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Índex* – Setembro, 2013

 É em ti, meu espírito, que meço os tempos.

(Confissões, Santo Agostinho, Livro XI)

O Tempo no Índex do blog de Patricia Tenório.

Revisitando Patricia Tenório (PE) em Março de 2011 com As joaninhas não mentem – Quatro línguas.

Poemas de Denis Emorine (França).

Ficção inspirada em mito | Fernando Py (RJ).

Patricia Tenório & Isabelle Macor-Filarska invitent | Fără nume/Sans nom, de Patricia Tenório.

Sobre “O primeiro dia de 36 horas”, de H. Woolf (SP) | Prof. Zilda Freitas

Poemas de Rizolete Fernandes (RN) en Salamanca.

Obrigada pela participação de todos e a próxima postagem será no dia 27 de Outubro de 2013.

Até lá,

Patricia Tenório.

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Index* – September, 2013

 It is in you, my spirit, that I mesure the times.

(Confessions, St. Augustine, Book XI)

The Time in the Index of the blog of Patricia Tenório.

Revisiting Patricia Tenório (PE) in March, 2011 with The ladybugs don´t  lie – Four languages.

Poems from Denis Emorine (France).

Fiction inspired in myth | Fernando Py (RJ).

Patricia Tenório & Isabelle Macor-Filarska invite | Fără nume/Sans nom, from Patricia Tenório.

About “The first day of 36 hours”, from H. Woolf (SP) | Prof. Zilda Freitas

Poems from Rizolete Fernandes (RN) in Salamanca.

Thanks for the participation of all and the next post will bem on the 27th October 2013.

Until then,

Patricia Tenório.

Dali-Persistence_Of_Memory_1931 **

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** A Persistência da Memória, Salvador Dali. 1931. Óleo sobre tela. 24 x 33 cm. MoMA (Museu de Arte Moderna), Nova York. 

** Persistence of Memory, Salvador Dali. 1931. Oil on cavas. 24 x 33 cm. MoMA (Museum of Modern Art), New York.

Revisitando Patricia Tenório* – Setembro, 2013

Nesta edição, revisitamos as quatro línguas de As joaninhas não mentem, em Março de 2011.

Link permanente:  http://www.patriciatenorio.com.br/?p=1300

 

As joaninhas não mentem – Quatro línguas

 

 

19.março - joaninhas 047-1 pequeno

Ensaio de As joaninhas não mentem

Texto: Patricia Tenório

Direção: Jorge Féo

Com:  Ísis Agra, Thiago França, Maria Luísa Sá, Jay Melo, Elilson Duarte e Romero Brito

 

 

Em homenagem ao Dia do Teatro – 27/03/11

 

O Mundo

As joaninhas não mentem, Patricia Tenório 

Editora Calibán, 2006

 

O primeiro passo, o mais difícil. Sempre diziam, e escutou. Assim deveria ser? Até agora acreditava que assim deveria ser. Seguir o que já fora trilhado por outros, caminhos desbravados?

Diferente, agora. Os passos pareciam mais macios, a terra mais fofa. A luz mais luz, o verde mais verde. O verde das árvores cegava, profundamente cegava Ariana. E ela não se perturbando.

Sensação estranha de não se perturbar. Sentimento alheio esse de seguir caminho, independente de onde se chegará. Acostumada em saber se chegaria, o destino outrora traçado, apenas executando ordens de Ama Lúcia. 

(…)

A noite caindo nas mãos de Ariana feito presente. Não sabendo o que fazer com ela. Voltar? E a insistência? Ou enfrentar os fantasmas sobre os quais a Imperatriz falou? Será que a Imperatriz já os enfrentou? Ou era conversa jogada fora, tal vontade que a puxava para trás, um convite delicioso a desistências. Tão mais e mais fácil.

