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Índex* – Julho, 2012

 

A palavra foi dada ao homem para esconder seu pensamento.

R. P. Malagrida

 

O retorno às raízes no Índex de Julho do blog de Patricia Tenório.

O enigma de Kasper Hauser nos questionando sobre o silêncio e a palavra – Patricia Tenório.

A crônica arqueológica de Franklin Jorge em O homem obscuro.

A ponte entre o poema O grito da vida de Alcides Buss e o conto Sinais de Clauder Arcanjo.

Da Itália, Alfredo Tagliavia nos oferece Avvicinati.

Da França, Denis Emorine nos apresenta três novos Poèmes.

Muito obrigada aos participantes e continuem enviando seus textos, convites, links

A próxima postagem será em 26 de Agosto de 2012.

Até lá!

Patricia Tenório.

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Índex* – July, 2012

 

The word was given to man to conceal his thoughts.

R. P. Malagrida

The return to the roots in the Index of July in the Blog of Patricia Tenorio.

O enigma de Kasper Hauser (The Enigma of Kasper Hauser) asking about the silence and the word – Patricia Tenorio.

The archaeological chronicle of Franklin Jorge in O homem obscuro (The dark man).

The bridge between the poem O grito da vida (The Cry of life) from Alcides Buss and the short story Sinais (Signs) from Clauder Arcanjo.

From Italy, Alfredo Tagliavia offers us Avvicinati.

From France, Denis Emorine presents us three new Poèmes (Poems).

Thank you for participating and keep sending your texts, invitations, links

The next post will be on August 26, 2012.

See you!

Patricia Tenório.

 

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Sob o céu e as nuvens de Alagoas – Brasil, a terra de “O Major”. Under the sky and the clouds of Alagoas – Brasil, the land of “O Major” (The Major).

 

O enigma de Kasper Hauser | Patricia Tenório*

“Não escuta esse terrível pranto ao seu redor? Esse pranto que os homens chamam silêncio?”

(WERNER HERZOG, 1974)

 

Um homem-menino trancado em uma alta torre desde o nascimento, não conhece outros homens nem seus hábitos, costumes. Ele e seu brinquedo de madeira, um cavalo que para ele não é um animal, é um joguete-espelho onde reflete o seu próprio ser, na necessidade de vesti-lo, na necessidade de fazê-lo imagem e semelhança sua. Veste-o com trapos, tal se veste de trapos. Não sabe o que é um sonho. É preso por uma corrente ao chão: não eleva-se, não anda, não sabe da sua natureza humana. Pronuncia gemidos, grunhidos. Não sabe o nome das coisas. Não sabe ao menos o que significa um nome. Desconhece a existência da Palavra.

“Em sentido estrito, a linguagem é, em sua essência, discursiva. Ela possui unidades de significado permanentes que podem ser ligados a outras unidades de significado ainda maiores. Ela contém equivalências fixas, que tornam definições e traduções possíveis. Suas conotações são de caráter geral, de forma que atos não-verbais, como apontar, olhar, modificar a voz, são necessários para que denotações específicas sejam atribuídas a suas expressões. Todas estas características ressaltadas a distinguem do simbolismo “sem palavras”, que não é discursivo nem traduzível, não permite nenhuma definição dentro de seu próprio sistema e não é capaz de transmitir o geral diretamente. Os significados transmitidos pela língua são entendidos um após o outro e, então, resumidos em um todo por um processo conhecido como discurso. Os significados de todos os outros elementos simbólicos que formam juntos um símbolo maior e articulado somente são entendidos através do significado do todo, através de suas relações na estrutura holística. O fato de que eles, de algum modo, funcionem como símbolos é explicado por eles pertencerem todos a uma apresentação simultânea e integral. Chamaremos esse tipo de semântica de “simbolismo apresentativo” a fim de caracterizar a diferença da sua essência da do simbolismo discursivo, isto é, da “linguagem” real.” (LANGER in SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 44);

É com a palavra que é libertado por seu “pai”. “Se escrever bonito ganha um cavalinho”. O homem-menino aprende a duras penas a escrever. Tem sentido? Não para ele, talvez para o seu “pai”. Talvez para os homens que vem a conhecer quando é deixado na praça pública da cidade, diante de uma árvore com uma vaca amarrada, vaca tão parecida com ele preso no interior de si mesmo.

“Piaget (1964: 97) define a imagem interior como “esquema representativo” de um acontecimento externo e vê nela uma “imitação interiorizada” e uma transformação de tal acontecimento.(…) A imagem mental é, assim, um veículo do signo que representa o objeto de referência externo.” (SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 30);

O silêncio a que se coloca diante dos “gritos” alheios, “gritos” ao que não estava acostumado na alta torre. A imagem que faz de si é toda coerente, que, ao se transformar em “ser de cultura”, lhe cobra um retorno a sua própria essência, o “tecedor” de roupas (para si mesmo?), a pele que precisa construir para se proteger da violência civilizatória.

