Posts com Poesia

Índex* – Setembro, 2020

O sol

Desabrochou

No meu sorriso

Tímido

Juntei

Areias

Vaguei

Planícies

De ondas

Sal e

Mar

*

Para desabar

Tranquila

Em espuma

Branca

Brilhante

Arco-íris

No céu

Aberto

De Maracaípe

(“Reconectar”, Patricia Gonçalves Tenório, 24/09/2020, 10h14)

Um novo ciclo no céu aberto do Índex de Setembro, 2020 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Setembro, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Companhia.

Escrita Criativa em mim – Capítulo 2 – As oficinas | Patricia Gonçalves Tenório.

Poemas de Cilene Santos (PE – Brasil).

“Amores” | Raldianny Pereira (PE – Brasil).

E os links do mês:

Live Concerto com Márcia Feitosa (SP/PE – Brasil):

@musicandarteoficial

@marciaschnauzer

marciaschnauzer@gmail.com

O que fazer, de Alcides Buss (SC – Brasil):

www.alcidesbuss.com

Obrigada pela atenção e pelo carinho de sempre, a próxima postagem será em 25 de Outubro, 2020, abraço bem grande e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* September, 2020

The sun

Blossomed

In my shy

Smile

I joined

Sands

I wandered

Plains

Waves

Salt and

Sea

*

To collapse

Quiet

White

Bright

Foam

Rainbow

In the open

Sky

Of Maracaípe

(“Reconnect”, Patricia Gonçalves Tenório, 9/24/2020, 10:14 am)

A new cycle in the open sky of the September, 2020 Index on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Online Creative Writing Studies – September, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Company.

Creative Writing in Me – Chapter 2 – The workshops | Patricia Gonçalves Tenório.

Poems by Cilene Santos (PE – Brasil).

“Loves” | Raldianny Pereira (PE – Brasil).

And the links of the month:

Live Concert with Márcia Feitosa (SP / PE – Brasil):

@musicandarteoficial

@marciaschnauzer

marciaschnauzer@gmail.com

What to do, from Alcides Buss (SC – Brasil):

www.alcidesbuss.com

Thank you for your attention and affection, the next post will be on October 25, 2020, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma
questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O céu, o mar, o ciclo aberto de Maracaípe. The sky, the sea, the open cicle of Maracaípe.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Setembro, 2020

Os franceses

Patricia Gonçalves Tenório*

Nos primeiros seis módulos dos Estudos em Escrita Criativa On-line investigamos a temática da viagem na obra de diversos ficcionistas, poetas e artistas do mundo inteiro. A ideia surgiu em 2018 quando, nos encontros mensais das Livrarias Cultura, em Recife e Porto Alegre, fomos guiados pela mão do fundador da Universidade Popular de Caen, o filósofo francês Michel Onfray, e navegamos com seu Teoria da viagem pelos deslocamentos dos seres ditos humanos desde os tempos imemoriais.

Como afirmamos em vários momentos de nossos Estudos, pesquisamos as técnicas de EC diretamente nos textos ficcionais e poéticos. Mas também a partir de textos de autores teóricos. Bebemos no infinito manancial da Teoria para fazer brotar Poesia, da Crítica para nascer Ficção, e nos extasiamos, nos EEC 2018 sobre a imagem, com os conceitos de fotografia de um dos maiores teóricos do assunto, o escritor, semiólogo, filósofo francês Roland Barthes e o seu A câmara clara. Barthes nos ensina o conceito de punctum, aquilo que nos fere quando admiramos uma fotografia, e nos provoca poesias, contos, novelas, até romances, com o seu poder narrativo e poético.

Outro escritor teórico-poético que estudamos nos EEC 2018, sob a temática do fogo, foi o filósofo e poeta francês Gaston Bachelard. Como poucos, ele soube transitar entre esses dois mundos que se retroalimentam: a Teoria e a Poesia. A obra de Bachelard é dividida em diurna e noturna. Em A psicanálise do fogo, ele nos estimula ao devaneio, nos faz flanar de olhos bem abertos diante do fogo, ziguezaguear pelas chamas da criação para tentarmos fazer surgir uma nova fênix.

