Posts com

Índex* – Janeiro, 2013

 

E se de repente o sol salgar o seu rosto

lágrimas secas

penetrantes de sua natureza

fixando as memórias escorridas, escondidas

em seu rosto pálido de saudade?

(Emilson Zorzi**, 24/01/13)

 

Poesia brotando dos cantos mais profundos da alma… Inicio 2013 e o Índex do blog de Patricia Tenório com a poesia inédita, sem nome e sem fronteiras de Emilson Zorzi, que fazia tempo não escrevia e, mesmo ainda iniciando a leitura de “Como se Ícaro falasse”, dialoga com este livro perfeitamente…

Chegando à marca dos 300 posts, resolvi voltar no tempo Revisitando Patricia Tenório, com contos, poemas e trechos de meus livros que foram postados no blog nesses quase três anos juntos. Neste mês, revisito Três contos de Carnaval, de Fevereiro de 2011.

Brindo vocês com as crônicas suaves e contundentes de Rizolete Fernandes (RN) (Rosa do Deserto) e Mara Narciso (MG) (Liberdade, ainda que tardia!).

E toda a poesia de Carlos Alberto Cavalcanti (PE) (Textos poéticos) e Jorge Tufic (CE) (Quando as noites voam).

Agradeço imensamente aos autores por enviarem seus textos… Continuem participando!

A próxima postagem será em 24 de Fevereiro de 2013. 

Até breve,

Patricia Tenório.

_________________________________

Index* – January, 2013

And if suddenly the sun salted your face

dried tears

penetrating from your nature

fixing the drained, hidden memories

in your pale face of  nostalgia?

(Emilson Zorzi**, 01/24/13)

 

Poetry sprouting from the deepest corners of the soul… I begin 2013 and the Index of the blog of Patricia Tenório with an unpublished poetry, without name and frontiers of Emilson Zorzi, who didn´t write during a long time and, even still in the beginnig of the reading of  “Como se Ícaro falasse” (“As Icarus talks”), he dialogues with this book perfectly…

Reaching the mark of 300 posts, I decided come back in time Revisitando Patricia Tenório (Revisiting Patricia Tenório), witn short stories, poems and parts of my books that were posted in the blog during these almost three years together. In this month, I revisit Três contos de Carnaval (Three short stories of Carnival), from February of 2011.

I toast you with the gentle and forceful chronicles of Rizolete Fernandes (RN) (Rosa do Deserto) (Rose from the Desertand Mara Narciso (MG) (Liberdade, ainda que tardia!) (Freedomeven if belated!).

And all the poetry of Carlos Alberto Cavalcanti (PE) (Textos poéticos) (Poetic textsand Jorge Tufic (CE) (Quando as noites voam) (When the nights fly).

I greatly thank the authors by sending their texts… Continue to participate!

The next post will be on 24th February, 2013. 

See you soon,

Patricia Tenório.

***

______________________________

* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Emilson Zorzi é químico, educador e… Poeta! Contato: epzz.zorzi@ig.com.br 

** Emilson Zorzi is chemical, educator and… Poet! Contact: epzz.zorzi@ig.com.br 

*** Por do sol no Rio Capibaribe – Recife – PE, Brasil.

*** Sunset in the Capibaribe River – Recife – PE, Brasil.

Revisitando Patricia Tenório* – Janeiro 2013

 

Três contos de Carnaval

Post: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3252

(Em  19/02/2012)

 

A ladeira da misericórdia 

Participação na antologia Sonhos de Carnaval, 2008

           

          Decidi ser aquele meu último carnaval em Olinda. Enxergava o maracatu, as sombrinhas coloridas dos passistas, o Homem e a Mulher da Meia Noite. Sorvia lentamente um capeta de sirigüela – passava se arrastando apertado pelas amídalas, senti o gelado tombar no meu estômago vazio.

            Sentei na calçada dos Quatro Cantos. Observava. As fantasias mais coloridas, o calor sufocando, o sol queimando minhas íris verdes. Um trem de pessoas entoava uma marchinha antiga. Parecia ver carnavais de outras épocas, nos chapéus com plumas da porta bandeira, o vestido armado se encontrando com os sapatos cobertos de glíter prateado; na cabeça, peruca barroca.

            Acompanhava os casais de namorados em cada pequeno gesto, um beijo na nuca suada da mocinha, abraços apertados de um vilão em frente ao muro pichado de grafite. Crianças molhando umas às outras. O sol quebrava-se em prismas de cor nos jatos de água, repousando numa cabecinha marrom.

