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A prova* – Patricia Tenório

 

            Eu queria dizer que em cada amor existe ódio e em cada ódio, um pouco de amor.

            Vou logo lhe avisando: essa história não é das melhores. Se tiver coração mole ou preconceitos racionais, procure outro passatempo, veio ao lugar errado. Mas se for dos meus, daqueles que persistem sem nunca perder a esperança…

            Então vamos lá, você que insiste. Meu nome é Charles, os mais amigos – se bem que não os possuo em quantidade – me chamam de Charlie. E eu posso lhe considerar um amigo: não chegou até aqui?

            Para variar se trata de uma mulher. Não se ofenda, cara amiga; verá que não sou de todo mal. E os homens que estão quase me deixando de lado, façam um esforço, valerá a pena.

            Ela se chama Lívia. E não é uma mulher qualquer. Tivemos um relacionamento tempestuoso, daqueles que não têm hora, lugar ou problema para se encontrar, e sempre era muito bom. Não me leve a mal, se veio ler cenas quentes e de volúpia, ligue a TV, alugue um filme: não é de meu feitio.

            Mas onde estava mesmo?  Ah, Lívia. Acho que sempre pensou  que  eu  a   amava. Ligava para mim, lá estava eu, mandava o motorista me apanhar, qualquer situação, trabalhando ou não – se bem que ultimamente ando meio desocupado. Mas nesse dia foi diferente.

            Fumando meu charuto cubano – gosto de umas regalias – à beira da piscina de um hotel que não vem ao caso nome e lugar. Bem, estava eu, tranqüilo, fumando meu charuto e uma taça do melhor Cabernet Sauvignon, safra 1996, chileno. Era uma festa de três, meu caro. E eu comandando.

            Quando num repente… Não, foi suave, leve, tal ela sempre é, saindo de um mergulho, subindo as escadarias da piscina, a água se despindo de seu corpo, um metro e oitenta, pernas longas e delineadas por muita musculação, a cintura a que tanto me enrosquei, e os seios, ah, os seios…

            É melhor parar por aqui: prometi que não iria contar cenas picantes. E não vou, sou um homem de palavra. Permita voltar à minha história que é o melhor que faço.

            Lívia pareceu não me ver, enrolou-se no roupão, branco e felpudo, caminhava folgada, os quadris em uma louca dança – boa dançarina que é. Notei que falou alguma coisa ao garçon. Fiquei perdido em meus pensamentos quando a vi entrar no hall largo do hotel.

            Se deveria segui-la, fazia tanto tempo. A última vez que a vi usava um vestido vermelho e decotado nas costas, o colo liso e estonteante quase saltava para mim naqueles dois seres imaginários… Calma, Charlie, olha a empolgação. Os cabelos soltos – os cabelos dela são de um tom que não sei descrever, meio ocre, meio mel, sempre perfumados, um doce e inebriante perfume.

            Mas os olhos… Cor daquela piscina que em visão me apareceu, uma visão rápida e derradeira, talvez não devesse receber o bilhete do garçom, talvez não o lesse e inquietasse a alma com o convite para subir à cobertura do hotel luxuoso.

            E quando apertei a campainha, percebi minha perdição. Estava repetindo o que me havia prometido jamais repetir, e por um instante, um ínfimo instante decidi que daria as costas e conseguiria chegar ao elevador antes que aqueles demorados segundos passassem e ela, ainda de biquíni, abrisse a porta e me convidasse para entrar.

            Tudo acabou: promessas, dizeres e maldizeres. As palavras não contam numa hora dessas. O gosto de seus lábios me fazia retirar o blazer bege de linho e desabotoava a gola da camisa quando a maldita campainha tocou. Novamente.

            Mas não era eu. Um rapaz – muito mais novo é verdade – alto, moreno, bem apessoado, tenho de confessar, entrou com ares de dono do apartamento, Lívia nos apresentou.

– Este é meu namorado, Joel.

            Não preciso dizer mais nada, caro amigo. Seria um grande e tolo desperdício de palavras. Mas lhe peço, humildemente: não se vá. Espere mais um minutinho, não vai se arrepender.

            A mesa estava bem posta na varanda, Lívia nos deixou conversando – agora, imagine sobre o que conversaríamos. Mas sou um cavalheiro, nunca, jamais me verá fazendo confusão, não faz parte de meu vocabulário.

            Conversamos sobre tudo e parecia que não havíamos dito nada um ao outro, acendi mais um charuto.  A vontade era de lhe dar algumas baforadas, mas mantive a classe em cada um dos longos minutos que Lívia tomou seu vaporoso banho, a porta do banheiro um pouco entreaberta.

