Posts com Artes Plásticas

Índex* – Junho, 2018

Carrego 

As frases

Inacabadas 

Os sonhos

Por vir

Uma estrela

Cadente

Caindo

Em minha mão

Ainda quente

Ainda cheirando 

A jasmim

Até brotar

No centro

Uma palavra

De cor

Azul

(“Até meu céu nascer azul”, Patricia Gonçalves Tenório, 31/05/2018, 15h35)

 

O céu azul de final de semestre, início de outro no Índex de Junho, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Vinte e um | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Il Convivio (Itália), Alfredo Tagliavia (Itália) & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2018 | De Recife a Porto Alegre | Diversos.

Poemas de Cilene Santos (PE – Brasil).

Minicontos de Júlia Dantas (RS – Brasil) nos Estudos em Escrita Criativa – Porto Alegre.

E os links do mês:

– Homero Fonseca (PE – Brasil): https://medium.com/@homerofonseca/literatura-ostenta%C3%A7%C3%A3o-bc355b700c7c

– Gabriel Nascimento (RS –Brasil):  https://www.facebook.com/Reimundo45/

– Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://lituraterre.com/espaco-letra-freudiana/  

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 29 de Julho de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* June, 2018

 

I carry

The phrases

Unfinished

The dreams

For coming

A star

Cadent

Falling down

In my hand

Still hot

Still smelling

The jasmine

Until it comes out

In the center

A word

In color

Blue

(“Until my sky is blue”, Patricia Gonçalves Tenório, 05/31/2018, 3:35 p.m.)

 

The blue sky of the end of semester, beginning of another in the Index of June, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Twenty-one | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Il Convivio (Italy), Alfredo Tagliavia (Italy) & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – June, 2018 | From Recife to Porto Alegre | Several.

Poems by Cilene Santos (PE – Brasil).

Very-short-stories by Júlia Dantas (RS – Brasil) in Studies in Creative Writing – Porto Alegre.

And the links of the month:

– Homero Fonseca (PE – Brasil): https://medium.com/@homerofonseca/literatura-ostenta%C3%A7%C3%A3o-bc355b700c7c  

– Gabriel Nascimento (RS – Brasil): https://www.facebook.com/Reimundo45/

– Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://lituraterre.com/espaco-letra-freudiana/  

Thank you for the attention and the affection of always, the next post will be on July 29, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** “Olha para o céu, meu amor… Nessa noite de São João”. Música: Luiz Gonzaga  (PE – Brasil). Fotografia: George Barbosa  (PE – Brasil). “Look at the sky, my love … On that night of St. John.” Music: Luiz Gonzaga (PE Brasil). Photography: George Barbosa (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2018 | De Recife a Porto Alegre

Os Estudos em Escrita Criativa do primeiro semestre de 2018 cumpriu sua missão. Cumpriu a missão monstruosa de tentar unir as duas pontas do Brasil, as duas cidades em que eu flutuava nas idas e vindas do doutorado em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, única com graduação, mestrado e doutorado na área do país.

As duas cidades se fizeram unas sob as temáticas do tempo – e Agostinho de Hipona, Erich Auerbach, Oscar Wilde –; do mito – e Yuval Harari, André Jolles, Vincent Van Gogh –; da viagem – e Michel Onfray, Luiz Vaz de Camões, Christopher Vogler –; da música – e Thomas Mann, Hermann Hesse, Platão.

E os conceitos se ampliaram – o Eterno e o Tempo agostiniano, Figura dos Primeiros Padres Cristãos, a Pergunta que se anula na Resposta do mito, os viajantes e sedentários desde Abel e Caim, a Teoria Barroca dos Afetos.

E os convidados especiais – Alexandra Lopes da Cunha, Alexandre Santos, Débora Ferraz, Fátima Quintas, Flávia Suassuna, Gustavo Melo Czekster, Jacques Ribemboim, Júlia Dantas, Guilherme Azambuja Castro, Tiago Germano.

E os escritos grandiosos dos participantes – Adriano B. Cracco, Ana Elisabete Cunha, Antonio Ailton, Bernadete Bruto, Cilene Santos, Dulce Albert, Elba Lins, Eliane Mascarenhas, Gabi Vieira, Gabriela Guaragna, Gabriel Nascimento, Giliard Barbosa, João Orlando Alves, Ina Melo, Inalda Dubeux Oliveira, João Paulo Nascimento de Lucena, Luciana Beirão de Almeida, Marco Polo Laufer, Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva, Monique Becher, Rackel Quintas, Rodrigo Ribeiro.

A infinita gratidão por tudo que constuímos juntos. O segundo semestre vem com muitas novidades e desafios. Mas, com vocês, sei que conseguiremos dar o salto e transformarmos a nossa Escrita Criativa em obra de arte.

Com vocês, os escritos dos participantes de Junho, de Recife a Porto Alegre, dos Estudos em Escrita Criativa – 2018.

Grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Ana Elizabete Cunha

Recife, 09/06/2018

Contato: anaelisabetecunha@gmail.com

Venha ao colo de leite

e diga o som que Aninha;

Brinca sem tempo de fim

sentando em pele rosa, tão branca, rosinha.

 

Mas ao silêncio adormece, entorpece,

Respirando anseios de mãe.

Fita o nada e enlouquece;

Renova toda a vida em outro instante.

 

Respira… Já vou;

Respira… Aqui estou:

Um sempre nunca distante.

 

Quem foi cria de puro alento

é o todo e o tudo

a que seja remetido.

 

Se tem a escuridão nos olhos,

ofusca o sol por um sorriso.

Cachos, castanhos e noite

até que se faça esquecido…

 

(“A criança de sonho” – Ana Elisabete Cunha, 09/06/2018, 11:30h)

 

O SOM DA ANCESTRALIDADE

Bernadete Bruto

Recife, 09/06/2018

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Olhou a foto pendurada na parede do quarto, sorrindo ao se rever naquele instante mágico. Atrás da silhueta risonha o TAJ MAHAL e como ele, o som, cheiro, cores retornando para aquele instante mágico inesquecível.

Antes, jamais poderia imaginar o que aconteceria, parodiando com a escrita da própria canção, cuja letra e melodia ecoam de uma lembrança longínqua, tão distante quanto sua ancestralidade provém.

Era criança num terraço. A música ressoava do aparelho radiofônico seduzindo para uma dança (som de harmônio indiano), explicitava um convite: “a Índia fui em férias passear, tornar realidade um sonho meu…”

Hoje, após dez anos, feliz por um sonho realizado, retorna aliciadoramente ao trecho daquela canção da infância, cuja melodia produz um verdadeiro encontro do corpo com a alma: “Se nada mudar no ano que vem, a Índia vou voltar para ver meu bem.” (som do harmônico indiano)

 

A Canção Proibida

Cilene Santos

Recife, 15/06/2018

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

O ano, 1957. Exatamente quando eu me preparava para a Primeira Comunhão, uma canção foi lançada e fez muito sucesso.

Mas fomos orientadas pelas nossas catequistas para não cantar nem ouvir aquela música. Segundo elas, quem cantasse “Eu vou pra Maracangalha, eu vou…” fazia apologia ao inferno.  Seria o mesmo que dizer: “Eu vou pra o inferno, eu vou…” e eu tinha medo do inferno e do capeta. E na minha inocência, eu levava a sério o que elas  ensinavam. E sofria porque sendo algo proibido, aguçava mais o meu pensamento e só a canção proibida manifestava-se. Tentava pensar nas brincadeiras, nas bonecas, mas nada adiantava.

