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Trois poèmes, couleur femme*

 

Etoile

Octobre 2006

Traduit de « Grãos », Maison d´Edition Calibán, Brésil, 2007

 

Ne me trouvez pas, ne me trouvez pas

Laissez-moi seulement cachée dans un rêve

Prenez cette étoile lointaine

Serrez-la sur votre poitrine

Et enorgueillissez-vous de l’avoir connue un jour.

Juste Une Étoile, Isabelle Boulay

       

Nom

Décembre 2006

Traduit de « Grãos », Maison d´Edition Calibán, Brésil, 2007

 

 

Je voudrais prendre ton nom

Et le cacher dans la profondeur de moi-même

Où je peux chercher ton sens et découvrir

Pourquoi tu ne sors pas de mes pensées

Trouver un lieu tranquille

Pour l’y laisser anonyme

Je demande et tu ne réponds pas

Parce que tu sais, oh, mon cher

Tu sais qu’il n’y a pas de vérité.

 

Sans nom

Mars 2009

 

La petite fille cherchait le mot parfait

Qui lui avait effleuré la peau dans un rêve

Ses pores exhalaient l´arôme du jasmin

Et les lettres embaumées dans les huiles ancestrales

Tombèrent sur son cou

Lui demandant de la bercer,

De lui raconter des histoires

Pour dormir d’un sommeil nouveau

Rêver des étoiles, des galaxies perdues

Et le mot parfait vaquait dans l’espace

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* Trois poèmes de Patricia Tenório publiées dans la revue L´Estracelle, Maison de la Poésie Nord-Pas-de-Calais, 2010 – Nº 1-2.

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Estrela

Outubro 2006

Extraído de « Grãos », Editora Calibán, Brasil, 2007

 

  

Não me encontre, não me encontre

 Apenas me deixe escondida em um sonho

 Pegue aquela estrela distante

Prenda no seu peito

 E orgulhe-se de um dia tê-la conhecido.

  

Nome

Dezembro 2006

Extraído de « Grãos », Editora Calibán, Brasil, 2007

 

Eu queria prender teu nome   

 E guardar na profundidade de mim 

Onde possa procurar teu sentido e descobrir

 Porque não sais dos meus pensamentos

 Encontrando um lugar tranqüilo           

Para ali deixar anônimo

 Eu pergunto e não respondes

 Porque tu sabes, oh, meu querido

 Tu sabes que não existe a verdade.

  

 

Sem nome

Março 2009

 

A menina buscava a palavra perfeita

Que lhe roçara a pele num sonho

Os poros exalavam aroma de jasmim

E as letras embalsamadas nos óleos ancestrais

Tombaram em seu colo

Pedindo ninar, contar histórias

Para dormir um sono novo

Sonhar estrelas, galáxias perdidas

E a palavra perfeita vagando pelo espaço

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* Três poemas de Patricia Tenório publicados na revista L´Estracelle, Maison de la Poésie Nord-Pas-de-Calais, 2010 – Nº 1-2.

Três contos inéditos

Luciano Bonfim*

 

COM O ESTANDARTE NA MÃO

Antonio percebeu que os cabelos dos meninos que fazem promessas para são Francisco são compridos. Às vezes ficava olhando a imagem do santo na sala de sua casa e não entendia porque isso acontecia. Ali, o santo aparecia quase sem cabelos. Apenas uma coroinha circular representava a sua cabeleira. Também notou que todos os meninos vestidos com trajes marrons, ao estilo do santo, além de não serem chamados de mulherzinhas, apesar da roupa e dos cabelos, não eram maltratados pelos pais. Mesmo quando aprontavam alguma, sempre aparecia alguém para defender e lembrar da promessa. Porém, existem pais que não combinaram com o santo para não castigarem filho desobediente.

Também se lembrou de outra coisa: muitos meninos que vestem aquela roupa não jogam bola na rua, tossem muito e têm piolhos. Menos o Nico – até que ele tem piolhos mas joga bola, corre em cima do muro da escola, briga, e não fica espiando e pedindo a merenda da gente na hora do recreio. É certo que o traje dele é mais preto de sujo do que marrom, além de ele viver mastigando o cordãozinho que fica preso à cintura amarrando o tecido ao corpo.

