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Índex* – Dezembro, 2012

 

Quando conhecemos a nossa alma, tornamo-nos simples como crianças, tal como Cristo ensinou que deveríamos ser.

(De Profundis, Oscar Wilde)

É tempo para uma nova vida, uma vida plural na Arte, nas possibilidades de ser e de recomeçar no Índex do blog de Patricia Tenório.

Ícaro” fala e Patricia Tenório agradece.

Um conto (Maria-Maria) e um poema (Quarto sentido) de Patricia Tenório (PE).

Textos de Elilson Duarte (PE) na V Janela Internacional do Cinema.

A pluralidade na Poesia em Poemas de Clauder Arcanjo (RN), Observando estrelas de Bernadete Bruto (PE), Misto códice de Paulo de Tarso Correia de Melo (RN) e Poèmes d’Ursula Koziol (Polônia), traduzido por Isabelle Macor-Filaska e Agata Kozak (França).

E Concursos Literários Poesia Livre (Brasil) e Tra sechia e Pannaro (Itália).

Desejo a todos e todas um Feliz Natal e um 2013  de muita Paz, Saúde, Luz, Alegria, Amor e Arte para todos nós!

A próxima postagem será em 27 de Janeiro de 2013.

Até próximo ano!

Patricia Tenório.

 

Index* – December, 2012

 

When we know our soul, we become simple as children, as Christ

 taught that we should be.

(De Profundis, Oscar Wilde)

It´s time for a new life, a plural life in Art, in the possibilities of being and starting again in the Index of the blog of Patricia Tenório.

Icare” talks and Patricia Tenório thanks.

 One short story (Maria-Maria) and one poem (Quarto sentido – Forth sense)Patricia Tenório (PE).

Textes from Elilson Duarte (PE) in the V Janela Internacional do Cinema.

The plurality in Poetry in Poems from Clauder Arcanjo (RN), Observando estrelas (Watching stars) from Bernadete Bruto (PE), Misto códice (Mixed codex) from Paulo de Tarso Correia de Melo (RN) and Poèmes d’Ursula Koziol (Poland), traducted by Isabelle Macor-Filaska and Agata Kozak (France).

And Literary Contests Poesia Livre (Brasil) and Tra sechia e Pannaro (Italy).

I wish you all a Happy Christmas and one 2013  with a lot of Peace, Health, Light, Joy, Love and Art for all of us!

The next post will be in 27th January, 2013.

Until next year!

Patricia Tenório.

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Baobá enviado por Ênio Castellar, Cônsul da República do Senegal em Recife, Brasil. Contato: consuladosenegal@hotmail.com.

** Baobab sent by Ênio Castellar, Consul of the Republic of Senegal in Recife, Brasil. Contact: consuladosenegal@hotmail.com.

“Ícaro” fala…*

 

“Um herói. Precisa de coragem ou de loucura para ser um herói?”

“Encontra-se o amor ou ele nos encontra?

Quem sabe o amor, misturado com nossos atos e pensamentos, não necessariamente exista, mas respire em nós, se inscreva em nós até surgir uma aparição, um reflexo no espelho que de tanto se parecer com o amor, tudo esclarece, ilumina.

Resplandece.”

“Um aroma se conhece toda a vida?”

 

“Quando a barca vem, não tenho medo. Na barca sou senhor, sou rei. E sei aonde irei chegar.”

 

“É preciso estar aberto ao sonho. É preciso estar desarmado. A barca somente acolhe os esperançosos, os que não perderam a ilusão.

Os exilados.”

 

“Que segredos têm as mãos? Para o que foram feitas? Tocar o intocável, as mãos, trocam sentimentos, sensações. Em cada ponto dos meus dedos revelam-se dores, acordam alegrias. Criam estórias para se crer e guardar na memória, a memória imaginária. Pode-se crer em estórias criadas. Pode-se crer e existir delas, delas se nutrir, sobreviver dias, meses de um mesmo toque, enlarguecendo a alma para outros mares desbravar, outra ilha amanhecer o sonho que se sonhou.”

