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(Out of Africa?)

Patricia Tenório

19/04/2011

Estou no meio da savana.

Acalmo o coração, nenhum barulho ao meu redor.

Reflito sobre o mergulhar da viagem e o fazer artístico, algo que penso perdido na geração das festas espetáculo-literárias em que nos encontramos.

Quanto a mim, Daniel, senti minha alma desfalecer dentro de mim, e fiquei perturbado por essas visões de meu espírito. ([1])

A meu ver, o poeta, poeta no sentido de criador, aquieta-se na busca da mais fina beleza, no afã de roçá-la, se embeber no doce amargo da sua essência.

Fosse eu imóvel como tu, estrela brilhante!

Não suspenso da noite com uma voz deserta,

A contemplar, com a pálpebra imortal aberta,

Monge da natureza, insone e paciente

As águas móveis na missão sacerdotal

De abluir, rodeando a terra, o humano litoral,

Ou vendo a nova máscara – caída leve

Sobre as montanhas, sobre os pântanos da neve,

Não! Mas firme e imutável sempre, a descansar

No seio que amadura de meu belo amor,

Para sentir, e sempre, o seu tranqüilo arfar,

Desperto, e sempre, numa inquietação – dulçor,

Para seu meigo respirar ouvir em sorte,

E sempre assim viver, ou desmaiar na morte. ([2])

([3])

O viajante segue o poeta ao se desarmar do que se indica nos guias de viagem, cidades turísticas, nas obrigações de cumprir o que em si não há.

Perdido! Essa palavra é como um sino

Que dobra para que de ti eu volte à minha solidão([4])

Não devemos nunca, jamais esquecermos ao que viemos, a casca do orgulho e da prepotência deve ser arrancada (dolorosamente) a cada dia, a cada instante. A cada ato.

O poeta é o mais impoético de tudo o que existe, porque não tem identidade, continuamente adentra e enche outro corpo. ([5])

Então nos revoltemos abracemos o suicidado da sociedade([6]), o que não se expõe e põe em si mesmo a necessidade de se fazer escutar quando não é ouvido, de se fazer enxergar quando não é olhado, e pela fresta de seu quadro-acorde-poesia-viagem deixar-se derramar inteiro, sem nenhum retorno.

Quanto a ti, vai até o fim. Tu repousarás e te levantarás para (receber) tua parte de herança, no fim dos tempos. ([7])

Libertado de todas as paixões terrenas que o tumulto da vida social produz, minha alma várias vezes se lançaria acima dessa atmosfera e se ligaria, antes da hora, a inteligências celestes a cujo número espera somar-se em pouco tempo. ([8])

No entanto, não é fácil manter-se aberto à alteridade que nos interroga, uma vez que as obras, como emblemas do sensível estão sempre a exigir de nós criação para delas podermos ter experiência, como diz o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) em “O visível e o invisível”. ([9])

Toda a linguagem verdadeira é incompreensível

Tal como o bater

Do bater de dentes([10])

Mas…

Não dá para ficar se lamentando quando se está ocupado com coisas construtivas. ([11])

([12])

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Estudos & Referências:

(1) Daniel 7, 15.

(2) Estrela brilhante, John Keats. Tomei a liberdade de alterar para “estrela brilhante” ao invés de “astro fulgente” a tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Keats – Ode sobre a melancolia e outros poemas, Ed. Hedra.

(3) Bright Star. Jane Champion, 2009. Com Abbie Cornish, Ben Whishaw e Paul Schneider.

(4) Trecho de Ode ao rouxinol – VIII, John Keats, Keats – Ode sobre a melancolia e outros poemas, organização e tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Ed. Hedra.

(5) John Keats, em Keats – Ode sobre a melancolia e outros poemas, organização e tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Ed. Hedra.

(6) Referência a Van Gogh, o suicidado da sociedade, Antonin Artaud, Hiena Editora.

(7) Daniel 12, 13.

(8) Trecho de Os devaneios do caminhante solitário, Jean-Jacques Rousseau, Ed. L&PM.

