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Índex* – Janeiro, 2014

Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus:

tempo para nascer, e tempo para morrer;

tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado;

tempo para matar e tempo para sarar;

tempo para demolir, e tempo para construir;

tempo para chorar, e tempo para rir;

tempo para gemer, e tempo para dançar;

tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las;

tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se. 

Tempo para procurar, e tempo para perder;

tempo para guardar e tempo para jogar fora;

tempo para rasgar e tempo para costurar;

tempo para calar, e tempo para falar;

tempo para amar e tempo para odiar;

tempo para a guerra e tempo para a paz.

(Eclesiastes 3, 1-8)

O Tempo de ser maior que o Tempo no Índex de Janeiro de 2014 no blog de  Patricia Tenório.

“D’Agostinho” | Patricia Tenório (PE-Brasil).

Resenha “A outra obscuridade”, Luis Raúl Calvo (Argentina) – Jornal de Hoje (RN-Brasil).

Poemas de Juçara Valverde (RJ-Brasil).

Fotografias e Poemas | Nataercia Rocha (CE-Brasil).

Poética | José Rodrigues de Paiva (Coimbra-Portugal/PE-Brasil).

Poemas de Iacyr Anderson Freitas (MG-Brasil).

Agradeço a contribuição de todos e todas, a próxima postagem será em 23 de fevereiro de 2014, um grande abraço e até lá,

Patricia Tenório.

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To everything there is a time, for every thing there is a moment under the heavens:

time to be born, and a time to die;

a time to plant, and a time to pluck what is planted;

time to kill and a time to heal;

time to tear down and a time to build;

a time to weep, and a time to laugh;

time to wail and a time to dance;

time to throw stones, and a time to gather them together;

time to give hugs, and time to pull away.

Time to search and a time to lose;

time to keep and a time to throw away;

time to tear and a time to sew;

time to be silent and a time to speak;

time to love and a time to hate;

time for war and a time for peace.

(Ecclesiastes 3​​: 1-8)

 

The Time to be bigger than Time  in the Index of January, 2014 in the blog of  Patricia Tenorio.

 “D’Augustine” | Patricia Tenorio (PE-Brasil).

Review “The other dark”, Luis Raúl Calvo (Argentina) – Jornal de Hoje (RN-Brasil).

Poems from Juçara Valverde (RJ-Brasil).

Photographs and Poems | Nataercia Rocha (CE-Brasil).

Poetics | José Rodrigues de Paiva (Coimbra-Portugal/PE-Brasil).

Poems from Iacyr Anderson Freitas (MG-Brasil).

I appreciate the contribution of each and all, the next post will be on February 23, 2014, a big hug and until there,

Patricia Tenorio.

 

Foto Índex Janeiro 2014

**

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Um novo Tempo, um novo Dia, Boa Viagem, PE-Brasil. Another Time, another Day, Boa Viagem, PE-Brasil.

“D’Agostinho”* | Patricia Tenório**

Capa de Dagostinho - Patricia Tenório

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“A partir dos estudos de Confissões, de Santo Agostinho, procurei refletir poeticamente ou poetizar filosoficamente. Através das imagens agostinianas, fizeram-se eco partículas cintilantes de luz, reminiscências que eclodiram em forma de poesia.”

 

QUEDA LIVRE

 

 

Permaneço quieto

Diante do assombro

Primo

A escuta dos olhos

Abertos

Atentos

Ávidos

Desmesuro em mim

Tua sabedoria

Inquieta

Tangente

Perambulando os limites do corpo

Acariciando as paredes da alma caio

Profundo

Calmo

Quieto

O perigo me ronda

Na escuta dos olhos

Abertos

Atentos

Ávidos

 

 

O TEJO-PODEROSO

 

 

No rio Tejo

Corto caminho

A um lugar seguro

Agarro as margens

Como se fosse isca de anzol

Como se fosse peixe de pescar

Como se fosse haste de bambu

 

Carrego nos ombros

O mundo inteiro

Como se fosse Deus Todo-Poderoso

Como se fosse bicho que não teme

Como se fosse homem que não sofre

 

