Posts com

Índex* – Junho, 2013

 Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão

(Traduzir-se, Ferreira Gullar)

 

A necessidade do Outro como a si mesmo no Índex de Junho do blog de Patricia Tenório.

Revisitando Patricia Tenório (PE-Brasil) com Eva & Preâmbluas.

Palavras do Mundo Inteiro – Val-David, Canadá – Maio, 2013.

La Otra Oscuridad/A Outra Obscuridade, de Luis Raúl Calvo (Argentina), traduzido por Patricia Tenório.

Nossa última aula… “A poética do ensaio”, Prof. Lourival Holanda – 17/06/13.

Sobre “Um Detalhe em H”, de Fernando de Mendonça (PE-Brasil) por Patricia Tenório.

A próxima postagem será em 28 de Julho de 2013.

Até lá!

Patricia Tenório.

 

Index* – June, 2013

 

A part of me

is crowd:

other part strangeness

and solitude

(Traduzir-se (Be translated), Ferreira Gullar)

 

The need of Other as yourself  in the Index of June in the blog of Patricia Tenório.

Revisiting Patricia Tenório (PE-Brasil) with Eva & Preâmbluas.

Words from the Entire World – Val-David, Canada – May, 2013.

La Otra Oscuridad/The Other Obscurity, from Luis Raúl Calvo (Argentina), translated by Patricia Tenório.

Our last class… “The poetic of the essay”, Prof. Lourival Holanda – 06/17/13.

About “A Detail on H”, from Fernando de Mendonça (PE-Brasil) by Patricia Tenório.

The next post will be on July 28, 2013.

See you soon!

Patricia Tenório.

 Foto Index

**

__________________________________________

* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

* Búzios, Rio de Janeiro – Brasil. Foto enviada por Angélica & Otávio Teixeira (AL/SP-Brasil). Búzios, Rio de Janeiro – Brasil. Photo sent by Angélica & Otávio Teixeira (AL/SP-Brasil).

Revisitando Patricia Tenório* – Junho, 2013

 A edição deste mês revisita uma postagem de Dezembro de 2011.

 

Eva** e Preâmbluas*** – Patricia Tenório & O Mundo – I

Link Permanente: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=2882

 

Eva

 

12/03/2011

  

A carapaça me serviu de escudo

E cada gota do ser

Seria uma forma de

Saber

Beber

A água das grandes tempestades

 

Caiu a máscara

Vesti o luto

De alguém

Que lá atrás na história

Lá onde o vento soprou

Pela primeira hora da manhã

Acendeu o fogo

Brilhou os olhos

Chamuscou lampejo

 

Medo de não encontrar

Um dia

Um ano

Mil vidas

A quem tanto busco

Nos sonhos

Nos livros

Nos rostos

Dos meus semelhantes

Tão semelhantes a mim

Que um espelho

Partiu-se em dois

 

E eu nasci

 

 

Eva

Traduzione: Patricia Tenório

Revizione: Marisa Brun****

12/03/2011

 

La corazza mi è servita di scudo

Ed ogni goccia dell’essere

Sarebbe un modo di

Sapere

Bere

L´acqua delle grandi tempeste

 

È caduta la maschera

Ho vestito il lutto

Di qualcuno

Che là dietro nella storia

Là dove il vento ha soffiato

Nella prim´ora della mattina

Ha acceso il fuoco

Ha reso gli ochi brillanti

Ha bruciato un baleno

 

Paura di non trovare  

Un giorno

Un anno

Mille vite

Chi tanto cerco

Nei sogni

Nei libri

Nelle facce

Dei miei simili

Così simili a me

Che uno specchio

Si è spezzato in due

 

Ed io sono nata

 

Preâmbluas

17/03/2011

 

A lua está

Entre a força do dragão

E o brilho da estrela

 

Passiva irá

Ascender nas vésperas

Simples, mortal

Para dourada

Nascer

Crescer

Multiplicar-se

Em morte

 

Morte das estrelas

Morte das canções

E a noite inteira

Ninar

Patricia para aqui

Patricia para lá

 

Até amanhecer em mim

O que em mim

Não há

 

Preamblunes

Traduzione: Patricia Tenório

Revizione: Marisa Brun****

17/03/2011

 

La luna è

Tra la forza di un drago

Ed il lume d´una stella

 

Passiva

Ascenderà nelle vigilie

Semplice, mortale

Per dorata

Nascere

Crescere

Moltiplicarsi

In morte

 

Morte delle stelle

Morte delle canzoni

E la notte intera

Ninnare

Patricia di qua

Patricia di là

 

Fino ad albeggiare in me

Ciò che in me

Non c`è

__________________________

* Patricia Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente se prepara para o mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Contato: patriciatenorio@uol.com.br.