Que deixe o Príncipe Átila. Não dorme há centena de anos? Não estou pronta. Preciso voltar, falar para a Imperatriz, me enganei, tanto e tanto e tanto. O cavalo Branco não parava de embrenhá-los cada vez mais na estrada dos Fantasmas Ocultos, para longe deixavam o caminho do retorno, da segurança, do tempo.

Cruel Tempo. Seu Tempo, não esperas, não sabes esperar? Ainda sou uma menina. Não sou mulher como pensas. Pedes mais do que posso te dar. O vento assobiando no elmo, parecia trazer murmúrios, segredos que o Tempo enviava? Serão do Tempo esses murmúrios? Ou os ouço do meu âmago, meu ser mais que ser? Minha voz ou a dele?

Porque o Tempo é um brincalhão. Travesso feito o Sol ou sábio feito a Lua? A Lua que tanto espera, e roda ao redor de si, e marca datas, quando crescer, diminuir, ou me sentir plena, ou mesmo vazia. Ela sabe do Tempo, controla, levanta marés, dá luz às crianças perdidas, enlouquece viúvos e une casais.

(…)

Il Mondo

Le coccinelle non mentono, Patricia Tenório

Casa Editrice Calibán, 2006

Trad.: Angelo Manitta

 

 

Il primo passo, il più difficile. Parlavano sempre, e lei ascoltava. Avrebbe dovuto essere così? Fino a quel momento credeva che così avrebbe dovuto essere. Doveva seguire ciò che era già stato calcato da altri, strade esplorate?

Le cose ora stavano diversamente. I passi sembravano più delicati, la terra più soffice. La luce più luce, il verde più verde. Il verde degli alberi accecava, accecava profondamente Arianna. E lei non si infastidiva.

Strana sensazione quella di non infastidirsi. Sentimento bizzarro quello di proseguire, indipendentemente da dove sarà giunta. Abituata a sapere che sarebbe arrivata, il destino in precedenza tracciato, eseguiva solo gli ordini di Ama Lucia.

(…)

La notte che cadeva nelle mani di Arianna un fatto presente. Non sapendo cosa fare con essa. Ritornare? E l’insistenza? O affrontare i fantasmi dei quali l’Imperatrice aveva parlato? Sarà che l’Imperatrice già li aveva affrontati? O era conversazione proveniente dall’esterno, come volontà che la  tirava indietro, un invito allettante a desistere. Tanto molto più facile.

Che lasci il Principe Attila. Non dorme da almeno cento anni? Io non sono pronta. Io devo ritornare, parlare all’Imperatrice,  io mi sono sbagliata, molto e molto e molto. Il cavallo Bianco non finiva di farli penetrare ogni volta di più nella strada dei Fantasmi Occulti, lontano lasciavano la strada del ritorno, della sicurezza, del tempo.

Tempo crudele. Il suo Tempo, non aspetti, non sai aspettare? Io sono ancora una ragazza. Non sono donna come pensi. Chiedi più di ciò che posso darti. Il vento fischiando nell’elmo, sembrava produrre mormorii, secreti che il Tempo spediva? Saranno del Tempo questi mormorii? O li sento dentro di me, il mio essere più che essere? La mia voce o quella sua?

Perché il Tempo è un burlone. Irrequieto fatto il Sole o saggia fatta la Luna? La Luna che tanto aspetta, e ruota intorno a sé, e segna date, quando cresce, decresce, o sentirmi piena, o anche vuota. Lei conosce il Tempo, controlla, alza maree, dà luce ai bambini perduti, fa impazzire i vedovi e unisce coppie.

(…)

Le Monde

Le coccinelles ne mentent pas, Patricia Tenório

Maison d´Edition Calibán, 2006

Trad.: Patricia Tenório & Isabelle Macor-Filarska***

 

Le premier pas est le plus difficile. On parlait toujours et elle écoutait. Devait-il en être ainsi? Jusqu’à présent elle croyait qu’il devait en être ainsi. Suivre ce qui avait été tracé par les autres, les chemins défrichés?

