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Índex* – Agosto, 2013

 

E no vai e vem das pernas

Eles dançam as palavras

De uma ausência

A perda do silêncio

A música batendo

No peito ardente

De uma nota só

(Dança, Patricia Tenório, 17/08/13)

Diálogos intersemióticos, entre artes, entre línguas, entre nações no Índex de Agosto, 2013 no blog de Patricia Tenório.

Revisitando Patricia Tenório (PE) com O Grito – Abril, 2012.

¿Cuál es la verdad de la vida?Luis Raúl Calvo (Argentina).

“Poemas nus” | Marcia Barroca (MG/RJ).

Crônicas |Marly Mota (PE).

Poesie di Dario Amadei (Poesias de Dario Amadei) (Itália) | Traduzione Alfredo Tagliavia (Tradução Alfredo Tagliavia) (Itália).

Tergiversaria | Clauder Arcanjo (RN).

Canto peregrino à jerusalém celeste | Abílio Pacheco (BA/PA).

E o link para a Revista Virtual de Intersemiose – NELI (UFPE/PE): www.neliufpe.com.br/revista-intersemiose/ano-ii-n-03-janjul-2013/  

 A próxima postagem será em 29 de Setembro de 2013.

Obrigada pelas contribuições e até lá!

Patricia Tenório.

 

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Index* – August, 2013

And in the swing of legs

They dance the words

Of absence

Loss of silence

The music pounding

In the burning chest

Of one single note

(Dance, Patricia Tenório, 08/17/13)

Intersemiotic dialogues, between arts, between languages​​, between nations in the Index of August, 2013 on the blog of Patricia Tenorio.

Revisiting Patricia Tenorio (PE) with The Scream – April, 2012.

What is the true of life? | Luis Raul Calvo (Argentina).

“Naked Poems” | Marcia Barroca (MG / RJ).

Chronicles | Marly Mota (PE).

Poesie di Dario Amadei (Dario Amadei Poetry) (Italy) | Traduzione Alfredo Tagliavia (Alfredo Tagliavia Translation) (Italy).

Tergiversaria | Clauder Arcanjo (RN).

Pilgrim singing to celestial jerusalem | Abílio Pacheco (BA / PA).

And the link to the Virtual Journal of Intersemiosis – NELI (UFPE / PE): www.neliufpe.com.br/revista-intersemiose/ano-ii-n-03-janjul-2013/

The next post will be on September 29, 2013.

Thank you for the contributions and until there!

Patricia Tenorio.

Bernadete Bruto e Vinícius

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Bernadete Bruto & Vinícius no Baile como Antigamente (Recife – PE), 17/08/13. Bernadete Bruto & Vinícius in the Ball as the Old days (Recife – PE), 08/17/13.

Revisitando Patricia Tenório* – Agosto, 2013

Nesta edição, revisitamos “O Grito”, de Abril de 2012.

Link Permanente: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3514

 

O Grito** 

 

No começo foi o grito.

Anésia Pacheco e Chaves

 

            Acendo o abajur e a lâmpada queimada não ajuda a chegar ao banheiro, lavar o rosto, olhar no espelho quebrado.

            Me olhar no espelho quebrado.

            Crescem rugas no meu rosto estranho. Não pertenço a este lugar? Desde ontem vejo coisas, sinto coisas e não sei o que dizer.

            – Aceita este homem…

            Bebo um café bem forte. Tão forte o café que a garganta arrepia as amídalas, desperta as papilas.

            – … na saúde e na doença…

            Tomo um banho demorado. Faço espuma com o sabão, ensaboo o corpo inteiro à procura de mim mesma.

            – … respeitando-se…

            Que sorte ser feriado! Não preciso levar as crianças ao colégio, a roupa na lavanderia, o cachorro para passear…

            – … como seu futuro ex-marido?

            Carlos veio ontem visitar as crianças com os papéis do divórcio. Devo ler com calma, assinar com calma, consultar com calma o advogado. O advogado, olhos cor do céu.

            Um novo céu.

            Um novo dia.

           Acompanho os alunos na visita ao museu. Pedro é o maior de todos. Pedro, com seus nove anos e a cadeira de rodas.

           – Tenho superpoderes, professora!

           – Sim, temos todos superpoderes, Pedro. Você, na cadeira de rodas, pode chegar mais rápido. O Flávio, com os óculos, enxerga melhor. A Alice, o aparelho nos dentes… tão afiados os dentes da Alice. Mas não temos, nenhum de nós, o poder de desaparecer e aparecer em outro lugar… Por isso, meninos e meninas, eu na frente, porque somente eu sei o caminho!