** Poesia selecionada para a IV Antologia de Poetas Lusófonos, Leiria – Portugal, Dezembro de 2011 e através do V Concurso Crônica e Literatura: prêmio Ferreira Gullar (MG – Brasil) é também selecionada para a publicação Emoção Repentina, Vol. III – Outono, no prelo, lançada em Fevereiro de 2012. 

*** Poesia selecionada para a IV Antologia de Poetas Lusófonos, Leiria – Portugal, Dezembro de 2011.

**** Marisa Brun é professora do Instituto Dante Alighieri – Recife – PE. Contato: marisa_brun@libero.it

 

Palavras do Mundo Inteiro – Val-David, Canadá – Maio, 2013 – Words from the Entire World – Val-David, Canada – May, 2013

Quero prestar uma homenagem a alguns artistas que tive o prazer e honra de conhecer quando na minha participação do VII Festival Internacional de Val-David, Quebec, Canadá, em Maio de 2013.

 

I want to pay tribute to some artists I had the pleasure and honor of knowing when of my participation in the VII International Festival of Val-David, Quebec, Canada, in May 2013.

 

La sonrisa de la luna

Flavia Cosma

Extraído de “El cuerpo de la luna”, Casa Del Poeta Peruano, Lima, Peru, 2013

Traducción del rumano: Luis Raúl Calvo

 

Me estiro para recoger las estrellas

y mi brazo rejuvenece, como uma rama verde;

me inclino para besar la tierra

y mis piernas se convierten em torres de iglesias

brillando altas, transparentes, en la lejanía.

 

Esas siervas com narices dilatadas

olfatean tus huellas

arriba de los cerros, en cuevas o en la alta cumbre,

los ojos verdes, almendrados del gato, te sienten,

te ven y te oyen,

siguen tu pensamiento en el techo,

resbalan junto a ti sobre mi cama

palpando perfiles,

nidos ocultos,

a orillas de mar,

permaneciendo allí donde las ondas son más claras,

las arenas más calientes,

el cielo más azul.

 

Insensato, el corazón desea más aún,

late en el ritmo de tu sangre

que regresa de su largo viaje

entre nosotros.

 

¿Qué es lo que tu oyes y yo no puedo oir?

¿Qué es lo que tu ves y yo no veo?

 

 

O sorriso da lua

Flavia Cosma

Extraído de “El cuerpo de la luna” (“O corpo da lua”), Casa Del Poeta Peruano, Lima, Peru, 2013

Tradução para o português: Patricia Tenório

 

Me estiro para recolher as estrelas

e meu braço rejuvenesce, como um ramo verde;

me inclino para beijar a terra

e minhas pernas se convertem em torres de igrejas

brilhando altas, transparentes, na distância.

 

Essas servas com narinas dilatadas

farejam tuas pegadas

em cima dos montes, em grutas ou na alta cúpula,

os olhos verdes, amendoados do gato, te sentem,

te vêem e te ouvem,

seguem teu pensamento no teto,

resvalam junto a ti sobre minha cama

apalpando perfis,

ninhos ocultos,

às margens do mar,

permanecendo ali onde as ondas são mais claras,

as areias mais quentes,

o céu mais azul.

 

Insensato, o coração deseja mais além,

bate no ritmo de teu sangue

que regressa de sua longa viagem

entre nós.

 

Que é o que tu ouves e eu não posso ouvir?

Que é o que tu vês e eu não vejo?

 

(flaviacosma@rogers.com)

 

Mai

Louise Dupré

Extrait de “Une écharde sous ton ongle”, Éditions du Noroît, Québec, Canadá, 2004

 

 

tu as été une femme

de peu de chose

 

un ruban, une bague

trouvée dans le sable

un rire

 

qui résonnait

entre deux combats

 

tu as traversé des mers

aussi noires que ton ventre

 

seulement pour capter

le vertige d’une danse

 

commencée à l’âge où l’on croit

aimer

les hommes que l’on aime

 

tu cherches maintenant un lieu

où ton ombre ne donne

 

aucune prise à la nostalgie

 

(…)

 

Mai

Louise Dupré

Extraído de “Une écharde sous ton ongle” (“Uma lasca sob tua unha”), Éditions du Noroît, Quebec, Canadá, 2004

Tradução para o português : Patricia Tenório

 

tu foste uma mulher

de poucas coisas

 

uma fita, um anel

encontrado na areia

um sorriso

 

que ressoava

entre dois combates

 

tu atravessaste mares

tão negros quanto teu ventre

 

somente para captar 

a vertigem de uma dança

 

começada na idade onde cremos

amar

os homens que amamos

 

tu procuras agora um lugar    

onde tua sombra dá

 

nenhum espaço à nostalgia

 