E descobrimos o último conceito do sétimo módulo dos EEC On-line com o escritor francês André Gide. O mise-en-abîme de Gide foi tomado emprestado da heráldica, em que a reprodução de um escudo ad infinitum, um dentro do outro, gera a sensação de espelhamento, que encontramos em dois espelhos um diante do outro, ou na impressão de “não acabar jamais” de se extrair, como vimos antes, bonecas cada vez menores naquelas bonecas russas, as mamuskas. O próprio Gide constrói, feito espelhos infinitos, um Diário (dos Moedeiros Falsos) que narra a construção de um romance (Os moedeiros falsos), que, por sua vez, é feito, também… de um diário.

Finalizamos o sétimo módulo dos EEC On-line com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados e a sugestão de filmes relacionados com os franceses e a Escrita Criativa.  

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* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

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Módulo 7 – Aula 1:



Módulo 7 – Aula 2:


Módulo 7 – Aula 3:

Módulo 7 – Aula 4:

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Exercícios de Desbloqueio:

Módulo 6 (Os russos):

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

QUASE INV(F)ERNO

07.09.2020

Pés descalços

Roupa esfarrapada

As pedras rasgando a pele

E a estrada é longa

*

Os pés sangrando

Afastam-na da vida antiga

Cada passo aproximando-a

Do destino…

*

O destino…

*

Uma rua escura

Ratos correndo

Levando na boca

O taco de pão.

*

O mercado deserto

Restos de frutos

Restos de folhas

Que cedo, eram verdes…

*

As mãos catando

Disputando pedaços…

E a noite fria

O vento bravio

Invadindo espaço

Fustigando a carne

*

A pele

Quase nua

Quase em gelo

Se tornando.

*

O dia amanhece

Um resto de gente

Resvala…

*

Olga Nancy

Contato: olga.cortes@acad.pucrs.br

A tessitura do dia

agosto/2020

Das coisas do cotidiano

daquilo que não importa

do fato que não encanta

das sutilezas que não olhamos.

*

Das coisas do cotidiano

do gesto descompensado

do riso frouxo com o gato

da lágrima engolida

da cebola ardida.

*

Das coisas do cotidiano

da janela embaçada da alma

do chão liso que marca

o passo acelerado.

*

Das coisas do cotidiano

da louça que grita por água

do som alegre da sala

do rito do cotidiano.

Módulo 7 (Os franceses):

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Antigo Diário

                                                                                                             Se papai deixar irei
 Em setembro bem

 Te encontrar
Contigo passear
Pois terei que estudar
 Para me formar
 E então contigo me casar. (…)

(Quando setembro vier – Wanderléa) 

Recife, 16 de setembro de 2020.

Ficou espantada ao se deparar com aquele diário na estante ao procurar uma determinada pasta. Como fora parar ali depois de tanto tempo e várias mudanças?  Abre uma página aleatória e novamente aquele assunto antigo retorna. Uma história de amor… uma menina abre um diário retirado de um gaveteiro onde estava bem escondido. Lê: “Recife, 31 de agosto de 1968… Querido diário…” Uma adolescente, como quem está perante o confessionário, relata ao diário a enorme paixão platônica e tão bela como os filmes dos anos sessenta! Ah, quando setembro vier… O Baile seria naquele final de semana, todos iriam estar lá. A mocinha escreve que desconfia que ele tem alguma queda por ela. Da última vez que   dançaram, confessa que ele falou do suave cheiro que emana de seus longos cabelos pretos… E diz da expectativa daquele próximo encontro no sábado… e acrescenta, que naquele dia que escreve, ela o viu passar na frente de casa. Estava lindo, dirigindo o fusca verde claro, a cor igual de seus olhos. Mas a menina que lê não viu nenhum nome e não teve tempo de ler mais nada porque as garotas todas voltavam ao quarto. Por isso, tratou de devolver rapidamente aquele diário ao local onde estava guardado. A menina passou dias olhando os carros que passam naquela rua… mas o que mais havia eram carros daquele modelo e cores…ou eram brancos, ou cremes ou verdes claro… um nome não foi dito. Não conseguindo decifrar o enigma, exclama: “Que bichinha danada! Não confia nem no próprio diário!” Ah, mas o sentimento foi lindamente impresso naquela letra bonita, que a menina demorou a esquecer, embora depois perdeu o interesse perante outros acontecimentos em um ano tumultuado e cheio de notícias complicadas.