A música teimava, insistia e ficava. Eu pedia a Deus e aos santos para me libertar daquele peso.

Com o passar do tempo, mudei meus conceitos religiosos, passei a ter uma visão diferente do pecado e de Deus. Descobri que Deus não era um carrasco, como me foi apresentado. O inferno não existia. E eu perdi os medos que me afligiram  a infãncia. Eu não seria mais uma pecadora meramente pelo fato de cantar aquele samba tão bonito de Dorival Caymmi.

Todos esses acontecimentos ficaram enclausurados em minhas memórias. Entretanto, hoje, quando me encaminhava ao trabalho, fui surpreendida por aquela melodia. Um alto-falante em alto e bom som tocava a canção, na voz estrondosa do seu compositor.

Nem tive medo! Até segui cantarolando feliz e achando graça. Como pude sofrer tanto, em meus sete anos de idade, por causa de uma canção tão bela. E todo aquele passado veio à tona, justamente quando ouvi a “Canção Proibida”. E nem doeu!

 

Dulce Albert

Recife, 09/06/2018

 

UMA CANÇÃO PARA MAMÃE

Para a mãe já acamada que diziam não mais ouvia, nem falava e, talvez, visse muito pouco, só vulto, ficou junto a sua cama, e, ao confortá-la, cantarolou: “E a fonte a cantar… e a mãezinha: ‘Chuá, chuá’”… Ouviu…respondeu ao seu carinho. Com emoção gritou: mamãe cantou…mamãe cantou!

 

Elba Lins

Recife, 09/06/2018

Contato: elbalins@gmail.com

 

Na praia o sol escaldante lhe queimava a pele, potencializando o fogo que se espalhava pelo corpo.

Os olhos azuis refletiam o sol, refletiam o mar…

E sem saber que de longe alguém lhe observava, andou sem destino, procurando a companhia que melhor se adaptasse à emoção que estava sentindo.

Era solidão, era poder, era desafio…

Lembrou do filme, bem antigo.

Mergulhou na amplitude do pensamento e abordou a primeira pessoa que cruzou o caminho.

A profecia se fez, e de longe observei…

 

(A Moça com Olhos de Blues

Durante o exercício na aula de Escrita Criativa – A Música

Pensando na música La Belle de Jour, de Alceu Valença e no filme A Bela da Tarde)

 

Gabi Vieira

Recife, 09/06/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Ouviu o velho som emitido pelo aparelho quase tão velho quanto, distraindo-se do que estivesse fazendo. Na solidão do pequeno quarto, sentiu ondas de lembranças lhe levarem para outra época, outra casa, outra vida.

Uma vida na qual morava em um enorme casarão, não no minúsculo apartamento atual. Tempos em que corria por vastos jardins que faziam os simples cactos – as únicas plantas que tinha tempo para cuidar – na varanda de hoje se encolherem de vergonha. Em fantasias e com apetrechos em mãos, dançava seguindo o ritmo e a história daquela música emitida pelo mesmo aparelho – em suas memórias, limpo e recém-adquirido – que agora se empoeirava em sua sala.

Sorriu.

Com o lápis em mãos e o coração cheio de saudade, deixou que o Pirata José guiasse seus pensamentos até a princesa tão linda, ambos personagens insubstituíveis de seus sonhos de criança.

 

João Paulo Nascimento de Lucena

Recife, 09/06/2018

Contato: jpn.lucena@gmail.com

 

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”. A conformação é sempre algo que mexe com a gente. Nalguns mais do que noutros. Disseram ter a ver com o amadurecimento e citaram um romance de formação, desses em que um jovem tem sua vida apresentada no olho do furação e, no desenrolar da estória, é ou não resolvida. Algo como Truman saindo da caverna de seu próprio Big Brother – com ou sem paranóia. De tanto ouvir, de tão visível, é, por vezes, subestimado. Vai ver conformar-se é com-formar-se, em seu sentido radical: radical de raiz, de individual e coletivo. Sofreu porque, talvez, como dissera o Maluco Beleza, é “chato chegar a um objetivo num instante”. Maldita procrastinação do ser-humano.

 

Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva

Recife, 09/06/2018

Contato: duda.tenorio@hotmail.com

 

É engraçado o que girar faz com as pessoas e como a música leva a isso.

Girar por dentro em busca de algo ou girar o corpo junto com a melodia e o ritmo.

Era primeiro dia de Carnaval e, ainda reunidos na casa de um amigo,…

“Eu ia lhe chamar

Enquanto corria a barca”

Corpos que nem sempre trocam palavras iniciam um processo de trocar movimentos que vêm do som.

Arritmia. A expressão do som no espaço, o éter acima de todo e qualquer elemento, afinal, ele vem antes de tudo, até da luz.

É de onde tudo nasce. E éter é espaço. O som não se propaga no vácuo.

E é por isso que, ao se embeber de música, o ser nasce de novo.

“Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer”

 

Rackel Quintas

Recife, 09/06/2018

Contato: rackelquintas@gmail.com

 

Tomaram-lhe orelha,

garganta e boca,

entre pães e cigarro aceso;

entre-vinhos.

Naquela mesa,

era só e presente

feito a passadeira,

enfeitando todas as coisas.

Era fantasma colorido

de gozo e som

de voz grave que cantava saudade

em tons amarelos, azuis e pretos;

em lutos.

E olhava janelas-retratos,

Olhava pessoas e pássaros,

Imagens inacabadas;

Olhava pegadas.

Amarelas, azuis e pretas.

Ninguém sabia que doía tanto

uma mesa no canto

e pranto… tanto.

Tomaram-lhe as mangas, os sulcos:

Manto.

Naquela mesa está faltando

Encanto

E a saudade dele tá doendo, enfim.

 

Gabriel Nascimento

Porto Alegre, 13/06/2018

Contatos: gsabritto@yahoo.com.br e https://www.facebook.com/Reimundo45/

 

5 anos. Não mantive contagem, mas é natural que ela sim. Sou interrompido pelo concerto matutino de buzinas e gritos. Minha cabeça faz uma apresentação surpresa, o ruído das baquetas quase me leva ao frenesi.  O concerto da manhã atinge o crescendo pelas 18:00, as buzinas da Ipiranga se juntando no refrão. O zunido me mantém acordado até a madrugada, quando o dia reserva sua melhor performance. O vento toca as folhas nas árvores com dedos praticados, um maestro exemplar. A música traz sensações, e com ela lembranças, resultando em marcas úmidas em meu rosto, lembrando-me dos tempos atuais, da pessoa que não pode mais ouvir essa orquestra muda.

 

Luciana Beirão

Porto Alegre, 13/06/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

Nota MI

 

Dó, Ré, Mi, Fá, SOU.

De .

SOU de , SI.

MI FA LÁ

SI SOU,

Ou não SOU.

Ai, que DÓ.

 

Página em branco

 

Da página em branco

Sai uma nota.

Sai uma música.

Da página em branco,

Sai uma palavra.

Uma poesia.

A página em branco vira música,

Batida,

Sentimento.

Sentimos música,

Ouvimos poesia.

Aquela página virou vida.

 

Dor de cotovelo transcontinental

Marco Polo Laufer

Porto Alegre, 13/06/2018

Contato: falecom.marcopolo@gmail.com

 

Sou brasileiro. Nunca saí do Brasil. Gostaria muito de conhecer o Velho Mundo e, enquanto isso não acontece, crio mundos onde meus personagens possam viver suas vidas sem serem perturbados.

