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Índex* – Maio, 2013

 

Ainda não encontrei o que estou procurando…

(I still haven’t found what I’m looking for, U2)

Imaginem todas as pessoas dividindo o mundo inteiro…

Você pode dizer que sou um sonhador,

mas não sou o único,

espero que um dia você se junte a nós,

e o mundo viverá como um…

(Imagine, John Lennon)

Um mundo inteiro de buscas e esperanças no Índex de Maio, 2013 no blog de Patricia Tenório.

Revisitando Patricia Tenório com Essenfelder – Patricia Tenório & O Mundo II.

VII Festival Intertational des Ecrivans et Artistes de Val-David, Canada.

Poemas de Amadeu Baptista (Portugal).

Poemas de Bernadete Bruto (PE – Brasil).

Versos e Instantâneos – Luciano Bonfim (CE – Brasil).

Desesperar jamais – Mara Narciso (MG – Brasil).

Convite de Bernadete Bruto & Patricia Tenório.

Obrigada a quem participou!

A próxima postagem será em 23 de Junho, 2013.

Até lá!

Patricia Tenório.

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Index* – May, 2013

I still haven’t found what I’m looking for…

(I still haven’t found what I’m looking for, U2)

Imagine all the people sharing all the world…

You may say I’m a dreamer,

but I’m not the only one,

I hope some day you’ll join us,

and the world will live as one…

(Imagine, John Lennon)

The whole world in searchs and hopes in the Índex of May, 2013 in the blog of Patricia Tenório.

Revisiting Patricia Tenório (PE – Brasil) with Essenfelder – Patricia Tenório & The World II.

VII Intertational Festival of Writers and Artists of Val-David, Canada.

Poems from Amadeu Baptista (Portugal).

Poems from Bernadete Bruto (PE – Brasil).

Verses and Instantaneous – Luciano Bonfim (CE – Brasil).

Never despair – Mara Narciso (MG – Brasil).

Invitation from Bernadete Bruto & Patricia Tenório.

Thank you to those who participated!

The next post will be in 23rd, June – 2013.

Until there!

Patricia Tenório.

**

foto

***

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Blessed” é o meu terceiro e último exercício na NYFA. Devemos utilizar todos os recursos audio-visuais de edição, incluindo músicas, sons e imagens. Filmado em câmeras 16 mm ARRI´S. Editado em Final Cut Program. “Blessed” is my third and final exercise at NYFA. We must use all audio-visual features including editing, music, sounds and images. Filmed in 16mm ARRI’S cameras. Edited in Final Cut Program.

*** VII Festival International de Val-David, Quebec, Canada.

Revisitando Patricia Tenório* – Maio, 2013

 

Na edição deste mês, Revisito Essenfelder – Patricia Tenório & O Mundo II, de Dezembro de 2011.

Link permanente: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=2890

 

Essenfelder** – Patricia Tenório & O Mundo II 

09/05/09

 

Sobre o piano

Carrego a taça

De algum amor antigo

 

Bemóis

Sustenidos

Tenidos no abraço

Derradeiro

Contínuo

Contíguo

Cantiga de ninar

 

E o sol

Amanhecendo a calda longa

O mogno embebido

Em notas de cristal

 

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* Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br

** Participante da Antologia de Poesia sobre Música – Divina Música, Organização Amadeu Baptista, Conservatório Regional de Música de Viseu – Portugal, 2010.

VII Festival des Ecrivans et Artistes de Val-David – Canada

 

Le VIIe Festival International des écrivains et artistes

 

Palabra en el mundo VII

 

Programme du Festival

 

Le samedi 25 mai 2013

 

14.30-19.30

 

1.    Michael Mirolla (Italie/Canada)

2.    Patricia Tenorio (Brésil)

3.    Alan Britt (USA)

4.    Flavia Cosma (Roumanie/Val-David, QC)

5.    Louise Dupré (Montreal, QC)

6.    Roger Lauzon (Morin Heights, QC)

7.    Presentation  surprise

 

Pause

 

8. Edmon Khalil (Sudan/Suède)

                            9. Felicia Mihali (Roumanie/Montreal, QC)

10. Anna Louise Fontaine (Laurentides, QC)

11. Hugh Hazelton (Montreal, QC)

12. Carmen Doreal (Deux-Montagnes, QC/Roumanie)

13. Luis Raúl Calvo (Buenos Aires, Argentina)—presentation virtual

 

Le dimanche 26 Mai 2013

 

 

11.00-12.00

Modern trends in Poetry/ Tendances actuelles en poésie

Table ronde avec Alan Britt (Modern trends in Poetry USA) et Patricia Tenorio (À propos de l’ekphrasis dans la Poésie Brèsiliene) – moderateur Flavia Cosma.

 

14.30—19.30

 

1. Sandra Stephenson (Montreal, QC)

2. Jeanne Jutras (Saint-Jerôme, QC)

3. Désirée Szucsany (Lac Carre, QC/ Montreal)

4. Ljubica Milicevic (Serbie/Montreal)

5. Francine Hamelin (Val-David, QC)

6. Jeremiah Wall (Val-David, QC)

 

Pause

 

7. Louis Philippe Hébert (Saint Sauveur, QC)

8. Line Legault (Saint Sauveur, QC)

9. Claude Herdhuin (Montreal/ France)

10. Pierre Mondou (Laval, QC)

11. Antoine Gravel-Bilodeau (Lafontaine, QC)

12. Traian Gărduş (Montreal, QC/Roumanie)

13. Yvan Lévesque (Terrebonne, QC) 

 

Exposition

  

1. Ilania Abileah (Israel/ Morin Heights, QC)

2.    Carmen Doreal (Deux Montagnes/Roumanie)

3.    Sorina Susnea (Roumanie/ USA)

4.    Edmon Khalil (Suède/ Sudán)

5.    Charles P. Hayes (USA)

6.    Linda Naylor (Ste-Marguerite du Lac Masson, QC)

7.    Deborah Chapman (Argentina/Montreal, QC)

8. Ljubica Milicevic (Serbie/Montreal, QC)

 

Agapes fraternelles

 

Festival de poésie des mots du monde

VIIe édition

 

organisé par la Résidence internationale des écrivains et artistes

de Val-David

le samedi 25 mai et le dimanche 26 mai, 2013 de 14h30 a 19h30

a la Résidence

1045, rue du Renard et du Corbeau, Val-David

Avec l’appui de Conseil des arts du Canada, de L’union des écrivains du Canada et de la Ligue des poètes canadiens

En collaboration avec l’Association des auteurs des Laurentides

Avec l’appui de la municipalité de Val-David

 

Entrée libre

                 

     Veuillez communiquer avec nous à l’adresse

                                      flaviacosma@rogers.com

 

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O seguinte texto será apresentado na mesa redonda do dia 26/05/13. E será publicado na Revista Transliterra na França.

Le text suivant sera présenté dans la table ronde du jour 26/05/13. Et sera publié dans la Revue Transliterra en France.

 

Sobre a ekphrasis na Poesia Brasileira

Patricia Tenório*

03/04/13

 

Sobre a ekphrasis

O fenômeno da ekphrasis – a representação verbal de uma representação visual, ou a descrição de uma obra de arte – na literatura do Ocidente tem origem na Grécia Antiga, na descrição do escudo de Aquiles, livro 18 da Ilíada, de Homero. Outros exemplos mais próximos no tempo se seguem: na Eneida, de Virgílio, o que Aeneas vê gravado nas portas do templo de Juno, em Cartago, e nas descrições epigramáticas de pinturas e estátuas em La Galeria, de Marino.   

Os poetas românticos muito bem exploraram esse modelo, tendo como um dos principais expoentes o poema “Ode a uma urna grega”, do poeta inglês John Keats. Vale destacar no século XX a poesia portuguesa de Jorge de Sena, com o livro Metamorfoses (1963), em que ocorre uma descrição mais contemplativa, mais subjetiva.

Podemos encontrar o fenômeno ekphrásico não somente na poesia, mas na prosa de uma maneira geral. Exemplos como em Orlando Furioso, quando Ariosto descreve uma galeria de quadros criados por Merlin; ou na Espanha, com Lope de Vega, e as alusões à arte italiana em suas peças teatrais; ou em Cervantes, que utilizou afrescos e pinturas da Renascença em Dom Quixote; ou Dostoiévski em O idiota; Oscar Wilde em O retrato de Dorian Gray; entre outros. Mas o escopo do nosso estudo será o universo da ekphrasis no campo da poesia, em particular a poesia brasileira. E restringindo mais ainda, ao fenômeno ekphrásico ocorrido entre dois poetas e dois artistas plásticos num momento bem específico da arte brasileira: o Modernismo.