Volto às margens

Como se nunca tivesse nascido

Como se sempre soubesse quem sou

Como se não houvesse a morte

 

PALAVRA

 

 

O silêncio diz

 

Eu te respeito

Eu te saúdo

Por favor

Me ajude

 

Não

Sim

Talvez

 

Pode seguir caminhos tortos

Pode levar à beira da escuridão

Por mais que diga

O silêncio cala

Por mais que cale

O silêncio expande

 

O silêncio diz

 

O que deveria ser escondido

E por trás da cortina de veludo

Provar a essência

Do que é

Palavra

 

DELFOS

 

 

Procuro a verdade

Nas vírgulas dos livros

Nas pausas do tempo

No canto mais limpo

No som mais agudo

Na cor mais brilhante

 

Procuro a verdade

No peito que arde

Na lágrima que rola

No sal dos meus lábios

No beijo que cala

 

Procuro a verdade

Na face que mostra

Na dor que palpita

Na tua palavra

No silêncio

Do meu coração

 

PEGADAS

 

 

No texto que leio

No beijo selado

Na mão que me estendem

No pão repartido

 

No dia brilhante

No sopro do vento

Na fruta macia

Colhida no pé

 

Pegadas na areia

Desenhos no gesso

Desenhos na lua

Estrelas contadas

 

Por mais que me esquive

Estão todos

Ali

Outrora

Num fio de tempo

Chamado presente

 

D´AGOSTINHO

 

 

Os lábios sussurram beijos

De um beija-flor

Assustado com os próprios olhos

Nas pétalas do girassol

Girou em si

E não percebeu

O pôr do sol longínquo e reticente

 

Às margens de mim

Persigo a imagem

Do que fui um dia

Para beber da sabedoria

Na audácia de uma criança

 

Cubro-me em púrpura –

Desvendar olhos alheios

E fazê-los enxergar o que em parte sinto

Mas bato o pó das sandálias

E caminho até a eternidade

 

ESCARLATE

 

 

Dá-me a luz da espada

Para devastar a imensidão do teu saber

Alargar nos limites da ignorância

A tentativa de saber quem és

Saber quem sou

Saber por quê

Saber para quê

 

Diz-me uma palavra e calo

Permanecerei séculos a auscultá-la

Poli-la

Pensá-la

E num dia cor de cinza

Uma fagulha escarlate

Em mim se revelará

 

BAIRRO DAS LARANJEIRAS

 

 

Refrão:

Naquele tempo

Um atrás de você foi indo

Na solidão

Resolveu colher

Uma atrás da outra laranja

Na contramão

 

Pães, peixes

Índios partidos

Na multidão

 

Nem ouse

Não sonhe

Quebrar minha bacia

Parideira de cobras

Ratos

 

Pensar por si

Não é o mesmo

Que pensar

Somente em si

E você caiu

Uma vez

Atrás da outra

Nos seus pecados

Sem saber

Sem arrepender

Quando soube

Pela primeira

Pela segunda

E na terceira

O galo cantou

Anunciando a encruzilhada:

Bem aventurado o simples

Porque será perdoado

Bem aventurado o humilde

Porque em seu coração

Farei reinado

 

Refrão:

Naquele tempo

Um atrás de você foi indo

Na solidão

Resolveu colher

Uma atrás da outra laranja

Na contramão

 

ESPÍRITO SANTO

 

 

Augusta angústia

Me move

Inquieta

Se espalha

Da cabeça aos pés

Esbarra

Na incompletude do ser

Na incapacidade de amar

Na ignorância da luz

Me move

Inquieta

Se espalha

Da cabeça aos pés

Repousando armas

Suspirando aromas

De bem-me-quer

Suave

Fresta de um outro mundo

Onde o espírito se aquieta

 

 

CREPÚSCULO

 

 

