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Índex* – Abril, 2013

Morri pela beleza, mas estava apenas

No sepulcro acomodada

Quando alguém que pela verdade morrera

Foi posto na tumba ao lado.

 

Perguntou-me, baixinho, o que me matara:

“A Beleza”, respondi.

“A mim, a Verdade – são ambas a mesma coisa,

Somos irmãos.”

 

E assim, como parentes que certa noite se encontram,

Conversamos de jazigo a jazigo,

Até que o musgo alcançou nossos lábios

E cobriu os nossos nomes.

(Poemas escolhidos, Emily Dickinson,

Seleção, Tradução e Introdução de Ivo Bender, Porto Alegre: L&PM, 2008)

 

Beleza, Poesia e Amor a caminho no Índex de Abril, 2013 do blog de Patricia Tenório.

Revisitando Sans nom (2011) e Contradições (2010), de Patricia Tenório (PE – Brasil).

Um Convite de Flavia Cosma (Canadá) & Patricia Tenório.

Arte, Poesia & Cidade de Almandrade (PR – Brasil).

E toda a Poesia de Rita de Cássia Amorim de Andrade (PI – Brasil), Antonio Ailton dos Santos (MA – Brasil), Circuito Poético de Xique-Xique (BA – Brasil), Ricardo Nonato (BA – Brasil), Clauder Arcanjo (RN – Brasil) & Orley Almeida (PB/PE – Brasil). 

Próxima postagem: 26 de Maio de 2013.

Obrigada a todos que participaram e até breve!

Patricia Tenório.

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Index* – April, 2013

I died for Beauty – but was scarce

Adjusted in the Tomb

When One who died for Truth, was lain

In an adjoining Room –

 

He questioned softly “Why I failed”?

“For Beauty”, I replied –

“And I – for Truth – Themself are One –

We Brethrem, are”, He said –

 

And so, as Kinsmen, met a Night –

We talked between the Rooms –

Until the Moss had reached our lips –

And covered up – our names –

(Poemas escolhidos (Chosen poems), Emily Dickinson,

Selection, Traduction and Introduction by Ivo Bender, Porto Alegre: L&PM, 2008)

Beauty, Poetry and Love coming in the Index of April, 2013 in the blog of Patricia Tenório.

Revisiting Sans nom (Without name) (2011) and Contradições (Contradictions) (2010), from Patricia Tenório (PE – Brasil).

One Invitation from Flavia Cosma (Canada) & Patricia Tenório.

Art, Poetry & City from Almandrade (PR – Brasil).

And all Poetry from Rita de Cássia Amorim de Andrade (PI – Brasil), Antonio Ailton dos Santos (MA – Brasil), Circuito Poético de Xique-Xique (BA – Brasil), Ricardo Nonato (BA – Brasil), Clauder Arcanjo (RN – Brasil) & Orley Almeida (PB/PE – Brasil). 

Next posts: 26th May, 2013.

Thanks to everyone who participated and see you soon!

Patricia Tenório.

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Saudades dos meus “joaninhos” e “icarianos“… Missing my “joaninhos” and “icarianos“…

Revisitando Patricia Tenório* – Abril, 2013

Revisitando traz na edição de Abril duas postagens:

Sans nom“, de Dezembro de 2011 (link permanente http://www.patriciatenorio.com.br/?p=2894).

E uma costura de textos, pensamentos e imagens de Outubro de 2010, “Contradições” (link permanente: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=409).

