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Índex* – Novembro, 2013

Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei. Sim, porque tu eras dentro de mim e eu fora ali te procuravas.

Desta forma, me jogava sobre as belas formas da tua criatura. Eras comigo, e eu não era contigo.

Me tinham longe de ti as tuas criaturas, inexistentes se não existissem em ti.

Me chamastes, e o teu grito abriu meus ouvidos; brilhastes, e o teu esplendor dissipou a minha cegueira;

difundistes a tua fragrância,  respirei e aspirei o teu encontro, degustei e tenho fome e sede; me tocastes, e eu queimei pela tua paz.

 (Livre tradução minha do italiano de trecho das “Confissões” de Santo Agostinho, Livro X, 27, 38)

 A Beleza antiga e tão nova no Índex de Novembro, 2013 do blog de Patricia Tenório.

Revisitando Patricia Tenório (PE-Brasil) com O príncipe, de Maquiavel | Uma leitura de Patricia Tenório, de Março de 2012.

Poemas de Stella Leonardos (MA/RJ – Brasil).

O retorno inglório da prima perdida | Chantal Lafaye Frazão (França/AL-Brasil).

Poemas de Luís Augusto Cassas (MA-Brasil).

Voyage au désert | Isabelle Macor-Filarska (França).

Gravuras de Almandrade (PR-Brasil).

A próxima postagem será em 29 de Dezembro de 2013.

Obrigada pela participação de todos.

Até breve,

Patricia Tenório.

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Index* – November, 2013

 

Late have I loved you, Beauty so old and so new, late have I loved you. Yes, because you were inside me and I were looking for yourself out there.

Thus, I threw me on the beautiful shapes of your creature. You were with me, and I was not with you.

Your creatures had me far away, they were nonexistants if they weren’t existing on you.

Have called me, and thy cry opened my ears; you shined, and thy splendor dispelled my blindness;

you disseminated your fragrance, breathed and aspired finding you, tasted, and I have hunger and thirst; you touched me, and I burned for your peace.


  (Free translation from italian to portughese and from portughese to english of a stretch of St. Augustine’s “Confessions,” Book X, 27, 38)

 

Beauty so old and so new in the Index of November, 2013 in the blog of Patricia Tenório.

Revisiting Patricia Tenório (PE-Brasil) with The prince, from Maquiavel | One lecture from Patricia Tenório, March, 2012.

Poems from Stella Leonardos (MA/RJ – Brasil).

The inglorious return from the lost cousin | Chantal Lafaye Frazão (França/AL-Brasil).

Poems from Luís Augusto Cassas (MA-Brasil).

Journey to the desert | Isabelle Macor-Filarska (France).

Prints from Almandrade (PR-Brasil).

The next post will be on 29th, December, 2013.

Thank you for the participation.

See you soon,

Patricia Tenório.

 

 Sto-Agostinho-Volterra

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Em uma Igreja de Santo Agostinho em Volterra, Itália. In a Saint Augustine’s Church in Volterra, Italy.

Revisitando Patricia Tenório* – Novembro, 2013

Nesta edição, revisitamos “O príncipe, de Maquiavel | Uma leitura de Patricia Tenório”, de Janeiro de 2012.

Link permanente:  http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3164 

 

O príncipe, de Maquiavel | Uma leitura de Patricia Tenório

 

 Há quase 500 anos, um homem escreveu um dos maiores tratados sobre a guerra e a manutenção do poder. Em carta endereçada a Lourenço de Médicis, Nicolau Maquiavel sugere estratégias militares e políticas para induzir o príncipe a unificar a Itália.

            Maquiavel foi criticado, exilado e perseguido pela Igreja Católica. O tratado, originalmente intitulado De Principatus (Dos Principados), pode ser visto pelo âmbito contextual da época em que Maquiavel desejava retomar o posto que ocupava e do qual foi destituído. Mas, se observarmos com maior atenção, os princípios vão além da ética ou mesmo da imoralidade com que foi considerado: há verdadeiras revelações e exposições da natureza humana.

            Se utilizarmos Dos Principados como código de conduta quanto à proatividade/coragem, humildade e prudência, podemos desfrutar de lições verdadeiramente preciosas. Vejamos alguns casos:

Proatividade/Coragem:

            “(…) uma guerra não evita-se mas protela-se, e nunca em seu próprio favor. (…) o tempo tudo arrasta consigo (…) não se deve jamais dar livre curso a uma desordem para esquivar-se a uma guerra, porquanto esta não se evita mas adia-se em detrimento próprio.” [1]

Prudência:

            “… aquele que promove o poder de um outro perde o seu, pois tanto a astúcia quanto a força com as quais fora ele conquistado parecerão suspeitas aos olhos do novo poderoso.” [2]

Humildade:

            “… o homem prudente deverá constantemente seguir o itinerário percorrido pelos grandes e imitar aqueles que mostraram-se excepcionais, a fim de que, caso o seu mérito (virtù) ao deles não se iguale, possa ele ao menos recolher deste uma leve fragrância…” [3]

            Não se trata de enxergar o bem onde não existe, mas de constatar que o bem ou o mal são escolhas – contínuas – que consolidam um caráter à medida que são tomadas, para um caminho ou para o outro.

            Tragamos à luz dois outros textos, aparentemente distintos, que corroboram esse pensamento. Santo Agostinho em suas Confissões nos revela:

            “Também pude entender que são boas as coisas que se corrompem. Se fossem sumamente boas, não poderiam se corromper, como tampouco o poderiam se não fossem boas de algum modo.” [4]

E

            “… adaptados à parte inferior de tua criação, com a qual também os maus se assemelham, tanto mais quanto mais diferem de ti [Deus], assim como os justos se assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a ti [Deus].” [5]

            Em O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde confessa:

            “– Eu gostaria de poder amar (…) Mas parece que perdi a capacidade de sentir paixão e esqueci o desejo. Estou por demais concentrado em mim mesmo.” [6]

Ou

            “Teria sido apenas a vaidade que o fizera cometer sua única boa ação? (…) Ou a paixão de representar um papel que, às vezes, nos leva a fazer coisas mais belas do que nós?” [7]

            Sem querer fazer apologia do mal nem sustentar o poder a qualquer custo, O príncipe nos força a enfrentar a própria imagem no espelho e retirar a máscara da falsa bondade. Oscar Wilde nos adverte:

             “Os livros que o mundo chama imorais são os livros que lhe mostram sua vergonha.” [8]

            Maquiavel nos aconselha a preservação da espécie, o estabelecimento dos limites, a imposição do respeito que, desde a mais tenra idade, é preciso incutir no ser humano.

            “… os homens, afinal, atentam contra os outros homens ou por ódio ou por medo.” [9]

(…)

            “Crueldades proveitosas (se é lícito tecer elogios ao mal) pode-se chamar aquelas das quais faz-se uso uma única vez – por necessidade de segurança –, um uso no qual não mais se insiste e cujos efeitos revertem tanto quanto possível em favor dos súditos.” [10]

(…)

            “O mal, portanto, deve-se fazê-lo de um jacto, de modo que a fugacidade do seu acre sabor faça fugaz a dor que ele traz. O bem, ao contrário, deve-se concedê-lo pouco a pouco, para que seja melhor apreciado o seu gosto.” [11]

            Mas a maior lição que podemos apreender de Maquiavel é a confiança em si. Contar consigo apesar da crítica alheia, apesar dos dons e talentos que aos outros pertencem: usarmos o que nos é próprio.

            “Quando Davi foi à presença de Saul oferecer-se para lutar contra Golias – filisteu que desafiara-o –, Saul, na intenção de encorajá-lo, passou-lhe a sua própria armadura. Davi, após tê-la vestido, recusou-a, alegando que com ela não poderia valer-se das suas próprias forças, preferindo ir ao encontro do seu inimigo armado com a sua funda e com a sua faca. Numa palavra, a armadura de um outro, ou ela te cairá dos ombros, ou pesará demais sobre eles, ou te comprimirá.” [12]

 

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Obs.: Os trechos aqui retirados dos livros não foram revisados. Respeitou-se as respectivas traduções.

(1) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, pp. 15 e 18.

(2) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 19.

(3) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 26.

(4) Confissões, Santo Agostinho, Editora Martin Claret, Série Ouro, p. 155.

(5) Confissões, Santo Agostinho, Editora Martin Claret, Série Ouro, p. 158.

(6) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 232.

(7) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 249.

(8) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde, Editora Civilização Brasileira, p. 246.

(9) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 40.

(10) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 45.

(11) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 46.

