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Convite Espetáculo As joaninhas não mentem

Uma verdadeira viagem de imagens e sons dos sonhos e desejos. As joaninhas não mentem é uma história de amor diferente. Ariana – talvez futura Rainha do Amor Perfeito – nos leva a um mundo surreal numa estrada em direção à Torre do Castelo do Rei do Amor Perfeito. Longos serão os caminhos, tortuosos serão os caminhos, perigosos serão os caminhos. As joaninhas não mentem, lançado em 2006 pela escritora Patricia Tenório, tornou-se um texto teatral em 2010 pelas mãos da própria autora num desejo de vê-lo no palco.

Espetáculo As joaninhas não mentem

Estréia: Sábado, 04 de Junho.

Teatro Joaquim Cardozo, às 20h.

Sábados e domingos às 20h. De 04 de Junho a 03 de Julho.

R$10 – preço único. Gênero: Lúdico Adulto.

 

Anjos de Teatro

 

Direção: Jorge Féo 
Texto: Patricia Tenório
Elenco: Ísis Agra, Thiago França, Maria Luísa Sá, Jay Melo, Elilson Duarte e Romero Brito.
Cenário e Figurino: Jorge Féo Execução de Cenário e Figurino: Sara Paixão
Maquiagem: Renata de Fátima
Pesquisa Musical e Execução de Sonoplastia: Nilton Leal
Criação e Execução de Iluminação: Cleison Ramos 
Fotos: Nilton Leal
Ilustração e Designer Gráfico: Hugo de Pádua

Arte Final: Mazinho Constantino
Criação e Edição de Vídeo: Lucas Cavalcanti e Thiago França
Produção: Patricia Tenório e Jorge Féo

Realização: Espaço Muda

Trailer: httpv://www.youtube.com/watch?v=NIAZzP4XzDg

Quarto escuro*

Patricia Tenório

23/03/2008

Das coisas invisíveis e das mortais só os deuses têm um conhecimento certo; aos homens, só conjecturar é permitido.

                                                                                                         Alcmeão 

 

                Acordo à noite pensando que os pensamentos não acham  mal algum em criar. Pego a caneta preta e o caderno em branco, vou preenchendo os espaços vazios na tentativa de encontrar aquela menina que um dia fui, desvendar o mistério do amor primeiro, porque descobri ontem à noite que foram tantos amores os que eu tive e pensara ainda não os ter encontrado.

            A caixa chegou hoje pela manhã. O papel madeira cobria o não imaginado, o primeiro livro me alcançaria? Tentava vê-lo de olhos cobertos, tocar as primeiras páginas, saboreando com os dedos as linhas impressas. Cada pedaço de mim ali guardado, me entreguei inteira àquelas páginas costuradas, àquela capa cor de céu.

            A caixa repousava no mesmo lugar onde a recebera. Olhava para mim inquisitória, sentei defronte ao computador, acendi um cigarro. Fernando virá à noite, direi que não o quero mais, direi o que deveria ter dito há séculos, que o melhor é estar sozinha, com os pensamentos soltos a riscar paisagens, com o vento leve alisando o rosto, com a lua cheia beijando o mar nos primeiros raios. Que me deixe ali no canto do meu quarto escuro, deixe-me quieta, coberta com o meu papel madeira, não me incomodo com o pó cobrindo o endereço do destinatário, ou as cores vivas do selo amarelando.

            Na solidão busquei amigos invisíveis, daqueles que não cobram visitas nem bons modos. Deito sobre a água quente da banheira, brinco com as unhas vermelhas dos dedos do pé, elas dizem algum segredo, depois mergulham sapecas no banho de espuma.

**

            Preciso me aquietar toda vez que fico sozinha. Queria poder permanecer parada, sem alma, só os olhos a prender visões passageiras, elas não entram em mim, tal na janela do carro de Fernando, vejo os retratos da cidade se desanuviando em segundos, passam e passam por mim, não deixam aromas, nem sabores. Às vezes sinto o frio congelando os ossos, mas é uma sensação de mentira e que não devo dar importância. Apenas àquele sonho depois sonhado, pois quando mesmo acontece, quando a verdade se impõe clara e obstinada, mal posso respirar e contê-la no corpo, é pesada demais e não suporto, espero que ela se afaste, pinte um quadro de outono; então, sim, eu a enxergo, pego o papel e a caneta negra e a desenho em palavras.

            Mas é tarde demais. Lá se foi a senhora Verdade. Me recolho à insignificância de querer criar o que já foi criado, descobrir o que foi dado de graça, e essa angústia de nunca poder chegar me engole inteira, esmaga-me em carne viva, retira os sonhos, o sono se apaga e me encolho no canto escuro do quarto estreito.