 

“O amor é feito de prazer. O amor entrega a essência de si para ser guardada na essência do outro. Haveria uma troca de lugar? O que o ser amado sente a mim pertenceria, eu pertencendo ao sentir de quem me ama?”

 

“– Nada se sabe de um destino. Apenas que seja desfiado por ti. Irás desfiando nas escolhas, no certo e no errado, e estava em ti guardado, escolhido, destinado.”

 

“Amor se dá. Amor se recebe. Dei-me a Laura como a um espelho. Quando a amava me tocava, me sentia, me enxergava. O amor revela no outro o que a si pertence, e por tanto querer em Laura o que em mim amava acreditei, me iludi, criei em Laura a mim mesmo, um outro eu iluminado, um outro eu que nem ao menos sei se existiu.”

 

“Os pés tocam o vazio – pode-se o vazio tocar? Pode-se o vazio prever? E amar? E criar? Porque o vazio suprime a cor, a luz, o calor. Nada habita o vazio. E no vazio se nasce, se cresce, se transforma. O vazio permite mudança, não tem passado, não tem futuro: ele é. Ele suporta o próprio peso. Ele aquieta a própria alma. No vazio se esquece a dor.”

 

“Se quisermos estar no alto, tenhamos os pés no chão. Fincando os pés na terra, ela dirá segredos, se ligará em nós e nós seremos profundos, eternos. Serenos.”

 

“E o sentimento pertence a todos nós. Quando o deus Sol nasce, anuncia uma nova era, na qual agimos e mudamos ao bel-prazer. Criamos oportunidades. Não apenas elas nos criam.”

 

“A música expressa o que é belo e não há palavras. A música é o próprio ato, é o toque do vento em minhas penas, o roçar do bico em uma flor.”

 

“Quando escutamos a voz, quando descortina em nossa frente o caminho justo, nada pode nos parar. Fluímos em direção ao nada, voamos ao encontro do todo que se formou em nós, e nos enxergamos plenos.”

 

“O pensamento puro está em toda parte. Ele busca um ser no qual pouse e se manifeste. Ele pousou em Ícaro. E Ícaro é.

Eu nem suponho acompanhar tal pensamento, porque ele gosta de se entranhar em corpo humano. Ele gosta de se pensar. Em corpo humano procura frestas por onde ir ao exterior, um suspiro, tremor de mãos, palavras desconexas de uma boca… É quando melhor se expressa: naquilo que não está. Naquilo que foi por um instante e nem ao menos foi notado. No imperfeito.”

 

“Ícaro, sentes a largura em tuas asas?

Sentes que podes percorrer o mundo com elas e não mais voltar?”

 

… e Patricia Tenório agradece a …

 

 

… Thiago França, Ísis Agra, Malu Sá, Elilson Duarte, Bárbara Ferraz, Jay Melo

Jorge Féo, Nilton Leal, Cleison Ramos

  

 

Clauder Arcanjo, David Leite e Francisco Batista

da Sarau das Letras – RN…

 

 

… todos os meus mestres, em especial neste ano de 2012,

Cecile Tricot e Maria do Carmo Nino

 

 

João Alberto, Luzilá Gonçalves e Tatiana Meira e …

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=lmsgPUxLsu4&feature=youtu.be

 

Como se Ícaro falasse**

de Patricia Tenório

Leitura Dramatizada em 21/11/12

pelo Grupo Anjos de Teatro

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* Trechos de Como se Ícaro falasse. Fotos de “Ícaro “fala””: Nilton Leal. Contato: de_nilton@hotmail.com

** Como se Ícaro falasse

Patricia Tenório

Editora Sarau das Letras

Gênero: Ficção

ISBN: 978-85-60650-38-5

136 páginas

R$ 30,00

www.livrariacultura.com.br ou clauderarcanjo@gmail.com

 

Um conto e um poema – Patricia Tenório*

 

Maria-Maria

 

Era uma antiga pedreira o lugar onde Maria resolveu levar Joana para fazer uma trilha. O voo dos passarinhos não se ouvia lá, porque as folhas secas das árvores se quebravam, se partiam, os ouvidos atentos às folhas, atentos ao próprio coração.

