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Índex* – Junho, 2012

 

O mês das festas juninas no Brasil pleno de Ensaios, Quadrinhos, Fotografias, Infografias,  Contos, Minicontos, Crônicas e Convites no Índex do blog de Patricia Tenório.

Preâmbluas retorna com A origem do olhar, questionando o tempo, a fotografia e a poesia – Patricia Tenório.

Leitura de Imagens dos alunos da Prof. Dra. Maria do Carmo Nino no Mestrado em Letras da UFPE.

As análises de imagens de Cláudio Clésio, Hugo Santos Vinícius Gomes.

Os Minicontos de Jacinto dos Santos.

O conto O crime do coronel  de Sânzio de Azevedo.

Mara Narciso nos apresenta Montes Claros e seus construtores, sobre o livro de Wanderlino Arruda.

E os convites de Conceição Alves Rafaella Vieira.

Obrigada aos participantes e continuem enviando textos, convites, links…

A próxima postagem será no dia 29 de Julho.

Até breve!

Patricia Tenório.

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Índex* – June, 2012

 The month of June parties in Brasil full of Essays, Comics, Photography, Computer Graphics, Short Stories, Short Short Stories, Chronicles and Invitations in Index at the blog of Patricia Tenorio.

Preâmbluas returns with The origin of the look, questioning the time, photography and poetry – Patricia Tenorio.

Leitura de Imagens (Reading Images) of the students of Prof. Dr. Maria do Carmo Nino, from Master of Arts in UFPE.

The analysis of  images from Cláudio Clésio, Hugo Santos  and Vinicius Gomes.

The Minicontos (Short Short Stories) from  Jacinto dos Santos.

The short story of O crime do coronel (The crime of the colonel) from Sânzio de Azevedo.

Mara Narciso presents us Montes Claros e seus construtores (Montes Claros and its builders), about the book of Wanderlino Arruda.

And the invitations from Conceição Alves and Rafaella Vieira.

Thanks to the participants and keep sending texts, invitations, links…

The next post will be on July 29.

See you soon!

Patricia Tenório.

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Praia de Maracaípe – Pernambuco – Brasil. Beach of Maracaípe – Pernambuco – Brasil.

 

Preâmbluas ou A origem do olhar | Patricia Tenório*

A maior lua cheia em 18 anos

  

Preâmbluas

 

 A lua está

Entre a força do dragão

E o brilho da estrela

 

Passiva irá

Ascender nas vésperas

Simples, mortal

Para dourada

Nascer

Crescer

Multiplicar-se

Em morte

 

Morte das estrelas

Morte das canções

E a noite inteira

Ninar

Patricia para aqui

Patricia para lá

 

Até amanhecer em mim

O que em mim

Não há

 

 

Preamblunes

 

La luna è

Tra la forza di un drago

Ed il lume d´una stella

 

Passiva

Ascenderà nelle vigilie

Semplice, mortale

Per dorata

Nascere

Crescere

Moltiplicarsi

In morte

 

Morte delle stelle

Morte delle canzoni

E la notte intera

Ninnare

Patricia di qua

Patricia di là

 

Fino ad albeggiare in me

Ciò che in me

Non c`è

 

 

            Março de 2011. Diante de uma lua cheia, na praia de Boa Viagem, Recife – Pernambuco, escrevo o poema “Preâmbluas”. Alguns dias depois, o traduzo para o italiano.

            Maio de 2012. Diante de uma lua cheia, na praia de Boa Viagem, Recife – Pernambuco, nasce a foto “A maior lua cheia em 18 anos”.

            O que têm em comum? A foto não nasceu no mesmo instante do poema em português, que não nasceu no mesmo instante da sua tradução para o italiano. Posso relacioná-los, conectá-los, mesmo com o passar do tempo?

“Embora o ser humano, como ser simbólico, ser de linguagem, seja inseparável do tempo, pois o tempo é a matéria de que é feita a linguagem (Santaella 1992b), o tempo que fisicamente nos marca não é o da linguagem, mas um outro tempo, o dos grandes projetos ou programas da vida e do cosmos, sobre o qual não temos poder de exercer controle.” (SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 74)

             Tomando como princípio a característica cíclica da lua, que é a mesma, mas que nos aparenta diversa, que “nasce, cresce, diminui e morre”, por que aquela lua de Março de 2011 pareceu tão semelhante a esta lua gigante de Maio de 2012?

“O escritor Marino (La rosa amarilla, J. L. Borges), pouco antes da morte, olha para a rosa e, pela primeira vez, em sua longa e vaidosa existência, vê a rosa, “como Adão pôde vê-la no paraíso”, a própria rosa, sem mediações, a rosa mesma na singeleza de sua verdade. Nesse instante de milagre receptivo, como se estivesse contido na centelha de revelação da rosa, o universo inteiro se revela.” (SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 61)

            Vivemos num mundo poluído de imagens. Imagens por imagens, imagens vazias. A arte nos vem quebrar essas barreiras que se interpõem entre o nosso olhar original – olhar de criança, olhar puro de ideologias e massificações – e o objeto mesmo, aquele que ali está por séculos e séculos e ainda não nos havia capturado, não nos havia fisgado um sentido.

“Qualidade de sentimento: uma qualidade exterior (cor, luz, cheiro) ou um compósito de qualidades exterior ou interior (uma visão ou lembrança de plenitude na dor ou de frêmito no regozijo) excita a mente, produzindo como efeito tão somente uma qualidade de sentimento absorvente e absoluta na faísca fora-do-tempo do lapso em que dura.” (SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 61);

            No momento da escritura do poema, não há distância entre a lua e a língua portuguesa, assim como não há distância desta com a sua tradução em italiano e a sua foto um ano depois. Ocorre uma “escavação”, um processo arqueológico entre reminiscências, lembranças doces, feito “o ninar de mãe”

 

Bênção, Mamãe Lua

Me dá mel com farinha

Pra dar pra minha galinha

Que está presa na cozinha…

(Canção de ninar popular, Autor desconhecido)

 

que coincidem com o sentir do poeta, se instalando no papel, se traduzindo no verso.