(9) Trecho de A psicanálise implicada, João A, Frayze, Revista Mente & Cérebro, V. 9, “Diálogos e fronteiras – a psicanálise e outros campos”.

(10) Trecho de Van Gogh, o suicidado da sociedade, Antonin Artaud, Hiena Editora.

(11) Nelson Mandela.

(12) Patricia Tenório asks: is here (Out of Africa?). Join this discovery of South Africa through the eyes of an artist… Music: “Homeless”, Ladysmith Black Mambazo. Images & Edition: Patricia Tenório.

Para Maria Eduarda

Patricia Tenório

03/04/2011

Ela colhia sonhos para vender na feira, à prestação.

Tinha fila de moças saídas da missa, em busca de maridos ricos e bem comportados. Não investigavam se eram maduros ou verdes ainda, importando que as tratassem feito princesas de contos de fadas.

Uma fila grande, ao lado, para os rapazes que não sabiam arar, plantar, regar, adubar. Apenas seguiam presos a uma coleira guiados pela mamãe, tolhidos pelo papai.

O menino pediu um telescópio para ver as estrelas, apelidar seus nomes, fazê-las cair em noite de São João, para que pulasse as fogueiras de vaidade e pudesse despertar o que é bom em nossos corações.

Mas numa fila que não havia, e havia somente para Ela, de um berço de ouro brotava boquinha de morango, olhos jabuticaba, maçãs do rosto rosadas e a impressão que Maria Eduarda colheria sonhos para vender na feira, à prestação. Ou não.

 

Eu e Maria Eduarda. Foto: 2004, Vitória Dantas.

O Paraíso mora na outra esquina (Independente ou morte)?

Patricia Tenório

27/03/2011

Termino de ler O Paraíso na outra esquina, de Mario Vargas Llosa. Trata-se da biografia romanceada da revolucionária francesa Flora Tristán em paralelo com a de seu neto, o artista plástico Paul Gauguin.

Com ritmo lento, próximo ao monótono, Llosa, com uma linguagem na maior parte de confidências, desvela a história da mulher Flora e do homem Gauguin, suas fraquezas e virtudes, a força propulsora que os move, apesar dos caminhos (aparentemente) diversos que tomam. Sinto como se Gauguin tivesse sido privilegiado pelo escritor peruano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2010. O escritor que, por ser ele mesmo engajado nas lutas sociais de seu país, até mesmo tendo concorrido à presidência, poderia ter emprestado à personagem Flora Tristán a mesma poesia, a mesma delicadeza com que envolve e nos seduz em Paul Gauguin. O espírito revolucionário de Flora é sobrepujado pela liberdade selvagem de Gauguin, que nos apresenta as cores vivas e vibrantes especialmente do Taiti e nos convida a despir das camadas civilizatórias que nos embotam e fazem seguir um comportamento massivo e repetitivo dos seres considerados normais.

Mas o que é ser normal? Nos tortuosos caminhos percorridos tanto por Flora quanto por Gauguin, procuraram sempre estar de acordo com suas próprias consciências, com suas próprias paixões.

Existe um livro, honesto (ele não se propõe a mais do que isso) de Daniel Pennac, que nos apresenta os direitos do leitor:

“1 – O direito de não ler.

  2 – O direito de pular páginas.

  3 – O direito de não terminar um livro.

  4 – O direito de reler.

  5 – O direito de ler qualquer coisa.

  6 – O direito ao bovarismo.

  7 – O direito de ler em qualquer lugar.

  8 – O direito de ler em voz alta.

  9 – O direito de calar.” ([1])

Llosa chegou a me desestimular da leitura até quase o final do livro quando, então sim, através do encadeamento de tempos narrativos diversos, de me pôr numa espécie de bruma entre o que é sonho e o que é real, induz a uma dinâmica e empatia com os personagens, acelerando o ritmo percebido, me fazendo sair de uma maneira positiva da leitura.