Um dia, muitos anos depois, a menina, agora adolescente, ficou de castigo por ler o diário de mais uma irmã. Do castigo no quarto confessa a outra, uma mulher já feita, que lera o seu também. “Sou muito curiosa, mas não deveria ter lido o diário de B., nem contado na mesa, na hora do almoço, para plateia de irmãos, do novo grande amor. Aquela escrevera com todas as letras o nome do amado e muito mais coisas… muito embora a menina sabia que, para aquela irmã, nem precisava de diário para saber de suas paixões. Pois quando ela falava muito de um rapaz, várias vezes ao dia, todos já entendiam que estava apaixonada e ela logo confirmava a suspeita. Mesmo assim, a mocinha castigada confessa a outra irmã, que, embora não estivesse arrependida, sabia que havia feito errado e que não faria novamente…

A irmã do primeiro diário lido, mulher já feita, bem resolvida com relação ao seu destino, ri bastante. E ainda satisfaz a curiosidade. O amado daquela época estava bem embaixo do nariz! Frequentava a casa. O baile não foi feliz para ela, mas foi para sua melhor amiga…ela depois transformou-se em madrinha de casamento e até do filho. A menina, agora adolescente, que já experimentava os amores platônicos, ficou triste sobre o final daquele amor tão puro guardado a sete chaves e se prometeu nunca mais ler nada dos outros. Que as pessoas tivessem sua privacidade e curasse as feridas longe de olhos curiosos e impertinentes como os seus, como ela própria vinha fazendo… Tudo isso a senhora recorda agora… e em cumprimento a uma promessa feita no passado (por mais que a curiosidade lhe corroa o espírito), fecha o diário e guarda-o em local seguro para devolver à verdadeira dona.

*

Elba Lins

De fogo e cinzas

Do fogo vejo surgir teu rosto

No pedaço da carta que ontem queimei

Borboleta negra que voa

Pousando leve no espelho do meu quarto

Espelho que confunde o meu rosto

Com o bater das tuas asas negras

Quero afastar por um instante a despedida

Te segurar junto de mim mais uma vez

Mas agora és somente sonho

Quando te apanho faz cinza em minhas mãos

Já não és nada

Senão cinzas repisadas

Que mancham de negro

As lágrimas que tento estancar.

*

Joel Martins Cavalcante

Contato: jmartinscavalcante@gmail.com

Autobioficção e a libertação interior

Escrever é uma forma de libertação. Penso que todos os escritores e escritoras – me permitam falar dos dois gêneros, é preciso deixar de entender o masculino como o universal – quando criam seus personagens, no caso de ficção, ou escrevem ensaios baseados na realidade, estão de alguma forma no processo de libertação interior.

Entendo libertação não no sentido negativo do termo. Penso que todas as ideias que temos, pensamentos, concepções de mundo, de cultura, religiosidade, etc., estão presas até o momento que exteriorizamos para alguém. Como todo leitor que ama livros, eu acredito que a melhor forma de exteriorizar essas coisas é por meio da escrita.

E vou além: a melhor forma de libertação é por meio da escrita literária e da autobioficção. Desde que aprendi esse conceito usado pela professora Patrícia Tenório, no curso de Escrita Criativa, fiquei encantado. Muitas vezes usei em um velho blog que tenho, mas que publico raramente nos dias atuais, esse recurso, mas não sabia que era.

Meus textos eram uma mistura de ficção com realidade. Criei, várias vezes, cenários afetivos e imagéticos que só existiam na minha mente, mesclando com experiências reais de minha existência. Lembro de um texto escrito, logo após o término de um namoro, que algumas pessoas leram e acharam ser um pequeno conto. Não era. Foi gestado diante da dor afetiva e após uma madrugada insone.

Conheci alguns textos de Clarice Lispector, também, no curso de Escrita Criativa. Aliás, durante um tempo eu tive uma certa aversão à escrita de Clarice. Ainda bem que mudei. Percebi, leitor amadurecido e aspirante a escritor, como a autobioficção estava presente nos textos clariceanos.