O movimento modernista brasileiro teve o seu ápice na Semana de Arte Moderna, que aconteceu em São Paulo em 1922. O grupo fundador, o “Grupo dos Cinco”, era formado pelos poetas Oswald de Andrade e Mário de Andrade, e pelos artistas plásticos Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Menotti Del Picchia. Na órbita desses artistas transitavam tantos outros, uns mais, uns menos, participando de um movimento genuinamente brasileiro, na tentativa de criação de uma identidade nacional, com voz e estilo próprios.

Por termos sofrido o processo colonizador, por termos uma língua que não é originalmente a nossa, por ser “impossível crer que o pensamento latino-americano possa ser autóctone”,[1] dando continuidade ao construto proveniente de Gonçalves Dias e José de Alencar, que “escreviam também para criar a literatura brasileira”,[2] o grupo modernista fez nascer uma diferente “maneira de olhar brasileira”, através da incorporação do novo no antigo – a “Antropofagia”, de Oswald de Andrade, ou “O leão é o carneiro assimilado”, de Paul Valéry.

Alguns artistas, pela proximidade física (eixo Rio de Janeiro – São Paulo) na época, tornaram-se mais conhecidos como participantes do movimento. Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Lasar Segall, Victor Brecheret, entre outros. Brasileiros ou radicados no Brasil, esses artistas tiveram seus nomes reconhecidos e lembrados na história do modernismo brasileiro. Cabe a este pequeno ensaio resgatar um pouco sobre dois artistas pertencentes ao mesmo momento histórico, mas que, como explicado anteriormente, estavam ausentes fisicamente da cena nacional. Além disso, os contextualizaremos no que mais interessa neste estudo: no fenômeno ekphrásico entre esses dois artistas e dois poetas brasileiros que lhe foram contemporâneos.

Apresentemos, agora, os atores desse cenário e o porquê de sua escolha.

 

Quem foram Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Vicente do Rego Monteiro e Cícero Dias?

Mário de Andrade

 (1893-1945)

 

Mário Raul de Morais Andrade nasceu (1893) e morreu (1945) em São Paulo (SP). Poeta, romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte e fotógrafo, um dos participantes do “Grupo dos Cinco” – fundador do movimento modernista brasileiro –, teve como principal obra Pauliceia desvairada (1922), considerada como o livro inaugural da poesia moderna brasileira. Ensaísta e musicólogo, pesquisador pioneiro no campo da etnomusicologia, criou o Departamento de Cultura e Recreação da Prefeitura do Município de São Paulo (1935), onde organizou um catálogo de músicas do Norte e Nordeste do Brasil. Recebeu no período de 1935 a 1939 o pesquisador francês Claude Lévi-Straus, que estudou sobre os povos indígenas, tendo como resultado desse trabalho o livro internacionalmente conhecido Tristes trópicos.

A música era uma constante nas obras de Mário de Andrade – músico e professor de música que foi –, quer seja pelo ritmo empregado, quer seja pela forma, especialmente no primeiro romance Amar, verbo intransitivo: idílio, cuja estrutura plasma a de uma ópera, tendo direito a contraltos, claves de sol e de fá, tons e semitons. Mas foi em Macunaíma, considerado pelo autor “como uma rapsódia, e não como um romance”, que Mário de Andrade tornou-se conhecido como o pai do “herói sem caráter”.

João Cabral de Melo Neto

 (1920-1999)

 

João Cabral de Melo Neto nasceu (1920) em Recife (PE) e morreu (1999) no Rio de Janeiro (RJ). Poeta e diplomata brasileiro, sua poética era fortemente marcada pelo rigor estético, com “poemas avessos a confessionalismos”, uso de “rimas toantes”, “dualidades antitéticas entre tempo e espaço, dentro e fora, maciço e não maciço, masculino e feminino, Nordeste (do Brasil) desértico e Andaluzia (onde residiu durante sua carreira diplomática) fértil, a caatinga desértica e o úmido Pernambucano”. Algumas de suas obras, tais como, Pedra do sono (1942), O cão sem plumas (1950), Uma faca só lâmina (1955) e Morte e vida Severina (1966) trazem na forma e no conteúdo “coisas sólidas e sensações táteis”,[3] “transformando toda a percepção em imagem de algo concreto e relacionado aos sentidos”. São palavras abundantemente encontradas em sua poesia: cana (de açúcar), pedra, osso, esqueleto, dente, navalha, faca, foice, lâmina, cortar, relógio, seco, vazio, fome, entre outros.

Vicente do Rego Monteiro

 (1899-1970)

 

Vicente do Rego Monteiro nasceu (1899) e morreu (1970) em Recife (PE). Pintor, escultor, desenhista, ilustrador, artista gráfico e poeta, iniciou seus estudos na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro (1908), seguindo com a família para Paris (1911), onde frequenta a Academie Julian e La Grande Chaumière, convivendo com artistas da Escola de Paris, entre eles, Modigliani, Léger, Braque e Gleizes. Em 1919, patrocinado por Graça Aranha, expõe no Recife, e em 1920 no Rio de Janeiro e em São Paulo “aquarelas inspiradas em lendas amazônicas”.[4] Não está presente fisicamente na Semana de Arte Moderna em São Paulo (1922) por causa do retorno à Europa (1921), mas deixa algumas telas com o também artista plástico Ronald de Carvalho, participante do movimento, telas que são expostas na primeira mostra modernista.

Monteiro participou ativamente tanto de atividades poéticas (organizando salões de poesia em Recife e Paris, recebendo o Prêmio Guillaume Apollinaire com os sonetos do livro Braussais – La Charité, 1960, fundando La Presse a Brass – com uma prensa manual edita livros de poemas de sua autoria e de outros), quanto de atividades pictóricas no Brasil e na França. Mas a sua âncora é a pintura. Mesmo assim, o crítico de arte Jacob Klintowitz ressalta na pictobiografia do artista, Vicente do Rego Monteiro: olhar sobre a década de 1960, que:

Nada é mais importante na obra de Vicente Monteiro do que a poesia. Ela não impregna a sua pintura, mas é a sua própria matéria constitutiva. O ser poético desta obra é a sua principal característica e é mais significativo como finalidade última do que a geometria, o assunto, o tema, o cromatismo, ainda que esses elementos sejam necessários para a construção de sua obra, pois ela é feita de alma e concretude. [5]

Cícero Dias

 (1907-2003)

 

Cícero Dias nasceu (1907) em Escada (PE) e morreu (2003) em Paris. Em 1920 vai para o Rio de Janeiro onde inicia o curso na Escola de Arquitetura, logo em seguida se transferindo para a Escola de Belas Artes. Conhece nesse período (1926) os artistas plásticos Di Cavalcanti e Ismael Nery, e os poetas Manuel Bandeira e Murilo Mendes.

Em 1928, após exposição patrocinada por Graça Aranha no Rio de Janeiro, viaja pela primeira vez a São Paulo e conhece os modernistas Lasar Segall e Mário de Andrade. No início do Estado Novo (1937) – ditadura do presidente da República Getulio Vargas – seu ateliê é saqueado pela polícia e é preso. Decide então mudar-se para Paris, onde trava forte amizade com Pablo Picasso.

Por causa do elemento onírico bastante presente em suas obras, sua pintura foi vinculada ao Surrealismo. As semelhanças detectadas com a pintura de Marc Chagall foram prontamente rejeitadas por Cícero Dias, que o dizia “ignorar quando começa a pintar”.[6]

O porquê da escolha dos artistas e poetas ou a ekphrasis na poesia brasileira

O crítico literário brasileiro Antonio Candido afirma que a literatura brasileira, assim como a latino-americana, é pautada na constante “tensão entre os dados locais” (“substância da expressão”) e “os modelos herdados da tradição europeia” (“forma da expressão”).[7]  

O objetivo do presente ensaio é posicionar a literatura brasileira, com seus temas originais e criativos, mas ainda dependente do modelo europeu, o que o movimento modernista veio tentar quebrar com a negação do antigo em prol do novo. A nova língua. A nova arte. Ao mesmo tempo, no Brasil, se encontrava (e ainda se encontra) uma forte disparidade política, econômica, social e cultural entre as cidades e cidadãos da região Sudeste (Rio de Janeiro, São Paulo…) e da região Nordeste (Recife, Escada…). Por isso conjugamos aqui um poeta “sulista” (Mário de Andrade) e um artista “nortista” (Cícero Dias) e um poeta e um artista “nortistas” (João Cabral de Melo Neto e Vicente do Rego Monteiro). O mais importante neste estudo é ressaltar o caráter universal da arte, quando as fronteiras das diferentes nações, regiões, expressões artísticas “retiram o véu” em favor do conhecimento perpassado na comunicação entre os signos, e a realização, da maneira mais plena possível, da experiência estética.

