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Quatro pequenos contos* – Patricia Tenório

\ XII /

   

            Dez para as doze ou doze e dez? Rezo com o sol a pino ou espero o entardecer?

            Do outro lado, sob o quadro O Lobo e a Ovelha, de Vicente do Rego Monteiro, encontra-se ele, unhas grandes, a barba extensa, lobo que atravessará a mesa do café para me engolir? Bem que minha mãe falou às escondidas para eu não falar às claras com estranhos, porque quando falo mostro o branco dos dentes, lábios tremem, os olhos piscam.

            Não quero acordar daqui a mil anos numa praia deserta, o corpo enrugado de ondas e grãos de areia. Pudera esquecer que um dia ele se disse inteiro e eu percebi, lá no fim do túnel, um diamante bruto, usei das frases e coragem para ir limando, limando. Às vezes ele me escrevia versos, oferecia flores, apontava estrelas – me prometia algumas, iria buscar com Adão e Eva, ou nos braços da Deusa-Mãe de todos os homens.

            Quem dera eu ainda acreditasse em contos de Natal, ele desenhasse meu rosto com a ponta dos dedos e me fizesse mulher numa tarde de sábado; viria a noite, a madrugada, detentora das angústias, pesadelos, ele não estaria lá, sob o quadro O Lobo e a Ovelha, de Vicente do Rego Monteiro, do outro lado da mesa do café, unhas grandes, a barba extensa, lançando em meus olhos raios e trovões, jogando por sobre a rede de sentimentos uma história construída a quatro mãos, seis estrelas, dez para as doze ou doze e dez.

 

Déjà-vu

 

            Parece mentira o que vou lhe contar. Uma verdade captada por uma pessoa distraída feito eu?

            Dizem que a amiga de uma amiga minha – será Rita o nome dela? – conheceu em Paris Vicente do Rego Monteiro. E tem mais: casaram-se às escondidas, apenas ele, ela e o padre de testemunhas na Eglise St-Julien-le-Pouvre, uma das mais antigas da cidade. É bem pequena, feita de madeira no estilo barroco, quase vejo anjos querubins abençoando os noivos, sonhadores, com uma vida toda pela frente para que ele a tatuasse inteira, uma flor de lis no pulso e…

            Tatuasse? Pelo que ouvi falar, Vicente foi pintor, poeta, escultor, tipógrafo, editor, mas tatuador? Não sei se um riscava no outro provas de amor eterno, como se amar provasse alguma coisa. Amar não se prova, se sente. E o amor não é sentimento, é uma atitude. E atitudes não se dizem, se fazem. E por que estou escrevendo tudo isso para alguém que não conheço, que talvez nem saiba dessa história de Maria Rita e Vicente, que tatuava a esposa em Paris, e de repente morreu um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos.

            Será que era isso mesmo o que eu queria dizer?

 

Musselina

 

            Escrevo no escuro palavras germinais. Elas preenchem a folha em branco, fluindo de um lado ao outro até desembocar na cachoeira do mais profundo eu.

            Escolho versos soltos, eles pintam céus, Adoração dos Magos, ave-marias, e a Santa Mãe me acolhe nos braços virgens, não me sinto só.

            A cada letra desenhada entendo um pouco mais, pois preciso encontrar sentido para continuar caminho. Depois do sentido, aceitação, depois a morte, e um outro alvorecer.

               Deslizo da tela para o caderno na esperança de me fazer são, lúcido, prestes a descobrir um novo signo envolto na musselina rubro-azul do manto de Maria.

            Naquela estrada, uma montanha, verei A Assunção da Virgem do texto à última pincelada, onde encontrará o Filho amado, Reino dos Céus, e uma coroa de espinhos de quem escreve no escuro palavras germinais.

 

Óculos

Para Thomaz Lôbo

 

            Ele acendeu o Jardin du Luxembourg na memória.

            Às vezes lembrava o que não havia acontecido com uma certeza que transparecia cores, aromas, frioquente.

            Um canteiro de papoulas róseas deitadas sobre a grama fresca. Ali cavava o solo escuro até encontrar uma fresta para o outro lado do mundo.