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Sans Nom* – Patricia Tenório & O Mundo – III

Traduction: Patricia Tenório

Révision: Isabelle Macor-Filarska**

Mars 2009

 

La petite fille cherchait le mot parfait

Qui lui avait effleuré la peau dans un rêve

 

Ses pores exhalaient l´arôme du jasmin

Et les lettres embaumées dans les huiles ancestrales

Tombèrent sur son cou

Lui demandant de la bercer,

De lui raconter des histoires

 

Pour dormir d’un sommeil nouveau

Rêver des étoiles, des galaxies perdues

Et le mot parfait vaquait dans l’espace

                                                                

                                                                                                                                   

Sem nome

Março de 2009

  

A menina buscava a palavra perfeita

Que lhe roçara a pele num sonho

 

Os poros exalavam aroma de jasmim

E as letras embalsamadas nos óleos ancestrais

Tombaram em seu colo

Pedindo ninar, contar histórias

 

Para dormir um sono novo

Sonhar estrelas, galáxias perdidas

E a palavra perfeita vagando pelo espaço

 

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* Lancée dans L´Estracelle, Bulletin d´information, Maison de la Poésie Nord – Pas de Calais – France, 2010. Lançada em L´Estracelle, Boletim de informação, Maison de la Poésie Nord – Pas de Calais – França, 2010.

** Isabelle Macor-Filarska est traducteur, poète et professeur à l´Alliance Française – Paris. Contact: isabelle.macorfilarska@gmail.com

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Contradições

09/10/2010

            Sempre me faço perguntas de vida e morte às vésperas do meu aniversário.

          “Nada há de gratuito exceto a morte” (Freud, extraído de O prazer do texto, Roland Barthes)

            Varro os fatos de outros tempos, as fotos do aqui e agora e não posso supor, não posso imaginar o que me aguarda, o que me surpreenderá.

            “O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias, pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

            Aguardo uma outra estrada, um país diverso onde possa espalhar sementes de alegria e colher ramalhetes de amizades…

 Mãe Natureza – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

 Mãe natureza

Patricia Tenório

(Extraído de D´Agostinho, 2010)

 

Gosto do cheiro

De terra molhada

Da única escolha –

Ficar lendo livros

Ouvindo a chuva cair

Forte

Grossa

Violenta

Deixo-me banhar

Pelas lágrimas

Que clamam

– Patricia, Patricia! Por que me abandonastes?

 

Lendo Mãe natureza

Stella Leonardos

Setembro/2010

 

À Patricia Tenório

 

Sinto esse cheiro

De ideia molhada

Viver sortilégio

Ficar lendo livros

Ouvindo irmã água

Leve

Fértil

Fraterna.

Entendo essa chuva

Riso e lágrima.

Segreda

– Patricia! Patricia do coração poeta!    

 

        Procuro descobrir nos acontecimentos o sentido perdido nos textos, nas pessoas, na vida.

          “Quando o trabalho que você faz tem vinculação com seu percentual de humanidade, você se conecta ao outro”. (Ismael Caldas, artista plástico em “Das sutilezas e fraquezas humanas”, Viver, Diário de Pernambuco, 08 de Setembro de 2010)

        “O que ao leigo pode parecer uma obra-prima nunca chega a representar para o criador uma obra de arte completa, mas, apenas, a concretização insatisfatória daquilo que tencionava realizar; ele possui uma tênue visão da perfeição, que tenta sempre reproduzir sem nunca conseguir satisfazer-se.” (Sigmund Freud em “Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”)

           Tento seguir o que em mim pulsa, o que em mim se parece com a Verdade e a sinto eclodir por todas as minhas células.

        “A filosofia natural apaziguará os conflitos e as dissensões de opinião que atormentam, dilaceram e devastam a alma sem trégua. Mas ela os apaziguará, ordenando-nos não esquecer que a natureza nasce da guerra e que ela é, por tal razão, chamada por Homero de luta.” (“Oratio de dignitate hominis”, Giovanni Pico della Mirandola)

        “A diferença não é aquilo que mascara ou edulcora o conflito: ela se conquista sobre o conflito, ela está para além e ao lado dele”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

        Tomo do lápis e papel e derramo todo o meu Ser Humana em palavras e contradições, na esperança que a Arte se faça, me salve. Exprima.

