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Su “Grãos”* – Alfredo Tagliavia**

 

14/03/11

 

I suoi racconti mi sono sembrati come piccole gocce di luce che illuminano il buio di una società infima, piena di preconcetti e di limitazioni.

I protagonisti appaiono come vittime di questa società, ma allo stesso tempo anche come persone capaci di ribellarsi e di liberarsi, di scegliere la propria strada su percorsi di vita sempre incerti e zoppicanti, quasi fossero appesi a un filo.

Questo è l’aspetto di “Grãos” che più mi ha colpito, il suo essere un contrappunto continuo fra buio e chiarore, luce e ombra, fra “luminoso” e “precario”, due elementi esistenziali tipici della cultura del Nordeste e del Brasile (ma oggi forse di tutta la società globalizzata).

Ma, alla fine della lettura, si rimane con l’impressione che le possibilità di salvezza e redenzione dell’essere umano siano sempre un po’ più alte, rispetto alle inquietanti ombre che minacciano la sua esistenza. 

 

Sobre Grãos – Alfredo Tagliavia

14/03/11

Tradução: Patricia Tenório

 

Seus contos me lembram pequenas gotas de luz que iluminam a escuridão de uma sociedade ínfima, cheia de preconceitos e limitações.

Os protagonistas aparecem como vítimas desta sociedade, mas ao mesmo tempo também como pessoas capazes de rebelar-se e liberar-se, de escolher a própria estrada sobre percursos de vida sempre incertos e defeituosos, tal estivessem penduradas por um fio.

Este é o aspecto de Grãos que mais me atingiu, o seu ser um contraponto contínuo entre o escuro e o clarão, luz e sombra, entre “luminoso” e “precario”, dois elementos existenciais típicos da cultura do Nordeste e do Brasil (mas hoje talvez de toda sociedade globalizada).

Mas, no final da leitura, se permanece com a impressão que as possibilidades de salvação e redenção do ser humano são sempre um pouco mais altas, em respeito às inquietantes sombras que ameaçam a existência. 

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* Grãos, Patricia Tenório, 2007, Editora Calibán

**Alfredo Tagliavia è nato a Roma nel 1978.

   Dottore di ricerca in Pedagogia presso l’Università degli Studi Roma Tre con una tesi sull’educatore e filosofo brasiliano Paulo Freire, ha trascorso diversi periodi a Recife (Brasile), dove ha collaborato con il Movimento per l’Interscambio Italia-Brasile dell’Università Federale del Pernambuco (UFPE), il Centro Studi Paulo Freire e l’Istituto Dante Alighieri, partecipando anche alle iniziative culturali del Consolato d’Italia. Ha recentemente pubblicato il libro L’eredità di Paulo Freire (EMI, Bologna 2011), oltre a diversi articoli e recensioni a tema pedagogico su riviste specialistiche e traduzioni dal portoghese di pubblicazioni nell’area delle Scienze sociali.

Alfredo Tagliavia nasceu em Roma em 1978.

   Doutor de pesquisa em Pedagogia pela Universidade de Estudos Roma Tre com tese sobre o educador e filósofo brasileiro Paulo Freire, passou vários períodos em Recife (Brasil), onde colaborou com o Movimento pelo Intercâmbio Itália-Brasil da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o Centro de Estudos Paulo Freire e o Instituto Dante Alighieri, participando também das iniciativas culturais do Consulado da Itália. Recentemente publicou o livro L’eredità di Paulo Freire (O legado de Paulo Freire) (EMI, Bologna 2011), bem como diversos artigos e comentários de tema pedagógico em revistas especializadas e traduções do Português de publicações na área de Ciências Sociais.

alftag@inwind.it

(des)carnaval(ha)

Patricia Tenório

09/03/2011

Acordou bem cedo para dar tempo de filmar o sol nascendo. Pegou a câmera, carteira de motorista e uns trocados…

– Para dar ao ladrão.

Alisou os cabelos da filha dormindo. Os cabelos longos de Ana Clara. Os cabelos longos de Ana Clara dormindo.

No carro, tentou filmar e dirigir ao mesmo tempo, feito quando brigou com Ana Clara; saiu, no meio da chuva para filmar seu primeiro curta, distinguir o sal da terra e as gotas grossas de chuva, de lágrimas?, de raiva, de amor?