Ao ouvir na rua que uma promessa pode ser feita por causa de uma doença, rezou para ficar doente. Mas quando dizia sentir dores, sempre traziam chás e remédios de farmácia. Cansado de esperar pela promessa que não veio, começou a rir dos meninos vestidos em trajes à maneira franciscana. Nesta época, depois de uma briga na escola, começou realmente a sentir dores nas costas e no peito. A princípio não acreditaram. Depois consideraram ser (resultado da briga) por causa das pancadas. As dores continuaram por muitas semanas, ficando, inclusive, cada vez mais fortes; a ponto de nenhuma rezadeira ou médico conseguir curar tal problema. A família se lembrou de seus pedidos e decidida fez a promessa. Satisfeito, apesar do seu estado, insistiu para ir com a sua mãe à loja de tecidos e durante muito tempo usou contente o seu uniforme franciscano. Pela graça alcançada, a mãe não parava de louvar, rir e chorar. Compraram fogos de artifício para as noites de novena na capela e no dia da procissão, sem dores ou tosses, Antonio carregou bem firme o estandarte com a imagem do santo, também trouxe dois pulmõezinhos de madeira amarrados à cintura

 

RESSACA

 

Nossa! Você me lembra demais o seu pai… Por isso te odeio tanto! — disse a mãe à filha, antes de sufocá-la com o ursinho de pelúcia.

 

APESAR DA INSENSATEZ DOS CÃES QUE LADRAM NA RUA

Há vida no lixo que se acumula nas velhas sacolas de supermercado. Com amplo domínio da casa, as formigas, em disputa desleal com as baratas, inventam trilhas sobre os copos – agora livres dos enganos passados e habituais prisioneiros da desordem da pia. A imagem vinda da tela da TV se assemelha a cor do céu da manhã que talvez não me veja. As roupas no varal, apesar da insensatez dos cães que ladram na rua, dormem tranquilas, mimadas pelo vento da noite; e o meu corpo, vazio de roupas e significados, permanece à procura de um espírito…

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* LUCIANO BONFIM [Crateús/CE.]. Publicou: Dançando com Sapatos que Incomodam – Contos[2002]; Móbiles – Contos [2007]; Janeiros Sentimentos Poético[1992] s e Beber Água é Tomar Banho por Dentro[2006] – Poesia ; escreveu e montou as peças: Auto do Menino Encantado[2002] e As Mulheres Cegas[2000 e 2004]; criador da revista Famigerado – Literatura e Adjacências[2005]; professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA[desde 1996]; Mestre em Educação Brasileira[FACED-UFC/2008]; selecionado pelo programa Bolsa Funarte de Criação Literária/2010 – FUNARTE/MinC.

e-mail: luciano.bonfim@yahoo.com.br

“Pontes” no Cine Banquete – 16/02/11

 
 
Sentimentos à flor da pele no Cine Banquete
 

 

Nesta quarta-feira (16) o Cine Banquete promove a quinta edição do Banquete de Curtas com vídeos que extrapolam sentimentos. Na programação os pernambucanos “A Partida”, “Pobre Rapaz”, “Pontes” e o cearense “Verão”. A sessão acontece a partir das 19h, no Espaço Cultural Banquete e a entrada é gratuita.

Como de praxe, os representantes dos curtas estarão presentes na sessão e defenderão o porquê que seus vídeos devem ser premiados. O público escolherá o melhor curta-metragem através de votação na urna localizada no espaço. O vencedor ganha um jantar no próprio restaurante com direito a acompanhante.

Para as próximas edições da mostra serão aceitas inscrições de vídeos com tema livre e foco na pluralidade da produção cinematográfica, que tenham sido finalizados em qualquer período, nos gêneros ficção ou documentário, realizados em qualquer formato desde que possuam cópia de exibição em DVD. Os curtas-metragens deverão ter duração máxima de 25 minutos.

As atividades do Cine Banquete ocorrem, ordinariamente, sempre na 2ª quarta-feira de cada mês, iniciando às 19h, no bar e restaurante Banquete. O Espaço Cultural fica na Rua do Lima, 195, no bairro de Santo Amaro, em Recife. Maiores informações sobre o Banquete de Curtas através do e-mail cinebanquete@gmail.com ou pelos telefones  (81) 9950-0166 / (81) 9952-7283 / (81) 9150-9482.