A meu ver, a história de Flora Tristán poderia ter sido mais aprofundada e dada ênfase a liberdade dessa mulher que, para aquele tempo, escolheu o seu destino. Sinto uma espécie de caricatura no momento em que o romance com Olympia Maleszewska, o grande (e talvez único) amor da vida de Flora, é pincelado e tolhido de maiores detalhes (míseras cinco páginas).

Flora escolheu um caminho que mesmo hoje é repreendido pelas mulheres ditas modernas: a solidão. É certo que existiam outros elementos em cena (“A união operária”, etc), e concordo que ela se doou ao extremo por uma causa, excluindo de viver de maneira plena com alguém que amava para poder lutar por todas as outras mulheres e trabalhadores desvalidos semelhantes a si. Mas qual o problema de estar só? De ser só?

Lembro de uma discussão que tive com colegas de minha filha de dezesseis anos. Elas me chocaram ao afirmar que seu maior desejo era casar com um homem rico que as sustentasse. Não por precisarem financeiramente, mas para não trabalharem, não lutarem por um ideal. O que está acontecendo com essas meninas? E o que me apavora é conhecer mulheres adultas que pensam exatamente da mesma maneira. Para onde foi a luta de Flora Tristán, Simone de Beauvoir, Simone Weil, Isadora Duncan… e tantas e tantas outras mulheres que, juntamente com homens também especiais, revolucionaram o mundo em favor dos excluídos – leiam-se mulheres, negros, índios, homossexuais, judeus, mulçumanos, árabes… e todos os rótulos que tentaram pregar em nossas caras feito máscaras impossíveis de arrancar?

Não estou aqui para julgar a vida dos outros nem para ser feminista ou machista, mas por ter sido contaminada pela luta libertária de uma Flora tão incompreendida – inclusive por mim no início da leitura –, quando na busca incessante da dignidade, plenitude, do olhar no espelho e poder ver um ser humano.       

Mas não entrei neste livro totalmente desarmada quanto aos personagens – e talvez por isso a fluidez da leitura não tenha chegado à sua potência máxima. Principalmente em relação a Paul Gauguin. Após ler de maneira apaixonada Cartas a Théo([2]), de Vincent Van Gogh, percebo que Van Gogh me induziu a ficar ao menos cismada com seu amigo-inimigo de Arles. Mario Vargas Llosa teve como grande trunfo, para mim, apresentar um Paul Gauguin nu e verdadeiro, mostrar o outro lado das Cartas de Vincent Van Gogh a seu irmão Théo, o lado mais humano de dois seres geniais, Vincent e Paul, e que dificilmente poderiam permanecer juntos sem abocanharem e/ou reprimirem o talento um do outro.

Termino de ler O Paraíso na outra esquina, de Mario Vargas Llosa. Como escritora, leitora e pessoa saio maior, apesar e principalmente por causa das divergências, por aprender até mesmo com o que não gosto, com o diferente, com uma possibilidade de mim mesma que, em alguma encruzilhada da vida, me foi perguntado se “O Paraíso é aqui?” e o tentei encontrar na “outra esquina”.

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(1) Como um romance, Daniel Pennac, L&PM, pág. 126.

(2) Cartas a Théo, de Vincent Van Gogh, L&PM, especialmente da página 308 à página 318, onde trata do acidente de automutilação de Van Gogh.

Poemas de Monique Becher

 

A Busca
 
 A efervescência do inerte
 Faz-me buscar as cores do escuro
 O brilho da opacidade
 O tremor dos guerreiros
 A guerra dos paralisados
 O inócuo da multidão
 A solidão dos conquistadores
 A conquista dos sem-fala
 O eco do grito-mudo
 A tristeza dos felizes
 A felicidade dos poderosos
 O poder dos impotentes
 A letra dos analfabetos
 A sapiência dos ignorantes
 A ignorância dos letrados 

 

 Verde que te quero esperança
 
 
Pintei-me de verde
Para ser pura natureza
Fui musgo, lodo, trepadeira.
Busquei tua compreensão.
Que desilusão!
Tua cor é vermelho destruição.
Ó, ser humano, onde está tua razão?
Amarelaste teu pensar,
Descoloriste teu cérebro,
Empalideceste teu arco-íris,
Aprisionaste o negro.
Acorda, ainda é hora.
Clareia tuas ideias,
Ilumina tuas ações,
Atua na transformação.
Teu coração ao bater forte,
Extrapola o terror da inanição.
 Liberta-te, que te quero verde esperança.