“(…) o código hegemônico deste século não está nem na imagem, nem na palavra oral ou escrita, mas nas suas interfaces, sobreposições e intercursos, ou seja, naquilo que sempre foi do domínio da poesia.” (SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 69)

            Há um deslize da imagem à palavra em uma língua, de uma língua a outra, da palavra à nova imagem. Deslize que não podemos agarrar, que transcende o movimento mesmo da feitura do poema, da feitura da foto. Há um fluxo pessoal (o que a lua diz para mim nas duas datas) e um fluxo universal (o que a lua diz para todo ser humano em todos os tempos). Esses fluxos se misturam, eles são unos quando há a tradução do brilho lunar.

“Barthes (…) diferencia duas formas principais de referência recíproca entre texto e imagem, que ele denomina ancoragem e relais: no caso da ancoragem, “o texto dirige o leitor através dos significados da imagem e o leva a considerar alguns deles e a deixar de lado outros. […] A imagem dirige o leitor a um significado escolhido antecipadamente”. Na relação de relais, “o texto e a imagem se encontram numa relação complementar. As palavras, assim como as imagens, são fragmentos de um sintagma mais geral e a unidade da mensagem se realiza em um nível mais avançado”. “(SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 55)

             O importante no diálogo entre texto e imagem é que algo se transforme, se transubstancie no interior de quem escreve, no interior de quem lê. O buscar e encontrar de sentido risca o céu feito estrela cadente, sublinha a lua cheia de recordações de infância, de prospecções de futuro, de inspiração em outras línguas e não precisa sabê-las, compreendê-las. Basta senti-las no mais profundo do ser.

“Wittgenstein: “Nós formamo-nos imagens dos fatos” (2.1), “a imagem é um modelo da realidade” (2.12), e “a imagem lógica dos fatos é o pensamento” (3).” (SANTAELLA e NÖTH, 2010, p. 29)

            Junho de 2012. Praia de Maracaípe – Pernambuco.

“(…) o Tempo, o tempo que, do fundo da prega entre as duas fotos, emerge com violência e grita-nos no rosto, grita-nos que, longe de estar suspenso pela foto, passa, quebra, afasta, estraga.” (DUBOIS, 1990 (em 2011), p. 353)

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* Autora: Patricia Tenório : www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br.

Referências Bibliográficas

 [1] SANTAELLA, Lucia & NÖTH, Winfried. Imagem: cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 2010.

 [2]  DUBOIS, Philippe. O Ato Fotográfico. São Paulo: Papirus, 1990 (em 2011).

Leitura de Imagens | Turma de Pós-Graduação em Letras 2012 – UFPE | Prof. Maria do Carmo Nino*

 

Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma.

George Bernard Shaw

 

De Março a Junho de 2012 tive o privilégio de participar como ouvinte da turma de Leitura de Imagens da Prof. Dra. Maria do Carmo Nino no curso de Mestrado em Letras da Universidade Federal de Pernambuco.

Foram tardes de quintas-feiras inesquecíveis, onde trabalhamos o olhar, a apreensão das imagens, traduzindo-as em significado e sentido para as nossas vidas. Guiados por mestres como John Berger, Lucia Santaella, C.S. Peirce, Winfried Nöth… e artistas das mais diversas áreas (Artes Plásticas, Literatura, Cinema, Fotografia…) e épocas, 18 alunos foram orientados e despertados pela Prof. a extrair de si a Arte que habita em cada um de nós.

Sou do pensamento que o artista deve possuir o talento, a inspiração e o estudo (ver  http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3145). O estudo constante, persistente, insistente para que a sua Arte floresça, cresça e dê bons frutos. Agradeço a Prof. Maria do Carmo e a todos os meus colegas que me acolheram e me ajudaram a ser, antes de tudo, uma pessoa maior e melhor após esta experiência.

A minha homenagem e gratidão vai em forma do último exercício demandado. A partir de uma obra de arte visual criada pelo próprio aluno, fazer um diálogo com alguma poesia (sua ou de outro autor) e refletir à luz de Lúcia Santaella e Winfried Nöth, no livro estudado Imagem: cognição, semiótica, mídia, São Paulo: Iluminuras, 2010.

Apresento a vocês, “Leitura de Imagens”.

Um grande abraço da

Patricia Tenório.

 

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Amaro Braga

axbraga@gmail.com

 

 

Tédio
Charles Baudelaire

Tenho as recordações d’um velho milenário!

Um grande contador, um prodigioso armário,
Cheinho, a abarrotar, de cartas memoriais,
Bilhetinhos de amor, recibos, madrigais,
Mais segredos não tem do que eu na mente abrigo.
Meu cérebro faz lembrar descomunal jazigo;
Nem a vala comum encerra tanto morto!

— Eu sou um cemitério estranho, sem conforto,
Onde vermes aos mil — remorsos doloridos,
Atacam de preferência os meus mortos queridos.
Eu sou um toucador, com rosas desbotadas,
Onde jazem no chão as modas desprezadas,
E onde, sós, tristemente, os quadros de Boucher
Fluem o doce olor d’um frasco de Gellé.

Nada pode igualar os dias tormentosos
Em que, sob a pressão de invernos rigorosos,
O Tédio, fruto infeliz da incuriosidade,
Alcança as proporções da Imortalidade.

— Desde hoje, não és mais, ó matéria vivente,
Do que granito envolto em terror inconsciente.
A emergir d’um Saarah movediço, brumoso!
Velha esfinge que dorme um sono misterioso,
Esquecida, ignorada, e cuja face fria
Só brilha quando o Sol dá a boa-noite ao dia!