Vídeos a serem exibidos:
Direção: Sandra Ribeiro
Fic, 19min, 2003

A Partida

Um velho ilhado na cidade grande vê o mundo da janela de seu apartamento. Viajando na lembrança, volta ao interior de Pernambuco quando, ainda jovem, sonhava em partir. Para isso, era preciso romper com a avó, sua raiz nesse fim de mundo. Adaptação de um conto de Osman Lins.

Pobre Rapaz
Direção: Arthur Lira
Fic, 11min, 2007

Uma obra simples, mas com um profundo tema abordado: os sentimentos humanos. A anormalidade fora do seu tempo e valores traz ao nosso Pobre Rapaz um conflito existencial em busca da felicidade. O sentimento de desejo acaba por se tornar a vontade de não ser mais aquilo que se é.

Pontes
Direção: Patrícia Tenório
Fic, 06min, 2010

“Ontem ouvi dizer que as pontes falam. Que relação existe entre as pontes e os sentimentos?”

Verão
Direção: Bárbara Cariry
Fic, 08min, 2009

É verão. O amor adormecido desperta na doce carícia da chuva. Os namorados estão iluminados pela mocidade. Ah! Que esta estação quente te seja propícia com seu corpo de diamantes.

Serviço:

Cineclube Banquete
Banquete de Curtas

Data: 16/02/11
Hora: 19h
Local: Espaço Cultural Banquete / Bar e Restaurante Banquete
Endereço: Rua do Lima, nº 195, Santo Amaro, Recife.
Entrada: Gratuita
Contatos:
(81) 9950-0166 – Amanda Ramos
(81) 9952-7283 / 9150-9482 – Fernando Luiz
cinebanquete@gmail.com

Diálogos com Diálogos*

Rodrigo Malagodi 

31/01/2011

CERTEZAS

Na valsa quieta, dois, quatro braços cercam meu corpo ávido de abrir mão do não. Quero abrir aquela caixa que tem o sim dentro.

SURTO

A vertigem do clipe projetou-se em minha testa por dentro – nenhum corte pode ter mais do que meio segundo, meu deus do céu, vira logo esta página.

SEPULTURA

O mar que transbordou dos olhos de Mariana estava contaminado do preto que alguém derramou naquela tela?

ORAÇÃO

Patrícia, não tivesse sido a mão apoiada na cabeça derretida de tesão, eu diria que foi o vermelho da roupa dele que lhe inspirou a escrever esse ménage a trois.

ULTIMO SANTUÁRIO

Ouvi dizer que só se cresce conforme o vento sopra, e que vento moldou esse prédio? Serei um prédio assim também, e só quando chegar à cobertura, agradecerei pelas raízes de ferro e dor e força de não mais tombar com os ventos.

PRISÃO PERPÉTUA

O caminhar de Patrícia tangencia o Rio Sena e por ela passam, a favor da correnteza e contra o tempo correnteza, paralelamente, peixes, livros, canetas, amores. Cadê Patrícia? Já desceu a escada para o rio e pegou a caneta que escreve conforme seus sonhos-água fluem.

ESCADARIA

Eu estou num degrau abaixo de três e partir do seu degrau que não é seu, se você puder subir mais, se eu posso e quero subo e desço, o que não é bom, mas também não é ruim. Procurei os significados de bom e ruim no dicionário e não achei. Feliz, infeliz também não constam no volume deixado no último degrau para tropeçarem, último degrau contando a partir de cima, a partir de baixo, tanto faz.

OLHOS FECHADOS

Cansado, tantos de meus olhos já fechei, e de tais escuridões fui me esquivando, parindo novos olhos. Ainda com medo dos silêncios ao redor da respiração desse eu com quem geralmente não quero estar, ligo a TV, vou a encontros, enfim, qualquer paradeiro.

O RETORNO DAS LENTES COR-DE-ROSA

O doce e o amargo são dois pés para uso no caminhar pelo mundo parcialmente cinza. Perseguir passarinho verde é a nova ordem no hemisfério rosa, segundo decretou a nova rainha Menina de Tranças. Ela também ordenou a retirada de algumas árvores para ampliar a visão, simplificar os caminhos.

 ORÁCULO

Não me encontrei nem em Liverpool.

“Não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas”.

Quero a excursão irregular, criar um novo caminho, neologismos, desvios e danças dos pés, sofreguiando, amaldiçoando as pedras, ziguezagueando, acariciando, pois rolaram até aqui essas formas de realidade.