(…)

 (dupre.louise@uqam.ca)

 

Elle s’avançait

Louis-Philippe Hébert

Extrait de “Vieillir”, Éditions Les Herbes Rouges, Québec, Canadá, 2011

 

Elle s’avançait

le doigt qui pontait devant elle

comme si tout son corps suivait son ongle

elle tremblait, à ce qu’il semble

de méchanceté

tellement qu’il se demandait

si elle n’allait pas s’écrouler

sous ses yeux

laissant dans les airs

à la hauteur de son cœur

un doigt accusateur

quelques secondes encore

après sa disparition

l’ongle persiste

qui s’enfonce dans sa poitrine

l’ongle qui égratigne profond

qui ouvre la peau

pour faire sortir le sang

elle n’est déjà plus là

il a beau forcer les yeux

ouvrir la bouche

comme s’il allait parler

elle n’est plus là

la sorcière de Blanche-Neige

dans un film de Disney

qui passe à la télé

un ongle resté sur sa poitrine

encore

la sensation étrange

d’avoir perdu l’image

avant que le téléviseur

ne soit fermé

 

Ela avançava

Louis-Philippe Hébert

Extraído de “Vieillir”(“Envelhecer”) , Éditions Les Herbes Rouges, Quebec, Canadá, 2011

Tradução para o português : Patricia Tenório

 

Ela avançava

o dedo que apontava diante dela

como se todo seu corpo seguisse sua unha

ela tremia, ao que se parece

com a maldade

de tal maneira que ele se perguntava

se ela não iria entrar em colapso

sob seus olhos

deixando nos ares

na altura do seu coração

um dedo acusador

alguns segundos ainda  

após sua desaparição

a unha persiste

que afunda em seu peito

a unha que arranha profundo 

que abre a pele   

para fazer sair o sangue

ela não está mais lá

ele bem forçou os olhos 

abriu a boca

como se ele fosse falar

ela não está mais lá

a bruxa de Branca de Neve

em um filme de Disney

que passa na tv

uma unha permaneceu em seu peito

ainda

a sensação estranha

de haver perdido a imagem

antes que a televisão

seja desligada

 

A Paz Quase Impossível

Reynaldo Valinho Álvares

Revista Ellipse: Textos literários canadenses em tradução, nº 84-85 – Brasil-Canadá, Frederiction NB, Canadá, 2010.

 

 

1

 

Eram tantos os gumes afiados

que retalhavam tua carne aflita,

eram tantos os gritos afogados

no sangue-oceano dessa dor maldita,

que te trancaste para sempre aos brados

e te encerraste nessa absurda cripta,

sem que possas pastar nos verdes prados,

para mugir a angústia que te agita.

Preso a algemas, correntes, cadeados,

tentas a fuga, mas quem acredita

que escaparás à pena dos forçados?

Bates nas grades mas, enquanto grita

a alma ferida por punhais irados,

o mundo inteiro te renega e evita.

 

(…)

 

 

The Nearly Impossible Peace

Reynaldo Valinho Álvares

Revue Ellipse: Textes littéraires canadiens en traduction, nº 84-85 – Brasil-Canada, Frederiction NB, Canadá, 2010.

Translation into english : Paulo da Costa

 

1

 

So many were the sharp edges

that shredded your troubled flesh,

so many were the drowned screams

in the blood-ocean of that damned pain,

that you forever barricaded yourself in shouts

and sealed yourself off inside that absurd crypt

unable to graze the green meadows

to bellow the anguish that disturbs you.

Locked to handcuffs, chains, shackles,

you attempt an escape, but who believes

that you’ll escape the sentence of the inmates?

You bang on the bars but, while

the wounded spirit in irate daggers screams,

the whole world avoids and disowns you.

(ellipsemag@gmail.com

 

Alone with the Terrible Universe

Alan Britt

Extracted from “Alone with the Terrible Universe”, CypressBooks, Rio Rico, Arizona, USA, 2011

 

My shadow

attacks

the cedar

lattice

that surrounds

the patio.

 

Lamplight

flickering thick September maples

splotches

the muscular cedar boards.

 

A dog,

a small brown and white

dog barks

across a dark sea

of crickets

all hunched together

like millions of glistening coquina shells

on a black shore.

 

 

Sozinho com o Terrível Universo

Alan Britt

Extraído de “Alone with the Terrible Universe”(“Sozinho com o Terrível Universo”), CypressBooks, Rio Rico, Arizona, EUA, 2011

Tradução para o português: Patricia Tenório

 

 

Minha sombra

ataca 

o cedro

treliça

que cerca

o pátio.

 

Luz de lâmpada

cintilando espessos bordos de Setembro

mancha

as placas de cedro muscular.