            Às vezes pego o estilete na intenção de abri-la. Mas numa tal arrogância se mostra a caixa que pretendo nunca mais pensar nela, retiro todos os livros da estante para arrumá-los por ordem de autor, se os li, se não os li. Encontro J. M. Simmel, “Não matem as flores”, olho ao redor, estou na minha cidade natal, são duas as camas do quarto, minha irmã dorme sono solto e eu com aquele velho costume de acordar no meio da noite em busca do que não sei, e só aquieto um pouco quando corro os dedos finos por sobre as linhas do papel grosso, corro até sentir a mão dormente, os braços cansados, os cílios se fechando por um instante apenas e volto aonde pertenço, aquele espaço mágico em que não tenho nome nem idade, onde todos correm nus por sob cachoeiras e arco-íris, o amor não fala línguas, as palavras são sentidas e desaparecem logo a seguir, todos sabem e não precisam saber, são soltos no meu mundo imaginário. Mas me aparecem perguntas, sisudas e de cor escarlate, tal pintei as unhas ontem. Elas querem saber se todos pensam do mesmo jeito, se aquele mundo só foi por mim criado, e na minha elucubração infértil retorno ao quarto de adulta, guardo J. M. Simmel na mesma estante de outrora, lembro que existo e tenho os pés no chão.

            A caixa insiste que estou errada, passa por mim uma mão invisível que convida a abri-la. E se não for o que eu esperava, meu livro não for bom, as pessoas não o lerem, Fernando alisar meus cabelos, der um beijo em minha nuca e eu não o deixar partir, termos filhos, noras e cachorros, comprarmos uma casinha de campo e plantarmos amigos ao sol nascente?

            Quem sabe a caixa está mesmo certa ao revelar que estou com medo, ao entregar a chave da minha insignificância, ao perceber que aquela menina de óculos de grau e aparelho nos dentes pulsa pelo primeiro beijo, a primeira noite e ouvir-se bela, do mesmo modo que o pai chamava os amigos para vê-la tocar ao piano, a mãe preparava o seu prato predileto e lhe dava em colheradas quando estava doente.

               Não podia transferir para a caixa o seu descontentamento com a vida. Escolhera caminhos tantas vezes incertos, só por querer descobrir o que estava na outra margem do rio. E, ao chegar lá, olhos esbugalhados, boca entreaberta, descobrira que não era nada daquilo que imaginara, e ela, sim, havia imaginado muito, sentindo então um oco no lado esquerdo do peito, oco que nada preenchia, nem cigarros, nem vários homens, nem bombons de chocolate e calda de cereja.

            Apenas quando escrevia, o vazio acalmava, e desde pequena descobrira isso. Sentava encolhida detrás da poltrona do pai, no canto da sala de estar, e pretendia ali criar um mundo novo. Um mundo onde ninguém a machucasse nem lhe deixasse só à noite para ir às festas, nem viajasse para lugares longínquos, passando meses sem dar notícias, nem batesse na mãe quando voltasse, ou beijasse a empregada por trás da porta da cozinha.

            No mundo que eu criava não havia fadas ou duendes encantados. Tudo de uma normalidade ímpar, tudo se encaixava como num quebra cabeças, as pessoas iam e vinham como prometeram, faziam compras e alimentavam gatos, perdiam brincos de pérola e não ficavam zangadas. Sentavam à mesa nas horas certas, faziam preces de agradecimento, serviam umas às outras, havia sorrisos sinceros, brilho nos olhos.

            Lembrei que escrevera isto em algum momento, mas agora esquecera, pois não mais queria a ferida exposta, o pus gritando cura, a dor implorando alívio. E quanto mais mexesse, maior seria a ferida e nunca poderia sará-la porque era a minha essência e não saberia dizer se era melhor a ferida crua ou encoberta, sufocada na imensa impossibilidade de vir à tona.

            Busquei a tesoura na gaveta, não encontrei, fui à cozinha pegar uma faca afiada. Cortei primeiro as laterais da caixa, abri suas abas e estavam lá: uma pilha de pacotes miúdos feito o meu livro, quase transparecendo a cor da capa, quase preenchendo o ar vazio dos pulmões com o seu cheiro, inebriando e deixando tonta, fazendo o suor aquebrantar o corpo inteiro, retirando as roupas aos solavancos para me amar sem reservas nem cabimentos nas quatro paredes do quarto verde claro, da fresta da janela vinha a luz salvadora, cortando o breu que em mim antes se instalara, semeando grãos de sabedoria intensa que expurgava pecados e me fazia sã e santa, dona das mãos que tanto escreviam quanto ao corpo tocavam em carícias múltiplas, gozando do pensamento primordial, aquele que me levaria ao início do mundo, deitar com Adão e comer da maçã na árvore proibida.