Cai na terra

Seca

Plana

Insípida

Gotas de orvalho

Calmas

Lentas

Úmidas

Ao meu redor

Borboletas

Cores

Vida

Além da vida

Bem e mal

Caminhos e escolhas

Que não fiz

Não quis

Não fui

Nas veredas

Entremeei palavras

Castas

Curtas

Crentes

De um outro sol

Outra aurora

Outro ser em mim

 

SÃO PAULO

 

 

Quando tua luz aplaca meus sentidos

Sinto despir-me

De máscaras e vaidades

Podes ver-me por inteiro

Com falhas e virtudes

E gosto do que vejo

 

Vejo alguém fraco

Que se transforma com o teu poder

Que escala montanhas

De ódio

Rancor

E alcança o ápice do perdão

 

Tu és minha bandeira

Que empunho

E sou mais forte

Mais Tu

Menos a mim

 

Abandono e ultrapasso

A vida que me destes

 

CARA OU COROA

 

 

Nas palavras não ditas

Revelei

No grito contido

Na faca cortando

A carne

As veias

Estancando furor

Aplacando brilho nos olhos

O secar da boca

 

No engasgo da luz

Te permiti crescer

Trouxe à tona

Os bens preciosos

A cara

A coroa de espinhos

É minha

A glória do nome

É teu

 

O DOM E O FRUTO

 

 

Com

A mais bela rosa

Risco

O teu corpo nu

Beijo

Cada uma das células

Latejantes

Incongruentes

 

Entrego

Em taça dourada

O néctar do desejo

Antigo

Ancestral

Em que tu em mim farias

Gruta úmida e rara

Para apagar dos pecados

A solidão solícita

 

Do meu ser

Tens o inteiro

Cada margem

Cada escuta

E podes

Se apropriar do que digo

 

AVERRÓIS

 

 

Salta

A curva dos teus olhos

Na órbita oculta

Dos sonhos alheios

 

Cala

A pérola preciosa

Entre o ser

E a aparência

Entre a casa

E a viagem

 

Conto

À minha maneira

Penso

Pelo avesso

Abranjo

O outro lado

 

Vivo

Indiferente

Ao que as pessoas pensam

Independente

Do que me farão

Impaciente

Do que me aguarda

 

 

A FILHA PRÓDIGA

 

Cansaram

As palavras repetidas

O saber infundado

A experiência alheia

 

Procuro

A paz de um instante

Acolhida na fé

Doce

Paciente

 

O ninar da criança

Nos braços

De pai e mãe

Fim de recomeço

Poeira batida

Olhar no horizonte

Brisa de outono

Ao som da primavera

 

Aqui estou

Ele se glorifica

Na minha passagem

 

LA ISOLA

 

 

Daquela matéria fui feita

Daquela matéria amada

Nem por mim

Nem por ninguém

De um nada

Me encontro

E pronto

Eu me vejo só

 

Sobre os rochedos

Nas cachoeiras

Abrindo passagens

Entre as sereias

Visgo cantante

Cor de arco-íris

Que no céu acaba

Não me deixa

Potes

Toques de Midas

Apenas entardecer

E incerteza

 

Finco o pé

No âmago

No abismo

No nada

Em que me encontro

E pronto

 

Eu me vejo só

 

 

 

_________________________________

Extraídos de D’Agostinho, Patricia Tenório, Editora Calibán, Rio de Janeiro, 2010.

** Patricia Tenório é escritora desde 2004.  Escreve poesias, romances, contos.  Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Acaba de receber o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançar em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa (outubro de 2013). Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente (2014) se prepara para cursar o mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural. Contato: patriciatenorio@uol.com.br.

Resenha “A outra obscuridade”, Luis Raúl Calvo – Jornal de Hoje – RN

Cultura 15_01_2014

 

Enviado por David Leite:  davidleite@hotmail.com

Poemas* de Juçara Valverde**

MÃE TERRA

 

Sou terra nua e crua

Sedenta das águas

de minhas entranhas.

 

Venço a crueldade nutrindo

a fome das bocas vazias.

Liberto sementes para

alimentar o futuro.

 

Subjugo a vergonha das diferenças

na busca do tempo da temperança

da amizade.