O ECO

Então a fúria é ainda maior no pouco atrito das duas superfícies lisas?

Leite sustenta, mel adoça: garantias ainda mais fortes de vida para tantos buracos, vãos, espaços de preencher?

Sim, o grito é ainda mais alto dentro do silêncio.

UM CELULAR ABANDONADO

Queria definir tópicos que filosoficamente nos guiassem até uma resposta para essa pergunta:

Se a tecnologia torna o mundo menor, por que nos distancia?

Encontros de verdade, só escondidos no banheiro.

NATUREZA MORTA COM MAGNÓLIA

Serei uma sonda por dentro das artérias de Magnólia. Serei as próprias misturas químicas e toda a dança dentro do sangue dela. Serei a projeção dos elementos minerais, tiro de sensações ao cérebro, o próprio sonho dela. Queria embarcar logo nessa viagem sem fim.

SALSA, COENTRO E CEBOLINHA

Envelhecer.

Um pouco mais envelheci num desses domingos, diante do forró – a Salsa brasileira? Ops, escorreguei no passo largo demais.

Que forró é esse que aprendi, passinho pra frente e pra trás que nada! Olha só o que aqueles casais fazem.

A sintaxe tem seus segredos, mas é lógica demais para explicar tal sintonia e imprevisibilidade das quatro pernas. Será porque tenho só dois olhos?

Nas relações sou sempre Fabrício, querendo encarnar naqueles caras brincando com as parceiras, suas bonecas de pano suado. 

 EM BUSCA DO GATO DE SCHRODINGER

É que nos olhos do gato a escuridão é maior do que a que há na noite dos outros bichos – por isso um gato, e não uma coruja, na caixa.

Mas sabe, que bom que em nossa sala haja cantos escuros. Eles instigam a curiosidade, o movimento. Aqui dentro, os cientistas iluminam mais um pouco, o cético finge que o escuro não existe e o dogmático, preguiçoso, tira conclusões precipitadas.

Tateio a escuridão aqui:

Que mistério maior do que o do gato é o seu vermelho a ser desfiado, Patrícia?

A MÃE DO MUNDO (AS MÃES DO MUNDO)

O sonho: enquanto duas mãos de unhas vermelhas e uma boca com sede exploram, imprevisível percorrer a textura da minha pele, encontrando traumas, cicatrizes, clareiras lisas e florestas ásperas, as outras duas mãos assumem meu controle, segurando o cabo do timão para que essa boca o sugue mais devagar do que espero, minha cabeça gira mais rápido do que o mundo de tantos lagos para meus infinitos mergulhos.

ESTRELA BRILHANTE

Quem disse que quero desafiar essas suas atitudes brilhosas?

E saiba você que meu chapéu protege os meus pensamentos que defendem o coração.

Pobres de minhas mãos pequenas que, se não seguram na minha caneta dura de escrever, brincam de boneca, mas só com as mais atrevidas, acalmando-as como só duas mãos pequenas podem desvelar.

ARITMÉTICA

O melhor roteiro dela seria o pai chegando ao recital de piano, pisando tecla a tecla na escala disforme, mas ela nem ouve. Não importa a música – só o pai chegar até ela que espera sentada no mais agudo dos dós.

A ÁGUA MOSTRA O CORAÇÃO PARTIDO

Parada, ela se estraga. Em movimento, se estraga menos.

O coração da água implode e se parte.

Chorar é a última melhor opção, mas o chorar da água é redundante.

ARQUEOLOGIA

Fonte contínua. A única verdade é a Biologia.

Esculpir no chão (parede de barro deitada) uma identidade.

 QUANDO A CHUVA CHEGAR

Os carnavais tem sido assim, como outras festas de fantasia, como todas as segundas-feiras tem sido, eu tendo sido pirata, hippie, namorado, don juan, marido, roqueiro, ator, filho, irmão, escritor, evitando adereços de expectativas, pequeno abaixo da nuvem de chuva tão grande cobrindo de Recife a Amparo.

CONTO UM CONTO

Eu também quero contar. Num certo conto recente, a menina ruiva é uma escultura de mármore ou a própria nuvem que se desfez em água e lágrimas e nós dois encharcados e distantes lamentando a chuva de novembro, sempre novembro. 