C’était différent maintenant. Les pas paraissaient plus doux, la terre plus douillette. La lumière plus lumineuse, le vert plus vert. Le vert des arbres l´aveuglait, il aveuglait profondément Ariana. Mais elle ne se troublait pas.

Sensation bizarre de ne pas se troubler. Sentiment de n´être pas elle-même mais une autre personne, de suivre un chemin, peu importe où il mène. Elle savait depuis toujours qu’elle arriverait, le destin ayant déjà été tracé, elle ne faisait qu’exécuter les ordres de la Servante Lúcia.

(…)

La nuit tombait sur les mains d´Ariana comme un cadeau. Elle ne savait pas ce qu´elle ferait de la nuit. Retourner sur ses pas?  Persister ? Ou bien devrait-elle affronter les fantômes dont l´Impératrice avait parlé ? Serait-ce que l´Impératrice les avait affrontés ? Ou bien avait-elle parlé pour parler, mimant la volonté qui la tirait en arrière telle une délicieuse invitation au désistement. Beaucoup plus facile.

Laissons le Prince Átila. Ne dort-il que depuis une centaine d´années ? Je ne suis pas prête. Je dois m’en retourner, je dois parler avec l´Impératrice, lui dire que je me suis trompée immensément. Le cheval Blanc continuait de pénétrer de plus en plus profond sur la route des Fantômes Cachés, Ariana et le cheval Blanc laissaient loin derrière eux le chemin du retour, de la certitude, du temps.

Cruel, le temps. Monsieur le Temps, tu n´attends pas, ne sais-tu pas attendre? Je suis encore une petite fille. Je ne suis pas une femme comme tu le penses. Tu demandes plus que je ne peux te donner. Le vent sifflait sur le casque, il semblait amener des murmures, des secrets que le Temps envoyait. Venaient-ils du temps, ces murmures? Ou bien les entendais-je au tréfonds de moi-même, de mon être le plus intime ? Etait-ce ma voix ou la sienne?

Car le Temps est malin. Astucieux comme le Soleil ou savant comme la Lune? La Lune qui attend beaucoup, et roule autour d’elle-même, et signale des dates, quand je dois croître, diminuer, ou me sentir pleine, ou même vide. Elle sait le temps, elle le contrôle, elle lève des marées, donne la lumière aux enfants perdus, elle rend fous les veufs et réunit les couples.

(…)

_______________________________

* Patricia Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente se prepara para o mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Contato: patriciatenorio@uol.com.br.

Poèmes de Denis Emorine*

 Extraits de Lettres à Saída, Éditions du Cygne, Paris, 2008 & Editura Ars Longa, Romania, 2012.

  

Je me suis si souvent enfui

pour échapper à moi-même

et pourtant je n’ai pas réussi à la

chasser de mon esprit.

Elle me hante jour et nuit :

elle est entrée en moi par effraction.

A quoi bon lui rendre hommage

encore ?

Pour la rime

 

ou

 

pour la métaphore ?

 

*

 

Paris (jardin du Luxembourg)

 

Il y a dans l’air

comme un souffle de toi.

Ton sourire glisse sur les arbres,

effleure mes paumes.

Je marche lentement, les yeux

à terre.

Mes mains s’ouvrent sous

la caresse de tes mots.

 

Je relève la tête :

tu es là…

 

*

 

Entre nous

jamais

La peur d’un silence.

 

Seul

L’accord parfait

au sens musical du terme

 

Pourtant

j’ai recouvert de sang

la portée de ma vie

il y a si longtemps…

 

 

Extraits de Les yeux de l’horizon, Éditions du Cygne, Paris, 2012. Préface d’Isabelle Macor-Filarska.

 

 

Les larmes du temps

Sont figées em moi

Je n’ai pas de mots pour

En décrire les effets et c’est mieux ainsi.

À la fenêtre

Les ombres du passé sont figées elles aussi

Lorsque je pose mon front sur la vitre

Elles me brûlent.