Passou pela Ponte Giratória e parou o carro no lugar que desse tempo de ainda filmar o sol nascendo. Correu entre os foliões bêbados de sono, de cachaça, de quatro dias de carnaval, de brigas com o pai da única filha porque o vira dando um beijo no pescoço da colega de trabalho, ali, no Marco Zero das Américas, no Bairro do Recife, há dez anos.

Pudera voltar o tempo e retirar da câmera dos olhos aquela imagem, aquela certeza de que o amor acaba, acaba o carnaval, a gente cresce, não ouve mais mãe, não ouve pai, volta para casa às duas da manhã aos dezesseis anos, aos dezesseis anos voltamos a ser, eu e o pai de Ana Clara, estudávamos na mesma sala do Colégio Salesiano, queríamos ser fotógrafos, ele e eu, para sair gravando todos os instantes especiais de nossas vidas na câmara Kodak amarelinha que meu avô me deu de presente.

Os garis varriam o lixo cintilante do sol que nascera e não consegui filmar. A cadência das vassouras, pareciam inventar uma nova dança, um frevo silencioso que somente eu e minha mente fértil poderia escutar no início daquela quarta-feira de cinzas. Pensei em vir mais cedo, no domingo, na segunda, mas para quê perder a magia de desconstruir o carnaval, deixá-lo como na Idade Média, quando faziam banquetes de carne antes do jejum e abstinência da quaresma, disse-me o padre na missa. Disse a mim e a uns poucos fiéis que resistiram às ladeiras de Olinda, ao Bairro de São José, aos Papa-angus de Bezerros, aos Maracatus, Vassourinhas, Bloco da Saudade, Homem da Meia Noite e a mulher do dia em que Ana Clara, suja de placenta ainda, quente com meu sangue ainda, encostou em mim e meus lábios beijaram a cabecinha peluda da cor dos cabelos do pai.

Entro só na Rua do Bom Jesus. A câmera me protege do passado e abre espaço ao presente que me vem colorido e o que era silêncio ao meu redor, veio de longe, longe, a troça, os últimos foliões, corpos suados, fantasias molhadas de suor e cerveja, cantando a mim e às minhas lembranças que a vida continua no próximo carnaval, novos amores, novas cantigas e uma certeza de que não seremos mais os mesmos com os nossos pais.

Entre o eu e outro lugar

Patricia Tenório

02/03/11

 

A lei consegue que o outro seja outro, protege-o.

(“Heráclito e seu (dis)curso”, Donaldo Schüler)

 

            Penso na coincidência e oposição entre “Cisne Negro” e “O discurso do rei”.

título original: (Black Swan)*

lançamento: 2010 (EUA)

direção:Darren Aronofsky

atores:Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder, Vincent Cassel.

duração: 103 min

gênero: Suspense

título original: (The King’s Speech)*

lançamento: 2010 (Inglaterra)

direção:Tom Hooper

atores:Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Michael Gambon.

duração: 118 min

gênero: Drama

            Se no primeiro encontramos a submissão da filha aos desejos da mãe, no segundo, apesar do sufocamento, descobrimos um homem que o supera e se supera – o pior inferno não são os outros, somos nós mesmos.

            Agimos de acordo com o que alguém, algum dia nos impôs e que, na maioria das vezes não reconhecemos como os desejos do outro plantados em nossa terra fértil. Tentamos desesperadamente arrancar estes desejos, mas eles estão de tal forma emaranhados com os nossos (ou são eles os nossos?) que acabamos por arrancar o que na verdade nos pertence.

            Fugimos dos desejos e eles nos perseguem, na gagueira de um rei, nas alucinações de uma bailarina e não sabemos mais se somos nós ou a imagem no espelho o que existe, o que é real ou fantasia.

            Passamos do eu para o outro na tentativa de não nos vermos sós com esse monstro desconhecido que de nós emerge e nos persegue. Ficamos (e fincamos) raízes em terra alheia, em coros de estrelas distantes e distintas, até a estrela maior nos aparecer em sonho e nos tirar do pesadelo, para sermos muitos e sermos um, esfera universal da raça humana, que há milhares de anos se ergueu do pó e ao pó retornará.

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* Ficha técnica extraída de www.adorocinema.com.

Poemas, Daniel Lima*

 

 A casa revisitada

 

A casa onde nasci tinha um jeito risonho.