            Os cachos desciam e subiam a ladeira dos ombros, ao som de Vassourinhas encolhiam-se, expandiam-se acompanhando a minha respiração ofegante: não teria cinco anos a menina. Usava uma fantasia de papel machê, mal lhe cobria o corpo roliço, macio. As sapatilhas azuis, quase cinzas, mostravam a trilha dos muitos passos dados naquela manhã de Sábado de Zé Pereira.

            Não havia mãos dadas com alguém. Me acompanhava na despedida de quem éramos, cúmplices no desejo de um mesmo personagem. Se ela Colombina, eu um Pierrot disfarçado; se eu uma Julieta velha, ela um Romeu travestido. Não nos importávamos com os olhos alheios, eu tantas vezes antes não me importara, levando crianças de igual idade ao meu atelier, dando-lhes bombons coloridos e viciados, jogando cartas até surtirem efeito, despindo-os em canções de ninar. Somente então tomava-lhes o corpo miúdo emprestado, saindo minha alma deste cansado e doente, contaminando-as em carne e espírito, esperando absolvição no próximo carnaval.

            Adorava esculpir na madeira depois de enterrá-los. No jardim, as estátuas marcavam o lugar dos caixõezinhos e lhes davam apelidos: Bolinha de Gude, Pipa, Boneca de Pano, Caminhãozinho. Uma vez tive muito trabalho com dois negrinhos irmãos, chuparam mais pirulitos que o necessário, entrei em êxtase muito antes dos pares de olhos esbugalharem, das minhas mãos longas cravejarem a espátula nas costas cor de jambo.

          Plantei-os debaixo do pé de jabuticaba e no verão seguinte os frutos eram mais escuros e doces, tendo eu que aproveitá-los em compotas e geléias frescas. Vendi toda a produção no Mosteiro de São Bento. Ri imaginando os monges degustarem com torradas os negrinhos que antes eu havia me deliciado.

          Acariciei os caracóis da menina sozinha, perguntei-lhe o nome.

          Eugênia.

          Numa suavidade saíam dos lábios as sílabas, minha cabeça girava querendo voltar ao passado e desistir do futuro.

            Só mais uma vez.

            Puxei a pulseira de Maomé e rezava na direção de Meca pedindo socorro para a tentação. Rezava as frases lentamente, com vigor e fé, mas não pedira àquelas mãozinhas gorduchas para desenhar minhas sobrancelhas, descer por meu nariz torto, descansando sobre os meus lábios.

          Havia de ser a última chance.

          Subimos a Ladeira da Misericórdia. Ela cantava o Hino do Elefante com a língua enrolada da idade, mais tarde se enrolaria nela mesma, eu começava a sentir o antigo formigamento nos dedos do pé esquerdo, as pernas, tronco e braços; quando encontrassem as unhas da mão seria tarde, o sol posto, o Mar Vermelho e o Rio Nilo descendo a ladeira, nos juntando ao Capibaribe e ao Beberibe formando o Oceano Atlântico.

 

Quando a chuva chegar

Texto extraído de Diálogos, Editora Calibán, 2010

 

          Há muito tempo não venho ao Galo da Madrugada, o maior bloco de carnaval do mundo. Nele, ganhei, perdi amores, ilusões e desafetos. Passeio cedinho entre foliões ansiosos no Forte das Cinco Pontas aguardando a saída do bloco; acontecerá em poucos minutos.

          Palhaços e colombinas, piratas, damas da corte, todos querem ser o outro por um dia; reconheço um sonho antigo meu: o que seria se eu não tivesse nascido neste corpo?

          Talvez fosse aquele homem careca, barrigudo; fantasiado de Super-Homem, esconde uma vida de servidor público, todos os dias a mesma rotina, a mulher o abandonou em busca de aventuras, os filhos adultos o visitam no Dia dos Pais.

          Ou quem sabe seria aquela moça baixinha? Fantasia de havaiana, tudo são flores e coloridas. Passou no vestibular de Letras, mas não colocou um band-aid rosa na sobrancelha porque o namorado não iria gostar. Sonha com uma casinha branca de janelas azuis, cinco filhos e um longo felizes para sempre.

          Mas me agrado com o Aladim. Por mim passa, uma caipirosca na mão direita, a esquerda levantada cantando Voltei Recife. De algum porto distante navegou e navegou porque era preciso; ganhou, perdeu amores, ilusões e desafetos.

