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Silente*

Patricia Tenório & Raduan Nassar

15/11/2010

A Beleza está no Silêncio…

 

httpv://www.youtube.com/watch?v=sZlm3x619ro

Um doce olhar([1])

 

 

Deixava-se levar no silêncio das águas rondando os ouvidos. ([2])

“… mas eu nem estava ligando pra isso, queria era o silêncio, pois estava gostando de demorar os olhos nas amoreiras de folhas novas, se destacando da paisagem pela impertinência do seu verde…”

 Umbigo do mundo – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

 

Calo-me inteira([3]) 

Para não mostrar-me em parte

Soletro aquela não-palavra que disse tudo

Porque sentida e cortada na pele

Apressando o coração

Desacelerando o cérebro

 

Envergo-me

No útero invertido

E descubro o umbigo do mundo

Quando

Nem pessoa

Nem coisa

Podem supor o que não suponho

 

“… a razão jamais é fria e sem paixão, só pensando o contrário quem não alcança na reflexão o miolo propulsor…”

 

           O lado obscuro de mim, esse derramo na arte, nos meus quadros incongruentes, feitos de colagens, abstrações, cores fortes, coaguladas, para deitar ali a alma inteira, a alma que não conheço, que me acorda com o quarto revirado à procura de algo que não sei definir. ([4]) 

          “… não que me metessem medo as unhas que ela punha nas palavras, eu também, além das caras amenas (aqui e ali quem sabe marota), sabia dar ao verbo o reverso das carrancas e das garras, sabia, incisivo como ela, morder certeiro com os dentes das idéias…”

 

Costuro tua boca([5]) 

E não deixo passar palavras vãs

Insisto na clarividência de

Te prender, possuindo alma

Encarcerando corpo

Amarro tuas mãos sangradas

Em uma viga de mármore

Retiro cada um dos teus cabelos

Lento, calmo, frio

Me lanço contra teu corpo rijo

Em facas corto tua carne

Dilacero

Restam poucos espaços

Onde me misturo

Ossos, carnes, sangue

E agora somos corpo uno.

 

          “… as coisas aqui dentro se fundiam velozmente com a febre (…) sem esquecer que a reflexão não passava da excreção totalmente enobrecida do drama da existência (…) o que fazer então com o farelo das teorias?”

 

          E como o mundo dói nos meus olhos abertos, sem cortinas no apartamento, sem cortinas para escondê-lo da minha alma, se apresentam em carne viva, a alma e o mundo, e eu não sei por que se detestam tanto, por que não fazem as pazes, por que não se tratam feito irmãos gêmeos, tão parecidos. Uma paixão imediata, como imediata deveria ser a dor que sentem um pelo outro. Nascem juntas, a paixão e a dor, ao mesmo tempo, no mesmo instante, sabendo que não podem se separar uma da outra, isso as levaria à morte, ou a submissão, que é tudo a mesma coisa. ([6])

 

          “… e já que tudo depende do contexto, que culpa tinham as palavras?”

 

          Naquela porção de instante as almas não se falavam, unas, duas, eu e meu amigo. Podíamos saber o que o outro sentia pelo arfar dos pulmões, o tamborilar em cima da mesa, palavra engasgada que não saltava aos lábios e inundava o ar. ([7])

 

          “… mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes…”

La isola – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

Daquela matéria fui feita([8]) 

Daquela matéria amada

Nem por mim

Nem por ninguém

De um nada

Me encontro

E pronto

Eu me vejo só

 

Sobre os rochedos

Nas cachoeiras

Abrindo passagens

Entre as sereias

Visgo cantante

Cor de arco íris

Que no céu acaba

Não me deixa

Potes

Toques de Midas

Apenas entardecer

E incerteza

 

Finco o pé

No âmago

No abismo

No nada

Em que me encontro

E pronto

 

Eu me vejo só

 

“… não tive escolha, fui escolhido, e, se de um lado me revelaram o destino, o destino do outro se encarregou de me revelar…”

 

          As palavras podem ser usadas contra nós mesmos. Podem ter significados diferentes. Eu, aqui, tento provar a você minha inocência, mas até que ponto sou inocente? Até que ponto a água não se transforma em vinho e o vinho em sangue e o sangue em vida?