Maria começou a namorar Joana fazia pouco tempo. E fazia pouco tempo o bombeiro ensinou os primeiros socorros para as duas e aos três rapazes tão parecidos entre si que seriam trigêmeos não fossem de cores diferentes. E a um casal recém-casado, recém-constituído-um-lar, que não parava de trocar beijos e abraços, o que chamou a atenção de Joana.

– Eles não têm muito tempo.

Elas não tinham muito tempo. Mas pareciam séculos. E todos os dias Joana ligava quando saía da aula para marcar com Maria na lanchonete da escola. Não podiam se beijar, se abraçar, trocar carícias. Mas olhavam uma para outra como para se teletransportar, e avistar bem ao longe e cada vez mais perto a piscina azulada criada pela pedreira.

– Um veio d’água aqui brotou.

Disse o bombeiro. Bem simpático. Musculoso. Ensinou para Maria as primeiras instruções.

– Para o rapel é preciso soltar a alma, soltar o grito guardado no estômago.

Do estômago ele vinha, o grito. Maria o engolia, Maria o afastava da garganta, feito o medo afasta o pensamento e parecemos não pensar, parecemos ser feitos de pedra, e a pedra não tem humanidade. Ou será a pedra gente que se impõe pelo caminho? Bloqueia no caminho o pensamento de ir e vir. E estáticos, parados, ficaram Maria e o pensamento, aguardando o bombeiro, simpático, musculoso, soltar a corda, correr o trilho, para o corpo se jogar, o corpo se abandonar na profunda piscina azulada lá embaixo.

– Pula, Maria, pula!

Parecia Maria ouvir. Mas não ouvia nada, não sentia nada, nem o bater do coração. Uma carapaça de (medo?) suor cobria toda a pele, e os poros tão dilatados que se podiam ver as veias e o sangue grosso, viscoso, por elas a se arrastar.

Maria se lembrava do dia em que a mãe morreu. Ela não viu a mãe morta, enterrada, no caixão. O pai não deixou. Desde então imaginava cenas, criava histórias tão reais quanto estar ali, naquele abismo, prestes a se atirar.

Por que o medo de se atirar? O que iria perder além de uma vida? Uma vida pode se perder, uma vida pode se viver uma infinidade de vezes, uma imensidão de tipos e máscaras de possibilidades de si: Maria-Maria, Maria-Joana, Maria-sua-mãe, Maria-seu-pai, até Maria-bombeiro-simpático-musculoso.

– Vai, Maria, vai!

E Maria caiu. Era uma queda lenta. Em câmara lenta. Como se a alma de Maria abandonasse o corpo e visse o próprio corpo assustado, congelado, paralisado, caindo, sumindo, consumindo a si na queda, na entrega, no abandono de um abraço que Maria queria dar em sua mãe. 

**

 

Quarto sentido

01/12/12

  

Aqui estamos

De novo

Teus olhos pousados nos meus

Tuas mãos a exprimir

Palavras

Da boca para dentro

Do tempo para fora

 

E eu

Os sonhos engavetados

Até amanhã?

Até nunca mais?

 

Não sei

Não sei

Só sei que meus olhos

Estão secos demais

Estão velhos demais

Da vida

Não vivida

Não sentida

Não amada

 

Que os olhos teus apontam

Que as mãos tuas molham

No beijo

Dos lábios teus

 

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Patricia Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem sete livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em 21 de novembro de 2012. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Contato: patriciatenorio@uol.com.br

** Foto de Patricia Galindo. Contato: pattioxe@hotmail.com

Textos de Elilson Duarte – V Janela Internacional de Cinema do Recife

 

 

Internacional 1: Vamos à luta**

15/11/2012 05:43

por Elilson Duarte*

Luta, polissêmica**

Luta sf. 1. Combate corpo a corpo, sem armas, entre dois atletas. 2. Qualquer combate corpo a corpo. 3. Peleja; guerra. 4. Antagonismo entre forças contrárias; conflito. 5. Esforço.