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* Publicado na Revista Calibán N. 11, 2008

** “O que eu vejo na água”, 1938, Frida Kahlo

Provocações I: Triálogo – Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa e Paul Gauguin*

 

Convido a dialogar com o triálogo – Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa e Paul Gauguin…

Abraço grande da

Patricia Tenório.

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The Raven **
(by Edgar Allan Poe,
first published in 1845)

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of someone gently rapping, rapping at my chamber door.
” ‘Tis some visitor,” I muttered, “tapping at my chamber door;

Only this, and nothing more.”

Ah, distinctly I remember, it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow, sorrow for the lost Lenore,.
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore,

Nameless here forevermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me—filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
” ‘Tis some visitor entreating entrance at my chamber door,
Some late visitor entreating entrance at my chamber door.

This it is, and nothing more.”

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
“Sir,” said I, “or madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is, I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you.” Here I opened wide the door;—

Darkness there, and nothing more.

Deep into the darkness peering, long I stood there, wondering, fearing
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word,
Lenore?, This I whispered, and an echo murmured back the word,

“Lenore!” Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping, something louder than before,
“Surely,” said I, “surely, that is something at my window lattice.
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore.
Let my heart be still a moment, and this mystery explore.

” ‘Tis the wind, and nothing more.”

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven, of the saintly days of yore.
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But with mien of lord or lady, perched above my chamber door.
Perched upon a bust of Pallas, just above my chamber door,

Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
“Though thy crest be shorn and shaven thou,” I said, “art sure no craven,
Ghastly, grim, and ancient raven, wandering from the nightly shore.
Tell me what the lordly name is on the Night’s Plutonian shore.”

Quoth the raven, “Nevermore.”

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning, little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door,
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,

With such name as “Nevermore.”

But the raven, sitting lonely on that placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered; not a feather then he fluttered;
Till I scarcely more than muttered,”Other friends have flown before;
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before.”

Then the bird said,”Nevermore.”

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
“Doubtless,” said I, “what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master, whom unmerciful disaster
Followed fast and followed faster, till his songs one burden bore,—
Till the dirges of his hope that melancholy burden bore

Of “Never—nevermore.”

But the raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird and bust and door;,
Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore,
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore

Meant in croaking, “Nevermore.”

Thus I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl, whose fiery eyes now burned into my bosom’s core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion’s velvet lining that the lamplight gloated o’er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o’er

She shall press, ah, nevermore!

Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
“Wretch,” I cried, “thy God hath lent thee — by these angels he hath
Sent thee respite—respite and nepenthe from thy memories of Lenore!
Quaff, O quaff this kind nepenthe, and forget this lost Lenore!”

Quoth the raven, “Nevermore!”

“Prophet!” said I, “thing of evil!–prophet still, if bird or devil!
Whether tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate, yet all undaunted, on this desert land enchanted–
On this home by horror haunted–tell me truly, I implore:
Is there–is there balm in Gilead?–tell me–tell me I implore!”

Quoth the raven, “Nevermore.”

“Prophet!” said I, “thing of evil–prophet still, if bird or devil!
By that heaven that bends above us–by that God we both adore–
Tell this soul with sorrow laden, if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden, whom the angels name Lenore—
Clasp a rare and radiant maiden, whom the angels name Lenore?

Quoth the raven, “Nevermore.”

“Be that word our sign of parting, bird or fiend!” I shrieked, upstarting–
“Get thee back into the tempest and the Night’s Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul spoken!
Leave my loneliness unbroken! — quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!”

Quoth the raven, “Nevermore.”

And the raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon’s that is dreaming.
And the lamplight o’er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor

Shall be lifted— nevermore!


O CORVO ***
(de Edgar Allan Poe. Tradução: Fernando Pessoa.)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.

É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isto, e nada mais”.

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais –
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.”
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

“É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”

Disse o corvo, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome “Nunca mais”.

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, “Amigo, sonhos – mortais
Todos – todos já se foram. Amanhã também te vais”.

Disse o corvo, “Nunca mais”.

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais

Era este “Nunca mais”.

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
“Maldito!”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”

Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”

Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!”, eu disse. “Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”

Disse o corvo, “Nunca mais”.

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

Libertar-se-á… nunca mais!

Nevermore, Paul Gauguin, 1897, Oil on canvas, The Courtauld Gallery, London.

