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Índex* – Março, 2013

 

(…) Cristo nos fez entender que não há a menor diferença entre

a vida do outro e a nossa própria vida.

(…) Desde a sua vinda, a história de cada indivíduo isolado é

– ou pode vir a ser – a história do mundo.

(De Profundis, Oscar Wilde)

 

No espírito da Renovação Pascoal, no início de um novo Ciclo, confiram os presentes no Índex do blog de Patricia Tenório:

Revisitando Patricia Tenório – Diásporas – Outubro, 2010;

Homenagem a César Leal (CE/PE – Brasil) | Patricia Tenório (PE – Brasil);

L´Orange de Newton | Ewa Lipska (Polônia)| Tradução do polonês Isabelle Macor-Filarska (França);

Três poemas de Leonam Cunha (RN – Brasil);

Cheiro de café | Abilio Pacheco (PA – Brasil);

As ficções de Patricia Tenório | Nilto Maciel (CE – Brasil);

Homenagem a Francisco Carvalho | Clauder Arcanjo (RN – Brasil);

Convite para o lançamento de “O zelador do céu e seus comparsas” | Fábio Lucas (SP – Brasil).

E o link para a conversa com Ralph Peter (SP – Brasil) no Livros em Revista que aconteceu no dia 21 de Março de 2013 na TV Geração Z em São Paulo:

http://tvuol.uol.com.br/videos.htm?tag=ralph+peter-_150352#assistir.htm?video=patricia-tenorio-fala-de-sua-carreira-livros-e-blog-04020D193268CC994326&tagIds=150352&orderBy=mais-recentes&edFilter=all&time=all&currentPage=1

Agradeço a todos que enviaram textos, links, convites… Continuem participando!

A próxima postagem será em 27 de Abril de 2013.

Até lá!

Patricia Tenório.

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Index* – March, 2013

 

(…) Christ made us understand that there’s no difference between

the lives of others and our own lives.

(…) Since his comming, the history of each isolated individual is 

– or may be – the history of the world.

(De Profundis, Oscar Wilde)

 

In the spirit of Pascoal Renovation, at the beginnig of a new Cicle, check out the gifts in the Index of the blor of Patricia Tenório:

Revisiting Patricia Tenório – Diasporas – October, 2010;

Tribute to César Leal (CE/PE – Brasil) | Patricia Tenório (PE – Brasil);

L´Orange de Newton (The Orange of Newton) | Ewa Lipska (Poland)| Translated from Polish by Isabelle Macor-Filarska (France);

Three poems from Leonam Cunha (RN – Brasil);

Cheiro de café (Smell of coffee)| Abilio Pacheco (PA – Brasil);

As ficções de Patricia Tenório (The fictions of Patricia Tenório) | Nilto Maciel (CE – Brasil);

Tribute to Francisco Carvalho | Clauder Arcanjo (RN – Brasil);

Invitation to the launch of “O zelador do céu e seus comparsas” (“The caretaker of the sky and his cronies”)| Fábio Lucas (SP – Brasil).

And the link to the talk with Ralph Peter (SP – Brasil) in Livros em Revista (Books in Rewiew) that happened last March 21, 2013 in TV Geração Z in São Paulo:

http://tvuol.uol.com.br/videos.htm?tag=ralph+peter-_150352#assistir.htm?video=patricia-tenorio-fala-de-sua-carreira-livros-e-blog-04020D193268CC994326&tagIds=150352&orderBy=mais-recentes&edFilter=all&time=all&currentPage=1

Thanks to everyone that sent texts, links, invitations… Continue to participate!

The next post will be on April 27, 2013.

See you soon!

Patricia Tenório.

Página lançada, página virada…

Meus “livros/filhos”, agora, todos juntos:

O major – eterno é o espírito (2005);

As joaninhas não mentem (2006);

Grãos (2007);

A mulher pela metade (2009);

Diálogos e D´Agostinho (2010);

Como se Ícaro falasse (2012).

Maiores informações: www.livrariacultura.com.br

 

Page launched, page turned…

My “books/children”, now, all together:

O major – eterno é o espírito (The major – eternal is the spirit) (2005);

As joaninhas não mentem (The ladybugs never lie) (2006);

Grãos (Grains) (2007);

A mulher pela metade (The half woman) (2009);

Diálogos e D´Agostinho (Dialogues and D’Augustine) (2010);

Como se Ícaro falasse (As Icarus talks) (2012).

More information: www.livrariacultura.com.br

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

Revisitando Patricia Tenório* – Março, 2013

 

Na edição deste mês, revisito “Diásporas”, postado pela primeira vez em Outubro de 2010: um diálogo entre vários tipos de textos, finalizando com “Intervalo”, extraído de Grãos, 2007.

Link Permanente: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=540

Diásporas

30/10/10

 

Há momentos em que a vertigem me consome e imagino meu corpo ocupando o lugar do amanhã.

“Ao se transportar aos limites do dizer, numa mathesis da linguagem que não quer ser confundida com a ciência, o texto desfaz a nomeação e é essa defecção que o aproxima da fruição.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Soletro as palavras na tentativa de expurgar feridas, absorver sentidos, deixar o rio que por mim passa e faço parte do mesmo rio.

A escritura em voz alta (…) o que ela procura (numa perspectiva de fruição) são os incidentes pulsionais, a linguagem atapetada de pele, um texto em que se possa ouvir o grão da garganta, a pátina das consoantes, a voluptuosidade das vogais, toda uma estereofonia da carne profunda: a articulação do corpo, da língua, não a do sentido, da linguagem”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

“A dor pode ser-lhe um despertador excelente, com o qual Deus faz você despertar de seus sonhos irreais ou de seus sonos profundos sem nenhum resultado.