O programa 1 da Mostra Competitiva Internacional lança o convite “Vamos à Luta”, cabeçalho que agrupa cinco curtas-metragens díspares entre si, da língua de origem à proposta, mas que podem suscitar os cinco contextos particulares ao vocábulo luta.

Hermeunetics (Alexei Dmitriev, 2012) funcionou, dentro da sessão, como um grande prólogo. No princípio, apenas uma natureza branda modificada com um inofensivo fogo de artifício. Depois, uma sucessão de imagens de guerra, um sequenciamento de espasmos para os olhos e para os ouvidos. Em três minutos de preto e branco, as imagens nos mostram o poder de aniquilamento de uma guerra, na ideia mais genérica, consensual, de luta. Somos levados a praticar a filosofia da interpretação-hermenêutica- deduzindo que estamos, ali, a partir daquela discursividade sonoro-visual, assistindo à fotocópia de uma típica Guerra, com suas famigeradas explosões que, na obra, soam como uma grande sinfonia da destruição. O que o diretor russo arquiteta nessa hermenêutica ultrapassa a representação bélica, pois, na verdade, se apropria de imagens reais da Segunda Grande Guerra, fator já assinalado na abertura do título, o qual é ilustrado pela imagem de uma águia em cima do globo terrestre, um dos grandes símbolos do nazifascismo, alegoria de poder no Terceiro Reich. Assim, assistimos, por meio da reconstrução fílmica, à ressignificação de um episódio decisivo na memória sócio-discursiva do espectador de cinema, de qualquer parte do mundo.

Em The mass of men (Gabriel Gauchet, 2012), as imagens iniciais são retiradas de uma câmera de segurança. Nessa perspectiva um pouco distante, identificamos o cenário como uma repartição, um escritório, que tem o seu funcionamento alterado por algum ato de violência, um homem munido de uma arma atirando numa mulher. Uma sequência de abertura integralmente acompanhada por uma música épica, por um canto lírico que aguçam a nossa expectativa quanto ao reaparecimento daquelas imagens no decorrer do filme. Em seguida, somos apresentados a um homem de meia idade, despenteado e esbaforido, a caminho de um prédio, que inferimos se tratar da mesma repartição e que propicia a especulação se é esse o homem que vai matar alguém nos minutos seguintes. Há um foco numa câmera de segurança externa e em seguida um prédio espelhado que reproduz (que filma?) o céu e a avenida. Parece que o filme está reafirmando que vivemos num mundo onde as coisas estão, naturalmente, sendo reproduzidas, vigiadas, registradas, como se fizesse uma leve referência ao Grande Irmão de George Orwell, que tudo observa. Como se ressaltasse que somos vários Winston. Seu enredo de desenvolve a partir do conflito, da luta entre um homem de meia idade desempregado (o que estava a caminho do prédio) e a analista do sistema de empregos que, seguindo à risca suas atribuições, resolve adverti-lo por conta do (recorrente) atraso, abatendo o incentivo financeiro que ele recebe do governo. Tal atitude gera um embate entre os dois personagens que só é interrompido por um disparo. É quando um terceiro homem invade o escritório portando uma pistola de pregos que dispara incessantemente contra a analista. Agora, tem-se a repetição da cena inicial, sendo que numa perspectiva próxima. O que chama atenção na cena de extrema violência, cuja sonoplastia reforça um efeito catártico, não é o assassinato em si, mas a atitude das outras pessoas presentes na repartição: cada um simplesmente salva a própria pele. Inclusive o homem advertido que vê na situação a oportunidade de apagar os dados do computador e continuar recebendo o seu incentivo integralmente. Um retrato da seleção natural contemporânea, cuja força cinética encontra habitat preciso na violência urbana, algo que pode ser contextualizado pelo que antecede os créditos finais, a famosa citação de Henry David Thoreau, escritor estadunidense: “the mass of men lead lives of quiet desperation”, ou seja, a humanidade vive num desespero silencioso suscetível a criar voz na mais feroz das violências. E até mesmo a violência se faz genial nas lentes britânicas de Gauchet.