          O caminho diferente hoje, no museu de sempre. Os quadros de sempre e ninguém me avisou, que, no meio da exposição de Gauguin, e Van Gogh, e Tarsila do Amaral, lá estava ele, impávido, silencioso, tão silencioso como sua morte certa, como se me contasse algum segredo vindo do caixão.

           – Desculpe, professora, esquecemos de avisar que esta área está reservada ao velório do Doutor Muniz.

            Não quero saber do segurança, dos quadros, dos alunos, só o morto me interessa, só o morto atravessa a sala enorme sem jardins. Por que nem os girassóis, nem a pergunta de onde somos, mas para onde iremos, Sr. Muniz? O senhor agora sabe, o senhor agora entende como tudo aconteceu. Como Carlos me deixou. Como Carlos deixou de me amar amando outra, ou será que amou outra para deixar de me amar?

            – São tão estranhos, os mortos…

            São tão estranhos, os homens… E ali me aquietei. Ao lado da viúva. (A amante?) Da filha. (Uma bastarda?) O caixão. Um homem de bigode e barbas brancas. Ele não olhava para mim. Não olhava mais ninguém. Mas, se eu me abaixasse, se por um instante escutasse, sairia o que dos seus pulmões?

            – No começo foi o grito.

            Lembro aqui, sentada, parada, com os alunos pulando ao meu redor, o segurança falando ao meu redor, que ouvi aquela frase, eu li aquela frase, no começo foi o grito, em alguma exposição. Mas o que importa agora? A arte, os artistas, os alunos, se o Sr. Muniz está morto?

            – Não conheço o Sr. Muniz.

            E a viúva (amante?), a filha (bastarda?) seguraram a minha mão. Aqueceram a minha mão como se ao defunto aquecessem, como se ao defunto quisessem fazer ressurgir e descobrir o que há do outro lado.

           – Ele é mais feliz agora.

           Saberá de tudo agora? Com a viúva e a filha em minhas mãos? Que eu traí Carlos primeiro, com o carteiro, o padeiro, o açougueiro, a amiga da sua prima. Com a prima também?

           – Era um homem muito justo.

           E a justiça, Sr. Muniz? A quem se aplicaria, a quem se gritaria pedindo o perdão?

O Grito, Edvard Munch

Óleo sobre Tela, Têmpera e Pastel, 1893

Galeria Nacional, Oslo

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* O Grito recebeu Menção Honrosa em Março de 2012 na Categoria Contos do Concurso Literário da UBE-Canoas, RS e foi publicado pelo site Interpoética (www.interpoetica.com) em 07/04/12.

¿Cuál es la verdad de la vida? – Luis Raúl Calvo

Selecionei algumas poesias cantadas, “canções urbanas” de Luis Raúl Calvo, do CD “Qual é a verdade do vivido?”…

Espero que aproveitem…

Contato: luisraulcalvo@gmail.com

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He escogido algunos poemas cantados, “canciones urbanas” de Luis Raúl Calvo, del CD “¿Cuál es la verdad de la vida?”…

Espero que disfruten…

Contato: luisraulcalvo@gmail.com

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01 Faixa 1

05 Faixa 5

08 Faixa 8

“Poemas nus”* | Marcia Barroca**

Livre voo

 

Meu deserto

desarmado dos ventos

castiga palavras soltas

estribilhos

 

canções contidas

na armadilha dos versos

redondilhas

 

Silêncios ecoam

 

Não mais escondo

minhas asas negras

Livre voo

em outras companhias

 

Multiplico fogos de artifício

em festa constante

 

O céu enche-se de estrelas

 

 

Enigma consagrado

 

A liberdade do poema

sopra no papel

fecundos enigmas

 

Casulo rompido

verso explodindo

o que sente

 

Não existe remendos

em  pele danificada

 

Desvirginada a palavra

cicatriz consagrada

no poeta

 

 

Prenhez poética

 

Com teu sêmen

lavra em meu corpo

versos profanos

 

Nutre e alimenta

minha sede de saber

 

Cúmplices no amor

 

Poemas afogados de espanto

 

 

Sentido do poema

 

Teria a poesia

violetas e vírgulas

áridas palavras

essencial sentido?

 

Não sei…

 

Quando sinto o poema

exponho o grito

 

 

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* Poemas extraídos de Poemas nus, Marcia Barroca. Rio de Janeiro: OFICINA, 2013.