Intolerâncias e indiferenças

não encobrem

no meu horizonte

a esperança.

 

 

DESFAVORECIDO

para Laura Esteves

 

Saí da casa de Laura

feliz como o vento.

 

Apenas a poesia

a dominar meus pensamentos.

 

Sapatos batucando

nas pedras portuguesas de Copacabana.

 

O mudo me chamou

no corpo na calçada

coberto até a cabeça pela manta.

 

Diminui o passo cautelosamente

e pé ante pé deixei que o silêncio

permitisse o sono

 

de quem sem proteção

vivia

mais uma noite fria.

 

NÃO À VIOLÊNCIA

 

Quero proteger suas mãos com as minhas.

Encobrir o vento com meu corpo.

Fazer da palavra a defesa necessária.

Percorrer caminhos em busca da verdade.

Ir além perseguindo o presente.

Sonhar com o amanhã.

Trafegar na liberdade do tempo.

Ser poente ensolarado.

Não esquecer a música da chuva

a bruma da manhã.

Relembrar a vida que brota dia a dia na terra.

Sementes que germinam lentamente no seu tempo

Ver a colheita florescer.

Colher.

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Extraídos de Ralo Urbano, Juçara Valverde. Rio de Janeiro: Oficina, 2011.

*Juçara Valverde é medica, poetisa, artista plástica. Contato: jucvalverde@gmail.com

Fotografias e Poemas* | Nataercia Rocha**

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ar

 

As forças diminuem

Enquanto penso em desistir.

Corpo pesado

Mente lenta

Dores fortes.

Mergulho profundo

Mas não me afasto da superfície.

Peço ajuda

E os sinais rareiam.

Nado em desespero

Respirando sem consolo.

Alma machucada

Espírito dorido.

Desejo encontrar a entrada

E emergir daqui.

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cativos

 

 

Deixo seguir a vida

Esquecendo a realeza

Que sublima desejos

Em calabouços sem misericórdia.

Castigo o corpo e puno a alma

Enquanto olho, sem ver,

A liberdade que ficou por vir.

Refaço cortes profundos

Que sangram até a morte.

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ausente

 

 

Saio de cena e te ofereço o tempo da escolha

Entro na estrada e me concedo a extensão da liberdade.

Arbítrios sem árbitros

Armagedons

Para amar e armar os dons

Desço do tablado e caminho rumo ao infinito

Subo no muro

E observo a suspensão nos Jardins da Babilônia.

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*Extraídos de Rumo Norte, Nataercia Rocha, 2ª edição. Fortaleza – CE, 2011.

** Nataercia Rocha é formada em Jornalismo pela Universidade de Taubaté, São Paulo. Repórter do Caderno 3 do Jornal Diário do Nordeste fez parte da segunda turma da Escola de Dramaturgia do Museu da Imagem e do Som (MIS) na década de 90, sob a direção do cineasta Orlando Senna. Contato: nataerciarocha@gmail.com

Poética* | José Rodrigues de Paiva**

Para Maria da Conceição Rodrigues

 

            A mais remota lembrança que tinha de qualquer propensão para a Arte datava da infância. Perguntara-lhe o pai, certa vez, o que é que ele queria ser quando crescesse. Procurou nas poucas opções de que provavelmente teria ouvido falar nas conversas das pessoas grandes e disse resoluto:

 

– Engenheiro.

 

O pai gostou e disse:

 

– Então é preciso que te comeces a preparar desde já. Toma estas folhas de papel e vai projetando aqui as casas e edifícios que vais construir quando fores engenheiro.