Mário de Andrade e Cícero Dias se conheceram em 1928, durante a exposição de Cícero patrocinada por Graça Aranha. Os estilos aparentemente diversos de Andrade (contundente) e Dias (onírico) se encontraram onde as artes confluem e falam a mesma linguagem.

O próprio Mário afirma que “entre o artista plástico e o músico está o poeta, que se avizinha do artista plástico com sua produção consciente, enquanto atinge as possibilidades do músico no fundo obscuro do inconsciente”.[8] Ora, Mário de Andrade é o “músico” que é “poeta” no momento em que se “avizinha do artista plástico” Cícero Dias, quando Mário, na mesma época que realiza uma conferência na exposição de Cícero em Escada (PE), compõe os “Poemas da Negra”.

[9]

Não sei por que espírito antigo

Ficamos assim impossíveis…

A Lua chapeia os mangues

Donde sai um favor de silêncio

E de maré

És uma sombra que apalpo

Que nem um cortejo de castas rainhas.

Meus olhos vadiam nas lágrimas.

Te vejo coberta de estrelas,

Coberta de estrelas,

Meu amor!

Tua calma agrava o silêncio dos mangues.

[10]

II

Não sei si estou vivo…

Estou morto.

Um vento morno que sou eu

Faz auras pernambucanas.

Rola rola sob as nuvens

O aroma das mangas.

Se escutam grilos,

Cricrido contínuo

Saindo dos vidros.

Eu me inundo de vossas riquezas!

Não sou mais eu!

Que indiferença enorme…

[11]

III

Você é tão suave,

Vossos lábios suaves

Vagam no meu rosto,

Fecham meu olhar.

Sol-posto.

É a escureza suave

Que vem de você,

Que se dissolve em mim.

Que sono…

Eu imaginava

Duros vossos lábios,

Mas você me ensina

A volta ao bem.

(…) [12]

Vassily Kandinsky tem o mesmo pensamento que Mário de Andrade quando declara que “uma arte pode aprender da outra o modo com que se serve de seus meios para depois, por sua vez, utilizar os seus da mesma forma”.[13] Como se a arte se manifestasse de maneiras diferentes em cada tipo de artista (pintor, poeta, romancista, escultor…), mas a essência é a mesma, apenas transmutando os meios.

Às vezes a arte se manifesta de maneiras diversas em um mesmo artista, em um mesmo indivíduo. É o que acontece em Vicente do Rego Monteiro. Com igual intensidade, Monteiro percorre a pintura, a poesia, a escultura, a edição de livros, até a produção da cachaça “Gravatá”, citada no poema representante da poesia social do Nordeste do Brasil, “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto.

(…)

– Minha pobreza tal é

que grande coisa não trago:

trago este canário da terra

que canta corrido e de estalo.

– Minha pobreza tal é

que minha oferta não é rica:

trago daquela bolacha d’água

que só em Paudalho se fabrica.

– Minha pobreza tal é

que pouco tenho o que dar:

dou da pitu que o pintor Monteiro

fabricava em Gravatá. [14]

(…)

A amizade entre Monteiro e Cabral data, aproximadamente, da época da Revista Renovação (1939), editada por Monteiro, em cuja primeira edição convida poetas tais como o próprio João Cabral, Lêdo Ivo e Willy Lewin.

[15]

Porém existem mais coincidências entre a pintura de Vicente e a poesia de João. Conforme vimos no presente estudo, Cabral possui elementos na sua poética de seca, barro, terra batida, pé no chão. E encontramos essa mesma “secura”, esse mesmo “barro” na pintura de Monteiro.

O homem da pintura de Rego Monteiro é igualmente cerâmico, como foi o protótipo da espécie, de cuja forma somos herdeiros, o pai adâmico. Talvez nenhum outro artista do século vinte tenha sido capaz de nos oferecer uma imagem tão primordial do homem. Vicente recriou o homem à semelhança do surgimento do homem no mito da criação divina, um Adão feito de barro. [16]

[17]

[18]

João Cabral dá “vida” aos mesmos personagens que Rego Monteiro quando apresenta a terra/barro de onde viemos e para onde voltaremos, a terra/barro em que os “Severinos” (nome bastante comum no agreste e no sertão do Nordeste do Brasil) têm o direito apenas na hora da “morte”.

(…)

– Esse cova em que estás,

com palmos medida,

é a conta menor

que tiraste em vida.

– É de bom tamanho,

nem largo nem fundo,

é a parte que te cabe

deste latifúndio.

– Não é cova grande,

é cova medida,

é a terra que querias

ver dividida.

– É uma cova grande

para teu pouco defunto,

mas estarás mais ancho

que estavas no mundo.

– É uma cova grande

para teu defunto parco,

porém mais que no mundo

te sentirás largo.

– É uma cova grande

para tua carne pouca,

mas à terra dada

não se abre a boca.

(…)[19]

As “coisas sólidas e sensações táteis” da poesia “concreta” e “sensacionista” de João Cabral permuta-se na pintura de Rego Monteiro, poesia que em Vicente “não impregna a sua pintura, mas é a sua própria matéria constitutiva”.

Talvez tenha sido esse o encontro, ou melhor, o “entrelugar” das manifestações poético-pictóricas de Cabral e Monteiro. E talvez tenha sido esse ser plural que o cerebral João Cabral de Melo Neto pré-sentiu e sentiu ao escrever o seguinte poema dedicado ao amigo de “pena” e “pincel” Vicente do Rego Monteiro.

[20]

 

A Vicente do Rego Monteiro

Eu vi teus bichos
mansos e domésticos:
um motociclo
gato e cachorro.
Estudei contigo
um planador,
volante máquina,
incerta e frágil.
Bebi da aguardente
que fabricaste,
servida às vezes
numa leiteira.
Mas sobretudo
senti o susto
de tuas surpresas.
E é por isso
que quando a mim
alguém pergunta
tua profissão
não digo nunca
que és pintor
ou professor
(palavras pobres
que nada dizem
de tais surpresas);
respondo sempre:
– É inventor,
trabalha ao ar livre
de régua em punho,
janela aberta
sobre a manhã.

 


                        João Cabral de Melo Neto

 

Conclusão

Sobre a ekphrasis na poesia brasileira foi escrito especialmente para o VIIº Festival Internacional de Escritores e Artistas de Val-David, Canadá. É uma oportunidade ímpar de apresentar um pouco sobre esses artistas brasileiros ainda não muito conhecidos e reconhecidos pelo mundo afora.

E o propósito é o mesmo: tentar mostrar que as diferentes artes, as diferentes línguas, culturas, nações se comunicam, e confluem, e passam de uma para a outra o “bastão do conhecimento” na busca da potencialização da experiência estética que, segundo Antonio Russi em L’Arte e Le Arti, “nas experiências normais, cada sentido contém, através do veículo da memória, todos os outros sentidos” e “em cada arte, por via da memória, todas as outras artes estão contidas”.[21]

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* Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br

(1) SANTIAGO, Silviano in NITRINI, Sandra. Literatura comparada: história, teoria e crítica. 3ª edição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010, p. 213.

(2) NITRINI, Sandra. Literatura comparada: história, teoria e crítica. 3ª edição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010, pp. 188-189.

(3) Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Cabral_de_Melo_Neto

(4) ARAÚJO, Marcelo Mattos; NEMIROVSKY, Paulina Ferreira; XAVIER, Fernando et al. in Mestres do modernismo. Coordenação editorial e introdução de Maria Alice Milliet. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundação José e Paulina Nemirovsky e Pinacoteca do Estado, 2005, p. 190. 

 (5) KLINTOWITZ, Jacob. Vicente do Rego Monteiro: olhar sobre a década de 1960. Recife: Caleidoscópio, 2012, p. XIII.

(6) ARAÚJO, Marcelo Mattos; NEMIROVSKY, Paulina Ferreira; XAVIER, Fernando et al. in Mestres do modernismo. Coordenação editorial e introdução de Maria Alice Milliet. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundação José e Paulina Nemirovsky e Pinacoteca do Estado, 2005, p. 55.

(7) CANDIDO, Antonio in NITRINI, Sandra. Literatura comparada: história, teoria e crítica. 3ª edição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010, p. 195.

(8) OLIVEIRA, Valdevino Soares de. Poesia e pintura. Um diálogo em três dimensões, São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU), 1999.  (Prismas), pp. 16-17.