            Foi então que tive a mesma visão, o vestido vermelho – deveria estar me provocando – sentou-se com o leve sorriso desenhado entre os alvos dentes na cadeira vazia entre mim e Joel.

            As trivialidades desfilando, tal intermináveis desfiles que de Lívia assisti. As garrafas de champanhe Veuve Clicquot indo e vindo, caviar Beluga e fois gras entrecortando nossas risadas. Sim, meu caro, porque eu estava me divertindo.

            Se tem uma coisa que nunca perco é o bom-humor. E naquela hora, não me era esforço algum usá-lo e da melhor maneira. A refeição foi deliciosa.

            Nos licores, entre Frangélicos e Amarulas o nosso amigo se despediu. Disse-me que foi um enorme prazer, mas precisava fazer uma sessão de fotos na piscina,  a  equipe  de jornalistas o esperava.

            Bem que achei o rosto familiar: deve ter sido em alguma sessão de filme pornô de segunda categoria. Mas eu não assisto a filmes pornográficos.

            Lívia, adivinhando os pensamentos, retirou as minhas dúvidas; fazia filmes de ação, o tal Joel.

– É uma boa pessoa, me faz companhia.

            Mas eu também fazia companhia e por que me deixou?

– Charlie, você deve estar se perguntando por que está aqui.

            Ela estava adivinhando mesmo todos os meus pensamentos.

– Faz muito tempo que desejava falar com você, e não havia a coragem.

            Este nunca foi o seu forte, meu bem.

– O tempo está se acabando.

            Não gostei dessa última frase. Mas às vezes o diálogo nos foge do controle.

– Estou com um tumor cerebral. E não tem jeito, Charlie, tentei de tudo, o melhor que a medicina pode oferecer.

            É nessas horas, meu amigo, que tudo pára. O segundo elastece, os minutos congelam, e a paisagem vira uma grande e insolúvel fotografia.

            Não sabia o que sentir. Se há alguns minutos queria estrangular aquela mulher, agora desejava levá-la ao colo, à cama e fazer como sempre o mais suave dos amores. Entendia tudo, o porquê da minha presença naquela cobertura à la Luiz XV com vista para toda a praia de Copacabana.

– O que vou lhe pedir só pode ser feito por você, meu querido.

            Não me chame de meu querido…

– Joel não sabe de nada.

            E porque não disse para o seu namoradinho?

– Ele não me ama como você.

            Estará sendo cínica? Por que esses olhos de lágrimas?

– Quero que me prometa algo.

            Promessas, promessas.

– Quando estiver no hospital – o que provavelmente acontecerá em breve – peço que dê um jeito de desligar os aparelhos. Não quero viver em cima de uma cama, quem sabe lúcida e sem poder falar, andar, ser quem eu sou.

E aqui estou eu, meu amigo. Na UTI mais cara que vi em toda a minha vida, em frente à mulher que amo, os olhos parados, brilhantes, como se soubessem porque estou aqui.

            Tudo ficou claro. Eu sabia o que fazer. Em passos leves me aproximei da cama, dei-lhe um doce beijo na testa ressecada, mas ainda bela – vi uma pequena lágrima escorrendo por sua face pálida.

            Olhei para a parafernália de botões da máquina que a mantinha viva. Fiz o que meu coração mandava, dei alguns passos e saí sem olhar para trás.

            Eu queria dizer que em cada amor existe ódio e em cada ódio, um pouco de amor.

            Foi um prazer conhecê-lo, meu caro. 

**

*** 

______________________________ 

* Texto extraído de Grãos, 2007, Editora Calibán.

** Vista da piscina do Hotel Copacabana Palace – Rio de Janeiro.

*** O sonho é o único direito, Patricia Tenório.

Uma nova carta de Newma Cynthia*

 

Querida Patricia,

Reapareço, enfim, depois de ler e reler “A MULHER PELA METADE”.

Em busca do novo, confesso que demorei a entender o sentido da percepção da artista com uso de sensações como instrumento da escrita, de forma positivista até o alcance do consciente.

Esperei por cenas, cenários e diálogos mais definidos, e os encontrei dando acepção as passagens de tempos e personagens cheios de conflitos, inseridos num mundo real coberto por catarses, miséria, violência e amor.   

Séphora, a pseudo-heroína trágica passa da felicidade para a infelicidade em função das próprias desmedidas, os mundos apresentados pela avó, Augusto e Sahra confundem-se a um só mundo, cabendo ao leitor desvendar a história.

