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Diálogos – 25/01/11

 

 

Oráculo*

 

Levaria uma hora de carro entre Belo Horizonte e Sete Lagoas. Cíntia uma vez foi de ônibus, precisava misturar-se com o suor de um dia de trabalho, o aroma das frutas e verduras nas sacolas de feira, a tontura das curvas fechadas; no volante o motorista jovem.

– Adélcio.

Perguntei várias vezes enquanto caminhávamos até o estacionamento do aeroporto. Lembrei de uma maneira de se gravar um nome.

– Quantos minutos para chegar a Sete Lagoas, seu Adélcio?

– Está muito frio estes dias, seu Adélcio?

– O senhor pode desligar o rádio, seu Adélcio?

Saímos no outro dia bem cedo para Cordisburgo. A cidade do coração.

Existe uma cidade onde nosso coração se instala? Ou seria aquela onde depositamos sonhos de criança, esperando um outro que nos reconheça?

– O senhor é aquele ator da novela das oito?

Ajeitei os óculos escuros, abri a janela do carro, fotografei as nuvens.

 

As nuvens.

Nuvens que me abraçam, nuvens calmas, nuvens silenciosas. Elas queimavam ontem ao pôr do sol. Hoje sussurram segredos, provocam mistérios.

– A estação de trem defronte à casa de Guimarães Rosa.

Será por isso sua busca por outras paragens? Viajar abandonando a si para ser o outro? Na pele do personagem, a minguilim Polyana recita trechos, musica palavras.

– Somente na voz de um mineiro essas palavras brilham.

(Polyana pediu um autógrafo.)

Na venda de seu Fulô, encontro cavalinhos de madeira, bacias de alumínio em que minha avó Rita juntava as mangas-rosas e distribuía com os vizinhos; fazia suco, peito de velha – um picolé dentro de um saquinho comprido.

Visitei as bordadeiras. Comprei uma colcha para mamãe, uma colcha com palavras e imagens do Grande sertão: dali por diante poderia navegar nas veredas de outro João e não me cobrar visitas constantes enquanto papai viajava.

Os cupinzeiros, barro açúcar-e-canela à luz do sol, espalhados pelos campos

Nas estalactites vejo os castelos de areia ao contrário, quando pingávamos, eu e Paola, irmãos de carne e sangue, pingávamos areia e água do mar formando torres altíssimas de onde eu a salvaria de ogros e dragões de fogo. Paola ganhou o mundo na garupa de um vendedor de pulseirinhas e a última vez que soube notícias estava no Paraguai. Não houve Bolo de Casamento, nem o Véu da Noiva, feito de carbonato de cálcio, enquanto aquela em forma de Abóbora é de magnésio de ferro.

– Estamos num leito de rio.

Edson Alixandre.

– Há quanto tempo trabalha aqui?

– Ah, faz tempo com força.

(A força daquele olhar.)

– Não tem medo de ficar preso aqui embaixo?

– Não. É só pensar que cada gruta é uma janela.

Da janela do meu quarto no hotel, dá para ver uma das lagoas que são mais de Sete Lagoas. Posso caminhá-la sem pensar em Laura e na briga que tivemos no set de filmagem.

(A falta das palavras.) 

Subindo à Curvelo, deparei com a igreja de São Geraldo e me perguntei por que não falo mais com meu pai. Diante da escultura em papel do Ecce Homo que o santo fez, faço-me uma promessa diante de anjos e querubins que um dia, diante daquele mesmo altar, traria a graça de ter meu pai de novo ao meu lado.

Gosto da comida mineira. Tutu, o feijão tropeiro, lingüiça, couve, carne de porco. Para rebater, uma boa cachaça. Doce de leite e queijo branco para tirar o sal da boca, depois café para tirar o doce, água para tirar o café; depois começa tudo de novo.

Corinto é árida, de uma falta de mel para adoçar meus lábios, verde para colorir os olhos, brisa para aquietar calor. Talvez aqui Riobaldo melhor crescesse. Riobaldo com suas inquietações. No deserto quando cai chuva nasce oásis; em Minas, buritizeiro.