 

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Cláudio Clésio

cleciopegasus@yahoo.com.br

 

Tema de Marluce

 

De Jose Luis Paredis ou Cláudio Eufrausino?

 

Marluce conversa com a fé

Como o horizonte conversa com o farol

Quando ela ri, começo a sonhar

Quando ela fala, eu tenho em quem acreditar

 

Na luz do Mar, Marluce

Na luz do Céu, céu-luce

Com ela, a luz da lua é tão forte quanto a luz solar

 

Se rio com Marluce,

Se choro com Marluce,

Com ela, vejo-sinto sempre meu olhar brilhar

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=xzFvMBa9H2M

 

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Felipe Ferreira

fffotografia@gmail.com

 

Como diria Odair

Zeca Baleiro 

A felicidade é uma coisa tão difícil
Tão difícil de conseguir
Mas de vez em quando ela chega
Quando menos se espera
Quando nada se espera
Ela vem
E fica um pouco aqui comigo
Por algumas horas, minutos, segundos

Como já falou o sábio poeta Odair
Ouve aí:
Felicidade não existe, só momentos felizes
No mais são cruzes e crises

Sempre que eu tô feliz
Logo vem um infeliz
Se fingindo de amigo
Querendo apagar o meu sorriso
Que é o mais próximo do paraíso que eu consigo

Quando menos se espera
Quando nada se espera
Ela vem, vai, vem, vai, vem, vai, vem, vai
Vem, vai, vem, vai, vem, vai, vem, vai…

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Hugo Santos

hugotsan@hotmail.com

 

A prosa impúrpura do Caicó

Chico César

 

Ah! Caicó arcaico
Em meu peito catolaico
Tudo é descrença e fé

Ah! Caicó arcaico
Meu cashcouer mallarmaico
Tudo rejeita e quer

É com, é sem
Milhão e vintém
Todo mundo e ninguém
Pé de xique-xique, pé de flor

Relabucho, velório
Videogame, oratório
High-cult, simplório
Amor sem fim, desamor

Sexo no-iê, Oxente,

oh! Shit, Cego Aderaldo

 olhando pra mim
Moonwalkmam

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Jacinto dos Santos

jacintodossantos@gmail.com

 

Num tempo de chuva

Jacinto dos Santos

26/05/12

 

Pinto com meus olhos meu retrato

E faço com o pincel

Gota a gota uma manhã.

Como a chuva que corre inundando

De cores minha fugaz existência,

Corro ao encontro dos campos nublados

Buscando um pedaço perdido

Duma natureza.

Encharcada minha alma de mim mesmo,

Tremulo.

Minha garganta rasga num grito

A secura cinza e ampla de uma história vaporosa

Que despenca sobre o verde

De uma primavera esquecida do vermelho, do amarelo de uma flor.

Tudo, num átimo, esvoaça-se num horizonte

Perdido na linha da memória volátil.

 

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Vinícius Gomes

niciusmatrix@gmail.com

 

Nascemorre

Haroldo de Campos 

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Wanessa Loyo

wanessaloyo@hotmail.com

 

 

Barcos

Sophia de Mello Breyner Andersen

 

Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua

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* Maria do Carmo Nino possui graduação em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco (1980) e doutorado em Doctorat en Arts Plastiques et Sciences de Art – Université Paris 1 (Panthéon-Sorbonne) (1995). Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal de Pernambuco. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Fotografia, atuando principalmente nos seguintes temas: arte contemporânea, fotografia, história da arte e crítica de arte, cinema e literatura. Contato: carmonino@gmail.com

Reflexões precárias sobre a relação entre imagem e disposição epistemológica | Cláudio Clésio*

 

Tema de Marluce

 

De Jose Luis Paredis ou Cláudio Eufrausino?

 

Marluce conversa com a fé

Como o horizonte conversa com o farol

Quando ela ri, começo a sonhar

Quando ela fala, eu tenho em quem acreditar

 

Na luz do Mar, Marluce

Na luz do Céu, céu-luce

Com ela, a luz da lua é tão forte quanto a luz solar

 

Se rio com Marluce,

Se choro com Marluce,

Com ela, vejo-sinto sempre meu olhar brilhar

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=xzFvMBa9H2M

Esta análise tem por objetivo colocar em debate a questão da autoria, além de fazer, com base na teoria de Lucia Santaella (1998), uma breve relação entre a imagem fotográfica no paradigma pós-fotográfico com a imagem nos paradigmas anteriores (o fotográfico e o pré-fotográfico). Esta reflexão se dá a partir da associação estabelecida entre uma imagem colorizada por meio do programa Adobe Photoshop CS4 e um poema.

Santaella, ao falar sobre a ideia de crise de representação, comum ao repertório dos teóricos do pós-modernismo, retoma a reflexão feita por Foucault em As Palavras e as Coisas, reflexão pautada pela noção de epistemé ou disposição epistemológica que, simplificada e precariamente, pode ser descrita como a atmosfera que permite ao pensamento e aos discursos se expressarem de uma forma e não de outra.

Percebe-se na trilogia das disposições epistemológicas de Foucault, um percurso em que a representação tende a questionar sua suposta ancoragem com a realidade empírica. Em outros termos, o que se questiona é a ancoragem entre palavras e coisas.

No sistema de forças que atua relacionando palavras e coisas – e, por extensão, imagens e coisas – a episteme pré-clássica confere peso maior ao significante, do qual o significado ou conceito torna-se devedor.