            Quando queria o ocre buscava no deserto do Saara, piscava areia, piscava oásis, e a cor de telha explodia no olho. Ficou parado por um tempo de recomeço, e saiu do lugar porque um vaga-lume enverdeceu a mão esquerda, aquela que tomou a tela e pincel para manifestar o arco-íris.

            Não havia prece ao partir o pão, e os trabalhadores esfomeados surgiam de todos os cantos, trazendo os músculos salientes, a força emanava dos pulmões arquejantes, em arco poliam os céus com flechas de fogo e por centelhas de instantes procuravam a paz no coração dos homens de boa vontade.

 

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* Textos extraídos e participantes do livro Quatro faces de um encontro – Vicente do Rego Monteiro, 2008, Editora Calibán.

** Rita, A Assunção da Virgem e Mesa com vaso de orquídea – Telas de Vicente do Rego Monteiro.

Convite – “As joaninhas não mentem” – 15/09/11 – Sesc Caruaru

Uma verdadeira viagem de imagens e sons dos sonhos e desejos. As joaninhas não mentem é uma história de amor diferente. Ariana – talvez futura Rainha do Amor Perfeito – nos leva a um mundo surreal numa estrada em direção à Torre do Castelo do Rei do Amor Perfeito. Longos serão os caminhos, tortuosos serão os caminhos, perigosos serão os caminhos. As joaninhas não mentem, lançado em 2006 pela escritora Patricia Tenório, tornou-se um texto teatral em 2010 pelas mãos da própria autora num desejo de vê-lo no palco.

Espetáculo As joaninhas não mentem

Única apresentação: Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011.

Teatro Rui Limeira Rosal, Sesc Caruaru, às 20h30.

Av. Rui Limeira Rosal, s/n, Petrópolis – Caruaru

R$15 (inteira) R$ 7 (meia)

Gênero: Lúdico Adulto.

(Última apresentação de Maria Luísa Sá)

 
Direção: Jorge Féo
Texto: Patricia Tenório
Elenco: Ísis Agra, Thiago França, Maria Luísa Sá, Jay Melo, Elilson Duarte e Romero Brito.
Cenário e Figurino: Jorge Féo

Execução de Cenário e Figurino: Sara Paixão
Maquiagem: Renata de Fátima
Pesquisa Musical e Execução de Sonoplastia: Nilton Leal
Criação e Execução de Iluminação: Cleison Ramos 
Fotos: Nilton Leal
Ilustração e Designer Gráfico: Hugo de Pádua

Arte Final: Mazinho Constantino
Criação e Edição de Vídeo: Lucas Cavalcanti e Thiago França
Produção: Patricia Tenório e Jorge Féo

Apoio: Espaço Muda

Vídeo sobre o processo do espetáculo:

httpv://www.youtube.com/watch?v=NIAZzP4XzDg

Camicase* – O Poeta de Meia-Tigela**

Se luto contra tudo contra todos

é que estou em combate também contra

mim. Se trago a ofensa já na ponta

da língua é que conheço os desaforos

 

tantas vezes cravados em meu corpo.

Se tenho engatilhada a arma que aponta

tonta para inimigos cuja conta

perdi é que também caio em desgosto

 

comigo. Se desdenho do ser ou

não-ser das coisas tanto se dá por-

que não concebo meu próprio sentido.

 

Se do mundo aparento gostar pou-

co jamais requestando seu favor

é que não finjo. Vou: limpo, despido.

 

o2-o3.11.99

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* Extraído de Concerto Nº 1nico em Mim Maior Para Palavra e Orquestra. Poema, 2010

* O Poeta de Meia-Tigela nasceu na cidade de Fortaleza, Ceará, em 1974. Participou em 2007 da Antologia Massanova – Poesia Contemporânea Brasileira e publicou em 2008 o Memorial Bárbara de Alencar & Outros Poemas (uma coletânea do 2º Movimento do Concerto Nº 1nico em Mim Maior Para Palavra e Orquestra. Poema). Contato: poetademeiatigela@yahoo.com.br

 

Antoine voltou a pé* – Ângela Calou**

Antoine voltou, sem que nunca eu soubesse como. Verifiquei várias vezes seu triste fim, toquei com os dedos o líquido verde que lhe escorria pelo nariz, fechei seus olhos para que não assustasse ninguém a vitrina adoecida de sua morte encomendada pelo costume negro de meu espírito.