Todo mundo é um autor em potencial. Muita gente não percebe isso. Acha que escrever é coisa de outro mundo, para iluminados, para gente que já nasceu com talento. Não é. Tenho aprendido que escrever exige técnica, persistência, uma dose de talento também, claro, mas sobretudo muita leitura. Essas coisas são possíveis para as pessoas. Basta reservar tempo. Evidentemente, falo a partir do lugar de um professor que não trabalha como um operário. Certamente, para os trabalhadores e trabalhadoras das profissões que exigem um esforço físico enorme, escrever é bem mais difícil.

Voltando à autobioficcção. Cada ser humano tem uma história única, forjada em dores, prazeres, sorrisos, lágrimas, conquistas e derrotas. Histórias atravessadas de vivências religiosas, políticas, familiares e culturais que, se contadas, são boas para se ouvir e, quando colocadas no texto, para ler.

A matéria-prima do escritor e da escritora é a experiência humana. E qual experiência mais interessante do que a própria? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, canta Caetano Veloso. Essas dores e delícias, portanto, se bem usadas podem se tornar uma boa autobioficcção e uma ótima maneira de se libertar.

*

Paulo Roberto de Jesus

Contato: poujesus@hotmail.com

Da sua fala sobre o método de Michel Onfray e as viagens, veio-me à mente a ideia de escrever alguns contos utilizando os locais para onde viajei, principalmente no exterior. Nesses contos pode ser usada a técnica “mise-en-abîme” e o autor, personagem do próprio conto.

Igualmente, pode-se contar ficção e inventar histórias dos mais diversos âmbitos, ou seja, o foco pode ser romântico, violência, intimista. Estas técnicas funcionam como um desafio para o autor exercitar a criatividade a partir da imaginação e também da memória, do que lembra dos locais visitados.

Particularmente, digo que a ideia de aproveitar a memória dos locais de viagens para escrever histórias é maravilhoso, porque abre um leque de opções para o autor criar em cima. A técnica do “mise-en-abîme” requer maestria por parte do contista, embora não seja impossível exercê-la. E o difícil é sempre um desafio, um convite a superar barreiras e ir além, mergulhar mais fundo, dar um pouco mais de si.

Grato, teacher Patricia, pelos vídeos em que nos mostra as técnicas de alguns autores através de seu olhar, seu recorte. Saudações poéticas, democráticas e literárias.

Escrita Criativa em mim* | Patricia Gonçalves Tenório**

Setembro, 2020

Capítulo 2 – As oficinas

            Setembro, 2006. A primeira aula do Atelier d’Ecriture da Sorbonne. Eu, aprendiz da língua francesa, havia me aventurado a viver uma oficina literária em Paris, França, especialmente na Université Paris IV, com Laurenne Gérvasi. Um grande sonho.

Era o ápice do que eu havia construído até então, nos “longos seriam os caminhos, perigosos seriam os caminhos, tortuosos seriam os caminhos”[1] da literatura. Após o fechamento da Livraria Domenico, que vimos no capítulo anterior, me iniciei, em 2004, na Oficina Literária Raimundo Carreiro, na Livraria Nobel, em Recife; em maio de 2006, naveguei (e gostei, veremos nos próximos capítulos) na Oficina Literária Assis Brasil, ancorada na PUCRS, em Porto Alegre; e, em setembro do mesmo ano, aterrizei por quase cinco meses na Paris de Charles Baudelaire, Eugène Delacroix, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert. E Isabelle Macor-Filarska.

Porque foi Isabelle, com suas aulas de reforço além da Aliança Francesa, que me ajudou imensamente a descortinar a língua estrangeira e escrever como se fosse uma nativa, eu, Patricia, da pátria Brasil, mas em trânsito pela Cidade Luz. A princípio, eu escrevia em francês, mas pensando em português. Isabelle me fez sair da língua materna e mergulhar mais profundamente na criação poética – devo a ela o quebrar de barreiras com a Poesia, eu que escrevia mais Ficção. Apreendi que a Escrita é universal, e, no momento em que tomamos papel e lápis ou caneta, teclado e tela de computador, somos irmãos e irmãs na Escritura, nada mais importa, se escrevemos em português, francês, qualquer língua do planeta, até chegarmos à Librairie Portugal, no 146, Rue du Chevaleret, e lançarmos As joaninhas não mentem, no dia 30 dos mesmos mês e ano, alargando as fronteiras da Escrita Criativa em mim.

