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Patricia Tenório

05/10/2010

            Hoje meus filhos, Maria Eduarda e Bruno, me perguntaram pela existência de Deus.

            Pergunta difícil esta de tentar responder. Mas eu mesma me questionei: como provar que Deus existe?

            “Na maioria dos seres humanos – tanto hoje como nos tempos primitivos – a necessidade de se apoiar numa autoridade de qualquer espécie é tão imperativa que o seu mundo se desmorona se essa autoridade é ameaçada.” (“Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”, Sigmund Freud)

            Precisamos desta autoridade exterior (Deus) até o ponto em que nos enxergamos e O descobrimos dentro de nós?

            “Dizem que tudo o que buscamos, também nos busca e, se ficamos quietos, o que buscamos nos encontrará. É algo que leva muito tempo esperando por nós. Enquanto não chegue, nada faças. Descansa. Já tu verás o que acontece enquanto isto.” (Clarissa Pinkola Estés em “Mulheres que correm com os lobos”)

            Creio que, em algum momento de nossas vidas, este Algo, este Ser Todo Poderoso e misericordioso, infinito de bondade, se manifesta em nós e apenas nós podemos traduzir o que Ele significa…

          “Senhor, até quando clamarei sem me atenderes? Até quando devo gritar a ti; “Violência!”, sem me socorreres? Por que me fazes ver iniquidades quando tu mesmo vês a maldade? Destruições e prepotência estão à minha frente; reina a discussão, surge a discórdia. Respondeu-me o senhor dizendo: “Escreve esta visão, estende seus dizeres sobre tábuas, para que possa ser lida com facilidade. A visão refere-se a um prazo definido, mas tende para um desfecho e não falhará; se demorar, espera, pois ela virá com certeza e não tardará. Quem não é correto vai morrer, mas o justo viverá por sua fé.” (Hababuc 1, 2-3; 2, 2-4)

         Busco nos livros, rabisco palavras na tentativa de descobrir a Palavra original, aquela que se fez Verbo, o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

         “O pensamento, mais rico em conteúdo que em palavras, orgulha-se de sua substância, não de seus adornos. As palavras são meras mendigas que podem tão-somente contar o seu valor.” (“Romeu e Julieta”, William Shakespeare)

         “… não lemos tudo com a mesma intensidade de leitura; um ritmo se estabelece, desenvolto, pouco respeitoso em relação à integridade do texto; a própria avidez do conhecimento nos leva a sobrevoar ou a passar por cima de certas passagens (pressentidas como “aborrecidas”) para encontrarmos o mais depressa possível os pontos picantes da anedota (que são sempre suas articulações – o que faz avançar a revelação do enigma ou o destino)…” (O prazer do texto, Roland Barthes)

         Paro. Uma brisa acalma meus cabelos. O sol brinca nas minhas rugas. Dou a mão a Maria Eduarda e Bruno, passeio na areia da praia. Quem sabe encontremos alguma resposta?

Water shows the hidden heart, Enya([1]) 

 

A água mostra o coração partido([2]) 

           

         Procuro direcionar a dor do mundo. Sirvo-me do que há em mim para aplainá-la e não me sentir só.

         Sinto o buraco se alastrando no âmago, mas encontro companheiros de solidão. Talvez para descobrir estas paragens assim me encontro, nestas quatro paredes mergulhada e não procuro as pessoas que vivem e sim as mortas, sobreviventes desta vida sem fim e sem sentido.

         Aqui tudo explode; eu encolho. Dos precursores recebo não e fel com que adoço os bicos dos filhotes sedentos de amor, limite e compreensão. Vou deixando de sentir por aqueles o calor que antes senti e as paredes são construídas com cal e melancolia.  Haverá vida nesta torre extrema? Falarei línguas ou vestirei o pó e sacos cor de cinza?

(1) Melhor abrir com Internet Explorer.

(2) ERRATA: No livro está “Sonho” – Diante da música Water shows the hidden heart, Enya. Texto extraído de “Diálogos”, de Patricia Tenório.

Convergências

Patricia Tenório       

29/09/2010       

O interessante de uma viagem é visitar o que não se esperava ver, buscar o inesperado. Não é a toa que os artistas assim o clamam com todas as forças, com todas as vísceras, na tentativa de recriar o olhar.      

      

      

      

      

       

“Não é a “pessoa” do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma previsão do desfrute: que os dados não sejam lançados, que haja um jogo” (O prazer do texto, Roland Barthes).       

Quero olhar o novo, olhar de criança, desvirginando o mundo que me cerca, amanhecendo o desejo que em mim pulsa.       

httpv://www.youtube.com/watch?v=VY7d7QXOSGY       

Olhos fechados([1]) 

 

“Me esvazio para entender a totalidade. Fecho os olhos, quero me cegar um pouco” (Shima, artista plástico em Olhares cruzados, Diário de Pernambuco, Viver, 29 de Setembro de 2010)       

Cabe antecipar o desejo, aproximar o antes, alicerçar o conhecimento?       

“O seu (de Leonardo da Vinci) insaciável desejo de tudo compreender em seu redor e de pesquisar com atitude de fria superioridade o segredo mais profundo de toda perfeição condenou sua obra a permanecer para sempre inacabada” (Edmondo Solmi em Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância, de Sigmund Freud).       

Será que o que leio é o que leio, ou um reflexo do que os outros leram para mim? Onde encontro a palavra original, aquela que está por trás do texto, por trás do olhar?       