            Pronuncio uma palavra, viro-a do avesso, ficou ressoando no que eu não pensara, e, quando pensei, ela brilhava em lilás. Você me escava dia após dia e somente se pudesse trocar de lugar comigo poderia encontrar o que deseja. O que me lembro aconteceu ou é apenas minha invenção?  Sou pergunta ou resposta de Augusto?([9]) 

          “… assumo pois o mal inteiro, já que há tanto na santidade; e depois, pilantra, se não posso ser amado, me contento fartamente em ser odiado…”

          Deito de costas para Silvio, por não mirar-lhe os olhos; neles me revelo, neles peço socorro. A terra plana e árida dos seus lábios encobre o meu pescoço, sorvendo o sangue nas mordidas. O sangue fluindo para André e eu me doo inteira no bico dos seios. ([10]) 

          “… eu disse vertendo minha bílis no sangue das palavras, sentindo que lhe abalava um par de ossos…”

          Preciso me trancar no espaço entre o tempo e o viver, quando tudo está parado, onde há somente o nada, como não sei explicar, a língua seca, o ouvido estala, olhos opacam, as mãos congelam o gesto, o ar condensa o fluxo. ([11]) 

“… a culpa melhora o homem, a culpa é um dos motores do mundo”.

 

          Ela nasceu um minuto antes. No entanto, sentia-se muito mais velha. A mãe que não tiveram. E cuidava da irmã como uma filha. Dava conselhos, queria o crescimento. Mas, quando a flor não pediu ao mato para desabrochar, a água desceu a cachoeira íngreme por entre pedras agudas, Séphora tremeu. Pensou que não mais dela precisaria, que a avó amaria mais Sahra, o céu virando ruivo, as nuvens descendo a Terra. 

          Com a espátula, cavou e cavou no centro, para ver se encontrava aquela que amara um dia. Encontrou peles, vísceras, odores.

          Recolhi os papéis, coloquei a caneta Mont Blanc, a caderneta de capa escura na pasta, decidi passar adiante nas investigações daquela existência. Aliso a pele clara, mostro-lhe o mundo lá fora. Digo

            – Você está livre.

            Levam-na pelo corredor estreito. ([12]) 

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(*) Patricia Tenório & “Um copo de cólera”, de Raduan Nassar.

(1) Bal. Turquia, Alemanha , 2010 – 103 min. Drama. Roteiro e Direção – Semih Kaplanoglu. Com Erdal Besikçioglu (Yakup), Bora Altaş (Yussuf) Tülin Özen, Alev Uçarer.

(2) Trecho de As joaninhas não mentem, Patricia Tenório, 2006.

(3) Umbigo do mundo, D´Agostinho, Patricia Tenório, 2010.

(4) Trecho de A mulher pela metade, Patricia Tenório, 2009.

(5) Terror, Grãos, Patricia Tenório, 2007.

(6) Trecho de A mulher pela metade, Patricia Tenório, 2009. 

(7) Trecho de Olhos fechados, Diálogos, Patricia Tenório, 2010. 

(8) La isola, D´Agostinho, Patricia Tenório, 2010. 

(9) Trecho de A mulher pela metade, Patricia Tenório, 2009. 

(10) Trecho de A mãe do mundo, Diálogos, Patricia Tenório, 2010. 

(11) Trecho de A mulher pela metade, Patricia Tenório, 2009. 

(12) Trecho de A mulher pela metade, Patricia Tenório, 2009.

Pontes*

Patricia Tenório

06/11/2010

“Dei conta de repente de que gostava de palavras, de que queria mexer com palavras. Não só com a casca delas, mas com a gema também.”

 “Seria a vivência de um escritor, e não um olhar de empréstimo, o que poderia imprimir voz própria ao que ele escreve. Só isso.”

 “Só desequilibrados é que descobrem que este mundo não tem importância. O bom senso seria uma prisão.”