 

moniquebecher@hotmail.com

Concorso Tra Secchia e Panaro

 

XVII Premio Nazionale di poesia edita e inedita

Poesia 2011 Circ 4

Inviato da Antonio Nesci: annesci@libero.it

Convite – João Frayze

joaofrayze@yahoo.com.br

(des)carnaval(ha) – fotofilme

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=1yq6X3J91jI

Patricia Tenório

Março/2011

 

(des)carnaval(ha)* é um fotofilme e vem para (des)construir o que precisa ser (re)construído… Fotos e edição: Patricia Tenório.

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* (des)carnaval(ha) inspira e é inspirado pelo conto de mesmo nome: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=1150

Il Poeta – Marisa Provenzano

 

È triste l’anima del poeta

i suoi occhi scrutano

oltre i sentieri del cielo

ripercorrono le vie

di memorie antiche

Il poeta raccoglie nelle mani

lacrime di dolore universale

È solo il poeta

i suoi passi risuonano cupi

sulla terra di antichi padri

Il vento soffia

irriverente sulle orme dei poeti

Muore all’alba la poesia

con i raggi che arroventano la terra

e non c’è l’ombra del poeta

sulla nuda terra povera di sogni

Il poeta si dissolve come nebbia

e le sue parole aleggiano nel tempo

sotto le fronde delle querce

tra le spighe di grano

sotto i roveti spinosi

sulle onde del mare

sulle ali di gabbiani solitari

oltre i colori dell’arcobaleno

perché il poeta è leggenda

o solo illusoria parvenza di parole.

 

O poeta

Marisa Provenzano

Tradução: Patricia Tenório

 

É triste a alma do poeta

os seus olhos escrutam

além dos caminhos do céu

retraçam as vias

das antigas memórias

O poeta recolhe nas mãos

lágrimas da dor universal

E apenas o poeta

e seus passos ressoam tristes

sobre a terra de antigos pais

O vento sopra

irreverente sobre as pegadas dos poetas

Morre na aurora a poesia

com os raios que escaldam a terra

e não existe a sombra do poeta

sobre a terra nua pobre de sonhos

O poeta se dissolve como névoa

e as suas palavras deslizam no tempo

embaixo dos galhos dos carvalhos

entre as espigas de grão

embaixo dos arbustos espinhosos

sobre ondas do mar

sobre asas de gaivotas solitárias

além das cores do arco-íris

porque o poeta é lenda

ou somente ilusório vestígio de palavra.

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Poesia premiata con il 1° premio, edita. (Diritti riservati)

Pubblicata ne ‘Il Convivio’ Anno XII Gennaio-Marzo 2011, Trimestrale di Poesia ed Arte dell’Accademia Internazionale ‘Il Convivio’, fondata da Angelo Manitta e diretto da Enza Conti.

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Poesia premiada com o 1° prêmio, publicado. (Direitos reservados)

Publicada na ‘Il Convivio’ Ano XII Janeiro-Março 2011, Trimestral de Poesia e Arte da Academia Internacional ‘Il Convivio’, fundata por Angelo Manitta e dirigida por Enza Conti.

marisaprovenzano@libero.it

patriciatenorio@uol.com.br

‘vida cachorra’, de Mariel Reis – Por Ronaldo Ferrito

 

02.04.11

Resenha de ‘vida cachorra’, de Mariel Reis. Editora Usina de Letras, 78 páginas. R$ 20

Por Ronaldo Ferrito

 

Certa crítica, se quiser de fato tornar-se contemporânea, deve reagir contra o distanciamento que cria entre si e as obras, quando paradoxalmente quer aproximar-se das mesmas com seus métodos.

