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Índex*- Março, 2012

           

             Inauguro o painel Índex, no qual apresento os poemas, contos, ensaios, links, vídeos, convites… do mês no blog de Patricia Tenório.

            Pode um mundo existir sem barreiras, diferenças sociais, um mundo em que todos vivam como irmãos? Ofereço Sobre Utopia, de Thomas More.

            O amazônico-cearense-brasileiro Jorge Tufic nos encantando (e engrandecendo) com suas poesias.

            Do outro lado do oceano, Denis Emorine e Accademia Il Convivio nos mostram que a poesia não tem língua, raça ou nação.

            Compartilho esses jovens talentos participantes da Antologia Emoção repentina.

            Fátima Quintas nos convida para a palestra de Fernando Freire na Academia Pernambucana de Letras (26/03), Homero Fonseca nos convida para o 23º Sarau Plural (27/03),   Humberto França nos convida para o FESTLATINO – PARIS (29/03) e Jaíne Cintra nos envia seu novo site www.jainecintra.com.

            Confiram!

            A próxima postagem será em 29 de abril de 2012. Enviem seus poemas, contos, ensaios, links, vídeos, convites… e participem!

            Até breve,

            Patricia Tenório.

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Index* – March, 2012

 

           I inaugurate the Index panel, where I present poems, short stories, essays, links, videos, invitations,… of the month in the blog of Patricia Tenorio.

           Can a world exists without barriers, social differences, where they all live like brothers​​? I offer About Utopia, of Thomas More.

            The amazon-ceará-brazilian Jorge Tufic charming (and enlarging) us with his poetry.

            Across the ocean, Denis Emorine and Accademia Il Convivio show us that poetry has no language, race or nation.

            I share these talented young participants of the Anthology Emoção repentina.

             Fátima Quintas invites us to the workshop of  Fernando Freire at Academia Pernambucana de Letras (03/26), Homero Fonseca invites us to 23rd Sarau Plural (03/27),  Humberto França invites us to FESTLATINO – PARIS (03/29) and Jaíne Cintra sends us her new site www.jainecintra.com.

             Check it out!

            The next post will be on April 29, 2012. Send your poems, short stories, essays, links, videos, invitations… and participate!

            See you soon,

            Patricia Tenório.

**

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

** Green Park, Londres. Green Park, London.

Sobre Utopia, de Thomas More | Uma leitura de Patricia Tenório

03/03/12

             Após a leitura de O jogo das contas de vidro,[1] de Hermann Hesse, continuei seguindo as setas de livros que indicam livros e descobri numa tarde, ao acaso (??), na estante de uma livraria, como se me chamasse, como se me convidasse com suas orelhas abertas, como se com suas orelhas tivesse escutado meu pedido da origem das origens do Jogo de Avelórios: eis que a mim se apresenta Utopia,[2] de Thomas More.        

            É certo que ele me havia sido apresentado pela primeira vez assistindo a Ever After[3]

httpv://www.youtube.com/watch?v=WhZ3Yq8ogq4&feature=related  

na cena em que a protagonista, Danielle de Barbarac, cita um trecho do livro ao Príncipe Henry na tentativa de libertar o criado vendido por sua madrasta, numa alusão ao conto de fadas Cinderela. Nesse emaranhado que o fio de O jogo me colocou, acrescento a próxima seta indicativa de leitura: A República,[4] de Platão.

            O que é original? Quem é original? Ou os escritores são apenas repetidores, apenas imitadores de quem vislumbrou a Verdade?

            O fato é que O jogo das contas de vidro (1946) encontra semelhanças com Utopia (1516), que encontra semelhanças com A República (século IV a.C.). A música aliada à educação é uma delas. A vida em comunidade, com a exclusão do poder, da vaidade e do dinheiro (especialmente em Utopia). A coerência e a busca do Ser em detrimento do Ter. Com a base das necessidades atendida, a partir de então se deve procurar o equilíbrio, a harmonia e o amor ao saber como fonte de felicidade.