 “Em literatura, quando você lê um texto que não toca o coração, é que alguma coisa está indo pras cucuias. Na minha opinião.”

 “Mas quando um escritor faz a exposição da sua teoria, para suprir de significados uma poética que não consegue falar por ela mesma, acontece aí um evidente desajuste. A poética pretende ser revolucionária por desestruturar a linguagem convencional, só que seu autor, para explicá-la, acaba se socorrendo da mesma linguagem que usamos pra pedir um copo d´água, o que é o fim da picada.”

 “Obsceno é toda mitificação. Obsceno é dar um tamanho às chamadas grandes individualidades que reduz o homem comum a um inseto.”

“Os temas que elegemos, o repertório de palavras que usamos, além de outros componentes da escrita, tudo isso passa pela triagem dos nossos afetos.”

“Hoje minha vida é fazer, fazer, fazer, no âmbito da fazenda evidentemente, num espaço em constante transformação, o que não deixa de ser uma outra forma de escrever.”

Pontes, Patricia Tenório

Filmando em Cannon 7 D

Editado em Final Cut Program

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* Diálogo entre “Entrevista com Raduan Nassar no Cadernos Literários”, Instituto Moreira Salles e Pontes, de Patricia Tenório.

Diásporas*

30/10/10

Patricia Tenório

Há momentos em que a vertigem me consome e imagino meu corpo ocupando o lugar do amanhã.

“Ao se transportar aos limites do dizer, numa mathesis da linguagem que não quer ser confundida com a ciência, o texto desfaz a nomeação e é essa defecção que o aproxima da fruição.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Soletro as palavras na tentativa de expurgar feridas, absorver sentidos, deixar o rio que por mim passa e faço parte do mesmo rio.

A escritura em voz alta (…) o que ela procura (numa perspectiva de fruição) são os incidentes pulsionais, a linguagem atapetada de pele, um texto em que se possa ouvir o grão da garganta, a pátina das consoantes, a voluptuosidade das vogais, toda uma estereofonia da carne profunda: a articulação do corpo, da língua, não a do sentido, da linguagem”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

“A dor pode ser-lhe um despertador excelente, com o qual Deus faz você despertar de seus sonhos irreais ou de seus sonos profundos sem nenhum resultado.

A dor pode aproximá-lo de Deus, se é que você sabe sofrer a dor, pois do contrário talvez lhe sirva para afastá-lo mais de Deus.

Tudo depende da maneira como você se decidir a suportar a sua dor.” (Cinco Minutos de Deus, Alfonso Milagro)

Naquela página, encontro a letra de outros tempos, em lápis ainda subscrevo o pensamento onde calei um dia, no instante em que me reconheci inteira.

 “A arte forma um reino intermediário entre a realidade que faz barreira ao desejo e o mundo imaginário que o realiza.” (Sigmund Freud em O interesse da psicanálise – citado em Arte e psicanálise, Tania Rivera).

httpv://www.youtube.com/watch?v=QG1Y05p2ezw

“O domador de bolas de sabão”**

Aquieto o coração mais um instante; um desejo que em mim pulsa emana os poros cheirando a jasmim.

“Como são belos sobre as montanhas os pés do mensageiro que anuncia a felicidade, que traz as boas novas e anuncia a libertação, que diz a Sião: teu Deus reina!” (Isaías 52, 7)

“Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão.” (Isaías 55, 10-11)

Para desalojar o que penso ser sábio em mim, certo em mim, começo tudo de novo na esperança de me entender um dia.

“Reerguerás as ruínas antigas, reedificarás sobre os alicerces seculares; chamar-te-ão o reparador de brechas, o restaurador das moradias em ruínas.” (Isaías 58, 12)

Escolho rumos por onde ir, caminhos novos que poderei trilhar.

“A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória que não se pode medir. Porque não olhamos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem. Pois as coisas que se vêem são temporais e as que não se vêem são eternas.” (São Paulo em 2 Cor 4, 17-18)

““Na natureza”, escreve Goethe, “nunca vemos nada isolado, mas tudo em conexão com alguma outra coisa que está diante, ao lado, sob e sobre ela.”” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Quebro a rotina com pedaços de mim que retiro aos poucos; eles vão congruindo, formando um rosto embaçado; não o reconheço ainda, mas pulsa em mim uma certa transparência. 