A atmosfera clássica, herdeira do Cartesianismo, inverte a relação, enfatizando o significado como instância decisiva na arquitetura das representações.  Ocorre, nas palavras de Santaella, um deslocamento das relações sígnicas do mundo das coisas a um mundo dos signos das coisas. O signo deixa de representar a coisa e passa a representar a ideia da coisa. Torna-se inevitavelmente metalinguístico, pois será formado pela ligação entre dois tipos de ideia:

  1. A ideia da coisa que representa
  2. A ideia que reflete sobre a relação entre a ideia que se tem da coisa e a coisa em si (seja lá o que isso quer dizer)

Na segunda episteme, a clássica, esta metalinguagem está ancorada numa lógica que se pretende universal. Como dirá Santaella, a ordem da razão linguística determina, assim, a ordem das coisas em geral.

Na terceira episteme, do século XIX, a instância metalinguística do signo deixa de se ancorar numa lógica universalista ou numa verdade atemporal. É aí, propriamente, que se instala a crise da representação. Ao questionar como a ideia representa a coisa, a parcela metalinguística do signo se questiona a si mesma. Daí, decorrem duas opções:

  1. A lógica analisa o seu movimento de constituição histórica, isto é, como ela se forma no decorrer do tempo.
  2. A lógica aproxima-se de um flerte com o no sense.

Nesses dois casos, é possível detectar a necessidade de a lógica, ao se autoanalisar, recorrer ao mecanismo de citação.

É na virada da episteme clássica para a pós-clássica que Foucault insere sua reflexão sobre a morte do autor. Na episteme clássica, regida pela ideia de que o indivíduo pode se assenhorear da razão, a autoria se ergue como lugar em que o sujeito exerce o controle da representação.

Na atmosfera pós-clássica, em que a lógica está sujeita à historicidade, a autoria perderia a razão de ser. Não seria mais o indivíduo a se apossar da lógica, mas as diferentes lógicas historicamente construídas a atravessarem o indivíduo.

Podemos, dentro desta reflexão sobre as epistemes, falar sobre a autoria da imagem fotográfica quando de sua submissão aos processos de transformação mediados por programas como o Photoshop.

Com base na disposição epistemológica pré-clássica, a autoria estaria ligada ao estatuto indicial da fotografia. Nesse sentido, tende-se a pensar o autor da foto como aquele que controla os processos de captação da luz.

Assim, o manipulador de imagens seria uma espécie de pirata ou de depredador da propriedade imagética.

Numa perspectiva clássica, a autoria da imagem estaria centrada no conceito que ela exprime, sendo marca da autoria não tanto a indicialidade, mas a presença de uma dimensão artística. Neste caso, pode-se pensar num flerte entre o que Santaella chama de paradigma fotográfico com o paradigma pré-fotográfico.

Em conformidade com a atmosfera pós-clássica, há duas opções:

  1. A autoria da imagem se dilui na carga discursiva que ela arregimenta. Neste caso, a indicialidade acaba por confirmar o esvaziamento da função autoral
  2. A autoria passa a ser compartilhada entre o captador da luz e o manipulador, sendo um espaço de diálogo entre índice, ícone e símbolo.

Na segunda hipótese, a manipulação da imagem, em particular a colorização, depara-se com o dilema de permanecer no paradigma fotográfico ou migrar para o paradigma pré-fotográfico.

Em todo caso, um diferencial marcante da imagem pós-fotográfica é que ela deixa de ser vista como essencialmente icônica e passa a ser vista como algo que oscila entre ícone e símbolo. Adquire assim um caráter metafórico diverso. Deixa de ser uma metáfora associada a um repertórico fixo e estável de figuras ou tropos e passa a ser uma metáfora que se constrói ou uma metáfora crítica (que critica e que está em crise), como a denomina João Alexandre Barbosa (1986). E, nesse processo, a fotografia se torna uma co-enzima do poema e vice-versa, como também se torna um repositário de metáforas.

Referências Bibliográficas

BARBOSA, João Alexandre. As Ilusões da Modernidade. São Paulo: Editora Perspectiva, 1986.

SANTAELLA, Lúcia e Nöth Winfried. Imagem: cognição, semiótica e mídia. São Paulo: Iluminuras, 1998.

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* Texto e imagem enviados e autorizados a serem publicados no blog de Patricia Tenório. Contato: cleciopegasus@yahoo.com.br

A Tarde do Fauno | Hugo Santos*

O objeto de uma representação pode ser qualquer coisa existente, perceptível, apenas imaginável, ou mesmo não suscetível de ser imaginada.

                                   ( LUCIA SANTAELLA )

 

  A obra IMAGEM, de Lucia Santaella e Winfried Noth, nos traz prioritariamente a visão que falta ao iniciante – o processo evolutivo de produção de imagem. Ao longo dos textos, os autores declinam-se sobre explicações de caminhos que levam o leitor ao deleite completo de uma doutrina de composição de imagens, mantendo um foco indivisível, o que torna a leitura, além de instrutiva, necessária ao acadêmico ou pesquisador.

Em seu capítulo 11, é proposta a existência de três paradigmas no processo evolutivo, sendo que todo o processo evolutivo das técnicas e das artes da figuração, aos olhos do teórico Edmond Couchot, divide-se em apenas dois grandes momentos – o da representação e o da simulação. A partir dessa combinação binária, em que a divisão das imagens baseada na oposição entre representação e simulação faz um sentido muito parcial, e haja vista a sua classificação estar mais próxima da classificação proposta por Paul Virilio, Santaella apresenta a classificação logística da imagem, subdividindo-se em eras da lógica formal, da lógica dialética e da lógica paradoxal.