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* Coluna publicada mensalmente nos blogs www.veragora.com.br/tesaoliterario e www.patriciatenorio.com.br.      

** Escritora, dezessete livros publicados, sendo um em formato vídeo-podcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

[1] Frase de As joaninhas não mentem, publicado, em 2006, pela extinta Editora Calibán, do Rio de Janeiro, em 2019, pela Raio de Sol, no 7 por 11, da Coleção Cinco Livros, e vencedor do Prêmio de Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio (2008), na Itália.        

Poema de Cilene Santos*

Xô!  TRISTEZA

04/08/2020

Geralmente, em dias duros,

Quando a tristeza me alcança,

Eu finjo que estou contente

E brinco feito criança.

*

Dou uma volta na praça,

Paro em frente ao carrossel,

Tomo um sorvete de ameixa

Com cobertura de mel.

*

A doçura deste açúcar

Adoça até minha alma

E eu me sinto novamente

Em pleno estado de calma.

*

Olho em derredor e vejo

A beleza do lugar

O sorriso das crianças

E ouço o Azulão cantar.

*

Sentada em um banquinho,

Fico olhando o jardim.

Uma rosa de Arco-íris

Parece sorrir pra mim.

*

E vejo o tempo passando

Como um rio em correnteza.

Volto à vida cantando,

Dou um chega na tristeza.

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AUDIO-2020-09-10-14-33-54 – Poema Cilene

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* Cilene Santos, escritora, poeta, cordelista. Professora graduada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa. Membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 08, e tem como patrono Dimas Batista. Publicou Branca de Neve e os Sete Anões em Versos e A vida de Joel Pontes, em cordel. Participou dos Estudos em Escrita Criativa 2018 de Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Amores * | Raldianny Pereira**

Céu e mar

Meu amor tem

o céu nos cabelos.

De um lado e de outro

a brancura

muito alva

de algumas nuvens.

E no alto

no horizonte

o brilho prata

da lua que se derrama

sobre o mar.

E em tudo ꟷ

tudo

uma calma celeste.

Uma paz

das ondas

que me embalam

na areia.

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VIDEO-2020-09-04-16-27-33

***

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* PEREIRA, Raldianny. Céu e mar. InAmores. Apresentações: Bernadete Bruto e Patricia Gonçalves Tenório. Recife: Novo Estilo Edições do Autor, 2020.

** Raldianny Pereira é escritora, poeta, jornalista (UFPE), mestra em Comunicação (UFRPE), doutora em Sociologia (UFPE). Contato: raldianny.pereira@gmail.com

*** Poema declamado para o projeto de Bernadete Bruto, Destaque Literário, da Livraria Cultura Nordestina, de Salete do Rêgo Barros:
https://www.facebook.com/groups/880379722134559/permalink/1525102897662235/

Índex* – Agosto, 2020

Quando

Nada mais restar

Desse tão espaço

Meu

Buscarei

O vento

O mar

Chegarei

Ao que é

Seu

*

Esse mundo

Nosso ar

Uma vida

Bem antiga

*

Quando

Nada mais restar

Resta tudo

*

Minha amiga

(“A saudade é um tempo meu”, Patricia Gonçalves Tenório, 13/08/2020, 18h42)

Resta tudo no Índex de Setembro, 2020 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Agosto, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Diversos.

“A baronesa” | Charles Allington (Reino Unido/Áustria) | Cinco últimos capítulos.

Escrita Criativa em mim | Patricia Gonçalves Tenório.

Simpósio 28 | Escrita Criativa para o século XXI | Abralic 2020 | Diversos.

Poemas de Cilene Santos (PE – Brasil).

“À noite, sonhamos” | Paulo Paiva (PE – Brasil).

E o link do mês:

Blog do psicanalista e escritor Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://youtu.be/dhLLm7Sw2s8

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 27 de Setembro de 2020, abraço bem grande e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – August, 2020

When

Nothing else remains

Of this so space

Of mine

I will seek

The wind

The sea

I will arrive

To what is

Yours

*

This world

Our air

A very old

Life

*

When

Nothing else remains

Everything remains

*

My friend

(“Saudade is my time”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/13/2020, 6h42 p.m.)