Au lointain le fracas des armes

Se rapproche à chaque fois

C’est la seule certitude que je peux

Vous donner.

Si vous souhaitez être rassurés

Passez votre chemin

Ici les yeux ne s’ouvrent jamais

 

*

 

Nous avions beaucoup à partager

En confondant les mailles du temps

Le jour était illuminé par la mitraille.

Le ciel restait silencieux pourtant

Soudain

Tu as basculé vers l’arrière

Le ciel s’est penché vers toi

Une dernière fois

Il n’y avait plus rien à dire

Ta main s’est refermée trop tard sur

La béance du monde

 

*

 

Autrefois

Tout le monde connaissait ton nom

Des voix inconnues le prononçaient

Doucement en te regardant

Mais tu l’as effacé soigneusement

De la mémoire des hommes

Tu ignores ton identité désormais

Une joie mauvaise prend possession de toi.

Lorsque tu frapes à ma porte

Celle-ci ne répond jamais

À la pression de tes doigts

Un jour tes pas te conduiront

Dans une direction inconnue

Des hommes

Là où commence l’ignorance

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* Denis Emorine est né en 1956 près de Paris.

Il a avec l’anglais une relation affective parce que sa mère enseignait cette langue. Il est d’une lointaine ascendance russe du côté paternel. Ses thèmes de prédilection sont la recherche de l’identité, le thème du double et la fuite du temps. Il est fasciné par l’Europe de l’Est. Poète, essayiste, nouvelliste et dramaturge, Emorine est traduit en une douzaine de langues ; son théâtre a été joué en France, au Canada ( Québec) et en Russie. Plusieurs de ses livres ont été édités aux Etats-Unis. Il collabore régulièrement à la revue de littérature “Les Cahiers du Sens”. Il dirige deux collections de poésie aux Editions du Cygne. En 2004, Emorine a reçu le premier prix de poésie (français) au Concours International Féile Filiochta. L’Académie du Var lui a décerné le «prix de poésie 2009».

On peut lui rendre visite sur son site: http://denis.emorine.free.fr

* Denis Emorine nasceu em 1956, próximo a Paris.

Emorine tem com a língua inglesa uma relação afetiva, porque sua mãe ensinava este idioma. Possui uma distante ascendência russa por parte de pai. Seus temas prediletos são a busca da identidade, o tema do duplo e a fuga do tempo. É fascinado pelo Leste Europeu. Poeta, ensaísta, novelista e dramaturgo, Emorine foi traduzido para uma dúzia de línguas; seu teatro foi apresentado na França, no Canadá (Québec) e na Rússia. Muitos de seus livros foram editados nos Estados Unidos. Denis colabora regularmente com a revista de literatura “Os Cadernos do Sentido”. Dirige duas coleções na Editions du Cygne. Em 2004, Emorine recebeu o primeiro prêmio francês de poesia no concurso internacional Féile Filiochta. A Académie du Var lhe concedeu o “prêmio de poesia 2009”.

Podemos visitá-lo no seu site: http://denis.emorine.free.fr

Ficção inspirada em mito | Fernando Py

Tribuna de Petrópolis, 23/08/13, Lazer, p. 5

 

            Na mitologia grega, a história de Dédalo e seu filho Ícaro nos diz que ambos foram encerrados no Labirinto de Creta pelo rei Minos. Construtor do labirinto, Dédalo fabricou para si e para o filho, dois pares de asas de penas, presas aos ombros com cera, e os dois fugiram dali com facilidade, voando para o céu. Dédalo recomendou ao filho que não voasse muito alto porque o sol derreteria a cera, nem muito baixo, pois a umidade tornaria as penas muito pesadas. Contudo Ícaro, sem resistir ao impulso de se aproximar do céu, subiu demais. A cera fundiu-se, as penas soltaram-se e ele caiu no mar Egeu, episódio narrado nas Metamorfoses do poeta latino Ovídio.