Lendo os contos do livro — sem maiúsculas — “vida cachorra”, de Mariel Reis, de imediato percebemos a simplicidade imprópria do método que alguns críticos consagraram à literatura que localizam nos subúrbios ou nas periferias. A análise majoritariamente feita (e malfeita) assevera que essa literatura é mimética. Para tais comentadores, a obra do autor espelha a sua realidade, devendo adequar-se a ela para ter sua fundamentação e embasamento. Uma concepção que, além de mutiladora, é irônica, posto que se uma obra não realiza por si o real, também o real — conclui-se — não poderia engendrá-la como obra sua. Não poderia ser, portanto, a base e o fundamento de sua adequação.

Se tentássemos, contudo, com essa orientação metodológica, ouvir o que nos diz “vida cachorra”, certamente não ouviríamos o sentido desta “vida”, da qual o título nos dá notícias. E caso a classificássemos, já a princípio, como “literatura de periferia”, consecutivamente toda interpretação e leitura dessa obra seria conduzida e vergada ao que seu contexto social “periférico” poderia supostamente nos dizer, ao mesmo tempo em que colocaríamos em segundo plano o dizer da própria obra. Notemos que até mesmo a classificação “de periferia” parte antes da cena social em que a obra é produzida, sem que o próprio texto nos possa afiançar tal nomeação. Esse termo reduz a obra ao que ela jamais poderia corresponder: a ser uma fala social. É certo que a literatura de Mariel nos dá notícias de algo mais, algo para além dessa simples fala.

Se algum comportamento ou valor social setorizado aparece neste livro, ele surge como mediação para um conflito, mas não como o próprio conflito. O que fora da obra sabemos ser setorial ou regional, na obra se nos dá como sendo o mundo inteiro. Talvez a chave para essa leitura seja a construção de uma fala plenamente emancipada: sempre em primeira pessoa, no “vida”, cada narrador nos dá a versão do que viveu com uma autonomia de consciência e existência, sem que a intervenção de um autor reproduza sua situação social, localizando-a previamente.

Com um texto marcado por iniciais minúsculas, que geram frases sempre continuativas, e de ideias ininterruptas, expurgam-se os espaços das inserções autorais — nas quais um autor conduz o discurso subjetivamente —, para ouvirmos somente uma voz-personagem construindo o mundo, como se narrasse o mito de sua própria vida. Essa consciência autêntica do personagem nos traz uma hesitação: o comportamento e os valores são sociais, específicos, mas o conflito radica-se na existência de qualquer um. É a fala de um homem para o homem.

Tal é o caso do conto “indigestão”, em que a relação do patrão com seu empregado, ali existencialmente secundária, é sintomática de algo mais íntimo: a exploração não se dá no trabalho diretamente (que passa a ser vantajoso e confortável), mas na concreta indigestão humana da manipulação de sua família. O sucesso no trabalho passa a ser a recompensa da desumanização e da traição. O protagonista prefere não tê-lo.

Questões morais são colocadas em suspenso e dão lugar a uma ambivalência da ação, que não se justifica pela carência da condição social. Peguem-se, como exemplos, os contos “espírito natalino” e “sueli”. No primeiro, há um Papai Noel “bandido” que cobra por um assassinato, mas recusa, comovido, o dinheiro de um pai que desejava surpreender o filho com sua presença natalina. No segundo, a prostituta Sueli confessa sem rebuço, ou opróbrio, ter mais de uma clientela em sua vida: uma em casa (seu companheiro) e outra na rua:“no fundo, um outro cliente. de outro tipo.”

O fetichismo, o ritualismo, a loucura, a solidão, o indivíduo animalizado, a ipseidade egóica, a funcionalização do outro, todas essas potências e atualizações humanas são postas nesses contos sob uma narrativa antropogênica, isto é, de construção do humano. Mariel Reis tem o mérito de nos apresentar protagonistas vivos, ou — como ensina o crítico Ronaldes de Melo e Souza — “emancipados de autor”, e com experiências próprias para contar. Essa “vida cachorra” parece nos falar mais do fenômeno ôntico que é o homem, do que denunciar uma sua situação social.