            Às vezes, o entendimento na leitura dessas três obras não é fácil nem claro. Mas acredito no potencial infinito da mente humana e na capacidade de conexões futuras, mesmo daquilo que não está sendo compreendido no momento.

             O escritor precisa estudar sobre a vida para escrever sobre a vida. E, além de observar o dia a dia, seu e dos que se encontram ao seu redor, pode-se (e deve-se) estudar os clássicos, não somente os da Literatura e da Poesia, como também os da Filosofia, Psicologia/Psicanálise, Sociologia, Política, Antropologia…, em todas as áreas do conhecimento humano que alicercem a construção de sua obra artística.

             Mas deve-se ter o cuidado na escolha dos assuntos para não sair do centro da pesquisa, o meta-assunto que os diferentes livros indicam, e para isso é preciso seguir a intuição. E também a dialética de Sócrates, quando, nos diálogos de Platão, desfia assuntos aparentemente díspares, mas tendo em vista um objetivo único, um único tema.

             Penso que o meta-assunto dos três livros seja uma intrigante pergunta: pode um mundo existir sem barreiras, diferenças sociais, um mundo que todos vivam como irmãos? Várias são as respostas, diferentes são as respostas. Mas, ao que me parece, baseiam-se no controle de si, na reunião das diversas partes que constituem um ser fragmentário, transformando-o em um ser unitário, o mais próximo possível do divino. E, principalmente, no caso de Platão, as revoluções que isso implica ao modificar o mundo, quando se retira dos deuses a responsabilidade por nossos atos, assumindo as escolhas condizentes com o livre-arbítrio.

             Aonde a leitura irá me levar? Não sei responder ainda, não sei ao certo. Apenas que se aquiete a fome de saber por uns instantes, e, saindo de mim, possa me ver maior e solta das amarras do eu antigo, que esses três livros ajudaram a libertar.

Sir Thomas More, Hans Holbein (1497-1543) 

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(1) O jogo das contas de vidro, Hermann Hesse, Editora BestBolso, 2007.

(2) Utopia, Thomas More, Editora Martins Fontes, 2009.

(3) Ever After (Para sempre Cinderela), 1998. Direção: Andy Tennant. Com Drew Barrymore (Danielle de Barbarac), Anjelica Houston (Rodmilla) e Dougray Scott (Príncipe Henry).

(4) A República, Platão, Editora Martin Claret, 2000.

Revisão Ortográfica: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas

Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com

Poemas Selecionados | Jorge Tufic*

 

84 [1] 

 

Faz poesia o

chinelo deixado nas

ruínas do

alpendre.

 

Faz poesia o

tanque da

casa entregue aos

ermos.

 

Faz poesia o

balanço que

embala a

saudade.

 

Faz poesia o

graveto

no meio da

coivara.

 

Faz poesia o

anjo de

costas para a

galáxia.

 

Faz poesia o

menino que

inventa os sons

da palavra.

 

Faz poesia o

copo no

sono das

moscas.

 

Eu não faço

poesia.

 

  

A vigília[2] 

 

A noite se crava em meus ossos.

Ela tem muito de mim:

guarda os milênios de chuva

destaca as fogueiras do mito

faz gotejar os pajés da Amazônia

sobre lagos & rios.

 

Essa noite não dorme

enquanto a prolongo.

 

Suicídio na aclimação[3] 

 

Que nome dar à solidez dos objetos

que te viram partir,

o desespero branco voltado para onde tarda

o socorro a notícia o diminuto eco,

talvez,

de tua morte sequer imaginada?

 

Resta agora a solidão geométrica

do encarceramento vesperal,

com teus punhos ensangüentados,

tua boca terrível,

gasta e seca.

 

Pretúmulos edificados na linha dos postes,

sacadas vazias, vento morno,

cortinas sem brilho.

Solitários vultos,

lá embaixo,

contemplam o domingo driblado

pelos velozes motoboys

entregadores de pizza.

 

  

I[4] 

 

Contam que foi assim.

As águas baixaram tanto

que os peixes subiram para a terra,

tomaram forma de gente.