“Mãe, estou tão longe de tudo!” (WERNER HERZOG, 1974)

Não tem medo do perigo. Nem das interferências no seu pensar. Descobre que o pensamento é maior do que o que vê. “As pessoas são como lobos para mim.” Está em contato direto com o mundo, e o mundo não lhe absorve.

“Os signos e, entre eles, as imagens são mediações entre o homem e o mundo. Devido à sua natureza de ser simbólico, ser de linguagem, ser falante, ao homem não é nunca facultado um acesso direto e imediato ao mundo. Tal acesso é inelutavelmente mediado por signos.” (SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 131);

Ao tocar o fogo, o bebê em seu colo, o faz como um ser integrado, não como uma parte, porque sente tudo de maneira imediata. A Palavra revela a fenda de acesso ao mundo, mas, de algum modo, Kaspar Hauser aceita esta dor do nome, aceita revelar-se, entregar-se a esse contato, a deixar a alma transbordar através das lágrimas, tão próximas de si quanto as palavras que escreve, quanto o seu nome na relva.

“Há alguns dias peguei umas sementes de agrião e plantei-as com meu nome. E ficou muito bonito. Fez-me tão feliz que quase não podia falar.” (WERNER HERZOG, 1974)

Percebe que seu nome está ligado à vida, e ao ser “apagado da relva” deixa de existir como escrita, como cultura, como ser que se expressa.

Kasper induz respostas, com a lógica que não é a do mundo (“o mundo não lhe absorve”), mas a do sentimento. O afeto foi constituinte do seu novo ser. O afeto em comunhão com a Palavra.

“(…) as imagens atuam mais fortemente de maneira afetivo-relacional, enquanto a linguagem apresenta mais fortemente efeitos cognitivos-conceituais. (…) Imagens fomentam atenção e motivação, são mais apropriadas à apresentação de informação especial e facilitam, em certo grau, determinados processos de aprendizagem. (…) A eficácia emocional das imagens cresce com o grau de sua iconicidade.” (SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 44);

O aprendizado do menino-homem vai se dando em saltos, não percebidos, não assimilados por si. Ele se sente sempre aquém da sociedade. A sociedade que por sua vez o exclui ao tomá-lo como “excêntrico”, “um peso” e ao mesmo tempo “um bom selvagem”. Um experimento para tentar entender a origem da própria espécime, sem lembrar das particularidades de um ser que cresceu num ambiente sem nenhumas das condições básicas para ser humano.

“(…) as próprias mudanças materiais ou instrumentais são provocadas por necessidades que nem sempre são materiais, especialmente quando se trata de um processo de produção de linguagem, seja esta verbal, visual ou sonora. Neste caso, há uma espécie de força interior ao signo para produzir determinações no seu processo evolutivo, em uma espécie de tentativa ininterrupta e inatingível de toda e qualquer linguagem para superar seus limites.” (SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 158);

É pela própria superação que Kasper Hauser se atinge. Passa de “experimento” dos outros a “experimento” de si mesmo. Desvenda a partir da sua própria biografia que escreve, no ato da escrita, o que aos outros não pode ser revelado, pois misterioso, e parte invisível do ser.

“Senhor, não há nada dentro de mim exceto minha vida!” (WERNER HERZOG, 1974)

“(…) o verdadeiro conteúdo do real se encontra menos na aparência do mundo externo do que na representação fortemente sentida que aquela desperta no artista.” (SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 178);

httpv://www.youtube.com/watch?v=nRWtvT7vzFc

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 * Autora: Patricia Tenório : www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br.

Referências Bibliográficas

 [1] SANTAELLA, Lucia e NÖTH,Winfried. Imagem: cognição, semiótica, mídia.  São Paulo: Iluminuras, 2010.

 Referências Cinematográficas

 [1] O enigma de Kaspar Hauser. Alemanha Ocidental, 1974. 110 minutos. De Werner Herzog. Com Helmut Döring, Bruno S., Walter Ladengast, Brigitte Mira, Willy Semmelrogge, Michael Kroecher, Hans Musaeus e Volker Prechtel.

Um homem obscuro* | Franklin Jorge

 

A Laurence Nóbrega

 

De Aruanã a Cocalinho, que fica do outro lado, em território do Mato Grosso, é um pulo, ensina Maci; são dezesseis léguas rio abaixo. Ao chegar, faça atracar o barco. O porto é favorável, de acesso fácil; seu barranco, um paredão natural incrustado de tapiocangas, o cais servido de ampla escada de cimento.