A dor pode aproximá-lo de Deus, se é que você sabe sofrer a dor, pois do contrário talvez lhe sirva para afastá-lo mais de Deus.

Tudo depende da maneira como você se decidir a suportar a sua dor.” (Cinco Minutos de Deus, Alfonso Milagro)

Naquela página, encontro a letra de outros tempos, em lápis ainda subscrevo o pensamento onde calei um dia, no instante em que me reconheci inteira.

 “A arte forma um reino intermediário entre a realidade que faz barreira ao desejo e o mundo imaginário que o realiza.” (Sigmund Freud em O interesse da psicanálise – citado em Arte e psicanálise, Tania Rivera).

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=QG1Y05p2ezw

“O domador de bolas de sabão”**

 

Aquieto o coração mais um instante; um desejo que em mim pulsa emana os poros cheirando a jasmim.

“Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia a felicidade, que traz as boas novas e anuncia a libertação, que diz a Sião: teu Deus reina!” (Isaías 52, 7)

“Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão.” (Isaías 55, 10-11)

Para desalojar o que penso ser sábio em mim, certo em mim, começo tudo de novo na esperança de me entender um dia.

“Reerguerás as ruínas antigas, reedificarás sobre os alicerces seculares; chamar-te-ão o reparador de brechas, o restaurador das moradias em ruínas.” (Isaías 58, 12)

Escolho rumos por onde ir, caminhos novos que poderei trilhar.

“A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória que não se pode medir. Porque não olhamos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem. Pois as coisas que se vêem são temporais e as que não se vêem são eternas.” (São Paulo em 2 Cor 4, 17-18)

““Na natureza”, escreve Goethe, “nunca vemos nada isolado, mas tudo em conexão com alguma outra coisa que está diante, ao lado, sob e sobre ela.”” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Quebro a rotina com pedaços de mim que retiro aos poucos; eles vão congruindo, formando um rosto embaçado; não o reconheço ainda, mas pulsa em mim uma certa transparência. 

“Para Eisenstein, a montagem é escrita figurativa, assim como os ideogramas chineses – como os rébus no sonho, diríamos.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Espalho pelo Universo o tom da minha essência; aguardo reverberações, ressonâncias do instrumento que se afina até o final dos tempos.

“São os intervalos entre os movimentos e não os próprios movimentos, nem as imagens em movimento – que constituem o cinema.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

 

Intervalo 

(Extraído de Grãos, Patricia Tenório, 2007)

 

Atravessei a avenida ao encontro da praia. O sol ainda nascia, uma leve brisa tocou o pescoço descoberto dos meus cabelos pretos, lisos; arrepiei. Juntei a barra do vestido rodado, descalçando as sandálias me sentei num tronco caído de coqueiro.

Na carteira de cigarro importado havia apenas um, minha última chance. Acendi com cuidado, sorvi cada molécula; procurei o sabor da canela travando nos dentes brancos.

Passei um longo tempo olhando a pintura se desenhar à minha frente, os pensamentos me levavam distante, mas estavam ali do meu lado, presentes como um amigo fiel. Pensava no que pensar, trazia as recordações para tão perto que se tornavam insuportáveis; a briga com Marcelo, o pedido de demissão.

Repórter do Diário da Manhã. Uma profissão meio diferente para a minha época. Enquanto as outras moças casadas, com uma fileira de filhos entrando e saindo das saias, subindo ao colo, salpicando beijos e ouvindo canções de ninar, perguntava para que tudo isso, essa vontade de ser independente, a diferença se estampando na primeira página.

Uma mulher no jornalismo.

Não sei se fiquei triste ou alegre, não sei. O que pareceu ironia também me agradava, soando estranho até mesmo aos meus pais. Se acostumaram à minha irreverência e isto me provocava.

Alisei os grãos da areia à minha frente, fumava devagarzinho, o cigarro na metade. E cada segundo gasto me parecia roubado, voava com a fumaça e nunca mais o alcançaria.

Uma criança desceu com a babá de um prédio do outro lado da rua, acompanhei cada passinho hesitante, cada murmúrio pedindo braço e a moça não cedia. E se eu estivesse no lugar dela? Tentei por um instante pensar e o pensamento continuava fugidio. Foi quando o vi.

Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.

Procurei na bolsa minha caderneta, não a encontrava. Por que bolsa de mulher tem que ser tão apertada, tão cheia de coisas? Ele se sentou na calçada, no banco de cimento, cruzando as pernas longas, colocou uma caneca ao lado.

As pessoas se aproximavam. Um senhor jogou a moeda na caneca. Ela rodava e rodava até bater no fundo, ouvia o ruído e o brilho me ofuscava os olhos; sentei alguns metros, fiquei como distraída. Ouvi o nome pela primeira vez.

– Há quanto tempo, Seu Mateus.

Mateus. A palavra ficava rodando e rodando em minha cabeça. Será bíblico, Mateus? Será católico, eu que sou judia? De sabás e mandamentos, os sábados pertenciam aos rituais. Mas não devo me perder, volto à palavra, agarro-a, prendo na mão.

Os dedos dele são longos, longos e grossos. Será músico? Pianista quem sabe. Desses que tocam no Banana Café, entre blues e jazz, a nova música, talvez bossa, talvez. Quais serão os gostos, gosta de fumar também?

Ah, como desejo um cigarro agora… Deixei o meu pela metade, ainda no tronco do coqueiro, imagino se consumindo, o vento apagando, levando     embora um prazer emprestado. Mateus começa a falar.

Nem quero ouvi-lo, e ouço a voz rouca, pausada, um leve sotaque mineiro, a minha mania de realidade impondo notas na caderneta. Se me cansei de realidade? Se para isso me sentei aqui, nesta praia, de frente para este mar, ouvindo o som dos pombos que me avizinham pousando nos ombros do casaco de Mateus.