Everything remains in the Index of September, 2020 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Studies in Creative Writing Online – August, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Miscellaneous.

“The baroness” | Charles Allington (United Kingdom/Austria) | Last five chapters.

Creative Writing in Me | Patricia Gonçalves Tenório.

Symposium 28 | Creative Writing for the 21st Century | Abralic 2020 | Several.

Poems by Cilene Santos (PE – Brasil).

“At night, we dream” | Paulo Paiva (PE – Brasil).

And the link of the month:

Blog of the psychoanalyst and writer Pedro Gabriel (PE – Brasil):https://youtu.be/dhLLm7Sw2s8

I appreciate the affection and participation, the next post will be on September 27, 2020, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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O gesto de Cris Mesquita, aluna da primeira turma de Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. The gesture of Cris Mesquita, student of the first class of Specialization Lato Sensu in Creative Writing Unicap/PUCRS.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma
questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Quando nada mais restar… Restará o bem querer.  When nothing else remains … It will remain good will.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Agosto, 2020

Os russos

Patricia Gonçalves Tenório*

Um dos principais propósitos dos Estudos em Escrita Criativa On-line é tentar se colocar no lugar dos autores de todos os tempos, descobrir suas técnicas e compartilhar com os que desejam escrever bem.

Se Liev Nikoláievitch Tolstói nascesse hoje, iria nos encontrar analisando um dos textos mais conhecidos da Literatura Ocidental: Anna Karenina. E analisando-o à luz das técnicas e dos conceitos trabalhados em nossos EEC desde 2016. Narrado em terceira pessoa do singular, acompanhamos a vida de dois personagens principais e seus núcleos: Anna Arcádievna Kariênina e Konstantin Dmítritch Liévin. Cidade ou campo. Kariênin e Kariênina. Amor ou ódio. Aleksei Kariênin e Aleksei Vrónski. Perdão ou vingança. Aliás, muitos estudiosos, comparando Liev Tolstói com Fiodor Dostoiévski, afirmam que Anna Karenina está para a lei do Antigo Testamento enquanto Crime e castigo está para a graça do Novo Testamento.

É interessante notar como Tolstói narra a partir de diversos focos narrativos, ou como o professor da PUCRS e romancista gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil enumera no seu manual de EC, Escrever ficção: as focalizações interna, externa e onisciente.

Parece-nos que Tolstói usa a focalização interna mesclada com a focalização onisciente. Notamos essas características em personagens pouco comuns – o filho de Anna e Aleksei Kariênin, Serioja, ou até mesmo a cachorra de caça de Liévin, Laska. Por meio de aspas ou da linguagem corrida, adentramos no universo de uma criança de oito anos, ou de uma cachorra, e, de maneira fluida, passamos de um personagem a outro.

Outra técnica de EC usada por Tolstói no seu romance-bíblia encontra-se nas repetições. Como vimos em nossos Estudos, tudo tem uma função no texto bem escrito. Nada sobra. Nada está fora do lugar. Quando Tolstói repete certas frases, as entendemos como refrões de uma música.

Encontramos mais técnicas de EC na leitura de Pais e filhos, do prosador, poeta, dramaturgo, tradutor e ensaísta russo Ivan Serguêievitch Turguêniev (1818-1883). A começar pelo seu personagem principal, Bazárov. Inspirado em um médico de província que Turguêniev conheceu numa viagem de trem na Rússia, o personagem foi sendo construído à medida que escrevia o romance e carregava em si os conceitos essenciais do niilismo, também herdados de Vissarión Griórievitch Bielínski, a quem o autor dedica o livro.

Finalizamos o sexto módulo dos EEC On-line com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados e a sugestão de filmes relacionados com os russos e a Escrita Criativa.       

* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

Módulo 6 – Aula 1:

Módulo 6 – Aula 2:

Módulo 6 – Aula 3:

Módulo 6 – Aula 4:

Exercícios de Desbloqueio:

Módulo 5 – Japão:

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Um livro de cabeceira na vastidão da escrita

There is another sky,

Ever serene and fair,

And  there is another sunshine,

Though it be darkness there (…)

                                                                                                                                           (Emily Dickinson)

Em um mundo distópico como o de Atwood , desapartado do mar de Sofia, a vela do pensamento se abre para a brisa da retrospectiva desse tempo passado em muitos lugares percorridos na escrita. Consulto mentalmente a relação dos livros que precisarei reler, a dos filmes que ainda faltam assistir e dos poemas, como o de Emily Dickinson, que ainda desejo recitar nesta permanência em casa. Se as listas estivessem todas juntas numa só caderneta, poderia até chamar de livro de cabeceira, como o da Sei Shônagon! E lá, naquele local, o deixaria, caso quisesse consultar, não me perdendo em meio a tantas listas em tempos tão cheios de atividades e projeções futuras.

Observo a mulher que escreve com a mesa abarrotada de planners, cadernetas e papeis avulsos com suas listas de atividades diárias que precisam ser cumpridas, da interminável feira semanal que mal se extingue, recomeça do zero, da relação de consertos acumulados, de novas aquisições tão necessárias e a indispensável lista de pagamentos a serem efetuados e monitorados para não haver esquecimento no meio de tantas listas não tão agradáveis, contudo imprescindíveis. Mesmo assim, sabe que até o cotidiano tem seu lado literário, conforme aprendeu. É de longe, como Murakami sugeriu, que vejo minha personagem favorita fazer o esforço no aprendizado da escrita, procurando, como no jazz, a cadência melhor para deixar fluir as palavras rascunhadas no papel, por vezes apressadas, pois o relógio lhe avisa do esvair dos segundos e no esforço para não perder o tom nem o fio da meada. Da mesma forma, vejo-a surgir na escrita com personalidade, do mesmo jeito que o Tomas de Kundera, ou, quem sabe, como um dos heterônimos de Pessoa?

Maria para por um instante, me acalma e aponta para mim outras listas mais queridas, marcadas na sua agenda que, desapercebidamente, se encontra na gaveta da cabeceira… Lá encontra-se a lista dos livros que já leu este ano, a relação do muito que realizou, mesmo nesse período de isolamento, e me responde que, ainda que esteja nesse alvoroço diário das listas obrigatórias, tem algo que também se acumula dentro de si, assim como fazem as árvores que florescem depois de um tempo acumulando vida.

Ela avisa que as palavras encontrarão o caminho para a história daquele momento singular, o melhor que pode entregar nesse difícil, corrido e exíguo tempo que se chama agora, um tempo quase tão escuro quanto naqueles períodos de guerra dos poemas de Wislawa…

Ao me deixar contemplativa, Maria volta para sua escrita. Olha para a luz da tela da TV, lá está a mulher que chama todos de escribas e anima a escrever. É para ela essas linhas perante um mundo de possibilidades que vem recebendo. Um vasto mundo de conhecimentos, como o mar de afetos que faz com que deslize a escrita no papel, ainda neste dia, dentro do tempo estipulado. Aproveitando a duração do dia, como Adélia.

Maria aprendeu que a história surge nesse repente e do aprendizado resultante de um livro próprio de cabeceira guardado no fundo do coração. Depois, é só trabalhar o instante e entregar o texto numa hora perfeita, brilhante como uma estrela de Clarice, que pode resultar simplesmente daqueles minutos carregados com a leveza do ser, ou com a profundidade da lua.

O despertador toca, a escrita congela. Maria fecha o caderno, desliga a TV, eu sujeito mais um texto que comporá o rol daqueles produzidos no possível agora e agradeço.

Recife, 22 de Julho de 2020.

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

LEVEZA

01.08.2020

Borboletas

Luz pálida

Orvalho

Grama verde

Sorriso

Corais

Madrepérola

Tuas mãos

Flor de algodão

Beija-flor

Cor lilás

Nuvem de pó

Flauta doce

Amanhecer

Abelha

Pérolas

Cristal

Raio de luz

Tua pele

Arrepio

Arco-íris

Cetim

Papel em branco

Girassol

Joel Martins Cavalcante

Contato: jmartinscavalcante@gmail.com

Um dia da quarentena

        Acordei desesperado. As imagens que passavam na minha frente eram aterradoras. Que espécie é essa? Grito. Parece que ninguém escuta. Faço um esforço para ver esse ser estranho. Um esqueleto, com chifre, típico das imagens medievais do diabo, com um algo parecido com tridente na mão, aponta para o meu pequeno guarda-roupa. Em cima do móvel havia minha garrafa de mel, que devia estar guardada no armário da cozinha. Que estranho.