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* Textos extraídos do http://www.insite.com.br/art/pessoa/coligidas/trad/theraven.php.

Imagem de Paul Gauguin: www.artknowledgenws.com  

** This poem was translated to portuguese by Fernando Pessoa.

*** Traduzido de The Raven, de Edgard Allan Poe, ritmicamente conforme com o original.

Literatura: A mulher pela metade

Fernando Py

Fonte: Tribuna de Petrópolis, Caderno Lazer: http://www.e-tribuna.com.br

Sex, 06 de Maio de 2011 12:00

Na novela A mulher pela metade (Rio de Janeiro: Calibán, 2009), a  pernambucana Patricia Tenório, autora do romance As joaninhas não mentem (2006) e dos textos poéticos de Grãos (2007), realiza a análise dos amores e conflitos existenciais da protagonista da história, Séphora, estudante brasileira em Paris. Ela está sempre sujeita a dúvidas e incertezas não só quanto aos amantes que possuiu e a possuíram, mas também quanto à própria vida e suas ligações com o aprendizado de artes e o idioma francês, objeto de suas preocupações. Na verdade, a moça procura se impor uma disciplina (ou escolha) dentre as experiências que viveu e ainda vive. No posfácio do livro, Patricia Tenório mostra que sua própria experiência vivida em Paris, entre setembro de 2006 e janeiro de 2007, lhe serviu não apenas para criar Séphora (uma espécie de alter-ego) mas praticamente o texto inteiro. Recorrendo à Fenomenologia da percepção, de Merleau-Ponty, ela nos informa ter procurado “dialogar com a experiência da escrita francesa” no período passado na capital francesa, devido à necessidade de se expressar numa língua estrangeira, e assinala que, assim, descobriu um mundo novo, “repleto de infinitas possibilidades”. Desse modo, considera que o texto de A mulher pela metade se formou em seu subconsciente até aflorar ao nível consciente já bem adiantado. Seja como for, o resultado dessa experiência se passou no nível inconsciente e espontâneo da linguagem, linguagem que ora é servida ao leitor, a quem caberá “a tarefa de decifrá-la e lhe impor sentido.” Mãos à obra, portanto, que vale a pena.

Uma carta de Newma Cynthia

Querida Patricia,

Enfim, apareço. Acabei de ler Grãos, esse livro que despertou minha atenção quando li “intervalo” aqui no site. Sim, contava com a continuidade da história, queria saber o que aconteceria a jornalista e Mateus, que homem misterioso é esse que despertou a atenção mesmo que por instantes de uma mulher a ponto dela acreditar que ele pudesse conhecê-la  no íntimo, desvendando seu instinto e ainda desejando que o destino os colocasse frente a frente novamente?

Eu bem que poderia saber que essa leitura não seria continuada, se tivesse lido primeiro a orelha do livro. Lá fala de estranho livro, sim, porque quando virei a página me deparei com “o banho” e depois “três quartos” com uso da técnica de duas vozes pelo personagem (pensamento e diálogo), me empolguei de forma tal que Mateus logo ficou para trás.

Daqui por diante falarei com o coração, sem medo das minhas palavras pela pouca experiência que tenho no campo literário, mesmo na posição de leitora porque nunca busquei ler livros fazendo análises e sínteses ou grandes interpretações (com exceção da época da escola onde me esforçava), a ideia de ler sempre foi para mim um hábito executado com muita simplicidade, longe dos saraus literários com a exceção da Confraria das Artes onde me sinto mais expectadora do que qualquer outra coisa ainda, talvez pela ausência de intimidade ou pela limitação de conhecimentos técnicos, já que sei falar mais de amor e o amor parece diferente aos olhos de cada pessoa.

Pois bem, voltemos ao livro. Patricia fala com questionamentos, principalmente nos primeiros textos, “a solidão era o inicio da loucura?”, “que sentido tem a vida sem presença?”, “mais eu também fazia companhia e porque me deixou?”, senti que era de propósito como se desejasse que parássemos a leitura para analisarmos a questão. Na maioria do tempo os textos são introspectivos, reflexivos mesmo, memórias, exige compreensão de sentimentos, fala-se em dor, muito de solidão, lembranças e isso mexeu comigo, parei para pensar na vida. As vírgulas nos ajudam a respirar enquanto lemos.