            A escritora pernambucana Patricia Tenório também aproveitou algumas das variantes do mito para elaborar uma ficção, Como se Ícaro falasse (Mossoró, RN, Sarau das Letras, 2012). Em sua ficção, bem criativa e de fundo poético, ela cria personagens próprios: o corvo Graco, a flor Isabel, e a moça Laura, que desde pequena sonhava ser uma “prostituta sagrada” no templo do deus Sol. Assim, depois de apresentá-los, a ação se inicia com uma viagem de Dédalo e Ícaro para Creta. A história segue o mito até o momento em que os dois abandonam o labirinto. A partir daí é quase sempre Ícaro quem narra. Encontra-se com o corvo, conhece a flor Isabel, busca achar “a sua Ariadne”, que lhe surge na figura de Laura, por quem se apaixona. Enquanto isso, o pai exercita os músculos do filho, preparando-o para a grande viagem aérea, e está sempre recomendando que não se aproxime demais do sol. Em certo momento, quando Ícaro já está com as penas grudadas às costas, Dédalo empurra o filho, que voa para o céu. Ao voar, o moço tem a companhia do corvo Graco, seu amigo. Não quer se aproximar do sol, mas o sol o chama, quer fazê-lo rei e lhe dar Laura por esposa. Dédalo, no entanto, percebe que o filho há de morrer, por haver se aproximado excessivamente do sol. Ícaro sabe que vai morrer, não verá mais Laura, perderá o amor com a vida e não conhecerá o filho que gerou nas entranhas da amada. O corvo Graco, que acompanhou a queda de Ícaro, sentiu o valor daquele que foi o primeiro homem a voar, termina o texto: “Houve um homem que se fez pássaro. Não porque o pai o empurrou, não porque nas pedras morreu, mas agora irá falar.” A ficção de Patricia Tenório arrasta o leitor com seu estilo inventivo cheio de poesia. Vale a pena uma leitura minuciosa.

 

Contato: fernanpy@gmail.com

 

Patricia Tenório & Isabelle Macor-Filarska invitent | Fără nume/Sans nom, de Patricia Tenório