O português Rafa (de João Salaviza, 2011), por sua vez, aparece como um “realismo episódico”, isto é, o espectador não tem (e nem terá) todas as informações a respeito do enredo e das personagens. Sim, em certa medida, isso também acontece no filme anterior, bem como é um fator comum em grande parte dos filmes integrantes das mostras competitivas, mas, centralizando tal aspecto no programa analisado, ele se dá por uma via diferente. Aqui, ocorre mais como um “recorte”, porque as personagens apresentadas, ou simplesmente citadas têm uma relação mais direta, mais complexa, mesmo que isso esteja apenas nas entrelinhas. Rafa é um adolescente que numa certa manhã recebe a notícia de que a mãe foi presa em Lisboa, para onde segue determinado a aguardar a liberação e trazê-la de volta. O filme tem a narrativa centralizada nesse dia, nessa vida, nesse personagem. Não sabemos ao certo o motivo da prisão de sua mãe, qual a realidade das relações familiares, mas temos uma série de pistas que vão desde a provável relação conturbada com um padrasto a certa solidão que paira a vida do protagonista. Tais indícios, salientados por diálogos fragmentados, pelo silêncio provocado por cortes rápidos nas cenas, podem nos levar tanto a querer continuar a estória, caso embarquemos na proposta do roteiro, como deixar uma “insatisfação” pairando no ar, caso o filme chegue a parecer cansativo. As chances são equivalentes.

Seguindo essa lógica narrativa do “episódio”, o francês Konigsberg (Philipp Mayrhoter, 2012) mostra um dia da vida de seu personagem-título, um homem que é, ao mesmo tempo, proprietário de um pequeno negócio, péssimo caçador, melancólico e, aparentemente, recluso das coisas e das pessoas que o cercam. Essa distância é justificada pelas descobertas que o Sr. Konigsberg faz de coisas cotidianas e, nesse ponto, o filme aposta num humor sagaz, que se apóia no absurdo. Já no início, um papel de parede florido e um homem sentado ao chão afinando seu longo instrumento de sopro, que se assemelha a um bambu (uma rápida busca pelo termo “didgeridoo” pode trazer uma imagem mais clara), no meio da papelaria, prática que acontece todos os dias, porém Konigsberg só descobre nesse instante, juntamente ao espectador. E, assim como no trabalho, onde o som peculiar do didgeridoo acompanha toda a cena, ao chegar a sua casa, uma música pop, vinda do quarto da filha, ambienta a nova cena. É quando ele é apresentado ao suposto namorado da filha mais velha, com a boca inteiramente machada de batom. Tais acontecimentos só são “absurdos” aos olhos do protagonista, pois são completamente naturais pela ótica das demais personagens. Para nós, enquanto audiência, chegam como um artifício de humor que nos deixa aguardando pelo próximo ponto de estranheza, que sempre chega. Inclusive no desfecho, quando há uma engraçada (clichê, mas engraçada) tentativa de suicídio e uma motivação de desistência ainda mais jocosa. Some-se a esse humor a utilização de planos muito abertos que nos permitem a visão panorâmica desse homem, que nos permitem sentir as dimensões de sua solidão quase ofuscada pelo enfoque dado ao humor.

Finalizando o programa, O amor gago (Jan Czarlewski, 2012) apresenta a problemática de Thimothy (Tim), um jovem suíço de vinte e três anos, gênio em física, mas que esbarra sua vida sentimental no seu problema de fala. A – demasiada, diga-se de passagem – gagueira se transforma numa força contrária cada vez que ele tenta se aproximar de uma garota, já que suas cantadas nunca conseguem ser completadas sem que ele se sinta um inconveniente ou que vire motivo de risada. Praticando boxe, Tim encontra uma maneira de libertar as palavras e investe na colega de treinamento, Victoria, que consegue “compreendê-lo”. O curta utiliza a questão da gagueira como uma metáfora da incomunicabilidade, num esforço contínuo da personagem em conseguir se expressar. Há uma sensível analogia entre Thimothy e seus peixes, que têm a “voz” inaudível, sufocada, submersa e que mexem os lábios de forma parecida aos dele, quando não consegue trazer palavras à superfície. Entretanto, essa analogia ganha um contorno impreciso quando inteiramente explicada via texto. Assim como a construção da personagem, que é um tanto estereotipada, pela própria aparência física do intérprete, o que pode reduzir a questão da incomunicabilidade a um humor inocente demais.