        “… o texto: ele produz em mim o melhor prazer se consegue fazer-se ouvir indiretamente…” (O prazer do texto, Roland Barthes)

        “… estamos sempre demasiadamente prontos a esquecer que, de fato, o que influi em nossa vida é sempre o acaso, desde nossa gênese a partir do encontro de um espermatozóide com um óvulo – acaso que, no entanto, participa das leis e necessidades da natureza, faltando-lhe apenas qualquer ligação com nossos desejos e ilusões.” (“Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”, Sigmund Freud)

        Renasço a cada instante meu, a cada sorriso dado, a cada momento de partilha, experimentado, sem medos e vaidades, o que em mim possuo apesar de todos os detalhes…

Rinascimento**, Patricia Tenório

Filmado em Câmera Cannon 7D. Editado em Final Cut Program.

 

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* Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br

** Apresentado na X Setimana della Lingua Italiana nel Mondo – “L´Italiano nostro e degli altri”, 18 a 24 Outubro 2010 – Dante Alighieri – Recife – PE – Brasil.

Convite Flavia Cosma & Patricia Tenório | VII Festival Internacional de Val-David

 

Envoyé par Flavia Cosma: http://www.flaviacosma.com/Val_David.html

DE CLYTIE PARA APOLLO* | Rita de Cássia Amorim Andrade**

 

Ó deus do Sol!

quebraste-me o corpo

esmagaste-me a alma

enraizaste-me e não me deste

a água.

Esqueceste, no entanto,

ao fazer-me flor,

alimentavas-me com os teus raios.

 

Já fui um dia

Ninfa das Águas,

bela, transparente, nua.

Ressurgida do meu habitat

para te adorar.

 

Já fui um dia

mulher de carne rosa,

fresca boca de

Carmim pintada.

De pobres olhos para ti

prostrados

ao teu punhal

desejos se sangraram.

 

Vejo-te passar a cada dia

com os teus raios

ao mundo iluminar.

Chamas a arder,

Sol do meio-dia,

Sol da meia-noite,

Sol das almas,

Sol que me devora.

 

Pobre flor enfeitiçada,

minh’alma vagueia

ao teu compasso

Giratório.

De girassol fui chamada.

 

DE CLYTIE À APOLLON*

 

Ô dieu du Soleil ! Tu as brisé mon corps,

Tu as écrasé mon âme,

Tu m’as plantée en terre et tu ne m’as pas donné d’eau.

Tu as oubilé, en faisant de moi une fleur,

Que tu me nourissais de tes rayons.

J’ai été un jour une Nymphe des Eaux,

Belle, transparente, nue.

Femme à la chair rose,

À la fraîche bouche carmin.

Mes pauvres yeux, sur toi fixés,

Mes désirs saignent sous tes poignards.

Je te vois passer chaque jour avec tes rayons

Qui Illuminent le monde et tes flammes qui brûlent.

Soleil de midi, soleil de minuit,

Soleil des âmes, soleil qui me dévores.

Pauvre fleur ensorcelée, mon âme erre

Suivant tes révolutions incessantes.

Aussi m’a-t-on appelée Tournesol.

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* Tradução para o Francês e Extraído de L´indiscutable talent des écrivaines brésiliennes, Organização: Joyce Cavalccante, Divine Edition, França. Traduction au Français et Extrait de L´indiscutable talent des écrivaines brésiliennes, Organization: Joyce Cavalccante, Divine Edition, France.

 ** Rita de Cássia Amorim Andrade  tem formação em Letras, é escritora e poetisa do Piauí. Contato: nenemrita@yahoo.com.br

Arte, Poesia & Cidade| Almandrade

 