“Para Eisenstein, a montagem é escrita figurativa, assim como os ideogramas chineses – como os rébus no sonho, diríamos.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

Espalho pelo Universo o tom da minha essência; aguardo reverberações, ressonâncias do instrumento que se afina até o final dos tempos.

“São os intervalos entre os movimentos e não os próprios movimentos, nem as imagens em movimento – que constituem o cinema.” (Cinema, imagem e psicanálise, Tania Rivera)

 

Intervalo

(Extraído de Grãos, Patricia Tenório, 2007)

 

Atravessei a avenida ao encontro da praia. O sol ainda nascia, uma leve brisa tocou o pescoço descoberto dos meus cabelos pretos, lisos; arrepiei. Juntei a barra do vestido rodado, descalçando as sandálias me sentei num tronco caído de coqueiro.

Na carteira de cigarro importado havia apenas um, minha última chance. Acendi com cuidado, sorvi cada molécula; procurei o sabor da canela travando nos dentes brancos.

Passei um longo tempo olhando a pintura se desenhar à minha frente, os pensamentos me levavam distante, mas estavam ali do meu lado, presentes como um amigo fiel. Pensava no que pensar, trazia as recordações para tão perto que se tornavam insuportáveis; a briga com Marcelo, o pedido de demissão.

Repórter do Diário da Manhã. Uma profissão meio diferente para a minha época. Enquanto as outras moças casadas, com uma fileira de filhos entrando e saindo das saias, subindo ao colo, salpicando beijos e ouvindo canções de ninar, perguntava para que tudo isso, essa vontade de ser independente, a diferença se estampando na primeira página.

Uma mulher no jornalismo.

Não sei se fiquei triste ou alegre, não sei. O que pareceu ironia também me agradava, soando estranho até mesmo aos meus pais. Se acostumaram à minha irreverência e isto me provocava.

Alisei os grãos da areia à minha frente, fumava devagarzinho, o cigarro na metade. E cada segundo gasto me parecia roubado, voava com a fumaça e nunca mais o alcançaria.

Uma criança desceu com a babá de um prédio do outro lado da rua, acompanhei cada passinho hesitante, cada murmúrio pedindo braço e a moça não cedia. E se eu estivesse no lugar dela? Tentei por um instante pensar e o pensamento continuava fugidio. Foi quando o vi.

Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.

Procurei na bolsa minha caderneta, não a encontrava. Por que bolsa de mulher tem que ser tão apertada, tão cheia de coisas? Ele se sentou na calçada, no banco de cimento, cruzando as pernas longas, colocou uma caneca ao lado.

As pessoas se aproximavam. Um senhor jogou a moeda na caneca. Ela rodava e rodava até bater no fundo, ouvia o ruído e o brilho me ofuscava os olhos; sentei alguns metros, fiquei como distraída. Ouvi o nome pela primeira vez.

– Há quanto tempo, Seu Mateus.

Mateus. A palavra ficava rodando e rodando em minha cabeça. Será bíblico, Mateus? Será católico, eu que sou judia? De sabás e mandamentos, os sábados pertenciam aos rituais. Mas não devo me perder, volto à palavra, agarro-a, prendo na mão.

Os dedos dele são longos, longos e grossos. Será músico? Pianista quem sabe. Desses que tocam no Banana Café, entre blues e jazz, a nova música, talvez bossa, talvez. Quais serão os gostos, gosta de fumar também?

Ah, como desejo um cigarro agora… Deixei o meu pela metade, ainda no tronco do coqueiro, imagino se consumindo, o vento apagando, levando     embora um prazer emprestado. Mateus começa a falar.

Nem quero ouvi-lo, e ouço a voz rouca, pausada, um leve sotaque mineiro, a minha mania de realidade impondo notas na caderneta. Se me cansei de realidade? Se para isso me sentei aqui, nesta praia, de frente para este mar, ouvindo o som dos pombos que me avizinham pousando nos ombros do casaco de Mateus.