UNO E VERSO

“Deixei de ser eu para sermos uno”.

Levantei-me com minhas próprias pernas.

Deixo de ser eu para sermos uno.

Levanto-me com minhas próprias patas.

Deixarei de ser eu para sermos uno…

 … levantar-me-ei com minhas próprias penas.

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* Diálogos de Rodrigo Malagodi com Diálogos, de Patricia Tenório.

Rodrigo Malagodi é autor de Cidade Portuária Paixão e está com mecarregaTECARREGO  no prelo. Contato: rodgiovanini@hotmail.com.

Tela escolhida por Rodrigo: Patrick Moir, de Henry Raeburn.

37 pulsações

Por Shirley Lima*

Anoitecia, era o primeiro pulsar do sereno. No fundo do mar, os ventres dos continentes  se alastram e carregam os impulsos das ondas. Pulsos entrelaçam-se e alguns impulsos invadem os estúdios de novas células, dilatando um novo ser, que logo se propagará para observar o horizonte. As células são constantemente submetidas às pulsações dos tecidos, mesmo quando o corpo encontra-se em repouso, quando os cinco sentidos estão adormecendo…

O repouso dos olhos, por exemplo, é a pulsação estagnada dos cílios, são as pupilas no repouso de uma dilatação. Mas foi justamente o meu olhar estarrecido que na puberdade vislumbrou algumas situações ao teu lado. Tinhas por vezes uma expressão de leveza, que vinha na minha direção. Cabendo naqueles instantes a frase mais corriqueira para o seu olhar…

Permanecias livre, leve e solto. Porém, nada era  dissoluto,  solto. Nada parecia menor, nada era tão leve, tão solto. Maior, só a minha indagação momentânea.

Os meus limites desenfreados, as ligações inesperadas, estas foram dilaceradas, feito as extintas cartas que a pulsação mais forte da tecnologia se encarregou de deixá-las  encobrir-se pela brisa do seu olhar recuado. Nem tudo foi tão claro, nem tão doce, nem meio amargo. Foi como  a travessia de um rio, sem o áudio das garças, quando contemplei um beijo teu diante de um rio sem máculas. Os batimentos cardíacos seguiam assoreando o meu sentimento, já dilatado diante das estações. Quantas primaveras já viste pulsar? 37?

As 37 pulsações…

Não podem ser o número exato dos teus momentos mais sublimes, mas podem ser a representação da sístole e da diástole das 37 primaveras que por ti passaram, reverenciando-te, cada vez que em  uma nova  idade as suas células se propagaram, renovando-te, lapidando a tua face, o teu jeito arredio, a tua voz suave que a  cada manhã surge nas primeiras pulsações de um novo dia. E, seja quantas forem as pulsações das próximas primaveras, os seus batimentos se renovarão, mesmo quando a brisa insistir em carregá-las.

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Shirley Lima escreve para o blog www.recantodasletras.uol.com.br

Contato: shirleypessego@hotmail.com

O Amor Perfeito existe?*

Patricia Tenório

06/02/2011

(Melhor ver com o Internet Explorer)

Para a Confraria das Artes

&

Gabo

Me perguntam se o Amor Perfeito existe. Penso ser esta a questão primordial do Ser Humano, para o que viemos a esse mundo, mesmo que o coloquemos num trono distante e inatingível.

Pouco a pouco a foi idealizando, atribuindo-lhe virtudes improváveis, sentimentos imaginários, ao fim de duas semanas a única coisa em que pensava era ela.

Às vezes perseguimos o que não possuímos, o que não nos foi legado de geração em geração, o que não nos foi ensinado na matemática da vida.

Contudo, Fermina Daza estava ainda a salvo da mera curiosidade do amor, e a única coisa que lhe inspirava Florentino Ariza era uma certa pena, porque lhe pareceu que estava doente.

O vemos pela primeira vez. Inocentes, mergulhamos no mar sem fim, escavamos para encontrar terra fértil e o fazer germinar.

Lembrou a ele que os fracos não entram jamais no reino do amor, que é um reino impiedoso e mesquinho, e que as mulheres só se entregam aos homens de ânimo resoluto, porque lhes infundem a segurança pela qual tanto anseiam para enfrentar a vida.

Ouvimos pedidos de casamento, juras eternas de um amor perdido no tempo, no espaço. Nas horas.