O “sétimo quadro” é um texto muito bem escrito, veloz, denso quando acabei de ler era como se estivesse vendo uma peça de teatro ou um filme bravamente dirigido, havia trilha sonora, alguma coisa clássica no fundo, talvez Mozart com algo que comece leve e termine no maior tom. As dúvidas que sentimos, quando ainda somos adolescentes foi muito bem traduzida em “a adulta”, quando somos domadas pelos limites impostos e quando a duras penas aprendemos, mas dificilmente nessa fase, só quando finalmente a vida adulta acontece, por mais que desejemos continuar a ser criança para sempre. Talvez assim tudo fosse mais fácil.

Se fossemos íntimas poderia confirmar o que senti, mas os textos “onda cinza” e “o travesseiro” parecem muito reais, como se de fato aqueles fossem os momentos do personagem, mas que também se traduzia na mulher Patricia.  

“a prova” foi uma delícia de ler. Além da excelente passagem de tempo do hotel de luxo para a UTI do hospital enganou o leitor por diversas vezes, com anúncios de preconceitos, visita a três, e a exposição de um amor que em certo ponto me fez lembrar o Ricardito de Vargas Llosa, o bom menino, o coisinha a toa das TRAVESSURAS DA MENINA MÁ, a que outra pessoa uma mulher pediria tal coisa? Mesmo que ao final, não tenha sido clara se Charlie desligou ou não os aparelhos, eu não tenho dúvidas, somente um amor submisso e obediente seria capaz de tamanha proeza.

As poesias foram realmente belas e de uma sensibilidade estonteante. Só não me atrevo a falar mais porque esse tipo de expressão eu só sei sentir, pouco saberei falar. Conseguiu ser sensível até quando tratou de um tema que deixa minhas pernas paralisadas – “aborto”.

De repente volto à orelha do livro e entendo ainda mais a explicação do estranho livro, pois eis que surge “pandôva”, texto banhado de mitologia e figuras míticas com mistérios de épocas representados por robôs do império. Às vezes o texto muda o ritmo, nos leva a um tempo mais moderno com uso de palavras “para que saiba e somente você saiba que não quero me tornar eterna. Plantar uma árvore, escrever um livro, fazer um filho”, às vezes saía do texto como se outro personagem desconhecido estivesse falando “estou cansada das letras. Cansada de lhe explicar o que não quero, porque você não me deixa e para com tantas perguntas? Eu me encolheria cobrindo o rosto com lençóis de seda e caindo no nada do inconsciente, um sono sem sonhos, uma morte bem vivida”, por mais que essa fosse a fala de Pandôva. No final, acho que não deveria se sentir tão culpada por ter se entregado a Gordon, faço da minha opinião um paradoxo com a vida real.

Querer “e poder servir, ajoelhar-me e lavar pés sujos, lamber as lágrimas do doente terminal, embeber unguentos em feridas abertas, velar sono de desesperados. Talvez então eu repousasse e trouxesse algum alívio ao meu espírito” são algumas das surpresas na forma de escrever que descobri, mesmo nas cenas de sexo que já falamos em outro momento, quando pedi conselhos. Estou encantada, gostei muito da forma que você se expressa, banida de preconceito “grafite”, doce “absinto”, inesperado “sonho” e por aí vai. Parabéns, Patricia, você merece estar no topo!

Em breve mandarei mais notícias.

Newma Cynthia*.

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* Newma Cynthia é escritora – newminha@hotmail.com

Mostra “Vestígios da Brasilidade” – Santander Cultural Recife

Pierre Verger, Dorminhocos, Salvador, Brasil, anos 1950

Ronald Duarte, Fogo cruzado, 2002

Patricia Tenório, 23/05/11

A mostra “Vestígios da Brasilidade” do Santander Cultural Recife nos apresenta rastros do que somos, das nossas raízes, origens, ao mesmo tempo que nos remete à mistura de culturas que fazem o povo brasileiro.

Somos brasileiros puros? Qual a cultura pura no mundo globalizado em que vivemos? Ao menos resta-nos traços, Vestígios da nossa Brasilidade expostos por artistas da grandeza de um Cícero Dias, Pierre Verger, Adriana Varejão, Ronald Duarte, Nelson Leirner, Volpi, José Rufino, entre outros. E as temáticas que costumam nos enquadrar sendo brasileiros (quarta-feira de cinzas, fetichismo, sortilégios, preguiça), mas também as da natureza e ser humano (vento, geometria, casa).

Sob a curadoria de Marcelo Campos, a mostra vai até 31 de Julho no Santander Cultural Recife. Para mim, uma verdadeira aula de ser brasileiro.

Fonte das fotos e maiores informações:

http://catracalivre.folha.uol.com.br/2011/05/vestigios-de-brasilidade/

Das flores no meu jardim

Patricia Tenório

16/05/2011

            Em homenagem a Paulo Freire

 

            Começou a digitar no tempo em que aprendeu a ler.