 

Uma Cobra do tamanho do arco-íris

espalhou essa gente pelas margens do rio.

Antes da pupunha e do arumã,

antes do Dia e da Noite…

 

Das seis coisas invisíveis, como ganchos,

cuias, bancos, maniva, ipadu e cigarros,

destacou-se a mulher,

criada por si mesma.

 

Ela aparece no desenho dos índios

sorrindo para os trovões…

 

Enfeites e objetos de uso,

também estavam prontos, ali.

E as casas eram de pedra tão fina

que luziam por dentro…

 

________________________________

* Jorge Tufic nasceu em Sena Madureira – Acre (1930). É filho de imigrantes libaneses. Seu nome completo: Jorge Tufic Alauzo. Estreou-se na poesia com o livro ¨Varanda de Pássaros¨ (1956), já em Manaus, para onde transplantou-se com a família. Em 1954 ingressou no Clube da Madrugada, um movimento cultural baseado num manifesto sucinto, porém radicalmente inovador das artes e letras amazônicas. Em 1980 conquistou o primeiro lugar no Concurso Nacional para escolha da letra do Hino do Amazonas. É detentor de vários prêmios nas categorias de ensaio, crônica, conto e poesia. Tem mais de 50 títulos publicados, a maioria deles na área do fazer poético. Reside em Fortaleza desde 1992. Contato: jorgetufic@hotmail.com

(1) Extraído de Guardanapos pintados com vinho, Jorge Tufic, Realce Editora e Indústria Gráfica, 2008, pp. 58-59.

(2) Extraído de Poema-Coral das Abelhas, Jorge Tufic, Expressão Gráfica e Editora, 2010, p. 21.

(3) Extraído de A insônia dos grilos, Jorge Tufic, Expressão Gráfica e Editora, 2011, p. 22.

(4) Extraído de Quando as noites voavam, poema Boléka – A onça invisível do universo (Mitologia Dessana – Tukano), Jorge Tufic, Valer Editora, 2012, p. 27.

Moartea mereu | Denis Emorine*

A une amie roumaine

Moartea mereu**

Tu es venue me rejoindre alors

Que je ne t’attendais pas.

Je sirotais un café noir

Amer comme il se doit

La mort s’agitait au fond de la tasse

Comme à l´accoutumée.

J’attendais que tu prononces les mots

Que je pressentais

Que tu me dises en cet instant

que les femmes aimées sont éternelles

Ainsi mon père s’est-il retiré avant ma mère

Ainsi prendrai-je congé de mon Amour.

«Il n’a pas souffert» m’a t-on dit

J’ai eu envie de hurler:

«Qu’en savez-vous?Il souffrait depuis tant d’années déjà!»

La bienséance (?) a repris ses droits

Je n’ai rien répondu.

Toi et moi

Nous avions quelques millions d’années en commun.

En cet instant

Je savais que je te nommerais Amie.

Ton intelligence et ton sourire étaient la plus

Belle des lettres de recommandation

Sans doute aurais-je souhaité que

Tu me parles d’un dieu qui n’existe pas

Mais je ne m’en souviens plus.

(Le premier mari de ma mère

Rescapé des camps

Est mort dans ses bras

Quelques années plus tard )

Non

Ne me parle pas de Dieu

Je t’en prie

Je me suis égaré une fois encore

Il n’y a que la mort

Toujours la mort

Elle s’agite toujours au fond de ma tasse

Comme à l’accoutumée.

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A uma amiga romena

Moartea mereu**

Tradução: Patricia Tenório

Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas***

Tu vieste me reencontrar agora

Que eu não te esperava.

Eu beberico um café preto

Amargo como deveria ser

A morte se agitando no fundo da xícara

Como de costume.

Eu esperava que tu pronunciasses as palavras

Que eu pressentia

Que tu me digas nesse instante

Que as mulheres amadas são eternas

Ainda que meu pai tenha se retirado antes de minha mãe

Ainda que deva deixar o meu Amor.

«Ele não sofreu» me foi dito

Tenho vontade de gritar:

«Que sabem vocês? Ele já sofria há tantos anos!»