(9)  DIAS, Cícero. Sem título. 1929, aquarela sobre papel, 48 x 45,5cm.

(10)  DIAS, Cícero. O Sonho. Década de 1920, aquarela e nanquim sobre papel, 72 x 51cm.

(11)  DIAS, Cícero. Repouso. Aquarela e nanquim sobre papel, 25,5 x 50cm.

(12) ANDRADE, Mário de. In ARAÚJO, Marcelo Mattos; NEMIROVSKY, Paulina Ferreira; XAVIER, Fernando et al. in Mestres do modernismo. Coordenação editorial e introdução de Maria Alice Milliet. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundação José e Paulina Nemirovsky e Pinacoteca do Estado, 2005, pp. 60-62.

(13) KANDINSKY, Vassily in OLIVEIRA, Valdevino Soares de. Poesia e pintura. Um diálogo em três dimensões, São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU), 1999. (Prismas), p. 159.

(14) MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida Severina e outros poemas para vozes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, pp. 74-75.

(15) Revista Renovação. 1939. 1ª edição.  Editores: Vicente do Rego Monteiro e Edgar Fernandes.

(16) KLINTOWITZ, Jacob. Vicente do Rego Monteiro: olhar sobre a década de 1960. Recife: Caleidoscópio, 2012, p. XIV.

(17)  MONTEIRO, Vicente do Rego. Menino Jesus. Paris, 1925. Óleo sobre tela, 60 x 45 cm.

(18)  MONTEIRO, Vicente do Rego. A mulher sentada. 1924. Óleo sobre tela, 160 x 140 cm.

(19) MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida Severina e outros poemas para vozes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, pp. 59-60.

(20)  MONTEIRO, Vicente do Rego. O Menino e os Bichos. Paris, 1925. Óleo sobre tela, 64 x 80 cm. Museu Nacional de Arte Moderna, Centro Georges Pompidou.

(21) RUSSI, Antonio in PRAZ, Mario. Literatura e artes visuais. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix. Ed. da Universidade de São Paulo, 1982, p. 58.

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À propos de l’ekphrasis dans la Poésie Brésilienne

 Patricia Tenório*

03/04/13

 

 

À propos de l’ekphrasis

Le phénomène de l’ekphrasis – la représentation verbale d’une représentation visuelle, ou la description d’une œuvre d’art – dans la littérature en Occident a ses origines dans la Grèce antique, dans la description du bouclier d’Achille, livre 18 de l’Iliade, d’Homère. D’autres exemples plus proches dans le temps se suivent: l’Enéide de Virgile, ce que Énée voit gravés sur les portes du temple de Junon à Carthage, et dans les descriptions épigrammatiques de peintures et de statues à La Galeria, de Marino.

Les poètes romantiques ont très bien exploré ce modèle, dont l’un des principaux représentants c’est le poème «Ode à une urne grecque», du poète anglais John Keats. Il convient de mentionner, dans la poésie portugaise du XXe siècle, le livre de Jorge de Sena, Métamorphoses (1963), dans lequel se produit une description plus contemplative, plus subjective.

Nous trouvons le phénomène d’ekphrasis non seulement dans la poésie, mais aussi dans la  prose en général. Des exemples tels que Orlando Furioso, où Arioste décrit une galerie d’images créées par Merlin, ou en Espagne, Lope de Vega, et les allusions à l’art italien dans ses pièces, ou Cervantes, qui a utilisé des fresques et des tableaux de la Renaissance dans Don Quichotte, ou dans L’Idiot de Dostoïevski, Oscar Wilde dans Le Portrait de Dorian Gray, entre autres. Mais la portée de notre étude est l’univers de l’ekphrasis dans la poésie, en particulier la poésie brésilienne. Et limitant encore plus, le phénomène d’ekphrasis que s’est produit entre deux poètes et deux artistes à un moment très particulier dans l’art brésilien: le Modernisme.

Le mouvement moderniste brésilien a eu son apogé lors de la Semaine d’Art Moderne, qui a eu lieu à São Paulo en 1922. Le groupe fondateur, le “Grupo dos Cinco” (“Groupe des Cinq”), a été composé par les poètes Oswald de Andrade et Mário de Andrade, et les artistes Tarsila do Amaral, Anita Malfatti et Menotti Del Picchia. Dans l’orbite de ces artistes ont transité beaucoup d’autres, certains plus, certains moins, en participant d’un mouvement genuinement brésilien dans une tentative de créer une identité nationale, avec une voix et un style propre.

Pour avoir souffert un processus de colonisation, pour avoir origenellement une langue qui n’est pas la nôtre, parce qu’il est “impossible de croire que la pensée de l’Amérique latine puísse être considérée comme autochtone”,[1] en continuant la construction provenant de Gonçalves Dias et de José de Alencar, qui “écrivaient aussi pour créer la littérature brésilienne”,[2] le groupe moderniste a donné naissance à un autre “regard brésilien”, en incorporant le nouveau à l’ancien – l’“Anthropophagie”, de Oswald de Andrade, ou “Le lion est le bélier assimilé”, de Paul Valéry.

Certains artistes, par le biais de la proximité physique (Rio de Janeiro – São Paulo) à l’époque, sont devenues plus connus en tant que participants du mouvement. Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Lasar Segall, Victor Brecheret, entre autres. Brésiliens ou étrangers vivant au Brésil, ces artistes eurent leurs noms reconnus et souvennus dans l’histoire du modernisme brésilien. Il convient a ce petit essai de sauver un peu de deux artistes appartenant au même moment historique, mais, qui comme expliqué anterieurement, étaient absents physiquement de la scène nationale. En outre, nous mettrons en contexte sur ce qui interesse le plus dans cette étude: le phénomène d’ekphrasis entre ces deux artistes et deux poètes brésiliens qui étaient contemporains.

Nous présentons maintenant, les acteurs de ce scénario et pourquoi cette choix.

 

Qui étaient Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Vicente do Rego Monteiro et Cícero Dias?

 

Mário de Andrade

 (1893-1945)

 

Mário Raul de Morais Andrade est né en 1893 et est mort en 1945 à São Paulo (SP). Poète, romancier, musicologue, historien, critique d’art et photographe, l’un des participants du “Groupe des Cinq” – fondateur du mouvement moderniste brésilien – il avait pour œuvre principale Pauliceia desvairada (Pauliceia frénétique) (1922), considéré comme le livre inaugural de la poésie moderne brésilienne. Essayiste et musicologue, chercheur pionnier dans le domaine de l’ethnomusicologie, il a créé le Departement du Loisir et Culture de la Municipalité de São Paulo (1935), où il a organisé un catalogue de musique du Nord et du Nord-Est du Brésil. Andrade a reçu entre 1935 et 1939 le chercheur français Claude Lévi-Strauss, qui a étudié les peuples indigènes, et, à la suite de ce travail, a publié le livre de renommée internationale Tristes Tropiques.

La musique a été une constante dans l’œuvre de Mário de Andrade – ayant été musicien et professeur de musique – que ce soit par le rithme employé, que ce soit par la forme, en particulier dans son premier roman Amar, verbo intransitivo: idílio (Aimer, Verbe Intransitif: Idylle), où Andrade plasma la structure d’un opéra, en ayant le droit de contraltos, clés de sol et de fa, de tons et de demi-tons. Mais c’est dans Macunaíma, considéré par l’auteur “comme une rhapsodie, et non pas comme un roman,” que Andrade a été reconnu comme le père du “héros sans caractère.”

 

João Cabral de Melo Neto

 (1920-1999)

 

João Cabral de Melo Neto est né en 1920 à Recife (PE) et est mort en 1999 à Rio de Janeiro (RJ). Diplomate et poète brésilien, sa poésie a été fortement marquée par la rigueur esthétique avec “poèmes avec aversion à confessionalismes”, en utilisant “des rimes toantes”, “dualités antithétiques entre le temps et l’espace, entre l’intérieur et l’extérieur, les massifs et les non massifs, le masculin et le féminin, le Nord-Est désertique (du Brésil) et l´Andalousie fertile (où il a résidé au cours de sa carrière diplomatique), la caatinga désertique et l’humidité de Pernambucano”. Certaines de ses œuvres, comme Pedra do sono (La Pierre du sommeil) (1942), O cão sem plumas (Le chien sans plumes) (1950), Uma faca só lâmina (Un couteau d´une seule lame) (1955) et Morte e vida Severina (Mort et Vie Severina) (1966) apportent dans la forme et le contenu “des choses solides et sensations tactiles”, “en transformant toute la perception dans l’image de quelque chose de concret et lié aux sens”.[3] Les mots que sont en abondance dans sa poésie: la canne (à sucre), la pierre, l’os, le squelette, les dents, le rasoir, le couteau, la faucille, la lame, le couper, l’horloge, le sec, le vide, la faim, entre autres.