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RONALDO FERRITO é autor de “A via excêntrica”.

Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/04/02/resenha-de-vida-cachorra-de-mariel-reis-372457.asp

roferrito@gmail.com

marielreis@ig.com.br

As joaninhas não mentem – Quatro línguas

 

 

  

Ensaio de As joaninhas não mentem

Texto: Patricia Tenório

Direção: Jorge Féo

Com:  Ísis Agra, Thiago França, Maria Luísa Sá, Jay Melo, Elilson Duarte e Romero Brito

 

 

Em homenagem ao Dia do Teatro – 27/03/11

 

O Mundo

As joaninhas não mentem, Patricia Tenório 

Editora Calibán, 2006

 

O primeiro passo, o mais difícil. Sempre diziam, e escutou. Assim deveria ser? Até agora acreditava que assim deveria ser. Seguir o que já fora trilhado por outros, caminhos desbravados?

Diferente, agora. Os passos pareciam mais macios, a terra mais fofa. A luz mais luz, o verde mais verde. O verde das árvores cegava, profundamente cegava Ariana. E ela não se perturbando.

Sensação estranha de não se perturbar. Sentimento alheio esse de seguir caminho, independente de onde se chegará. Acostumada em saber se chegaria, o destino outrora traçado, apenas executando ordens de Ama Lúcia. 

(…)

A noite caindo nas mãos de Ariana feito presente. Não sabendo o que fazer com ela. Voltar? E a insistência? Ou enfrentar os fantasmas sobre os quais a Imperatriz falou? Será que a Imperatriz já os enfrentou? Ou era conversa jogada fora, tal vontade que a puxava para trás, um convite delicioso a desistências. Tão mais e mais fácil.

Que deixe o Príncipe Átila. Não dorme há centena de anos? Não estou pronta. Preciso voltar, falar para a Imperatriz, me enganei, tanto e tanto e tanto. O cavalo Branco não parava de embrenhá-los cada vez mais na estrada dos Fantasmas Ocultos, para longe deixavam o caminho do retorno, da segurança, do tempo.

Cruel Tempo. Seu Tempo, não esperas, não sabes esperar? Ainda sou uma menina. Não sou mulher como pensas. Pedes mais do que posso te dar. O vento assobiando no elmo, parecia trazer murmúrios, segredos que o Tempo enviava? Serão do Tempo esses murmúrios? Ou os ouço do meu âmago, meu ser mais que ser? Minha voz ou a dele?

Porque o Tempo é um brincalhão. Travesso feito o Sol ou sábio feito a Lua? A Lua que tanto espera, e roda ao redor de si, e marca datas, quando crescer, diminuir, ou me sentir plena, ou mesmo vazia. Ela sabe do Tempo, controla, levanta marés, dá luz às crianças perdidas, enlouquece viúvos e une casais.

(…)

Il Mondo

Le coccinelle non mentono, Patricia Tenório

Casa Editrice Calibán, 2006

Trad.: Angelo Manitta

 

 

Il primo passo, il più difficile. Parlavano sempre, e lei ascoltava. Avrebbe dovuto essere così? Fino a quel momento credeva che così avrebbe dovuto essere. Doveva seguire ciò che era già stato calcato da altri, strade esplorate?

Le cose ora stavano diversamente. I passi sembravano più delicati, la terra più soffice. La luce più luce, il verde più verde. Il verde degli alberi accecava, accecava profondamente Arianna. E lei non si infastidiva.

Strana sensazione quella di non infastidirsi. Sentimento bizzarro quello di proseguire, indipendentemente da dove sarà giunta. Abituata a sapere che sarebbe arrivata, il destino in precedenza tracciato, eseguiva solo gli ordini di Ama Lucia.

(…)

La notte che cadeva nelle mani di Arianna un fatto presente. Non sapendo cosa fare con essa. Ritornare? E l’insistenza? O affrontare i fantasmi dei quali l’Imperatrice aveva parlato? Sarà che l’Imperatrice già li aveva affrontati? O era conversazione proveniente dall’esterno, come volontà che la  tirava indietro, un invito allettante a desistere. Tanto molto più facile.