            Juntar letras na máquina, o mesmo que na memória. E a imaginação corria em busca da imagem para cada letra e cada letra vestia toda uma história de si.

            Clara não desistiu quando percebeu que, no teclado da máquina, as letras meio apagadas, meio escritas: lembrou-se que lembraria delas ao digitar. Nem mesmo se lembrando, até se esquecendo, foi no esquecimento que viajou distâncias e conheceu um mundo inteiro.

            Mundo de letras e lugares e as letras se misturavam em palavras e as palavras cheiravam a jasmim.

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‘amorte’, Helder Herik e A idade de desossar

Helder Herik([1]), A idade de desossar

Emerson Oliveira do Nascimento([2])

 

Somente quando o corpo e o espaço de imagens se interpenetrarem, dentro dela, tão profundamente que todas as tensões revolucionárias se transformem em inervações do corpo coletivo, e todas as inervações do corpo coletivo se transformem em tensões revolucionárias; somente então terá a realidade conseguido superar-se.

(Walter Benjamim)

 

As coisas em geral nunca puderam manifestar-se ao pensamento como coisas.

(Martin Heidegger)

 

            Os prefácios são como verdadeiros menus – tentam aguçar nosso apetite enquanto se dissolve a fronteira que criamos entre o namorico e a compra de algum livro em especial. Os prefácios são os responsáveis pelas primeiras críticas, mas não se trata de qualquer crítica, é a crítica de quem viu o parto. Só nestas raras oportunidades nós podemos, ao contrário dos futuros leitores (e com certeza serão muitos), ler não a obra acabada e finda, mas sim a criação viva entre os rabiscos originais do poeta. Só nestas raras oportunidades podemos refazer toda a angústia da criação – e sugiro isso porque, para mim, o livro de poesias impresso já seja o massivo cheiro de finitude que flui da página impressa, talvez porque reduza a imagem do poeta artesão ou mesmo porque ainda não me acostumei à reprodutibilidade técnica da obra de arte.

            ‘amorte’ me levou inevitavelmente a observar a preocupação do poeta([3]) na construção de cada verso – um turbilhão de palavras e sentidos. A poética de versos sem as superficiais precisões métricas e que parecem rimar sim os sentidos substanciais do eu-poeta. É a “linguagem adâmica” a que já se referira Benjamim. É a busca pela reconciliação entre o criar e o conhecer. É a possibilidade de tornar-se Deus, pois foi através da linguagem que Ele criou o mundo – o verbo se fez carne. É a busca pela superação da dimensão meramente comunicativa da linguagem e a luta pela restauração da sua primeira dimensão – a nomeadora. ‘amorte’ é também algo de lingüístico, é a idéia tratada como elemento simbólico presente na essência das palavras, é uma busca pela restauração do pensar a coisa.

            ‘amorte’ é dialético. Um livro que busca parentesco entre a linguagem divina e a linguagem humana. Um livro onde as palavras são tão caras e significativas ao poeta que mais parecem ocultar uma frase inteira. E o poeta, aqui, comporta-se como quem retornara ao Éden – batizando as coisas, explorando-as até a exaustão por todos os seus sentidos, simplesmente porque nunca as foram para si tão novas. São os olhos deste texto os olhos de alguém maravilhado e fascinado pelo poder divino da descoberta da beleza de coisas até então aparentemente comuns – sua cidade, seu chão, sua arte e a morte. É a (re)criação de sentidos mimeticamente inventados para as coisas. Novos sentidos que correspondam a elas, que mantenham com elas uma relação direta e essencial.

            E nesta exaustão da percepção, o poeta é o que ele pode ver. Arregala bem os olhos, abre bem os ouvidos enquanto aguça seu tato, seu paladar e seu olfato para a (re)descoberta do novo-velho mundo que o cerca. É o pássaro que extenua seus sentidos enquanto se prepara para o primeiro vôo e, aqui, ‘amorte’ é a preparação no ninho. É o espírito sagaz que desbrava primeiro os sentidos de seu mundo – seus valores, seu chão, suas carnes e sua mão – e aqui, mais uma vez, ‘amorte’ também é útero contraindo-se às vésperas do parto.