Porque não quero sabê-lo e desejo-lhe o toque. Me aproximar mais e mais e descobrir segredos. Quem foi, o que é? Mas precisava de classificação? Para ver em que parte do jornal o enquadraria? O livro de Rilke nas mãos.

O que faria um velho, gasto, usado livro de Rilke nas mãos do homem? De onde tirou tamanha poesia? A caixa de madeira, deveras ser. Descansava sob os pés sandálias de couro cobertas de poeira. Mateus discutia o tratado do amor com o senhor amigo.

Que sabia mais de amor, ele vivera? O que ensinar para mim que não mais acreditava? Uma Cecília sem fé, eu me dizia. Seria agnóstico?  Eu não me deixava perguntar, e queria perguntar, fazer entrevistas. Ele não me percebia.  Com roupa de festa, saia rodada e ele não me percebia.

Será que me queria percebida? Invejava a transparência? Eu que até prêmios ganhei e de repente nada fazia sentido, nada se coloria à minha frente e não me espantava mais. Perdia pouco a pouco a inocência de uma criança que abre o presente, desfaz a fita dourada em laço, desenrola do papel seda, a caixa de papelão grosso, a minha primeira boneca.

Brinquei com Sofia até quase namorar. Meu primeiro presente, com um mês de namoro, foi uma boneca. Parece que ele me adivinhava, sabia que não poderia competir, era muito mais velho que eu. E numa sabedoria grega perguntava para o meu oráculo, um novelo que se desfiava lentamente. E já estava lá: a minha boneca, o namorado, a primeira noite, separação; vai e vem de amores, sair de casa; o jornalismo, páginas policiais. O encontro com Mateus.

Tudo projetado como se fosse um filme na tela da minha vida, o novelo se desfazendo e fora antes escolhido, estava dentro de mim.  Um destino plantado feito semente. Criando raízes, alastrando e me puxava para mais perto numa louca atração pelo personagem, queria ganhar forma, pular da caderneta, irromper em vida própria. Me dominar.

E antes que acontecesse, antes que em mim mandasse, puxei-lhe as rédeas, o afastei. Fechando o bloco de anotações. Guardando na bolsa. Ele tirou do casaco um maço de cigarro, a mesma marca do meu. Sentei e fiquei esperando. Me olhou. Talvez um segundo, uma fração e já não me olhava. Implorei perdão. Bateu de leve no joelho, retirou um cigarro. Me ofereceu.

Tremi. Meus dedos finos quase o encontravam, tocava a mão que me oferecia, se deixava seduzir. Ele continuando, talvez soubesse da minha desistência, de que estava pronta para entrar nas águas e me afogar, deixar  o sal embeber meu corpo até ficar inchada, os lábios ressecariam se cobrindo  com  algas, os caranguejos carregando meus restos mortais para bem longe, além da curva  da praia, outros mares, minha consolação.

Um pouco de mim sendo repartido com outros, eu me daria enfim, não seria mais minha, inteira e unicamente minha, a outros pertencendo até virar pó.                                      

 O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas.  Moraria na caixa de madeira.

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* Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br

Homenagem a César Leal – Patricia Tenório

 

No mês de aniversário de César Leal (20/03), uma homenagem a um dos maiores poetas brasileiros, e ao grande incentivador dos poetas iniciantes…

Um abraço bem grande, tão grande Poeta,

Patricia Tenório.

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César Leal

Patricia Tenório

09/09/09

 

 

A graúna

Cobre

Meu rosto livre

De sombras

Preconceitos

 

Pudera ser o óleo

Que embebe suas penas

Para acariciar

Tamanha benevolência

E curvar-me

Perante o sol e as estrelas

 

 

 

L’Orange de Newton* | Ewa Lipska** | Traduit du polonais par Isabelle Macor-Filarska*** avec la colaboration d´Irena Gudaniec-Barbier

 

1.

 

J’admire le défilé des modes politiques.

L’élégance désinvolte d’Armani.

 

Une pneumonie sous un châle de verdure.

Le cri ultime déjà de la démocratie.

 

Une rangée de lèvres rouges.

L’amour triomphant.

 

Sur le podium – des top-modèles sans vie.

Rails du maquillage

Estompés par les impressionnistes.

 

À présent tout est plus clair.

Dieu avoue

qu’il n’est qu’un homme.

 

Sous la couche

grise des nuages

un chèque en bois.

 

Sur l’écran –

le movement sans gêne des siècles.

 

Ils ont été.

Nous y sommes.

Votre tour viendra.

 

Nous y sommes.

 

À la place de l’Eden il y a une ville.

Des tours et des barres paissent

sur des prairies de pierre.

 

Une balle de tennis jaunne

atteint le centre de la lumière.

 

Votre tour viendra.

 

On vous fera une place

dans un avenir orphelin.

 

On laissera un jardin à peu près viable.

Le Souper à Emmaüs du Caravage.

 

Regardez bien le personnage

du  maître de céans.

Les pommes pourries. Les figues. Les grenades.

 

Ils ont été.

Nous y sommes.

Votre tour viendra.

 

 

A Laranja de Newton

Ewa Lipska

Traduzido do polonês por Isabelle Macor-Filarska

 com a colaboração de Irena Gudaniec-Barbier

Traduzido do francês por Patricia Tenório

e revisado por Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas****

 

1.

 

Admiro o desfile de modas políticas.

A elegância desenvolta de Armani.

 

Uma pneumonia sob um xale verde.

O grito último da democracia.

 

Uma linha de lábios rubros.

O amor triunfante.

 

Sob o pódio – de top models sem vida.

Faixas de maquiagem

borradas pelos impressionistas.

 

Agora tudo é mais claro.

Deus admite

que nada mais é que um homem.

 

Sob a camada

cinza  das nuvens

um cheque sem fundo.