convite web

Sobre “O primeiro dia de 36 horas”, de H. Woolf | Prof. Zilda Freitas

“O escritor paulista H. Wolf surpreendeu-me com um livro extraordinário intitulado Os primeiros dias de 36 horas. Não é um mero elogio, é uma constatação que amplia o sentido de extraordinário para abranger ainda o “inabitual que alavanca” (p. 120). No momento em que a literatura brasileira se restringe à repetição de fórmulas comerciais do século passado, H. Wolf inaugura um espaço privilegiado para o mitológico e o non-sense em criativo universo ficcional de um “Dia de 36 horas. 12 horas a mais para viver sua vontade içada”; “A prática da vida em fragmentos de 36 horas”  (p. 23). Não se trata apenas de acrescentar horas ao dia, mas de adicionar beleza à vida, a partir de palavras-sabres em constante duelo neste livro de múltiplos segredos.
O leitor é estimulado por uma escrita em espiral e tipicamente pós-moderna, que o submerge  e o obriga a um olhar diferenciado sobre o textum e sobre a disposição das letras no cenário que  H. Wolf utiliza como recurso: as folhas do livro. As personagens não têm nomes, sendo facilmente identificadas pela escolha tipográfica e a função na narrativa. Assim, há o OBSERVADOR, o Incitador, o Vivenciador. Como a escritura diferenciada de José Saramago que evita o emprego excessivo de pontuação nos seus romances, o estilo de H. Wolf é inovador e autêntico, uma vez que liberta o leitor do padrão usual do livro e o convida a entender a história sem as amarras de um romance tradicional. Quanto aos marcos textuais, H. Wolf parece “agir como um artesão e libertá-los. É assim que não permito que envelheçam” (p.10).  Este é o primeiro segredo do livro:  a inovação e  a habilidade do autor que eleva a palavra à condição de objeto de arte. Cada palavra no livro é passível de contemplação reverente e estranhamento reflexivo.  “Mais que uma síntese, um aprimoramento” (p.18).
Com rigorosa construção linguística, H. Wolf faz dialogar a norma culta portuguesa com a criatividade dos neologismos brasileiros. O segundo segredo do livro é exatamente esta satisfação que causa no leitor, se exigente for e estiver à procura de uma leitura prazerosa e sem gralhas. É um exercício deleitoso ser conduzido pela história de autognose das personagens, sem equívocos irritantes no texto.  Os primeiros dias de 36 horas guia o leitor tranquilamente, como uma folha que flutua sobre o rio e sabe que seu destino é o mar. Não há sobressaltos. O leitor integra-se na história como se dela participasse: “porque em 36 horas tudo deixará de ser como é, passará a ser o que é mais metade do que seria em seguida!” (p. 25).
O terceiro segredo do livro é o amálgama do autor com seu alter-ego, subdividido entre as personagens. Em curioso gesto lúdico, dissimula sua opinião através da fala do Incitador, do Vivenciador ou do OBSERVADOR. Sobre os condenados por crimes hediondos, por exemplo, questiona a personagem  [ou seria o autor?] como salvá-los de uma impossível alcatraz ou de hospitais psiquiátricos. O leitor atento perceberá a opinião do escritor sobre o tema, pois “Em qualquer situação de comunicação, todos só atingem os indissimuláveis nirvanas quando convencem” (p.16).
O deslocamento espaciotemporal é o quarto segredo do livro. Com talento e acuidade, H. Wolf concebe um microcosmo em que as personagens transitam pelo espaço imaginário de seus próprios dilemas e do simbolismo das ruas, estradas e janelas. Igualmente a Ulisses, obra e personagem emblemáticas de J. Joyce, o tempo é relativizado em Os primeiros dias de 36 horas e gravita em torno do conflito das personagens e da ação narrativa. Entretanto, em H. Wolf o tempo ficcional não é restrito às 24 horas de um único dia joyceano e é precisamente esta a cola de seu texto: “o esforço da cola quando faz seu trabalho fica escondido” (p.42). A verdade sobre o espaço e o tempo descritos no livro permanece oculta, pois “há cantos guardadores de segredos” (p. 70).  Existem muitos outros mistérios no livro de H. Wolf, contudo não irei mencioná-los todos aqui porque ainda estou a desvendá-los.
Encerro meu comentário sobre o livro de H. Wolf com observações mais pessoais. Sinceramente, quase invejo o leitor que terá o contentamento e a surpresa de ler pela primeira vez o livro Os primeiros dias de 36 horas.  Quase – porque igual prazer será relê-lo. Minha opinião sobre este livro pode ser resumida na emoção de um primeiro beijo: é surpreendente, excitante e cheio de expectativas, felizmente satisfeitas.”
 
professorazildafreitas.wordpress.com

Enviado por hmd3@uol.com.br

 

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Editora: Chiado
ISBN: 9789895101771
Ano edição: 2013
Número edição: 1
Páginas: 128
Acabamento: Brochura
Tamanho(cm): 14×21
Preço médio: R$ 30,00

Poemas de Rizolete Fernandes en Salamanca

http://www.crearensalamanca.com/2013/09/poemas-de-la-brasilena-rizolete-fernandes-xvi-encuentro-de-poetas-iberoamericanos-pinturas-de-miguel-elias/

   

Crear en Salamanca se complace en publicar algunos textos de la poeta Rizolete Fernandes, extraídos del volumen titulado Decíamos Ayer,  antología del XVI Encuentro de Poetas Iberoamericanos realizada por Alfredo Pérez Alencart, poeta, profesor de la Usal y director del Encuentro. Así escribe Rizolete, como anticipo:

 

 

¡Ah ese labio ardiente

esa promesa

que me vuelve hacia ti

creyente

y redimida!