Antagônico do inicio ao fim, sagrado e profano, Deus no centro do universo, fé e esperança silenciados pelo inusitado e a dor.

O livro escrito em sustenido se torna bemol quando finalmente “As guerras não existem mais. Não existem mais armas, brotam flores nos tanques, usinas nucleares extintas, servindo de museu para que nunca esqueçamos, pois é preciso lembrar que a ferida existe, mesmo depois de curada, mesmo depois de quase transparente, mas continua ferida, contínua, contínua, contínua.”

Patricia nos presenteia com livro incomum de belíssimas fotografias, poesias e música. Parabéns por transformar a experiência em Paris em algo tão instigante e inovador.

Impossível mudarmos o passado, mas o presente cabe a nós mesmos alterá-lo para que o futuro, ah, o futuro, sejam as flores que sonhamos.

Abraços afetuosos,

* Newma Cynthia é escritora. Contato: newminha@hotmail.com

IV Encontro de Literarura Infanto-Juvenil da UNICAP

 

ELITA FERREIRA E A MAGIA DA TRANSFORMAÇÃO

                                 

 PERÍODO: 07 a 11 de novembro de 2011

 

COORDENAÇÃO: Prof. Robson Teles

 

PROGRAMAÇÃO

Dia 07/11

19h a 21h30min

Auditório Inácio de Azevedo – Bloco B, 1º andar

Abertura:

  • Universidade Católica de Pernambuco: espaço de transformação – Pe. Pedro Rubens – Reitor / Degislando Nóbrega – Diretor do CTCH (5’)
  • Saudação a Elita Ferreira – Haidée Fonseca – Coordenadora do Curso de Letras da UNICAP (10’)
  • Elita Ferreira e as Edições Bagaço: a magia da transformação – Inez Koury – Representante das Edições Bagaço (20’)
  • Passos pela obra de Elita Ferreira – Rosana Teles – Professora do IFPE. (30’)
  • Apresentação da peça de teatro A Casa das Ideias – Texto de Robson Teles, a partir da obra de Pedro Veludo. Direção: Edhnaldo Reys (60’)
  • Encerramento: Prof. Robson Teles

 

Coordenação: Profª Elizabeth Siqueira

  

Dia 08/11

19h a 21h30min

Auditório Inácio de Azevedo – Bloco B, 1º andar

  • Leitura de trechos de livros para a infância e a juventude, por alunos da UNICAP. (5’)
  • A ilustração para criança e adolescente – Emerson Pontes – Artista Plástico e Ilustrador (20’)
  • Elita: uma menina sabida! – Tereza Halliday – Artesã de texto (20’)
  • Comunicações dos inscritos – 7 x 15’

  

Coordenação: Profº Álvaro Negromonte

  

Dia 08/11

19h30min a 21h30min

Bloco B, 4º andar

  

Oficina 1: Confecção e utilização de máscaras teatrais no universo infanto-juvenil – Renata Lima – Pós-graduanda em Literatura Infanto-Juvenil/Atriz – Sala 405

 Oficina 2: Confecção de bonecos – Pedro Cardoso – Graduado em Artes Cênicas/Ator – Sala 408

 Oficina 3: Ilustração para textos infanto-juvenis: o que é, como se faz? – Cayo Ogam – Ilustrador – Sala 402

 Oficina 4: No Reino da Imaginação: linguagem e ludicidade na dramaturgia para a infância – Adriano Marcena – Dramaturgo/Diretor Teatral – Sala 407

 

Dia 09/11

19h a 21h30min

Auditório Inácio de Azevedo – Bloco B, 1º andar

  

  • Leitura de trechos de livros para a infância e a juventude, por alunos da UNICAP. (5’)
  • Produção cinematográfica para o universo infanto-juvenil – Alexandre Figueirôa – Coordenador do Curso de Jornalismo da UNICAP (20’)
  • Aspectos filosóficos na obra de Elita Ferreira – Marta Perrusi – Profª de Filosofia da UNICAP. (20’)
  • Comunicações dos inscritos – 7 x 15’

Coordenação: Profº Fanuel Paes Barreto

 

Dia 09/11

19h30min a 21h30min

Bloco B, 4º andar

 

Oficina 1: Confecção e utilização de máscaras teatrais no universo infanto-juvenil – Renata Lima – Pós-graduanda em Literatura Infanto-Juvenil/Atriz – Sala 405

 Oficina 2: Confecção de bonecos – Pedro Cardoso – Artista Plástico/Graduando em Artes Cênicas/Ator – Sala 408