A casa indicada fica num declive que termina num porto particular, à margem do Araguaia, onde, no inverno, há quase sempre uma canoa ancorada. Ali mora ou demora Martinho Timóteo, velho pescador amigo de Maci, que o imortalizou num conto cheio de graça que tive o impulso de recriar, pelo gosto de reduzir-lhe as adiposidades verbais que a meu ver lhe enfraquecem as virtudes da criação. Também, queria intervir no texto, colocando ao meu engenho no que percebi das entrelinhas.

Suba, vá direto pelo lado esquerdo da igreja, siga aquela rua comprida até o fim e, na última esquina, à direita, está a casa dele, Timóteo; uma casa de pau a pique com enchimento de barro, coberta de palha, com um mangueiral na frente…

Dona Tomásia, cadê Martinho? Sei lá, sêo moço… Fez dias que saiu e, como de costume, não disse para onde ia… Deve estar na outra casa… O Araguaia.

Nascido lá para as bandas do rio do Sono, em Pedro Afonso, o velho conta setenta e seis anos bem curtidos. A voz baixa, modulada, gosta de conversar. Vamos entrar. Abanque-se, a casa é sua… Como é mesmo sua graça? – irá ele logo convidando, perguntando e conduzindo-nos para a cozinha ampla, misto de sala de visitas e oficina, onde ele prepara sua tralha de pescar tartaruga e peixe.

Sempre em trânsito, sua real moradia é a canoa, é a praia, são os furos e os lagos. Timóteo nunca foi homem de terra firme, onde está sempre de passagem, sonhando as águas e seus mistérios, que ninguém conhece melhor do que ele.

O velho gosta de ser útil e de ensinar o que aprendeu em contato com a vida nas águas. Para tartaruga, anzol sem fisga, isca de mandioca puba, palmito de tucum, quando os macacos deixam algum, ou casca de melancia… Para os peixes de categoria, como o tucunaré, a matrinchã e o dourado, minhocas, pois eles só avançam em iscas vivas…

Aproveitando-se da ausência do pai que saiu da cozinha por alguns instantes, Nazaré confessa que o velho não para em casa. Ai, como nos aperreia! Então na seca leva cinco, oito, dez dias no rio, dormindo nas praias, sozinho, ele e Deus, inda mais agora que está enxergando pouco e a dor no umbigo amiudando… Ele tão velho assim, muito perrengue, a gente fica com medo de um dia ele não voltar…

Ficamos de olho pregado no espelho do rio, dia após dia, vendo se ele aparece. Quando menos se espera sua canoinha aponta lá longe, e ele vem, todo satisfeito, salvando a gente como se tivesse viajado na véspera, a canoa cheia de tartaruga, tracajá, peixe seco e caça moqueada. É um alívio e um farturão que só vendo… Ah, se o senhor chegasse aqui num dia desses… Havia de se admirar com a grandeza desse rio e dessas matas.

Ouve-se a voz do velho, entrando em casa. Tomázia, côa um moca pra nossas visitas… Gente do Maci. Bons amigos…

Jorge Antonio encanta-se com o velho que continua trabalhando enquanto conversa. Todos os apetrechos usados nas pescarias merecem de sua parte um cuidado especial. Quem disso usa, disso cuida, justifica-se, vistoriando minuciosamente as varas de pescar, os anzóis, as redes, os arpões, as piracas.

Quando sua canoa fica velha, a calafetagem de trapos não vedando mais a água, ele vai para o mato com um dos filhos, lá derruba um tamboril ou uma jangada (tipo de madeira) e ali mesmo constroem a nova embarcação.

Se o visitante, colecionador de lendas, pergunta-lhe se no rio existem seres estranhos, Martinho Timóteo responde que não. Isso só muito longe daqui. Conheço o Araguaia todinho. Quando solteiro morei em Belém. Lá em baixo, sim, é que tem boiúna, negro-d´água e rodeiro. Aqui, não.

Agora, pra cima, em Leopoldina, coisa de nove léguas, adiante do esgoto de Água Limpa, tem uma pedra chamada Cantagalo. É bem capaz de vosmicê ter ouvido falar nessa pedra. Ali tem pescador, como o Chico Tobó, das Cangas, e o Mané Boca de Sulamba, morador de Dumbazinho, que viram muitas vezes uma mulher em cima da pedra, os cabelos cobrindo o corpo, ela penteando eles com os dedos compridos… Quando ela vê gente cai na mesma hora dentro d´água…

De madrugada, isso muita gente já viu e pode testificar, um galo canta ali, o canto vindo do fundo do rio, bem debaixo da pedra…

Feitiço não existe não senhor. Existe, sim, simpatia. Cada um de nós tem sua força. Tem gente que benze mordedura de cobra. Meu pai, o finado Pedro Monteiro de Lima, era benzedor afamado. Viveu por este mundão. Quando ele morreu o povo conta que três cobras vieram visitar ele. Elas sempre visitam o grande benzedor quando ele morre…

Timóteo conta que veio de conceição do Araguaia para Cocalinho, já casado. Aqui teve seus filhos e netos, quando o lugar ainda era selvagem e tinha somente oito casas de cristãos, além das cinquenta malocas de Carajás, quase um aldeamento de índios. Agora, mal chega a seca, caravanas e mais caravanas invadem as praias do Araguaia.