Colhi as flores, fiz o café, um pouco amargo, é certo. Levei aos ombros a pá mais pesada para garantir o profundo do lugar de desova de seu corpo inoperante. Eu mesma. Tudo. Inclusive coisas pequenas como o enlaçar dos dedos sobre o peito fatigado da luta contra o travesseiro que usei, outrora, para lhe roubar a corrente de ar. Inclusive a camisa branca com listras pretas e o suspensório sobre a calça xadrez, onde escondida no bolso direito, encontrava-se ainda a caderneta amarela que, por anos, salvara no fenômeno as ideias de Antoine, lá, embaixo da escada, à luz imóvel do velho abajur.

Estava morto, pois nada vivo teria lábios tão frios. Ocorre-me, porém, a cruel possibilidade da dúvida, a faca cega do engano afiada na pele, na ausência de pedra-pome. E se Antoine me assistisse com um meio olho aberto, de soslaio, rindo por dentro de minha crença na eficácia de minhas próprias mãos? E se tudo não passasse de erro? E se o frio nos lábios fosse coisa dos meus lábios apenas, impressão de minha refratária condição?

A morte era um rato metafísico, roedor espectral que rondava agora a minha carne, pois é sabido que, aquele que escapa a uma emboscada, segue tentado invariavelmente a reproduzi-la na condição invertida de arguto algoz. Antoine não me sorriria, pois também é sabido que, quem não morre de susto, segue tentado a reproduzir no outro esse mesmo susto e, assim, quem espera, como eu, cai num soluço implícito que por nada quer passar – como se soubesse num lugar interno já ser essa hora coisa marcada.

Restava-me a capitulação. Depois de carregar um corpo morto com o dobro do meu peso por horas, dias, talvez semanas, meses de presença morta, alucinógena, debilitada, tive a impressão de que encontrara um lugar distante. Percebo, agora, que era, pelo contrário, muito perto, pois vejo que Antoine voltou a pé.

Devia eu ter-lhe quebrado as duas pernas no exercício de minha maldade, vê-lo sofrer, banhada de água doce e de veneno e, desse modo, ter adiado o estranho problema, pois com o trauma de seus membros, ele certamente demoraria. Não pensei na hora, e assim pago por isso: será este então o meu fim? Nego-me, no entanto, a pagar por isso, pois em minha bolsa de mão, a solidão de uma última moeda. Aquela que se destina ao jogo de cara ou coroa que terei de fazer a cada bifurcação.

Meus cabelos começaram a cair, meu corpo dança outra vez no vestido de flores que, de repente, pareceu bem maior, como Alice e os pedaços de sonho que a faziam esticar para fora e para dentro. Em meu caso, porém, são pedaços de um pesadelo. Antoine voltara e, mesmo se nunca fosse imagem na minha retina, velado em uma suspeita obsessiva, seria mais que possibilidade: a irrefutável certeza do assombramento de calafrios.

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* Extraído de Eu tenho medo de Gorki & outros contos, 2011.

** Ângela Calou nasceu em Juazeiro do Norte, Ceará, em 1988. É mestranda em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba. Contato: angela.cal@hotmail.com

Cursos – Márcia Lígia Guidim

Nossos Cursos (setembro/outubro 2011)

PERCA O MEDO DE ESCREVER SEUS CONTOS E CRÔNICAS. (Módulo 1) Curso-oficina de 14 horas-aula (7 encontros)
Quartas-feiras quinzenais, das 19 às 21 horas.

Local: Oscar Freire, 836, ap 121 [Entre Bela Cintra e Haddock Lobo/ zona azul]
Total de alunos: até 6
Professores: Dra. Márcia Lígia Guidin
DATAS
setembro/ outubro/novembro de 2011
Setembro: dias 14, 21 e 28
Outubro: 5, 19 e 26
Novembro: 9

PÚBLICO: Todos aqueles que escrevem histórias (que estão na gaveta) ou que desejam escrevê-las, mas que precisam de estimulo e técnicas iniciais. O curso pretende que os alunos saibam que todos temos como escrever.