A propriedade (?) recuperou seus direitos

Eu nada respondi.

Tu e eu

Nós havíamos tido milhões de anos em comum.

Nesse instante

Eu sabia que te nomearia Amiga.

Tua inteligência e teu sorriso eram a mais

Bela das cartas de recomendação

Sem dúvida teria eu desejado que

Tu me fales de um deus que não existe

Mas eu não me lembro mais.

(O primeiro marido da minha mãe

Sobrevivente dos campos

Morreu em seus braços

Alguns anos mais tarde)

Não

Não me fales de Deus

Eu te peço

Eu me perdi novamente

Nada mais há que a morte

Sempre a morte

Ela se agita sempre no fundo da minha xícara

Como de costume.

_______________________________

* Denis Emorine est né en 1956 près de Paris.

Il a avec l’anglais une relation affective parce que sa mère enseignait cette langue. Il est d’une lointaine ascendance russe du côté paternel. Ses thèmes de prédilection sont la recherche de l’identité, le thème du double et la fuite du temps. Il est fasciné par l’Europe de l’Est. Poète, essayiste, nouvelliste et dramaturge, Emorine est traduit en une douzaine de langues ; son théâtre a été joué en France, au Canada ( Québec) et en Russie. Plusieurs de ses livres ont été édités aux Etats-Unis. Il collabore régulièrement à la revue de littérature “Les Cahiers du Sens”. Il dirige deux collections de poésie aux Editions du Cygne. En 2004, Emorine a reçu le premier prix de poésie (français) au Concours International Féile Filiochta. L’Académie du Var lui a décerné le «prix de poésie 2009».

On peut lui rendre visite sur son site: http://denis.emorine.free.fr

* Denis Emorine nasceu em 1956, próximo a Paris.

Emorine tem com a língua inglesa uma relação afetiva, porque sua mãe ensinava este idioma. Possui uma distante ascendência russa por parte de pai. Seus temas prediletos são a busca da identidade, o tema do duplo e a fuga do tempo. É fascinado pelo Leste Europeu. Poeta, ensaísta, novelista e dramaturgo, Emorine foi traduzido para uma dúzia de línguas; seu teatro foi apresentado na França, no Canadá (Québec) e na Rússia. Muitos de seus livros foram editados nos Estados Unidos. Denis colabora regularmente com a revista de literatura “Os Cadernos do Sentido”. Dirige duas coleções na Editions du Cygne. Em 2004, Emorine recebeu o primeiro prêmio francês de poesia no concurso internacional Féile Filiochta. A Académie du Var lhe concedeu o “prêmio de poesia 2009”.

Podemos visitá-lo no seu site: http://denis.emorine.free.fr

** Em romeno: “A morte sempre”.

*** Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com

Il Convivio* – Tre poesie selezionate

 

Il Convivio

Anno XII – numero 4 – ottobre/dicembre 2011

 

 

E non sapiamo fino a quando

Pietro Civitareale

 

 Da tempo abbiamo appreso

la lezione del silenzio.

La verità non è dietro una porta,

o nel cassetto d´uno scrittoio,

ma in un filo d´erba,

nel volo di una rondine,

nel corso di un ruscello.

 

Il sapere toglie sempre

qualcosa alla nostra innocenza,

conducendoci per sentieri

ingannevoli e sconosciuti.

E non sappiamo fino a quando

dovremo pagare le pene

inflitte alla nostra presunzione.

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Utopia

Grazia Fassio Surace

 

Nel paese di non so dove

vi è sempre il sole azzurra l´aria

e piume azzurre hanno gli uccelli

cantano alberi in fiore e

le case hanno un giardino

e un tetto color fragola.

 

Nel paese di no so dove

non si conosce dolore

i bimbi hanno occhi ridenti

regalano uomini sorrisi

e animali corrono liberi

in prati luminosi.

 

Nel paese di no so dove

quando giunge l´ultima ora

una nuvola rosa atterra

un angelo al timone

e traghetta allegria

sotto bianche chiome

 

per non so dove cosa:

un altro paradiso?