É turista que não acaba mais. Vem gente de longe sonhando pegar peixe com a mão ou cutucar tudo quando é caça com o cano da espingarda, para aparecerem em filmes como heróis… Acaba todo mundo voltando sem pescar e sem caçar… Que peixe vai querer trabalhar de galã em linha com anzol ou arpão, ou o bicho do seco que quer servir de brincadeira de espingarda?, indaga o velho, sorvendo o espesso e perfumado café.

Menino, tenho amigos que não acabam mais… Nunca ofendi a ninguém, nunca matei nem roubei, mas divido minhas amizades em duas bandas. O amigo que serve a gente na hora da precisão, e o amigo que só vem depois da dificuldade, aquele que falha quando a gente confia nele, como o degrau que a gente cava no barranco e se desfaz quando nele pisamos, fazendo a gente esborrachar lá embaixo… Quem tem desses amigos não precisa que a justiça lhe ande nos encalços. Já está provido de desgraça. Não acha vosmicê que estou certo?

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* Texto extraído de O ouro de Goiás, Editora Kelps, Goiânia – GO, 2012 , Crônicas, e enviado pelo autor. Contato: franklinjorge@yahoo.com.br, www.osantooficio.com.

O grito da vida* | Alcides Buss

 

Na floresta há o grito das árvores.
Nas árvores há o grito das aves.
Nas aves há o grito do mar.

No mar há o grito da água.
Na água há o grito dos peixes.
Nos peixes há o grito do céu.

No céu há o grito do sol.
No sol há o grito da Terra.
Na Terra há o grito do homem.

O homem está dentro das árvores.
As árvores estão dentro da água.
A água está dentro do sol.

O sol está dentro das aves.
A aves estão dentro dos peixes.
Os peixes estão dentro da Terra.

A Terra está dentro do mar.
O mar está dentro do céu.
O céu está dentro do homem.

O grito da vida atravessa
a garganta da Esfinge,
cobrindo a Terra de nomes.

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* Texto enviado e autorizado pelo autor para ser publicado no blog de Patricia Tenório.

Este texto faz ponte com o de Clauder Arcanjo (vide  http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3861).

Contato de Alcides Buss: alcides-buss@hotmail.com e http://www.alcidesbuss.com/

Sinais* | Clauder Arcanjo

 

“O arrepio é o código do mistério que nos rodeia.”

(Paulo Bomfim, em O Colecionador de Minutos)

 

O primeiro, sob a copa do tamarineiro do Mercado Público, foi descoberto — melhor, percebido — na madrugada da segunda-feira. Após a grande feira do domingo, o primeiro das festas da Padroeira Senhora Sant’Anna.

— Estranho. Muito estranho. — foram as palavras do Mestre Galdino Epaminondas, sempre chamado a desvendar as estranhezas da província. Ele, estudioso de francês e latim, com os óculos de fundo de garrafa, a colocar o nariz nas letrinhas as mais pequenas, nos rodapés dos grandes tomos, nas coisas nunca lidas, nem muito menos entendidas. “Em busca dos mistérios da vida, minha gente!” — anunciava, quando lhe assacavam a pecha de maluco.

— Estranho. Muito estranho. Seria um sinal da Santa? — será preciso melhor acompanhar.

Dispôs um cerco em torno do acontecido. Pequenos círculos concêntricos, na tentativa de preservar o objeto para a análise posterior.

— Estranho. Muito estranho.

O bêbado Zarolho, numa ressaca dos diabos, e incomodado com o movimento na sombra do seu tamarineiro predileto, praguejava, altissonante.

— Estranho nada!… Isto deve ser serviço das benzedeiras do Alto da Liberdade, meu povo. Como ontem estava havendo festa lá no Alto, resolveram chamar os santos logo aqui no Mercado. Entenderam?

Logo Cabo Dandora quis afastar todo mundo, com receio de altercações.

— Vão todos para casa! Deixem a questão com as autoridades constituídas. — rodava o cassetete de juá, e fungava as calças de brim marrom, já marcadas pelo saco herniado.

O prefeito quis decretar estado de calamidade pública. Mais de olho no superfaturamento dos procedimentos do que mesmo no desvendamento do misterioso sinal.

Na noite da segunda-feira, o aviso segundo. Desta feita, na calçada de Dona Candinha do Matapasto. Mulher do sacristão da Matriz, Seu Geraldo das Nicas.

— Estranho. Muito estranho.