 

Um cão,

um pequeno marrom e branco 

cão late

através do escuro mar

de grilos 

todos juntos debruçados

como milhões de brilhantes conchas coquina

em uma negra costa.

 (alanbritt@comcast.net)

 

DIÁLOGOS

DIALOGUES

Foto Sorina 1

(Foto de Sorina Şuşnea. Photo from Sorina Şuşnea.)

 

To Sorina

Patricia Tenório

05/28/13

 

 

Don’t waste your time

Thinking about time

Time doesn’t care

About us

About itself

About life

 

Let it be

What it has to be

What it has to go

What it’s ment to come

 

Somehow someday

We’ll join the strings –

The real conections

The senses colections

 

Of our dreams

Of our loves

Don’t waste your time

Thinking about time

Time doesn’t care

Even about life

 

 

Para Sorina

Patricia Tenório

28/05/13

 

 

Não perca tempo

Pensando no tempo

O tempo não liga

Para nós

Para si

Para a vida

 

Deixe ser

O que tem de ser

O que tem de ir

O que tem de vir

 

De alguma maneira algum dia

Juntaremos as pontas do cordão –

As conexões reais

As coleções de sentidos

 

Dos nossos sonhos

Nossos amores

Não perca tempo

Pensando no tempo

O tempo não liga

Até mesmo para a vida

 

Breath after breath

Sorina Şuşnea 

05/29/13

Mind floating like the sun’s petals

The cry of the bird sweeps the ground

And every corner hides the light.

It is about you!

The way you want to hold 

Between fragile and cautious fingers,

Breath after breath,

The motionless steam of the forest.

Yes, the time!

Its river, swirling army of seconds,

Takes your beat and hangs it 

In the red tree.

 

 

Respiração após respiração

Sorina Şuşnea 

29/05/13

Tradução para o português: Patricia Tenório

Mente flutuando como pétalas de sol
O grito da ave varre o chão
E cada canto esconde a luz.
Trata-se de você!
A maneira que você deseja prender
Entre os dedos frágeis e cautelosos,
Respiração após respiração,
O vapor imóvel da floresta.
Sim, o tempo!
Seu rio, exército rodopiante de segundos,
Toma sua batida e a trava
Na árvore vermelha.

 (thebrightred@gmail.com)

 half-pint-of-blue-with-squeeze-of-moon-please_opt 

 (Foto de Charles P. Hayes. Photo from Charles P. Hayes.

http://charleshayes.wordpress.com/category/moon/)

 

Punctum*

Patricia Tenório**

07/06/12

 

O punctum

No meio do mundo

Mordeu minha língua

Extravasou

Meu ser imundo

Lavou-me a alma

Aquietou a calma crescente

De solidão

E dor

 

Queria ser

Aquele ponto

Onde tudo começou

Mudar o destino

Da minha humanidade

Da mãe

Do pai

 

Dos meus irmãos

Fazendo-nos ser

Família

Fazendo-nos ser

Respeito

Fazendo-nos ser

União

 

O punctum

No meio do mundo

Nunca mais será o mesmo

Nunca mais verei o mar

Tombar os braços nos meus braços

Enxugar as lágrimas de sal

Em ondas no meu rosto

Inundar o peito

De esperança

E cor

 

Para dar luz

A uma nova era

Sem laços

Sem fronteiras

Sem guerras

Nem religiões

Deus passando por mim agora

Fez tudo isso

E disse que era bom

 

 

_____________________________

* Segundo Roland Barthes em A câmara clara ((1980) em 2011, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 36), o “punctum de uma foto é esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere)”.

** www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

 

Punctum*

Patricia Tenório**

05/24/13

To Charles P. Hayes

 

The punctum

In the middle of the world

Has bit my tongue

Overflowed

My unclean being  

Washed my soul

Quieted my growing calm

Of solitude

And pain

 

I’d like to be

That point

Where everything started

Change the fate

Of my humanity

From mother

From father

 

My brothers

Making us being

Family

Making us being

Respect

Making us being

Union

 

The punctum

In the middle of the world

Never more it’ll be the same

Never more I’ll see the sea

Topple its arms into my arms

Wipe the tears of salt

In waves on my face

Flooding the chest

Of hope

And color

 

To give light

To a new era

Without ties

Without borders

No wars

Neither religions

God passing through me right now

He did all of this

And said it was good

 

 

_____________________________

* Acording to Roland Barthes in The clear camera ((1980) in 2011, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 36), the “punctum of  a photograpy is this coincidence that, in it, stings me (but that also mortifies me, hurts me)”.

** www.patriciatenorio.com.br and patriciatenorio@uol.com.br

 

 

La Otra Oscuridad* | A Outra Obscuridade* | Luis Raúl Calvo** | Tradução Patricia Tenório

La Otra Oscuridad

 

La otra oscuridad es este pacto labrado

con los sórdidos impostores.