(12) O príncipe, Nicolau Maquiavel, Editora L&PM, Coleção Pocket, p. 68-69.

* Patricia Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Acaba de receber o Prêmio Marly Mota da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto de sua obra e lançar em Paris Fără nume/Sans nom (2013), poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente se prepara para o mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Contato: patriciatenorio@uol.com.br.

Revisão Ortográfica: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas

Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com

Poemas* de Stella Leonardos

A Luiza, Quatro Séculos Depois

 

 

E das páginas relidas

ressurges, Luzia linda,

coração mais lindo ainda

nessa tua vida linda

nas terras do Maranhão.

 

E tudo, Luzia, vindo,

tudo lindo que pervaga

nos céus, praias, matas, chão,

são pássaros lindos, livres,

sonhos são da liberdade

que almou, Luzia, teu sonho

e o sonhar do Bequimão.

 

 

Não Perguntes de Onde Venho

 

 

Foi no sítio de Luzia.

 

Reapareceu aquele homem.

O mesmo que a visitara.

E os olhos tinham mais lume

e a voz ressoava mais clara.

 

Veio e disse claramente

num rasgo de emoção rara:

 

– Não perguntes de onde venho.

Sei que vim para conhecer-te

e bem amar-te, mulher!

Não me trates como estranho

que sou teu desde as entranhas

de mistério do universo.

 

 

Na Ronda dos que Pressentem

 

 

Na ronda dos que pressentem

traições trágicas conspiram.

 

Que mau fado nos condena

a descrer de bens possíveis?

 

Que mau fado nos condena

a crer n’almas impassíveis?

 

Que mau fado nos condena

a temer tredos desígnios?

 

Que mau fado nos condena

a fugir de atros sigilos?

 

Na ronda dos que pressentem

condenações que vigilam.

 

 

O Grito

 

 

Aquele grito. Houve sim

aquela viva coragem

dilacerando o silêncio,

frenteando o mundo carrasco.

 

A angústia cerrava os punhos.

A raiva mordia os lábios.

A tristeza se encolhia

chorando por dentro as lágrimas.

 

E dizem que quando o herói

mirou seu povo de pé

em torno à forca medrosa

pareceu mais baixo o céu

e de mais altura a terra.

 

Ah dor do sem fim, que esmaga,

raiz ceifada do solo!

 

Houve um grito de mulher.

Houve aquele grito insólito:

 

– Ninguém assassina o sol!

 

 

Ali Sob Aquele Sol

 

 

Ali sob aquele sol

uns mal creram no que viam:

que, mais que viam, sentiam

o cavaleiro a cavalo

estatuado à luz do dia.

 

E ao sol de ardor insurgente

efígie de desafio.

 

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* Extraídos de Memorial de Luzia (do Bequimão), Stella Leonardos. São Luís: Editora Legenda, 2013. Contato através de Márcia Barroca: mbarroca10@gmail.com

 

 

 

 

O retorno inglório da prima perdida: memórias de uma franco-alagoana* | Chantal Jeanne Lafaye Frazão**

Há duas semanas, telefonei para a França em busca de dois dados precisos para concluir um texto que falaria do retorno de uma prima, desaparecida durante muito tempo. Desejava saber se minha mãe lembrava-se do nome correto do navio que cruzava o atlântico naquela época. Queria também que me confirmasse o ano exato durante o qual a fujona resolveu sumir do mapa. A prima faleceu há mais ou menos três anos e hoje descansa no pequeno cemitério de uma cidade situada no condado de Skagit, estado de Washington, nos EUA. Falei com esta aventureira uma única vez e foi, seguramente, a ligação telefônica mais insólita que eu já fiz em toda a minha vida. Munida agora de todos os elementos necessários, posso então iniciar o relato da curiosa historia:

O indefectível ritual, repetido varias vezes ao longo da minha infância, acontecia durante as ociosas tardes dominicais, quando o rigoroso inverno e a nevasca nos mantinham presos em casa e que, do lado de fora, violentas rajadas de vento fustigavam as venezianas. Não havia momento mais esperado do que quando minha mãe retirava o delicado tesouro do seu esconderijo. Após sentar sobre a minha cama de criança e depositar a caixa de sapato no seu colo, iniciava a retirada do seu precioso conteúdo. Cuidadosamente, como quem lida com frágeis relíquias, esparramava as imagens por cima da colcha de retalhos e, com gestos precisos de cartomante, alinhava os retratos diante dela para dar inicio à leitura dos destinos ao avesso. Em vez de adivinhar o futuro, ia reconstruindo o passado e, munida de fotos no lugar de umas cartas de tarô, relatava os acontecimentos épicos que tinham como protagonistas nossos parentes já falecidos.

Não conheci pessoalmente a maioria deles, já que se foram bem antes do meu nascimento, mas, graças ao desempenho da minha mãe em manter a chama da memória acesa, eu era muito apegada àqueles entes queridos cujas vidas haviam sido precocemente ceifadas; muitas delas durante as guerras. Não havia brincadeira no mundo que me fizesse perder um daqueles cerimoniosos encontros com a minha fantasmagórica família de papel fotográfico. Eu largava tudo no ato para ficar sentada aos pés da minha mãe. Encostando suavemente o dedo indicador em cima de cada rosto, recitava pousadamente os dados biográficos dos retratados. Daquele jeito, aprendi desde muito cedo os pormenores da história dos meus antepassados.

Sendo as fotos de núpcias as minhas prediletas, minha mãe as reservava para o final tal qual a mais deleitosa sobremesa de um banquete regado a saudosismo. Existia uma em particular que eu apreciava mais do que qualquer outra. Representava minha mãe, trajando um vestido de noiva cheio de candura, ao lado das suas quatro damas de honra: a colega de infância, a prima prognata do meu pai, a belíssima prometida do meu tio e a quarta moça cujo singelo penteado não passava de duas tranças presas no topo da cabeça. Esta última era a tal afamada Irene. Pousando toda majestosa à esquerda do retrato, exibia um indecifrável sorriso de Gioconda. Eu sempre aguardava ansiosamente a narração do legendário destino desta destemida prima. Recitada por último, era de longe a narrativa mais fascinante daquela sessão nostálgica. Resgatadas do fundo da minha memória, transcrevo aqui as palavras que a minha mãe empregava para me falar desta moça enigmática:

– Chantal, Irene era a irmã que eu nunca tive. Nasceu em 1927, um mês depois de mim. Éramos filhas de duas irmãs e crescemos muito próximas uma da outra. Como ela era fisicamente? Muito charmosa, com certeza, mas não era bela como a sua irmã, a esplêndida Yvette. O que posso dizer do seu temperamento? Era agradável, sempre sorridente, de muito fácil convívio. Era também bastante sensível e emotiva, chorava por qualquer besteira. A sua inteligência era acima da média; foi uma estudante brilhante. Ah sim! Já ia esquecendo: assim como você, era muito levada. Aliás, você me lembra tanto ela! Ela vivia subindo em árvores e brincava ou brigava com os meninos da redondeza que nem você. Era muito esperta e não tinha medo de nada, se jogava em tudo. Mais tarde, ao passar a viver em Paris, tornou-se uma excelente atleta. Era uma nadadora experiente, competiu e ganhou muitos prêmios dando braçadas num impoluto rio Sena. E então houve a guerra e o desembarque dos aliados.

– Não faço ideia de onde e como se encontraram, mas uma coisa é certa: Irene encantou-se perdidamente por este soldado americano com quem se casou logo após o final dos conflitos. Os dois foram morar certo tempo na Alemanha, mais precisamente numa base americana. Quando ele estava preste a regressar aos EUA, ela escolheu largar tudo para seguí-lo. Era um ato muito ousado para a época. A família tentou dissuadí-la, mas não houve jeito. Poucos dias antes de subir no avião, despediu-se de todos com um desafiador e triunfante sorriso estampado no rosto. Isso foi em 1948, quando Irene tinha somente vinte e um anos. Ela ainda mandou algumas cartas contando a nova vida. Sonhara em cidades cheias de arranha-céus, mas terminou pastando numa fazenda afastada de tudo. Vivia cercada por vaqueiros, que em nada lembravam o boa pinta John Wayne. Quis vivenciar o “american dream”, mas foi extraviada de mala e cuia para um árido cenário de filme faroeste de quinta categoria. Não sabendo ordenhar vacas, foi taxada de inútil e, por ser francesa, de mulher fácil. Depois de um tempo, parou completamente de se comunicar.

