulher, que eu detesto, ou Delegacia da Mulher, se pensa que homenagens e proteção adicional poderiam ser desnecessárias para a mulher atual, dona da sua vida e do seu destino. Mas, não são. As casadas, mesmo que neguem, precisam passar pelo crivo dos seus maridos, em vários aspectos, especialmente do ponto de vista profissional, senão o casamento acaba. As divorciadas, mesmo as independentes financeiramente, como boa parte delas realmente é, acabam, mesmo sem permitirem, sendo sabatinadas e julgadas por amigas e parentes nas suas decisões e ações. Cortam amarras a facões, mas continuam ligadas ao veto, à crítica, ainda que protestem, não levem em conta e desprezem tais opiniões. No final continuam sentindo-se analisadas e de alguma forma conduzidas por quem acha que é de direito opinar.

Quem conta uma história pessoal, abre a guarda e, indiretamente pede palpite. As pessoas comuns dão suas opiniões e fazem suas restrições, mesmo quando não solicitadas. Então as amizades azedam. Nesse particular, mesmo nas grandes cidades o cerco continua mais suave em relação aos homens. Julgamentos quanto à aparência física, trabalho, condutas sociais ou sexuais são mais benevolentes com o gênero masculino. Dificilmente se exige do homem alguns cuidados físicos, além da higiene. O cabelo branco, a flacidez, a barriga grande, a ruga, são tradicionalmente mais tolerados no homem que na mulher. Pouco se diz se um homem troca constantemente de namorada. Ter prejuízo financeiro para a mulher foi burrice, para o homem foi contingência. A mulher, mesmo a discreta, por mais que sapateie, terá sua vida devassada, analisada, comentada, principalmente pelas outras mulheres. Nesse detalhe, as redes sociais escancararam a vida de todos. Não quer se mostrar – e boa parte quer – então não crie um perfil, pois, num clique se pode saber muito mais do que você quer deixar ver. As ideias, conexões, imagens, o que é comentado, os temas que lhe despertam maior interesse, levam o outro a deduzir coisas, criar uma imagem que pode não ser a que você gostaria que circulasse. Ainda que repita o mantra “eu não estou nem aí para nada”, está sim. Então, por que se exaspera diante de uma reles opinião oposta a sua, a ponto de deletar e bloquear um contato? Pessoas, que tal crescer?

Ao homem ainda se permite mais liberdade do que à mulher, por mais que as jovens e mais modernas neguem. Não, não quero ser como os homens. Quero ser mulher feminina, forte, resistente, que possa chorar quando a dor for grande, e, principalmente quero ser livre para as tomadas de decisões. Quero ser autônoma, estudar e aprender, errar e acertar, trabalhar e vencer, ser mãe, amar, ser feliz e infeliz, e nunca ter de me arrepender de nada, nem por ter sido, nem por ter feito, muito menos por ter quebrado a cara, pois quebrar a cara também é viver. E o mais importante, que eu não precise ter alguém ao meu lado para ser respeitada. Estar só pode ser uma opção, e não uma declaração de incompetência. Ao homem, isso nunca é cobrado.

O que não quero? Que se façam deduções baseadas em metade da verdade, pois a verdade é uma só, e é inteira.

____________________________

* Mara Narciso é escritora e médica. Contato: yanmar@terra.com.br

Convite | “Época de morangos”, de Rafaella Vieira

Convite-Epoca-de-morangos_eletronico

 

Sobre o livro:  “Época de morangos” é a saga de dois adolescentes que buscam ser felizes ao lado do verdadeiro amor, que nasce à primeira vista e parece durar para sempre. É em um passeio a um campo de morangos maduros que esse amor é selado, e o fruto torna-se o símbolo dessa possibilidade de viver a paixão em sua plenitude.

Páginas: 320

Editora: Gutenberg

 

http://grupoautentica.com.br/gutenberg/livros/epoca-de-morangos/1011

www.rafaellavieira.com.br