¿Quién transformó los harapos calcinados

en la ensoñación de los dementes?

La rebelión de la piel es un atenuante

a la mentira.

Nosotros, los blancos atrincherados

en las bujías de plomo

descosemos las blusas amarillas

de la mujer amada y reciclamos su aroma

así como otros reciclan las miserias

más humanas.

Este es el estado de las cosas

la fragmentada disolución del alma

en la carne de los desenterrados.

Quizá por eso, este amor con gangrena

sacude a los amantes y nos traslada

a Notredam, allí donde el viejo jorobado

se recompone en los campanarios de plata

y vislumbra enajenado las cuentas pendientes

que en algún momento se ha de cobrar.

 

A Outra Obscuridade 

 

  

A outra obscuridade é este pacto forjado

com os sórdidos impostores.

Quem transformou os trapos carbonizados

no devaneio dos loucos?

A rebelião da pele é um atenuante

à mentira.

Nós, os brancos entrincheirados

Nos castiçais de chumbo

descosemos as blusas amarelas

da mulher amada e reciclamos seu aroma

assim como outros reciclam as misérias

mais humanas.

Este é o estado das coisas

a fragmentada dissolução da alma

na carne dos desenterrados.

Quiçá por isso, este amor com gangrena

sacode aos amantes e nos translada

a Notredam, ali onde o velho corcunda

se recompõe nos campanários de prata

e vislumbra alienado as contas pendentes

que em algum momento se há de cobrar.

 

 

La Mirada

 

Esa pesada carga del deseo
purifica la razón del violinista.
Ella sabe que el virtual descubrimiento
pasa por sus ojos
allí donde los monstruos más sagrados
atormentan el caldo del cartero.
Imperfecta y deleznable
su piel amarga restituye
al visionario de Manhattan.
Por ella, el Mar Mediterráneo ahogó la voz
del depravado, una tarde de abril
en Buenos Aires.
Esa pesada carga del deseo
transpone fechas y ciudades
heredera del silencio, el primer grito
partió de su incestuosa pupila.
Siempre fue así y ella lo intuye
desde el calvario de Otelo y Desdémona.

Una mujer en la noche
piensa como pulverizar la mirada.

 

 

O Olhar

 

Essa pesada carga de desejo
purifica a razão do violinista.
Ela sabe que o virtual descobrimento
passa por seus olhos
ali onde os monstros mais sagrados
atormentam o caldo do carteiro.
Imperfeita e desprezível
sua pele amarga restitui
o visionário de Manhattan.
Por ela, o Mar Mediterrâneo embargou a voz
do depravado, uma tarde de abril
em Buenos Aires.
Essa pesada carga do desejo
transpõe datas e cidades
herdeira do silêncio, o primeiro grito
partiu de sua incestuosa pupila.
Sempre foi assim e ela o intui
desde o calvário de Otelo e Desdêmona.

Uma mulher na noite
pensa como pulverizar o olhar.

 

IV

Pensemos un poco en nuestra infancia.
(Pensar es una forma de retornar
a lo sagrado.)

El viejo sabio decía: “Imagina que
del otro lado del portón hay otras
verdades. También, claro, otras mentiras “.

Uno regresaba pálidamente a su casa
y miraba una y otra vez ambos lados
del portón.

Ahí comprendíamos para siempre
que en realidad no hay peor estado
para el hombre, que la sospecha
que encubre otras sospechas.

  

IV

Pensemos um pouco em nossa infância.
(Pensar é uma forma de retornar
ao sagrado.)

O velho sábio dizia: “Imagina que
do outro lado do portão existe outras
verdades. Também, claro, outras mentiras “.

Alguém regressava palidamente para sua casa
e olhava uma e outra vez ambos os lados
do portão.

Então compreendíamos para sempre
que na realidade não existe pior estado
para o homem que a suspeita
que encobre outras suspeitas.

_________________________________

* Poemas extraídos de La Otra Oscuridad/A Outra Obscuridade, de Luis Raúl Calvo, tradução de Patricia Tenório, no prelo, a ser publicado no Brasil pela Sarau das Letras – RN. 