França, 1968 – Numa manhã de abril, uma notícia bombástica veio abalar a nossa diminuta família. Eu queria dormir mais um pouquinho, porém minha mãe irrompeu no meu quarto e acendeu as luzes. Abriu a janela para arejar o espaço e foi logo avisando que tinha uma surpresa incrível para me contar: descobriram o paradeiro da Irene! Tia Rose enviara uma carta contando que sua filha havia dado sinal de vida!

O que? Com uma notícia assim, eu não podia ficar mais um segundo na cama. Após esfregar os olhos com os punhos, afastar o cobertor e enfiar as pantufas, corri até a mesa onde o café matinal me esperava. Meio zonza ainda pela estrondosa novidade, mastiguei vagarosamente o pão amanteigado enquanto minha mãe explicava os fatos.

Pensativa, fiquei um tempão observando os prédios pela janela emoldurada por cortinas de voal enquanto o chocolate esfriava na caneca. Sendo a cozinha orientada para o leste, sempre procurei contemplar a cidade a partir deste ângulo, principalmente quando eu recebia um castigo qualquer ou levava uma bronca devido às péssimas notas escolares. A eufórica visão do sol nascente me enchia de uma revigorante esperança. Além dos telhados, imaginava uma auto-estrada rumando para o oeste em direção ao oceano. Do outro lado dele existia a terra prometida onde as meninas danadas refugiavam-se e encontravam a paz. É por lá que eu iria um dia, disso eu tinha certeza. Irene me precedeu, sondou o terreno, apontou o caminho. Eu seria a sua seguidora.

Logo após o grande impacto inicial, chegaram aos poucos os abalos secundários. As informações demoravam um pouco a chegar; afinal, os mais velhos da família não possuíam o telefone a domicílio. Pelo que entendi, os pais da Irene estavam prestes a embarcar para os Estados Unidos, pois queriam imensamente rever a filha sumida há vinte anos. Daqui a alguns dias, iam cruzar o atlântico a bordo do legendário navio France. Este vagaroso meio de transporte era uma sábia escolha. Não havia nada tão salutar do que uma viagem demorada, afinal todos os envolvidos precisavam de mais um tempo para ir se habitando a idéia do tão sonhado reencontro. Após a partida dos dois, não se soube nada durante um bom tempo, até que…

Depois de passar alguns meses ao lado de Irene, meus tios-avós acabariam regressando do Eldorado, mas em vez de fazer alarde e de gritar por cima dos telhados a nova vida da filha, pareciam preferir manterem-se calados e retraídos. Tentei saber alguma coisa, mas aparentemente um pacto do silêncio pairava sobre a família. Pacientemente, fui juntando alguns fiapos de conversa ouvidos atrás das portas. Pouco a pouco, elaborei na minha cabecinha de criança tudo que ocorreu do outro lado do oceano. Pelo que soube, Irene estava separada do marido, pois não aguentava mais as suas constantes bebedeiras. O homem tornara-se alcoólatra após perder uma das pernas num acidente de trabalho. Irene era mãe de quatro filhos: dois meninos e duas meninas. Os rapazinhos eram idênticos ao marido, um descendente de irlandeses loiro de olhos azuis. Já as filhas…

Certa vez, tia Rose apresentou-me os retratos das suas netas. Pude então constatar o quanto as meninas eram bem diferentes daquelas que circulavam no meu restrito universo gaulês. Possuíam tez azeitonada e cabelo comprido repartido ao meio em duas tranças lustrosas que caiam até a cintura. Cabia a elas o uso das roupas indígenas durante o desfile patriótico do Dia da Independência. Aproximando a foto mais perto do meu rosto, admirei atentamente as suas fantasias de índias, as franjas na barra da saia e as penas de águia enfeitando os seus cabelos. Encantava-me a ideia de ter duas Pocahontas como primas em terceiro grau, mas aparentemente os adultos em torno de mim não pareciam dividir o mesmo entusiasmo. Segundo eles, era impossível que o marido da Irene, de pura ascendência celta, pudesse ter gerado filhas tão amorenadas!

A notícia correu a boca miúda. A maledicência, espalhada sorrateiramente, manchou aos poucos a reputação da prima. Ninguém aceitava que aquelas meninas fossem fruto daquele casamento. Não que isso fosse um sinal de racismo, nada disso. Profundamente católica, a nossa família repudiava tão somente a suposta infidelidade da desavergonhada Irene.

Outro assunto afligia tia Rose: sua filha alugava uma casinha de madeira dividida em vários pequenos cômodos. Não possuía a segurança de uma moradia própria, mas em compensação gastava horrores com coisas supérfluas e tinha mais de um carro dormindo na garagem; uma extravagância para a maioria dos franceses de então. A casa abrigava, além da família completa, uma arca de Noé e uma profusão de eletrodomésticos espalhada pelos quatro cantos do bangalô. A criançada desfrutava de várias televisões eternamente ligadas, uma em cada quarto! Aquilo representava o maior absurdo para os valores pós-guerra dos mais idosos. Parece que no lar da Irene havia até uns aparelhos que trituravam os alimentos, secavam a roupa e tostavam o pão!

Em nossa casa, só possuíamos o secador de cabelo da minha mãe, o radinho de pilha do meu pai, a vitrola do meu irmão e uma única televisão usada com parcimônia nos finais de semana. Eu não entendia por que aquele exagero da Irene pudesse entristecer a minha doce tia-avó. Achava tudo aquilo o máximo! Podiam falar o que quisessem, podiam chamar Irene de perdulária, de fracassada e de perdida. Para mim ela era uma heroína, um modelo, uma inspiração. A minha família inteira sofrera duas terríveis invasões dos alemães e eu não queria estar presente quando houvesse a terceira. Do alto dos meus doze anos, eu já havia escolhido para onde me mudar no futuro: assim como nossa prima, eu iria bater também nas Américas; a do norte de preferência. Disso, eu tinha a mais absoluta certeza!

Brasil, abril de 1980 – Dez longos meses haviam transcorrido desde a minha chegada aos trópicos, acompanhando meu esposo brasileiro de regresso ao seu país após estudar alguns anos em Paris – cidade onde nos conhecemos e enlaçamos. Na insolência dos meus vinte e três anos, resolvera abandonar a França munida de uma passagem só de ida. Por única bagagem, carregava uma maleta tão leve quanto a minha alma de andorinha. Não posso deslembrar jamais as últimas palavras proferidas pela minha mãe quando me virei para acenar um adeus de despedida, pouco antes de embarcar rumo ao desconhecido. Ordenou que eu mandasse sempre noticias. Implorou também para eu não sumir do mapa como a audaciosa Irene.

Igualmente, havia imaginado uma vida trepidante além mar, mas acabei morando numa rua desolada e sem asfalto aonde praticamente nenhum carro se aventurava. Do outro lado da pista, avistava-se um coqueiral alagado onde alguns moradores da redondeza pescavam camarão. O processo de adaptação foi custoso, mas por nada neste mundo eu quis conjugar o verbo titubear ou desistir. Mergulhei com afinco na minha nova realidade e, em pouco tempo, já sabia cozinhar feijão com charque, dessalgar carne do sol no leite e, caso fosse preciso, xingar os meus desafetos na língua de Camões.

Não esquecera que a orgulhosa Irene, meu arquétipo favorito dentro da nossa mitologia familial, enfrentara as adversidades do novo mundo de bico calado. Durante todos esses anos, nunca havia mandado uma carta sequer para se queixar do seu infortúnio. Sendo a sua copia fiel, segundo a minha mãe, não podia fazer diferente. Portanto nunca revelei à minha família que muitas vezes tropiquei em pedras graúdas espalhadas ao longo de um intrincado caminho. No lugar das lamúrias, enviava idílicos cartões postais representando praias virgens lambidas pelas ondas de um mar azul turquesa. Neles eu falava do sagüi que invadira a nossa área de serviço atrás de frutas ou comentava o frenesi de um lúbrico beija flor diante das voluptuosas papoulas do meu jardim.

Maceió, junho de 1996 – Era uma sexta feira pluviosa e o relógio marcava quase dezoito horas quando cheguei em casa após apanhar meus filhos na escola. Livrei-me rapidamente das sacolas do supermercado e fui buscar toalhas limpas que entreguei aos meninos. Enquanto tomavam banho, me dirigi até a cozinha para preparar o jantar. À medida que eu ia retirando a manteiga, os ovos e outros produtos da geladeira, fiquei repassando mentalmente alguns assuntos que eu havia revelado ao meu psicanalista naquela mesma tarde. Na penumbra silenciosa do pequeno consultório, o “Caso Irene” havia surgido do nada. Assim de repente.