** Marcia Barroca nasceu em Leopoldina/MG em 29 de outubro de 1951 e reside há 34 anos no Rio de Janeiro. Licenciada nas Literaturas: Brasileira, Portuguesa, Inglesa e Americana. Formada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Marcelina – Muriaé/MG. É membro das Academias: Poçoense de Letras e Artes, Poções/BA; Academia Brasileira de Literatura do Rio de Janeiro; Sociedade Eça de Queiroz/RJ. Membro Honorário da ALB – Mariana/MG; membro da APPERJ – Associação Profissional dos Poetas no Estado do Rio de Janeiro; membro da UBE – União Brasileira de Escritores/RJ. Publicou pela Editora Alcance/RS, em 2006, seu primeiro livro Marés e Semeaduras. Em 2009 publicou seu segundo livro, Desclausura – O verniz da unha na boca, pela mesma editora. Em 2010, o livro 50 poemas escolhidos pelo autor pela Galo Branco/RJ, que recebeu o Prêmio Henriqueta Lisboa/2012 – UBE/RJ. Em 2012, lança pela Editora Kelps/GO, Aldravias a cinco vozes, em português e espanhol, em parceria com os poetas: Edir Meirelles, Juçara Valverde, Luiz Gondim e Messody Benoliel. Também teve várias participações em Antologias. Contato: mbarroca@gmail.com

 

Crônicas | Marly Mota*

Solo de Clarineta**

 

O vento espalhava o cheiro dos jasmins

e o solo de clarineta invadia  ruas e casas ao cair da tarde.

Os jasmins vinham nos cabelos de Marieta,

Enrodilhados às tranças do seu cocó.

A prima saía, calçada afora,

dando boas-tardes aos conhecidos.

Muito amável.

Seus belos olhos azuis não disfarçavam

a  vaidade, pelo êxito de sua atividade social,

que se refletia nos caminhos da liderança política do marido,

eleito prefeito várias vezes.

Vestia-se com tons claros (o branco preferido),

suas anáguas com rendas de bilros eram passadas a ferro

por Dasdores, famosa engomadeira.

Ia à missa na matriz às dez horas aos domingos,

praticar as suas devoções religiosas com ardor.

 

Dentro e fora da igreja Marieta, presidente do Apostolado da Oração,

mandava e desmandava,  nas quermesses, nos leilões de prendas,

no  Pastoril,  atraente passatempo,          

símbolo  político do  partidarismo  local.

 

Os mais ferrenhos antagonistas da politicagem regional

participavam do folguedo e esqueciam as hostilidades mútuas.

Davam trégua aos interesses pessoais. Até relevavam

a essência do drama popular, tão brandos ficavam ao pé do tablado,

reverenciando as belas meninas bom-jardinenses, com Didi à frente,

quase sempre roubando a cena como a mestra do cordão encarnado.

 

Com Marieta, a politicagem de conflitos mesquinhos não fora além

das disputadíssimas jornadas e louvações das duas alas do pastoril.

No seu chalé, de lambrequins enroscados de bambus

e jasmins-de-madagascar,

que me parecera sempre festivo (iluminado em ocasiões especiais),

recebia os amigos juntamente com Naninha, sua enteada.

As duas tinham uma maneira muito afetuosa de acolhimento.

Na sala de visitas com vitrais coloridos nas janelas,

ouvia-se o gosto musical dos mais velhos

(os meninos adoravam rodar a manivela da vitrola)

com os discos das operetas de Franz Lehár:

“Mery Widow” e “Mazurka Azul”

Coleção de seu Vino (Etelvino Maior, avô do escritor Mário Souto Maior).

O violão também tinha vez.

Nas varandas laterais, os rapazes improvisavam serestas e batucadas.

O excelente músico Dinamérico Sedícias sempre presente.

 

O presente***

 

Numa das costumeiras viagens ao Recife, meu pai fizera-me uma bela surpresa. Trouxera-me de presente um piano alemão Essenfelder, numa bela caixa de mogno. Foi uma festa, a partir do momento da chegada do trem, lá da Estação da Great Western, com curiosos acercando-se ao desembarque.

João do Bonde, auxiliando os carregadores, comandava o traslado para a minha casa, a mesma onde morou o meu tio-bisavô, coronel Joaquim Gonçalves, na rua que ainda tem o seu nome. Já imaginava onde colocar o meu piano na sala. As minhas primas vieram correndo festejá-lo. Posto no devido lugar, Heloísa experimentando-o, tocou o belo tango Jealousie; Carmem tocou Noche de Ronda. Eu estava tão excitada, que mal tirara dele uns ligeiros acordes.

Juntara gente na calçada. O “sereno” formara-se à medida que as pessoas passavam e iam se deixando ficar. Do Recife, periodicamente, vinha o alemão seu Jorge, conhecido afinador de instrumentos do Conservatório de Música. Durante algum tempo, ocupara-se dessa tarefa.