Meu sangue é bem misturado, e desde pequeno tive contato com muita gente: negros e italianos, portugueses e índios, árabes e japoneses. Mas o que mais me fascinava era quando meu pai falava com o seu Erich e a dona Sylvia, vizinhos nossos.

Fui crescendo e descobri: aquilo era alemão. O Erich Huebel nascera nos confins da Áustria e fugira para cá assim que a Segunda Guerra acabou, e falava um português todo cheio de remendos; e a dona Sylvia, benzedeira e cartomante, nascera num lugar dentro do Brasil onde todo mundo falava só naquela língua, que não se ensinava na minha escola.

O destino me levou a São Paulo, onde morei por dez anos. Aquilo foi para mim um paraíso: a babel onde se falavam mil línguas, e eu não me importava que o cheiro do esgoto se misturasse com o cheiro das especiarias e dos segredos escondidos na curva da cada esquina.

Mas uma certeza eu sempre tive: meu coração bate dentro de um iceberg no mar do norte. Não posso ouvir holandês, sueco ou qualquer desses xingamentos que lembrem neve ou um sol triste e meio apagado, que meu coração fecha os olhos e sinceramente chora.

Lembro quando isso começou a se tornar uma verdade inegável.

Eu era jovem, nervoso e desorganizado, e tudo dava errado. Só pra mim.

Um colega do cursinho teve de sair mais cedo e perguntou se eu podia ficar com uma sacola dele, que ele pegaria no dia seguinte. Eu disse que sim.

Cheguei em casa e, claro, fui bisbilhotar.

Tinha uma fita K7 escrita Björk*.

Nome estranho. ‘O’ tremado. Podia ser alemão.

Botei no som da minha irmã, rezando a Elfos e Exus que a fita não mascasse.

Era uma música muito estranha para meu ouvido inculto e muito pouco musical. Mais tarde aprendi que aquilo era um piano e um violoncelo, com uma vassourinha varrendo a bateria, e que assim tocava-se jazz.

Aquela música mexeu muito dentro de mim. Especialmente a segunda faixa.

Não entendia uma palavra. Nem inglês nem espanhol. Doce e áspera, triste e calma, uma voz de criança com trinados de gato. Era massagem em minhas orelhas e meus demônios, prontos a afiar machados e ceifar cabeças, queriam agora encontrar uma flor e dar-lhe terra, água, adubo e um vaso.

Quando findou, sentia-me órfão, não sei de quê.

Pedi uma cópia pro meu colega, que me deu a ficha completa**. Era um disco de música islandesa. Islandeses são descendentes diretos dos vikings, e era bem possível que aquelas canções anunciassem a vinda do deus do trovão ou o crepúsculo dos deuses.

Mas pelo menos me acalmavam.

Anos depois, já na era da informação, fui atrás das letras.

Realmente são faixas de jazz de estilos variados, muitas são versões de clássicos americanos, e as letras mais raivosas falam apenas de corações despedaçados.

Em especial a minha preferida, a faixa 2, com o singelo título de “Luktar Gvendur”.

A letra fala de Gvendur, o ‘acendedor de lampiões’ (Luktar), que passava pelas ruas ao cair da noite e acendia as luzes do passeio público.

“Tinha a cabeça grisalha, e a luz fazia seu cabelo brilhar; se ele avistasse um jovem casal, ele não acendia o lampião e os deixava sob a sombra da escuridão; lembrava de seu doce amor, o ressentimento passava e seu coração quebrado até conseguia sorrir um pouco.”

Meu coração ainda pulsa, um pouco mais fraco talvez, numa geleira, mas quando estou com os nervos à flor da pele, ouvir essa música é o que basta para acalmar meus monstros e dar mais um tempo até o próximo apocalipse.

* (OBS: era o começo da era do CD, eu nem tinha aparelho).

** (CD: Gling-Gló, Cantora: Björk, ano: 1990).

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Sala de imprensa:

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Nossos encontros de Junho, 2018:

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Os próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_Recife

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Índex* – Maio, 2018

De Arabella

Se aproxima

O fim da sua estória

O fim da narração 

Em terceira pessoa 

Que ficcionaliza

A vida do autor

*

A morte do autor

Está em cada linha

Está em cada palavra

Contada

Narrada

Derramada

Na tela do computador 

Nas letras do teclado

Que protegem o eu

Do outro

E permitem imaginar

E concedem aproximar

O fim de uma estória 

À bordo de um avião

 

(“Arabella em apuro”, Patricia Gonçalves Tenório, 10/11/2017, 06h50)

 

Uma jornada pela Escrita Criativa no Índex de Maio, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2018 | Recife e Porto Alegre | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & convidados.

Uma leitura criativa | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS – Brasil).

O café | Cilene Santos (PE – Brasil).

Um poema criativo | Elba Lins (PB/PE – Brasil).

“BIUTFUL” (de Alejandro González Iñarritu) | por Flávia Suassuna (PE – Brasil).

Um conto heróico | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 25 de Junho de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – May, 2018 

From Arabella

Gets closer

The end of her story

The end of the narration

In third person

That fictionalizes

The life of the author

*

The author’s death

It’s on every line

It’s in every word

Told

Narrated

Spilled

On the computer screen

In the letters of the keyboard

Which protects the self

From the other

And the letters let imagine

And the letters grant get closer

The end of a story

Aboard an airplane

(“Arabella in style”, Patricia Gonçalves Tenório, 11/10/2017, 06:50 a.m.)

 

A journey through Creative Writing in the Index of May, 2018 of the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – May, 2018 | Recife and Porto Alegre | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & guests.

A creative reading | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS – Brasil).

The coffee | Cilene Santos (PE – Brasil).

A creative poem | Elba Lins (PB/PE – Brasil).

“BIUTFUL” (by Alejandro González Iñarritu) | by Flávia Suassuna (PE – Brasil).

A Heroic Tale | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Thanks for the attention and the affection, the next post will be on June 25, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Escrita Criativa por um país mais respirável. Creative Writhing for a more breathable country.

Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2018 | Recife e Porto Alegre

O mês de maio dos Estudos em Escrita Criativa nos presenteou com textos belíssimos de nossos participantes e depoimentos enriquecedores dos escritores convidados – Fátima Quintas em Recife no dia 12, Débora Ferraz e Tiago Germano em Porto Alegre no dia 16.

Sob a temática da viagem, navegamos por Camões, Michel Onfray, Joseph Campbell, Christopher Vogler, Maureen Murdock, Alessandro Baricco, Adriana Lisboa. À luz da Teoria investigamos a Ficção, iluminamos a Poesia e extraímos técnicas dos autores para o nosso fazer artístico.

Apresentamos abaixo, textos escritos na parte prática dos nossos encontros, alguns dos quais serão levados para o Congresso Internacional da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada) 2018 que acontecerá final de julho, início de agosto em Uberlândia, Minas Gerais.

Com vocês, os textos dos nossos Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2018.

Grande abraço e boa leitura,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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A JORNADA DE UMA VIDA

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Recife, 12/05/2018

 

Saiu de casa em direção à rua. Não sabia direito o que aconteceria. Saiu às pressas, na correria da vida e se encontrou em pleno caos da rua. Foi assim mesmo, entrando nos lugares, batendo de porta em porta, pedindo permissão para entrar.