Falar dela para o meu terapeuta tornara-se algo imprescindível nas ultimas três sessões. Precisava imensamente parir a Irene que crescera dentro de mim. Deitada no divã de couro verde, revelei todos os pormenores da vida da auto-exilada. Fitando o teto, relatei, entre outras coisas que, após vivenciar tão desafortunado reencontro, quase trinta anos antes, meus tios-avós nunca mais quiseram botar os pés na terra do tio Sam. Foi naquela mesma época que Irene emudecera de vez e, em breve, faria quase meio século que não visitava a França…

O cheiro da sopa quase queimando na panela me trouxe de volta aos meus afazeres. Apaguei o fogo e tratei de colocar três pratos fundos na mesa. Foi naquele mesmo instante que ouvi o som estridente do telefone tocando no meu quarto. Baixei o volume da televisão e corri para atender na sexta chamada. Reconheci de imediato a voz jovial da minha mãe em meio a um chiado infernal. Sobressaltei ao calcular rapidamente que era quase meia noite na França. Algum fato relevante acontecera para ela ligar assim tão tarde. Alarmada, balbuciei algumas palavras perguntando o motivo da sua ligação. Toda jubilosa, me anunciou:

– Escute a novidade! Você sabe que tia Rose faleceu alguns meses atrás. Deixou uma pequena herança a ser dividida entre seus quatro filhos. Pois bem, foram feitas buscas para achar minha prima. Guy, irmão dela, encontrou e me repassou o número de telefone de um dos filhos da Irene que mora em Seattle. Liguei por ligar, sem acreditar que isso pudesse resultar em algo. Um homem atendeu em inglês e compreendi que ele me mandou aguardar. Você acredita que após alguns minutos de espera, Irene atendeu?

A impactante notícia chegara tranquilamente aos meus ouvidos, mas o cérebro, subitamente aturdido, parecia não querer assimilá-la. Por alguns segundos, fiquei abobada, tentando processar o que acabara de escutar. Enquanto isso, minha mãe emendara:

– Conversamos um bocado, mas precisamos de muito mais tempo para botar em dia um papo interrompido décadas atrás. Decidimos trocar cartas. É nessa hora que eu preciso da tua ajuda. Irene ficou de me repassar os nomes da rua e da cidade onde mora, mas acontece que ela não lembra como pronunciar as letras em francês. Só sabe soletrar em inglês e disso, não entendo nada. Você poderia ligar para ela e transcrever o endereço para mim?

Eu tinha plena consciência de ter escutado ela falar sobre um acontecimento muito importante, mas não conseguia transformar a informação em uma transbordante e efusiva emoção. Desabei sentada por cima da cama situada ao meu lado. Só me restava agora seguir automaticamente as instruções ditadas da França. Pedi para minha mãe aguardar um segundo. Enquanto isso, vasculhei a gaveta do criado mudo atrás de um pedaço de papel. Testei uma caneta. Falhou. Peguei então um lápis e anotei o número de telefone, pausadamente repassado. Após desligar, permaneci desnorteada por mais uns minutos. Mastiguei uma por uma cada palavra enunciada até digerir por completo o inesperado recado: Irene aceitara uma reaproximação!

As vozes dos meus filhos, reclamando por comida, me acordaram deste atordoamento. Não podia perder tempo, já que uma missão importante me esperava pela frente: falar mais tarde com Irene! Levantei-me toda apressada para atender os meninos. Assim que se retiraram para dormir, levei a louça suja até a cozinha. Enquanto lavava os copos, um pensamento repentino raiou na minha mente. De súbito, tomara consciência da espantosa coincidência entre as minhas confissões ao terapeuta e o contato retomado entre a minha mãe e a desbravadora prima.

Livre de qualquer labuta, dirigi-me até o quarto. Formatando mentalmente o que ia dizer, mantive-me parada por um bom tempo ao lado do telefone. Lembrei que não podia jamais me descontrolar e me deixar levar pela emoção. Declarar de cara o meu imenso afeto poderia assustar Irene. Eu teria que reprimir absolutamente qualquer rompante de sentimentalismo barato. Havia de agir com cautela, pois não podia esquecer que se por um lado eu a conhecia desde sempre, por outro lado, ela não sabia nada ao meu respeito. Por sorte, o meu esposo fora retido por uma reunião de trabalho qualquer. Não queria ter o seu entusiasmo transbordante por perto. Com certeza, enquanto falasse com Irene, rondaria em torno de mim que nem índio efetuando a dança da chuva.

Verificando as anotações no papel, compus o código internacional, o do país, o da área e por fim, o número da casa. Alguns segundos se passaram até o telefone chamar. Pigarreei levemente a fim de clarificar a garganta. Uma firme voz masculina atendeu. Educadamente, perguntei pela prima em inglês, lembrando bem de pronunciar o seu nome ao modo de lá: Ai-rine. A voz masculina falou “one moment, please”. Escutei o som do gancho sendo depositado no que imaginei ser um aparador. Não demorou muito para perceber o barulho de saltos se aproximando. Ouvi alguém recuperar o aparelho na mão. Quis saber se era Irene. Do outro lado da linha, a voz rouca deste alguém murmurou as palavras que tanto esperei: sim! Sou eu…

Apesar de comovida ao extremo, apresentei-me com sobriedade. Tentando manter minha voz a mais neutra possível, avisei simplesmente que eu era a filha de Simone incumbida de anotar o seu endereço. Gentilmente, repassou-me os dados necessários para a troca de correspondência. Possuía o fôlego curto e a rouquidão dos grandes fumantes. Notei também certo desalento no seu modo fatigado de me responder. Imediatamente após escrever o código postal e o nome do estado, arrisquei uma pergunta bastante indiscreta. Indaguei por que partira e se afastou de todos.

Não se mostrou perturbada pela minha ousadia. Pelo contrário, parecia ter esperado há séculos por esta interrogação. Logo teceu longas frases mencionando as perdas e as privações sofridas durante a guerra. Não a interrompi um só segundo. Eu era toda ouvidos. Com fala vagarosa, comentou também certos desentendimentos em família e citou por fim a morte do irmão Georges, num campo de concentração.

Mesmo adivinhando, nas entrelinhas, outros motivos inconfessáveis, resolvi não fazer mais perguntas e, sem mais insistir, me despedi com um discreto até logo. Num momento tão precioso, ordinárias familiaridades seriam fora de esquadro. Um pudor maior censurara beijos e abraços. Após desligar, pude enfim libertar o choro embargado. No sossego daquele anoitecer, deixei rolar grossas lagrimas que, após se juntarem no queixo, pingaram sobre a minha blusa.

Depois daquele dia, não telefonei mais para Irene. Nem nas semanas a seguir. De qualquer maneira, havia rasgado a folha contendo suas referências. Afinal, não queria me intrometer numa história que nunca me pertenceu. Resignada, acomodei-me no papel de mera espectadora dos acontecimentos que estavam por vir. Ligava constantemente para minha mãe atrás das novidades. Numa dessas chamadas, fiquei boquiaberta ao saber que Irene pisaria em breve no solo francês. Dividindo os custos da viagem com Guy, minha mãe oferecera uma passagem para a prima rever o país, abandonado há exatos quarenta e oito anos. De índole romanesca, eu já projetava, no telão da minha exagerada imaginação, um meloso reencontro rodado em câmera lenta. A realidade haveria de ser bem diferente…

Estava previsto que, após retornar à França e passar duas semanas na casa do irmão em Paris, Irene pegaria o trem de alta velocidade que liga a capital às grandes cidades. Desceria em Bordeaux, onde minha mãe a esperaria. Por telefone, combinaram qual tipo de roupa trajariam respectivamente no tão sonhado Dia-D. Concordaram em usar cores chamativas e acessórios complementares, tipo chapéu ou echarpe, para tornar o visual facilmente identificável. Cada uma sabia exatamente como a outra ia se apresentar. Não havia como errar. Enfim, assim imaginavam…

O trem chegou às 10:42 em ponto na estação de Saint-Jean. Após recolher a mala no porta-bagagem, Irene desceu finalmente os degraus do vagão. Exultante, regojizava-se ao lembrar que, daqui a pouco, iria se jogar nos braços da prima adorada. Arrastando as pernas cansadas, misturou-se ao pequeno fluxo de passageiros que se dirigiam até a saída. Notara, logo mais adiante, uma senhora de idade usando um casaquinho similar ao descrito pela minha mãe. Passando por ela, olhou a de esguelha. Nada disso! Pensou. Não podia ser! Preferiu continuar andando, mas, como não viu mais ninguém parecido com a descrição, achou melhor não continuar. Após alguns segundos de hesitação, voltou atrás, a fim de olhar novamente aquela idosa. Não! Exclamou para si própria. Era impossível! Recuando novamente, retornou aonde parara da primeira vez.