Com o piano em casa, passei a dedicar várias horas do dia aos meus exercícios. Ganhei da minha amiga Iara Bezerra de Melo, exímia pianista do Rio Grande do Norte, um precioso álbum, Compositions by Classical Composers, que guardo até hoje.

 Heloísa me diz que alguns rapazes passam a tarde na varanda da Prefeitura, ouvindo-me tocar. Fiquei feliz e encabulada. O som do meu piano ecoava muito além do Pátio da Matriz.

 

Texto inédito na Imprensa, escrito em 1986, para um possível livro de memórias.

 

A luz de Cícero Dias****

 

            Picasso, certa vez, escreveu que a presença de Cícero Dias era necessária em Paris. Diz Mauro Mota, em crônica no Diário de Pernambuco, edição de 6 de abril de 1980: A presença de Cícero Dias é necessária em Paris, não foi por causa do período abstrato e sim através da pessoalidade. Ao invés de pedir alguma coisa, Cícero Dias dá muito de si mesmo a Paris cheia de abstracionistas universais.

            A primeira vez que, com Cícero Dias estive, em 1948, era noiva de Mauro Mota, amigo do pintor. Como, nessa época, noivos não saíam sozinhos, acompanhou-nos a prima Heloísa, que iria, logo depois, estudar em Paris. Cícero Dias realizava uma exposição dos seus quadros na Faculdade de Direito do Recife, coincidindo com a chegada de Assis Chateaubriand – comandante dos Diários Associados – grande divulgador do Brasil no exterior, trazendo de Paris um grupo de amigos, entre eles, o nosso ministro do Exterior, João Neves da Fontoura, e a duquesa de La Rochefoucauld – a ilustre dama veria o que de notável o Recife e a Paraíba, terra de Chateaubriand, exibiriam aos visitantes – o diretor do Diário de Pernambuco, Aníbal Fernandes, um apaixonado por Paris, entre os convidados, falando um francês fluente, conversava com a duquesa. Nessa época, Mauro Mota secretariava o Diário de Pernambuco. Ao evento compareceram jornalistas: Laurênio Lima, Paulo do Couto Malta, Antônio Camelo, Altamiro Cunha, Esmaragdo e Murilo Marroquim, Austro-Costa, Mário Melo, Sílvio Rabelo, Olívio Montenegro; o colecionador de artes sacras Abelardo Rodrigues, os pintores Lula Cardoso Ayres, Balthazar da Câmara, Mário Nunes, Vicente do Rego Monteiro, e professores da Faculdade – Luiz Delgado, Murilo Guimarães, Odilon Nestor, este a falar bem o francês. Lembro-me dos cartões timbrados de Odilon – Stern Graveur47, Passage-Panoramas, Paris. Dele guardo uma mensagem de agrado pela leitura do meu livro, Pátio da Matriz. Nessa noite, fui apresentada ao pintor Cícero Dias e a Gilberto Freyre, seu amigo desde a publicação do livro  Casa-Grande & Senzala. Na 1ª edição, 1933, o livro traz vinhetas e ilustrações de  Cícero.

            Os quadros de temas abstracionistas e de fantasias oníricas provocaram polêmicas no meio artístico e cultural do Recife e do País. Alguns achavam a arte de Cícero irônica e deformadora. Por essa época, o poeta mineiro Murilo Mendes dizia ser Cícero um primitivo. Mário Hélio Gomes de Lima escreveu: Cícero Dias foi o mais anti-acadêmico dos pintores brasileiros.

            Dia seguinte à exposição, Assis Chateaubriand agendara um concorridíssimo jantar no Restaurante Leite. Antes, na Pracinha do Diário, homenageando ilustre dama francesa e comitiva, houve exibição de maracatus, frevo e repentistas. Chateaubriand, admirador do poeta Ascenço Ferreira, convidou-o para, com seu vozeirão, declamar as suas poesias.

            No meu “diário”, de 21 de agosto de 1948, registrei a exposição de Cícero Dias e o festival das fantasias tropicalíssimas do diretor dos Associados, homenageando a parisiense Emée de la Rochefoucauld.

            Depois de casada com Mauro Mota, jornalista dos Diários Associados, sucederam-se outros festivais, tão ou mais notáveis, em outros estados brasileiros e em Paris. Hoje, no meu apartamento, convivo com quadros de Cícero Dias. Um deles, datado de 1948, com abstrações geométricas, à semelhança das linhas de Picasso, seu compadre, padrinho de Sílvia, única filha de Raymonde e Cícero. Sempre tivemos os Dias próximos de nós. Havia em torno do casal e das exposições de Cícero festivas demonstrações de bem-querer. Almoços e jantares eram agendados em Jundiá e no Recife, em casa dos seus numerosos amigos. Certa vez, jantando em minha casa, Raymonde e Cícero levaram um quadro meu para Paris. Ele dizia que gostava da minha pintura regionalista.