** Luis Raúl Calvo nasceu (1955) e vive em Buenos Aires, Argentina. Poeta e ensaísta. Autor e compositor de música, cantor. Licenciado em Psicologia. Dirige a Revista “Generación Abierta” (Letras-Arte-Educação) desde sua fundação em 1988, publicação “Declarada de Interesse Cultural da Cidade de Buenos Aires”, no ano 2000, pela Legislatura da Cidade Autônoma de Buenos Aires. Dirige desde 1992 o Café Literário “Antonio Aliberti”, no Café Montserrat. Desde 2007 co-dirige e produz o programa de rádio “Generación Abierta em Radio”, as terças às 17hs pela FM Cultura, 97.9 MHZ. Tem recebido diversas distinções literárias. Parte de sua obra tem sido traduzida ao inglês, francês, italiano, romeno e português. Obra publicada em poesia: Tiempo dolorosamente resignado (Edições Generación Abierta, 1989); La anunciación de la partera (Edições Correo Latino, 1992); Calles asiáticas (Editorial Plus Ultra, 1996)); Bajos fondos del alma, (Edições Generación Abierta, 2002); Belleza Nómade (Edições Generación Abierta, 2007); Nimic pentru aici, nimic pentru dincolo, Antologia Poética, em língua romena, com tradução de Flavia Cosma (Editorial Gens Latina, Romênia, 2009); Nada por aqui, nada por allá, Antologia Poética, em espanhol (Edições Generación Abierta, 2009); Profane Uncertainties (Profana Incertidumbre), Antologia Poética, em língua inglesa, com tradução de Flavia Cosma (Editorial Cervena Barva Press, Estados Unidos, 2010) e Antologia Poética, em língua francesa (Edições L’Harmattan, Paris, França, 2012). Em 2010 gravou seu primeiro álbum musical, ¿ Cuál es la verdad de lo vivido? – Canções urbanas – com temas de sua autoria e a musicalização do poema ¿ Será verdad que cuando toca el sueño?, de Gustavo Adolfo Bécquer. Contato: luisraulcalvo@gmail.com e http://www.generacionabierta.com.ar/

Nossa última aula… “A poética do ensaio”, Prof. Lourival Holanda – 17/06/2013

 12 Us Against the World*

 

(Setembro de 2012, Stade de France, Paris. O grupo de música sai do palco e vai entrando, um a um, no meio da multidão, vão se unindo em uma só voz, e vão crescendo, e crescendo, e são maiores do que si, e são um só. São “Eles contra o mundo”.)

 

Existe uma música do grupo britânico Coldplay chamada “Us against the world” que diz…

 

Oh morning come bursting, the clouds. Amen.

Lift off this blindfold let me see again

And bring back the water, let your ships roll in

In my heart she left a hole

 

A manhã vem surgindo, as nuvens. Amém.

Levante esta venda, deixe-me ver de novo.

E trazer de volta a água, deixe seus navios navegarem.

Em meu coração, ela deixou um vazio

 

“Ela deixou um vazio”… Este é o sentimento após estes 3 meses ao perceber o quanto aprendemos juntos na disciplina (“Ela”) “A poética do ensaio”**, de Prof. Lourival Holanda.

 

Aprendemos com os teóricos, com os poetas, com nós mesmos, e sempre sentindo, experimentando na pele e na alma Montaigne (01/04/13)…

 

O desejo de conhecimento é o mais natural. Experimentamos todos os meios suscetíveis de satisfazê-lo, e quando a razão não basta, apelamos para a experiência.

 

 (MONTAIGNE, Michel Eyquem de. Ensaios. 3º volume. 2ª edição. Tradução de Sérgio Milliet. Brasília: Universidade de Brasília, Hucitec, 1987, p. 348).

 

… sentindo a Poesia atravessar nosso corpo feito uma onda elétrica, os pêlos arrepiando nos versos recitados de Fernando Pessoa pelo Prof. Lourival (22/04/13)…

 

Foi um Momento

O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão de leve!…

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa Incompreendida…

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

(Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”)

 

… ou a pureza de Walter Benjamin em “Rua de Mão dupla” lida por nosso colega Paulo Carvalho (10/05/13)…

 

CRIANÇA LENDO. Da biblioteca da escola recebe-se um livro. Nas classes inferiores é feita uma distribuição. Só uma vez e outra ousa-se um desejo. Muitas vezes vêem-se livros cobiçosamente desejados chegar a outras mãos. Por fim, recebia-se o seu. Por uma semana estava-se inteiramente entregue ao empuxo do texto, que envolvia branda e secretamente, densa e incessantemente como flocos de neve. Dentro dele se entrava com confiança sem limites. Quietude do livro, que seduzia mais e mais.

 

… ou o ser contraditório que somos todos nós em Walt Whitman (01/04/13)…

 

(…)

 

O passado e o presente definham… já os enchi e esvaziei,

Passo a encher minha próxima dobra de futuro.

 

Vocês que me escutam aí em cima! Você aí… algum segredo pra me contar?

Me encare enquanto assopro o discreto poente,

Seja sincero, ninguém está te ouvindo, só vou ficar mais um minuto.

 

Me contradigo?

Tudo bem, então… me contradigo;

Sou vasto… contenho multidões.