Em pé ao lado da locomotiva, minha mãe observara atentamente o desembarque dos viajantes. Reparou, de imediato, a senhora de cabelos nevados usando as mesmas roupas descritas por Irene. Percebeu o olhar de soslaio, quando esta passou por ela. Espiando o seu vai e vem, constatou a sua indecisão. Não acreditando no que estava vendo, preferiu esperar pelo esvaziamento completo da plataforma.

Finalmente, concordaram que, se sobravam unicamente as duas no local, consequentemente, só podiam ser elas mesmas. Não havia mais como duvidar. Ficou mais do que claro quem era Simone e quem era Irene. Mesmo assim, era difícil aceitar a dura realidade. A verdade é que ambas recusavam encarar a própria velhice refletida na outra. Obrigadas a se render às evidencias, aproximaram-se e, embaraçadas, trocaram beijos repletos de constrangimento.

Naquele dia, eu amanhecera com o astral enlevado. Não cabendo em mim de tanto contentamento, encontrava-me ansiosa ao lado do telefone e, em questão de minutos, roí as unhas das duas mãos. Eu tinha calculado que estariam em casa em torno das 14:00. Quando faltavam trinta segundos para as duas, resolvi ligar. Notei de imediato que algo dera errado. Percebi que minha mãe respondeu abafando a voz com a mão, como quem repassa um ignóbil segredo. Cochichou ter achado a prima extremamente descaída! Desconcertada pelas palavras infelizes, retruquei que não era para menos e, magoada, revidei dizendo que Irene devia ter achado o mesmo dela. Mal escutou o meu protesto, já desligou toda apressada. Precisava esquentar o almoço.

Durante a primeira refeição dividida em comum, minha mãe escutou confidencias que preferia nunca ter ouvido. Sem tentar poupá-la de tão tacanhas revelações, Irene esmiuçou a sordidez dos anos sombrios que seguiram o seu divórcio. Comentou ter trabalhado à noite servindo bebidas baratas numas espeluncas de beira de estrada. Ali arrumou alguns namorados porto-riquenhos que judiavam dela quando bebiam. Estarrecida diante de tais declarações, minha mãe reconheceu que a atlética nadadora do passado dera lugar a uma mulher naufragada e a deriva. A prima havia mergulhado até o fundo do poço e não havia braçadas capazes de trazê-la de novo a superfície. Mesmo assim, reparou que Irene não estava se queixando da vida arruinada. Pelo contrário, parecia admirada por continuar milagrosamente viva. Um fato era inegável: Irene sempre demonstrou possuir o temperamento inquebrável que distingue os sobreviventes. Muitas outras já teriam sucumbido no lugar dela.

Insistente, liguei em outras três ou quatro ocasiões, sedenta de notícias. Notei a voz cada vez mais encolerizada da minha mãe. Pediu-me para não perturbá-la, pois dizia estar muito ocupada lavando louça e preparando refeições. Aconselhei a praticidade dos copos descartáveis e lembrei que ela poderia deixar tudo amontoado na pia para a faxineira limpar depois. Sugeri que ela largasse o avental e levasse Irene até a cafeteria da esquina. Afinal, o importante era dialogar. Mas aí é que está. Compreendi que minha mãe se refugiara atrás de tarefas domésticas para escapar da Irene. Estremeci quando me revelou ter emprestado umas revistas – para calar a prima, imaginei. Inquieta, perguntei: quais revistas? Eu sabia que na casa dos meus pais só entravam dois tipos: as da minha mãe, falando de fofocas de celebridades e as do meu pai, especializadas em conflitos mundiais. Não me espantou descobrir que minha mãe lhe oferecera os magazines exibindo as atrocidades de guerra; as mesmas que tanto afugentaram Irene no passado. Afinal, fazia certo sentindo. De um lado, lá estava minha mãe armada e entrincheirada atrás de uma pilha de porcelana e do outro, a prima escondida por uma barricada de folhas de papel de conteúdo belicoso. É neste clima hostil que se desenrolou aquele final de semana. Quando liguei na segunda-feira, percebi o tom de voz nitidamente aliviado da minha mãe. Irene havia batido em retirada e já se encontrava no trem que a levava de volta a Paris.

Depois daquela infeliz experiência, minha mãe renegou esta prima que dera as costas à pátria e trilhou a vereda da desonra. Dali e em diante, um poderoso sentimento de rejeição tomou conta dela. Estranhava aquela estrangeira que um dia fora sua parenta. Repudiava o seu jeito americanizado de ser e abominava a forma popularesca como se vestia. Além disso, desprezava a sua vida dissoluta e o seu linguajar ordinário. Admitindo que um profundo fosso cultural havia sido cavado pelo implacável distanciamento, reconheceu que não havia ponte capaz de religar as duas margens. Aceitando que o reencontro fora um fiasco absoluto, resolveu nunca mais procurar a prima.

Após retornar aos Estados Unidos, Irene esvanecera-se de novo e, desta vez, seria para sempre. Antes disso, soubemos que gastara parte da sua herança na compra do carro dos seus sonhos e que o restante fora liquidado na aquisição de mil futilidades. Minha mãe ficou escandalizada ao tomar conhecimento do tremendo esbanjamento. Sabendo que a prima continuava sem casa própria, repudiou veementemente tamanha dilapidação. Concordou que Irene permanecia a mesma irresponsável de sempre. Francamente! Não mudara em nada!

Eu também, não mudei durante esses anos todos. Principalmente em relação aos meus sentimentos para com Irene. Conservam-se inalterados desde os tempos das fotografias espalhadas sobre a colcha da minha cama de criança. Nunca me importei com o que já se falou sobre a prima desgarrada. Aliás, cá entre nós, sempre curti as ousadias da ovelha negra da nossa família. Para mim, a impetuosa Irene sempre foi e sempre será uma heroína, um modelo e uma inspiração. Esta musa me precedeu neste vasto mundo, sondou o terreno e apontou para mim o caminho das Américas. Tornando-me a sua fiel discípula, ousei seguir rumos íngremes sem, no entanto, jamais imitar o seu comportamento impróprio. Trilhando atalhos por vezes resvaladiços, cheguei até o cume onde me encontro hoje e de onde posso contemplar a sinuosa estrada já percorrida. De onde ela estiver, rezo para que Irene vele carinhosamente sobre o meu destino e guie os meus passos no que me resta a percorrer.

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* Publicado no jornal Gazeta de Alagoas: http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=219165

** É escritora. Contato: chantalfrazao@hotmail.com

Poemas de Luís Augusto Cassas*

A Fala do Beco**

  

nos signos em rotação

fui de áries a peixe

nuvem e gavião

 

livrei-me das neuroses

com a overdose

das metempsicoses

 

tomei sol com Menipo

soldado em Alexandria

vaso e arquétipo

 

depois fui crepúsculo

na bela anatomia

de sólido músculo

 

estranha coorte:

só eu sei o que vem

depois da morte

 

verdade nua:

fui antes rua

na Catalunha

 

realidade-triste:

em bico de pássaro

cumpri-me alpiste

 

quando fui água

segui o roteiro

de todas as mágoas

 

quando fui fogo

descobri o ideal

do bem e do mal

 

quando fui ar

descortinei a alcova

onde o vento faz a curva

 

mudo no mundo

girando na roda-gigante

da alma do todo

 

reencarnando

ora encarnando

ora verde-musgo

 

eis-me agora no chão:

pra entender a matéria

e o seu coração

 

 

&&

 

 

tua  alma tantra

tem superlativo nó

dar-te-ei um mantra

as cinzas do pó

 

mas logo te advirto

nada posso aprendizar

a não ser as lições

do teu próprio avatar

 

ouve: o abc do viver

compreende dois capítulos

a ciência do mestre

a arte do discípulo

 

como podes entender

o corpo de ressurreição

se combates a matéria

e o corpo do teu irmão?

 

como ousas apreciar

o belo torso de Apolo

se aos olhos da realidade

és criança de colo?

 

às vezes não sendo se é

pra ser-se o conteúdo

mas o que se ser pretende

é ser não sendo contudo

 

mas há um mini-instante

na hora do ave-maria

que a ciência do ser

é a arte do não-seria

 

tu o dizes: sou o beco!

meu caminho é estreito

pela estreita porta

não passa a moura torta

 

aquele que joga pedras

no telhado do vizinho

sequer perceberá

as pétalas do caminho

 

quem atira pedras

e esconde a mão

jamais conhecerá

minha salvação

 

mas quem reza a minha cartilha

pega no pote

e segura a rodilha

esse é da família

 

 

Prestação de Contas***

 

Eu me declaro culpado

por ter usurpado

o segredo dos anjos

e ter comido a fruta

que os olhos pediram

e os lábios desejaram.