 

Sob a tela –

o movimento de livre circulação de séculos.

 

Eles foram.

Nós estamos.

A sua vez chegará.

 

Nós estamos.

 

Em vez do Éden havia uma cidade.

Torres e barras pastam

sob as pradarias de pedras.

 

Uma bola de tênis amarela

atinge o centro da luz.

 

A sua vez chegará.

 

Você terá um lugar

num futuro órfão.

 

Deixaremos um jardim quase viável.

A Ceia em Emaús, de Caravaggio.

 

Olhe bem o personagem

do dono da casa.

As maçãs podres. Os figos. As granadas.

 

Eles foram.

Nós estamos.

A sua vez chegará.

 

___________________________ 

* Extrait de L´Orange de Newton, l’Arbre à Paroles, France, 2012. Extraído de A Laranja de Newton, l’Arbre à Paroles, França, 2012.

 ** Ewa Lipska est née em 1945. Après des études à l’Académie des Beaus-Arts, elle devient rédatrice du domaine poésie pour les éditions littéraires (Wydawbuctwo Literackie) de Cracovie, l’un des plus grands éditeurs de Pologne, et collabore à de nombreuses revues de poésie. À ce jour, elle a publié une vingtaine de recueils, des nouvelles, des pièces de théâtre. Ses derniers livres: Moi, 2003; Ailleurs, 2004; L’écharde, 2005; L’Orange de Newton, 2006; Échos, 2010.

 ** Ewa Lipska nasceu em 1945. Após estudos na Academia de Belas-Artes, ela se torna redatora da área de poesia para as edições literárias (Wydawbuctwo Literackie) de Cracóvia, um dos maiores editores da Polônia, e colabora com numerosas revistas de poesia. Até hoje, publicou cerca de vinte coletâneas, novelas, peças de teatro. Seus livros mais recentes: Moi, 2003; Ailleurs, 2004; L’écharde, 2005; L’Orange de Newton, 2006; Échos, 2010.

*** Née en Tunisie, Isabelle Macor-Filarska vit en France. Elle a fait de nombreux séjours à l’étranger, en Grande-Bretagne, URSS, Israël, au Maroc, et notamment en Pologne où elle a  effectué une partie de ses recherches littéraires sur la poésie polonaise contemporaine. (Après avoir suivi des études de littérature anglo-américaine et de lettres modernes et linguistique,) elle a soutenu  en 1993 une thèse de Doctorat en littérature comparée, à l’Université de la Sorbonne. Cette thèse, intitulée  Poésie polonaise et poésie française d’après-guerre : deux concepts de la réalité,  autour d’une figure centrale, Czeslaw Milosz, est parue aux Presses de l’Université de Lille III. Professeur de langue et littérature françaises à l’Ecole Internationale de l’Alliance Française de Paris (depuis 1984) où elle a créé un Atelier de littérature-écriture, elle a aussi assumé une charge de cours en littérature comparée à l’Université de Saint-Quentin-en-Yvelines et anime des séminaires de traduction, donne des conférences et des récitals de poésie, accompagnée de musiciens. Traductrice de poésie polonaise contemporaine, elle a publié des poèmes de Halina Poswiatowska, Ewa Lipska, Wislawa Szymborska, Czeslaw Milosz, Miron Bialoszewski, Maciej Niemiec, Urszula Koziol, etc. , traduits avec la collaboration de Grzegorz Splawinski, dans de nombreuses revues de poésie (Le Nouveau recueil, PO&SIE, Plein Chant, Passage d’encres, Pleine Marge, Voix d’encre, Encres Vagabondes, Arsenal, Grèges, etc.) ainsi que des recueils de poèmes d’Ewa Lipska, Halina Poswiatowska, Wislawa Szymborska, aux éditions L’Ancrier, Strasbourg, 1996, La Maison du Nord/Pas-de-Calais, Beuvry, 1995 et 2004,  Wydawnictwo Literackie, Cracovie, 1998, Caractères, Paris, 2004.  Elle a participé au Panorama de la poésie polonaise contemporaine publié en juin 2000 par les éditions Noir sur Blanc, Paris. En 1999, elle a obtenu une bourse de traduction du Centre National du Livre. Elle vient de publier chez Aubier (Flammarion), Paris, collection historique, septembre 2006, une traduction en collaboration avec Agata Kozak, d’un ouvrage d’histoire médiévale : l’Europe des Barbares, de Karol Modzelewski. Pour contactez: isabelle.macorfilarska@gmail.com  et  http://sites.google.com/site/macorfilarska 

*** Nascida na Tunísia, Isabelle Macor-Filarska vive na França. Teve numerosas passagens no estrangeiro (Grã-Bretanha, URSS, Israel, Marrocos), notadamente na Polônia, onde efetuou uma parte das suas pesquisas literárias sobre a poesia polonesa contemporânea. Após estudos de literatura anglo-americana e letras modernas e linguística, defendeu, em 1993, tese de doutorado em literatura comparada na Universidade de Sorbonne. A tese, intitulada Poesia polonesa e poesia francesa do pós-guerra: dois conceitos da realidade em torno de uma figura central, Czeslaw Milosz  foi publicada pela Universidade de Lille III. Professora de língua e literatura francesas na Escola Internacional da Aliança Francesa de Paris (desde 1984), onde criou um ateliê de literatura escrita, ela também ministra cursos de literatura comparada na Universidade de Saint-Quentin-en-Yvelines, seminários de tradução e dá conferências e recitais de poesia, acompanhada de músicos. Tradutora de poesia polonesa contemporânea, publicou poemas de Halina Poswiatowska, Ewa Lipska, Wislawa Szymborska, Czeslaw Milosz, Miron Bialoszewski, Maciej Niemiec, Urszula Koziol etc., traduzidos com a colaboração de Grzegorz Splawinski,  em numerosas revistas de poesia (Le Nouveau Recueil, PO&SIE, Plein Chant, Passage d’Encres, Pleine Marge, Voix d’Encre, Encres Vagabondes, Arsenal, Grèges etc.), assim como coletâneas de poemas de Ewa Lipska, Halina Poswiatowska, Wislawa Szymborska nas edições L’Ancrier, Strasbourg, 1996, La Maison du Nord/Pas-de-Calais, Beuvry, 1995 e 2004,  Wydawnictwo Literackie, Cracovie, 1998, Caractères, Paris, 2004.  Participou do Panorama da Poesia Polonesa Contemporânea, publicado em junho de 2000 pelas edições Noir sur Blanc, Paris. Em 1999, obteve uma bolsa de tradução do Centro Nacional do Livro. Publicou pela Aubier (Flammarion), Paris, coleção histórica, em setembro de 2006, uma tradução, em colaboração com Agata Kozak, de uma obra de história medieval: L’Europe des Barbares, de Karol Modzelewski. Contato: isabelle.macorfilarska@gmail.com e http://sites.google.com/site/macorfilarska

**** Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

     Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais do Rio de Janeiro e agências de publicidade da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com

Três poemas de Leonam Cunha*

Extraídos de Gênese, Sarau das Letras – RN, 2012

 

Sobre a liberdade

 

Bebi todas as palavras de amargura;

Saboreei dos martírios

A maior das contraposições:

A incoerência de ser

E o terrível temor do funéreo

 

William haveria de abraçar-me

E carregar-me pela mão

Sobre este solo cor de incerteza

 

Apenas o poeta

Que não mais tem receio do fim

Seria de todo livre

 

Disse uma vez um palerma,

Daqueles vestidos dos pés à cabeça

Pelo fino tecido da insegurança,

Que só a liberdade tinha autoridade sobre ele,

Sem nem desconfiar

Que não é nem poeta

E tem medo do tempo,

Das horas que passam e levam…

Levam-nos, lavam-nos.

 

Soneto em apologia à leitura

 

Já é noite e ainda não li coisa alguma,

Corro pela casa, em direção à estante.

Pego de um João Cabral de Melo Neto

Ou qualquer outro, que apenas o seja

 

Folheio, cheiro, passo as páginas,

Sinto cada palavra, mergulho enfim,

Passam os minutos e as horas, que seja!

Estou de conversa com um grande amigo

 

Ah, fiel e compreensivo companheiro,

De quantos lares tens sido expulso?

Quanta emoção e/ou ciência guardas!

 

E ainda te vejo de escanteio, por aí.

Alguns nem se dão ao trabalho de tocar-te,

Talvez tu sejas demais para esses alguns.

 

A não procura da poesia

 

Não vou abusar da poesia

 

Não vou sair por aí,

Atinando,

Ver se encontro poesia

 

Poesia, não vou gritar por você

Não vou ficar insistindo

Que você me dê um abraço

 

Guarde seu abraço

Para o instante mais indispensável,

O mais desejável,

Em que você não poderá faltar

 

Por favor,

Quando chegar esse momento,

Ponha-se sobre a mesa

E enche meu bucho de você,

Nobre poesia, pobre poesia –

Não interessa,

Que apenas seja poesia

 

Ratifico:

Não vou procurar por você

Feito um desesperado

Todavia,

É mesmo que clamar:

Venha, poesia, habite-me,

Exponha-se, escreva-se,

Utilize-se de meu lápis,

Abuse de meus dedos,

Rabisque meus papéis

 

Mas não estou a clamar por você.

Ou será que…?

 

Veja!, como você é obediente.

Veja!, linda conquista:

Esparrama-se por esta página

Outrora branca;

 

Será você mesma, poesia?

 

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Leonam Lucas Nogueira Cunha nasceu em Areia Branca – RN, em 1º de maio de 1995. Graduando em Direito (UFRN), apresenta interesse por literatura, música, pintura, política, filosofia, sociologia, dentre outras ´reas do conhecimento. Uma das frases que mais aprecia: ‘Escrever como forma de oração’, do mestre Kafka. Gênese marca sua estreia literária em livro. Contato: leonam_cunha@hotmail.com

Cheiro de café* | Abilio Pacheco**

 

            Não há nada que mais me pareça com a crônica que o cheiro do café.

            É uma metáfora olfativa, sinestésica; não deveria explicá-la. Fico tentado a encerrar o texto por aqui. Continuo. Afinal posso até escrever contos curtos, mas ainda não optei por treinar as crônicas curtas, embora elas pareçam correr no meu dia a dia. Quem sabe eu tente ainda escrevê-las.

            O cheiro do café: matutino, fresco, suave, de leve amargor… Caminhando pelo condomínio pela manhã, fazendo academia, assistindo ao noticiário matutino ou tentando se fechar do mundo num escritório/gabinete é sempre esse gostinho que chega às narinas trazendo um novo dia, as novidades do dia. Mesmo os barulhos da cidade chegam com o café e, antes dele, o seu cheiro.

            A crônica seria esse agradável sabor de fragrância noviça e breve. Relativamente pontual e tão ligada ao presente. Logo surgindo e logo esvaecendo, mas sempre retomada.

            A crônica, a despeito de ser chamada gênero menor, tem seu mistério. Mesmo quem não gosta de café, gosta de seu cheiro, mesmo quem não aprecia literatura ou não tenha hábito de ler, curte uma crônica. Se bem usada, a crônica traz para literatura o leitor iniciante, como o cheiro do café chama para a mesa, convida para uma boa conversa e, mesmo não o bebericando, a mesa fica rodeada e o diálogo flui.