Fez isso para ter uma voz no mundo e redescobrir a vida. A princípio não entendeu bem aquele mundo, além do famíliar, julgando os outros, se desentendendo em alguns momentos, até que, no meio do caminho, olha no espelho e descobre que todas as possibilidades e impossibilidades estavam ali mesmo, dentro de si e não no outro. O outro era apenas o espelho, o mentor, lhe apontando um caminho de pedras e flores, assim como é a vida comum.

Tomou a própria voz, no devido tempo e retornou para a casa dos sonhos, deixando um espaço também para o outro se expressar, da mesma forma que sempre desejou ter no mundo, no devido tempo, uma voz.

Hoje, olhando para trás, vê a jornada como uma viagem que sempre vale a pena, quando a gente compreende a vida e descobre que a alma coletiva nunca é pequena.

 

 

A viagem

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Recife, 12/05/2018

 

Debrucei-me nas muralhas do tempo.

Um cheiro de mato

Me levou à infância.

Agora sou uma menina.

Os amigos viajam comigo.

E brincamos.

O anel escondido entre as mãos.

“Onde está o anel?”

“Quem advinha?”

Agora é a sua vez.

Ah! Eu quero brincar de academia (amarelinha).

“Eu primeiro!”

A mãe chama,

“Hora de entrar!”

A voz da mãe se mistura com os protestos.

Na sala, a avó conta histórias de Trancoso.

Arrepios, medo de assombração.

O barulho do vento.

Comadre Fulozinha.

Histórias de rei e de rainhas

Que moram dentro das pedras.

Ouço uma campanhia.

É o tempo me chamando à realidade.

Fim da viagem.

 

À MULHER SECULAR QUE EXISTE EM TODAS NÓS…

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Recife, 12/05/2018

 

Forte!

Independente!

Desafiadora!

Inquieta!

Valente!

Ousada!

Dona da verdade.

De repente olha para trás…

Onde está sua luz?

Transita por todos os espaços,

Conversa com todos os amigos

Mas não se encontra…

Não vê o foco de luz

Que criou sua história.

Pára…

Mergulha no silêncio,

Cala as palavras,

Reduz o desejo,

Sente o medo.

Vai ainda mais fundo

Respira!

Expira…

Inspira…

Expira…

Inspira…

Se inspira.

E na calma das horas

Que escorrem lentas

Encontra a luz

Ela é macia

Serena

Frágil

Depende do oxigênio

De sua respiração

Pausada

Ela é quieta

Doce

Da cor do feminino

Que lhe conduz ao futuro.

 

Eliane Mascarenhas

Contato: elimasc@uol.com.br

Recife, 12/05/2018

 

Por muitos lugares andei, por muitos mundos viajei. Vi pessoas de pele clara, pele escura, dentes perfeitos, e bocas desdentadas. Pessoas que choravam e que riam, que louvavam e satanizavam.

Quantas paisagens maravilhosas, e quantos lugares sombrios. Em uns o sol brilhando e aquecendo, em outros a chuva, as nevascas, e as tempestades.

Quantas risadas, e quantos lamentos, em bares, esquinas, campos e praças.

Aqui, frio e fome; ali, abundância e satisfação.

Ora norte, ora sul, ora leste, ora oeste.

Vôos intermináveis para chegar ali, poucos passos para chegar aqui.

E línguas. Quantas línguas a falarem idiomas ora tão claros, ora tão ininteligíveis.

Esta poderia ser a descrição de uma longa viagem ao redor do mundo: Japão, França, Brasil, Conchinchina. Mas, na verdade, é uma viagem para dentro de um mundo que ninguém mais pode percorrer, a não ser nós mesmos.

É o nosso mundo interior, a nossa individualidade, o nosso eu, o nosso planeta íntimo. Tão igual a tudo que há na terra, e tão surpreendentemente único.

 

Jornada ao parque

Rackel Quintas

Contato: rackelquintas@gmail.com

Recife, 12/05/2018

 

Antes de mim, vieram três irmãs.
Mas eu era, também, a terceira;
Meio morte, meio dor,
no som dos meus treze anos.
Sonhava com a mãe –
aquela que paria e nutria crias no quintal –
E com casa: colunas, cama, banho, aconchego.
Depois, sonhava com tropas de bonecos
Entoando gritos de guerra.
Vez em quando, um homem visitava minha casa.
Era um pouco surdo, mas ria bastante.
Me trazia um pedaço de raiva;
aquela alegria exaltada agitava o sonho.
E eu permanecia inerte.
Certo dia, o visitante chamou-me ao parque.
Mas era longe do feijão,
Longe da mesa,
Longe da porta.
Lá haviam gritos,
barulhos agudos de felicidade
E um som salgado do mar em ondas calmas.
Sentei, calei, espantada.
Andei os primeiros passos, e depois mais rápido,
Senti meus braços e pernas desordenados
Até que a calçada ficou maior que meus pés.
E caí. Doeu. Sangrei.
Segurei as pontas dos dedos nuns apertos constantes.
E percebi que o homem ria.
Enraiveci. De medo.
Gritei, bati as mãos na areia.
O homem se aproximou,
beijou minha testa
Ergueu-me nos braços
e jogou-me corpo-ao-vento.
Voei.
Senti um balão de ar no meu peito,
E misturando ódio e medo,
Gritei desafinada
em gargalhada.
Mas era longe do feijão,
Longe da mesa,
Longe da porta.
Perto de todo o vento no rosto e nos cabelos,

iguais aos da minha mãe.

E voltei, naquele dia,
meio morte, meio dor,
Passando calçadas, pessoas, planos,
No entanto, dessa vez, sonhando:
jardineiro ou pescador?
Ao dom dos meus treze anos.

 

 

ATACAMA

Adriano B. Cracco

Contato: acracco@gmail.com

Porto Alegre, 16/05/2018

 

O desafio era grande

Cruzar o Atacama sempre foi um sonho deles

Ou, pelo menos, até então

Percorrer outros países, outras províncias, outras culturas

O que mais podiam esperar senão o inesperado?

Levar apenas as roupas que lhes cabiam na mala

Um punhado de objetos que lhes poderiam ser úteis

Mera precaução

Diria até pretenciosa

Planos feitos, dia claro, estrada adiante

Jornada iniciada

Do cansaço à tranquilidade

Da fome à raiva

Da surpresa ao medo

Tudo transcorria numa flexível rigidez

Saindo do prumo

Equilibrando emoções

E (quase) tudo que vai, volta

E eles voltaram

Querendo abraçar o mundo que partilharam

E nessa volta traziam também

O lógico desejo

De uma nova aventura

 

 

Gabriel Nascimento

Contato: gsabritto@yahoo.com.br

Porto Alegre, 16/05/2018

 

Estou fora de forma. Há anos não preciso arrumar malas. Vejo meu pai desgostoso com meu método de dobrar cuecas. Quase recusei a viagem, mas os argumentos de minha mãe foram…persuasivos: “Quem recusa Réveillon em Torres?”. Os decibéis ainda vibram nos ouvidos. Faltam 20 minutos até irmos à rodoviária. Fecho a mala, desistindo de dobrar mais a camisa. Sei que não é permanente, mas sinto como se estivesse no primeiro dia de aula, quando não entendia a inconstância das coisas. Vou à praia. Vou à praia. A ansiedade toma conta quando a ficha cai, mas não que nem antes. Há um sabor diferente, mais…suave. A ansiedade aumenta com as batidas na porta. Minha mão sufoca a alça da mala.