O RETORNO E A DÚVIDA DA POESIA

     p/ Almandrade

A poesia é um conhecimento à parte da razão tecnocrata que rege a sociedade contemporânea. Hoje em dia, o homem se defronta com outras oportunidades de linguagens, outros conhecimentos, que deixou de lado o hábito da leitura, principalmente a leitura de poesias. Diante da informática, da música popular, do discurso político, não há lugar para a poesia. Mas de repente um surto de poesia tomou conta da cidade, saraus, recitais, debates, publicações, vão se espalhando e ocupando pequenos espaços nos centros urbanos, bares, cafés, bibliotecas. Páginas na internet. Parece que a poesia voltou a fazer parte da cidade. Mais uma ilustração da crise da linguagem, do pensar  e da cidadania?  Afinal de contas, poesia passou a ser tudo que alguém escreve movido por uma “inspiração”, uma revolta, uma paixão, um discurso livre e aleatório, como: a frase da mesa do bar, o bilhete da namorada, o discurso de protesto, etc. O poeta que já foi expulso da cidade, volta ao cenário urbano na condição de sintoma da cidade grande.
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A POESIA E A CIDADE

“Os poetas nos ajudarão a descobrir em nós uma alegria tão expressiva ao contemplar as coisas que às vezes viveremos, diante de um objeto próximo, o engrandecimento de nosso espaço íntimo.” (Bachelard) 

 Desde quando a cidade é objeto de trabalho de especialista, ela passou a ser um corpo fragmentado e perdeu sua geografia poética. Primeiro foram os filósofos que expulsaram os poetas de sua república, depois foram os técnicos que destronaram a filosofia. Custou caro ao filósofo aceitar que o saber foi uma invenção do poeta, que a eternidade da Grécia  se deve primeiramente a um Homero e depois a um Platão. Nessa mudança de século, a filosofia acabou ressuscitando um Sócrates arrependido, solicitando do poeta seu retorno à  polis. Pudera, em épocas de crise sempre se apela para o poeta, ele que nada sabe, foi adivinho do passado e é livre para falar de suas emoções. Mas ele nada pode resolver com relação aos equívocos dos especialistas do urbano, a não ser restaurar a poesia perdida.

A cidade de políticos e de técnicos tem problemas mais urgentes, para se preocupar com a poesia. Acreditava-se que a tecnologia era uma solução universal, mas se mantém longe de dar respostas às demandas de habitação, segurança, transporte e educação. Não se canta mais a cidade, fala-se para lamentar seus problemas. A cidade precisa da poética e do pensamento. Quem se ocupa de conceitos sabe, sem negar a importância da tecnologia, que a cidade atualmente precisa mais do exercício da cidadania e das idéias, do que intervenções técnicas sem uma compreensão mais ampla dos seus problemas. As cidades modernas se ressentem da carência de uma nova idéia de planejamento urbano que não a veja exclusivamente como o cenário do mercado de trabalho. Pois a imagem urbana não se restringe àquilo que a percepção capta, é muito mais o que a imaginação inventa com a liberdade poética. As musas sabem que o poeta não vai salvar a cidade, mas ele é quem lida com a fantasia e o devaneio,  indispensáveis para o sonho de uma outra expectativa de vida urbana.
 
A POESIA E A LÓGICA DA LINGUAGEM

“A poesia é uma arte da linguagem; certas combinações de palavras podem produzir uma emoção que outras não produzem, e que denominamos poética.” (Valery)

O poeta vive num canteiro de obras. A musa, o acaso,  a razão, o sentimento, os pensamentos abstratos são matérias primas para a sua poesia. Ele produz a partir da leitura de textos alheios, articulando idéias e costurando a linguagem. A poesia é um trabalho que exige de quem faz uma quantidade de reflexões, de decisões, de escolhas e de combinações. As leituras e as experiências modificam a escrita, as palavras não são totalmente espontâneas, como nas pinturas de um Pollock, há um trabalho e um cálculo da escrita. A linguagem poética difere da linguagem que utilizamos para a comunicação diária. Cada poeta explora a linguagem na busca de um acontecimento inesperado, de uma experiência singular. A linguagem cotidiana desaparece ao ser vivida, é substituída por um sentido. A poesia não, ela é feita expressamente para renascer de suas cinzas e vir a ser indefinidamente o que acabou de ser.
Numa época marcada pelo desaparecimento do durável, transmutação rápida dos valores, sem tradição poética, a poesia retorna como um lugar de experiências contraditórias, para atender uma necessidade de lazer e divertimento, do que uma vontade de saber.  Os saraus, recitais e debates têm mostrado uma ausência de uma percepção mais ampla das contradições da cultura, particularmente da literatura. A poesia que já participou como protagonista nos movimentos de vanguarda nos anos 20 e 50/60,  reaparece na cena urbana deslocada de sua materialidade para falar de aparências e emoções.