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Acqua del fiume

Giulio Marino

 

L´acqua che scorre

nel fiume

è simile al canto

dell´usignolo

che si eleva

come inno d´amore

al Creato.

Le onde si frangono,

si abbraciano

si mescolano

fra di loro

con l´intensità

dello spirito umano.

L´acqua del fiume

fa nascere la vita

di ogni uomo

che crede

nell´eternità

dell´animo suo.

O acqua del fiume

mi immergo

paziente in te

per farmi amare

in ogni tempo

della mia vita

da te rinnovellata.

_____________________________

Il Convivio

Ano XII – número 4 – outubro/dezembro 2011

Tradução: Patricia Tenório

Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas**

 

E não sabemos até quando  

Pietro Civitareale

 

Faz tempo que aprendemos   

A lição do silêncio.     

A verdade não está por trás de uma porta

ou na gaveta de uma escrivaninha,

mas numa folha de grama,

no voo de uma andorinha,

no curso de um córrego.

 

O saber tolhe sempre  

alguma coisa da nossa inocência,

conduzindo-nos por caminhos

enganosos e desconhecidos.

E não sabemos até quando

deveremos pagar a pena

imposta pela nossa presunção.

___________________________________

Utopia

Grazia Fassio Surace

 

No país de não sei onde

há sempre o ar azul ensolarado

e plumas azuis têm os pássaros

cantam árvores em flor e

as casas têm um jardim  

e um teto cor de morango.

 

No país de não sei onde

não se conhece a dor

as crianças têm os olhos risonhos       

dão às pessoas sorrisos         

e os animais correm livres     

em prados luminosos.

 

No país de não sei onde

quando chega a última hora

uma nova rosa pousa   

um anjo ao leme    

e a balsa da alegria

sob cabelos brancos  

 

por não saber de uma coisa:

um outro paraíso?

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Água do rio    

Giulio Marino

 

A água que escorre

no rio   

é parecida com o canto

do rouxinol 

que se eleva

como hino de amor

ao Criador.

As ondas quebram,

se abraçam

se misturam

entre elas mesmas

com a intensidade

do espírito humano.

A água do rio    

faz nascer a vida       

de cada homem

que crê 

na eternidade

de sua alma.

Ó água do rio

mergulho

paciente em ti

para fazer-me amar

em cada tempo

de minha vida   

por ti renovada.

 

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* www.ilconvivio.org  angelo.manitta@tin.it

** Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

      Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com

Emoção Repentina | V Concurso Crônica & Literatura: prêmio literário Ferreira Gullar*

 

A memória poética na literatura brasileira

 

O homem do campo é capaz de perceber

a chegada da chuva pelo vento que corre

ao longe. E em uma poética sem igual ele

descreve o plantio da terra. (Ivone de Assis)

25/10/2011

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            Enfrentar o medo por intermédio da escrita é abrir o baú que há dentro de si e vasculhar suas memórias. Nesta obra, os autores permitiram a fruição de seu imaginário, intercalados por suas reminiscências, de modo a compor sua poética, participando da reconstrução de muitos valores, por vezes perdidos, ou simplesmente temidos. Dessa intensidade brotaram-se as escritas ora prosaicas, ora poéticas, que lavraram este livro, com total esmero. Desse baú de intensas produções, é possível que o leitor viaje em um processo de realidade, ao qual é submetido ao passo que desbrava cada página. Emoção Repentina é um ir e vir de sentimentos e encantamentos, capaz de remeter o leitor a diferentes épocas, é como se fosse possível viajar da infância à velhice e vice-versa em um passar de páginas. Em um mundo contemporâneo identificado pelo desejo de apropriação, os literatos desta obra se contentaram em apropriar-se de suas memórias, de suas inventividades, de seu prazer pela escrita e gerar um manancial de arte escrita, capaz de produzir sensações que vão do choro ao riso, sem permitir que se perca o prazer da leitura.