 

Em pelos de águia

Gabriela Guaragna

Contato: gabi_guaragna@hotmail.com

Porto Alegre, 16/05/2018

 

Passou pelo portão de embarque, segurando firme entre os dedos a passagem, a borrachinha de cabelo e a carteira de identidade. Ganhou tempo na espera. Descalçou-se. Tirou o cinto que segurava a respiração. Os pertences no raio-x; ela no detector de metais. Detectores metais?

Cruzou o saguão a sós. Pela primeira vez, desacompanhada. Como se estivesse morta, aguardava a própria aterrissagem em si. Segurava firme entre os dedos a passagem, a borrachinha de cabelo, a identidade, o suor. Havia um mar inteiro escorrendo entre os dedos. Tinha medo. De perder a prisão dos cabelos e das respirações. Segurava-se firme, com medo de esquecer-se ao adentrar a águia mecânica.

Lá de cima, viu o sol pintar o infinito de laranja. Foi com o ele se pondo sob as nuvens que ela se pôs junto. Com ele, encontrou a passagem, soltou a identidade, tornou-se águia. Voou.

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Turmas de Maio, 2018 dos Estudos em Escrita Criativa – Recife e Porto Alegre:

 

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Próximos encontros:

Cartaz A3

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre

Índex* – Abril, 2018

O mito

Abriu as portas

Do meu coração 

Aflito

E fez explodir 

As cores do

Arco-íris 

O ritmo do

Tambor

Até acalmar

E acalmando

Esse longo

Corpo

Que se chama

Amor

(“Abriu as portas do infinito”*, Patricia Gonçalves Tenório, 07/04/2018, 15h30)
* Após o II Encontro dos Estudos em Escrita Criativa – Recife – PE.

 

As portas infinitas da Escrita Criativa no Índex de Abril, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Recife e Porto Alegre – Abril, 2018 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & convidados.

POR QUE RAIMUNDO CARRERO | Flávia Suassuna (PE – Brasil).

Poema de José Mário Rodrigues (PE – Brasil) enviado por George Barbosa (PE – Brasil).

Uma promessa de amor | Mara Narciso (MG – Brasil).

E muito obrigada pelo carinho e participação, a próxima postagem será em 27 de Maio de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – April, 2018

 

The myth

Opened the doors

From my distressed

Heart

And made it explode

The colors of the

Rainbow

The pace of the

Drum

Even calming

And soothing

This long

Body

That is called

Love

(“Opened the doors of the infinite”, Patricia Gonçalves Tenório, 04/07/2018, 3:30 p.m.)

* After the II Encounter of Studies in Creative Writing – Recife – PE.

 

The infinite doors of Creative Writing in the Index of April, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – Recife and Porto Alegre – April, 2018 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & guests.

WHY RAIMUNDO CARRERO | Flávia Suassuna (PE – Brasil).

Poem by José Mário Rodrigues (PE – Brasil) sent by George Barbosa (PE – Brasil).

A promise of love | Mara Narciso (MG – Brasil).

And thank you very much for the affection and participation, the next post will be on May 27, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** “Sonho de Ícaro”, de Biafra. “Icarus Dream”, from Biafra.

Estudos em Escrita Criativa – Recife e Porto Alegre – Abril, 2018

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De 1902 a 1907, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, reunia, nas quartas-feiras à noite, em sua residência na Berggasse, 19, discípulos, pares, educadores, intelectuais, tais como Otto Rank, Alfred Adler, Max Graf, Wilhelm Stekel e Max Kahane. Este grupo cresceu e deu origem à Sociedade (Associação) de Psicanálise de Viena.

Nesta quarta 25/04/2018, sob as bênçãos de um dos baluartes da Escrita Criativa do país, o escritor e professor da PUCRS Luiz Antonio de Assis Brasil, inauguramos uma ponte entre duas das cidades mais ricas em escritores: após os dois encontros em Recife, tivemos o primeiro encontro dos nossos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre.

Como havíamos imaginado, a busca por cursos no formato dos EEC’s superaram nossas expectativas e nos animaram a continuar no caminho dos teóricos de várias áreas de conhecimento e artistas de outras artes relacionados a cada tema, do exercício prático provocado, iluminado pela teoria, e dos testemunhos de escritores locais sobre seus processos criativos.

Trazemos para o nosso blog neste post alguns exemplos de textos dos participantes das duas cidades.

E, quem sabe, formemos, em um futuro breve, a Sociedade Brasileira de Escrita Criativa?

Agradeço o carinho e a força de cada participante, escritores e escritoras convidados, grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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DITIRAMBO PARA O RENASCIDO

Antonio Aílton

Contato: ailtonpoiesis@gmail.com

 

 

Noite após noite me despedaço

e desespero, desmembrado

como um copo de vinho que serve ao

desregramento

e depois se quebra no cimento

vaza no tempo, para um tempo

antes de mim

Ali na rua há um lamento

e me pergunto

se sou vítima ou assassino

se sou o lance sem jogo do mendigo

Há uma lua, mas o que todos vêem

senão o sangue antigo? E no entanto

eu não seria

se não pudesse renascer, mesmo

quando lixo, cão mordido

Em breve estarei inteiro

para enfrentar o carro de Apolo

junto com as abelhas, as mulheres

os campos, os girassóis

Eu, taça reerguida quando vinho

e mosto renascido

− Dioniso

 

 

[Desafio 15min]

II Encontro dos Estudos em Escrita Criativa

Recife – PE, 07 de abril de 2018

 

NA FLOR DA VAIDADE

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

 

Olhei nas águas límpidas daquele rio. Minha haste envergou um pouco. Contorcidamente descobri não ser mais aquela… Meu Deus! Uma simples margarida presa à terra, subjugada a uma condição inusitada, enraizada! Aprisionada no tempo e no espaço, tudo por conta do orgulho…

Desejei ser algo mais, muito maior que Deus, que os outros? Encantei-me com a cantiga maviosa do mundo dizendo ser eu tão especial… Agora, na simplicidade da flor, na maturidade da vida, despetalo-me toda.

Logo, descubro que o exercício da escrita fez-me voltar a quem sou e posso repensar sobre a vaidade. Sair um pouco do foco do espelho, voltando a ser no mundo uma simples flor.

 

Recife, 7 de abril de 2018.

 

SALOMÉ

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

 

Mãe!

Tu me pedes, me imploras

Uma dança para o Rei.

Queres que, com meus encantos

O conquiste para ti.

Queres que eu ajude

A tirar do mapa Batista.

 

Bem sabes que

Com minha dança

Ele, o Rei,  que já rodeia meus passos

Será meu em definitivo

E a cabeça do Batista

Não te trará de volta

Um amor que será meu.

 

Mas, tenho em mim a chave

Que abrirá  as portas desta prisão

Minha vingança será maior…

Cada véu que retirar do meu corpo

Será a corda

Que tirará Herodes, deste mundo.

E finalmente dançarei…

Para o Batista,

Que já ocupa minha alma.

Para o Batista,

Que não se deixa seduzir.

Batista, cuja alma etérea flutua no espaço

E me conduzirá enfim

Para o caminho de volta a mim mesma.

 

Qual Medéia às avessas

Engolirei as tramas da minha mãe,

Através da minha própria trama saturnina.