            O livro que tem pressa de ser, ‘amorte’ traz para o leitor um sentido especial para o tempo – um tempo onírico, um tempo como não dizer: antropofágico, que parece engolir-se, mastigar-se – é o chão que transforma o homem, é o homem que transforma o chão e ambos tornam-se assim antropomórficos: chão-homem e homem-chão. É o corpo que se consome [enquanto andamos sobre crânios]. É o mundo a esculpir o corpo enquanto este baila e caligrafa sobre a terra [pisar-em-chãos]. É a própria vida vista como uma dimensão da linguagem, um sentido codificado da errância e do andar humano depois da expulsão do Éden. O tempo do retorno ao momento da criação quando mais uma vez tudo será genuinamente novo e fantástico – e parece-me que para o poeta, este percurso dar-se-á pelo Agreste. O Agreste libidinoso, o Agreste-indivíduo (puberdade e virilidade), o Agreste corpo físico e gozo da alma, erétil, explosivo e sagrado.

            Mas ‘amorte’ seria ainda um livro que desemboca a morte e tem cheiro de vida – ‘amorte’ é idade de desossar, é hora de desencarno. E aqui, o poeta interliga nascimento e morte, e mostra-nos que ao nascer não deixamos de morrer, da mesma forma que mortos, não deixamos de estar vivos. É o nascimento que é póstumo, é a morte que traz a vida. É o mau que é bom, é o bem que é cruel. [Nunca se diz que amorte / de uma pátria é nascida.// Não tem amorte nascimento, / é toda ela morrida] – é a morte o alimento da vida e não o oposto, é a morte que só surge do que pode alimentar a vida, é a morte que traz o alimento e o novo – e torna-se a morte assim, também antropofágica. É ‘amorte’ que visita o [mocambo] e custa ir na [casa-grande / carne-sem-osso]. ‘amorte’ é indomável, é lanceiro que por prudência usa a doença. Mas ‘amorte’ também é santa vadia [Quando vai seduzir / leva amorte a fita métrica]. E é erótica, e é mãe que tal [galinha de capoeira] choca e gora seus defuntos.

            ‘amorte’ vive mais do [Empirismo] e de [chupar ossos-tutanos]. ‘amorte’ rói de dentro para fora, é gangrena de dentro de nós – do tutano para o juízo, ‘amorte’ nos escolhe pelos ossos. E talvez seja por atacar por dentro que [amorte não mostra quem é] e, assim, o poeta traz a morte para dentro de nós. ‘amorte’ que nasce botão e desabrocha e rasga de dentro-para-fora com ares de surpresa o que sempre nos habitara – a morte. A morte que introduz o ser em uma dimensão temporal e o lança às impossibilidades da vida enquanto sua imagem o vigia. Não se trata da “nadificação” sartriana da vida e da morte, mas sim a morte pensada por Heidegger, algo que preenche os sentidos da vida, o reconhecimento dos limites e da finitude humana – o ser que reconhece seu “ser-para-a-morte” e parte para a construção da vida, agora, sobre a maior exaustão de sua criticidade – é a morte como primeiro passo para um projeto, é uma forma de aprender com a morte a viver –, lições caras em um tempo em que se disseminou o sentido da imortalidade entre nós. O poeta d´amorte não esconde ou eufemiza a morte, aponta-nos apenas que ela existe e que ela é bonita porque é óbvia.

            E assim, sua cidade, seu chão, sua arte e a morte entrelaçam-se sob o frenesi do erótico e da multiplicidade – é um misto de virilidade que o poeta traz nos dentes, mas torna-se ainda interessante notificar uma definição do Homem pelo poeta que salta-nos despropositadamente das entrelinhas quando ele nos diz que neste chão o que há [são carnes / com maiores cortes de ossos], ou seja, o poeta ainda mede os homens pelo seu interior. É o poeta que busca impressões na sua linguagem, mas que também resolve por fazer suas próprias impressões – ele faz incursões na xilogravura – e é este o momento no qual o homem-agreste decide pisar o chão, e o homem-poeta decide ser ouvido. É a idade de desossar, de deixar os ossos à mostra, de rasgar as carnes e mostrar o que o mantém em pé. É algo muito especial – é a inclusão do poeta dentro do espaço público. E é assim que eu particularmente gostaria que os leitores vissem tanto o livro como o poeta – a necessidade de fazer-se ouvir pela Pólis e pelo coração, pois já se responda de passagem à crítica, que o pessimismo da inteligência não deverá jamais prejudicar o otimismo da vontade. ‘amorte’ deve ser lido pelo simples fato de buscar ser.

amorte([4]) 

Útero

 

Prólogo

Com muitas mortes vividas

dissera um dia a Avó

 

“é a morte uma quenga,

dessas quengas-de-tabacão.”

 

amorte, quenga-de-carteado,

(que arromba portas. Cadeados)

 

mata um homem-santo.

Mata um homem, chanbregando.

 

1

Quando d´amorte se fala,

nunca em toda propriedade

 

está o indivíduo falando.

Fala de dentro do escuro,

 

tateando a falação.