… Fermina Daza se sentia tão confusa que pediu um prazo para pensar.

Mas o Amor Perfeito não passa, não nasce de um simples instante, não se constrói do nada. Ele nos alicerça onde pertencemos, o lugar para onde retornaremos em busca de sal e luz do mundo.

E mais: do instante em que se viram pela primeira vez até o instante em que ele reiterou sua determinação meio século depois, jamais tiveram uma oportunidade de se verem a sós nem de falar de seu amor.

Abro a cortina e vejo a luz despontando no horizonte, entregue por mães, mulheres que se apresentam a mim pela primeira vez, e pela primeira vez sinto que o coração se aquece.

Uma noite voltou do passeio diário atingida pela revelação de que não só poderia ser feliz sem amor como também contra o amor.

 

Não bastam os encontros. É preciso o olhar sincero, mãos que se estendem e não me deixam só, palavras acarinhadas aos ouvidos e olhos numa noite em minha casa.

Naquela tarde, enquanto o pai dormia a sesta, mandou-lhe por Gala Placídia uma carta de duas linhas: Hoje, ao vê-lo, descobri que só nos unia uma ilusão.

Por mais enganos, desencontros, ele estará sempre, lá, aqui, no âmago da palavra chamada desejo.

Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado.

Nos encolhemos à sua procura, padecemos por não sabê-lo mais perto do que imaginávamos.

Florentino Ariza não sentiu ciúme nem raiva, e sim um grande desprezo por si mesmo. Sentia-se pobre, feio, inferior, e não só indigno dela como de qualquer outra mulher sobre a terra.

Mas vem o vento com o tempo escamando a pele em rugas e nos traz a sabedoria dos pequeninos, a paciência dos que muito viram, e sentiram, e amaram.

O comandante olhou Fermina Daza e viu em suas pestanas os primeiros lampejos de um orvalho de inverno. Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido, e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites.

Cortemos o que não nos vê, lancemos fora a quem nos reprova. Abramos o coração altivo e infinito para os que enxergam em nós a imensidão de amar e ser amado.

Acabou pensando nele como jamais imaginara que se pudesse pensar em alguém, pressentindo-o onde não estava, desejando-o onde não podia estar, acordando de súbito com a sensação física de que ele a contemplava na escuridão enquanto ela dormia, de maneira que na tarde que sentiu seus passos resolutos no tapete de folhas amarelas da pracinha, custou a crer que não fosse outro embuste da sua fantasia.

Casados, solteiros, a maior solidão é de quem não se enxerga, inteiro, como presente da Criação, Bondade e Amor infinitos.

Contudo, era sua convicção que uma viúva desconsolada, mais do que qualquer outra mulher podia carregar em si a semente da felicidade… As muitas viúvas de sua vida, a partir da viúva de Nazaret, tinham tornado possível que ele vislumbrasse como eram as casadas felizes depois da morte dos maridos.

Mas é preciso construir, cuidar dia-a-dia, senão a semente morre e não germina, a planta cresce e não dá flor, o fruto nasce e apodrece.

O problema do casamento é que se acaba todas as noites depois do amor, e é preciso tornar a reconstruí-lo todas as manhãs antes do café.

Para que cada instante seja único, na alegria, na tristeza, na morte-vida dos seus sonhos, dos meus sonhos. Dos nossos.

O problema da vida pública é aprender a dominar o terror, o problema da vida conjugal é aprender a dominar o tédio.

Não haverá encontro igual ao outro, idéias, percepções serão distintas, dores e prazeres comungados, nesta festa que se chama Confraria das Artes.

Mas se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão a luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.

E o muito obrigada a Gabo que nos convida a nunca desistir de buscar o Amor Perfeito, mesmo que se passem cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias.