Tinha um quintal com mangueiras

E alguns pés de pitangas

e um pequeno jardim

de cravos e roseiras

e uma cisterna cheia de água de chuva

e um alpendre com redes sempre armadas.

 

Na frente, um portão velho que rangia

como se dissesse coisas tristes a quem por ela passava.

E dentro da casa onde nasci

Um corredor sem fim corria não sei para onde

E nem sei por que corria

o corredor sem fim da casa onde nasci

nem sei para onde.

 

A casa onde nasci era feia, era linda,

Era antiga, era nova.

Era a casa; era ela, era eu

E me era.

Era úmida e escura;

Mas sempre achei-a clara

E com o humano calor de um abraço amigo.

 

Úmido é o mundo

escuro é o mundo depois dela.

O mundo fora dela

é que é escuro e úmido.

 

A casa onde nasci tinha quartos e salas,

meu mundo, o impossível mundo de menino,

e havia retratos nas paredes,

horríveis retratos lindos

de gente que eu não conhecia,

mas de quem tinha saudade.

 

E havia, no centro, uma mesa de jantar

onde com meus irmãos, eu jogava baralho,

e uma cozinha onde minha mãe descascava cebolas

e, aproveitando, chorava. (…)

 

Não a vejo diversa, envelhecida.

É a mesma casa de antes.

E como ao repassar fotografias

de antigos álbuns amarelecidos,

eu é que me sinto envelhecido

e que me fiz diverso.

 

Ou que me fez diverso a vida.

A casa onde nasci guardou carinhosamente

o tempo nas janelas.

As mangueiras continuam

e os cravos e roseiras

para longe fugiram, foram embora

mas ainda os sinto em mim,

ainda os vejo em meus olhos.

 

Eu é que me sinto velho e diferente

olhando-a assim revisitada agora,

antiga e tão menina!

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Poemas, Daniel Lima, Editora Cepe, Recife 2011

 Fonte: Letras às Terças, Diário de Pernambuco, Luzilá Gonçalves Ferreira,  22/02/11

Convites

Dois contos de Carnaval

 

A ladeira da misericórdia

 Patricia Tenório

Participação na antologia Sonhos de Carnaval, 2008

           

          Decidi ser aquele meu último carnaval em Olinda. Enxergava o maracatu, as sombrinhas coloridas dos passistas, o Homem e a Mulher da Meia Noite. Sorvia lentamente um capeta de sirigüela – passava se arrastando apertado pelas amídalas, senti o gelado tombar no meu estômago vazio.

            Sentei na calçada dos Quatro Cantos. Observava. As fantasias mais coloridas, o calor sufocando, o sol queimando minhas íris* verdes. Um trem de pessoas entoava uma marchinha antiga. Parecia ver carnavais de outras épocas, nos chapéus com plumas da porta bandeira, o vestido armado se encontrando com os sapatos cobertos de glíter prateado; na cabeça, peruca barroca.

            Acompanhava os casais de namorados em cada pequeno gesto, um beijo na nuca suada da mocinha, abraços apertados de um vilão em frente ao muro pichado de grafite. Crianças molhando umas às outras. O sol quebrava-se em prismas de cor nos jatos de água, repousando numa cabecinha marrom.

            Os cachos desciam e subiam a ladeira dos ombros, ao som de Vassourinhas encolhiam-se, expandiam-se acompanhando a minha respiração ofegante: não teria cinco anos a menina. Usava uma fantasia de papel machê, mal lhe cobria o corpo roliço, macio. As sapatilhas azuis, quase cinzas, mostravam a trilha dos muitos passos dados naquela manhã de Sábado de Zé Pereira.

            Não havia mãos dadas com alguém. Me acompanhava na despedida de quem éramos, cúmplices no desejo de um mesmo personagem. Se ela Colombina, eu um Pierrot disfarçado; se eu uma Julieta velha, ela um Romeu travestido. Não nos importávamos com os olhos alheios, eu tantas vezes antes não me importara, levando crianças de igual idade ao meu atelier, dando-lhes bombons coloridos e viciados, jogando cartas até surtirem efeito, despindo-os em canções de ninar. Somente então tomava-lhes o corpo miúdo emprestado, saindo minha alma deste cansado e doente, contaminando-as em carne e espírito, esperando absolvição no próximo carnaval.