Almandrade
Artista plástico, poeta e arquiteto. Contato: rrsslv2@gmail.com

Os dias perambulados & outros tortos girassóis* | Antonio Ailton dos Santos**

 

Fumês ao crepúsculo

 

Reinventar a vida é redimi-la de toda a sua crueza

Não de suas mediações

É preciso desculpá-la em seu teatro cósmico

E reconhecer que nós continuamos

a ser tão ranzinzas, tão mesquinhos

 

William Carlos Williams deveria estar vivo

Para ver este crepúsculo

 

Diante do mar

Nós tiraríamos calmamente os nossos óculos

 .

 

Weekend

 

alguém deveria

ter ido

pôr os ratos para fora

alguém

deveria

ter ido

lavar a casa suja que ficou dentro dos pratos

todos

os meus sibuís que freqüentam

a lavanderia

 

o sol que entra quadrado

pelos blocos retangulares de uma quitinete alugada

é domingo

qual fosse um mar inútil

meu corpo se repete na areia

às vezes na clara vegetação

(ou no que incendeia e reverbera lá fora)

 

o teto escora muitas perguntas

mas já sabe há muito tempo que todas as respostas

são pretensiosas

ou estupidamente

vãs

 

A reclusa

 

todos os dias, a reclusa olhava pela fresta da janela

e, tecendo o seu tricô,

não se importava se os poetas cantam para dentro

ou para fora

. 

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* Poemas extraídos de  Os dias perambulados & outros tortos girassóis, Prêmios Literários Cidade do Recife 2008. 

** Antonio Ailton dos Santos é do São Luís do Maranhão e mestrando em Teoria da Literatura pela UFPE. Contato: ailtonpoiesis@gmail.com

Círculo Poético de Xique-Xique* | Organização Ricardo Nonato*

 

Sentir

(July Ane)

 

Os olhos não sentem

Eles só

               Chovem

Quando necessitam sair

E não podem

 

 

Estranho

(Emille Novaes)

 

Essas paredes estão muito brancas

Muito limpas

Miseravelmente pálidas…

Há alguém aqui dentro

Que desconheço.

 

Sonho

(Rogério Martins)

 

Só os poetas

São capazes de ouvir

O leve toque

dos pés

nas nuvens.

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* Revista Círculo Poético de Xique-Xique, Ano 2, Nº 1, Xique-Xique, Jan/Fev de 2012, ISSN 2237-2663.

* Ricardo Nonato: sociedadedospoetasvivosx@yahoo.com.br

Poemas de Ricardo Nonato*

 

Quem parte
Na promessa de voltar
Sabe ser a saudade
Um presente habitado.

A QUARTA PARTE DA SAUDADE

O meu dia chegará azul
Não o turquesa dos cortinados
Do quarto em que me deito
Escuro
Mas celeste
Longe,
Muito longe dos teus dedos.

ACONTECER

Quando o sol for partido ao meio
não haverá como juntar sua luz
Uma metade brilhará com meia intensidade
A outra desistirá de nascer todos os dias.
Uma parte do mundo ficará na escuridão
E eu estarei lá cantando para mim mesmo
A alvorada perdida.

AINDA AINDA

Minha memória mordeu o tempo

Comeu as horas 
Engoliu os minutos 
Vorazmente
Agora tenho um mundo 
Que não gira dentro de mim
Não há mais o nascer do sol
Nem mesmo o horizonte
Estendido como um varal
Com os lençóis que vejo tremulando
No jardim
Brancos, perfumados
Tão cheios de saudade.