 Oficina 3: Ilustração para textos infanto-juvenis: o que é, como se faz? – Cayo Ogam – Ilustrador – Sala 402

 Oficina 4: No Reino da Imaginação: linguagem e ludicidade na dramaturgia para a infância – Adriano Marcena – Dramaturgo/Diretor Teatral – Sala 407

Dia 10/11

19h a 21h30min

Auditório Inácio de Azevedo – Bloco B, 1° andar

  

  • Leitura de trechos de livros para a infância e a juventude, por alunos da UNICAP. (5’)
  • Leitura/comentário da obra de Elita Ferreira – Liliane Jamir – Profª de Literatura Infanto-Juvenil da FAFIRE (20’)
  • Aspectos psicanalíticos na obra de Elita Ferreira – Ana Lúcia Francisco – Profª de Psicologia da UNICAP. (20’)
  • As Dimensões do Teatro Infanto-juvenil – Isabel Concessa Arrais – Profª do Deptº de Teoria da Arte da UFPE (20’)
  • Apresentação da peça Ser o não-ser (Teatro de Sombras) – Texto e direção: Pedro Cardoso (40’)
  • Debate sobre a produção da literatura infanto-juvenil no Brasil – Debatedores: Liliane Jamir, Concessa, Ana Lúcia, Inez Koury. Mediadora: Haidée Fonseca

 

Coordenação: Profª. Regina Pimentel

Dia 10/11

19h30min a 21h30min

Bloco B, 4º andar

 Oficina 1: Confecção e utilização de máscaras teatrais no universo infanto-juvenil – Renata Lima – Pós-graduanda em Literatura Infanto-Juvenil/Atriz – Sala 405

 Oficina 2: Confecção de bonecos – Pedro Cardoso – Artista Plástico/Graduando em Artes Cênicas/Ator – Sala 408

 Oficina 3: Ilustração para textos infanto-juvenis: o que é, como se faz? – Cayo Ogam – Ilustrador – Sala 402

 Oficina 4: No Reino da Imaginação: linguagem e ludicidade na dramaturgia para a infância – Adriano Marcena – Dramaturgo/Diretor Teatral – Sala 407

Dia 11/11

19h a 21h30min

Aquário

Lançamento de livros

 

  • Cheiro de Mãe, de Nazaré Fonseca
  • Livros inéditos de Elita Ferreira
  • Eita Menina Sabida! – Tereza Halliday
  • Uma casa de ideias – Robson Teles

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Enviado por Suzana Cortez: sucortez@terra.com.br

Convite: André Seffrin

 

Enviado por André Seffrin: andreseffrin@uol.com.br

O Tempo* – Patricia Tenório

 

A grande verdade descortina em azul

E a cor dos teus olhos esvaece

No horizonte perdido dos meus dias

Sozinhos.

Na áurea da juventude esquecida

Nos poucos rubros que escondo

No rosto exposto que vejo

Na flor que murcha e se esquece.

E tudo o que fui me aparece

A tela pintada se agita

Vendo a distância construída

Na efêmera fumaça perdida.

 

 

**

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* Texto extraído de Grãos, 2007, Editora Calibán.

** Jardins du Château Saint-Germain-en-Laye, Île de France, France. Photos avec Isabelle Macor-Filarska.

sobre a lápide: o musgo – Helder Herik*

 

APRESENTAÇÃO

 

            Neste terceiro livro, houve a fusão dos dois anteriores. ‘Lápide’ lembrando Amorte e ‘Musgo’ lembrando As Plantas Crescem Latindo. Sob um e outro, as várias dicções. As minhas falas de poesia. Daí dizer que não procuro uma linguagem própria. Procuro a poesia. Acontece como se fosse uma caçada. A caça não virá até nós pelo simples desejo de que venha. É preciso pegá-la. Podemos pegar com a mão, mas ela escorrega. Podemos pegar com uma rede, mas ela é pequena e escapa. Vem o desespero de dar logo um tiro, mas ela é rápida, foge. Acredito que com a poesia é a mesma coisa. Por que haveria de ter eu apenas uma linguagem? Por que caçaria apenas com a mão, a rede ou o tiro? Caçar também se caça com assobio, estalar de dedos, piscar de olhos…

            No poema Infância de Plástico, rememoro os bichos e o quintal de minha infância. O poema todo se passa lá, entre os muros, o tanque e o pé de jambo. O nome ‘Infância de Plástico’ vem dos brinquedos que naquele tempo eram feitos desse material. Uma geração antes da minha tinha brinquedos de madeira. Coisas de Casa é um poema de coração largo. Uma brincadeira de ver as coisas pelo avesso, como se as coisas fossem gente: andassem, nadassem, corressem. É coisa humanamente. O Corpo Que Fica é uma releitura de “O Túnel” de Akira Kurosawa, onde o vencedor é quem realmente está vencido. Sobre a Lápide: o Musgo aborda uma humanidade torpe e, em conseqüência, o mundo que vem supurando. “Mundo que nenhum véu encobre.”