          No Marco Zero a chuva se aproxima misturada com o oceano azulado. As ondas crespas verde-musgo se dissolvem na bruma das nuvens cinzas, percebo prismas de luz tombarem na escuridão do mar profundo.

          O Aladim se afasta atrás do Galo. Fico muda, cansada e sem forças. Espero. Quem sabe quando a chuva chegar eu me reconheço?

Rainstorm off the coast at Brighton, John Constable

 

(des)carnaval(ha)

09/03/2011

Acordou bem cedo para dar tempo de filmar o sol nascendo. Pegou a câmera, carteira de motorista e uns trocados…

– Para dar ao ladrão.

Alisou os cabelos da filha dormindo. Os cabelos longos de Ana Clara. Os cabelos longos de Ana Clara dormindo.

No carro, tentou filmar e dirigir ao mesmo tempo, feito quando brigou com Ana Clara; saiu, no meio da chuva para filmar seu primeiro curta, distinguir o sal da terra e as gotas grossas de chuva, de lágrimas?, de raiva, de amor?

Passou pela Ponte Giratória e parou o carro no lugar que desse tempo de ainda filmar o sol nascendo. Correu entre os foliões bêbados de sono, de cachaça, de quatro dias de carnaval, de brigas com o pai da única filha porque o vira dando um beijo no pescoço da colega de trabalho, ali, no Marco Zero das Américas, no Bairro do Recife, há dez anos.

Pudera voltar o tempo e retirar da câmera dos olhos aquela imagem, aquela certeza de que o amor acaba, acaba o carnaval, a gente cresce, não ouve mais mãe, não ouve pai, volta para casa às duas da manhã aos dezesseis anos, aos dezesseis anos voltamos a ser, eu e o pai de Ana Clara, estudávamos na mesma sala do Colégio Salesiano, queríamos ser fotógrafos, ele e eu, para sair gravando todos os instantes especiais de nossas vidas na câmara Kodak amarelinha que meu avô me deu de presente.

Os garis varriam o lixo cintilante do sol que nascera e não consegui filmar. A cadência das vassouras, pareciam inventar uma nova dança, um frevo silencioso que somente eu e minha mente fértil poderia escutar no início daquela quarta-feira de cinzas. Pensei em vir mais cedo, no domingo, na segunda, mas para quê perder a magia de desconstruir o carnaval, deixá-lo como na Idade Média, quando faziam banquetes de carne antes do jejum e abstinência da quaresma, disse-me o padre na missa. Disse a mim e a uns poucos fiéis que resistiram às ladeiras de Olinda, ao Bairro de São José, aos Papa-angus de Bezerros, aos Maracatus, Vassourinhas, Bloco da Saudade, Homem da Meia Noite e a mulher do dia em que Ana Clara, suja de placenta ainda, quente com meu sangue ainda, encostou em mim e meus lábios beijaram a cabecinha peluda da cor dos cabelos do pai.

Entro só na Rua do Bom Jesus. A câmera me protege do passado e abre espaço ao presente que me vem colorido e o que era silêncio ao meu redor, veio de longe, longe, a troça, os últimos foliões, corpos suados, fantasias molhadas de suor e cerveja, cantando a mim e às minhas lembranças que a vida continua no próximo carnaval, novos amores, novas cantigas e uma certeza de que não seremos mais os mesmos com os nossos pais.

httpv://www.youtube.com/watch?v=1yq6X3J91jI

(des)carnaval(ha)

Fotofilme

___________________________

Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br

Rosa do Deserto* | Rizolete Fernandes**

           Em visita a um amigo que cultiva plantas e flores em sua bela moradia à margem da Lagoa de Alcaçus, recebi de presente a muda de uma planta chamada Rosa do Deserto, de caule cinza esverdeado, desnudo e com folhas verdíssimas na extremidade superior. Ela é assim chamada por dispensar a rega diária e necessitar de muito sol para seu desenvolvimento.

            Meu apartamento não dispõe de sacadas nas janelas e a área contígua à cozinha é toda coberta. Assim, a solução para manter a planta viva foi um banquinho alto que coloquei próximo à janela, onde recebe a luz solar da primeira parte da manhã. Passou-se quase um ano para que fizesse sua primeira floração. Vi surgir o botão e acompanhei passo a passo sua evolução, até o dia em que explodiu numa flor. Por pouco não assisti a esse momento mágico: abri a janela para seu banho de sol e fui cuidar dos afazeres. Pouco depois, ao retornar à sala, encontrei, altaneira, a linda flor. Fiquei tão comovida que corri ao telefone, para anunciar o nascimento ao doador!