Corri os olhos nas planícies e as árvores me enganavam em buriti quando eram na verdade árvores de coquinhos, ou a Barriguda, ou Ipês roxos, amarelos, vermelho cru.

– É preciso entrar na arte desarmado, sem artifícios.

Então não seria eu um artista, Cíntia? Não seria eu detentor da interpretação divina da Palavra?

Em Morro da Garça finquei o pé entre lágrimas, O recado do morro e o Cruzeiro dos Martírios.

– Daqui só saio se me abençoares!

E uma senhora bem velhinha, vestido branco, carvão na pele, largou panela e fogão à lenha para se declarar.

– Fui muito feliz aqui. Um moço feito o senhor, não devia de estar chorando. Pois eu larguei tudo só para ver essa belezura mais de perto. Olhe, eu me chamo Isabel de Zuína.

Nem me deu graça nem me reconheceu. Dali saí voltando com o seu Adélcio, a noite caindo rápida com as estrelas anunciando a lua cheia.

Lua cheia. Moeda dourada que se prateia e vem cantar

            Não há

            Oh, gente

            Oh, não

            Luar como este

            Do Sertão

 

Na ida a Três Marias, pedi a Adélcio para dirigir. Ele me guiando, ele me dizendo o certo e o errado e de tanto ouvir decorei seus passos, ensinei seu nome.

A chapada. Os buritis. De um instante ao outro todo o mistério se revelava e o que era depois virou presente. As flores guardei para devolver a Laura que me disse antes quem realmente eu era e ainda nem sabia.

Fotos, fotos, fotos. E não dá para captar o meu sentimento de sertão.

– Não vai dar dez minutos e o São Francisco chega.

O mar doce. Pedi em nome do Pai que Ele me batizasse novamente: não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas. Sorri com o frio da água na nuca, os pés descalços, a calça jeans suspendida até os joelhos. De joelhos me refiz e o homem novo levantou-se das pedras e sobre as pedras edificou o seu caminho.

E se Manuelzão não quisesse me receber em Andréquicé? Um novo João a ele perguntava, para entre a barba longa suspirar-lhe algum segredo? Quicé de André, quiçá de Maria. Quem sabe do João que sabia que ele não sabia?

Caçador de Mim, Milton Nascimento

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* Percorrendo o Circuito Guimarães Rosa – Minas Gerais. Texto extraído de Diálogos, Patricia Tenório, 2010.

Diálogos – 18/01/11

ALGUM *

– Passa a bolsa e o celular, dona!

– Você pode entrar no carro?

– Ahn?

– Entrar no carro, você pode?

Ela deve ser louca ou vai me aprontar algum.

– Então tá.

O vidro escuro. Ar-condicionado. No rádio, uma música e ninguém cantava. Entrou numa rua, saiu por outra. O revólver, não deixei de apontar pra ela. Sabe lá o que queria? Chegou na avenida, a beira do mar. E eu sabia o que era mar? Acho que adivinhei do que Pinéu contava.

– É um mundaréu de onda, cai na areia, lisa, feito encerado da Igreja do Carmo.

O porteiro olhava o revólver, ensaiou telefonar.

– Não se preocupe, seu Luiz. Ele está comigo.

Entramos no elevador, de cima a baixo era vidro, eu via o céu, as nuvens colando na parede de mármore do prédio; uma planta saía de onde, sabe lá de onde, era o mar subindo, a nuvem baixando, a planta olhou pra mim – me admirava? O que é que ele tá fazendo com o cano do revólver tremendo? Por que ele vai até o último andar?

Abriram a porta, larga, branca, sala azul, tinha árvore, tinha flor por todo lado.

– Maria, prepare a banheira no quarto de Felipe.

Ela queria o quê, me dar um banho? A última vez que vi água foi na saída de onde nasci, no açude quase seco, quase lama. E Pinéu continuava.