Porque não quero sabê-lo e desejo-lhe o toque. Me aproximar mais e mais e descobrir segredos. Quem foi, o que é? Mas precisava de classificação? Para ver em que parte do jornal o enquadraria? O livro de Rilke nas mãos.

O que faria um velho, gasto, usado livro de Rilke nas mãos do homem? De onde tirou tamanha poesia? A caixa de madeira, deveras ser. Descansava sob os pés sandálias de couro cobertas de poeira. Mateus discutia o tratado do amor com o senhor amigo.

Que sabia mais de amor, ele vivera? O que ensinar para mim que não mais acreditava? Uma Cecília sem fé, eu me dizia. Seria agnóstico?  Eu não me deixava perguntar, e queria perguntar, fazer entrevistas. Ele não me percebia.  Com roupa de festa, saia rodada e ele não me percebia.

Será que me queria percebida? Invejava a transparência? Eu que até prêmios ganhei e de repente nada fazia sentido, nada se coloria à minha frente e não me espantava mais. Perdia pouco a pouco a inocência de uma criança que abre o presente, desfaz a fita dourada em laço, desenrola do papel seda, a caixa de papelão grosso, a minha primeira boneca.

Brinquei com Sofia até quase namorar. Meu primeiro presente, com um mês de namoro, foi uma boneca. Parece que ele me adivinhava, sabia que não poderia competir, era muito mais velho que eu. E numa sabedoria grega perguntava para o meu oráculo, um novelo que se desfiava lentamente. E já estava lá: a minha boneca, o namorado, a primeira noite, separação; vai e vem de amores, sair de casa; o jornalismo, páginas policiais. O encontro com Mateus.

Tudo projetado como se fosse um filme na tela da minha vida, o novelo se desfazendo e fora antes escolhido, estava dentro de mim.  Um destino plantado feito semente. Criando raízes, alastrando e me puxava para mais perto numa louca atração pelo personagem, queria ganhar forma, pular da caderneta, irromper em vida própria. Me dominar.

E antes que acontecesse, antes que em mim mandasse, puxei-lhe as rédeas, o afastei. Fechando o bloco de anotações. Guardando na bolsa. Ele tirou do casaco um maço de cigarro, a mesma marca do meu. Sentei e fiquei esperando. Me olhou. Talvez um segundo, uma fração e já não me olhava. Implorei perdão. Bateu de leve no joelho, retirou um cigarro. Me ofereceu.

Tremi. Meus dedos finos quase o encontravam, tocava a mão que me oferecia, se deixava seduzir. Ele continuando, talvez soubesse da minha desistência, de que estava pronta para entrar nas águas e me afogar, deixar  o sal embeber meu corpo até ficar inchada, os lábios ressecariam se cobrindo  com  algas, os caranguejos carregando meus restos mortais para bem longe, além da curva  da praia, outros mares, minha consolação.

Um pouco de mim sendo repartido com outros, eu me daria enfim, não seria mais minha, inteira e unicamente minha, a outros pertencendo até virar pó.                                      

 O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas.  Moraria na caixa de madeira.

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* Dispersão de um povo pelo mundo.

   Apresentado no IV FESTLATINO – Recife – PE,  10/11/10 – sob o título “Cinema e Literatura: um diálogo na experiência de Patricia Tenório”.

**  “O domador de bolas de sabão” inaugura uma nova linguagem. Adaptado do livro de contos “Diálogos”, este curta foi criado como se pinta um quadro, exploro a tentativa ilusória do artista em apreender a Arte. Com Kleber Lourenço, produção e figurino de Jorge Féo, texto, edição e direção de Patricia Tenório.

Tessituras

        Insisto em acreditar no melhor do Ser Humano. Nas suas margens transbordantes, suas searas de Luz e Bondade.

         “A compulsão derivada das impressões dos primeiros anos de infância, e o que foi reprimido e se tornou inconsciente, não pode ser corrigido pelas experiências futuras.” (“Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”, Sigmund Freud)

        Carrego no peito um espaço intocado, onde entrevejo frestas de um Mundo melhor, mais justo, um Mundo de Amor e Harmonia.

