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O Banho* – Patricia Tenório

 

            Lara rodou a chave lentamente na ferrugem da porta. O ranger quebrava o silêncio do apartamento alugado, chão de madeira velha, quarto cozinha banheiro sala se misturando nas cores do fim de tarde.  Encostou o cavalete na pia, guardava a aqualera no armário empoeirado.

            Esquentou um guisado de outro dia, os vapores acordando fome, poros se atiçavam. Gotas pequenas, salgadas. Ainda havia um pouco de cabernet. Completou o último gole, juntando com as garrafas verdes, azuis, amarelas no canto da lixeira. O perfume inebriando, trazia a noite, a noite que o via, ouvia o cantar do violino, fino, denso. Tocava as cordas brincando, o menino. O menino homem. O menino vivo.

            Deixou o vestido amarelo, longo, o avental cair em tubo, rápido, convincente. Trazia mostra do desenho, o quadro original não lhe saindo do espírito. Embebendo pincel na creolina, retirava a pasta grossa e concisa de cada pincelada, cada canto escondido, que descobrira, fizera luz, criatura nascente das mãos delicadas.

            Estava úmida a pintura. Poderia mudar os contornos, fazer outras formas, desrespeitar o artista. No realismo cruel, sanguinolento, tirando-lhe a chance da novidade, haveria inspiração? E buscava, buscava o minuto, os dedos correndo o pescoço, espuma lavando um dorso, a nuca, um ventre. A odalisca descendo véu, outra virgem lavando-lhe as costas, os óleos escorreram até o sexo, quente o sexo, flamejava em pedidos dúbios, trazendo a origem do mundo para mais perto, microscópicamente mais perto, nos óvulos e espermas perdidos, nas carnes trêmulas de anseios negados.

            As moças do harém levam os sagrados mantos, a cerimônia de núpcias inicia. O linho branco a enxugar-lhe pele, cabelos arrumados em colar de tranças, douradas tranças de fim de tarde. Morde uma cereja, a noiva morde. Deixa o mel entrar-lhe âmago, destempera a silhueta pura, preparada ao senhor das armas.

            A espada cortando o tecido desvanece sobre os lençóis de cetim róseo, roçando cadente a cada investida. Um líquido trilha as pernas de Lara enquanto encosta a cabeça na banheira de louça branca.

 

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* Texto extraído de Grãos, 2007, Editora Calibán.

** Tepidarium – O banho das odaliscas, de Theodore Chasériau.

A Ave da Madrugada* – Caetano Ximenes de Aragão**

 

a ave da madrugada

sustentou em canto claro

as rotas da travessia

deitou raízes se fez

profundidade do dia

 

corpo ferido sangrando

mais seu canto se fazia

e quando a alva da alva

já no céu comparecia

 

canto molhado de sangue

que da garganta escorria

quanto mais funda a ferida

mais seu canto se ouviria

 

a ave da madrugada

canta de noite e de dia

é sua maldição cantar

cantares de rebeldia

e aquele que ouvir seu canto

nunca mais se concilia

será sempre um encantado

da ave da madrugada

 

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* Extraído de Romanceiro de Bárbara, 2011

** Caetano Ximenes de Aragão nasceu em 24 de fevereiro de 1927, em Alcântaras, Ceará. Filho de Roberto e Edite Ximenes de Aragão, concluiu o curso Primário em Sobral. Na década de 40, seu pai o matriculou no Colégio Castelo Branco, em Fortaleza. Após a conclusão do Ginasial, e por não haver escola médica no Ceará, dirigiu-se a Salvador, Bahia, onde concluiu o Científico, ingressando – o mais jovem entre os colegas – na Faculdade de Medicina da Universidade Federal. Graduado em 1952, foi orador de sua turma. Clínico, regressou a Alcântaras onde passou a consultar, gratuitamente, durante um mês, para os pobres do município, logo depois exercendo o ofício em Tianguá. Médico de natureza extremamente humanista e coletiva, exerceu sua admirável carreira em Fortaleza no Hospital Geral (HGF) e Instituto José Frota. Talvez como compensação às dores que presenciou, confeccionou os versos que, em 1975, enfeixaram O Pastoreio da Nuvem e da Morte, seu primeiro livro, prefaciado pelo amigo Francisco Carvalho. Dividido entre a Medicina e a Literatura, participou, em 1979, da Revista Siriará, com o poema “Do Gênese”. Em 1980, viria o épico livro-poema Romanceiro de Bárbara, em que ainda mais amplamente apareciam os anseios de transformação social do Poeta, simpatizante confesso do Socialismo. Seguem-se Sangue de Palavra (1981), Canto Intemporal (1982) e Caetanias (1985). Foi, então, acometido de grave enfermidade que, em apenas dois meses, em 14 de julho de 1995, o fez desviver. Deixou inéditos o humorado Ilha dos Cornos e Canto pela Paz, ambas publicações póstumas de 1996 e 2004, respectivamente.

Convite: “Animal do Abismo e outras vozes do inverno – Vol. 1”, César Leal

Contato: cleal@nlink.com.br

Convite: Erendira – Nova temporada no Teatro Joaquim Cardozo

 

COMEÇANDO UMA NOVA TEMPORADA 01 DE OUTUBRO

Erendira.

 

Uma neta e sua avó numa saga a ser contada de geração a geração. Erendira é uma livre adaptação do conto de Gabriel García Marquez – “A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada.”, onde três anjos acompanham essa história de troca de valores morais e conceitos deturpados num universo lúdico envolvente.
“…E essa história é contada sem nenhum recurso piegas no espetáculo Erendira…O deslocamento dos atores em cena é bem interessante, além da pesquisa musical feita por Maurício Spinelli, com músicas da banda Semente de Vulcão. A proposta de fazer uma montagem com personagens-narradores também se mostra instigante”. Diário de Pernambuco, 22 de outubro de 2010.

 

NO TEATRO JOAQUIM CARDOZO

RUA BENFICA 157 MADALENA (EM FRENTE A FACULDADE FAMA)

SÁBADOS E DOMINGOS

A PARTIR DE 01 DE OUTUBRO

20H

INGRESSO R$10 (PREÇO ÚNICO)
INFORMAÇÕES: 81 8839 4008
(COM ESTACIONAMENTO)

Ficha Técnica

Livre adaptação do conto de Gabriel García Marquez, “A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada”.

Texto e Direção: Jorge Féo

Elenco: Isis Agra

Jay Melo

Elilson Duarte

Romero Brito

Pedro Queiroga

Músicas da Banda Semente de Vulcão
Pesquisa Musical: Maurício Spinelli

Iluminação e Execução de Luz: Cleison Ramos

Cenário e Figurino: Jorge Féo

Maquiagem: Juan Guimarães

Narração: Gustavo Arruda e Marcela Mariz

Sonoplastia: Nilton Leal

Tema Erendira Voz: Hermínia Mendes

Tema Erendira Violão: Romero Brito
Design Gráfico: Mazinho Constantino

Fotos: Nilton Leal

Produção: Jorge Féo

Apoio: Espaço Muda

Realização: Anjos de Teatro