Che lasci il Principe Attila. Non dorme da almeno cento anni? Io non sono pronta. Io devo ritornare, parlare all’Imperatrice,  io mi sono sbagliata, molto e molto e molto. Il cavallo Bianco non finiva di farli penetrare ogni volta di più nella strada dei Fantasmi Occulti, lontano lasciavano la strada del ritorno, della sicurezza, del tempo.

Tempo crudele. Il suo Tempo, non aspetti, non sai aspettare? Io sono ancora una ragazza. Non sono donna come pensi. Chiedi più di ciò che posso darti. Il vento fischiando nell’elmo, sembrava produrre mormorii, secreti che il Tempo spediva? Saranno del Tempo questi mormorii? O li sento dentro di me, il mio essere più che essere? La mia voce o quella sua?

Perché il Tempo è un burlone. Irrequieto fatto il Sole o saggia fatta la Luna? La Luna che tanto aspetta, e ruota intorno a sé, e segna date, quando cresce, decresce, o sentirmi piena, o anche vuota. Lei conosce il Tempo, controlla, alza maree, dà luce ai bambini perduti, fa impazzire i vedovi e unisce coppie.

(…)

Le Monde

Le coccinelles ne mentent pas, Patricia Tenório

Maison d´Edition Calibán, 2006

Trad.: Patricia Tenório & Isabelle Macor-Filarska

 

Le premier pas est le plus difficile. On parlait toujours et elle écoutait. Devait-il en être ainsi? Jusqu’à présent elle croyait qu’il devait en être ainsi. Suivre ce qui avait été tracé par les autres, les chemins défrichés?

C’était différent maintenant. Les pas paraissaient plus doux, la terre plus douillette. La lumière plus lumineuse, le vert plus vert. Le vert des arbres l´aveuglait, il aveuglait profondément Ariana. Mais elle ne se troublait pas.

Sensation bizarre de ne pas se troubler. Sentiment de n´être pas elle-même mais une autre personne, de suivre un chemin, peu importe où il mène. Elle savait depuis toujours qu’elle arriverait, le destin ayant déjà été tracé, elle ne faisait qu’exécuter les ordres de la Servante Lúcia.

(…)

La nuit tombait sur les mains d´Ariana comme un cadeau. Elle ne savait pas ce qu´elle ferait de la nuit. Retourner sur ses pas?  Persister ? Ou bien devrait-elle affronter les fantômes dont l´Impératrice avait parlé ? Serait-ce que l´Impératrice les avait affrontés ? Ou bien avait-elle parlé pour parler, mimant la volonté qui la tirait en arrière telle une délicieuse invitation au désistement. Beaucoup plus facile.

Laissons le Prince Átila. Ne dort-il que depuis une centaine d´années ? Je ne suis pas prête. Je dois m’en retourner, je dois parler avec l´Impératrice, lui dire que je me suis trompée immensément. Le cheval Blanc continuait de pénétrer de plus en plus profond sur la route des Fantômes Cachés, Ariana et le cheval Blanc laissaient loin derrière eux le chemin du retour, de la certitude, du temps.

Cruel, le temps. Monsieur le Temps, tu n´attends pas, ne sais-tu pas attendre? Je suis encore une petite fille. Je ne suis pas une femme comme tu le penses. Tu demandes plus que je ne peux te donner. Le vent sifflait sur le casque, il semblait amener des murmures, des secrets que le Temps envoyait. Venaient-ils du temps, ces murmures? Ou bien les entendais-je au tréfonds de moi-même, de mon être le plus intime ? Etait-ce ma voix ou la sienne?

Car le Temps est malin. Astucieux comme le Soleil ou savant comme la Lune? La Lune qui attend beaucoup, et roule autour d’elle-même, et signale des dates, quand je dois croître, diminuer, ou me sentir pleine, ou même vide. Elle sait le temps, elle le contrôle, elle lève des marées, donne la lumière aux enfants perdus, elle rend fous les veufs et réunit les couples.

(…)

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