Reinarei noutro reino diferente do teu,

Tirarei, não tua vida

Tirarei de ti a morte

Que não pode roubar a minha vida.

 

Recife, 07/04/2018

 

Gabi Vieira

Recife, 07/04/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Todas as crianças crescem, menos uma.

E todas as crianças ouvem essa mesma história, quando ainda deixam a janela destrancada na esperança de que um menino sapeca e sorridente venha buscá-las e levá-las para o lar de seus sonhos, voando nas costas do vento.

E, muito provavelmente, todas essas crianças desejam ser como ele, livres para voar com as fadas, nadar com as sereias, dançar com os peles-vermelhas ou enfrentar piratas. Livres para viver na Terra do Nunca, acompanhando os Meninos Perdidos em incontáveis aventuras.

Afinal, que criança nunca sonhou em ser Peter Pan?

Fugir das obrigações, da escola, das exigências dos pais e, principalmente, do medo de tornar-se um adulto, esquecendo-se do como voar. Porque, quando se cresce, se esquece do como voar. Adultos não têm a alegria, nem a inocência das crianças. Nem se quisessem, poderiam alçar voo.

Porém, não posso deixar de me questionar, a quase adulta que sou, do modo que já fez J. M. Barrie, se o próprio Peter não desejava ser como as outras crianças, as crianças comuns. Ele possui alegrias que essas crianças nunca poderiam ter, mas, ao observá-las no cantinho da janela de seus quartos, enquanto eles brincam com o pai ou são postos para dormir pela mãe com beijos e abraços, observa também a única alegria que nunca poderá ter.

Mesmo assim, ele volta para casa, acompanhado da fiel amiga Sininho, voando com o vento e deixando um rastro de risada por onde passa, como faz a cauda das estrelas cadentes.

Porque todas as crianças crescem.
Menos uma.

 

Giliard Barbosa

Porto Alegre, 25/04/2018

Contato: barbosagiliard@gmail.com

 

Onde estás, criança?

 

Carrego comigo teu cesto vazio

As uvas que sorverias

Ácidas estão

 

Onde estás, criança?

 

A areia da praia a demarcar teus passos

A água marinha a irmanar feridas

 

Onde estás, criança?

 

De meu próprio barro dei-te forma e luz

Das dores profanas és a mais contumaz

 

Onde estás, criança?

 

Raízes formei em meio às dunas

O vento já leva o que de ti ficou…

 

Onde estás, criança?

 

Um lago se forma onde nos perdemos

A rosa dos ventos parou de girar

 

Onde estás, criança?

 

Já não há mais remos nas águas do tempo

Já não há areia que deseje o mar…

 

Onde estás, criança?

 

Perdi-me no tempo a mirar espelhos

Perdi-me de ti, perdi-me do mar…

 

Onde estás, criança?

Onde estou?

 

Ina Melo

Recife, 07/04/2018

Contato: ina.melo2016@gmail.com

 

Ao criar o mundo, Deus ante toda aquela grandeza, vislumbrou ao seu redor e sentiu-se só. Até para Ele o silêncio e a solidão sufocavam.  Mesmo vibrando com o cantar dos pássaros, o ruído das selvas e o silvar dos ventos, faltava a palavra – uma voz! Então, no imaginário masculino, arrancou de Si uma costela e criou Eva. Linda, pura e falante. Agora não mais era um, porém dois. Deixou-os donos do Paraíso.  O amor surgiu das pequenas fagulhas de fogo que ardiam nas cinzas. Mas Eva descobriu a vaidade vendo a  sua imagem refletida nas águas transparentes. Depois encontrou o sonho e dele se embriagou. Via as borboletas e quis voar. Conhecer o néctar das novas flores. Mergulhar em mares bravios! E assim foi se afastando do amado. Esqueceu de que, para ser feliz, teria que compartilhar emoções.  Foi quando o Paraíso escureceu e o céu começou a lançar raios de fogo gritando forte, estremecendo árvores. Águas inundaram os prados. Eva procurou abrigo nos braços do amado e não o encontrou. Tremeu de medo.  Inquietou-se. Correu debaixo da tempestade e foi para o mais alto rochedo e lá abrindo os braços respirou e com asas de plumas voou. Primeiro não encontrou nada diferente. O mundo era igual e o mar também.  Quando não era dia, era noite. A mulher Ícaro viu que o sonho não existia, era apenas poesia!

1523195949640-1859548090

 

 

VOAR… VOAR…

João Orlando Alves

(Membro da UBE-PE)

Recife, 07/04/2018

Contato: joaoorlandoalves@yahoo.com.br

 

“Um pouco de persistência e esforço e o que seria um

retumbante fracasso vira um glorioso sucesso”

(Elbert Hubrard – Escritor Americano)

 

O grande momento da criação externa-se quando o hábil executor em movimentos à busca da perfeição, de súbito, por um acaso ou gesto imperfeito, a arte se pronuncia em toda beleza, exprimindo um querer que estava oculto.

Na aventura de Ícaro olvidou-se do martelar insistente que trabalha a forma da existência da obra. O dar asas à imaginação envolve um “estalo” espiritual que compreende uma produção sublime com mistérios e marcas do tempo.

Faltou a Ícaro, sem ouvir o canto da sereia, transmudar-se num pássaro ou no homem de aço e exercitar o sonho do gênero humano.

Encantar-se com as aves, dominando os céus, não basta, urge descobrir-se inteirado no projeto do desejo; deixar-se encontrar como no retrogosto de um trago de bebida que se assoma com essencialidade.

O voo desse vivente fora eterno enquanto durou o sonho; ousar é recomendado, mas a escolha recaindo no tempo enquanto tempo de amar.

 

Luciana Beirão de Almeida

Porto Alegre, 25/04/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

Espelho, espelho meu,

Quem é mais lindo do que eu?

 

Inquieto,

me debruço sobre a água.

 

Silêncio…

 

A imagem tortuosa não é bem o que eu imaginava.

Jogo uma pedrinha na superfície,

que afunda.

 

Círculos movimentando a imagem,

como quebra-cabeça.

 

Em partes.

 

Facelado.

 

Sequelado.

 

Olho ao redor da imagem daquele rosto

agora já não tão bonito…

e vejo a natureza.

 

Interagindo forte,

bonita,

inteira.

 

Esta sim, em conjunto com a minha imagem, forma uma beleza única. Completa. Viva.

Me levanto e vou aproveitar aquele belo momento, pleno, que me transmite paz.

 

 

SOU PÁSSARO

Monique Becher

Recife, 07/04/2018

Ícaro - Monique

 

O amor se apodera do meu ser qual luz do sol ou piscar de estrelas.
De tão natural, sinto-me singela,
translúcida.
Minha cabeça levita.
Delicio-me com este sentimento
mitológico dos seres felizes.
Sou esvoaçante qual Ícaro.
Minhas asas diáfanas conduzem-me ao etéreo.
Sou possibilidades.
Multiplico-me.
Alço voos inimagináveis.
Vivo amores perfeitos.
Conduzo-os ao infinito do
horizonte.
Minhas vestes translúcidas
r o d o p i a m .
Seguem as curvas do vento
num b a i l a d o  m á g i c o
regido pelo s u s s u r r o
das palavras
Voláteis
E   N   A   M   O   R   A   D   A   S
Esta musicalidade me fascina.
Paira no espaço.
E  T E  R  N  I  Z A – SE  …
No meu SER.
Os segredos dos pássaros livres
proclamam a independência.
S O U   P Á S S A R O !!!
Decifro os enigmas humanos.
Fito o horizonte.
V I S L U M B R O   D   E   U   S
Fujo de mim mesma.
Encontro-me no reino mágico
do reflexo
do meu espelho
VITAL.