            Cícero Dias, em 1978, ilustrou, com onze desenhos, a edição comemorativa dos 25 anos do livro Elegias, de Mauro Mota, lançado na  Pool Editorial, do escritor Marco Aurélio de Alcântara. Um belo livro. Os desenhos assinados por Cícero foram distribuídos entre nossos filhos.

            Em Paris, por duas vezes, estive no ap. 123 – Rue Longchamp, no elegante 16º Distrito. A casa convidativa, o Engenho Jundiá, presente na hospitalidade, a sala com as paredes recobertas de painéis, o piso de mosaicos florentinos, o ateliê comprimido: cavaletes, mesas, incontáveis tubos de tinta e pincéis, o avental do pintor e o cafezinho brasileiro.

            Diz o poema de João Cabral: Na ilha antiga de São Luiz, / que abre em dois o Sena em Paris, / (…) Cícero, ciceroneando / todo amigo pernambucano. Lá estávamos eu e Magdalena Freyre, para um passeio a convite de Cícero, pelos jardins da Place des Vosges, a preferida de Victor Hugo. O grande escritor dizia que respirar Paris conserva a alma. Pela Rive Gauche, não resisti, entrei numa loja de pianos – uma velha paixão. Contornando o Sena, lembrei-me do poema de Ribeiro Couto, O Estrangeiro, que sei de cor. Em St-Germain-des-Près, no Deux Magots, a ver o mundo passar, gente de todos os quadrantes da terra, tomamos um cafezinho e nos despedimos do casal que fez de Paris a sua esfera ambiental. Cícero, da pintura por vocação, fez o retrato da sua vida. De táxi, voltamos ao nosso Hotel Brebant, no Boulevard Poissonière.

            A Fundação Armando Álvares Penteado, São Paulo, em 2005, editou o álbum de 300 páginas, Cícero Dias – Décadas de 20 e 30. Nele, à página 52, está o belo Soneto de Jundiá e Cícero Dias, que lhe dedicou Mauro Mota.

            Na última viagem que o pintor fez ao Recife, ficou difícil encontrar os seus amigos. Muitos deles se foram. Na comemoração do centenário do artista, 1907-2007, lembrei-me do que escreveu o poeta francês Paul Éluard: Em Paris, Cícero acende a luz do Brasil. Diz Mauro Mota que ele acendeu mesmo: lá e cá.

 

Diário de Pernambuco, 7/3/2007

           

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 (Nota Biográfica enviada e textos revisados pela autora).

*Marly de Arruda Ramos Mota nasceu no Engenho São Francisco, em Ipojuca (PE), em 1926, passou sua infância e parte da adolescência no município de Bom Jardim, no mesmo estado. Nos anos 40, transferiu-se, com a família, para o Recife, onde cursou Magistério da Escola Normal Oficial de Pernambuco. No final dessa década, conheceu o poeta, jornalista e professor Mauro Mota, com quem se casou e teve quatro filhos: Maurício, Eduardo, Sérgio e Teresa Alexandrina. Sensível às Artes e à Literatura, produziu suas primeiras telas, em estilo naïf, a partir de 1965, mesmo ano em que estreou na atividade literária, cm o livro de crônicas, Pátio da Matriz, ilustrado pelo artista plástico Lula Cardoso Ayres, publicado pela CEPE, Imprensa Oficial de Pernambuco. A partir de então, desenvolveu carreira paralela de pintora e escritora, imprimindo à sua obra um caráter lírico, sentimental e memorialístico, que remete à paisagem e aos costumes interioranos que marcaram a sua formação. Sua primeira exposição individual data de 1967, quando mostrou uma série de óleos sobre tela no Salão do Hotel São Domingos, no Recife. Desse ano até 2003, participou de diversas coletivas, em Pernambuco, no Rio de Janeiro e no Maranhão, realizando, no mesmo período, mais de vinte individuais, nesses mesmos Estados, e, ainda, em cidades de Portugal. Das mostras assinadas pela artista, destacam-se os quadros inspirados na obra de Eça de Queiroz, de Mauro Mota e de Gilberto Freyre, intitulados, respectivamente, Cenas Ecianas, Cenas Mauromotianas e Cenas Freyrianas. Colaboradora na Imprensa pernambucana, desde 1970, publicou várias crônicas no Jornal do Comércio, na Revista do Clube Internacional e no Diário de Pernambuco (de cujo quadro de articulistas faz parte, hoje, escrevendo, quinzenalmente). Como artista plástica, ilustrou diversos livros, dentre eles, O Criador de Passarinhos, de Mauro Mota, e O Recife, Sim! Recife, Não!, de Gilberto Freyre, e Gilberto e Eça na Fundação Joaquim Nabuco, coletânea publicada pela Editora Massangana, da Fundaj.  Telas suas integram dentre outros acervos: O da Galeria Metropolitana do Recife, da Academia Pernambucana de Letras, do Palácio do Governo de Pernambuco, dos Museus de Ille de France e de Laval (França), da Galeria-Biblioteca Rocha Peixoto, da Póvoa de Varzim (Portugal), da Academia Brasileira de Letras – Solar da Baronesa (Campos, RJ), do Museu do Novo México (Santa Fé, Estados Unidos), da Prefeitura Municipal de Bom Jardim, da Reitoria da Universidade Federal da Paraíba (João Pessoa). Em 1997, Marly Mota lançou seu segundo livro de crônicas, Janela, Editora Bagaço. No ano seguinte, foi eleita para a Cadeira nº 12, da Academia de Artes e Letras de Pernambuco. Em novembro de 2008, os integrantes da Academia Pernambucana de Letras elegeram-na para a Cadeira nº 29, em substituição à poetisa Maria do Carmo Barreto Campello de Mello. Em maio de 2013, foi eleita, Sócia Correspondente da Academia Luso-Brasileira de Letras, do Rio de Janeiro. Neste mesmo ano, a UBE, União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, indicou o seu nome, – “Prêmio Marly Mota” – Obra completa, concedido a talentosa escritora pernambucana, Patricia Tenório. Contato: marlym@hotlink.com.br