 

Aquela, e muitas outras tardes, o menino as gastou desenhando dezenas de edifícios tortos, cheios de pequenas janelas quadradas. Arranha-céus imaginários de uma cidade de papel. Mas não havia entusiasmo naqueles desenhos sem vida. Cidade fria, fantasmagórica… Não, não a construiria. O pai via os desenhos e falava-lhe com ar aprovador, embora acabasse sempre por dizer que era preciso melhorá-los. Cidade fantástica da minha imaginação. Não te construirei jamais. Não levantarei dos teus prédios pedra sobre pedra. Não cruzarei as tuas ruas tortas projetadas pelo lápis da infância sobre o papel do tempo…

Viu mais tarde, já abandonado o projeto da engenharia por absoluta falta de vocação e crescente incapacidade para as matemáticas, um grupo de moças e rapazes carregando cavaletes e telas, tintas e pincéis, procurando, cada qual, lugar adequado para se instalar, já escolhido o ângulo predileto da paisagem. Tinham vindo num ônibus que fora estacionado embaixo das grandes árvores à beira do açude. E, junto à água alguns, outros mais distantes, uns interessados em captar alguma coisa do outro lado, para além da extensão da água, outros mais atentos em observar a massa sombria das árvores da mata de que se via um pedaço ao fundo da outra extremidade do açude, todos se foram acomodando. O ônibus tinha o letreiro de uma escola: Belas Artes. O grupo, barulhento ao chegar e enquanto descarregava os equipamentos, silenciou, disperso, concentrado cada um na sua tarefa. De uma distância plausível o menino via os movimentos que faziam, manejando pincéis, espremendo bisnagas, misturando cores com a espátula, e maravilhou-se de puro encantamento quando viu surgir, lentamente, do nada que eram as telas, formas, volumes, sombras, cores, brilhos da paisagem que se transferia do mundo para aqueles retângulos em que cada um mergulhava, aplicado e atento como num ritual. Gestos da maravilha ou do milagre. Também ele os queria fazer, e, dias depois, empunhava uma pequena paleta com porções de tinta de aquarela e ia acumulando no seu quarto diversos retângulos de cartolina para onde lhe pareciam que estava transportando o mundo ao seu redor. Quando verificou que a paisagem se esgotava como possibilidade de pintura, diversificou a dimensão da sua arte pintando sobre azulejos, já com outras tintas e outras “técnicas” e associou a imaginação à observação livresca para encher mais folhas de cartolina e azulejos com pagodes chineses, coqueirais, velhas caravelas de descobridores aproximando-se das terras do mistério.

Mas um dia, eis que lhe surge um novo encantamento, um novo apelo da Arte ao espírito onde ela habita ou deveria habitar: ouviu, na velha casa onde morava, uma música que se evolava suavemente de algum instrumento que alguém tocava ali por perto. Atinge-o a música, a harmonia dos sons, o mistério da invisibilidade do músico e do seu instrumento, a suavidade triste da valsa lenta que segue devagar, pelo espaço até a desaparição dos sons. Quem toca, tão docemente, num acordeom invisível, numa tarde de domingo que termina, o encanto da valsa? Quem vem embalar com a suavidade da Berceuse, que só mais tarde saberias ser de Brahms, o adormecer do dia?

E logo o menino quis também um instrumento. Pediu-o ao pai, que então lhe disse que, com certeza, ele não tinha vocação nenhuma para a música, porque se a tivesse já teria feito uma flauta do caule de um bambu. Mas deu-lhe o instrumento e ele aprendeu a tocar, mergulhado cada vez mais no encantamento dos sons. Schubert, Mozart, Liszt, Brahms da inocente Berceuse, gênios encantados da Arte. Tocar como eles, sonhar ser um deles. Mundo da fantasia mágica, da aspiração, do sonho, do imaginar-se em breve transfiguração de luz.

Ô música do meu encantamento, permaneceste no menino para sempre, mesmo depois de guardado o instrumento, quase definitivamente, quando ele foi substituído pela palavra, pela poesia, arte também de sons e cores a certa altura descoberta como real e verdadeiro apelo do mais profundo ser, ocupando esse lugar de privilégio. A mãe, que gostava de o ouvir tocar, queixava-se:

 

– Abandonaste a música… Nunca mais tocaste nada. Agora só lês e escreves…

 

Mas ele não tinha abandonado a música. Transfigurara-a, apenas, na arte da palavra, arte integral em que se busca a harmonia entre os sons e as cores, o ritmo e as imagens, o andamento adequado à cadência do estilo, o corpo do texto ao espírito que nele deve estar.