– Quando tu vê o mar, vai ser um tudo diferente.

A água morna, cheia de espuma, um pó colorido que ela botou e eu nem queria, nem queria, mas acabei querendo. Não tirei o calção, só a camisa, o grude saindo do corpo todo com a esponja que ela passava nas costas, na perna crescia cabelo, atrás da orelha. Depois pasta, escova de dente, e esfregava, esfregava. Tudo ficando branco.

Em cima da cama forrada, fofinha, uma camisa e uma calça do meu tamanho, sapato e meia. Penteei o cabelo, botei o perfume verde atrás da orelha – vi no filme na casa de Dona Dorinha, quando mãe trabalhava de lavar, varrer, cuidar dos filhos do usineiro.

– Você está pronto?

O cheiro vinha da cozinha e a tal Maria mexia com a colher de pau a panela, batia suco, enchia o copo e o prato fundo. Ia ficando ali mesmo, no chão, mas a dona me pegou no braço, levou até a sala azul, me fez sentar, usar garfo e faca, e que eu comesse devagar, não ia fugir, a comida.

– Está com sono?

Até que estava, mas eu queria ver se nuvem era feita de algodão, e se a tinta rosa pintava o céu no fim da tarde. Na varanda tinha rede, lembrei que dormia eu e meus irmãos tudo agarradinho perto de mãe, e ela chorava porque pai foi pra longe, não voltou mais.

– Quero ir embora.

Ela olhou para mim, feito se olha passarinho que não se quer assustar. Passou a mão no meu cabelo, alisou onde a barba um dia vai crescer. Deu sacola com roupa antiga, a sandália e o revólver estavam lá. O elevador de vidro, nuvem, mármore, plantinha e o mar vindo, vindo, virando onda, caindo na areia lisa. Na mesma esquina parou, pegou o revólver da sacola, me colocou no mesmo lugar, o que era sol, agora a lua, estrela e o olho dela, tremendo, tremendo na minha direção.

Miedo – Lenine & Participação Especial Julieta Venegas

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* Fotografia de uma planta na fachada do meu prédio. Texto extraído de “Diálogos”, Patricia Tenório, 2010.

Um Banquete de Curtas – 12/01/11

13/01/11

Patricia Tenório

httpv://www.youtube.com/watch?v=w9iz-jJI-zE&feature=player_embedded

 

A Cubana

Direção: Andréa Ferraz, Cézar Maia, Leo Crivellare, Marcelo Barreto e Silvia Góes

Doc, 13 min, 2002

A Cubana me apresentou um universo totalmente novo e inimaginável do Recife. A paixão pela música e ideal cubanos apresentados através da simplicidade de seus amantes e expressos livre de padrões e preconceitos encanta e nos convida a visitar o Bela Vista no Alto do Céu, para tentar identificar um pouco da ilha que faz parte do imaginário de todo ser latino…

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Vamo fazer um clipe

Direção: Germano Rabello, Joli Campello e Aroldo Araújo

Doc, 19 min, 2004

Vamo fazer um clipe descortina vídeos nunca antes navegados, numa escavação onde os diretores, apesar da distância no tempo (2004), continuam atuais e atuantes, quando nos instigam a valorizar o que é nosso, nossa criatividade, nossos tesouros artísticos que tantas vezes são subvalorizados em detrimento de outros pólos culturais do Brasil. Gosto dos cortes abruptos e inesperados, das cores fortes que nos atingem e desestabilizam, para questionar sobre o desejo visceral de nos expressarmos através da Imagem…

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httpv://www.youtube.com/watch?v=KsQPOtEximQ 

Diálogos*

Direção: Patricia Tenório

Fic, 20 min, 2010

Diálogos é uma trilogia de contos adaptados do livro “Diálogos”, 2010. Com produção e figurino de Jorge Féo, texto, edição e direção minhas, considero um diálogo dentro de um diálogo, como uma caixa dentro de uma caixa, dentro de uma caixa (Teatro – os atores –, Cinema e Literatura, as locações que apontam como setas umas para as outras). Em “Olhos fechados” procurei retratar a dor do mundo e o lúdico da Poesia. “O domador de bolas de sabão” inaugura uma nova linguagem. Foi criado como se pinta um quadro, exploro a tentativa ilusória do artista em apreender a Arte. E em “Prisão Perpétua” procurei roçar o limite entre a realidade e a ficção: até onde vai o Real?