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* Poemas extraídos do blog de Ricardo Nonato

http://banhoveneno.blogspot.com.br/ 

Contato: ricnonato@gmail.com

Revolta | Clauder Arcanjo*

 

Revolto-me com a brisa

Que não me conforta

Apenas tão só me irrita.

 

Revolto-me com esse sol

Que não me aquece

Apenas tão só me irrita.

 

Revolto-me com a poesia

Que não me aparece

Apenas tão só me irrita.

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* Clauder Arcanjo é poeta, escritor, editor, “trabalha cercado pelo mar”, e grande amigo… Contato: clauderarcanjo@gmail.com

Poemas* de Orley Almeida

 

(clave: caderno de poesia)

 

Poema 4

 

Sinto estar só;

Mas, se alguém

Ao lado houvesse,

Também seria

O que se esquece

 

(o vocábulo das horas)

 

Bem sabe o dia

O vocábulo das horas

– Lápide de esquecimento –

A construir imutável

 

O nosso engano.

 

Segundo poema sonâmbulo

 

O verde que meus olhos apascenta

Agrava os funerais dessa demora.

Retinem pétalas.

O ar é louco

Em sua flora.

 

(orley)

 

O mito

 

Esta visão de ti

Que o dia aceita,

À noite, em meu olhar,

Mal se sustenta.

 

Fica um resto de dor

Por sobre a mesa

Onde a sombra do mito

Se alimenta.

 

O vinho que se junta

Ao lume da fadiga

Nem sequer embriaga.

Mas deixa nesta mesa

Um tom em névoa

Que, disperso, se apaga.

 

(poemas em preto e branco)

 

A sala

 

Tua ausência abriu três feridas na minha sala.

Na minha sala de estar.

Na minha sala de nunca estar.

Na minha sala de ter janelas para o mar,

Para amar.

 

Convite

 

Aqui não há lugar.

Deleitemo-nos sob a ponte.

Se a noite faz o dia,

Façamos o instante.

 

(o exercício da solidão)

 

Poema

 

Carlinho é meu domingo:

Sol, azul e maresia.

Carlinhos são quinze anos

De breve melancolia.

 

Poema

 

Todas essas coisas são abismos:

O mar azul, a nuvem branca

E o coração cativo.

 

Poema

 

Indigna solidão;

Retraço do que não sou.

A vida pede amigos

E amor.

 

É preciso tempo…

 

É preciso tempo para roer as unhas

E vê-las sangrar como dez rosas

Em nervosas hastes.

 

É preciso tempo para juntar as palavras

E fundi-las, sozinho,

Na frágua do poema.

 

É preciso tempo para, olhando o teu corpo,

Possuí-lo em forma e circunstância;

E, aprisionado, feri-lo no vórtice profundo

Das mudanças perenes.

 

(Poemas inéditos e dispersos)

 

Os olhos são o de menos

Para Ângelo Monteiro

 

Escrevo não o que vejo,

Mas o que abstraio.

Os olhos são o de menos.

E à margem do real

Cumpre-se o poema.

 

Aos desavisados,

A matéria nutrícia dos pastos.

 

Sabem a minha fome:

               o ladrar das sobras

               a luminosa insensatez dos astros

               e os giros multívagos da palavra ancestral.

 

Os olhos são o de menos.

 

 

Poema da morte impressentida II

 

In memoriam de Getúlio Bezerra da Silva, assassinado aos dezessete anos, em 15 de Agosto de 1997.

 

Cantarei a vida

E o desencontro.

O nunca dar

O amor que há

 

Sempre ver

O invisível espanto

De não mais sofrer.

 

Uma estrela sem fim,

Um céu empobrecido,

A sanha de matar

O anjo e o menino.

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* Extraídos de Prosa e Poesia – Orley Almeida. Organização, prefácio e notas Anco Márcio Tenório Vieira. Recife: Cepe, 2012.