** Extraído de Janela, Marly Mota. Recife: Bagaço, 1997.

*** Extraído de Além do jardim, Marly Mota. Recife: CEPE, 2009.

**** Extraído de O mundo e o carrossel: crônicas, Marly Mota. Recife: CEPE, 2009.

 

Poesie di Dario Amadei* | Traduzione Alfredo Tagliavia**

Libero

Dario Amadei

  

Vidi la luce,

in un giorno di nebbia

eppure amo

l’aria cristallina.

Vecchio mi sento

fin da quando nacqui

destinato però

a giovinezza eterna.

Schiavo son della vita

ma non ho un padrone,

libero sempre

di vagare a vuoto.

 

Livre

Dario Amadei

Tradução: Alfredo Tagliavi

Revisão: Patricia Tenório

 

Vi a luz

em um dia de nevoeiro

porém amo

o ar cristalino.

Velho me sinto

desde o dia em que nasci

designado porém

à juventude eterna.

Escravo sou da vida

mas nao tenho patrão,

sempre livre

de errar no vazio.

 

Il volo

Dario Amadei

 

Conosco il senso più nascosto

di un ferro vecchio, mezzo arrugginito

e ho visto l’urlo di terrore

di certe bocche ormai

mute per sempre.

Potrei sfruttare le mie conoscenze

per dominare il mondo dalla cima,

ma non lo voglio

e nulla mi interessa

oltre a volare libero e leggero

fino a sparir nel buio della sera.

 

O voo

Dario Amadei

Tradução: Alfredo Tagliavia

Revisão: Patricia Tenório

 

Conheço o sentido mais escondido

de um ferro velho, meio enferrujado

e vi o grito apavorado

de algumas bocas

já eternamente mudas.

Poderia usar meus conhecimentos

para dominar o mundo desde acima,

mas não quero

e nada me importa

além de voar livre e leve

até desaparecer no escuro da noite.

 

Invalicabile

Dario Amadei

 

Tenti

e ritenti invano,

di liberarti

e uscire

da te stesso.

Ma ogni volta

si arresta la tua fuga

contro l’invisibile barriera

del tuo egoismo

che implacabile

ti respinge indietro.

 

Intransponível

Dario Amadei

Tradução: Alfredo Tagliavia

Revisão: Patricia Tenório

 

Tentas

e retentas em vão,

te libertar

e sair

de ti mesmo.

Mas cada vez

a tua fuga pára

diante da invisível barreira

do teu egoísmo

que implacável

te deixa atrás dele.

  

La belva

Dario Amadei

 

Non posso dominarla con fermezza,

dentro di me cresce

con violenza

e m’invade la mente

prepotente.

Mi stravolge e infuria,

graffia con l’unghie il volto,

fa paura

e tende al punto di rottura.

Ansando si sviluppa

e cresce ancora,

ma quando

la mia fine sembra giunta,

si placa all’improvviso

e si nasconde.