Na tentativa, portanto, de se ilustrar o pensamento teórico apresentado na obra, a seguinte imagem e texto foram escolhidos, tratando-se este último da música “A Prosa Impúrpura do Caicó”, do cantor e compositor Chico César:

 

A prosa impúrpura do Caicó

                                          (Chico César)

Ah! Caicó arcaico
Em meu peito catolaico
Tudo é descrença e fé

Ah! Caicó arcaico
Meu cashcouer mallarmaico
Tudo rejeita e quer

É com, é sem
Milhão e vintém
Todo mundo e ninguém
Pé de xique-xique, pé de flor

Relabucho, velório
Videogame, oratório
High-cult, simplório
Amor sem fim, desamor

Sexo no-iê, Oxente,

oh! Shit, Cego Aderaldo

 olhando pra mim
Moonwalkmam

 

“Meu cashcouer mallarmáico…”

… em sua breve expressão, a profusão de símbolos remete-nos ao poeta hermético que expressava a verdade através da sugestão (imagético), mais do que da narração – uma literatura lúcida e obscura ao mesmo tempo.

A partir disso, na imagem escolhida para a ilustração (L’après-midi d’un faune / A Tarde do Fauno), oriunda do poema de mesmo nome, de Stéphane Mallarmé, datado de 1876, a partir do qual Claude Debussy compôs a sinfonia que foi o marco inicial da música moderna, o ambiente estético nos possibilita “olhar” os seguintes aspectos, inseridos na obra (poema):

– A tentativa do fauno em possuir a ninfa;

– Um só corpo, um só desejo;

– Garras/Galhos do fauno;

– Olhar levemente entristecido e erotizado das ninfas;

– Ingenuidade(?) da ninfa… do fauno(?);

– Ferocidade burlesca;

– Peito virgem;

– Luta da ninfa;

– Luta, morte e definhamento.

L´après-midi d´un faune (1876)

 

Permeando seus argumentos com ponderações argutas, os autores de A Imagem realizam um trabalho inigualável, com uma linha harmoniosa na narrativa do livro, e uma vez que o interesse maior é o de despertar interesse, a imagem torna-se evidência da condição humana geral – não acusa ninguém e acusa todo mundo.

Após apresentar uma distinção entre as composições da imagem, Santaella nos coloca uma citação de Virilio – o paradoxo lógico é o da imagem em tempo real que domina a coisa representada, este tempo que a partir de então se impõe ao espaço real. Esta virtualidade que domina a atualidade, subvertendo a própria noção de realidade.

Num único trecho, uma obra sublimadora, eterna e do mundo.

 

A Tarde do Fauno / Stéphane Mallarmé

Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida,sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo,afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.
Quem sabe as mulheres que glosas
são configurações de anseios que possuis?
Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos,fonte em pranto, da mais
casta
Suspiros, toda, a outra – alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso – ameaça
a todo matinal frescor de suave fama
se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por ascensão.
Ó plagas sículas e calmas, da lagoa,
que saqueadas tem minha vaidade, à toa,
e tácita- no amor das flores destes páramos­ –DIZEI
“que aqui me achava em busca destes cálamos sonoros
quando além, por entre as brandas linhas
de ouro glauco, a fulgir nas fontes e nas vinhas,
eis ondeia uma alvura. animal em repouso;
mas que logo também, ao lento e langoroso
prelúdio linear da avena de cinabre
vôo, de cisnes não, de náiadas se abre.”

A hora fulva que arde inerte não revela
a astúcia, de intenções de aliciação tão bela.
Sinto-me despertar sob um fervor de antanho,
onda antiga de luz envolvendo-me em banho,
eu, lírio, um dentre vós segundo a ingenuidade!

Mais que o nada tão doce, essa espontaneidade,
beijo, sussurro suave e soma de perfídia,
meu corpo, sem mais prova, atesta ainda, insídia,
uma oculta mordida augusta, de alto dente;
mas, vede, arcano tal tomou por confidente
o gêmeo junco, par que sob o azul se soa;
que recebendo em si o sôpro, logo entoa
e sonha, em solo longo e leve, que a beleza
em derredor está a mudar-se com presteza
dentro na confusão de si mesma e do canto;
e nas modulações altas de amor,entanto
evanescendo esvai-se apaga-se a teoria
clara, de dorsos e de flancos; ó magia
de uma sonora e vã monótona mesmice!

Frauta maligna, órgão de fugas, sem ledice,
vai, fístula, florir no lago e ali me aguarda.
Eu, cheio de rumor altivo, já me
tarda
falar de deusas; por idólatras pinturas,
de suas sombras irei tomar-lhes as cinturas.
Assim, quando ao racimo extraio-lhe a substância /sorvo
e contra a mágoa apuro a minha vigilância,
e rindo soergo no ar o já vazio cacho
e, na pele de luz assoprando, eu me
acho
-ébrio- capaz de então a tarde toda o olhar.

Outras RECORDAÇÕES, vamos, ninfas, lembrar
“Meus olhos entre o junco… além uma
figura
imortal que se banha e a cálida brancura
luminosa do corpo em onda leve imerge.
Sôbre o áureo esplendor dos cabelos converge
um claror e um fremir de fulva
pedraria!
Corro; mas a meus pés, jungidas na agonia
do langor
deste mal de serem dois em um,
vejo duas dormindo, em abraço
comum.
Como estavam tomei e trouxe a esta eminência
desamada da sombra e dela sem frequência;
aqui se esvai ao sol das rosas o perfume;
mas para o nosso embate a força aqui me assume.”

Ó furor virginal, eu te adoro, ó concisa
fúria de corpo nu, fardo nu que desliza
fugindo ao lábio ardente e a refulgir livores
de ampla trepidação da carne em seus pavores!
E isso, da inumana à tímida que vê
já perdida a inocência e dos olhos
revê
uma lágrima louca ou um tanto menos triste.
“Meu crime foi querer, na fôrça que me assiste,
apartar dividir um tufo desgrenhado
de beijos e de amor, dos deuses bem guardado.
Na hora em que esconder eu ia o riso ardente
na feliz maciez de urna, só – e contente
procuro no condor de pluma em que
se agita
o sabor da emoção que vívida palpita
na sua ingênua irmã, pequena, que não cora
eis de meus braços que se esquecem foge fora
tal ingrata cruel, que na impiedade esfria
a estuosa ebriez em que me consumia.”