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* Vencedor da 4ª Edição do “Banquete de Curtas” – 12/01/11.

Convite – Banquete de Curtas

  Quarta edição do Banquete de Curtas

O Cine Banquete inicia as atividades em 2011 exibindo uma ficção e dois documentários na quarta edição da mostra competitiva Banquete de Curtas. Na programação os pernambucanos “A Cubana”, “Diálogos” e “Vamo fazer um Clipe?”. A sessão acontecerá na próxima quarta-feira (12), a partir das 19h, no Espaço Cultural Banquete e a entrada é gratuita.

Inovando em formato competitivo, a exibição cineclubista surge para aquecer ainda mais o recém inaugurado espaço para exibição e discussão de filmes. O representante do curta selecionado deverá estar presente na sessão e defender o porquê que seu vídeo deve ser premiado. O público escolherá o melhor curta-metragem através de votação na urna localizada no espaço. O vencedor ganha um jantar no próprio restaurante com direito a acompanhante.

Para as próximas edições da mostra serão aceitas inscrições de vídeos com tema livre e foco na pluralidade da produção cinematográfica, que tenham sido finalizados em qualquer período, nos gêneros ficção ou documentário, realizados em qualquer formato desde que possuam cópia de exibição em DVD. Os curtas-metragens deverão ter duração máxima de 25 minutos e a quinta edição do evento acontecerá no dia 09 de fevereiro.

As atividades do Cine Banquete ocorrem, ordinariamente, sempre na 2ª quarta-feira de cada mês, iniciando às 19h, no bar e restaurante Banquete. O Espaço Cultural fica na Rua do Lima, 195, no bairro de Santo Amaro, em Recife. Maiores informações sobre o Banquete de Curtas através do e-mail cinebanquete@gmail.com ou pelos telefones   (81) 9950-0166 / (81) 9952-7283 / (81) 9150-9482.

Vídeos a serem exibidos:

A Cubana

Direção: Andréa Ferraz, Cézar Maia, Leo Crivellare, Marcelo Barreto e Silvia Góes
Doc, 13min, 2002

Documentário realizado pelo Ateliê Produções, “A Cubana” trata do universo de uma festa que há mais de 10 anos acontece no Bela Vista Futebol Clube, localizado em um bairro da periferia do Recife. Nesse filme, os bailantes expressam a paixão que nutrem pelo som da Ilha de Cuba, mesmo sem jamais terem pisado os pés no país de Fidel.

Diálogos
Direção: Patrícia Tenório
Fic, 20min, 2010

Trilogia de curtas em permanente diálogo e que foram adaptados do livro homônimo, também escrito por Patrícia Tenório.

Vamo fazer um clipe?
Direção: Germano Rabello, Joli Campello e Aroldo Araújo
Doc, 19min, 2004

O documentário analisa a produção pernambucana de videoclipe de uma forma criativa e metalinguística. Os depoimentos são mesclados com imagens dos clipes locais, alguns deles bastante raros. Feito como trabalho de conclusão de curso de Jornalismo, extrapolou o contexto acadêmico, sendo premiado pela I Mostra de Vídeo Digital (Fundaj) e exibido no Festival de Gramado.