 

(…)

 

(Walt Whitman, extraído de “Folhas da Relva – Canção de mim mesmo”)

 

… a honra e o privilégio em dividir o mesmo teto, respirar o mesmo ar de Antonio Ailton, Ricardo Nonato, Fernando de Mendonça (e tantos mais)…

 

Grande é o mundo, nós o dominaremos

com a pequenina flor salpicada de crianças

e vendavais

(Antonio Ailton)

 

Quem parte
Na promessa de voltar
Sabe ser a saudade
Um presente habitado.

(Ricardo Nonato)

 

E cresceu assim, crente de que ‘seria grande’ para ser escritor, de que ‘seria escritor’ para ser grande.

(Fernando de Mendonça)

 

Tento “trazer de volta a água” que nossos “navios navegaram”; ela se esvai no tempo, “amarele-sendo, amarele-sendo” feito a fotografia…

1 - foto

 

Obrigada Prof. Lourival, Priscila, André, Cilene, Ailton, Fernando, Márcia, Ricardo, Cassiana, Roberta, Diogo, Thiago, Hudson, Vinícius, Ingrid, Mirella, Érika, Suelany (e Paulo, e Fátima, e Álisson, e quem mais faltar!) por tudo o que vocês nos ofereceram de maneira tão e tão generosa…

 

E chegamos ao dia 10/06/13, a 14ª aula na contagem do nosso organizadíssimo André Santos.

 

Sentimo-nos sós, fazendo o que não concordamos muito em fazer, mas que o sistema nos exige (Priscila), fazendo milagres (Diogo), tentando quebrar o que é evidente porque “o evidente é perigoso” (Prof. Lourival)…

 

– O ensaio nos põe em movimento. (Prof. Lourival).

 

E este movimento que não permite “a água estagnada”, “apodrecida” você nos ensinou, Prof. Lourival, ou melhor, como tantas vezes insistiu, você nos ajudou a descobrirmos sozinhos, sem estarmos sós, porque “um a um” fomos “entrando no meio da multidão” de teóricos, na imensidão dos poéticos, na infinitude da alma dos colegas que nos “deixavam à vontade”  (Fernando) para navegar de um extremo a outro, da teoria à prática, do estudo da Literatura e Poesia à entrega a Literatura e Poesia, feito o amante se entrega nos braços do ser amado, feito nós estamos talvez não prontos, mas “maiores do que si”, e somos “um só” para dividir poemas, teorias, “ideias sempre em movimento” (Márcia) para não estagnar, “roçando o poema” (Hudson) porque ele sempre nos escapa, tentando sempre “constituir um outro agenciamento deste corpo sem órgãos” (Paulo)…

 

Supondo que digamos sim a um único instante, com isso estamos dizendo sim não só a nós mesmos, mas a toda existência. Pois não há nada apenas para si, nem em nós e nem nas coisas: e se apenas por uma única vez nossa alma tiver vibrado e ressoado de felicidade, como uma corda, então todas as eternidades foram necessárias para suscitar esse evento – e nesse único instante de nosso ‘sim’ toda eternidade terá sido aprovada, redimida, justificada e afirmada.

 

(Friedrich Nietzsche em “A vontade de potência” em “O ensaio como forma” em “Notas de Literatura I”, Theodor W. Adorno, Tradução e apresentação: Jorge M. B. de Almeida, São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2012 (2ª edição), p. 45).

 

Um até breve, um até logo, um até mais, com todo carinho e gratidão, um abraço bem, bem, bem da colega

 

Patricia Tenório.

 

 

Meu nome contém

Uma ponte intransponível

Patricia

Da pátria

Patricia

Sem pátria

 

De uma margem

A outra do rio

Não me aquieto

Não pouso os pés

 

Quero-me artista

Quero-me entranhada

Nos livros de teoria

 

Mas não me sinto

Em casa

Nem aqui

Nem acolá

 

Ou me sinto

Em casa

Quando estou inteira

Aqui

Quando me deixo banhar

Acolá

 

No rio dos outros mestres

Nas palavras

Dos poetas

Dos teóricos

Mostrando caminhos

Guiando sentimentos

 

Até me encontrar

Sozinha

Com meu nome

E nada mais

 

(Poema sem Pátria, Patricia Tenório, 06/06/13)

 

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* Todos os direitos reservados a Coldplay Live 2012.

** Disciplina “A poética do ensaio” ministrada pelo prof. dr. Lourival Holanda, no período de março a junho de 2013, no Centro de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco.