            A amplitude e a variedade de autores e de ideais/temas presentes em Emoção Repentina convocam o leitor como parceiro crítico na reflexão acerca dos medos que sondam a sociedade contemporânea. Esse elo entre ficção e realidade, formando a tessitura dos textos, apresenta à sociedade uma geração comprometida com a cultura, com o zelo da identidade literária, bem como a simplicidade do verdadeiro escritor, aquele que traz a capacidade criadora antes da ambição. Nessa obra antológica, o medo ganhou voz e lugar no fazer literário, produzindo narrativas autorreflexivas.

            Beatriz Sarlo, em sua obra Tempo presente, datada de 2005, anuncia “[…] a autoridade das novas vozes é resultado de um efeito de comunidade ideológica […]”, notificando, talvez, que a escrita contemporânea seja dotada de maior despojamento em sua formulação, uma vez que o intelectual não se deixa resvalar no senso comum, mas esse extremo distanciamento pode criar um abismo entre sua escrita e o reconhecimento da sociedade. Nessa linha de pensamento, podemos dizer que Emoção Repentina buscou um ponto mediano, a fim de que haja equilíbrio entre os extremos, para que não seja tão intelectual que não possa ser compreendida pelo leitor menos avisado, mas também não incorra em banalidade.

            Se, de acordo com Bakhtin, todo discurso é responsivo, corroboramos essa ideia por sabê-la verdadeira, uma vez que o discurso provoca emoções, logo, ele reage na vida do leitor, respondendo por si. O texto escolhe seu próprio caminho, metamorfoseia-se a cada citação, a fim de atender ao contexto sem perder a essência. Nesta obra, não serão raras as vezes em que o leitor irá perceber essa afirmativa no decorrer de sua leitura. São 128 páginas que discorrem sobre a temática Medo, alternada entre o engenho poético e o colóquio.

            São medos de mil facetas, abarcando o medo do escuro, da solidão, do progresso, da perda, do viver, do morrer, do ver, do falar, do ouvir, do simplesmente se calar. É o medo que o camponês carrega por temer não mais ouvir o canto da passarada; o medo que angustia o sertanejo por causa da seca; o medo que maltrata as mães, que temem a perda de seus filhos; é o medo do “não – Você NÃO é capaz –; também o medo do “sim” – SIM, você é o culpado. São medos próprios, que jamais se igualam, ainda que o assunto seja o mesmo. São escritas que poderão auxiliar o leitor em suas ponderações.

            Bachelard, em A poética do espaço, equipara a casa com as lembranças, ao que descreve ser na casa que “[…] um grande número de nossas lembranças estão guardadas […], se tem porão e sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem característicos” (BACHELARD, 1978, p. 24). O medo, por sua vez, entranha-se nessas lembranças, ancorando-se na saudade, sentimento capaz de nos remeter a outros mundos, outras épocas, outros quereres.

Ivone Gomes de Assis

Escritora/Editora

 


Olhei-a

 

Eduardo Berenguer

Recife (PE) – Brasil

 

Olhei-a com olhos de pomba armada para voar e tive medo,

Porque de sua boca, soturna, saíam datas, dias, semanas,

Meses de calendário infindáveis, acres, beijos sangrentos

E extenuados, úmidos como uma lágrima repetitiva e disforme,

Abraços de braços com falanges amputadas, que tocavam

Minhas costas como pontas de velas queimadas,

De corda queimada, ensandecida.

 

E tive medo ao ver seus olhos, duas chamas paralelas, enegrecidas,

Dois sinos paralelos, soando metalicamente, concomitantes;

Olhos que traziam um vazio, um anoitecer feito de espumas, trevas,

Um galopar em quartos fechados e silenciosos, um adeus,

Um som onírico disperso, um acalanto de gineceus e androceus,

E cores ineptas das próprias íris.

 

E dos meus lábios amedrontados ouviu-se um grito,

Que soava como pratos quebrando, como fumaça

Que se espalha em restaurantes, como vozes ouvidas

Em igreja, como dentes vibrando de frio, como pedras

Lançadas ao ar, lacônicas, néscias, como apelos de cão

Com fome, enigmático, acossador.