            Livro humano, igual a quem o ler.

            Boa leitura

                                                                         Helder Herik

_________________________

SE DEIXAR O TEMPO CURVA**

 

a planta se contorcia no inverno

igual um monginho rezando

o sereno o vento

– a chuva o chuvamento todo do céu

– a chuva forte caindo

o certo que era dizer saindo da boca de gente grande

pra baixo pro chão

o pendão da flor caído

o caule curvo

o monginho

do jeito de ser a forma menos o tamanho tamanhico

o tanque esborrotava:

água descendo em ondas

– descendo em cachos espiralados bagos d´água

– tanque cheio esborrotando

o dizer de novo de gente grande

depois eram os pinlinguzinhos

o aerossol bonzinho juntando no cabelo pintado de

branco

a velhice nossa de pequeno

o tanque esborratava igual

vulcão e lava sem quentura e vermelhura

no caminho o esborrotamento encontrava

o lodo manso pastando

_________________________

* Helder Herik, Garanhuns – PE. Ensina filosofia e literatura. Publicou os livros: amorte (2008) e as plantas crescem latindo (u-carbureto, 2009). Integrou as antologias: tudo aqui fora escrito tudo fora escrito ali (paés, 2009), quase inéditos e dispersos: uma coletânea da poesia em Pernambuco no século 21 (2010) e a coletânea Antônio maria de crônicas (2010). Contatos: blogdohelderherik.blogspot.com e helderherik@hotmail.com

** Extraído de “INFÂNCIA DE PLÁSTICO” do livro sobre a lápide: o musgo

Helder Herik, 2010, Editora u-Carbureto.

QUINTA POÉTICA – ESPECIAL BAHIA – 42ª EDIÇÃO (27 DE OUTUBRO DE 2011)

 

Enviado por José Neres: outrossilencios@gmail.com

Terror* – Patricia Tenório

 

Costuro tua boca

E não deixo passar palavras vãs

Insisto  na clarividência de

Te prender, possuindo alma

Encarcerando corpo

Amarro tuas mãos sangradas

Em uma viga de mármore

Retiro cada um dos teus cabelos

Lento, calmo, frio

Me lanço contra teu corpo rijo

Em facas corto tua carne

Dilacero

Restam poucos espaços

Onde me misturo

Ossos, carnes, sangue

E agora somos corpo uno.

 

**

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* Texto extraído de Grãos, 2007, Editora Calibán.

** Jean-Paul Riopelle,  Sans titre (Composition #2) 1951 Courtesy of Heffel Fine Art Auction House. Fonte: www.canadianart.ca

Porque a noite suave não trará em seus olhos a cor descontente de nossos pulmões* – Uirá dos Reis**

 

Porque a noite suave não trará

em seus olhos a cor descontente de

nossos pulmões e nem a dor profunda,

física, que temos aqui nesse engodo que

chamamos peito se destruirá.

 

Partir, partir para longe,

remar o destino anguloso e deixar

as cores aqui

Os elevadores estão no enguiço e nos-

sas paixões delicadas revelam-se bem

mais delinquentes agora que estamos no

chão, que pisamos a areia morna, que

 sentimos as cavidades enervadas da Ter-

ra: O leite, o sulco, o fetiche e nós três.

A lua, a porta, a cidade e eu, que luto

contra a força animal do vento, contra a

brutalidade dos homens, que remo con-

tra as ondas até o final, até depois do

horizonte, eu que pensei sobre a cidade e

tive medo de dormir.

 

(Nossas iluminações,

elas deterão a coisa toda)

 

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* Extraído de An, Editora Corsário, 2009.

** Uirá dos Reis é escritor carioca com morada em Fortaleza. Contato: srhiena@hotmail.com     

Domingos sem Deus, Luiz Rufatto

 

Amigo, amiga,

Nas livrarias Domingos sem Deus, quinto e último volume do Inferno Provisório, um projeto, editado pela Record, que me consumiu exatos 15 anos, desde quando escrevi o primeiro livro em 1996 (Histórias de remorsos e rancores, publicado em 1998, que se tornou depois O mundo inimigo).

Grande abraço deste

Luiz Ruffato: luizruffato@uol.com.br