 

 

Rodrigo Ribeiro

Porto Alegre, 25/04/2018

Contato: digocr@gmail.com

 

Édipo briga com o homem na estrada, mas na iminência de matá-lo lembra da esfinge, enxerga o destino prestes a acontecer e conclui que aquele só pode ser seu pai. Se conciliam. O pai, agradecido por ser poupado e vendo-se mais velho, resolve exilar-se nas montanhas para sempre, a fim de evitar a tragédia.

 

Da mesma forma, ao querer casar com a mãe, identifica-a justamente por reconhecer a premonição. Desistem do casamento.
Mesmo com o pai longe, Édipo vive transtornado por saber que não poderá contrariar a esfinge: um dia irá matá-lo. Está sempre atormentado sobre como isso acontecerá, medindo todos os passos, sentindo angústia insuportável. Para se libertar desta prisão mental, manda matar logo o pai.
Em vez do alívio que desejava, agora ele passa a estar perturbado pela ação hedionda que tomou, e se torna uma pessoa ruim. Por ganância, quer ser rei, mas as pessoas não acreditam que ele é filho da rainha. Então, para ter poder e fortuna, casa-se com a mãe.

 

Sala de imprensa:

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Diário de Pernambuco, Opinião, 19/04/2018

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Diário de Pernambuco – Viver – 23/04/2018

Próximos encontros:

Cartaz A3

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre

 

 

 

Poema de José Mário Rodrigues enviado por George Barbosa*

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* Contatogeorgebarbosa52@yahoo.com.br

Índex* – Março, 2018

Quem espera

É um coração 

Valente

Que não cansa

De sonhar

Que não deixa 

De lutar

Por um pedacinho 

De sol

Um lugarzinho 

Que possa

Chamar de seu

E revele

A imensidão

De sua

Escrita

(“Quem espera não se cansa”, Patricia Gonçalves Tenório, 17/03/18, 10h50)

 

Um coração valente no Índex de Março, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Março, 2018 – Recife – PE | Com Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil), Bernadete Bruto (PE – Brasil), Cilene Santos (PE – Brasil), Ina Melo (PE – Brasil), Gabi Cavalcanti (PE – Brasil), Inalda Dubeaux Oliveira (PE – Brasil), Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva (PE – Brasil).

Poema de Alcides Buss (SC – Brasil).

Encontros entre poetas: as cartas de Geraldino Brasil (AL/PE – Brasil) e de Jaime Jaramillo Escobar (Colômbia) | Organização Beatriz Brenner (PE – Brasil).

Cadê Miguel? | Carol Bradley (PE – Brasil).

Branca de Neve e os sete anões: Uma releitura em versos | Cilene Santos (PE – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 29 de Abril, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – March, 2018

 

Who waits

Is a brave

Heart

That does not get tired

From dreaming

That does not leave

To fight

For a little bit

Of Sun

A little place

That can

Call your own

And reveal

The immensity

Of your

Writing

(“Who waits does not get tired”, Patricia Gonçalves Tenório, 03/17/18, 10h50)

 

A brave heart in the Index of March, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – March, 2018 – Recife – PE | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil), Ina Melo (PE – Brasil), Gabi Cavalcanti (PE – Brasil), Inalda Dubeaux Oliveira (PE – Brasil), Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva (PE – Brasil).

Poem by Alcides Buss (SC – Brasil).

Encounters among poets: the letters from Geraldino Brazil (AL/PE – Brasil) and from Jaime Jaramillo Escobar (Colombia) | Organization Beatriz Brenner (PE – Brasil).

Where’s Miguel? | Carol Bradley (PE – Brasil).

Snow White and the Seven Dwarfs: A Rereading in Verses | Cilene Santos (PE – Brasil).

Thank you for the attention and the affection, the next post will be on April 29, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Um pedacinho de sol para chamar de seu (Recife – PE, Brasil). A little piece of sun to call your own (Recife – PE, Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Março, 2018 – Recife – PE

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O primeiro encontro dos Estudos em Escrita Criativa em Recife – PE foi surpreendente. Sabíamos da demanda por um curso nesse formato, mas não esperávamos encontrar tantas pessoas interessadas, inteligentes e criativas em um mesmo espaço-tempo.

Tratamos do tempo em nosso primeiro encontro. Com teóricos e artistas relacionados ao tema na primeira parte do encontro, a apresentação de escritos próprios e de outros autores clássicos da literatura brasileira pela escritora e professora Flávia Suassuna, na parceria com a UBE, na terceira parte do encontro.

E os textos produzidos na segunda parte do encontro. Trago hoje alguns exemplos do “verdadeiro celeiro da nova literatura pernambucana” (Laura Cortizo).

Convidamos a participarem dos nossos próximos encontros de abril, 2018, tanto em Recife quanto, com a novidade da parceria com a PUCRS, também em Porto Alegre.

Agradecemos a atenção e o carinho, grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

NA CADÊNCIA DO TEMPO        

 

Olhou o relógio, restavam 15 minutos. A angústia lhe tomou a alma e lhe arrastou a mente para o vazio… Olhos parados, boca seca, daquelas onde um bom copo de água amainaria sua sede de histórias, sem muita complicação e num compasso do tempo em ritmo de valsa. Ah, um Danúbio Azul para se escrever ou uma Primavera…

Sente essa falta, com o peito arfando, a caneta deslizando no papel e os conceitos se misturando na cabeça. A autoestima ou sei lá o quê tolhe os sentidos. Talvez escrever seja um motivo para se mostrar importante, interessante aos olhos alheios…

Será que lutar contra o tempo nessa angústia compensa as cores do ócio? Não sabe. Está imersa numa roda viva que o caos da modernidade lhe carregou já faz 10 anos. O tempo, sempre o tempo…

Neste momento, ouve que tem mais cinco minutos! Então, larga a caneta. Sorrindo, deixa o papel assim mesmo rabiscado, porque sabe que tem uma vida inteira para aprender sem compromissos com o tempo. Uma existência na qual o tempo passará na cadência que seu coração bater.

 

Recife, 10 de março de 2018.

 

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

Te Vi

 

Num momento

Criei a tua imagem

E te vi, vindo ao meu encontro.

Te abracei, senti-me amparada

E, abraçando-te,

Também fui abraçada.

Mas foi tão lépido

O tempo em que te tive

A tua imagem em mim

Se esvaiu.

E sumiste na estrada

Que criei.

Guardei em mim os pedaços do momento

Em que’stavas no mundo que inventei.

Olho o relógio,

Minha hora está chegada.

Quinze minutos eu tive

Pra pensar

Que o teu amor ainda era meu.

 

 

Gabi Cavalcanti

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Acordar do desmaio foi estranho.

Primeiro vieram os sons, ainda confusos na escuridão de meus olhos fechados – as sirenes, os gritos de diferentes pessoas proferindo diferentes palavras, o sonoro cair das gotas de chuva.