 

Vicente do Rego Monteiro

 (1899-1970)

 

 

Vicente do Rego Monteiro est né en 1899 et est mort en 1970 à Recife (PE). Peintre, sculpteur, dessinateur, illustrateur, artiste graphic et poète, il a commencé ses études à l’Ecole Nationale des Beaux Arts de Rio de Janeiro (1908), ensuite il est allé avec sa famille à Paris (1911), où il a frequenté l’Académie Julian et La Grande Chaumière, en vivant avec des artistes de l’École de Paris, entre eux, Modigliani, Léger, Gleizes et Braque. En 1919, parrainé par Graça Aranha, il expose à Recife, en 1920, à Rio de Janeiro et à São Paulo “des aquarelles inspirées par des légendes amazoniennes”. [4] Il n’est pas présent à la Semaine d’Art Moderne de São Paulo (1922) en raison de son retour en Europe (1921), mais il laisse quelques toiles avec l’artiste Ronald de Carvalho, l’un des participants du mouvement, ces toiles seront exposées lors de la première exposition moderniste.

Monteiro a participé activement aussi bien à des activités poétiques (en organisant des salons de poésie à Recife et à Paris, en recevant le prix Guillaume Apollinaire avec les sonnets du livre BraussaisLa Charité, 1960, en fondant “La Presse a Brass” – avec une presse manuelle qui publie des livres de ses poèmes et d’autres poètes), comme à des activités picturales au Brésil et en France. Mais son point d’ancrage est la peinture. Pourtant, le critique d’art Jacob Klintowitz souligne dans la pictobiographie de l’artiste, Vicente do Rego Monteiro: olhar sobre a década de 1960 (Vicente do Rego Monteiro: regard sur les années 60), que:

Rien n’est plus important dans le travail de Vincent Monteiro que la poésie. Elle n’a pas imprégner sa peinture, mais elle est son propre matériel constitutif. L’être poétique de cette œuvre est sa principale caractéristique et il est plus important comme le but ultime que la géométrie, le sujet, le thème, le chromatisme, même si ces éléments sont nécessaires pour la construction de son œuvre, parce qu’elle est faite de l’âme et du concret. [5]

 

Cícero Dias

 (1907-2003)

 

Cícero Dias est né en 1907 à Escada (PE) et est mort en 2003 à Paris. En 1920 il est allé à Rio de Janeiro où il a commencé ses études à l’École d’Architecture; peu de temps après il s’est transferé à l’École des Beaux-Arts. Il a connu à cette période (1926) les artistes Di Cavalcanti et Ismael Nery, et les poètes Manuel Bandeira et Murilo Mendes.

En 1928, après l’exposition parrainée par Graça Aranha à Rio de Janeiro, il a voyagé pour la première fois à São Paulo et il a connu les modernistes Lasar Segall et Mário de Andrade. Au début du Estado Novo (1937) – la dictature du président Getúlio Vargas – son studio est saccagé par la police et il est emprisionné. Dias décide alors de s’installer à Paris, où il crée une solide amitié avec Pablo Picasso.

En raison de l’élément onirique très présent dans ses œuvres, sa peinture était liée au Surréalisme. Les similitudes détectées avec la peinture de Marc Chagall ont été rapidement rejetées par Cícero Dias, qui disait “le (Chagall) meconnaître lors qu’il a commencé à peindre”.[6]

La raison pour laquelle avoir choisi ces artistes et ces poètes ou l’ekphrasis dans la poésie brésilienne

Le critique littéraire brésilien Antonio Candido dit que la littérature brésilienne, ainsi que d’Amérique latine, est guidée par la constant “tension entre les données locales” (“substance de l’expression”) et les “modèles hérités de la tradition européenne” (“forme d’expression”).[7] 

Le but de ce papier est de positionner la littérature brésilienne, avec ces thèmes uniques et créatifs, mais étant encore dependente du modèle européen, où le mouvement moderniste a tenté rompre en niant l’ancien en faveur du nouveau. Le nouveau langage. Le nouvel art. En même temps, au Brésil nous avons (et nous avons encore) une énorme disparité politique, économique, sociale et culturelle entre les villes et les citoyens du Sud-Est (Rio de Janeiro, São Paulo…) et du Nord-Est (Recife, Escada…). Pour celà nous conjugeons le poète “du sud” (Mário de Andrade) et l’artiste du “nord” (Cícero Dias) et les poètes et artistes “du nord” (João Cabral de Melo Neto et Vicente do Rego Monteiro). Le plus important dans cette étude est de souligner le caractère universel de l’art, lorsque les frontières entre les différentes nations, régions,  expressions artistiques “retirent le voile” en faveur de la connaissance imprégné dans la communication entre les signes, et la réalisation, autant que possible, de l’expérience esthétique.

Mário de Andrade et Cícero Dias se sont connus en 1928, lors de l’exposition de Cícero parainée par Graça Aranha à São Paulo. Les styles apparemment divers de Andrade (caustique) et de Dias (rêveur) se sont retrouvés où les arts se réunissent et parlent la même langue.

Mário lui-même a dit que “entre l’artiste et le musicien, il y a le poète, qui s’approche de l’artiste avec sa production consciente, alors que réalise les possibilités du musicien sur le fond flou de l’inconscient”.[8] Alors, Mário de Andrade est le “musicien” qui est “poète” dans le moment ou il “s’approche de l’artiste” Cícero Dias, quand Mário donne une conférence sur l’exposition de Cícero à Escada (PE), et  compose les “Poemas da Negra” (“Poèmes de la Noire”).

 

[9]

 

Je ne sais pas pourquoi esprit antique
Nous restons ainsi impossibles…

La Lune plaque les mangroves
D’où vient une faveur du silence
Et de la marée
Tu es une ombre que je tâtonne
Comme une procession des reines chastes.
Mes yeux traînent en larmes.
Je te vois couvert d’étoiles,
Couvert d’étoiles,
Mon amour!

Ta calme aggrave le silence des mangroves.

 

[10]

 

II

Je ne sais pas “si” je suis vivant…
Je suis mort.

Un vent chaud que je suis
Fait auras de Pernambuco.
Roule roule sous les nuages
L’arôme de mangues.
On écoute les grillons,
Un cricri continu
Sortant des fenêtres.
Je m’inonde de vos richesses!
Je ne suis plus moi!

Quelle indifférence énorme…

  

[11]

 III

 

Vous êtes si douce,
Vos lèvres douces
Se promenent sur mon visage,
Ferment mon regard.

Soleil-couché.

C’est l’obscurité legère
Qui vient de vous,
Qui se dissout en moi.

Quel sommeil…

J’imaginais
Dures vos lèvres,
Mais vous m’apprenez
le retour au bien.

 

(…)[12]

 

Vassily Kandinsky a la même pensée que Mário de Andrade lorsqu’il (Kandinsky) stipule que “un art peut apprendre d’un autre la manière avec laquelle on se sert de ses moyens pour ensuite, à son tour, utiliser ses propres moyens de la même manière”.[13] Comme si l’art se manifestait différemment dans chaque type d’artiste (peintre, poète, romancier, sculpteur …), mais l’essence est la même, transmutant seulement le moyen.

Parfois, l’art se manifeste de différentes façons dans le même artiste, chez le même individu. C’est ce qui arrive à Vicente do Rego Monteiro. Avec la même intensité, Monteiro traverse la peinture, la poésie, la sculpture, l’édition de livres, et même la production de la cachaça “Gravatá”, cité dans le poème représentant de la poésie sociale du Nord-Est du Brésil, “Mort et Vie Severina”, de João Cabral de Melo Neto.

 (…)

 

– Ma pauvreté est telle
Quelle grande chose je n’apporte:
j’apporte ce canari de la terre
qui chante en continu et en cliquant.
– Ma pauvreté est telle
mon offre n’est pas riche:
j’apporte ce biscuit d’eau
qui ne se fabrique qu’à Paudalho.
– Ma pauvreté est telle
que j’ai peu à donner:
je donne du pitu que le peintre Monteiro
fabriqueait à Gravatá.[14]

 

(…)

 

L’amitié entre Monteiro et Cabral date, environ, de l’époque de la Revue Renovação (1939), éditée par Monteiro, dont la première édition il invite des poètes tels comme João Cabral lui-même, Lêdo Ivo et Willy Lewin.