            A crônica, atrativa… logo o leitor prova de toda literatura: haicais, sonetos, poemas mais longos, contos, romances…

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Extraído de Contos de Hoje – narrativas. Organizadores: Abilio Pacheco, Deurilene Souza. Belém: LiteraCidade, 2012.

** Abilio Pacheco  é professor, contista, romancista e editor. Contato: 

abilioescritor@gmail.com

As ficções de Patricia Tenório* | Nilto Maciel**

04/03/13

Não sou comprador de opúsculos nem de compêndios e raramente piso o chão de livrarias. Entretanto, recebo em casa toda sorte de publicação: das mais vistosas às mais andrajosas; das mais raquíticas às mais corpulentas; desde títulos triviais até os mais sofisticados; de norte a sul, de leste a oeste; de principiantes e calejados.

No início de janeiro de 2013, Patricia Tenório me mandou, do Recife, seus sete impressos: O major: eterno é o espírito (Recife, 2005); As joaninhas não mentem (Rio de Janeiro, 2006); Grãos (Rio de Janeiro, 2007); A mulher pela metade (Rio de Janeiro, 2009); Diálogos (Rio de Janeiro, 2010); D’Agostinho (Rio de Janeiro, 2010); e Como se Ícaro falasse (Mossoró, 2012). Todos lindíssimos! Se eu fosse comprador de alfarrábios ou assíduo frequentador de livrarias, certamente teria sido fisgado pelas capas. E também pelos títulos. Todos muito atraentes.

O primeiro — O major: eterno é o espírito — é classificado como romance, na quarta capa. Raimundo Carrero, nas abas, se refere aos termos (e conceitos de) “biografia”, “biografia romanceada”, “História e história”. Na verdade, Patricia escreveu (romanceou) os feitos, as atividades, a conduta de José Tenório, o Major, seu avô. Relato de boa espessura, ilustrado com fotografias, e de alto valor histórico, sociológico e literário.

Com As joaninhas não mentem, ingressa, de vez, no território da invenção literária. Menos volumoso do que o primeiro, tem prefácio do poeta Majela Colares. Em nenhum momento, menciona os termos romance, novela e conto. Ao final, propõe: “Digamos: uma fábula para o século XXI”. Antes observara: “Segura no manejo da palavra, Patricia Tenório desenvolve toda sua narrativa de maneira clara e eficiente, pincelando o texto com imagens de visível teor poético” (…). Na orelha de Grãos, no entanto, há esta anotação: “Em 2006, publicou o romance As joaninhas não mentem”. Seja isto ou aquilo, lembra conto de fadas, romance medieval, novela de cavalaria, como se pode verificar nas frases iniciais: “A Torre… Para lá se dirigia Ariana. Colocou o elmo na cabeça, apertado era o elmo. Jeito de camponesa permitindo dores, respirou fundo, conseguiu encaixar sobre os cabelos longos, cor de sol, peleterra”. As sete ilustrações (uma para cada capítulo) têm traços simples, a lembrar antigas coleções para criança.

De redução em redução, chega, com Grãos, ao livro de bolso (12 x 18), ao “pocket book”. E neles (nos grãos) se percebe, de forma clara, a ponderação de Majela Colares no tomo anterior: “um visível teor poético”. Pois nesta antologia há um tanto de prosa e um tanto de poesia. A própria bibliotecária nos deixou a dúvida: “1. Poesia brasileira. 2. Conto brasileiro. 3. Crônica brasileira.” Mas, isto não tem importância. A narradora de “Intervalo” se volta para si mesma e para o ambiente em que se encontra, lembra-se de Marcelo (Quem será? Namorado? Marido? Amigo?), enfurna-se de novo no seu interior, sem fugir do tempo da narração (“Procurei na bolsa minha caderneta”…). É tudo muito suave, sem atropelos, sem alardes, em linguagem sóbria, poética, cadenciada. Quase uma canção lírica.

A mulher pela metade tem capa transparente (plástico) e é mais largo (18 centímetros) do que os outros. Por isso, a mancha é dividida em duas colunas, como nas revistas. Outra novidade (?) — nem sei mais o que seja novidade — está no uso de “dois pontos” (:) no início da frase ou do palimpsesto. Assim: “: há palavras que revelam o melhor que possuímos; outras, o pior”. Não há novidade, porém, na técnica da redação de Patrícia, nesta composição. Há de tudo um pouco: narração linear na primeira pessoa, confessionalismo, intertextualidade, diálogo com travessão, descrição, retrocesso, enredo, linguagem coloquial e literária, etc. Se se trata de romance, não sei. Há muitos anos a catalogação tem interesse apenas comercial (das editoras, das bibliotecárias, das livrarias, dos jornais, etc). Os escritores (sobretudo os mais criativos ou livres das peias criadas por professores de literatura e redatores de manuais) não se importam mais com isso.

Dentro de uma caixinha vieram duas coletâneas: Diálogos e D’Agostinho. Ambas com capa dura e, no tamanho, semelhantes a livros de bolso. Uma de capa azul; outra, amarela. A primeira é composta de contos. Uns bem curtinhos, de poucas linhas. Como “O domador de bolas de sabão”. Muito engraçado e criativo. Surgido (depreende-se pela explicação dada pela autora ao pé da página) de inopino, como por inspiração. Transcrevo o primeiro parágrafo: “Tu me plocs me pla, eu me plocs me plon. E ploc lá, ploc qui, não ploca plocon. No placa plo, no placa pli, plaquê, plaqui, não plaploquê”. São quase sempre cenas do cotidiano citadino.

A segunda contém poemas. Versos livres, curtos e poucos, em métricas variadas. A maioria das peças não vai além de uma página (cerca de vinte linhas). O mais espichado (“Bairro das laranjeiras”) cabe em menos de duas páginas. A linguagem de todos eles é singela, sem rebuscamentos: “Plasmo / o ser humano que pretendo ser / ligo as conexões / com sangue divino e matéria bruta / na esperança / de encharcar em mim / a sabedoria celestial”.