 

Eu me declaro culpado

por ter roubado a bula

da árvore do conhecimento

mas assumo as perdas e danos

por ter violado

o aéreo espaço da verdade.

 

Não fabriquem testemunhas.

Não culpem terceiros.

Não intercedam.

Era uma questão

de honra.

Era uma questão

de ser.

Era uma questão

de conhecer.

Tava tudo

muito blue.

Tava tudo

muito comportado.

Tava tudo

muito sagrado.

 

Eu me declaro culpado

de ser o co-autor

dessa façanha

que se chama Mundo.

 

Mas aviso aos interessados:

a vida não é cheque em branco,

a vida não é promissória vencida,

a vida não é pagamento combinado.

A vida é valor a ser resgatado.

Mas saibam que ninguém escapa

ao troco da culpa e do pecado.

Anjinhos, muito obrigado.

 

 

Mais****

 

não se sacrifique mais

 

não toque mais

o alaúde barroco

não aceite mais

o chocolate amargo

não coma mais

o pão ázimo

não seja mais

órfão de si mesmo

 

destrua mais

seus sonhos

consuma mais

ideais

assassine mais

a esperança

 

não seja mais

um morto-vivo

não leia mais

poetas desafinados

não lute mais

contra o destino

 

não ame mais

 

Dor nunca mais

 

Em caso de morte

chamar o fotógrafo mais famoso

 

Mais

nada

 

 

Auto do Retrato*****

 

Este corpo não é meu.

Visto-o como emprestado

a algum nobre antepassado

que dentro em mim se escondeu.

 

Esta alma não é a minha.

Habita apenas o eterno

inútil espaço de um terno

que com o corpo caminha.

 

Não é minha a cicatriz

que desenharam nos ombros

nem esses olhos de escombros.

Tampouco o queixo e o nariz.

 

De mim apenas o gesto

o olhar o passo a ironia

a fútil genealogia

de tudo que sobra e é resto.

 

 

D******

 

Meu pai caminha em mim

com suas muletas de maio

cavalgando rútilas esporas

como quem adestra um baio.

 

Meu pai caminha em mim

– qual Ignácio de Loyola –

Traz as pernas restauradas

Sob a cruz e a sua escolta.

 

Meu pai caminha em mim

igual Laio reintegrado

renegando a profecia

de ter um filho aziago.

 

 

Oração pelos rios do Maranhão*******

 

Senhor fazei-me generoso

como os rios do Maranhão:

banham o espírito do povo

purificam-lhe a alegria e as dores

matam a sede das crianças

fecundam o pão da esperança

Não permitais que o egoísmo

corte a circulação da misericórdia

aos afluentes e necessitados

Transformai-me em manancial

não em deserto

Que eu saiba dar e receber

Que eu lave os pés daqueles

de quem o destino sujou as mãos

E flua eternamente em mim

o dadivoso suprimento da vida

 

 

Um********

 

quando estou em ti

e tu estás em mim

inverte-se o princípio

do início e fim

no primeiro momento

há movimento:

eu sou tu és

no segundo momento

há desfalecimento:

não sei quem sou

acaso és?

no terceiro momento

viramos fragmentos:

o nós e o vós

habitam em nós

depois não há nada

e o espírito do só

recolhe-se ao pó

 

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 Foto Cassas

* Luís Augusto Cassas (2 de Março de 1953, em São Luís do Maranhão) nasceu longe, como as utopias, desenvolvendo a vocação para o horizonte.

Trilha o caminho do meio, mas há risco de abocanhar o inteiro. Após ciclo de mortes e transformações, novo nascimento entre duas palavras.

Tendência à profundidade, por estar sempre em queda. Teórico do mais. Hoje, discípulo do menos.

Poeta do alto e do baixo, do externo e do de dentro; às vezes é fogo; às vezes, vento.

De índole solitária, não é membro de nenhuma academia de letras, sindicato ou entidade de classe. Mas aprecia longas caminhadas e bom papo.

Gosta de contemplar a unidade, dispersa na criação: “Embora o olho não perceba, sabe-o o coração”.

A serviço da luz, do belo e do verso. Para ele, o mundo é pura poesia. Não é à toa que o chamam de universo.

No final de 2012, a Imago Editora lançou A Poesia Sou Eu, sua Poesia Reunida, reunindo 16 livros éditos e 4/5 inéditos, em 2 volumes encadernados, com quase 1400 páginas e vasta fortuna crítica.

Contato: luisaugustocassas@terra.com.br 

** Extraído de Bhagavad-Brita: (a canção do beco), Luís Augusto Cassas. Rio de Janeiro: Imago, 1999.

*** Extraído de O shopping de Deus & A alma do negócio: poemassaurus rex, Luís Augusto Cassas. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

**** Extraído de O vampiro da praia grande (poemas), Luís Augusto Cassas. Rio de Janeiro: Imago, 2002.

***** Extraído de A paixão segundo Alcântara: e novos poemas, Luís Augusto Cassas. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

****** Extraído O filho pródigo: um poema de luz e sombra, Luís Augusto Cassas. Rio de Janeiro: Imago, 2008.

******* Extraído de Evangelho dos Peixes para a Ceia de Aquário, Luís Augusto Cassas. Rio de Janeiro: Imago, 2008.

 ******** Extraído de A mulher que matou Ana Paula Usher: (história de uma paixão): poemas, Luís Augusto Cassas. Rio de Janeiro: Imago, 2008.

Voyage au désert | Isabelle Macor-Filarska*

Des fruits de la terre pour la célébration.  Les soukkot, ou tentes dressées partout dans les villes, richement ornées des fruits d’octobre, raisins en grappes opulentes, dattes fraîches à l’âpreté délicieuse, figues douces à la chair blanche ou mauve dont le jus rafraichit dans la chaleur lourde de l’après-midi, les grenades, le cédrat.  La soukka, en mémoire des temps nomades où le peuple habitait sous la tente.  Il me plaît de l’imaginer ainsi : des familles entières, hommes sages et discourant savamment avec leurs livres sous leurs bras, femmes encombrées d’enfants bruyants et turbulents réunies dans la joie de fêter, après la fin de l’été torride, les nouvelles récoltes, qui pourvoiront  aux repas pendant tout l’hiver de l’année nouvelle.  Réminiscences d’un passé nomade, de l’errance dans le désert, en quête de la liberté, en quête de soi. Je me souviens que, quand nous étions enfants, nous adorions manger dans la soukka que ma grand-mère et mon grand-père dressaient dans le jardin. Pendant les huit jours que durait la fête de soukkot, ce n’étaient que réjouissances pour nous, les enfants.  A travers le toit de branchages et de feuilles de palmier on voyait les étoiles, comme il se doit.

L’an dernier, quand je me rendis en octobre en Israël, peu après les fêtes de Rosh Hashana et Yom Kippour, après une absence de plusieurs années,  je fus immédiatement saisie par l’atmosphère de gaieté communicative dans les rues, dans les quartiers, je me sentis d’emblée partie de la fête. A la nuit tombée,  les rues résonnaient des chants des diverses communautés. Les Hassidim dansaient sur les rythmes vertigineux de rondes  sans fin auxquelles se mêlaient les enfants : ça tournait, tournait, tournoyait avec une énergie qui semblait ne jamais s’épuiser, mais au contraire, croître dans le tournoiement de la danse.  Une ronde sans fin, comme la course cosmique des planètes, des étoiles, de la terre.  Une danse qui rappelait aussi celle des derviches tourneurs. Même état d’envoûtement, de transe, une transfiguration, un allègement de l’être. L’oubli de soi. Comme un envol. Je rêvais d’aller dans le désert. Je rêvais de retrouver cette sensation ineffable de paix, de bonheur et d’amour que j’avais ressentie soudain autrefois lors d’un voyage effectuée dans des circonstances douloureuses, alors que j’étais pétrifiée de chagrin. La mort d’Eric m’avait dévastée. Il avait trente-sept ans. Il était jeune. Il était beau. Il était doué. J’ai le souvenir  très vivant de son visage maigre, des grands yeux enfoncés, du menton têtu, de ses longues mains fines de musicien, de sa silhouette grande, mince, de son pas dans l’escalier. Du violon dans la salle à manger. C’était insupportable.

 

Le désert m’avait guérie, on n’oublie pas mais il m’avait réconciliée avec la vie, avec l’Univers. Là où il n’y a Rien, il y a Tout.