        “Na cena do texto não há ribalta: não existe por trás do texto ninguém ativo (o escritor) e diante dele ninguém passivo (o leitor); não há um sujeito e um objeto. O texto prescreve as atitudes gramaticais: é o olho indiferenciado de que fala um autor excessivo (Angelus Silesius): “O olho por onde eu vejo Deus é o mesmo olho por onde ele me vê.”” (O prazer do texto, Roland Barthes)

        Mas a Bondade e a Maldade reside em mim ou traço escolhas de Bem e Mal? O Destino ou o Livre arbítrio? A Palavra ou o Silêncio?

        “Falta bom senso e juízo a esta gente; têm os olhos tão fechados que não vêem, seus corações não podem compreender. Ninguém reflete nem tem bom senso e inteligência para se dizer: “Queimei metade (da madeira), cozi pão sobre a brasa, aí assei a carne que comi e iria eu fazer do resto um ídolo miserável? Prostrar-me-ia diante de um pedaço de madeira? Este homem se nutre de cinzas, seu coração desabusado o desencaminha, ele não consegue salvar-se nem dizer: “Não será um logro o que tenho nas mãos?” (Isaías, 44, 18-20)

        Disfarço em mentiras ou crio ficções? Escrevo o texto ou ele me inscreve?

        “A fruição do texto não é precária, é pior: precoce; não surge no devido tempo, não depende de nenhum amadurecimento. Tudo é arrebatado numa só vez. Este arrebatamento é evidente na pintura, a que se faz hoje: desde que é compreendido, o princípio da perda se torna ineficaz, é preciso passar a outra coisa. Tudo é jogado, tudo é fruído na primeira vista”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

        Bato no peito, acendo chama. Procuro a porta onde me vejo Imagem e Semelhança de quem me criou.

Imagem e Semelhança – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

Imagem e semelhança

Patricia Tenório

“D´Agostinho”, 2010

A aparência

Nunca me trouxe

Mau juízo

As palavras cítricas

Transmutei em leite e mel

Aproveitando

De cada um

O que de melhor possuía

Varro os pecados alheios

Não me interessam

Não me revelam

A luz do centro

A cor de um sorriso

Ingênuo

Pacífico

Carente de amor e harmonia

Degusto

O doce ser humano

Acalanto

O sonho

Alimento

A alma

Revelando

De cada um

O que de melhor possuía

         Aprumo o compasso do que fui, do que sou agora, o que me espera amanhã.

        “(…) não somos bastante sutis para nos apercebermos do escoamento provavelmente absoluto do devir; o permanente só existe graças a nossos órgãos grosseiros que resumem e reduzem as coisas a planos comuns, quando nada existe sob essa forma. A árvore é a cada instante uma coisa nova; nós afirmamos a forma porque não apreendemos a sutileza de um movimento absoluto (Nietzche, extraído de O prazer do texto, Roland Barthes)

        “E que me alargues as fronteiras” ([1]) da Alma, Arte e Espírito unos e santos, barro e criador, pelos séculos e séculos… Amém!

        “Texto quer dizer Tecido; mas, enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a ideia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

O sonho é o único direito, Patricia Tenório

Filmado em Cannon 7D. Editado em Final Cut Program.

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(1) Oração de Jabez (“Oh! Que me abençoes / E me alargues as fronteiras, / Que seja comigo a Tua mão / E me preserves do mal, / De modo que não me sobrevenha aflição!” (1 Crônicas 4: 9)

Aviso

 

 Venho anunciar a minha desvinculação da Editora Calibán.

 Agradeço a atenção, o carinho e a força de todos que me apoiaram, abraço grande da

 Patricia Tenório.