Serviço:

Cineclube Banquete
Banquete de Curtas

Data: 12/01/11
Hora: 19h
Local: Espaço Cultural Banquete / Bar e Restaurante Banquete
Endereço: Rua do Lima, nº 195, Santo Amaro, Recife.
Entrada: Gratuita
Contatos:
(81) 9950-0166 – Amanda Ramos
(81) 9952-7283 / 9150-9482 – Fernando Luiz
cinebanquete@gmail.com

Diálogos – 11/01/11

Para Patricia Galindo

httpv://www.youtube.com/watch?v=JC9A_E5kg7Y

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Gato de Schrödinger

Anderson Fonseca

Revista Confraria – N. 1 – Setembro/Outubro/2009

 

            É quase impossível dar nome e até estudar com minúcia artística um bicho que não se vê totalmente nem se percebe com clareza sua presença e que vive incomunicável, pois isola-se em seu mundinho, embora às vezes dê uma escapada para dizer-me frases enigmáticas; atenho-me, portanto, a sua descrição, pois esta é que me cabe no momento.

            Este bicho tem cabeça e corpo de gato com chapéu de copa, listras de zebra, mente de camundongo, língua bifurcada – o que faz sua voz parecer-se com a da serpente do éden – e orelhas humanas. No entanto, tem um comportamento muito estranho, pois parece um louco com seus olhos a toda hora revirando-se como se buscasse uma razão de fora para sua natureza bizarra.

            Ele não está nem neste mundo nem noutro, mas no universo do meio, aí o motivo de ser tão incomunicável, ou seja, encontrá-lo quando você bem desejar é impossível, somente quando a ele parecer necessário. Ao aparecer para você, ele sorri, retira o chapéu, inclina-se para a frente e diz “Estou sempre diante de mim”, depois continua com longas frases repetindo o que parece ser aquilo que você no momento está pensando, mas ele costuma sempre levantar uma segunda questão à primeira que havia colocado abalando todas as minhas certezas. Ele inicia com a palavra “se”, terminando com “ou”, para negá-las em seguida com “não”.  Isto me perturba profundamente. Assim que acaba de dizer para que veio, desaparece, deixando seu largo sorriso no ar.

            Quando ele se manifesta, sinto uma estranha vontade de pegá-lo e aprisioná-lo numa caixa; eu, na verdade, já tentei isto, mas por ele não estar nem aqui nem acolá, sua essência torna-se tão etérea que se desmancha nas mãos; ele, ao ver minhas tentativas, ri debochadamente. O que me impossibilita de conquistá-lo para meu mundo, este gato sábio e imbecil, que me incomoda com suas sutilezas, suponho ser o fato dele existir diante de um espelho. Este espelho divide o meu mundo e o outro em duas esferas distantes e distintas, pondo-o no meio como um intermediário divino. Se o espelho que lhe atribui poderes oníricos fosse quebrado, o gato seria obrigado a cair num dos mundos com o qual brinca dia e noite. Mas para isso, uma criança deveria ser convidada por ele, passar um tempo em seu reino fantástico, depois quebrar o espelho com uma pedra ou uma palavra de feitiço invertido. Embora isto um dia venha a acontecer, o gato, por ter um pensamento de camundongo, logo logo encontrará outro universo que não seja nenhum dos que estamos acostumados a desvendar para se esconder, podendo assim vir a nos incomodar sem por sua vez ser incomodado.

            Com esta brincadeira de esconde-e-acha-e-esconde ele pôs dúvidas assustadoras em minha cabeça, fez-me acreditar que sou sua imaginação mais simples e que o motivo de eu existir é satisfazê-lo com meus constantes questionamentos e minhas buscas nas mais recônditas fantasias que deverão também ser suas. Um amigo disse-me que eu deveria fazer a pergunta certa e assim terminar com o encanto, mas tenho quase certeza de que qualquer pergunta que eu vier a formular ele já formulou muito antes. No fim das contas me tornei o rato com o qual ele se diverte sempre. Mais estranho é que um bicho tão bizarro e ao mesmo tempo adorável se atarefe em incomodar-me; será que ele não tem outra coisa de que se ocupar? Talvez, quem sabe, ele tenha inveja de mim e deseja tanto ser eu que o único meio que encontrou para contornar sua frustração é cutucando minha mente com seus caprichos.