Ruth et moi irions à Qumran, peut-être plus loin, vers Massada et la mer Rouge, si nous en avions le temps et l’envie. La mer Morte,  les étendues de sable jaune pâle qui se fondent dans le ciel et l’eau sulfureuse, les collines abruptes et nues peuplées ça et là de campements de Bédouins nous évoquaient des souvenirs et des moments de plénitude tels que l’on n’en connaît pas en ville.

Ruth était danseuse et thérapeute. Elle soignait les maux de l’âme et du corps par le mouvement,  par un travail sur la prise de conscience du corps et de son ancrage dans la terre.  A ce propos, je me souviens d’une danseuse de l’Opéra qui était mon professeur de danse quand j’étais adolescente et qui disait : « les pieds dans la terre, la tête vers le ciel. » Et je pensais : des mains pour cultiver et cueillir les fruits de la terre, des yeux pour toucher les étoiles. Ruth avait rendu visite à des femmes de tribus bédouines dans le Sinaï, ces dernières années, pour apprendre d’elles leurs danses et leurs chants, leur musique. Elle avait été introduite dans ce cercle très fermé des femmes de la tribu par son ami, Saïd, dont la soeur vivait là, parmi les femmes, dans ces montagnes arides et difficiles d’accès.  Elle avait été accueillie par les femmes et avait assisté à leurs danses rituelles, parfaitement réglées et rythmée, chants et danses pour célébrer la naissance, le mariage, la mort, chants d’amour et de nostalgie comme seul le désert peut en faire naître.

Depuis longtemps je ne t’ai vue

Depuis longtemps ne t’ai rencontrée

Je viendrai à toi verser mes larmes et mes regrets

Jusqu’à l’éternité

 

 La shababa vibre dans la nuit, les bandirs et darbukkas  rythment les chants et danses des femmes et des hommes. La danse mime le mouvement des hommes vers les femmes, des femmes vers les hommes, dans le respect de la distance, de l’interdit, des limites qui circonscrivent le sacré.  L’éclosion du désir en dépend et son maintien jusqu’à l’extrême tension, jusqu’à son  apogée glorieux qui éclate en un chant d’éternité, immémorial, par-dessus les toits des montagnes.

 Ruth était tombée amoureuse du lieu, l’ocre du sable, brûlant, la dureté des roches qui servaient d’abri contre la pluie de feu que déverse le soleil, les vents sauvages et devant tout ce sable dur et nu, et implacablement sec, la mer.  Sur cette plage, quelques tentes pour accueillir des touristes ou tout simplement des voyageurs. Ruth avait rencontré Saïd sur cette plage, une amitié était née puis un amour, sous les étoiles, dans les montagnes glacées la nuit, dans le silence des pierres, trompant la surveillance des patrouilles qui sillonnent le Sinaï et la région frontalière entre Israël et l’Egypte. L’amour n’est pas aimé surtout quand il brise les frontières de la haine et de l’inimitié. Plusieurs fois par an, Ruth faisait le voyage vers le désert, vers son amour, vers l’homme qui incarnait la liberté vivant dans l’espace infini et rude, face à l’éternité. La fascination pour ce lieu résidait dans son ascétique beauté. Il n’y a pas de distraction, seuls le ciel, le sable, la mer, les monts au loin. Il faut recréer un rapport au monde nu. Se dépouiller soi-même.  Au désert, chacun de nos pas s’efface sur le sable et l’on réécrit, sans fin, le chemin, chacun de nos gestes est balayé par le vent vers l’infini et la main retrace, d’un trait léger, le geste, à l’infini. La terre de sable est pure, légère, volatile, dure, mouvante aussi. Elle n’admet pas un trop lourd bagage. Le strict minimum. Le reste, le surplus, on le  confie au vent, au sable. Tout s’effacera.

Nous avons quitté Tel Aviv en direction de la mer Morte. Plantations d’oliviers, figuiers, amandiers composaient un tableau  paisible et accueillant.  Les champs s’éloignaient, la terre se faisait plus sèche, plus rouge ou grise selon les endroits, aride, avec quelques arbustes pour toute végétation. Nous approchions des collines de Jérusalem.  Quand on arrive de l’ouest, par la route de Jaffa, on aperçoit de loin les collines d’un ocre pâle, parsemée d’une végétation méditerranéenne, la beauté violente de la ville enserrée dans les montagnes escarpées, surplombant de sa hauteur les déserts de l’Asie et le gouffre qu’est la mer Morte, ne s’offre pas immédiatement au regard.  C’est au retour, en arrivant du désert, de la mer Morte, passant par Jéricho, que l’on est ébloui par la ville qui surgit peu à peu d’entre les montagnes et les vallées arides au fur et à mesure que l’on avance sur la large route asphaltée de nos jours. Jérusalem se dresse alors, austère, dure, dans l’incandescence de la lumière qui se déverse sur les pierres, roses, blanches, grises.  Sous un ciel immuablement bleu, les pierres éclatent de leurs feux.

Nous prîmes la route de l’est, contournant Jérusalem, passâmes tout près de l’enclave palestinienne de Ramallah. La terre devenait de plus en plus aride, jaune, sèche. De part et d’autre de la route, sur les collines dépouillées, des campements misérables de Bédouins faisaient des taches brunes. Cabanes de morceaux de bois, de tôle, vieux tissus ou tapis en guise de portes, un âne, une ou deux chèvres, des hommes et des femmes dont on apercevait la sombre silhouette furtive. Une jeune fille pieds nus, vêtue d’une longue robe rouge et noire et d’un fichu sombre, allait chercher de l’eau probablement, sans se hâter, sous un ciel impitoyable.  Comme il y a deux mille ans ou plus. Ca et là, des voitures délabrées mais toujours en état de fonctionner, stationnaient à l’entrée d’un wadi asséché. Nous roulions dans la vieille petite fiat de Ruth. Il faisait de plus en plus chaud, l’air devenait étouffant depuis que nous avions quitté les montagnes, le ciel était blanc de chaleur, à l’horizon, tout se confondait dans un voile lourd et cotonneux obstruant la vue. Nous fîmes halte à un relais afin de nous rafraîchir. Des marchands vendaient des dattes de Jéricho et des épices. Au dehors, des chameaux attendaient, placides, dans leur harnachement coloré, supportant sans broncher l’ardeur du soleil. Des artisans exposaient leurs poteries d’argile sur le bord de la route.

Elle apparut alors, la mer, au loin, au-delà des étendues de sable sur note droite, des masses de monts blancs moutonnant étincelant de tous leurs feux. Incendie blanc, lumière crue qui aveugle. Nous y étions. Sur la mer flottaient d’étranges formes blanches qui scintillaient comme des diamants sous le torrent de la lumière, c’étaient des statues de sel aux formes variées, l’air sentait le soufre et le soleil de midi avait pétrifié les lieux. Pas un mouvement, tout est immobile à cette heure de la journée, pas un souffle, pas une brise, la mer aussi est immobile, minérale.  Nous avons encore roulé un peu jusqu’au kibboutz d’Ein Gueidi. La fine source qui coule  d’une montagne rocheuse et tombe dans un bassin naturel entouré de plantes, d’herbes, d’arbustes et de fleurs, crée un microclimat favorable à la vie et les proches environs sont devenus une réserve naturelle où s’ébattent gazelles, antilopes, et autres animaux protégés. Le désert de Judée n’est plus ce qu’il était aux temps bibliques ou même il y a un siècle. Les kibboutz qui se sont implantés ont créé des réseaux d’irrigation permettant de cultiver la terre, de planter des arbres fruitiers, de faire surgir des oasis et d’immenses jardins de fleurs en plein désert. Quelques plages ont été aménagées et l’on peut se baigner dans la mer. C’est une mer huileuse, visqueuse, sur laquelle flottent des blocs de sel, une mer qui nous porte, qui nous balance comme dans un berceau mais dans laquelle on ne peut pas nager sous peine de se brûler les yeux, les muqueuses du nez et de la bouche. Sur la plage nous nous amusâmes à nous recouvrir de boue noire et nous mîmes à danser ainsi transformées en statues d’argile vivantes, évoluant, faisant des figures, sous un ciel implacable, dans un paysage lunaire et surréel qui sans doute dut autrefois évoquer l’enfer à nos semblables. Nous nous jetâmes  ensuite dans des sources d’eau brûlante, sources sulfureuses aux propriétés curatives d’où l’on ressort comme nés à nouveau, le corps chauffé, la peau douce et toute neuve.