 

A fera

Dario Amadei

Tradução: Alfredo Tagliavia

Revisão: Patricia Tenório

 

Não posso domina-la com firmeza,

cresce dentro de mim

com violência

e invade minha mente

prepotente.

Retorce, enfurece,

arranha com as unhas o rosto,

dá medo

e tende ao ponto de ruptura.

Agitando-se, continua

e ainda cresce,

mas quando

o meu fim parece estar chegando,

se aplaca ao improviso

e se esconde.

  

È vita?

Dario Amadei

 

Dolce è il sapore,

finché non cogli il frutto.

Poi ecco lo addenti,

godi la polpa e

il succo

che ti scende in gola

e ti riempie tutto.

Poi non capisci

e il dolce si fa amaro

e sembra soffocarti.

Lo sputi e attonito

ti guardi in uno specchio.

Non sai chi sei,

che hai fatto

e dove andrai.

 

É a vida?

Dario Amadei

Tradução: Alfredo Tagliavia

Revisão: Patricia Tenório

 

Doce é o sabor,

até colher o fruto.

Depois o vais comendo,

gozando da polpa e

do suco

que desce na tua garganta

e te preenche todo.

Depois não entendes

e o doce se torna amargo

e parece te sufocar.

Cospes e atônito

Te olhas num espelho.

Não sabes quem és,

o que fizeste

e onde irás.

 

A un caro amico

Dario Amadei

 

Ma insomma, cosa vuoi?

Vendi due mobiletti

e ti dai tanta importanza,

girando per le strade

col tuo testone grigio,

gonfio come un tacchino.

Ti senti tanto grande

ma sei in realtà piccino,

come una laida mosca,

chiusa da un tappo ermetico,

in un vaso di vetro.

Ti agiti sbavando,

alzi la voce, strepiti

e consumi l’ossigeno

che presto finirà.

E allora con un tonfo

dopo un ultimo insulto

cadrai sul fondo esanime

e non farai più danni.

 

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* Dario Amadei è medico odontostomatologo e scrittore, autore di libri per ragazzi ed esperto di laboratori di lettura e scrittura creativa. Ha pubblicato “Cronache di Monterotto” (2011), Edizioni Simple; “Le vere fiabe dei fratelli Grimm” (2008) edizioni Il caso e il vento. “Un mondo migliore” (2007) e “Astutillo e il potere dell’anello” (2004) entrambi editi da Sovera Multimedia. Nel 2008 è stato inserito nell’annuario Andersen. Nel 2010 fonda, insieme ad Elena Sbaraglia, Magic BlueRay, identificando nella lettura e nella scrittura uno strumento di crescita personale, di conoscenza di sé e di scoperta di nuovi orizzonti. Nel 2012 fonda l’associazione culturale School of Dreams. Contatto: magicblueray@gmail.com  

 * Dario Amadei é médico odontostomatólogo e escritor, autor de livros infantis e especialista em oficinas de leitura e escrita criativa. Ele publicou “Crônicas de Monterotto” (2011), Edizioni Simple; “Os contos de reais dos Irmãos Grimm” (2008), Edizioni Il caso e il vento; “Um Mundo Melhor” (2007) e “Astutillo e o poder do Anel” (2004), ambos publicados pela Sovera Multimedia. Em 2008 ele foi incluído no anuário Andersen. Em 2010 ele fundou, juntamente com Elena Sbaraglia, Magic BlueRay, identificando na leitura e na escrita uma ferramenta para o crescimento pessoal, auto-conhecimento e descoberta de novos horizontes. Em 2012 ele fundou a Escola Associação Cultural dos Sonhos. Contato: magicblueray@gmail.com

**Alfredo Tagliavia è nato a Roma nel 1978. Dottore di ricerca in Pedagogia, attualmente insegnante precario, ha svolto diversi viaggi di studio in Brasile. Per i tipi della EMI ha pubblicato il libro L’eredità di Paulo Freire. Vita, pensiero, attualità pedagogica dell’Educatore del mondo (2011). Per le edizioni IPOC ha tradotto il testo del filosofo brasiliano Marco Heleno Barreto Immaginazione simbolica. Riflessioni introduttive (2012). Di prossima uscita è il suo primo libro di narrativa Un giorno qualunque (edizioni Book Publish), una raccolta di racconti a sfondo pedagogico, ambientati fra Italia e Brasile. Contatto: alftag@alice.it