A luz que invadiu minha visão poderia ter me cegado – os postes na beira da rua, a luz vermelha das ambulâncias e o brilho nos olhos daqueles que me rodeavam. E talvez hoje eu desejasse que a luz tivesse, sim, me cegado, para que não guardasse na memória a imagem aterrorizante do carro capotado, dos vidros quebrados em cacos que se espalhavam em solidariedade com os pedaços do meu coração. Meu coração, estilhaçado ao sentir a ausência daquele que estivera ao meu lado antes da chuva levá-lo para longe de mim.

Quem sabe, se tal visão não estivesse tão pregada em meus olhos – tão concentrados no passado – eu pudesse olhar para o futuro com a alma mais leve.

 

Ina Melo

Contato: inamelo2016@gmail.com

 

A Menina e o Tempo

Imagem de Ina Melo

Nina surgiu entre as flores do jardim. Branca como a luz da manhã! Leve como a brisa suave da Primavera! O cheiro exalado do pequeno corpo, lembrava os campos de alfazema. Trazia nas mãos morangos silvestres,  que vez por outra mordiscava deixando os lábios vermelhos. Pássaros arrulhavam ao redor e o riso fácil explodia naquele amanhecer, onde o tempo, de ontem, hoje e amanhã surgia abraçado numa só felicidade!

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O Tempo

 

O tempo pra mim é o momento. O hoje. O agora. Nele eu vejo passar o filme de toda uma vida. Da infância à maturidade, logo seguindo para o entardecer que é finalmente, a velhice. O tempo é vida. É prazer. É luz e acima de tudo, o tempo é amor! (Escrita Criativa. 10/03/018)

 

Inalda Dubeux Oliveira

Contato: inaldaoliveira@uol.com.br

 

O RESULTADO DA PRESSA

 

Era uma tarde de verão e eu chegara da feira, cansada, ainda sentindo o cheiro dos legumes, frutas, peixes e demais componentes do que seria consumido por todos.

Na sala, logo percebi a bagunça normal e feliz deixada pelos meus dois filhos de 7 e 9 anos. Brinquei um pouco com eles e percebi que tinha pouco tempo para me preparar para o casamento ao qual deveria comparecer à noitinha.

Vestido longo, sapato alto, cabelo penteado, escolhi um perfume mais cítrico. Gostei de ver que o tecido do vestido era macio e não facilmente “machucável”.  Quase pronta! Como todo marido, o meu ficou pronto antes e desceu para tirar o carro da garagem.  Logo começou a buzinar impacientemente.

Quando já ia descer, claro que os dois meninos pegaram uma briga com tapas e pontapés que logo tive que apartar. Nova buzinada. Pego minha bolsa e corro.

Chego à igreja me achando linda: desfilo feliz da vida pela nave central, cumprimento os conhecidos, encontro meu lugar num banco e deposito minha bolsa ao meu lado. E levo um susto: entre mim e meu marido está uma bolsa de feira de vime, grande, quadrada e com alças de cordas. Pergunto ao marido – “de quem é esta bolsa?” – embora já saiba a resposta. Com a calma da inocência masculina ele responde: ”É sua, é claro. Você acabou de botá-la aí”.

Quase morta de vergonha, descubro que ao apartar a briga dos filhos e na pressa para descer correndo, peguei a bolsa de feira em vez da bolsa de toalete. E pensar que desfilei pela nave central da igreja….!

Ainda bem que o marido concordou em sair e levar a maldita bolsa a tiracolo para escondê-la no carro.

 

Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva

Contato: duda.tenorio@hotmail.com

 

Sentada no chão, me proponho a criar através da presença. Esta presença, porém, tem resquícios do presente do passado, com a sugestão que me foi feita de escrevê-la. Ao me propor escrever sobre o que acontece agora, para ser lido no futuro do presente, que é, no mais profundo, apenas especulativo, observo diversos pensamentos que me atravessam para me tirar daqui e outros que estão diretamente conectados com o que está acontecendo agora.

Sinto um profundo bem-estar e expansão da minha percepção a agir sem só me jogar para frente, mas sim para dentro.

Me questiono quão para dentro posso ir, com um intenso pedido de que seja muito. Se estou aqui, que eu esteja aqui. Muito aqui. Sinto em minha mão meus músculos e nervos sendo trabalhados por escrever continuamente, sinto a posição do meu corpo inteiro e as sensações que dele emanam. Minhas pernas estão em uma posição que sempre gostei de ficar – percebo como esse agrado é uma ponte entre o passado e o presente – minhas costas estão confortáveis e minha respiração me massageia por dentro.

Percebo também as cores que meu campo de visão alcança. Sinto uma sensação muito aconchegante dos meus pés. É engraçado o exercício de escrever o presente antes que vire passado. É um bom tipo de história para se construir. Volto às cores. A capa da apostila amarela, contrastando com o misto de roxo em tons claros e escuros e azul do chão que me deixa feliz. Amarelo me remete à alegria, e roxo me remete à profundidade. Essa mistura combina com o que sinto ao fazer esse exercício. Mistério. Roxo também é mistério. O mistério do eterno agora e o caminho dentro dele. A empolgação, e alegria, e a leveza do amarelo para temperar. Cores unidas e alegria, como uma música que ouvi no passado, mas se integra com o que acontece. E mais uma – passado presente, participo sendo o mistério do planeta.

 

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Programação – Recife e Porto Alegre:

Cartaz A3

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Sala de imprensa:

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Índex* – Fevereiro, 2018

O gosto 

De tarefa cumprida

Quando

Se escreve

Um teorema

No mais alto

Grau

Do mais profundo

Âmago

De minha alma

Poeta

Se refaz

O mundo inteiro

Se constrói 

A mesma história 

Mas de maneira

Diferente 

Como se eu

Nascesse de novo

E transmutasse

Carne

Em verbo

Com forma

Cheiro

E cor

(“Quando se escreveu uma tese”, Patricia Gonçalves Tenório, 14/02/2018, 18h50 e 19h36)

 

A forma, cheiro e cor da Escrita Criativa no Índex de Fevereiro, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa, 2018 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Homenagem a Jorge Tufic (AC – Brasil).

Mulheres fantásticas IV | A mulher papel | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Mudando paradigmas | Mara Narciso (MG – Brasil).

“Avesso: o Livro da Insônia” | Henrique Beltrão de Castro (CE – Brasil).

“Crônicas de um sereno em duas rodas” | Tibério Pordeus (PE – Brasil).

Agradeço o carinho e atenção, a próxima postagem será em 25 de Março, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – February, 2018

 

 

The taste

Of completed task

When

We write

A Theorem

At the top

Degree

From the deepest

Heart

Of my poet

Soul

Is remapped

The whole world

Is constructed

The same story

But in a different

Way

 

As if I was

Born again

And transmuted

Flesh

In verb

With shape

Smell

And color

(“When we wrote a thesis”, Patricia Gonçalves Tenório, 02/14/2018, 6:50 p.m. and 7:36 p.m.)

 

The shape, smell and color of Creative Writing in the Index of February, 2018 of Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Studies in Creative Writing, 2018 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Homage to Jorge Tufic (AC – Brasil).

Fantastic Women IV | The woman paper | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Changing Paradigms | Mara Narciso (MG – Brasil).

“The Book of Insomnia” | Henrique Beltrão de Castro (CE – Brasil).

“Chronicles of a Serene on Two Wheels” | Tiberius Pordeus (PE – Brasil).

Thanks for the care and attention, the next post will be on March 25, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O arco-íris da Escrita Criativa em Recife, Pernambuco. The rainbow of Creative Writing in Recife, Pernambuco.