Foi pena. Irei buscar alhures a
esperança
de em meus chavelhos ver, enastrada, uma trança.
Bem sabes, ó paixão, que rubras mui vermelhas
cada cereja abriu seu murmurar de abelhas.
E o nosso sangue vai, enviado em seu ensejo, percorrendo o pendor eterno do desejo.
Na hora em que de ouro e cinza este
bosque
se pinta logo em festa se exalta a folharia extinta.
Ó Etna, é junto a ti! Vênus vem pelos ares.
Leve na lava pousa ingênuos colcanhares
enquanto sonolento as chamas tens em
calma.
Tenho pois a rainha!
Ó dura pena…
A alma
de palavras vazia e o corpo em letargia
sucumbem afinal ao fero meio-dia.
Cumpre dormir assim, no olvido, de mansinho,
deitado nesta areia.
Ó que delicia ao vinho
a boca oferecer e a seu astro eficaz!
Par, adeus: Quero ver como tua sombra se faz.

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*  Texto enviado e autorizado pelo autor para ser publicado no blog de Patricia Tenório. Contato: hugotsan@hotmail.com

Amarel@ Mang@ | Vinícius Gomes*

Nascemorre

Haroldo de Campos, 1958

 

 

            Constituida pelos numerais zero e um, em diferentes tons de amarelo, verde e vermelho. Amarel@ Mang@ foi elaborada em 14 de fevereiro de 2012, com auxílio de alguns dos inúmeros editores de texto e imagem disponíveis nos diversos sistemas operacionais de computadores. Para ser mais exato, sua criação levou exatos 45 minutos, tempo destinado para a escolha da imagem e efetivação de alterações textuais e visuais. Segundo Santaella (1998, p.170), “a função do programador infográfico é, na medida em que a computação existe, produzir mudança nas imagens, um manipulador, sujeito antecipador e ubíquo”.

            A escolha do título, Amarel@ Mang@, permite diversas leituras: amarelo mango, amarela manga, amarelO mangA, amarelA mangO. Poema de inspiração verbivocovisual e tecnológica, perceptível inicialmente nos arrobas (@) e na imagem icónica de uma fruta, passível de apresentação textual ambígua entre manga (português) e mango (inglês), amarelo e amarela. As alterações de Ø (zero) e 1 (um) que compõem a imagem por letras que formam a frase ‘AmareloManga’ foram criadas aleatoriamente na vertical, horizontal, e por vezes na diagonal, alterando a sequência de maiúsculas e minúsculas, permutando as grafias do numeral Ø(zero) pelo  grafema O (ó/ô) e “L” por “1” e vice-versa. Se analisarmos as construções possíveis teremos: amarelo, manga, amare, mangamar, amarel1m, amareloma, mangaama, amareloma, amare1o1mangaam, elomanga, am0, onga, ma, rel, ama,  0m0, olmanga, marel10manga. Além da assinatura digital da obra.

            Nascemorre, poema concreto criado por Haroldo de Campos, aproxima e traduz bastante a ideia inicial ao desenvolver Amarel@ Mang@. A semântica do nascer e morrer é uma possível reflexão ao poema visual apresentado em Amarel@ Mang@; que não existe de maneira concreta, sendo apenas uma representação aqueiropoética (não realizada pela mão do homem) de uma imagem capturada na rede mundial de computadores e transformada através de softwares.

            Uma vez que a imagem da manga, se assim podemos nomeá-la, passa por uma desconstrução virtual para ser traduzida em números, cores, e letras, ainda podemos considerá-la uma fruta? Lembremos que Santaella (1998) menciona Peirce (CP 2.323) em: “O objeto de uma representação pode ser qualquer coisa existente, perceptível, apenas imaginável, ou mesmo não suscetível de ser imaginada”.

            Nascer, morrer, renascer, desnacer, remorrer, desmorrer de Nascemorre (Haroldo de Campos), tornam-se signos conflituosos se aplicados à representação pictorica de Amarel@ Mang@. É uma questão de (não)existêncialidade do ‘poema virtual’ que está aberto a outras alterações por demais visualizadores ou até mesmo expurgado pelo hospedador da imagem, a empresa detentora dos direitos do Flickr: Yahoo Inc.

            O processo de captação da imagem utilizada em Amarel@ Mang@ ainda pode ser considerado fotográfico? Pressupõe-se que a fotografia da manga foi captada por meio de uma máquina de registro, por conexão dinâmica e captação física de fragmentos do mundo visível, ainda que tenha sido escolhida entre tantas outras imagens apresentadas pelo sistema de buscas do Google. Para Santaella (1998, p.157), imagens físicas são “imagens que dependem de uma máquina de registro”. Entretanto, a possibilidade de questionar se a fruta (manga) escolhida no Google foi produzida artesanalmente ou captada através de máquina(s) de registro(s) é quase nula. Apenas se sabe que o resultado final apresentado ao leitor/expectador é reflexo do casamento entre um computador e uma tela de vídeo (projetor/celular/tablet/etc.) que também pode ser transportado e apresentado por meio de impressão.

            Para elucidar a querela supramencionada, Santaella (1998, p.166) define o paradigma pós-fotográfico no qual: “o computador, por sua vez, embora também seja uma máquina, trata-se de uma máquina ótica, mas sobre um substrato simbólico: a informação. Na nova ordem visual, na nova economia simbólica instaurada pela infografia, o agente da produção não é mais um artista, que deixa na superfície de um suporte a marca da subjetividade e de sua habilidade, nem é um sujeito que age sobre o real, e que pode até transmutá-lo através de uma máquina, mas se trata agora, antes de tudo, de um programador cuja inteligência visual que se realiza na interação e complementaridade com os poderes da inteligência artificial.”