Com pouco, os malandros de Licânia, a entornarem litros e mais litros da cachaça da bodega do Edmundo Simplista, apostavam a origem e a relação entre os dois mistérios. “Deve ser coisa da oposição!”; “Que nada, onde já se viu!? Tudo obra de quem?! Deve ser arrumação deste prefeitinho de merda. De merrrrr…da!…”

— Vão todos para casa! Deixem a questão com as autoridades constituídas.

Cabo Dandora, para não perder o costume, ainda amaciou o lombo de meia dúzia dos mais afogueados com sua adorada companheira de cós.

— Mundiça!

Na manhã da terça, outro. Agora, o terceiro. Para assombro das beatas, no centro do Largo da Matriz de Sant’Anna.

— Minha Santa! Santa minha!

As beatas entoaram o Salve Misericórdia, puxando, em seguida, o ofício do rosário, em favor das almas mais desgarradas, e desgraçadas, no purgatório.

“No Céu, no Céu, com minha mãe estarei. No Céu, no Céu…”; cantavam a plenos pulmões as Irmãs de Maria, sob a regência de Dagmar das Piranhas, ex-prostituta do Caneco Amassado, convertida a pia mariana do Santo Ofício, após a morte do Seu Cristiano Falômetro, amante inesquecível.

— Estranho. Muito estranho.

Na quarta, outro aviso na calçada da delegacia. O quarto. Saudada com uma sova nos presos da cadeia. Peia de fazer todos se urinarem de dor, e de raiva do “maldito cabo”.

Quinta-feira, na calada da noite, os meninos da Rua de Trás deram com mais um: o quinto. Em frente ao Patronato Sant’Anna. As freiras, atordoadas, não sabiam se oravam ou se praguejavam contra tamanho infortúnio.

— Estranho. Muito estranho.

Sexta, o prefeito, ao ficar sabendo de mais um acontecido, o sexto, e com as filas de visitantes de várias cidadezinhas da ribeira do Acaraú para testemunharem o inesperado, chamou o seu assessor de confiança, responsável pelas licitações mais rentáveis, e confidenciou-lhe:

— Não podemos desperdiçar tal oportunidade, Seu Chaga Magrela. Nosso município foi escolhido pelo Além. Você não acha? Agora, só nos resta dar uma “mãozinha” para tais sinais nunca faltarem. Você me entende?

—…

—Não me venha com esta cara de égua, seu cabra frouxo. Honre essas calças, homem de Deus! O caso é para o bem comum. Somos servidores públicos. Nossa missão: servir ao povo! Nunca se esqueça: servir ao povo!

— Estranho. Muito estranho.

Quando, no sábado, o sétimo sinal deu-se na Prefeitura, ninguém entendeu nada. Foi o maior deles, bem em frente à porta principal.

Não houve expediente. A horda quilométrica de visitantes, a carregar o manto da Santa e a proclamar o fim dos tempos, já era notícia em todos os jornais do estado.

Quando o servidor Chaga Magrela, preocupado com o “apurado das últimas ações públicas”, conseguiu finalmente entrar no prédio, pelos fundos da prefeitura, a cidade foi sacudida por um grito de horror, e arrepio.

“No Céu, no Céu, com minha mãe estarei. No Céu, no Céu…”

— Estranho. Muito estranho.

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* Texto enviado e autorizado pelo autor para ser publicado no blog de Patricia Tenório.

Este texto faz ponte com o de Alcides Buss (vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3856).

Contato de Clauder Arcanjo: clauderarcanjo@gmail.com

Avvicinati* | Alfredo Tagliavia

 

Avvicinati che ora ti passo il telefono, ti ci faccio parlare io, ma come caspita si dice “aspetti un attimo” in portoghese? Dio mio quanto è logorroico questo qui, tutti uguali i mercanti d’arte, in qualsiasi parte del mondo vai sono così, gentili e cerimoniosi all’apparenza, subdoli e fregoni nella sostanza, sembrano fatti con lo stampino, in serie. Ma tu che stai facendo, t’ho detto di avvicinarti, che hai paura? Devi solo parlare un attimo con questo qua, ti mangerà mica.

Non farti infinocchiare, mi raccomando, con le parole sono tutti bravi, sembra di stare in un film di Totò quando parli con uno di questi, sanno ammaliarti come cantanti di serenate alla luna piena, poi quando non lo aspetti, quando sei distratto, zac, ti assestano il colpo ad effetto, da veri paraventi. A proposito, ma cosa ti sta spiegando così a lungo, cosa ti dice, e parla un po’ anche tu, inserisciti, spiega chi sei, fai capire che vuoi, non hai ancora imparato a farlo alla tua età, o forse il tuo portoghese non è fluente come mi hanno detto all’università? E l’indirizzo mi raccomando, chiedi l’indirizzo della galleria d’arte, che me lo segno e chiamo subito il taxi.