            A minha Adenium obesum (seu nome científico) é uma Bua Khao, que indica a cor branca da flor. Mas as flores desta planta podem apresentar cores com gradações que vão do branco ao vinho.

            Depois do advento, achei que iria ter flores na sala com frequência. Ledo engano. O amigo estranhou a demora e veio prestar “assessoria”, dando um trato na planta, que mudou para um jarro maior, com adubo orgânico e novas dicas de cuidado. Disse que, normalmente, ela flora a intervalos menores, atribuindo a demora à pouca incidência do calor solar, ou à meia-sombra, no jargão botânico. O que fazer, senão ter paciência?

            Qual não foi, pois, minha alegria quando, agora, decorrido quase outro ano, surgiram três botões, simultaneamente, num dos dois galhos da pequena planta. A partir daí, e, como da vez anterior, ao levantar pela manhã, corria a abrir a janela, na expectativa do espetáculo ímpar que é a chegada de uma flor. Que demorava, a meu ver, além da conta.

            Coincidindo com o nascimento dos botões, recebi do Partido Comunista do Brasil o convite para receber uma homenagem a ser feita pelo partido a algumas pessoas que se destacaram nas lutas pela redemocratização do país, no período ditatorial. No dia da solenidade, antes de sair de casa, fui conferir os botões, um deles prestes a mostrar sua beleza em plenitude.

            Regressei por volta das 14 horas e ao abrir a porta, meus olhos pousaram direto na planta e lá estava uma das flores! Alvíssima, em suas cinco pétalas e igual número de estiletes e um pouco menor que a antecessora, mas linda. Ainda que anunciada, sua chegada sempre me emociona. Um regozijo.

            Dos dois outros botões, um murchou e não vai dar em nada. O outro continua se desenvolvendo e logo vai me ofertar mais um presente.

            Depois do ato solene em que fui homenageada e do abraço afetuoso de diversos amigos, alguns dos quais não via há tempos, só pude considerar o momento perfeito: tinha nas mãos uma comenda e na sala uma flor, para enfeitar a vida. Do que mais eu precisava naquele dia para ser feliz?

***

___________________________

* Texto extraído de Cotidianas, de Rizolete Fernandes, Editora Sarau das Letras, RN, 2012.

* Rizolete Fernandes, socióloga, norte-rio-grandense de Caraúbas, reside em NAtal. Na luta por um mundo melhor, integrou-se aos movimentos sociais; nos dias atuais, combate com a palavra escrita. Publicou A história oficial omite, eu conto – Mulheres em luta no RN (Edufrn, 2004); Luas Nuas (Una, 2006), poesia; e Canções de Abril (Una, 2010), poesia. Cotidianas marca a sua estreia na arte da crônica.  Contato: mrizolete@yahoo.com.br

*** Adenium obesum ou Rosa do Deserto.

Quando as noites voam* | Jorge Tufic**

 

Como surgiu a noite

  

A Noite dormia no fundo do rio.

 

Cobra-Grande guardava as profundezas,

e ainda não havia animais,

nem pássaros, nem peixes.

A noite tinha pálpebras de breu

e ainda vivia encolhida

dentro de um caroço de tucumã.

 

Aí, os escravos do marido da Cobra-Grande,

partiram para buscá-la.

 

Pelo caminho de volta,

o caroço deixava escapar abafados ruídos

de grilos e sapinhos.

É que a noite se embalava, sozinha,

nas fibras de tucum.

Assustados com isso,

os escravos soltaram a prisioneira.

E o dia foi logo surpreendido com as coisas

transformadas em animais,

peixes e aves.

 

De um paneiro, gerou-se a onça;

os cipós viraram cobras;

um tronco de árvore no meio do rio

tomou a forma da anta;

uma pedra começou a andar,

era o jabuti;

os frutos silvestres tornavam-se peixes,

os sons da floresta mostravam o cujubim,

o acauã, o uirapuru.

 

Feito isso, porém,

a noite e o dia se abraçaram

no corpo da filha da Cobra-Grande.

Os escravos, como castigo,

passaram a andar sobre os galhos das árvores.

Eles tinham a boca suja de breu,

e deviam, por muito tempo,

se limparem dessa nódoa.