O Amor nos Tempos do Cólera

título original: (Love in the Time of Cholera)

lançamento: 2009 (EUA)

direção:Mike Newell

atores:Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, Benjamin Bratt, Fernanda Montenegro.

duração: 139 min

gênero: Drama

httpv://www.youtube.com/watch?v=l7pSWkCd3Xk&feature=related_________________

* Um diálogo com as frases escolhidas por Alice Côrtes e Diana Corte Leal, da Confraria das Artes, frases retiradas de O amor nos tempos do cólera, de Gabriel Garcia Marquez. Informações e fotos retiradas do site www.adorocinema.com/filmes/amor-nos-tempos-do-colera

Acorda Mariquinha*

Newma Cynthia Ferreira

Ao chegar do serviço, o barbeiro encontrou a mulher na sala. Sentada na cadeira de bambu reforçada, equilibrava na cabeça um saco plástico cheio de gelo, no colo vários remédios para diabetes, pressão alta, coceira, impinge e tantas outras mazelas, no chão, potes de margarina, farelo de bolachas, grãos de feijão que havia debulhado e dois caroços de manga arrodeado de formigas. Jogado num canto de parede, o caderno de notas.

Bartolomeu e Dona Mariquinha moram no subúrbio há quase quarenta anos e desde que Junior, único filho do casal, decidiu tentar a vida em São Paulo, ela passa o tempo anotando os acontecimentos da rua avistados do segundo andar da casa.

Também vive azucrinando a cabeça do marido, tentando convencê-lo em mudar-se para uma residência dessas conjugadas, bem compridas, onde possa colar o ouvido num copo barato de extrato de tomate encostado na parede, e escutar tudo o que se passa pela vizinhança.

A dedicação é tanta que levou um susto quando se deu conta que seu Coisinha, apelido que dedicara ao pedinte mais antigo do local, não estava sentado na calçada da padaria.

– Mataram o homem! E quem é aquela magricela? – resmungou, passando a limpo a novidade no caderno. Só então se deu conta que há exatos três dias não mencionara a presença do mendigo. Não havia um registro sequer, de quantas pessoas jogaram moedas e dinheiro no chapéu velho. Perdera-se na contabilidade, quanto tivera apurado?

Sim, porque dali mesmo, por entre um cobogó e outro no alto da moraria, construído para projetar a visão mais ampla do bairro, passa no mínimo quatro horas a observá-lo, e garante: – ele não apura menos de milequinhentos por mês.

A novidade lhe obriga a andar pelas calçadas e se há uma coisa que odeia é ter que sair dos aposentos. Bartolomeu sempre alerta que podem fazer fuxico a respeito, além do mais, os quase cento e cinqüenta quilos exige todo ar que ela respira.

Mesmo assim, caminhou até a esquina com dificuldade, encostou-se num muro de  chapisco, tirou do bolso o conjunto de folhas para fazer as anotações enquanto atocaiava. – Essa siriema não fica parada, anda por entre os carros, aborda o povo, abre um sorriso amarelo e em menos de trinta minutos tem pra lá de cinco reais no bolso, aposto.

– Assassina, matou o dono do ponto para enriquecer no lugar. Se passasse uma viatura da polícia agora mandaria prendê-la. Como pôde fazer tamanha maldade com o pobre homem? – Esbravejava a ira dando o veredito como certo.

Pelas pernas escorriam suor que ardiam quando em contato com as feridas escondidas por baixo da roupa. Um vestido sujo de gordura das sardinhas que assara as pressas, com sentido nas coisas externas. No calor, as brotoejas do pescoço coçavam mais do que podia suportar, cansada, não atravessaria a rua a troco de nada, sentia vontade de apertar a jugular da homicida para ouvir-lhe a confissão.

Ao alcançá-la ficara pálida, com os olhos arregalados ouviu-a contar, de maneira educada, que estava ali há dias, pois de segunda a domingo o ponto lhe pertencia, alugado com todas as formalidades pelo velho, que por causa da filariose não sairia do barraco onde mora, esperando para receber a parte do combinado.

Voltou para casa com dor de cabeça. Nunca precisara tomar satisfação com ninguém, seus escritos não tinham rasuras, tudo porque nos últimos dias assistira desenho animado, jornal local, sessão da tarde e vários programas de culinária na TV, senão tivesse sido desatenta teria testemunhado a negociação que, segundo a pedinte, fora firmada na rua, às três da tarde. 

– Mariquinha, o que esse caderno faz no chão? – perguntou o marido assim que a encontrou na sala. E sem esperar resposta foi direto ao quarto, sentou-se à beira da cama. Aí, tomou conhecimento que seu Coisinha partiu dessa para outra e foi de morte pela nova mendiga na disputa pelo território, leu também que a siriema está metida em outras mutretas, jurada por um tal filho de seu Lariose, um morador de rua quem deve muito dinheiro.