Guarda com’è bello il lungomare, questa luce del primo mattino sembra scintillare, senti quanto è forte il sole, vedi quella ragazza che alta che è, e che contrasto che fa con il chiarore del sole, un chiaroscuro perfetto direi, ti piace eh? Lo sai, tutte le volte che passo per l’Avenida Boa Viagem mi ricordo un po’ di Genova, quando ero poco più che una bambina, i primi anni dopo la guerra : c’era ancora odore di fame e povertà ma io mi divertivo un mondo, andavo con le mie amiche sulle spiagge di sassi, rimanevamo là tutto il giorno, a volte veniva anche quel cantante, sì hai capito bene, proprio quello che poi ha fatto una brutta fine, allora era un ragazzino, pensa, si era innamorato di me, mi aveva anche dedicato una canzone. A quell’epoca non c’era tanto da fare, non era come adesso, bastava rincorrersi, giocare a chi tira il sassolino più lontano, giù in fondo al mare, si era felici con poco, c’era la stessa luce scintillante di qui, anche se il sole mediterraneo sorge molto più tardi, lo avrai notato anche tu. E guarda quei ragazzi che giocano a pallone, e il vecchietto che vende il cocco poco più in là, chissà mio fratello che bel quadro ci avrebbe fatto.

Ma lo hai capito bene questo indirizzo? Pare che non arriviamo mai, abbiamo superato la piazza di Marco Zero da una decina di minuti, se ho visto bene, e questi vicoletti stretti e malmessi, dicono siano pericolosi anche di giorno, si deve fare attenzione, e poi quest’aria condizionata comincia a darmi pure noia, puoi chiedere al tassista se l’abbassa un po’? Anzi digli di spegnerla proprio, che si degnasse di abbassare un po’ i finestrini, e che diamine, non può mica costringerci a stare al gelo o a non respirare proprio, esisterà anche una terza possibilità, o no? La verità è che bisogna insegnargli l’abc a questo qui : ma il rispetto per i più anziani, dico io, dov’è andato a finire? Ecco, finalmente abbiamo imboccato l’Avenida Boa Vista : guarda che brutti questi palazzoni, tutti scuri e mezzi ricurvi, che contrasto con il limpido e chiaro paesaggio popolare, non trovi? Dovrebbe essere una traversa di questa via, finalmente siamo arrivati, prepara gli spiccioli per il tassista che qui usa ancora così.

Ma quanto tempo ci fa aspettare il sedicente signor Rodrigo nonsocché, è già mezzora che siamo qui, e per giunta siamo arrivati in ritardo : in questo paese la concezione del tempo è tutta particolare, che impazienza, santa madonna. Forza, inventati qualcosa, rivolgiti alla segretaria, non stare immobile, ma che hai, ti spaventa il fatto che sia giovane e avvenente, non dovresti essere così intimidito all’età tua, di donne ne avrai viste già diverse in vita tua, o mi sbaglio? E cantagliene quattro su, dille che ci siamo scocciati di aspettare, come si dice “scocciato”, oppure usa un sinonimo, “rotto le scatole”, andrà benissimo lo stesso, sai come si dice rotto lo scatole? E sfodera un po’ del tuo buon portoghese, dai, che qua è passata un’ora e non si muove una foglia.

Comincia a far caldo qui dentro, mamma mia, quel vetro che filtra i raggi solari fa pensare di essere chiusi in un microonde, saranno appena le nove e mezza del mattino, forse nemmeno. Certo che è stretto qui, potevano farla un po’ più grande l’anticamera, ma qual è lo studio di questo signor Rodrigo? Ce ne sono almeno quattro o cinque che danno sul corridoio, tanto mica ci faranno entrare senza di lui. Ma insomma io parlo e parlo e sempre là impalato te ne stai, ma lo sai che a volte questo tuo atteggiamento è davvero insopportabile? Almeno dimmi cosa ha detto questa benedetta segretaria, o dimmi se le hai chiesto qualcosa, almeno.

Lo sapevo che ci avrebbe bidonato, lo avevo capito che era totalmente inaffidabile, come tutti questi trafficanti d’arte brasiliani, esuberanti e chiacchieroni, gentili e barocchi, sedicenti artisti o galleristi, in realtà fannulloni e imbroglioni della peggior specie. E poi, mi spiace dirtelo ancora una volta, non sei proprio in grado di farti rispettare, con questa espressione da pulcino spennacchiato, fatti crescere un po’ di barba almeno, che so, assumi un’apparenza più maschile, più professionale, capisco fa caldo, ma una giacca come dio comanda la potresti anche metter su qualche volta, ma che sono tutte queste grinze? E poi devi imparare a importi, fissa gli appuntamenti e quelli siano, sennò qui ci danno attenzione l’anno del mai e il giorno del poi. Ecco che arriva il taxi, dammi una mano a salire.