 

Eu tenho medo

 

Lucilaine de Fátima

Uberlândia (MG) – Brasil

 

Eu tenho medo do escuro,

de noites solitárias com meu próprio vulto,

de carências mal resolvidas,

de apelos inúteis, por afetos do passado.

 

Eu tenho medo de palavras (mal)ditas,

Da falta de tato, no olhar e no sentir,

Da interminável melancolia no pôr-do-sol,

depois de um dia inteiro a brilhar.

 

Eu tenho medo do imprevisto na alma,

Da inconstância do meu ser,

Do meu jeito de buscar novos sonhos,

E quase sempre cair em desalento.

 

Eu tenho medo, porém vivo a quimera de cada amanhecer!

 

O olho de Hipácia

 

Mauro Sérgio Santos

Araguari (MG) – Brasil

 

Se fecho os olhos

olho o mundo

e vejo as coisas que nunca conheci

e reparo

tudo o que não tenho diante de mim.

 

E amedronto-me com a naturalidade extraordinária do cotidiano

inexpugnável!

 

Se fecho os olhos

canto

a grande música da vida

e ouço

as canções que nunca foram compostas,

e as sinfonias que jamais serão desempenhadas.

 

E sinto um medo da ordem daqueles que fogem à ordem

extraordinariamente eventual e contingente dos fatos.

 

De olhos fechados

apavoro-me dolorosamente

com o calor de todos os abraços

com o brilho de todas as estrelas

com a dor de todos os partos

com o medo de todos os fracos

e o perfume de todas as rosas

o amor de todos os homens

e o cansaço de todos os amores.

 

Viver é sempre

fechar os olhos.

 

Quando fecho os olhos

posso

ver o mundo

embora não sem medo.

 

Fechar os olhos

é

  vi

     ver

          o

mundo neste olho enterrado dentro de nós!

Eu sou meu próprio medo, minha venda e resignação!

_________________________________ 

* Antologia Emoção Repentina, Org. Ivone Gomes de Assis, Diversos autores. Poesia e Crônicas. Assis Editora, Uberlândia (MG). Fevereiro/2012.

** Patricia Tenório participa com Eva (vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=2882).

 

23º Sarau Plural | Homero Fonseca

Enviado por Homero Fonseca: homerofonseca2010@gmail.com

Academia Pernambucana de Letras | Fátima Quintas

 

CONVITE

 

Sinta-se especialmente convidado para a palestra do Presidente da Fundação Joaquim Nabuco Dr. Fernando Freire: Os Desafios da Educação no Novo Brasil.

 

Onde: Academia Pernambucana de Letras

Quando: 26.03.2012 às 16h00

 

Atenciosamente,

Fátima Quintas

Presidente da Academia Pernambucana de Letras

FESTLATINO – PARIS | Humberto França

Chers collègues, chers amis,

Veuillez trouver en annexe le programme du séminaire préparatoire au
6ème FESTLATINO (Festival international de cultures, langues et
littératures néo-latines), qui se tiendra le jeudi 29 mars 2012 à la
Résidence André de Gouveia (Cité Internationale Universitaire de
Paris), et qui portera sur la thématique suivante: «Langues et cultures latines : des risques de l’incompréhension au défi de l’intercompréhension».

Le Festlatino est une manifestation qui a lieu annuellement à Recife
(Brésil) et dont le but principal est de contribuer au renforcement
des liens et des échanges entre les cultures latines, de part et
d’autre de l’Atlantique. Chaque édition du festival est précédée d’une
série de séminaires préparatoires, dans différents pays : l’Argentine,
l’Uruguay, les Etats-Unis, le Mozambique, le Portugal, l’Espagne, la Roumanie, la Chine.

J’espère pouvoir compter sur votre présence et vous remercie d’avance
de votre contribution à la diffusion de ce message.

Bien cordialement,

Saulo Neiva

FESTLATINO programme

Envoyé par Humberto França: humberto.franca-festlatino@hotmail.com