[15]

Mais il y a plus de similitudes entre la peinture de Vicente et la poésie de João. Comme le montre cette étude, Cabral a des éléments en sa poétique de la sécheresse, de l’argile, de la terre batue, du pied à terre. Et nous trouvons cette même “sécheresse”, cette même “argile” dans la peinture de Monteiro.

L’homme de la peinture de Rego Monteiro est également en céramique, comme ce fut le prototype de l’espèce, dont la forme nous sommes les héritiers, le père adamique. Peut-être aucun autre artiste du XXe siècle a été capable de nous offrir une image aussi primordial de l’homme. Vicente recréé l’homme à la ressemblance de l’apparition de l’homme dans le mythe de la création divine, un Adam fait d’argile.[16]

[17]

[18]

 

João Cabral donne “la vie” pour les mêmes caractères que Rego Monteiro quand montre la terre/argile d’où nous venons et pour où nous retourneront, la terre/argile dans laquelle les “Severinos” (nom assez commun dans “l’agreste” et “le sertão” – régions rurales du Nord-Est du Brésil) ont droit seulement à l’heure de “la mort”.

(…)

 

– Cette tombe où tu es,
avec les paumes mesurée,
est la plus petite facture
que tu as pris dans la vie.
– C’est de bonne taille,
ni large ni profonde,
c’est la partie qui te convient
dans cette vaste terre.
– Ce n’est pas une grande tombe,
c’est une tombe mesurée,
c’est la terre que tu voulais
voir divisée.
– C’est une grande tombe
pour ton petit défunt,
mais tu sera plus fier
que quand tu etais dans le monde.
– C’est une grande tombe
pour ton défunt maigre,
mais plus que dans le monde
tu te sentiras large.
– C’est une grande tombe
pour ta peu de chair,
mais avec la terre donnée
on n’ouvre pas la bouche.

 

(…)[19]

 

 “Les choses solides et les sensations tactiles” de la poésie “concret” et “sensationnaliste” de João Cabral s’échange avec la peinture de Rego Monteiro, poésie dans laquelle Vicente “n’a pas imprègne sa peinture, mais c’est son propre matériel constitutif”. 

Peut-être fusse cette rencontre, ou plutôt, l’“entre-lieu” des manifestations poétique-picturales de Cabral et Monteiro. Et peut-être fusse cet être pluriel que l’intelectuel João Cabral de Melo Neto a pré-sentit et sentit en écrivant le poème suivant dédié à un ami de la “plume” et du “pinceau” Vicente do Rego Monteiro.

 

[20]

 

Pour Vicente do Rego Monteiro



J’ai vu tes animaux
apprivoisés et domestiqués:
une motocyclette
chien et chat.
J’ai étudié avec toi
un planeur,
machine volante
incertaine et fragile.
J’ai bu de la cachaça
que tu as fabriquée,
parfois servi
dans une laiterie.
Mais sourtout
j’ai senti le choc
de tes surprises.
Et c’est pour ça
que lorsque
quelqu’un me demande
ta profession
je ne dis jamais
que tu es un peintre
ou un professeur
(mots pauvres
qui ne disent rien
de telles surprises);
je réponds toujours:
– Il est un inventeur,
travaille à l’extérieur
règle à la main,
fenêtre ouverte
pendant la matinée.


                        João Cabral de Melo Neto

                                 

 

Conclusion

À propos de l’ekphrasis dans la poésie brésilienne a été écrit spécialement pour le VIIeme Festival International des Ecrivains et Artistes de Val-David, Canada. Il s’agit d’une opportunité unique d’introduire un peu sur ces artistes brésiliens que ne sont pas encore largement connus et reconnus dans le monde entier.

Et le but est le même: essayer de montrer que les différents arts, langues, cultures, nations se communiquent et se rencontrent, et passent de l’un à l’autre le “bâton de la connaissance” à la recherche de la maximisation de l’expérience esthétique qui, selon Antonio Russi en L’Art et le Arti, “dans les expériences normales, chaque sens a, par le véhicule de la mémoire, tous les autres sens” et “dans chaque art, à travers la mémoire, tous les autres arts sont contenus”.[21]

 _____________________________

 * Patricia Tenorio écrit des poésies, des romans, des comptes depuis 2004. Elle a publié sept livres: O major – eterno é o espírito (Le major – eternel est l’esprit), 2005, biographie romancée, Mention d’honneur dans les Prix littéraires la Ville de Recife (2005) ; As joaninhas não mentem (Les coccinelles ne mentent pas), 2006, fable, Meilleur Roman Étranger de l’Accademia Internazionale Il Convivio, Italie (2008); Grãos (Grains), 2007, des comptes, des poèmes et des croniques, Prix Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008) ; A mulher pela metade (La femme à moitié), 2009, fiction ; Diálogos (Dialogues), petites histoires, et D´Agostinho (D’Augustin), poèmes, 2010; Como se Ícaro falasse (Comme sIcare parlait), fiction, Prix Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), publié le 21 Novembre 2012. Elle a un blog www.patriciatenorio.com.br dans lequel elle dialogue avec différents artistes dans différentes langues. Contact: patriciatenorio@uol.com.br

 (1) SANTIAGO, Silviano in NITRINI, Sandra. Literatura comparada: história, teoria e crítica. 3ª edição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010, p. 213. SANTIAGO, Silviano in NITRINI, Sandra. Littérature Comparée: Histoire, Théorie et Critique. 3e édition. São Paulo: Maison d’Edition de l’Université de São Paulo, 2010, p. 213.

(2) NITRINI, Sandra. Literatura comparada: história, teoria e crítica. 3ª edição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010, pp. 188-189. NITRINI, Sandra. Littérature Comparée: Histoire, Théorie et Critique. 3e édition. São Paulo: Maison d’Edition de l’Université de São Paulo, 2010, pp. 188-189.

(3) Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Cabral_de_Melo_Neto

(4) ARAÚJO, Marcelo Mattos; NEMIROVSKY, Paulina Ferreira; XAVIER, Fernando et al. in Mestres do modernismo. Coordenação editorial e introdução de Maria Alice Milliet. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundação José e Paulina Nemirovsky e Pinacoteca do Estado, 2005, p. 190. ARAÚJO, Marcelo Mattos; NEMIROVSKY, Paulina Ferreira; XAVIER, Fernando et al. in Maîtres du Modernisme. Coordination éditoriale et l’introduction de Maria Alice Milliet. São Paulo: Maison d´Edition Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundation José et Paulina Nemirovsky et Pinacoteca do Estado, 2005, p. 190.

(5) KLINTOWITZ, Jacob. Vicente do Rego Monteiro: olhar sobre a década de 1960. Recife: Caleidoscópio, 2012, p. XIII. KLINTOWITZ, Jacob. Vicente do Rego Monteiro: regard sur les années 60. Recife: Maison d´Edition Caleidoscópio, 2012, p. XIII.

 (6) ARAÚJO, Marcelo Mattos; NEMIROVSKY, Paulina Ferreira; XAVIER, Fernando et al. in Mestres do modernismo. Coordenação editorial e introdução de Maria Alice Milliet. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundação José e Paulina Nemirovsky e Pinacoteca do Estado, 2005, p. 55. ARAÚJO, Marcelo Mattos; NEMIROVSKY, Paulina Ferreira; XAVIER, Fernando et al. in Maîtres du Modernisme. Coordination éditoriale et l’introduction de Maria Alice Milliet. São Paulo: Maison d´Edition Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundation José et Paulina Nemirovsky et Pinacoteca do Estado, 2005, p. 55.

(7) CANDIDO, Antonio in NITRINI, Sandra. Literatura comparada: história, teoria e crítica. 3ª edição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010, p. 195. CANDIDO, Antonio in NITRINI, Sandra. Littérature Comparée: Histoire,Tthéorie et Critique. 3e édition. São Paulo: Maison d’Edition de l’Université de São Paulo, 2010, p. 195.

(8) OLIVEIRA, Valdevino Soares de. Poesia e pintura. Um diálogo em três dimensões, São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU), 1999.  (Prismas), pp. 16-17. OLIVEIRA, Valdevino Soares de. La Poèsie et la Peinture. Un Dialogue en Trois Dimensions, São Paulo: Fundation Maison d’Edition de l’UNESP (FEU), 1999.  (Prismas), pp. 16-17.

(9)  DIAS, Cícero. Sem título. 1929, aquarela sobre papel, 48 x 45,5 cm. DIAS, Cícero. Sans titre. 1929, aquarelle sur papier, 48 x 45,5 cm.

 (10) DIAS, Cícero. O Sonho. Década de 1920, aquarela e nanquim sobre papel, 72 x 51cm. DIAS, Cícero. Le Rêve. Les années 20, aquarelle et encre sur papier, 72 x 51cm.