A escrita pode ser um dos desejos das pessoas, que não se sentem à vontade para fazê-lo, ficam intimidadas, sempre achando que outros escrevem mais ou melhor, ou que sua produção não é digna de ser lida por outros. O curso quer destravar esse mecanismo e mostrar que, com treino, é muito simples começar o processo de autonomia da escrita literária.

PROGRAMA
a) O que é como é fazer conto e crônica?
b) O que é o foco narrativo? Ou seja, de que ponto de vista posso narrar?
c) Existem modelos mais eficientes e/ou modernos de contar histórias?
d) A extensão, o tempo e os tipos de textos ficcionais.
e) A criação dos personagens principais e secundários
f) Quando, como e para que começar uma história?
g) Quando e como terminar uma história?
h) Que leitor eu quero para mim?
i) Preciso ser original?

ESTRATÉGIA:
Leituras, explicações, produção de textos escritos em casa e comentados em aula.

Professora Márcia Lígia Guidin, Mestre e Doutora em Letras pela USP. Professora Titular aposentada de Literatura Brasileira. Editora, autora de ensaios e obras de crítica literária. Membro Oficial da Comissão Organizadora do Prêmio Jabuti e Membro Titular da Academia Paulista de Educação.

Investimento: (R$ 630,00 pelo módulo todo
(duas parcelas, ao inicio e metade do curso).
Note: O primeiro encontro é pago de forma avulsa para avaliação da aula: R$ 90,00).

Endereço:
Rua Augusta, 2676, Cj 143.
Telefone: 11 3063-3390 | 3064-3362
[Estacionamentos e zona azul no entorno].
Após ás 19 horas, pode-se estacionar na Oscar Freire e Lorena.

Obs: Turmas com no mínimo 4 e no máximo 6 alunos.

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Profa. Márcia Lígia Guidin

www.miroeditorial.com.br 

Rua Oscar Freire, 836 – cj. 121

01426-000 – São Paulo – SP

Tel.: (11) 3063-3390   FAX: (11) 3064-3362 

Convite – “As joaninhas não mentem” – 25/08/11

Uma verdadeira viagem de imagens e sons dos sonhos e desejos. As joaninhas não mentem é uma história de amor diferente. Ariana – talvez futura Rainha do Amor Perfeito – nos leva a um mundo surreal numa estrada em direção à Torre do Castelo do Rei do Amor Perfeito. Longos serão os caminhos, tortuosos serão os caminhos, perigosos serão os caminhos. As joaninhas não mentem, lançado em 2006 pela escritora Patricia Tenório, tornou-se um texto teatral em 2010 pelas mãos da própria autora num desejo de vê-lo no palco.

Espetáculo As joaninhas não mentem

Única apresentação: Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011.

Teatro Joaquim Cardozo, às 20h30.

Rua Benfica, 157 Madalena Recife PE

(em frente à faculdade FAMA, com estacionamento)

R$10 (preço único)

Gênero: Lúdico Adulto.

 
Direção: Jorge Féo
Texto: Patricia Tenório
Elenco: Ísis Agra, Thiago França, Maria Luísa Sá, Jay Melo, Elilson Duarte e Romero Brito.
Cenário e Figurino: Jorge Féo

Execução de Cenário e Figurino: Sara Paixão
Maquiagem: Renata de Fátima
Pesquisa Musical e Execução de Sonoplastia: Nilton Leal
Criação e Execução de Iluminação: Cleison Ramos 
Fotos: Nilton Leal
Ilustração e Designer Gráfico: Hugo de Pádua

Arte Final: Mazinho Constantino
Criação e Edição de Vídeo: Lucas Cavalcanti e Thiago França
Produção: Patricia Tenório e Jorge Féo

Apoio: Espaço Muda

Vídeo sobre o processo do espetáculo:

httpv://www.youtube.com/watch?v=NIAZzP4XzDg