Bartolomeu adormecera com um sorriso no canto da boca. Pela manhã, sairia logo cedo, como de costume, para contar as novidades à clientela atenta, não sem antes, comprar cadernos novos.

________________________________

* Texto publicado na sexta versão do livro “Contos de Oficina”
Antologia anual que reúne a produção dos alunos da Oficina de Criação Literária Raimundo Carrero
Contato: newminha@hotmail.com

O acordar de Newma Cynthia*

Patricia Tenório

02/01/2011

Dizem que talento nasce com o artista. Outros acreditam que se pode ensinar.

Newma Cynthia me revela o despertar de um sonho antigo: “sempre tive facilidade para escrever”. Mas quando sentimos que o artista é nato, que carrega consigo a doce (e amarga) missão de se expressar através das palavras?

Para o artista, a expressão é a única forma através da qual ele é capaz de imaginar a vida. Para ele, tudo o que está mudo, está morto. ([1])

Newma nos convida a desvendar quem são Dona Mariquinha e Bartolomeu. Nessa viagem, identificamos elementos tão nossos, “um copo barato de extrato de tomate”, ou a curiosidade encoberta pela vergonha de querer tudo saber sobre a vida dos outros. Mas a descoberta de quem são esses personagens é feita aos poucos, em detalhes escondidos na “cadeira de bambu reforçada”, ou quando “Bartolomeu sempre alerta que podem fazer fuxico a respeito”, para deduzirmos que “os quase cento e cinqüenta quilos exige todo ar que ela respira”.

Kafka nos lembra que

só posso retraçar com palavras humanas o que então era sentido à maneira de macaco ([2]).

Vestimos a pele do personagem para revelarmos, em primeiro lugar a nós mesmos, vertigens do que não será, ou se fosse o que seríamos. Alargamos fronteiras, “experienciamos” paragens que nos une a algo maior, uno e diverso da criação.

Mas a própria experiência empírica, a própria observação dos fatos estéticos em tempos e espaços variados termina revelando uma unanimidade dos melhores espíritos a respeito dos artistas colocados acima da média, isto qualquer que seja o tipo de cultura ao qual eles pertenceram([3]).

Quando o artista se torna independente? Quando as influências transmutam-se em sangue, e o sangue em carne das palavras? Pulsa nas veias de Newma os mestres, os livros que leu e tomou como seus, o que ouviu falar sobre o escrever. Mas somente ali, quando com papel e lápis se inscreve no ser, quando vivencia a absoluta solidão, as palavras sussurram segredos do que está por vir, os mistérios somente a si desvendados.

“Mesmo assim, caminhou até a esquina com dificuldade, encostou-se num muro de chapisco, tirou do bolso o conjunto de folhas para fazer anotações enquanto atocaiava”.

Por

que eu lhe agrado e tenho importância para você exatamente por ser como um espelho seu, porque dentro de mim há algo que responde e compreende o seu ser? ([4])

Despeço-me de Newma Cinthia fazendo-lhe um apelo: não perca o olhar curioso, explorador da novidade, de ser criança e anciã ao mesmo tempo, de se perguntar se é isto realmente o que desejava dizer, de sempre duvidar e de sempre acreditar em si…

Quando alguém permanece muito tempo sozinho, quando se passam anos e anos sem que um diálogo vivificante e inquiridor o estimule a levar essa modesta civilização da alma que se chama lucidez até as zonas mais intricadas do instinto, até essas terras realmente virgens, inexploradas, dos desejos, dos sentimentos, das repulsas, quando essa solidão se converte em rotina, quando alguém vai perdendo inexoravelmente a capacidade de se sentir sacudido, de sentir que ainda vive. Mas vem Avellaneda e faz perguntas, e a partir das perguntas que faz, eu faço outras tantas, e então sim, agora sim, sinto-me vivo e sacudido. ([5]) 

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*  Sobre “Acorda Mariquinha”, Newma Cynthia Ferreira, “Contos de Oficina VI”, 2010, Organização Raimundo Carrero.

(1) De Profundis, Oscar Wilde.

(2) Um relatório para uma academia, do livro de contos O médico rural, Franz Kafka.

(3) Iniciação à Estética, Capítulo XXXV, “A estética Filosófica”, Ariano Suassuna.

(4) O lobo da estepe, Hermann Hesse.

(5) A trégua, Mario Benedetti.