Sobre “Um Detalhe em H”*, de Fernando de Mendonça | Patricia Tenório**

 19/06/13

 

Não sei por que demoro tanto a ler certos livros. Talvez por temer um abismo, pressentir uma perda de mim, uma perda do centro, uma desestruturação de meu ser. Isso aconteceu, por exemplo, com O Mar, de John Banville. Lembro de tomar o livro por diversas vezes, trazê-lo para junto de mim, para a mesa de cabeceira, mas algo que eu adivinhava na capa, ou na orelha, ou na pequena resenha do livro me impedia de abrir a primeira página e lê-lo de um fôlego só, horas e horas sem parar, e conseguir escrever no meu diário, ainda tomada pela emoção da leitura, que “uma espécie de vazio se instala em mim”.

O mesmo ocorre com Um Detalhe em H, de Fernando de Mendonça. Este abismo que pressenti em O Mar, de John Banville, em Grandes Sertões: Veredas, de Guimarães Rosa, em O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse e, recentemente, em Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, este abismo se instaura novamente em mim. Meio que o adivinho na árvore da capa dourada do livro de Fernando, nas palavras em forma de árvore da contra capa.

Porque um livro é um objeto por inteiro, com corpo e alma, e uma boa capa traduz esta alma latente que nos chama nas prateleiras das livrarias, nas estantes da biblioteca, na mesa de cabeceira com livros empilhados até quase o teto, eles nos convidam, tentam nos seduzir, e o medo do encontro com o outro eu, tão semelhante a mim que me perderia da essência, faz com que adie e adie essa abertura da leitora a um livro.

Tomo coragem. Abro Um Detalhe em H. Leio a epígrafe de Virgínia Woolf que concorda com o meu temor, de que ali encontrarei “assombrosas significações”. Mas ler é uma atitude de entrega, uma entrega cega como se entrega ao amor, uma entrega sem umbrais, escancarada a cada página, a cada palavra, a cada sentimento cortando a alma pelas palavras de Fernando.

Hugo se apresenta para mim nu, deitado na cama. Sinto a violência e ao mesmo tempo o reconheço em Kafka e Gregor Samsa metamorfoseado em “inseto monstruoso”. Mas ao invés de Hugo-inseto, temos Hugo-espetáculo-de-lagartixa, Hugo-menor-que-lagartixa porque menor-que-um-inseto. Aqui a semelhança serve para o estranhamento. Para sentir-me “alguém com sede”, com sede da leitura, com sede da escrita que a leitura em mim provoca. Para a leitora/escritora as palavras lidas são feito botões de rosas silvestres que se expandem em meu olhar, abrem novas possibilidades, em mim são reverberadas, porque em mim ecoam os “nós” do mesmo querer.

Hugo vai registrando os detalhes que tenta apreender da vida, às vezes mais de perto, às vezes mais distante, feito de posse de uma câmera cinematográfica.  Ele tenta captar o detalhe, mas o detalhe lhe escapa, tal o presente em suas mãos. O detalhe que termina no “horizonte”, um desbravador de tempos ancestrais, quando se pensava a Terra quadrada, e o fim do mundo no fim do que a vista alcança.

Fernando plasma o tempo e o espaço na linguagem, plasma a linguagem à medida que plasma o livro, palavras aparecendo sob nossos pés assim que nossos pés tocam o chão, pois não há chão. Frases adormecidas “à beira do abismo”, à beira do horizonte, entre o acordado e o dormindo, as frases ficam ali, incompletas, esperando pelo vazio, vazio do escuro, vazio da página em branco, vazio da memória que se entrecorta de ausências, ausência de si, ausência de Hugo, ausência de Helena.

Helena completa em Hugo “algo” que “me sente”. Os “H”’s gravados na árvore amiga, cravados na árvore amiga previram o meu despojamento, as vestes retiradas de Hugo, os galhos da árvore, cortados, amputados, extraindo da leitora/escritora todos os excessos, todas as necessidades que lhe pareciam antes necessárias, mas que agora esperam por “aquele detalhe” que as cinco horas de leitura contínua, esfomeada, sedenta aguardaram, e as lágrimas colheram as dores que Fernando despertou em mim, as dores que o “deslumbrante verde” alimentou de esperança, alimentou de alegria por não me sentir mais só, por ver em Hugo, em Helena, em Ricardo, no pai Ademir, e até mesmo em tia Rosa um pedaço de Fernando, um espelho de Fernando, prismas de faces suas que não são ele, porque suas possibilidades, mas são ele, porque verdadeiras, e inteiras, e inteiro Fernando de Mendonça é em sua “nudez desinibida”.

 

Foto Detalhe 1

 

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* Sobre Um Detalhe em H, de Fernando de Mendonça, Recife: Grupo Paés, 2012. Contato: nandodijesus@gmail.com.

** Patricia Tenório é escritora desde 2004. Escreve poesias, romances, contos. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Atualmente se prepara para o mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Contato: patriciatenorio@uol.com.br.