O título do volume (e também de um poema) é referência a Santo Agostinho, de quem extraiu trecho de suas “confissões” para a epígrafe da seleta. Ao longo da obra, a poetisa demonstra todo seu catolicismo: “Quando tua luz aplaca meus sentidos / sinto despir-me / de máscaras e vaidades” (“São Paulo”); “Só me encho de graça / por tua misericórdia / e deito em mim / tua realeza” (“Cristo-Rei”); “Busco a palavra sagrada / que entrevejo em lance / e não serei eu que em mim habita” (“Em parte”).

Como se Ícaro falasse é outro objeto de fino lavor gráfico, capa dura e colorida. Nele a ficção de Patricia se purifica mais e mais. Como Ícaro, a lenda grega (“naquele tempo eu costumava planar sem destino”, sobre o mar Egeu), ela (a narradora), ou ele (o narrador), voa, liberta/liberto, em prosa lisa, a narração fluente, com falas breves. Em viagem pelos ares (sete dias de voo): “Eu, meu pai e os prisioneiros partimos na direção de Creta”. Em breves capítulos (todos com títulos: frases ou orações completas), a ficcionista tece, pouco a pouco, a lenda. Retece, reconta, recria. Como a lenda original, é também uma metáfora: “Podem vocês soltar as amarras que os prendem ao mundo das palavras e atingir o pensamento puro?” (p. 115).

Se eu fosse crítico ou mesmo leitor mais astuto, rabiscaria mais uma centena de frases a respeito dos sete papiros de Patricia Tenório. Faria largos e profundos comentários de sua fantasia. Entretanto, a indolência congênita me chama a dormir, enquanto a incompetência estilhaça o raciocínio.

Fortaleza, 24/26 de fevereiro de 2013.

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* Em Literatura sem fronteiras:

http://literaturasemfronteiras.blogspot.com.br/2013/03/as-ficcoes-de-patricia-tenorio-nilto.html#more

** Nilto Maciel é contista, romancista, e, sim, crítico literário… Contato: 

niltomaciel@uol.com.br

Homenagem a Francisco Carvalho | Clauder Arcanjo

 

Fica aqui registrada a homenagem de Clauder Arcanjo ao grande mestre da Poesia Brasileira, Francisco Carvalho, que faleceu no último dia 05/03/13.

O poema Presente do inconsciente não foi escrito para este fim, mas é de igual sentimento…

Até breve, Poeta…

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Protesto contra a morte de

Francisco Carvalho 

 

Que o canto não se mude em desencanto

onde haja amor mais forte que a presença 

Francisco Carvalho, em Quadrante Solar

 

… não se pode sair assim! Deixando-nos sós, Poeta! Onde já se viu isso?… Para que tanta pressa, A Concha e o Rumor, meu Deus?

Os anos já te maltratavam!?… Claro que sim. E a quem ele poupa? Cita-me um nome imune a tão aduncas garras.

Não, não concordo com a tua partida, Poeta. Firmo aqui o meu protesto. Contra os céus, contra Deus… Enfim, contra todos. “Eles te dão um ataúde azul/ e te ordenam que é tempo de morrer.” Não devias aceitar azul assim. O teu cerúleo tom nunca foi o dos ataúdes, mas, sim, Canção atrás da esfinge, o das estrelas em noite de lua-cheia, quando deitavas no outonal regaço das musas mais melífluas e dadivosas.

Ficarei, a partir de agora, sem o brilho das tuas estrofes, As Visões do Corpo, sem o cavalo lúdico de tão belas rimas, Corvos de Alumínio, sem a cupidez da alimária-alada dos teus poemas, Centauros Urbanos. Não, nunca poderei concordar com essa tua passagem!

O mundo, repleto de maus poetas, vem, com o teu falecimento, nos imputar uma pena indigna. Sim, indigna e cruel. Melhor, crudelíssima!

Não me entendes?!… Explicarei, então. Seria crime ler versos, Do Girassol e da Nuvem, que traduziam, tão bem, a dor que nos garroteava o peito com o peso da angústia inominável? Seria falta, ou dolo, de nossa parte, gostar de solfejar melopeia singular, O Tempo e os Amantes, servida em ritmo deveras singelo, Girassóis de Barro, sob o bafejo de metáforas, Flauta de Barro, de brilho repletas e pejadas de luz?…

Claro que não, Francisco Carvalho! Logo, hás de convir, houve pena sem ter havido crime de nossa parte. Vem daí, acredita-me, a razão e o móvel do meu protesto. Dimensão das Coisas.

Se exagero!?… Não, não cabe em mim a pecha de exagero. No máximo, a telúrica defesa daqueles que rubricam a lírica do encanto e do espanto, Memorial de Orfeu, que motejam dos menestréis desenxabidos (que parecem durar na Terra uma eternidade), que solfejam a metáfora saliente, Barca dos Sentidos, no peito dos mais descrentes.

Ah, Poeta!…, se exagero, creia-me, é porque me acostumaste com a beleza inominável, Sonata dos Punhais, com a palavra (“a palavra pura de impurezas./ Limpa de todo evento e todo invento,/ do espúrio ardil, do impuro movimento”) grávida de singeleza, com o verso servido, dadivosamente, na mesa disposta, Pastoral dos Dias Maduros, sobre o tapete da minha sala de estar.

Uma brisa leve, Galope de Pégaso, assanha a minha mente inquieta, e lembro-me, Memórias do Espantalho, de teus olhos cálidos a me recepcionarem. Era uma tarde azul, de um sábado azul, na tua Fortaleza. Rosa dos Eventos.