Brasil 1: História oral**

15/11/2012 06:51

por Elilson Duarte*

“Vivemos num mundo decididamente grafocêntrico”. A fala do linguista Luiz Antônio Marcuschi reflete um (ainda) paradigma numa sociedade que foi se constituindo pelo valor conferido à palavra, enquanto modalidade escrita. Por meio da escrita que o mundo cientificou ou seus passos. A arte cinematográfica surge como uma quebra dessa lógica na medida em que, ampliando os feitos da fotografia, reproduz o mundo por meio de imagens que não necessariamente estão subordinadas ao verbal, mas como uma arte em que o produto final, visual, antecede a palavra e comunica na sua ausência. Por outro lado, esse mesmo cinema cria suas imagens a partir do verbo, seja pela origem roteirizada, seja pela construção ficcional de diálogos. Muitas vezes, seguindo essa herança grafocentrista que nos rege, o cinema mais ligado à palavra, o ficcional, pode assumir um status diferenciado em relação àquele cinema documental, que flerta de modo mais particular com a oralidade – desde que estejamos tratando da relação do cinema com a grande massa, em que, ainda hoje, as ficções conseguem atingir uma maior quantidade de público que os documentários, excetuando-se grandes bilheterias como A Marcha dos Pinguins. Nesse contexto, o primeiro programa da Mostra Competitiva Brasileira, História oral, une quatro filmes que têm seu universo de realização centrado na oralidade, passeando pelo ficcional e pelo documental, através de temas inerentes ao oral, que vão desde o depoimento e memória até a construção do imaginário, chegando a refletir a própria ausência da fala.

In (Bruno Oliveira, 2012) é o relato da atriz Débora Vecchi sobre um fato ocorrido nos seus onze anos de idade, em 1997, quando foi abusada sexualmente por rapazes que invadiram sua casa no meio da madrugada. Ilustrando o depoimento, aparecem imagens de arquivo (e do domínio virtual, como revelou o diretor) que, em sua maioria, travam um contraste com o que está sendo dito, como a utilização de fotografias de família numa lembrança que não é agradável. In consegue representar, simultaneamente, uma invasão, pelo contexto bastante pessoal do que aborda e um inexorável diálogo da atriz com a câmera, com os espectadores e, porque não, com ela mesma. 

A vida noturna das igrejas de Olinda (Mariana Lacerda, 2012) brinca com o imaginário urbano ao explorar as igrejas da mãe de Recife como personas na madrugada. Para tal, utiliza-se um contínuo jogo entre tomadas mais abertas, as quais mostram desde as fachadas, numa relação mais exterior, até tomadas mais “minimalistas” que focalizam detalhes interiores em pequena ou em grande escala como os monumentais pés-direitos. Esse percurso do macro ao micro modifica nossa visão das igrejas como monumentos arquitetônicos a verdadeiros personagens carregados de historicidade – aspecto auxiliado pela sobreposição de narrativas, que trazem fragmentos de pensamentos sobre a criação das igrejas, sobre a cidade de Olinda e sobre a historiografia de Pernambuco, textos extraídos dos viajantes naturalistas do período colonial, aqueles responsáveis pelas primeiras manifestações de uma literatura que ainda não era brasileira. A utilização desse recurso sonoro cria uma relação com as igrejas como se lhes conferisse uma voz, ou várias vozes, porém, em alguns momentos, as imagens parecem existir por conta da narração e não o contrário. Nesse caminho, a diretora, guiada pela vontade de contar a memória dos lugares, como ressaltou no debate ocorrido após a exibição da mostra, nos guia até um desfecho alegórico em que as igrejas se desprendem do solo, ascendem ao céu, como a Virgem Maria, e caem no mar. Submersas, na madrugada, suas memórias ficam ainda mais distantes de um público que, às claras do dia, parece não notá-las.