            Adorava esculpir na madeira depois de enterrá-los. No jardim, as estátuas marcavam o lugar dos caixõezinhos e lhes davam apelidos: Bolinha de Gude, Pipa, Boneca de Pano, Caminhãozinho. Uma vez tive muito trabalho com dois negrinhos irmãos, chuparam mais pirulitos que o necessário, entrei em êxtase muito antes dos pares de olhos esbugalharem, das minhas mãos longas cravejarem a espátula nas costas cor de jambo.

          Plantei-os debaixo do pé de jabuticaba e no verão seguinte os frutos eram mais escuros e doces, tendo eu que aproveitá-los em compotas e geléias frescas. Vendi toda a produção no Mosteiro de São Bento. Ri imaginando os monges degustarem com torradas os negrinhos que antes eu havia me deliciado.

          Acariciei os caracóis da menina sozinha, perguntei-lhe o nome.

          Eugênia.

          Numa suavidade saíam dos lábios as sílabas, minha cabeça girava querendo voltar ao passado e desistir do futuro.

            Só mais uma vez.

            Puxei a pulseira de Maomé e rezava na direção de Meca pedindo socorro para a tentação. Rezava as frases lentamente, com vigor e fé, mas não pedira àquelas mãozinhas gorduchas para desenhar minhas sobrancelhas, descer por meu nariz torto, descansando sobre os meus lábios.

          Havia de ser a última chance.

          Subimos a Ladeira da Misericórdia. Ela cantava o Hino do Elefante com a língua enrolada da idade, mais tarde se enrolaria nela mesma, eu começava a sentir o antigo formigamento nos dedos do pé esquerdo, as pernas, tronco e braços; quando encontrassem as unhas da mão seria tarde, o sol posto, o Mar Vermelho e o Rio Nilo descendo a ladeira, nos juntando ao Capibaribe e ao Beberibe formando o Oceano Atlântico.

 

Quando a chuva chegar**

 Patricia Tenório

Texto extraído de Diálogos, 2010

 

Pois onde estiver o teu tesouro,

aí também estará o teu coração.

Mateus 6, 21

 

          Há muito tempo não venho ao Galo da Madrugada, o maior bloco de carnaval do mundo. Nele, ganhei, perdi amores, ilusões e desafetos. Passeio cedinho entre foliões ansiosos no Forte das Cinco Pontas aguardando a saída do bloco; acontecerá em poucos minutos.

          Palhaços e colombinas, piratas, damas da corte, todos querem ser o outro por um dia; reconheço um sonho antigo meu: o que seria se eu não tivesse nascido neste corpo?

          Talvez fosse aquele homem careca, barrigudo; fantasiado de Super-Homem, esconde uma vida de servidor público, todos os dias a mesma rotina, a mulher o abandonou em busca de aventuras, os filhos adultos o visitam no Dia dos Pais.

          Ou quem sabe seria aquela moça baixinha? Fantasia de havaiana, tudo são flores e coloridas. Passou no vestibular de Letras, mas não colocou um band-aid rosa na sobrancelha porque o namorado não iria gostar. Sonha com uma casinha branca de janelas azuis, cinco filhos e um longo felizes para sempre.

          Mas me agrado com o Aladim. Por mim passa, uma caipirosca na mão direita, a esquerda levantada cantando Voltei Recife. De algum porto distante navegou e navegou porque era preciso; ganhou, perdeu amores, ilusões e desafetos.

          No Marco Zero a chuva se aproxima misturada com o oceano azulado. As ondas crespas verde-musgo se dissolvem na bruma das nuvens cinzas, percebo prismas de luz tombarem na escuridão do mar profundo.

          O Aladim se afasta atrás do Galo. Fico muda, cansada e sem forças. Espero. Quem sabe quando a chuva chegar eu me reconheço?

httpv://www.youtube.com/watch?v=VlVctBDu324&feature=related

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* ERRATA: Na antologia Sonhos de Carnaval está “pupilas verdes”.

** Diante da tela Rainstorm off the Coast at Brighton, John Constable

Febre

Clauder Arcanjo

clauderarcanjo@gmail.com

De sumir o gosto, febre.

De sentir o frêmito, febre.

De escalar o travo, febre.

De roer o osso, febre.

Enfim…

O gosto do frêmito no travo do osso.

Febrilmente… até o fim.