Saudade, amigo. Quanta saudade, amigo. “Melhor regar o vento que semeia/ que me fartar da escória desta ceia”.

— Vai a Deus! Mas, peço-te, Mortos Não Jogam Xadrez, não deixes de lavrar este meu protesto junto ao Senhor. Tua Poesia, Os Mortos Azuis, Francisco Carvalho, esta… ficará conosco.

… Bom domingo.

 

Presente do inconsciente

  

Nada na janela.

Até ontem, a tua lembrança, imagem.

Turva,

a escorrer dentro de mim,

tal qual as gotas de chuva a lavarem a vidraça.

 

Nada na sala.

Até semana passada, a tua presença, miragem.

Curva,

a varrer para dentro de mim todos os remorsos,

tal qual as ravinas de chuva a esbodegarem a calçada.

 

Hoje, só.

E o silêncio reinando

(in)consciente,

presente sobre tudo.

 

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* Clauder Arcanjo: clauderarcanjo@gmail.com

Editora Sarau das Letras e Casa das Rosas convidam | “O zelador do céu e seus comparsas”, de Fábio Lucas

 

Enviado por Clauder Arcanjo: clauderarcanjo@gmail.com

Para Bernadete Bruto e Jair Martins*

Patricia Tenório

15/03/13

Excepcionalmente, abro este espaço antes da postagem mensal, que está marcada para o próximo dia 24/03/13.

Ontem vivenciei um dos momentos mais especiais da minha vida como escritora: o encontro “O Amor na Literatura”, na UBE – PE, coordenado por Bernadete Bruto e Jair Martins.

No princípio, o público se compunha de alguns alunos da Escola Estadual Fábio Correia, Bairro de Beberibe, juntamente com seu professor e orientador Wellington José Ferrão. Uma preocupação de Bernadete: a quantidade de pessoas. No que eu a tranquilizei: “Berna, se conseguirmos atingir uma pessoa, será um enorme sucesso.” Aos poucos, chegaram escritores, tais como Verluce Ferraz, Luzilá Gonçalves, Alexandre Santos e Geraldo Ferraz. Mas a leitora…

Laura Araújo, estudante de Jornalismo da Faculdade Joaquim Nabuco, impressionou com sua desenvoltura, com a paixão com que descrevia os personagens principais, Carlos e Fräulein Elza. Ela mesma, a leitora, mergulhou no livro e se deixou guiar por ele, pelo Amor, pela Leitura. Tão bom ver uma jovem, com tantos outros “concorrentes à Literatura”, se entregando e se doando ao ato sagrado e transformador de Ler.

Os alunos, um pouco tímidos, faziam perguntas do tipo “Como você começou a escrever?” Então me veio tudo de uma vez só: o início na Livraria Domenico, eu, que sou formada em Análise de Sistemas, as oficinas artísticas e literárias, o aprendizado de um sacerdócio que é para sempre (a leitura dos clássicos, a escrita, o estudo contínuos, ininterruptos), que é duro e doloroso, feito é o Amor, mas que nos torna maiores e melhores, nos sentimos vivos “na dor do Amor”, “na dor do Escrever”.

E ao fim do encontro, o “inesperado bom” de Clarice Lispector acontece: um dos jovens, que teimo e teimo e não consigo lembrar o nome, e que foi sorteado com o meu As joaninhas não mentem, se aproxima e pergunta: “Olhe, escrevo músicas… E queria saber como você faz para se inspirar? Que horas você escreve?” Eu olhei naqueles olhos de sonho, naqueles olhos cheios de amanhã e disse: “Meu querido, a inspiração vem para cada um de uma maneira diferente. E a sua maneira virá com o tempo, com o estudo, com a dedicação. Mas você só poderá criar o novo se aprender com o antigo. E nunca desista, insista sempre!”

Então, minhas queridas Bernadete Bruto e Jair Martins, que tive o prazer de conhecer ontem, valeu a pena! Tocamos ao menos uma pessoa! Eu, a leitora Laura Araújo, a organização e o empenho de vocês duas conseguiram atingir aquele jovem poeta, que, como diz um dos poetas que mais admiro e me inspiro, Rainer Maria Rilke:

“Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever, examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado a escrever?”[1]

E, por causa disso, por causa de todo este Amor, de todo este carinho que vocês e todos os que estavam presentes ontem no evento “O Amor na Literatura sobre Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade”, na UBE-PE, me deram, após mais de sete anos, tomei coragem, me entreguei e “lancei à revelia”, pela primeira vez em Recife – PE, o meu O major – eterno é o espírito

Porque…

LEITURA

(Extraído de D´Agostinho, Patricia Tenório, 2010, Editora Calibán)

 

Cartas eu fiz

Para te mostrar um dia

Uma palavra

Desfiará centenas

Milhares

De explicações

 

Certas

Erradas

Pedaços de mim que sondas

Perplexa

De imaginar que um dia

Passei por caminhos

Estreitos

Confusos

Concisos de dor

De agonia

 

Cavei nas palavras

Cores

Flores

Para te dar um dia

Elas murcharam

Ao meu toque

Reflorescem

No roçar dos teus olhos

 

 **

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(1) RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta.  São Paulo: Globo, 2001, p. 26.

* Os próximos 3 posts foram escritos para o evento.

** Fotos 1-5: 1) com a fotógrafa Isiane de Paula; 2) com todos os livros, inclusive “O major – eterno é o espírito”; 3) da esquerda para direita, com a leitora Laura Araújo, Bernadete Bruto e Jair Martins; 4) com os alunos e professor Wellington José Ferrão da Escola Estadual Fábio Correia; 5) da esquerda para a direita, com Jair Martins, Alexandre Santos (Presidente UBE – PE), Luzilá Gonçalves e Bernadete Bruto.