Referencias:   SANTAELLA, Lúcia. NÖTH, Winfried. Imagem, Cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 1998.

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* Texto e imagem enviados e autorizados pelo autor para serem publicados no blog de Patricia Tenório. Contato: niciusmatrix@gmail.com

Minicontos | Jacinto dos Santos*

Conto 1:

Foto: Emir Ozsahin

 

Ela saiu cedo de casa para ir ao trabalho com uma hora de antecedência, porque queria caminhar até ao trabalho ao invés de ir de ônibus. Aproveitaria assim a caminhada para refletir sobre a aridez de sua vida nos últimos tempos. O que fazer, era o seu questionamento. Tudo era uma sucessão de repetições que a deixava angustiada pela rotina. Em nada mais percebia motivação para sair do estado de marasmo que a acometia. Chegou ao trabalho, arrumou sua mesa, executou todas as exigências da agenda do dia, mas nada a fazia feliz. Falou com o seu chefe pedindo-lhe para sair mais cedo, uma hora antes do fim do expediente sem alegar qualquer motivo plausível. Caminhou por mais uma hora até sua casa. Ao chegar ao portão de seu jardim, viu que a secura da terra era grande. As plantas estavam quase que mortas, mas uma única flor ali resistia ao abandono de sua própria sorte. Ela sorriu, colheu aquela única flor e a pôs num pequeno vaso ao lado da cabeceira de sua cama.

Conto 2:

Foto: Raymond Depardon

 

Com o olhar estendido num canto do tempo, o silêncio a retém no vazio da casa. Uma luz estranha vaza pela janela como um raio furtivo da tempestade anunciando toda a inquietação da natureza. É a inquietante certeza das flores murchas pelos dias já passados e que toda lembrança é como uma escrita de uma carta adormecida entre as páginas do livro de cabeceira esquecida, mas que se sabe de sua presença. Tudo naquele canto da casa é uma história: as xícaras arrumadas na prateleira à espera do café quente dos afagos de um dia; uma fruta murcha sobre a mesa recordando as delícias festivas de uma vida; um telefone que não mais anuncia a voz amada dizendo de sua chegada… todas as coisas ali se denunciam a ela, pronunciam-se no espaço agora frio de uma eternidade.

Conto 3:

Foto: Lorena de Barros

 

Ela levantou certa, numa manhã, de que faria uma tatuagem que seria eterna no seu corpo. Mas ela se esqueceu do limite da eternidade, que tão somente vai até as horas duma viçosa flor. E realizou o feito de se por ao escultor a impingir-lhe o desejo daquele instante, com a prerrogativa do infinito. Assim foi. A cor imprimiu-lhe a sua marca em sua epiderme e a encantou, como toda promessa de um lindo sonho de fada. Vaidosa da conquista, ela desfila aos olhares, mas uma lâmina cruel cruza-lhe a pele esculpida e se perde na ferida tudo que a impressionou. Agora, embalada por mais uma noite, acorda decidida a recompor a sua alma menina tatuada pela experiência.

Conto 4:

Foto: Jacinto dos Santos

 

Ele andava lado a lado de si mesmo pelas ruas a passos perdidos sem a certeza de chegada ou de partida. Seu corpo disputava espaço no vazio das calçadas indiferentes à sua sombra. E ele era mais um na oquidão das avenidas cruzadas por frustrações, tédios e abandonos. Cansado de mendigar um único olhar, ele se senta à margem da calçada e passa a ver a lataria brilhante dos carros que transitam ensimesmados.

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* Textos enviados e autorizados pelo autor para serem publicados no blog de Patricia Tenório.

Jacinto dos Santos: Doutorando em Educação; mestre em Teoria da Literatura; professor de Literatura da UPE; crítico e ensaista de artes e literatura; escritor de prosa e verso. Contato: jacintodossantos@gmail.com

O crime do tenente | Sânzio de Azevedo

           

            A rua amanheceu cheia de barulho: conversas, cochichadas ou exaltadas, falavam de um acontecimento triste que marcara a noite: Edmar, jovem tenente do Exército, havia assassinado a esposa, com um tiro de revólver.

            Alegava ele que, ao limpar a arma, ocorrera o disparo. A maioria dos vizinhos não acreditava nessa versão, e parecia ter razões para isso, visto estarem cansados de ouvir discussões entre os dois, e tudo indicava a presença de muito ciúme na origem daquelas desavenças.

            Não faltou quem informasse que Estela se havia casado contra a vontade do pai, fazendeiro nas bandas de Quixeramobim, e que, vindo com o militar para Fortaleza, logo descobrira que ele tinha uma amante, causa dos desentendimentos entre os dois. E mais: o velho fazendeiro nutria ódio de morte ao genro.

            A história do tiro casual terminou por absolver o tenente de qualquer culpa, até porque a morte de Estela não tivera testemunhas, e mesmo os vizinhos que acreditavam em crime confessavam fazer algum tempo que ninguém escutava discussões naquela casa.

            Passaram-se meses, e começaram a surgir rumores de que o jovem militar era visto todas as noites namorando num banco de praça, em um bairro próximo. A praça era escura e somente a muito custo algumas pessoas podiam reconhecer o tenente Edmar, abraçado e aos beijos com uma mulher desconhecida.

            Se se tratava da mesma amante que provocara tantas discussões entre ele e sua esposa, ninguém jamais veio a saber, mas houve quem ponderasse:

            — Com todo esse agarramento, isso não está parecendo amor antigo não…

            Ao amanhecer de um belo dia ensolarado, encheu-se a rua, outra vez, de conversas, cochichadas ou exaltadas. Mas se a exaltação, da vez anterior, traduzia revolta, agora era de puro júbilo: na noite passada, o tenente havia tombado na praça com três tiros de revólver. Contava-se que alguém, talvez a namorada, tinha ouvido o barulho de um carro se distanciando. E só. Nunca se soube quem fora o criminoso, nem se havia qualquer relação entre esse crime e o assassinato de Estela.