“Em Leonardo, o olho humano é o intermediário entre a natureza e o intelecto. Ele manipula o espaço, alinha os olhos da personagem com o horizonte, colocando-nos assim diante da retradada (“Mona Lisa”), anulando o espaço entre o espectador e a obra” (Letícia Martins de Andrade, O tempo do renascimento, Vol. 4 – 1500 a 1520).       

Parece-me o além do espaço, além do corpo que me redime às quatro paredes do ser, angustiado ser, onde tento ultrapassar as barreiras da minha humanidade.       

“Sabemos, de fato, que a lei é espiritual, mas eu carnal, vendido ao pecado. Não entendo absolutamente o que faço: pois não faço o que quero; faço o que não quero” (São Paulo em Romanos 7, 14-15)   

 

São Paulo – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli) 

 

Quando tua luz aplaca meus sentidos       

Sinto despir-me       

De máscaras e vaidades       

Podes ver-me por inteiro       

Com falhas e virtudes       

E gosto do que vejo       

        

Vejo alguém fraco       

Que se transforma com o teu poder       

Que escala montanhas       

De ódio       

Rancor       

E alcança o ápice do perdão       

        

Tu és minha bandeira       

Que empunho        

E sou mais forte       

Mais tu       

Menos a mim       

        

Abandono e ultrapasso       

A vida que me destes        

(São Paulo, em Agostinho, de Patricia Tenório)

 

(1) “Olhos fechados” é a adaptação de um conto de mesmo nome do livro “Diálogos” de Patricia Tenório. Com Ísis Agra e Thiago França, procurei retratar a dor do mundo e o lúdico da Poesia. Produção e figurino Jorge Féo. Texto, edição e direção Patricia Tenório.

Contrastes

Patricia Tenório

26/09/10

O que tem a ver Albert Einstein, O retrato de Dorian Gray, o Renascimento, Milton Nascimento e Emilson Zorzi?

Albert Einstein sempre rondou meu imaginário, seja na admiração que meu pai tem por ele, seja num desejo antigo meu de ser cientista. Desejo meu ou desejo do outro que é meu pai, materializando-se através da filha mais velha?

Retornei de uma viagem pela Itália, particularmente visitei a Toscana. Aproveitei a ocasião para estudar in locuo sobre o Renascimento.

Há mais ou menos dois meses terminei de ler O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Havia lido e muito me impressionou De Profundis e A alma do homem sob o socialismo.

No voo de volta da Itália, assisti Einstein & Eddington([1]).

Trata-se de um trecho da vida de Albert Einstein quando, com a ajuda de Arthur Eddington, descobre a Teoria da Relatividade. O que mais me toca no filme, além da fotografia de uma Cambridge do início do século XX e uma Berlim a caminho da 1ª Grande Guerra Mundial, é a delicadeza e a violência ao mesmo tempo do gênio criador. Eddington, apesar de Einstein pertencer à nação inimiga, defende a Ciência acima dos preconceitos e atrocidades humanas. Einstein permanece em seu centro, ou procura permanecer, ainda que solitário, ainda que forçado a assinar uma lista de 93 cientistas a favor do Kaiser, ele encontra em si sua máxima coerência. Lembro do livro Como vejo o mundo onde Albert Einstein discorre sobre temas diversos. Abre com uma crônica homônima ao título e se considera “profundamente um solitário”, mas ao mesmo tempo crê “profundamente na humanidade”, apesar da sua “inconsistência”.

Certas Canções – Milton Nascimento

A máxima do Renascimento foi a imitação como forma de aprendizado. Segundo Alexandre Ragazzi([2])

“… o artista, por meio da imitação de diversos modelos, fatalmente acabaria por criar uma nova obra.”

Ao processo de imitação caberia seguir o outro, se equiparar a esse outro e superá-lo. Através da cópia, da humildade do discípulo em abrir-se aos ensinamentos e conhecimentos do mestre, uma fresta ilumina o que em si habita, e, através do estudo, contínuo e persistente, pode ser revelado. A escavação, às vezes, leva toda uma vida se assim o quiser, tornando-se independente de seu mestre caso seja esta a sua natureza.

Retiramos máscaras atrás de máscaras e não nos reconhecemos mais, e não aceitamos que eram apenas máscaras o que usávamos quando nos aparentávamos bons, belos, próximos à imagem e semelhança divina. Mas vem O retrato de Dorian Gray e nos retira mais uma máscara de vaidade, e nos faz cair ao rés-do-chão e apanhar as últimas partículas do ser, tentando montar um espelho partido do outro, um espelho que precisamos para nos reconhecer e nos por em pé novamente e tentar desfazer os nós que em nós mesmos criamos.

Desfazem

nós

tramam…

nós seguimos,  nós

desfazemos,

um a um, nó, só, nós…

desfazem-se os nós,

nós,

podemos desfazer os nós, contras e prós

nós e nós

nós com nós com nós

não há nós

fio reto para tecer-nos

ternos ex-nós

(Nós, Emilson Zorzi)

Param

As vespas cantantes

No santuário

Do meu canto límpido

Você

Atravessa o espaço

Outrora alheio

Agora nosso

Para

Desfazer os nós

Que em nós se armaram

Até os ossos

Vem

Na manhã fria

Uma luz, um fio

A costurar palavras

Onde agora posso

Refazer os nós

Dos que se amaram

Até os ossos

(Nós, Patricia Tenório)

(1) Dirigido por Philip Martin, com Andy Serkis (Einstein) e David Tennant (Eddington).  

(2) Revista O tempo do renascimento, Vol. 3 – 1480 a 1500.