 

As raízes do texto (II)

 

Pequeninos flagrantes da tarde,

aliados  à música e ao vento

que ameniza o verão,

me fazem perceber nitidamente

como tudo o que veio para ficar

já estava na paisagem.

 

E nem precisa fazer barulho.

 

 

A origem do mundo

 

O mundo não foi criado: apareceu.

Testemunha disso é a Cachoeira do Jacaré, onde uma lua guardara os Pakarós corridos pela gente de uma idade perdida.

Através da fumaça do iraiti, eles viam o coração das mulheres alar-se para junto dos homens.

O tempo, contam, ainda não punha obstáculos ao corpo, por mais lerdo que fosse. Bastava uma puçanga, e o amanhã estaria alcançado.

________________________________

* Textos extraídos de Quando as noites voam, de Jorge Tufic, Valer Editora, Manaus, 2012.

** Jorge Tufic nasceu em Sena Madureira, Acre, a 13 de agosto de 1930. Viveu em Manaus durante 46 anos, saindo para morar em Fortaleza, em 10 de dezembro de 1991. É autor da letra do Hino do Amazonas, entre vários livros de poesia, ficção e ensaio, perfazendo os 50 títulos publicados. Pertence a várias entidades, entre as quais a Academia Amazonense de Letras, Academia Acreana de Letras e a Academia de Letras e Artes do Nordeste, sendo, além disso, detentor de inúmeros prêmios literários, com destaque ao “Curso de Arte Poética”, prêmio nacional da Academia Mineira de Letras para o ano de 2003. É Comendador da Ordem do Mérito Cultural do Estado do Amazonas, Cidadão Honorário de Fortaleza e colaborador do portal Cronópios da Internet. Foi objeto de uma primorosa reportagem do jornalista libanês Al Naher, já divulgado e traduzido para 80 idiomas. Contato: jorgetufic@hotmail.com

Liberdade, ainda que tardia!| Mara Narciso*

 19 de janeiro de 2013

 

Após a busca da felicidade, o que se quer é liberdade. Muitos a procuram, e nem sempre sabem onde encontrá-la. Algumas revoluções têm a liberdade como palavra de ordem, como aquela da Inconfidência Mineira, em latim, “Libertas quae será tamen”, cuja tradução é o nome deste texto, ou o lema da Revolução Francesa (1789) que era Liberté, Égalité, Fraternité, ou, Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Quando se é criança, se anseia por liberdade, mas a necessidade de obedecer é maior. Então chega a juventude, e a vontade de ser livre se amplia. É quando eclodem os maiores conflitos, e se ouve: “quem come do meu feijão, aguenta meu ‘currião’”. Estranho? É o aumentativo/corruptela de correia ou cinto.

Uma mulher grávida, por exemplo, sente-se presa, e quer que chegue logo o dia do parto para “descansar”. Caso seja o primeiro filho, mal sabe ela que aí começa o cansaço. Ainda que seja com muita alegria. Sacudindo o filho no colo, mal vê a hora de não ter de segurá-lo nos braços, e anseia pelo momento em que o filho andará. O que triplica o trabalho. Ter um filho é como estar peada, com os dois pés amarrados. Não se pode fazer nada. Ainda assim, quase todas querem ser mães, e quando não querem, no seu sagrado direito de escolher, são vistas como egoístas.

O casamento também é tido como prisão, então, entre casais, a liberdade é a possibilidade de fazer o que se quiser. Alguns defendem o relacionamento aberto em que a ideia, aceita por poucos, pois o ser-humano é possessivo e ciumento em sua natureza, é a liberdade total. Para ilustrar, uns versos da música “Já sei namorar”, dos Tribalistas: “Eu sou de ninguém/ Eu sou de todo mundo/ E todo mundo é meu também”.

Filhos pequenos segurando de um lado e pais idosos do outro. Os velhos estão sendo abandonados em nome da liberdade. Dos seus filhos, é claro. A desculpa é: “todo mundo aqui trabalha, e ninguém tem tempo para cuidar de mamãe”. Dessa forma, aonde chegará a nossa civilização?

Quem viveu 21 anos sob o comando da Ditadura Militar, quando censores escolhiam o que se via e se ouvia, até desenhos de Tom e Jerry eram cortados, e partes de corpos com pouca roupa borrados, cargos políticos eram escolhidos por um grupinho. Em 1976, Sérgio Mineiro e Beto Ruschel fizeram os versos “Liberdade é uma calça velha / Azul e desbotada / Que você pode usar / Do jeito que quiser”, e foram criticados. A juventude engajada achou a letra da propaganda da calça US TOP alienante.