            Atualmente ele está bastante ausente aqui de casa; não o vejo mais em canto algum, nem na cozinha, nem no quarto, nem na escrivaninha. Creio, e isto me faz rir, que ele deve estar ocupado com alguém pior que ele mesmo, alguém que surgiu em seu mundo para o importunar, algum rato muitíssimo intrigante para pôr questões tão assustadoras quanto as que ele provocou nos últimos anos.

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Em busca do gato de Schrödinger*

Patricia Tenório

(Extraído de Diálogos, 2010)

 

Hoje não fui à missa, não rezei rosários, nem picotei jornais velhos: propus a mim encontrar o gato de Schrödinger.

Uma amiga tentou uma vez e ficou com as mãos tortas de tanto apalpar o dia inteiro para ver se o gato estava no umbigo ou debaixo do travesseiro. Pensei que ela não procurou direito, porque às vezes vejo rabos de gatos e camundongos com suas patinhas fugindo pela fresta da janela em noites de lua cheia.

Pode ser que os lobos não uivem mais depois que eu encontrá-lo. Mas para que me servem nuvens escuras escondendo luas e o sangue escorrendo no pescoço se não sinto mais o palpitar nas próprias veias?

O gato saberá, decerto. E se não responder, corto seus bigodes longos e os faço de espanador de estrelas para que elas realizem logo os meus desejos.

Casar, ter filhos, morar numa casinha de campo? Quem saberá o que se esconde sob os meus sonhos? Vai ver o gato me perguntando o que não respondo pode atravessar o espelho que me impõe e fazer companhia. Poderá deitar-me nua sobre a relva e arranhar-me as costas? Lamber pescoço? Provocar arrepios?

Este gato, assim manhoso, se enrolará entre as minhas pernas e fará moradia. E nem que a lua saia detrás das nuvens escuras, o sangue estanque, os lobos uivem, arrancarei minhas raízes da sua terra úmida – me farei novelo de lã vermelha para que ele me desfie.

 

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Diante do texto Gato de Schrödinger, Anderson Fonseca

Náufragos de uma Paixão

Patricia Tenório

22/12/2010

             Entro com febre na Cidade Portuária Paixão. Febre física se acumula em febre de engolir páginas até não ter fim.

             Rodrigo Malagodi me faz uma pergunta frase “entre dois pontos no oceano”: qual o caminho a seguir após o primeiro livro de um escritor? O que aborda? Qual o gênero? As fronteiras?

             Me assusto com a pergunta reticências pois a mim mesma faço e a mim mesma não respondo ponto vírgula travessão. Apenas deixo-me navegar pela “busca fuga” de Rodrigo no emaranhado de contos poemas rabiscos desenhos de seu livro inaugural. Aquele que deve ter lhe saído das entranhas, como tento agora dar um sentido aos meus sentidos.

             Por que me atordoa a sua leitura? Talvez por me encontrar ali nas surpresas sustos do “Eu me esconderei por trás das descrições discrições”, ou porque “Importava para Apolo surfar nos olhos de Ícaro”; quem sabe “O Talvez é sempre mais segura balsa que transita entre duas costas, a consciente e a inconsciente grosseiramente exploradas”.  Agarro a última frase e lanço o barco à vela em busca de meus irmãos de mar e poesia e vou me encontrar com Rainer Maria Rilke saudando o novo poeta, no peso de encaminhar uma vida para além do Bem, além do Mal.

             Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. ([1])

             Não tema o medo ao desconhecido, ao navegar livre solto sonhador pelos limites da estória, o prazer da literatura. A criação envolve riscos, do se entregar, do se encontrar, mas não abandone a si mesmo por causa de regras que não lhe pertencem porque o artista precisa visceralmente criar para sobreviver.