 

 

 

Rizolete Fernandes  (Caraúbas,

 Río Grande do Norte, 1949). Se licenció en Sociología y desde un principio comenzó a colaborar en movimientos sociales que trabajaban por  una mayor igualdad social.

 Ahora, jubilada de su empleo en la Compañía de Desarrollo Industrial del Estado, su lucha la hace a través de la escritura. Ha publicado libros de crónicas y de ensayo histórico. En poesía tiene los siguientes títulos: Lunas Desnudas (2006), Canciones de Abril (2010) y Viento de la Tarde (Sarau das Letras / Trilce Ediciones, 2013).

 Es miembro de la Unión Brasileña de Escritores (sección de RGN) y del Instituto Cultural del Oeste Potiguar (ICOP). Todos los poemas han sido traducidos por A. P. Alencart.

 

 

ENSAYO DE VIDA

 

 

La vida

orquesta ensayando

día a día

bien un repertorio de adagios

andantes largos

movimientos de emoción

y armonía pura

 

Bien

una sinfonía desconcertante

maestría ausente

en andantinos y prestos

melodía improvisada

sin cadencia

y partitura

 

Porque la vida, la vida, la vida

esta grande orquesta

en permanente ensayo

debe ser regida equilibrando

en el extremo de los dedos

el vértigo de lo rápido

y en el alma un suave adagio

 

 

RAZONES DEL QUERER

 

 

Ella lo miró porque era nostálgico

él la percibió porque era diferente

ella fue a su encuentro queriendo cambiar él la recibió por querer ser igual ella vio espejismo como en el desierto él se hizo sed mirando el oasis ella osó alcobas desear él soñó cumbres y se sonrojó

 

y porque sus ojos fueron ansia

desde que se adivinaran en el salón

resolvieron vivir de ahí en adelante

en flagrante estado de querer

 

 

 

RECUERDOS

 

 

No necesito del silencio de la noche

ni del hueco día para inspirarme

Basta el memorar de la infancia

El bullicio de los niños

en la vegetación próxima a la casa

el buenos días del sol en la ventana

y las buenas noches rojas del crepúsculo en las casas del interior y después la luz de la luciérnaga en la botella alumbrando el patio de la hacienda los bosques verdes o cenicientos donde el mugido de las reses al vaquero anima

 

Inundación bajando por el río

el invierno después arena seca

el hondo pozo en lecho de sequía

exhalando caliente olor

al mediodía

mango dulce madurado en el árbol

júbilo de los pájaros y de los niños

la caída del caballo

cuando me quise amazona

el susto del pie bajo la mesa

encima de la sandalia nueva

preludio del primer beso

que todavía encanta

 

Sí, yo dispenso al silencio que no crea

¡quiero el alborozo de los recuerdos

donde está la poesía!

 

 

 

ORACIÓN

 

 

Señor, en aquel día

que estuviste conmigo por vez primera

yo era niña y aún no sabía

de Vuestra omnisciencia

por eso y aunque llena de candor

apenas me alborozó

Vuestra presencia

 

La segunda vez

ya adulta y distraída

era noche oscura solo noté

que me regalaste otra visita

cuando ya habías partido

dejándome incólume la vida

e inmersa en fe.

 

 

 

POSTERIDAD

 

 

La arrogancia histórica se hace verdugo

al pretender acallarle su voz

robándole el contacto con la cátedra

 

Más el tiempo vivido en la perversa

cárcel fue en Luis de León

ejercicio de saber, no adverso

 

La belleza de los campos cercanos

el silencio evocando catedrales

la rusticidad de la clausura

como reafirmación de fe

 

Y de la mazmorra  la salida  honrosa

y honrada hacia la vida activa

cantada en cantares de humildad

coro de entonces, eco en la posteridad.

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Contacto:  rizoletefernandes@ig.com.br