Quem tem medo de Cris Negão? (René Guerra, 2012) reconstrói a identidade de Cris Negão, uma travesti do centro de São Paulo que, antes de ser assassinada com dois tiros na cabeça, era conhecida pelo jeito violento que arquitetou para conseguir sobreviver. O diretor René Guerra, multipremiado com o anterior Os sapatos de Aristeu (2008), embarca novamente nas camadas do “submundo” das travestis, só que dessa vez pela “quebra do formalismo” a partir do documentário. Aqui, recruta um casting de travestis que concedem entrevistas sobre as memórias que aproximam suas vidas à vida de Cristiane Jordan (Cris Negão), lembrando de conversas, revelando episódios de violência e retratando como a sua morte alterou a vida noturna do centro de São Paulo. Sendo “exímias contadoras de estórias”, como bem ressaltou o diretor, as entrevistadas oferecem distintos pontos de vista sobre Cris Negão, vista como uma amiga, uma heroína, uma criminosa, mas sempre uma personagem essencial desse imaginário do travesti paulista. O mais inteligente nisso tudo é que em momento algum Guerra tenta formalizar a imagem dessa personagem com a presença de fotografias ou objetos que a personifiquem, pelo contrário, esses índices são apenas mencionados. Assim, permite que Cris Negão passe a fazer parte, também, do imaginário do espectador e o modo sensível com que capta as imagens consegue ampliar a identidade das entrevistadas e recriar o próprio cenário urbano de São Paulo, filmado a partir da evocação de memórias pela oralidade. Em resumo, unindo uma técnica arguta a uma discursividade tão honesta quanto os depoimentos coletados, René Guerra nos entrega mais um filme maravilhoso.

Sensivelmente maravilhoso também é A onda traz, o vento leva (Gabriel Mascaro, 2012), ficção que conta a vida de Rodrigo, um recifense de classe baixa, surdo, que trabalha como instalador de som para carros. Nessa rápida sinopse já se constata um discurso habilidoso escolhido pelo realizador: a dicotomia que faz entre o personagem ser surdo e a audição ser o sentido mais explorado do filme. Cada ruído é destacado por Mascaro, que monta um filme dissecando a questão da incomunicabilidade, levantando uma língua que existe na inexistência de som, provando, cinematograficamente, o que já se atesta linguisticamente: os gestos são palavras, o corpo performa essas palavras sem som, a comunicação humana se dá, integralmente, pelos múltiplos sentidos, pois como afirma o personagem numa passagem do filme: “é difícil entender as pessoas em outra língua”. Ainda bem que Mascaro redimensiona essa noção de língua em 25 minutos. Ainda bem que seu filme retrata o deficiente auditivo tal qual ele é, um ser humano, vivendo em sociedade, como aqueles que podem ouvir. Aliás, ele ainda prova que ser personagem ouve, com os olhos de ver, com a pele de sentir, com os gestos de falar. E, quanto a Rodrigo, fica a certeza de que se o Janela tivesse uma premiação para atores, Márcio Campelo seria um candidato quase imbatível.

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* Elilson Duarte é ator, estudante de Letras e escreve poesias e ensaios com a alma… Contato: elilson_@hotmail.com

** Textos e fotos extraídos da V Janela Internacional de Cinema do Recife, respectivamente:

http://www.janeladecinema.com.br/2012/internacional-1-vamos-a-luta-2/#comentarios e

Poemas de Clauder Arcanjo*

 

Flor de sal

 

Na raiz, solidão dos abandonos,

A semente de pés crestados:

Pelo sol, pelo mar, pela avareza dos homens.

No caule, pesponto dos suores,

A brancura azul das marés vazantes.

No cume, a augusta flor do sal,

Prisma indecifrável, exéquias das areias brancas.