             Meu pobre amigo, nossa neurose, etc., vem também de nosso modo de vida um pouco artístico demais, mas também é uma herança fatal, pois na civilização, de geração em geração vai se debilitando. Se queremos encarar o verdadeiro estado de nosso temperamento, é preciso classificar-nos entre aqueles que sofrem uma neurose que já vem de longe. ([2])

             Existe um momento em que o outro não cala a nossa voz. Sentimos que algo ou alguém que nos habita resolve assumir o espaço que lhe foi entregue por séculos e séculos. Neste exato momento o artista se faz. Ele nasce para si quando se assume, com toda a responsabilidade que esse assumir traz.

             “… (e o não silenciar o desejo odeia a inércia de esperar pelo outro)…”

            Cada conto poema desenho rascunho da Cidade evoca reminiscências, não minhas, não suas, reminiscências das palavras que pairavam a procura de alguém que as imaginasse sós à procura de quem se imaginasse só e uma Paixão os atraísse feito “o fogo entre nós” e os costurasse em signo e Sol dos meus olhos.

            “As pessoas que vêem não apreciam tanto as caminhadas por terem a visão entupida de tanta grande luz?”   

            Até onde deve caminhar, Rodrigo? Que paragens buscar? Prenda-se ao que tomar-lhe o coração, é um conselho; navegue, perca-se, encontre novamente a sua Luz, que por vezes parecerá menor, mais branda, quase extinta Luz de sonhos, fazendo a mesma pergunta há tanto demandada…

            Pois rompa o que romper! Quero saber da minha Semente, e pouco importa se esta for mesquinha! ([3]) 

            Abarque o incerto, navegue o infinito. Ser poeta é bem mais que viver, é sobrevoar a vida, o ser terrestre e humano, é ser pedaço divino, ser ar, água, fogo. Música.                                                                                                                                

            “Mas uma frase também é um acorde”.

             Mas cada frase planta um livro que não são maçãs, são grãos de poesia que crescerão e incrustarão milênios…

             “Carregando um coração pesado de desejo oculto e culpado e cantando a música confusa que aprendera, apenas caminhou entre mar e terra e não voou para contemplar terra e mar juntos e deixar nascer de improviso a canção de nome Coragem, pela simples lógica de que, mesmo com toda sua imensidão, o mar nunca afogaria quem o desejava sobrevoar para sempre”.

            Tenho fome. Rodrigo me inspira a continuar com os pés no chão das palavras, o manejar consciente do papel e lápis, o estudo dos clássicos, do que é Bom e não é para mim. Porque esta busca, a busca de todo artista, somente acaba no fim dos dias, no fim dos séculos… Amém.

            : há palavras que revelam o melhor que possuímos; outras, o pior. ([4])

                “Meus braços seriam fortes o bastante para puxar a mulher afogada de dentro de ti?

            Qualquer esforço seria inútil, desde que começou a tímida garoa que devagar me arrastou ao redemoinho desta única opção: abrir a porta para baixo, aprender a mergulhar de cabeça e afogar-me de vez na enchente dos teus olhos.”

Pétala, Djavan

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*  Sobre Cidade Portuária Paixão, Rodrigo Malagodi.

(1) Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke.

(2) Cartas a Théo, Vincent Van Gogh.

(3) Édipo Rei, Sófocles. 

(4) A mulher pela metade, Patricia Tenório.

Daqui desta torre, também

Rodrigo Malagodi, Campinas – SP, 24/12/10

               Que momento foi esse em que ele parou? Ficou preso? Inerte? Esperando?

                Esperar é a torre, é a dura conclusão maior a qual chego ao ter lido As joaninhas não mentem, da escritora Patricia Tenório. As palavras de Beckett seriam as do príncipe preso na torre? :

                 “Nunca estive noutro lugar a não ser aqui, ninguém nunca me tirou daqui (…) A ilha, nunca deixei a ilha, coitado de mim (…) direi o que sou, para não ter nascido inutilmente (…) direi primeiro o que não sou, foi assim que me ensinaram a proceder, depois o que sou, já está em andamento, só tenho de retomar ali onde me deixei assustar. (…) é preciso que o coração me saia pela boca” ([1]).