Vedi come funziona qua, il sedicente Rodrigo ci dà buca e noi che si fa? Diciotto reais all’andata, diciotto reais al ritorno, tutti a vuoto, glieli farei ripagare fino all’ultimo centesimo, quant’è vero iddio. Sì lo so, il tizio ti ha detto che passa direttamente in hotel più tardi, ma secondo me è una scusa, una baggianata anche questa, solo un modo per rimandare e rimandare ancora. Ma guarda un po’ questo cialtrone, è lui che si è rubato i quadri di mio fratello più di trent’anni fa, ci metterei la mano sul fuoco, successe a Roma alla fine degli anni Settanta, io c’ero e ne ho le prove. Sì hai capito bene, anni Settanta, e pensa che mio fratello è andato in cielo da più di vent’anni, che il signore l’abbia in gloria, ma non lo mollo l’osso, resto qui finché non mi riporta tutti i quadri, uno per uno, quel dannatissimo fellone e quaquaraquà, cribbio, mica sono stupida io, mica mi sono fatta dodici ore d’aereo per tornarmene a casa a mani vuote. E poi quei quadri, me lo disse anche un amico critico d’arte, oggi avrebbero un valore inestimabile, specialmente i paesaggi a tema brasiliano.

Voglio richiamarlo sul cellulare quel tipo, è stato troppo maleducato questo Rodrigo nonsocché, ora lo richiamo, e mi deve stare proprio a sentire, come minimo gliene canto quattro. Oh signore mio, c’è la solita vocina, mi sta dicendo che ho finito il credito, o almeno credo, aspetta però, ho un’altra scheda, è quella che mi hai comprato ieri sera, guarda un po’ se questa va bene, io non ci capisco un tubo con quelle in italiano, figurati con quelle in portoghese, dai sbrigati, così lo richiamo subito, gliene canto quattro a questo fellone, glielo dico pure in italiano, tanto a buon intenditor poche parole, lui sa perché lo sto chiamando, è tutt’altro che tonto questo ladruncolo d’arte mascherato da intellettuale. Ehi, ma hai fatto, quanto ci metti? Sei sempre così lento tu.

Questo viadotto è pericoloso, guarda come vanno veloci qui : gli automobilisti guidano come pazzi, gli autisti degli autobus corrono e sbandano, così tanto che credo non abbiano capito di trasportare genere umano, pensano sia un carico di bestiame quello che hanno dentro la vettura, inutile chiedere di rallentare. Menomale che è quasi finito, già si rivedono i grattacieli di Boa Viagem in lontananza, ehi aspetta aspetta, dì subito al tassista di fermarsi, diglielo ora, immediatamente. Guarda quei quattro meninos de rua, poverini, come sono mal vestiti e mal ridotti, se ne stanno sdraiati lì, sulla parte più desolata del lungomare come piccoli animaletti, sotto i portici del centro commerciale, mi fanno una pena che mi vengono quasi le lacrime agli occhi, e nel borsello quanti spiccioli mi sono rimasti, sono un’infinità, dai aiutami a contarli, un real e due reais e tre reais, ah mannaggia, per il quarto non ho nulla, e come facciamo ora, a te avanza qualche spicciolo? No aspetta, guarda qui, venticinque e venticinque e venticinque e venticinque, venticinque centesimi per quattro non fanno un altro real? Allora prendi, se la matematica non è un’opinione, uno e due e tre e quattro, scendi dalla macchina e vai a darglieli, digli che glieli manda una simpatica nonnetta dall’Italia, il quarto real tienilo nell’altra mano, che se no ti perdi gli spiccetti, sbrigati eh, fai veloce che dobbiamo tornare in hotel. Questo tassista poi pare che stia strepitando, soltanto perché gli ho chiesto di fermare il tassametro si è contrariato, ma guarda un po’ che maniere, che taccagno e  screanzato.

Ma insomma, questo telefono è proprio isolato? Non si riesce a fare una telefonata, a prendere una linea come dio comanda, e che cavolo, in questo paese le linee sembrano finte, fatte coi fili dell’uncinetto di mia madre, ci capisci qualcosa tu? E diglielo all’albergatore invece di stare qua impalato, quello ci chiede un occhio della testa ogni notte, tra il quartiere residenziale e la colazione in camera e la vista mare, e nel suo hotel nemmeno prende il telefono, cristo santo, mi viene il nervoso solo a pensarci, quell’imbroglione intanto starà gongolando nel suo studio, i quadri di mio fratello ancora tra le mani sudice, felice di averla fatta franca un’altra volta, che schifo, che obbrobrio, non ce la faccio neanche a pensarci, mi viene il rigetto, mannaggia a lui e al giorno che venne a Roma, era la fine del Settantanove forse, o del Settantotto, adesso non mi ricordo più, ma mi ricordo bene che quel mascalzone si è approfittato della purezza di mio fratello, della sua ingenuità d’artista. Ma che sto a dire queste cose a te, cosa puoi capirne tu, avrai un terzo dei miei anni o poco più, e persone come mio fratello nel nostro beneamato paese non ne nascono più da mezzo secolo, almeno.