É como se amorte

 

engolisse todo o caminho,

sem defecar a direção.

 

2

Das origens d´amorte

ninguém as sabe definidas.

 

Se de uma gruta, uma capela

amorte fora parida.

 

Nunca se diz que amorte

de uma pátria é nascida.

 

Não tem amorte nascimento,

é toda ela morrida.

 

3

amorte,  em todo o seu tempo

de trabalho de operário,

 

nunca trouxera marmitas.

Basta-lhe a coisa-viva.

 

Seja o estômago pejado,

que não lhe oferece a gordura

 

ou cambitos, só os ossos,

de onde lhe suga os tutanos.

 

4

amorte se mostra em terras

onde a lâmina, roçando,

 

não encontre ali somente

o chão firme, enterrado.

 

Mas a escavadeira encontre,

no corte mais lateral,

 

vários ossos estrumados

num só dia de funeral.

 

5

Ora pode ser amorte

molhada como um rio.

 

Molhada além da língua

(rio manso, de carne).

 

Molhada não do que engelha,

desforrando o corpo.

 

Um molhado que alaga

as estiagens de um vivo.

 

6

Ao enxugar seus defuntos,

do alagado Pantanal,

 

passa ferro amorte,

aos corpos que engelharam.

 

Passa do sulco ao teto;

entre o peito, que desbotou

 

a carne (viva) e o sobrecu.

Carne já apodrecida…

 

7

amorte freqüenta sempre

as mesmas bibliotecas.

 

Bibliotecas sempre cheias

para que se instrua melhor.

 

Que é sempre se habilitando,

tanto as Tragédias-Gregas

 

quanto as tragédias-Agreste:

o Padre matando o Bispo.

 

8

amorte a se instruir melhor,

refaz periodicamente

 

(na pelanca do abdômen)

sua cartilha terrorista.

 

Não a cartilha de leitura

que só a vivos tem serventia.

 

É somente cartilha de corte,

de faca rombuda, que fatia.

 

9

A alfabetização d’amorte

é mais de espinhos, calos,

 

do que a prática em livros

(acumulada erudição).

 

É mais de quem se engancha

numa sílaba de arame.

 

É mais de contas que leituras.

Mais adiciona que fraseia.

 

10

A alfabetização d’amorte

consta mais do empirismo

 

de chupar ossos-tutanos,

que sentada, folheando enciclopédias.

 

Nem ataca pelas leituras,

vai mais pelos manequins.

 

Manequins de qualquer tamanho,

que tudo cabe em sua fome.

 

 

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(1) Nascido em Garanhuns – PE, 1979, Helder Herik ensina Filosofia e Literatura nos colégios: Quinze de Novembro, Santa Sofia e ACIG. Escreve para os jornais: O Século, O Mafuá e u-Carbureto, sendo editor deste último. É, também, um dos fundadores da Sociedade dos Poetas Vivos – João Cabral de Melo Neto. Publica suas crônicas no blog: http://blogdohelderherik.blogspot.com/. E-mail: helderherik@hotmail.com

(2) Historiador.

(3) A partir de agora, sempre que me referir ao poeta, refiro-me ao amigo.

(4) Primeiro trecho do poema (em seguida vem ‘Labuta’ e ‘Prudência’) que dá nome ao livro ‘amorte’, Editora Bagaço, 2008. Contém ainda ‘Mundaú’, ‘Xiloma’ e o posfácio “Posteridade” escrito por Mário Rodrigues do Nascimento.

PS: Helder Herik foi apresentado a mim por Lucas Cavalcanti: lucascavalcanti.b@hotmail.com

Alliance Française Recife invite: Paris la Nuit, Brassaï

Envoyé par Patricia Barros:  patbarros5@hotmail.com

Convite Jacques Ribeboim

 
 
 
 
 
 
 

Prezados amigos,

Este é um lembrete para o lançamento do nosso livro,

neste sábado, 14 de maio, a partir das 16 horas,

na Academia Pernambucana de Letras, Recife.

UMA OLINDA JUDAICA: 1537 A 1631“,

de José Alexandre Ribemboim e Jacques Alberto Ribemboim.

O lançamento será acompanhado por:

– show musical, com Beto do Bandolim e Bozó Sete Cordas;

– exposição de bicos-de-pena do artista pernambucano Cavani Rosas;

– coquetel de comidas típicas israelitas.

Ficaremos contentes com sua presença,

Os autores.

(Enviado por Jacques Ribeboim: jacquesribemboim@oi.com.br)

ilustração: Brites Fernandes, Guardiã da Torá.
desenho de Cavani Rosas