                 Por que ele não foi montar em seu próprio cavalo de buscar? Sem resposta, a própria pergunta esclarece Ariana ter montado em seu desejo – nada perdido, pois a busca ajuda a justificar a vida – e, como sempre diz Ferreira Gullar, “a vida não basta”. 

                “Poderia vencer dragões, a menina?”,

                se os homens já não podem mais, os Jorges da geração anterior talvez tivessem podido mais, mas que substância é essa que se dilui a cada geração, os Jorges desaparecendo presos em suas torres, privados de aprender a manejar suas próprias espadas? Afinal, a Lua ainda é a mesma, e ainda

                “levanta marés, enlouquece viúvos e une casais”.

                Mesmo que o “jeito da camponesa permitisse dores”,  

                “longos seriam os caminhos, tortuosos seriam os caminhos, perigosos seriam os caminhos”, essa oração do medo – protege, prende, impulsiona? Patricia me faz repensar as noções de movimento e inércia, pois suspeito que a inércia seja aquela que não percebemos, na ilusão de deslocamento uniforme, confortável, e vem sempre uma Ariana escalando paredes, chegando ao aposento e nos chamando para sair do lugar. Mas ficamos – essa parte ignorada, a outra metade não ciente, débil, morta lamentando com uma mão repousando na janela, de cabeça baixa, indiferente.

                Qual inércia me prende em minha torre? Apenas saltar?

                “O Amor Perfeito seria um grande abismo?”, foi esse o abismo escalado por Ariana, de lá do fundo sonhando, mas “ele não estava preparado”.  Era hora de acordar, talvez viver o sonho acordada e “Ariana afundava pés na Terra”, e para ter os pés no chão e a cabeça no fogo do Sol, só mesmo tendo crescido, sendo grande o suficiente de ter vivido as buscas, batalhas necessárias.

                “E o Senhor Tempo acompanhava com os olhos sábios”, “A missão de amor próprio antes de todos”.

                “(…) inaugurar ou renovar a paixão por si próprio e, consequentemente, por tudo e todos”. ([2])

                Mas o amor também tem que transbordar em encontros, fusões, confusões, “aquele que em minha própria vida deve se perder”. E se os dois buscam, que difícil fica o encontro possível, diante de tantos movimentos, mudanças, deslocamentos, mutações do que se era e do que se vai ser.

                Qual dos dois deve buscar ou esperar?

                Patricia Tenório e As joaninhas não mentem tranquilizam-me também, pois reforçam minha fé de que, homem ou mulher, antes humanos, merecemos a permissão da fraqueza e a compreensão, a compaixão. Afinal, o universo não deve ser um sistema programado para resolver nossos dramas e traumas. Cabe a nós entender que todos têm sua própria história, tiveram suas dificuldades e esse alguém cujo ato ou indiferença parece intencional de nos ferir, ainda não se deu conta disso e apenas dorme em sua torre.

([3])

 

                Ariana aprendeu e reforçou minha fé de que o amor é, antes de tudo, pôr-se no outro, em todos os sentidos.

                “E por que temia?”.

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* Uma leitura de “As Joaninhas não mentem”,  Patricia Tenório, por Rodrigo Malagodi.

(1)  Samuel Beckett, O Inominável.  

Todos os trechos em itálico (exceto especificados) são fragmentos de “As Joaninhas não mentem”, Patricia Tenório.

(2)  Trecho de aos turistas, Cidade Portuária Paixão, Rodrigo Malagodi.  

(3)  Trecho de farol, Cidade Portuária Paixão, Rodrigo Malagodi.

rodgiovanini@hotmail.com

20 Anos Unicap

A vida não pára… E nós fazemos 20 anos de formados… Uma homenagem especial para meus amigos e colegas do curso da UNICAP – INFORMÁTICA.

Filmado em Câmera Cannon 7D. Editado em Final Cut Program. Música “Paciência”, interpretada por Lenine.