            Alguém comentou:

            — Cabra bom! Numa escuridão daquela, acertar três tiros no cidadão e nenhum na mulher…

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Extraído da Revista Oeste, Março de 2012, nº 15, Mossoró – RN. Texto autorizado pelo autor para ser publicado no blog de Patricia Tenório. Contato: sanziodeazevedo@gmail.com

Montes Claros e seus construtores | Mara Narciso*

 

             Imagino Wanderlino Arruda, o nosso intelectual maior, e as palavras que escolheria para falar de si, das suas características físicas, psicológicas, cultura, feitos, agremiações de que participa, dos mais de 20 livros que publicou, dos cursos em que se formou – Contabilidade, Letras, Direito – e pós-graduação em Linguística. Nasceu em São João do Paraíso no mesmo ano da minha mãe – 1934. Eu o conheci há dois anos, quando fiz estágio de Jornalismo no Canal 20. Fui entrevistá-lo sobre Darcy Ribeiro. A conversa foi rápida, e ainda assim pude me encantar com a pessoa de Wanderlino Arruda. Comentei com uma amiga sobre como era agradável falar com pessoas cultas, que nos embriagam e nos acrescentam. Vontade de ficar ali, sugando informações naquela linguagem gostosa, poética, filosófica, que nos faz crescer o espírito. O som entra pelos ouvidos, nutrindo a alma.

            Há alguns anos leio crônicas e poemas de Wanderlino Arruda na internet, mas agora tenho um livro inteirinho. Demorei seis dias para terminar de lê-lo. Construtores de Montes Claros foi lançado na semana passada. Na apresentação, o autor falou que as pessoas escolhidas eram gente de que ele gostava. Diante de uma lista de admirados, imagina-se um desfile de elogios, de enaltecimento monótono de admirador diante do ídolo. Está bem que em certa medida é adulação, porém com categoria. Armado de palavras para desarmar resistências, Wanderlino Arruda organiza seu desfile de personalidades. Perfila-os e lhes dá um banho de valorização, nos comuns e nos incomuns. Não é só um culto a vaidade, mas uma lista de mérito. O autor é capaz de traçar as características psicológicas do homenageado, e até flerta com um possível defeito ou inimigos, porém, não os cita nominalmente. Pessoas diferentes recebem caracterizações diversas e quanto mais marcantes as qualidades do retratado, maior entusiasmo mostra o escritor nos feitos daquele. Ganha o leitor.

            São 54 crônicas, sem ordem cronológica, sendo umas referentes a prefácios, outras posses na Academia Montesclarense de Letras, despedida por morte, ou apenas um gesto de saudade. O autor, loquaz orador, com boa conversa e alegria, mostra paixão por cultura, línguas estrangeiras, música, viagens, bem trajar, não ter ambição, valores dos outros em que também se revela. Pródigo, não se abstém de engrandecer quem de fato é grande, aquele que figuraria bem em qualquer lista. Outros são surpresas, pessoas comuns que fizeram seu trabalho de forma correta, apenas por sobrevivência, e ainda assim mereceram destaque.

            O que os retratados têm em comum é a capacidade intelectual, seja por inteligência pitoresca ou por cultura adquirida. Quase todos pertencem ao grupo de cultos. A personalidade cuja descrição me chamou mais a atenção foi Dona Fernanda Ramos, recebedora dos adjetivos mais entusiasmados. Lembro-me da sua atividade frenética junto às irmãs do Colégio Imaculada Conceição. Não sabia que é tão importante e capaz.

            Construtores de Montes Claros, mesmo sem ter essa pretensão, vem organizar e detalhar os feitos dessas personalidades. Este é o primeiro, mas serão oito livros de homenageados, informa o escritor. Há alguns vivos, outros mortos, mas todos contemporâneos de Wanderlino, que entre outras coisas estudou no Colégio Diocesano e no Instituto Norte Mineiro, escolas onde estudaram minha mãe e meu pai, respectivamente. Creio que eles possam ter sido colegas do autor. Características de professores citadas no livro eram por mim conhecidas, pois meus pais falavam da elegância e sapiência deles. Como tinham boa linguagem, devem ter sido assim por terem bebido na mesma fonte de Wanderlino Arruda.

            O centro do livro é sim, a exaltação de pessoas, na linguagem rica do escritor, uma fonte inesgotável de alegria e generosidade. Quem não merece não está na lista. E como foi dito por ele, quanto mais o rol é ampliado, mais gente comum poderia entrar, o que tornaria as lacunas intermináveis.

             A melhor crônica, que além de se destacar entre todas, adquiriu vida própria, foi a homenagem a Pedro Martins Sant’Ana. Sobre ele, diz Arruda: “Para nós, seus alunos, o verdadeiro descobridor do Brasil, o homem que abria as selvas, rasgava estradas, construía escolas, levantava templos, era ele, Pedro Sant’Ana, o grande Pedro.” Não o conheci, mas o achei maravilhoso. Apaixonei-me por esse professor de História. E fiquei a pensar como os bons professores são transformadores. Eles levam os alunos para a luz, para o bem, para tudo que houver de melhor, desde que estejam preparados para isso, assim como os bons escritores. Ler livros é trazer o escritor para perto de nós e sorver dele o que pensa. E de pensar que há quem não goste de ler.

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* Mara Narciso é médica e jornalista diplomada – 20 de maio de 2012. Texto enviado e autorizado pela autora para ser publicado no blog de Patricia Tenório. Contato: yanmar@terra.com.br

Convite | Conceição Alves

 

 

 

 

 

Enviado por Conceição Alves: mconceicaolima@hotmail.com