Nos dias atuais votar deveria ser o grande momento da liberdade. Mas não tem se mostrado como o clímax da democracia. Há elevada abstenção, milhões de votos brancos e nulos, pessoas que votam e não se lembram em quem votaram, e políticos que envergonham a população, fazendo o exercício do voto um momento desconfortável.

A falta de tempo é o cárcere atual, com o relógio no comando. Arruma-se uma agenda de 26 horas para cada dia, e se enforca na pressa. Tantas desimportâncias elevadas a prioridades, desde a caixa de e-mails até o que acontece no Facebook ou no Big Brother, amarrando pessoas a obrigações que torturam e esvaziam. Há quem pense que escolhe um aparente hábito, mas na verdade foi capturado pelo vício.

E o trabalho que não causa prazer? Há a possibilidade de mudar de ramo, de diminuir a agenda, de negociar com o chefe. Trabalhar um pouco menos pode ser mais rendoso do que ficar tantas horas no trabalho. Pergunte-se: a que horas vou viver? O lazer é investimento. O que foi alcançado pelo trabalho precisa ser aproveitado. Usufruir passo a passo, ano a ano é tão importante quanto conquistar.

Cuidado! Ter não é o mesmo que possuir. Empréstimos consignados e contas para pagar em 60 meses parecem ser, mas não são um bom negócio. Afinal, melhor mesmo é poder sair quando se quiser, para viajar, ou apenas caminhar. Ser livre pode ser poder ver, como em “Liberdade para as borboletas”, filme de 1972, em que um rapaz deficiente visual sai de casa e vai morar sozinho, enfrentando um desafio perturbador.

Parece contraditório, mas quem quiser andar livre, leve e solto, em completa liberdade, precisa seguir as leis. Não é preciso viver todos os desastres para saber o que não é bom. Ter liberdade é um bem que não tem preço.

_____________________________

* Mara Narciso  é médica e jornalista. Contato: yanmar@terra.com.br

Textos Poéticos | Carlos Alberto Cavalcanti*

 

UMA LEITURA DE “O ENTERRO” (PORTINARI)**

 

 

Quatro homens conduzem o esquife

contendo um defunto anônimo

que segue para a plantação

dos corpos inertes;

os condutores vão a passos largos,

talvez temam que o defunto

resolva desdefuntar

(e a hora não é própria);

a cidade está deserta e sombria.

À distância de uma lua,

São Jorge os acompanha

no galope de seu cavalo alado;

parece clarear o fúnebre trajeto

para que os vivos e o morto

não se enfadem no percurso.

“Requiem æternam dona eis, Domine…”

 

 Senhor, concede-lhes o eterno descanso

 

SONETORRADO***

 

 

No solo castigado pelo sol

já não há mais vestígio de verdor,

só resta o chão rachado e a grande dor

de ver, no céu, o fogo do farol.

 

Abraça desolado o girassol

que inda resiste ao fogo abrasador

que faz do sertanejo um sofredor,

pois terra seca é perda no paiol.

 

Deixa pra trás o chão de sua nascença,

leva, saudoso, a viola e sua crença

de que retorna um dia pro sertão.

 

Quando, enfim, chega a chuva sem tardança,

o sertanejo se enche de esperança

e eleva as mãos ao céu em gratidão.

 

________________________________

Professor Carlos Alberto de Assis Cavalcanti. Poeta, autor de ITINERÁRIO POÉTICO, obra que recebeu Menção Honrosa em concurso nacional de poesia promovido pela Academia Pernambucana de Letras (2001). É detentor de vários prêmios nacionais nas modalidades: poesia moderna, sonetos e trovas. É membro-correspondente das Academias de Letras e Artes em: Ponta Grossa – PR, Cachoeiro do Itapemirim – ES, Rio de Janeiro – RJ. É delegado da UBT (União Brasileira de Trovadores) em Arcoverde. Mestre pela UFPE e professor de Literatura Brasileira no Centro de Ensino Superior de Arcoverde – PE. Contato: cajaprof@hotmail.com

** Texto finalista do Sesc Brasília – DF, Prêmio Carlos Drummond de Andrade, 2012.

*** 1º Lugar Nacional no Concurso de Sonetos Francisca Clotilde da Academia Tauense de Letras – CE, 2012.