E ora che altro succede, oddio, pure questa ci mancava, mi si è bloccata la trazione anteriore, solo indietro riesco ad andare, ma io devo andare avanti, non voglio mica fare il gamberetto, e muoviti sedia maledetta, ho anche un bisogno urgente. Niente da fare, spingimi tu, dai che non riesco proprio più a muovermi, mi sono bloccata, devo andare pure alla toilette, quella delle donne è la seconda porta a destra, qui dopo il corridoio. Spingi veloce che ho urgenza, sono anche stanca, ho preso le pillole per dormire qualche ora fa, mi ero troppo innervosita, sento che stanno facendo effetto, fanno sempre così, per un po’ è come se non le avessi prese, poi all’improvviso mi fanno addormentare di sasso. Magari tu rimani qui vicino, non dare troppo nell’occhio, sono vecchia sì, ma è pur sempre il bagno delle donne, dovessimo scandalizzare qualche signora perbene, rimani qui dietro la porta, se non dovessi uscire entro cinque minuti entra, tirami fuori, non aver vergogna come al solito, se non esco vuol dire soltanto che mi sono addormentata, mica che sono morta, ma mi raccomando, ricordati, tirami fuori, con delicatezza però, non voglio essere svegliata per nessun motivo, intesi? Ora entro dentro, tu rimani fermo così, fai vedere le mani, mettile fuori dalle tasche, lo sai che questa città è piena di maniaci e tipi strani, ci fosse qualche malpensante nei paraggi. Ecco, va bene, resta immobile così, fai solo un altro passettino in avanti, avvicinati.  

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* Testo inviato dall’autore per essere pubblicato sul blog di Patricia Tenorio. Texto enviado pelo autor para ser publicado no blog de Patricia Tenório.

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Poèmes* | Denis Emorine

 

Je t’écris du bout du monde

A Génia Jensen

Je t’écris du bout du monde
Avec dans la bouche
Le goût  usé des mots
Qui se brisent contre moi.
Je voudrais te dire mieux
Combien je t’aime
Même si le malheur grandit toujours
Autour de nous.
J’ aimerais que nos mains se rejoignent encore
Et puis encore…
Effacer ta peine avec un chiffon très doux
Mais parfois mes mains ne m’obéissent plus
Parfois
Je ne retiens plus les mots
Qui glissent sur  un papier amer.
Il y a souvent entre nous
Le spectre d’un pays que je ne connais pas
Et qui vient frapper à ma porte.
Le chemin se creusera encore entre nous
Et au creux de mes bras.
Je voudrais revenir sur nos pas
Pendant qu’il en est encore temps
Je ne rattraperai jamais
L’horloge qui bat
Tout contre toi
Entre l’amour et la mort.

Les feuilles blanches

 

A Jacqueline et Paul Van Melle

Les feuilles blanches fleurissent entre vos mains puis prennent leur envol. Parfois, de petites graines noires s’en échappent en vous laissant émerveillés.  A chaque fois, vous reconstruisez le monde du sens comme deux enfants curieux de tout. Nous sommes un certain nombre à vous suivre à quelque distance  pour ne pas vous déranger. Nous vous devons beaucoup même si certains ne s’en rendent pas compte.

            L’ écriture, avide de conquêtes, vous porte dans ses bras fébriles.

Cette nuit

 

A Gwen Ladish

Cette nuit, j’ai cru entendre ton rire qui montait l’escalier complice mais ce n’était que le goutte à goutte  du temps à mon oreille. A New York, ta voix ne résonne plus. Elle a cessé de  se profiler  sur  des gratte-ciel éteints.  Je ne lève plus les yeux vers toi puisque les avenues sont brouillées avec nous.  A quoi bon prendre les taxis jaunes qui nous emmenaient au pays où les mots disparaissent. Ils ont changé de destination.  Il me reste quelques pages  qui m’abandonneront bientôt pour resurgir loin de nos paroles éteintes. Tu étais nouvelle dans mon cœur. Je ne savais où ajouter ton nom sur ma liste. Ce n’est pas moi qui l’ai barré, il faut me croire ! Pourtant, j’existe toujours contre ceux qui me faisaient confiance. Avant, oui, avant…

J’ai toujours envie de murmurer des mots engourdis à ton oreille.

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* Les textes ont été envoyés et autorisés par l’auteur à être publiés sur le blog de Patricia Tenorio. Os textos foram enviados e autorizados pelo autor a serem publicados no blog de Patricia Tenório. 

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