(11) DIAS, Cícero. Repouso. Aquarela e nanquim sobre papel, 25,5 x 50cm. DIAS, Cícero. Repos. Aquarelle et encre sur papier, 25,5 x 50cm.

 (12) ANDRADE, Mário de in ARAÚJO, Marcelo Mattos; NEMIROVSKY, Paulina Ferreira; XAVIER, Fernando et al. in Mestres do modernismo. Coordenação editorial e introdução de Maria Alice Milliet. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundação José e Paulina Nemirovsky e Pinacoteca do Estado, 2005, pp. 60-62. ANDRADE, Mário de in ARAÚJO, Marcelo Mattos; NEMIROVSKY, Paulina Ferreira; XAVIER, Fernando et al. in Maîtres du Modernisme. Coordination éditoriale et l’introduction de Maria Alice Milliet. São Paulo: Maison d´Edition Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Fundation José et Paulina Nemirovsky et Pinacoteca do Estado, 2005, pp. 60-62.

(13) KANDINSKY, Vassily in OLIVEIRA, Valdevino Soares de. Poesia e pintura. Um diálogo em três dimensões, São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU), 1999. (Prismas), p. 159. KANDINSKY, Vassily in OLIVEIRA, Valdevino Soares de. La Poèsie et la Peinture. Un Dialogue en Trois Dimensions, São Paulo: Fundation Maison d’Edition de l’UNESP (FEU), 1999.  (Prismas), p. 159.

(14) MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida Severina e outros poemas para vozes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, pp. 74-75. MELO NETO, João Cabral de. Mort e Vie Severina et d´autres poèmes pour les voix. Rio de Janeiro: Maison d’Edition Nova Fronteira, 2000, pp. 74-75.

(15) Revista Renovação. 1939. 1ª edição.  Editores: Vicente do Rego Monteiro e Edgar Fernandes. Revue Renovação. 1939. 1e edition.  Editeurs: Vicente do Rego Monteiro et Edgar Fernandes.

 (16) KLINTOWITZ, Jacob. Vicente do Rego Monteiro: olhar sobre a década de 1960. Recife: Caleidoscópio, 2012, p. XIV. KLINTOWITZ, Jacob. Vicente do Rego Monteiro: Regard sur les Années 60. Recife: Maison d´Edition Caleidoscópio, 2012, p. XIV.

(17)  MONTEIRO, Vicente do Rego. Menino Jesus. Paris, 1925. Óleo sobre tela, 60 x 45 cm. MONTEIRO, Vicente do Rego. EnfantJésus. Paris, 1925. Huile sur toile, 60 x 45 cm.

(18)  MONTEIRO, Vicente do Rego. A mulher sentada. 1924. Óleo sobre tela, 160 x 140 cm. )  MONTEIRO, Vicente do Rego. La femme assise. 1924. Huile sur toile, 160 x 140 cm.

(19) MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida Severina e outros poemas para vozes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, pp. 59-60. MELO NETO, João Cabral de. Mort e Vie Severina et d´autres poèmes pour les voix. Rio de Janeiro: Maison d’Edition Nova Fronteira, 2000, pp. 59-60.

(20)  MONTEIRO, Vicente do Rego. O Menino e os Bichos. Paris, 1925. Óleo sobre tela, 64 x 80 cm. Museu Nacional de Arte Moderna, Centro Georges Pompidou. MONTEIRO, Vicente do Rego. Le Garçon et les Animaux. Paris, 1925. Huile sur toile, 64 x 80 cm. Musée Nacional de L’Art Moderne, Centre Georges Pompidou.

(21) RUSSI, Antonio in PRAZ, Mario. Literatura e artes visuais. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix. Ed. da Universidade de São Paulo, 1982, p. 58. RUSSI, Antonio in PRAZ, Mario. Littérature et Arts Visueles. Traduction de José Paulo Paes. São Paulo: Maison d’Edition Cultrix. Maison d’Edition de l’Université de São Paulo, 1982, p. 58.

Poemas de Amadeu Baptista*

 

BILLIE HOLIDAY: SOLO

 

Não tenho mais visões, não tenho obsessões,

sigo a trompete, apenas, a ternura

é esse outro lado das coisas em que me perco

porque nada mais me chama e nada mais

revejo no lentíssimo torpor que pelas veias

senti outrora num azul imenso

que mais do que tocar-me me esvaía

no inferno do mundo e em seus ramais

de pura nostalgia, tristeza e desencanto.

Só ergo agora a voz para esquecer

e ter o olhar toldado para as coisas

que como grito lancinante escuto no silêncio

enquanto outras vozes me chamam,

outros indícios me vêm perturbar

quando pressinto a noite antiquíssima

em que se esconde a sobressaltada serenidade

do meu tempo. Nem já a sombra aguardo

ou o sentido destes brilhos espessos,

estas chamas que consomem o meu corpo

e a minha alma no mistério de tudo

e no liminar enigma que adensa nos outros

os sentidos, certa atenção venal, um desespero

que em fumos e rastros me pergunta

por esta vida que já não é minha

e no coração recebo como salvação e ruína.

Sigo a trompete, o subtil sinal da despedida.

Só ergo agora a voz para esquecer.

 

 

A NOITE DE PAVESE

 

Raras vezes me franquearam a porta

e me deixaram entrar. A febre

sitia-me a alma e quem me vê

assusta-se do aspecto do meu rosto,

esta barba por fazer onde um rouxinol

se esconde. E mais ainda assusta

a minha altura, este lugar de vertigem

e palavras poderosas, a presença

de ilimitados segredos que ninguém quer conhecer,

o estremecimento que corre nos meus ombros.

Embora nada peça, sabem que sou um pedinte.

E quando entro nas casas os meus gestos

afeiçoam-se a alguma coisa enigmática

que contorna o pavor e o entrega

por não se saber que espécie de vida ou de morte

vem comigo. Obviamente, eu abençoo

quem me deixa entrar, dou a entender

que alguma coisa brilha nas minhas mãos

e posso matar a fome com uma ou outra palavra

próxima do amor, um dedo nos cabelos

de quem me recebe. Subi as escadas que vão dar a esta casa

em silêncio e em silêncio aceitei que me aguardassem

com as inefáveis sombras que vejo nos outros

e tento decifrar para meu contentamento.

Mandaram-me sentar e deram-me de beber.

Esse álcool reconfortou-me a alma.

E a minha gratidão expressa-se deste modo, limpo

e nítido, observando a mulher nesse sem fim

das coisas, onde todos os mistérios avançam

para uma explicação que a qualquer momento

pode irromper do espírito como uma explosão.

Olho-te nos olhos e recebo as duas moedas

que me ofereces, o teu rosto é-me familiar

se recuar à infância e subitamente perceber

que também pertenci ao exercício desta árvore

que nesta sala se levanta. Em frente,

na fotografia que o meu olhar alcança

porque me alcança o olhar que dela se desprende,

inscreve-se o enigma que me fez aqui chegar,

mais que um rumor ou um fio ténue

com o nome de todas as coisas inesperadas

que me aconteceram na vida, sempre

que me franquearam a porta e me deixaram entrar.

Agora, com a memória de ter estado em tua casa

e ter recebido a graça de alguma atenção,

eu, que sou pedinte embora nada peça,

entrego-te este sulco da desordem

sobre a página em branco e agradeço-te

com o conhecimento de um outro mundo

ainda mais inexplicável.

Não tendo havido despedida, sabe que permaneço

e na encruzilhada das dores que me couberam viver

não esquecerei o teu nome no dia em que também tiver partido

e mais nenhuma luz houver além daquela

que ilumina o teu rosto na solidão da noite.

Os anjos esperam-me. Não me é possível demorar.

Que me seja a alba a tua tolerância.

 

 

INTERVALO PARA LEONARD COHEN

 

E o mistério? Ainda transfiguramos

o mistério no rastro inacessível da verdade,

ainda trocamos o crepúsculo por outra linha fugaz

no horizonte ígneo? A sombra fugitiva

que habita o nosso corpo, a alma,

a insegura alma de existirmos?

 

Nascem e morrem, as cidades,

sucedem-se os dias, as estações, os anos,

esfuma-se o tempo, foge entre os dedos a vida

que nos religa à fuga uma outra vez ainda,

a solidão ameaça, procura-nos a morte

com o medo de querermos instintivamente resistir,

a verdade efémera, o amor.

 

Outro cigarro?

 

Outro mistério, ainda,

na auréola de fumo sobre as cabeças

–  e o mistério, a que devastação conclama?