Le kibboutz où nous devions passer la nuit se trouvait à quelques kilomètres de Qumran, sur une hauteur qui surplombait la mer.  Le soir tombait et un vent se leva, soudain et vigoureux, courbant les branches des jeunes oliviers de la terrasse.   A la tombée de la nuit, on distinguait de temps à autre l’ombre d’une gazelle ou d’une antilope, qui se profilait furtivement derrière un bosquet dans les rochers.  Instant ineffable de communion avec le Tout. Je comprenais la démarche de ceux qui au cours des millénaires avant nous étaient venus méditer, rester en paix dans un environnement dépourvu de tout ce qui distrait l’homme habituellement. Abîmés dans cet émerveillement, au sein du Rien, se ressourcer, puiser la force  et la volonté de cheminer vers sa vérité. Les habitations troglodytes, creusées, nombreuses, dans les parois de la montagne, témoignaient du passage des hommes en ces lieux. Ils y avaient laissé des traces, comme à Qumran, à quelques kilomètres de là, où l’on avait découvert les rouleaux. Que s’était-il passé ? Quel feu avait dévasté toute une terre, produit l’évaporation de la mer et laissé derrière lui un monde minéral d’où toute vie animale et végétale avait été bannie ?

Sur la terrasse, face à la mer qu’éclairaient les étoiles, Ruth se souvenait du visage aigu et maigre de l’homme qu’elle aimait au Sinaï. C’étaient, comme dans cet autre désert de monts, de roches et de sable, le silence, le  ciel surchauffé le jour, le vent qui vient avec le soir et avec l’aube, et les myriades d’étoiles qui coulent du ciel la nuit et tissent un toit de lumière au-dessus de leur étreinte. Le chemin était long, périlleux, mais Ruth répondait à un appel. Elle quittait ses malades, l’hôpital, la ville cosmopolite pour quelques moments de paix, d’amour et d’unité avec la mer, dans la montagne, avec l’homme qu’elle aimait, l’Arabe.  Il avait déjà vécu, avait aimé une femme à la peau blanche et aux yeux verts.  Après trois étés, la femme était partie. Il était resté dans le désert. L’air crépitait, la roche se fendait, tombait en morceaux qui se désagrégeaient en sable. Le sable coulait, la vie coulait. Désert, clepsydre de la terre. Ruth allait vers l’homme aux mains rêches, au grand sourire et au bon regard plein d’humanité.  Au matin, à l’aube, il sortait prudemment de la tente de Ruth, rejoignait la sienne puis il allumait un feu sous les pierres et préparait le café, faisait cuire un pain.  Ils étaient des amis quand l’homme la désira. D’abord surprise, puis indécise, inquiète, elle répondit au désir de l’homme.  Dans l’épaisseur de la nuit et du silence, il la prit avec force et douceur, elle se donna dans l’oubli de soi, des attaches, de tous les nœuds qui l’entravaient jusque-là depuis tant d’années. La joie revient en Ruth avec la paix du cœur et le désir qui l’arrachait à sa ville comme la vague s’arrache au sable.  Elle allait et venait entre la ville à laquelle elle appartenait et qui la retenait prisonnière, et le désert qui la bouleversait, la fascinait. Saïd l’aimait à présent d’un amour plus  amical que passionné, serein, son cœur restant libre.  A présent il resterait l’homme du désert, sans attaches irrévocables. Elle venait à lui, traversant tout un pays, allant vers  son risque. Au désert, elle marchait avec lui dans la montagne, dormait dans les rochers par des nuits glaciales, supportait le vent cinglant, la fournaise du jour. Peu à peu, elle se sentait revivre, appartenir à un tout qui faisait sens, sa gorge se desserrait, elle respirait l’air sec avec avidité, tout son être s’élargissait, se détendait, elle s’ouvrait au monde.

Allongée sur la terre sèche de la terrasse, après cette journée de voyage, je contemplais la voûte céleste qui vacillait au-dessus de ma tête. Tout tournait et  tournait dans un mouvement éternel qui m’emportait au-delà de moi-même avec la mer, les étoiles qui pleuvaient sur la terre et les branches des arbres qui dansaient dans le vent. Abandonnée à la terre, le silence se fit en moi, j’entrevis dans un éblouissement l’infini des cycles de lumière et de nuit. J’étais en accord, la paix intérieure était revenue et je me laissais bercer dans  les bras de l’Univers, ravie, émerveillée. La nuit coulait sur nous, en cet instant, je connus l’extase infinie d’être, enveloppée dans le drap du ciel, portée par le vaisseau de l’espace.  Un sentiment de liberté me submergea et je sombrai. Dans la nuit, je m’éveillai, le ruisseau du vent s’était tu. L’immensité immobile et indifférente m’enveloppait, creusant l’espace de la réconciliation avec soi et autrui, comme un accroissement d’être, bienfaisant.

Sur des kilomètres encore nous longerions la mer Morte et ses marécages exhalant une odeur funèbre de soufre et de pourriture sous un ciel incolore. Les blocs de sel errant sur les eaux immobiles rendaient plus intense encore l’impression de désolation, le pressentiment que là quelque chose d’inouï et d’irrémédiable avait eu lieu. Plus loin, à la pointe sud du désert, la mer Rouge, dans l’écrin des montagnes, nous offrirait un festival de couleurs au soleil couchant qui allumait sur les cimes des feux de toutes les nuances du rouge, du rose, du volet, du jaune et du bleu. Une flûte fait vibrer le soir qui tombe doucement sur les eaux et les pierres. Elle nous dit la séparation et la nostalgie. Le jour se sépare de la nuit, la femme se sépare de son amour, les vivants se séparent des morts. La flûte rappelle le désir, au désert, les fragments du Tout rassemblés. La terre aride se fait légère. Tout s’efface, comme nos pas sur le sable.  Tout se réécrit sur le sable, sur les eaux, dans le cristal des étoiles, sur la roche, sur la terre.

Nous rentrons à la ville.

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* Isabelle Macor-Filarska est traductrice, poète et un très grand ami de l’autre coté de l’Ocean Atlantique… Contact: isabelle.macorfilarska@gmail.com

Gravuras de Almandrade*

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Gravuras de  Almandrade
em exposição no Museu Nacional – Brasília
www.gravurasno brasil.com.br/almandrade

RELEASE
Exposição Museu Nacional – MUN
SEUmuSEU EXPOEXPERIMENTO

SEUmuSEU EXPOEXPERIMENTO é a exposição que o Museu Nacional do
Conjunto Cultural da República – MUN e o Museu de Arte de Brasília –
MAB organizam em conjunto. Será inaugurada no próximo dia 25 de
outubro, às 19h, no expositivo principal do MUN, com direito a
performances e intervenções.

De conteúdo diversificado, a exposição mostrará ao público as mais
recentes e significativas incorporações aos acervos desses museus
distritais, com destaque para o álbum de serigrafias do artista baiano

Almandrade e para o ateliê de Rubem Valentim, com o
mobiliário, projetos, moldes, esboços, materiais e ferramentas

originais do artista.

Obras e projetos de murais de Athos Bulcão, gentilmente cedidas pela
FundAthos, também serão expostas.

Mas toda essa concentração de obras não se justificaria se não
contasse com a presença dos artistas locais, que em sete anos de
existência do MUN, e 28 do MAB, apoiam, valorizam, prestigiam e
defendem estes dois espaços de difusão das artes. Nesse sentido, para
manter esse diálogo sempre profícuo, que envolve o fazer dos artistas,
seus museus e sua cidade, é que foram convidados a integrar essa
exposição.

Serão mais de 200 obras, entre pinturas, esculturas, objetos,
instalações, fotografia, performances, intervenções e vídeos.

Abertura: 25 de outubro de 2013, às 19.
Visitação: de 26 de outubro de 2013 a 5 de janeiro de 2014, de terça a
domingo, das 9h às 18h30.
Entrada franca.

Artistas participantes: Almandrade, Ana Volpe, André Ventorim, André Santangelo,
Antonio Cunha, Betty Bettiol, Bruno Bernardes, Carlos Lin, Carppio de
Morais, Célia Matsunaga, Cirilo Quartim, Coletivo Transverso, Corpos

Informáticos, Dalmácio Longuinho, Márcio Hofmann Mota, SheilaTapajós, Sonnia Guerra, Suyan de Mattos, Sylvana Lobo, Taigo Meireles, Tão Cascão, Tarciso Viriato, Tereza Riba, Tiago Botelho, Tize, Ton Bezerra, Toninho de Souza, Valeria Diaz, Waleska Reuter, Xico Chaves

 * Enviado por: carla.silva0001@gmail.com