** Alfredo Tagliavia nasceu em Roma em 1978. Doutor em Pedagogia, professor atualmente substituto, realizou várias viagens de estudo para o Brasil. Pela Editora EMI publicou o livro O legado de Paulo Freire. Vida, Pensamento, Educador pedagógico atual do mundo (2011). Para a Editora IPOC traduziu o texto do filósofo brasileiro Marco Heleno Barreto Imaginação simbólica. Reflexões introdutórias (2012). Prestes a ser lançado o seu primeiro livro de ficção Qualquer dia (Editora Book Publish), uma coleção de histórias curtas para a formação educacional, ambientado entre a Itália e o Brasil. Contato: alftag@alice.it

Tergiversaria* | Clauder Arcanjo**

Da dor, entenda-me, falarei apenas da noite passada,

Dos ritos adiados, dos risos quase salvos, flagrados

Nos lábios tímidos, impressos na frialdade do instante.

 

Da noite, contenho-me, falarei tão só da tarde anterior,

Dos casais enamorados, dos amores quase calmos, rescaldos

Nos olhos úmidos, egressos da banalidade do restante.

 

Da tarde, compreenda-me, falarei somente do dia pretérito,

Das sombras esgarçadas, dos luares quase calvos, cravados

Nas madrugadas ínfimas, sonhados na lealdade do amante.

 

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* Poema publicado em 11/08/2013 no Jornal O Mossoroense, Mossoró – RN.

** Clauder Arcanjo é poeta, editor e amigo das águas… Contato: clauderarcanjo@gmail.com

Canto peregrino à jerusalém celeste* | Abílio Pacheco**

bet

 

à lembrança ou reminiscência

como em “sonho imaginado”

sentimos mais branda a saudade

e estes instantes felizes

são como estar em sião

 

mas, se despertos e atentos

nos vemos, então, cercados

de tantos novos edomitas,

cuidai, Senhor, que eles

um dia se reconheçam

também em estranha terra

 

 

 

a caminho da jerusalém celeste aprendo,

enquanto lento trilho em rastros aos pés

a via abraâmica de tão remotos irmãos,

narrativas elevadas de ancestres patriarcas,

moldes de vivência de nossas tribos primevas

 

 

sade

 

a caminho da jerusalém celeste rezo

bendita eleita entre as mulheres,

madre de arcanos, de graça e de luz,

madre mia, de cristo e de todos,

 

abençoada filha da casa de david,

guia de meus sempre vossos passos,

que meu ânimo de seguir não esmoreça,

antes, nas alvoradas, flame em primo amor.

 

 

entrega

 

quão grato e ditoso hei de ser

por não me esquecer de ti,

por não dar à cerviz

a vãs danosas atitudes

e por sempre te manter

no primor de meus afetos

 

quão grato e ditoso hei de ser

tendo – dos grãos senhores

sabentes – as devidas escusas

por algum verso mal tecido,

por alguma palavra mal posta

neste meu tão leigo intento.

 

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* Poemas extraídos de Canto peregrino à jerusalém celeste, Abílio Pacheco. Belém: LiteraCidade, 2013.

 ** Abílio Pacheco nasceu em Juazeiro (BA), viveu a primeira infância em Coroatá (MA), dos 07 aos 27 morou em Marabé, e hoje reside em Belém (PA). Em Marabá, fez a maior parte dos estudos: na Escola Estadual Dr. Gaspar Vianna estudou da 5ª série ao 3º ano de Magistério; cursou Eletricidade no SENAI e Letras na UFPa. Durante a graduação teve Bolsa de Monitoria e depois de Iniciação Científica, ambas em Teoria Literária. Trabalhou como eletricista. Foi auxiliar de biblioteca ligado a Casa da Cultura por 5 anos. Escreveu para os Jornais O Correio do Tocantins e Opinião. Em Belém, fez Mestrado em Letras – Estudos Literários (UFPa). Integrou o GP Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (CEFET-PA). Atualmente é professor de Literatura na UFPA, Campus de Bragança, e cursa o doutorado em Teoria e História Literária na UNICAMP. Juntamente com a Profª Drª Tânia Sarmento-Pantoja coordena o grupo de pesquisas Estudos sobre Narrativa de Resistência (NARRARES), é membro dos GPs Estéticas, Performances e Hibridismo (ESPERHI) e Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade (LEPCON) da UFABC. Publicou Poemia (poesia) em formato semiartesanal em 1998; Mosaico Primevo (poesia) em 2008; Riscos no Barro (ensaios literários) em 2009; Em Despropósito (mixórdia) (romance) sai em 2013 pela Editora LiteraCidade. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense com sede em Marabá, Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará, Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suíça) e faz parte da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores (AVSPE). Também escreve contos e publica crônicas regularmente em seu site: www.abiliopacheco.com.br.