 Mossoró-RN, 30/11/2012

 

Remédio

 

Por temer a dor

O poeta, crente, se guardou.

Por descrer da dor

O poeta, ausente, se crucificou.

 

A dor só é remédio

Para uma dor maior.

Mossoró-RN, 13/12/2012

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* Clauder Arcanjo é poeta, escritor, editor… e trabalha cercado pelo mar… Contato: clauderarcanjo@gmail.com

Observando estrelas | Bernadete Bruto*

 

Não entendo de Astronomia
somente de sonhos
me alimento
Encontro a utopia
olhando o firmamento
naquela estrela
lá no alto
(apenas uma centelha)
brilhando tão forte!
Aí, por aqui, penso
(ou imagino)
que terei mais sorte!

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* Bernadete Bruto é poeta, atriz, bailarina, cantora… Foto enviada pela autora. Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Misto Códice* | Paulo de Tarso Correia de Melo**

 

Invocação

 

Permite que se adornem

e como águias e tigres

os guerreiros se portem.

 

Concede-lhes que desfrutem,

a fio de cristal,

a doçura da morte,

 

que dêem regozijo

em seu coração

ao punhal do sacrifício

 

e a morte florida,

mariposa de obsidiana,

desejem e cobicem.

 

 

Canções do jardim da casa de Deus

 

Agora mesmo, no poente

as frutas

e o feijão branco

estão amarrados pelo relâmpago

 

Agora mesmo, no poente

a verdura

e o milho trigo

estão amarrados pelo arco-íris

 

Vem perto a chuva

Ouça as vozes felizes

da água cercando as raízes

plantadas em nuvem escura

(…)

 

 

Misto Códice

 

A príncipes e guerreiros

falavam  poeta

de flores, aves e gemas.

 

Com três imagens

se fazia esta

poesia, e um tema:

 

a brevidade da vida

e a incerteza

da permanência de poema.

 

Orquídeas roçagavam

na floresta

peitos viris e coxas morenas

 

Pouco durava

a sensual

festa,

a juventude, apenas.

 

* Textos extraídos de Misto Códice, Editora Sarau das Letras – RN, 2012.

** Paulo de Tarso Correia de Melo é poeta, ensaísta e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Contato através de Clauder Arcanjo: clauderarcanjo@gmail.com

Poèmes* d’Ursula Koziol** | Traduit du polonais par Isabelle Macor-Filarska et Agata Kozak

 

Au lieu d´um poème (II).

 

j’aime traverser la rue en dehors des passages piétons

les mains dans les dos d’um pas rapide

sans soucier des feux (peu importe la couleur)

 

je ne suis pas bien élevée

je ne veux pas être rangée

je ne serai que trop bien rangée

dans mon cercueil

 

 

Extraits I

 

*

je me dissimulerai dans le point de ce vers

 

*

 

le mot dépasse mon contour

crée au-delà de moi une multiplicité d’être-autres

parmi eux erre et vagabonde un « je » perdu

le-mien-pas-mien

 

*

 

le poème me sort des yeux sans aucun voile

avec quoi le couvrir » Où le cacher !

 

*

 

en entrant

tu m’éclaircis

 

*

 

à deux – comment devenir un

(calcul un peu compliqué)

 

*

 

que serait l’univers

si je n’en savais rien

(…) 

 

Création d’une rivière

 

sur une simple feuille vierge de papier

se cache la possibilité d’une rivière

 

sur sa blancheur

je déploie la voile blanche

du mot

 

je sens comme les eaux montent

comme s’éveillent les clapotis

les tourbillons les bruissements

et comme vague après vague

juste de sous mes doigts

une rivière rapide

est prête à tomber

_____________________________

* Poèmes extraits de Suppliques, Éditions Grèges, Montpellier, France, 2012.

** Ursula Koziol est poète, romancière, dramaturge, rédactrice du mensuel littéraire et artistique “Odra”… Contact à travers Isabelle Macor-Filarska: i.macorfilarska@club-internet.fr

 

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