 

O destino das coisas, o mundo de instantes

à deriva?   

____________________________

Amadeu Baptista nasceu no Porto, a 6 de Maio de 1953. Publicou até à data mais de três dezenas de livros de poesia, o último dos quais foi ‘Atlas das Circunstâncias’, em 2012. Recebeu vários prémios literários, entre os quais destaca o Prémio Teixeira de Pascoaes, em 2004, pelo livro ‘Paixão’ e o Prémio Espiral Maior, atribuído em Espanha ao seu livro ‘Açougue’, publicado em Portugal em 2012. Tem colaboração dispersa em jornais, revistas, livros colectivos e antologias nos seguintes países: Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, E.U.A. Espanha, França, Grã-Bretanha, Itália, Luxemburgo, México, Portugal, Roménia e Uruguai. Alguns dos seus poemas foram traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, hebraico, italiano, inglês e romeno.

Poemas* de Bernadete Bruto**

 

CERTA FRAGILIDADE

 

Algumas vezes

falta-me aquele ombro

onde possa descansar

encostar a cabeça

depois da labuta.

 

Certos momentos

um abraço

para sentir-me segura.

Acolhida!

 

Tantas vezes

um beijo carinhoso

e um corpo gostoso

para me fundir na humanidade

e entregar sem reservas

toda essa fragilidade!

 

 

ALMA VIAJANTE

 

Quando surge a saudade de alguém

Meu coração não cabe neste apartamento

É só lamento!

Falta espaço na casa

Não encontro paradeiro

Sinto-me água numa represa

Presa em tanta incerteza

Na varanda para fora

uma alma para o alto

ampliada inteira

onde só se encontra consolo

ao contemplar as estrelas!

 

VERSOS AMENOS

 

Ainda escreverei

Versos desencanados

Engraçados

Porque a vida é assim!

No geral

Há muita graça

No particular

Fica a desgraça

Sem sentido

Tudo enrustido

Inventado

Porque no certo

Na verdade

Tudo é belo a fluir

E é tão simples

E tão banal

Que dá vontade de rir!

_______________________

* Poemas extraídos de Um coração que canta, Bernadete Bruto. Recife: Comunigraf, 2011.

** Bernadete Bruto  é  poetisa, cantora, atriz… e uma grande amiga! Contato: bernabruto@hotmail.com

Versos e Instantâneos* | Luciano Bonfim**

 

Você sabe que eu sou inconstante no meu trabalho,

e que este furor de pintar pomares não durará para sempre.

Vincent Van Gogh

[Cartas a Théo (474)]

 

ALITERAR VERSOS

20/60

  

1/3

  

Passear pela praia

Rever ruas, relvas

Reunir reinos: reinar

  

8/24

 

Boca beija bem

Peito prossegue pulsante

Quero querência: quede?

  

20/60

 

Livro: longa liberdade

Prosseguir paisagens, pensamentos

Pairar pelas palavras

  

INSTANTÂNEOS

  

INSTANTÂNEO/08

[FENÔMENOS DA NATUREZA HUMANA]

 

Para um espaço frio, dois corpos quentes.

 

__________________________

* Textos extraídos de Aliterar versos 20/60 + alguns instantâneos, Luciano Bonfim. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2013.

** Luciano Bonfim é Poeta, Mestre em Educação pela Faced/UFC e Professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA. Contato: lucianogbonfim@gmail.com

“Desesperar jamais”! (Ivan Lins) | Mara Narciso

05/05/13

            As grandes perdas, as imensas lacunas naturalmente levam a pessoa ao desespero. Quando se perde a esperança, o dicionário não tem palavras necessárias para descrever o que se sente. A palavra dor é a primeira que vem à mente, seguida de adjetivos hiperbólicos. Outros substantivos aparecem amarrados ao desespero como pavor, outro bem graduado em termos de sofrimento.

            Para que falar de desespero se diz o ditado que “a esperança é a última que morre”? Ele chega depois da morte, quando tudo já terminou, mas ainda é preciso passar pelo calvário dos mortos-vivos. Alguém ou alguma coisa se foi para sempre, e a vontade é sair por aí andando, andando, sem destino, e vai mesmo, com o olhar perdido, em total desamparo buscando algo que não existe mais, ou que não vai voltar nunca mais.

            Desespero é um buraco sem fundo, um abismo, uma escuridão, um inferno. É estar solto no ar, com as pernas correndo no vácuo. A dilaceração percorre o corpo e para no coração, o destrói e depois corre pelos braços e pernas, rasgando suas carnes. Nesta fase, não há como escapar, mas é a única vontade que se tem: fugir de si mesmo, ficar fora da realidade, torcer para que seja um pesadelo e que se possa acordar.

            Caso a dor persistisse na sua força inicial, levaria o sofredor à morte, mas a natureza tem recursos e a agonia vai abrandando, até se tornar suportável. As defesas são disparadas, a mente lança mão de recursos mentais, de ferramentas psíquicas, e a sobrevivência torna-se possível. Mas o sofrimento psicológico pode ser eterno.

            O que dizem os amigos, quando a eles se recorre para chorar em busca de uma palavra de conforto, de esperança? Bem intencionados, falam palavras soltas ao vento, frases prontas, que se não atrapalham, pouco ajudam. A intenção é consolar, mas nas perdas sem medidas, nada adianta. A ferida sangrante vai formando seu coágulo, a sangria vai se estancando, depois, num processo inflamatório ocorre a granulação, e pouco a pouco, com a lentidão dos males do amor, a ferida se fecha. A cicatriz jamais se apaga.

            A insônia faz o sofrimento ser mais atroz. É preciso vivê-lo momento a momento, sem intervalo, até amadurecê-lo. Quando as forças já se esgotaram, a cabeça aprende a suportar, e a vida continua, porém, esburacada e sem luz.

            Que tipo de perdas leva ao desespero? O campeão hors concours é a morte de um filho, especialmente em morte trágica. Para isso não tem remédio nem conserto, só lágrimas. A perda por morte de outras pessoas, pai e mãe, ou outros parentes e amigos tem seu poder destruidor. A perda de um amor, o simples abandono ou a troca da sua pessoa por outra rende livros, filmes e textos. Perdas materiais podem levar ao desespero, visto em rede nacional quando há enchentes, seca, incêndios, terremotos ou outros fenômenos.

            Há essa triste mania humana de juntar pessoas e coisas ao seu redor, tolamente pensando que aquilo, coisa e gente, podem pertencer a alguém. Estamos de passagem, e pagam-se caro pela ingenuidade quando o bem ou pessoa desaparece, restando nada, e quando muito, uma lembrança que, se no caso de gente pode consolar, no caso de coisa atormenta.

            Outro gosto humano é se acostumar com situações privilegiadas e quando vem a perder a condição, cair em desespero. Entra aí poder, fama, dinheiro, beleza física, juventude, força, tudo misturado. Outra fonte de sofrimento é a perda da saúde, da autonomia, da independência, com destaque para o aparecimento de invalidez física ou mental. As perdas poderão ser súbitas nuns casos e lentas noutros, mas ainda assim, privações e dores. Pior é quando se perde pássaros no ar, ilusões, algo que poderia ser seu e nem chega a sê-lo: uma conquista amorosa, o título de um campeonato ou de beleza, uma vitória eleitoral. Mesmo com altos investimentos, essas dores menores entram como frustração e não chegam a desespero.

            O sal, desde os tempos imemoriais, cura feridas. A salmoura arde, desinfeta, estimula a cicatrização, impede infecções e reabilita. É por isso que as lágrimas salgadas aliviam. À medida que o choro molha a face, vai lavando a ferida da alma, e o buraco fundo vai ficando raso, a dor se ameniza, aparece a luz e a esperança retorna. O sofrimento fica guardado, escondido num canto. Como seres adaptáveis, aqueles que têm o privilégio da sabedoria aprendem logo a viver, atingem rápido esse estágio, acham outros derivativos e novas razões para continuar. Levantam e andam em busca do seu destino.

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* Mara Narciso é médica e cronista. Contato: yanmar@terra.com.br

Convite Bernadete Bruto & Patricia Tenório

 

A Rede de Integração das Academias de Letras do Nordeste & União Brasileira de Escritores de Pernambuco (UBE-PE) convidam

FESTIVAL RIOMAR DE LITERATURA PERNAMBUCANA

Local: Auditório Eva Herz 

      Livraria Cultura

Shopping Riomar

Data: 05/06/13

Horário: 18h00 – 19h00

Coordenação: Bernadete Bruto

Participação: Patricia Tenório

Com leitura de poemas de D’Agostinho