 

Por isso continuas a ouvir todas as noites, enquanto escreves em busca do poema nem sempre fácil, nem sempre exatamente dado pelos deuses, os magos do teu distante e infantil encantamento. E são eles, com a sua Música infinita que paira para muito além da dimensão do tempo, que algumas vezes te vêm dar a palavra que queres, a imagem necessária e uma vaga melodia de que precisas para o teu poema. E lá, na antiga casa, que já não é a mesma do despertar da infância para a Arte, tua mãe guarda ainda, embora desafinado e velho, esse pobre instrumento, de onde, quem sabe, um dia, se precisares purificar o coração, voltarás a tirar os sons da Berceuse e adormecer com ela os sonhos que não pudeste realizar.

 

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Extraído de As águas do espelho, José Rodrigues de Paiva. Prefácio: Lourival Holanda. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2008.

** José Rodrigues de Paiva, poeta e ensaísta, nasceu em Coimbra, Portugal, em 1945. É professor de Literatura Portuguesa do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco. Contato: rodriguespaiva@uol.com.br

Poemas* de Iacyr Anderson Freitas**

O NÚMERO DA DOR

 

Tão de leve principia

que em nada, quando começa,

lembra o calor de seu dia,

armado de tanta pressa.

 

Armado de nervos, quinas,

um ardor de mil arestas,

capaz de aguçar esquinas

no inferno de suas festas.

 

Inferno puro: sem mais

entendimento que o guarde

– livre de incêndios e sais –

na memória, cedo ou tarde.

 

Ali se impõe, bem ali

ostenta sua oficina,

como um cego que sorri

do zero em sua retina

 

e outros zeros cultivasse

no vão dos ossos, na pele,

em cada curva da face,

antes que o tempo revele

 

que é todo feito de zeros

mesmo o maior dos embates,

a própria vida, seus meros

e minúsculos engates.

 

EXÓRDIO DA SERPENTE

 

Surpreende-se a serpente

em cada naco de frase.

Ora vagando, urgente,

ora fixa em sua base.

 

Palmilha de leve a fronte

para adubar o terreno.

Crava as estacas da ponte

Que a salvará do veneno

 

(pois que a si mesma se priva).

Que essa serpente bem sabe

do risco de estar cativa,

ao sabor de velhos sabres.

 

De seu princípio, que é quando

o próprio espaço vacila

e de leve vai trilhando

um calvário posto em fila,

 

de seu princípio, talvez

a indesejada das gentes

não guarde duas ou três

miragens, mas a serpente

 

desconhece quem a guarde

em cada fração de frase.

Fustiga-lhe a mesma tarde,

como um sol que nunca atrase.

 

COLAPSO

 

Age o veneno no instante

em que se esvai toda imagem.

Nem gume nem mar: adiante

É dor a menor aragem.

 

Dor funda, intransitiva,

capaz de entranhar na face,

deixando-a em carne viva,

mas não há sangue em seu passe:

 

só o vermelho em metades

– de um rubor que mal renasce –

acusa o rol das herdades

que se envolvem nesse enlace.

 

Do veneno, apenas dor

(onde era memória) resta.

E esquiva, por onde for,

tal dor será fel e festa.

 

Festa para seu prazer:

para a própria dor, somente.

A ninguém basta entrever

O quanto pode a serpente.

 

O quanto pode a palavra

que o condenado carrega.

O mineral em que lavra

sua cartilagem cega.

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Extraído de Ar de Arestas, Iacyr Anderson Freitas, Fotografias: Ozias Filho. 1ª Edição. São Paulo: Escrituras Editora, 2013.

** Iacyr Anderson Freitas nasceu em Patrocínio do Muriaé, Minas Gerais, em 1963. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Juiz de Fora, o poeta obteve também, pela mesma instituição, o título de mestre em Teoria da Literatura. Publicou diversos livros de poesia, ensaio literário e prosa de ficção, tendo recebido várias premiações no Brasil e no exterior. Contato: iacyrand@gmail.com