Desfigurações

Patricia Tenório

13/10/2010

            Questiono sobre a traição. A traição em um casal, a traição filial, a traição dos valores, a traição nas palavras.

httpv://www.youtube.com/watch?v=EAAPVLPxN98

Prisão Perpétua([1]) 

“Como criatura de linguagem, o escritor está sempre envolvido na guerra das ficções (dos falares), mas nunca é mais do que um joguete, porque a linguagem que o constitui (a escritura) está sempre fora de lugar (atópica)…” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Será uma maneira de escapar de nossas culpas, trair o outro? Agir antes de receber a ação?

“A morte do Pai privará a literatura de muitos de seus prazeres. Se não há mais Pai, de que serve contar histórias? Todo relato não se reduz ao Édipo? Contar é sempre procurar a origem, dizer as disputas com a Lei, entrar na dialética do enternecimento e do ódio?” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Mas vem a Arte e nos envolve nas suas texturas, nos absolve de imensos pecados, quando nela nos jogamos, entregamos. Quando nos reconhecemos.

“O sentimento humano é uma hélice de dois gumes. Uma lâmina alisa a tua vaidade. A outra corta fundo o teu orgulho” (“Reflexões de um liquidificador”, filme de André Klotzel, com Ana Lúcia Torres, Germano Haiut, Aramis Trindade e Selton Melo (voz do liquidificador)).

Mastigo o imenso desejo de justiça, para descobrir que a soberba morre no final dos tempos, morre em mim, morre no meu irmão, morre em toda a Humanidade.

“Si miramos la realidad, las mujeres son más sólidas, más objetivas, más sensatas. Para nosotros, son opacas: las miramos, pero no logramos ir adentro. Estamos tan empapados de una visión masculina que no entendemos. En contrapartida, para las mujeres, nosotros somos transparentes. Lo que me preocupa es que cuando la mujer llega al poder pierde todo aquello. Hay tres sexos: femenino, masculino y el poder. El poder cambia a las personas.” (José Saramago, enviado por Lélia Almeida (http://mujerdepalabras.blogspot.com/) em “Quando é proibido estar descontente” e em www.lanacion.com.ar, 12/07/2007) 

Temo o medo de não ter mais medo. Tornar-me apática e sem sentido. Olhar para trás e não reconhecer quem sou.

 ““Escrevo para não ter medo”? Quem poderia escrever o medo (o que não impediria dizer contá-lo)? O medo não expulsa, não constrange nem realiza a escritura: pela mais imóvel das contradições, os dois coexistem – separados” (O prazer do texto, Roland Barthes).

“La seule de ma vie a été la peur” (Hobbes, epígrafe de O prazer do texto, Roland Barthes).

“… mas é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. A carne implica todas essas coisas turvas e mesquinhas. Quase tudo o que eles faziam era por medo. Eu conheço isso, porque convivi com os homens: começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer. É medo.” (A Compadecida em “O auto da Compadecida”, Ariano Suassuna).

Bairro das Laranjeiras – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

Refrão:

Naquele tempo

Um atrás de você foi indo

Na solidão

Resolveu colher

Uma atrás da outra laranja

Na contramão

 

Pães, peixes

Índios partidos

Na multidão

 

Nem ouse

Não sonhe

Quebrar minha bacia

Parideira de cobras

Ratos

 

Pensar por si

Não é o mesmo

Que pensar

Somente em si

E você caiu

Uma vez

Atrás da outra

Nos seus pecados

Sem saber

Sem arrepender

Quando soube

Pela primeira

Pela segunda

E na terceira

O galo cantou

Anunciando a encruzilhada:

Bem aventurado o simples

Porque será perdoado

Bem aventurado o humilde

Porque em seu coração

Farei reinado

 

Refrão:

Naquele tempo

Um atrás de você foi indo

Na solidão

Resolveu colher

Uma atrás da outra laranja

Na contramão

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(1) “Prisão Perpétua” encerra a trilogia dos curtas adaptados de “Diálogos” de Patricia Tenório. Procurei aqui roçar o limite entre a realidade e a ficção: até onde vai o Real? Com Hermínia Mendes, Renata Phaelante e Juan Guimarães, produção e figurino Jorge Féo, texto, edição e direção Patricia Tenório. No final, os créditos dos 03 curtas de “Diálogos”.