        Faço um esforço tremendo para acender a luz. O interruptor, apesar de ficar bem próximo, um pouco acima da cama que durmo, parece ter desaparecido. Quando o acho, ele não atende ao meu comando. E agora? Sem luz, sem entender direito o que acontece ao meu redor, me entrego por completo ao momento.

        Consigo, com muito esforço, sair de minha cama. Vou até o quarto ao lado. Minha mãe está nele. “Mãe, estou tendo paralisia do sono, só vejo imagens ruins, ninguém me escuta, a luz não acende, já rezei e tudo, mas nada”, falo. Ela não diz nada. Sento na cama um pouco, mas retorno ao meu quarto.

       Finalmente, depois de um momento, consigo acertar a luz. Nessa hora acordo. Ufa, tudo era sonho, na verdade paralisia do sono. Interessante que, mesmo nesse estado, diferente das outras vezes, eu tenho a percepção do que está acontecendo. Minha mãe estava há mais de 100 km de distância, mas eu conto tudo que passa, durante o fenômeno, a ela. Estou consciente de tudo.

       Rezo. Dessa vez rezo consciente, já passada a situação. Peço a Deus para voltar a dormir. Mas não consigo. Daqui a pouco são cinco horas da manhã. Escuto, aumentando o número de vezes, sons de carros e motos passando na avenida principal. Isso me perturba.

        Vou até o chuveiro. Enquanto a água escorre pelo corpo tento reviver, ou melhor, rememorar a situação vivida na madrugada. Nem percebo que já saí do banho quando me dou conta que esta segunda-feira será longa.

        Tomo três copos de água. Penso em ir até a padaria comprar algo para comer, já que não sinto nenhum pingo de coragem de fazer alguma coisa na cozinha. Desisto. Vou ficar em jejum. A quarentena aumentou muito meu peso corporal.

        Ligo o rádio. Notícias policiais em uma emissora. Passo a estação. Música de forró na outra. Mudo a frequência novamente. “O Senhor tem um plano para a sua vida, aceite logo Ele”, diz o pregador da rádio evangélica. Nada me agrada. O dia será longo.

        Fico na cama. Pego rapidamente no sono, mas logo o despertador me chama para a aula remota da faculdade. Que saco. Abro o notebook e entro na sala virtual. “Bom dia, professor Rodrigo”, digo, “bom dia, Caio”, ele responde.

Levo o computador para a cama, e finjo, por alguns instantes, interesse pela aula. Logo as pálpebras ficam pesadas. Cochilo. Desperto pouco depois das onze horas, morrendo de medo de ter perdido a chamada. Pouco tempo depois, o professor começa a fazer. Graças a Deus, suspiro de alívio.

Termina a aula. Peço um almoço pelo aplicativo. Vinte minutos para chegar. Uma eternidade. Acompanho o movimento do motoboy todo no app. Quando ele se aproxima, eu desço para receber a refeição. “Comida ruim”, falo. Nada hoje está bom. Que dia!

Refeição feita, escovo os dentes, tomo outro banho. Vou pra sala e pego novamente o notebook. Começa meu estágio. De uma às cinco da tarde. A redatora manda uns releases, faço umas modificações e publico no site. Droga, tenho que ligar para uma fonte, checar uma informação e depois fazer a matéria. Esse dia não acaba.

Fim do estágio. Tento fazer exercícios, mas logo desisto. Tomo um banho. Preparo uma refeição rápida. Às sete da noite tenho uma reunião. Que saco. “Por que inventei de entrar nesse coletivo?”, penso.

Reunião começa. Oito pessoas na sala virtual criada. Muitas discussões. Desacordos. Falo rapidamente minha opinião sobre um determinado assunto. Depois abro o microfone para apoiar uma companheira. Pronto, são quase vinte e duas horas quando tudo acaba.

Estou morto de sono. Faço chá de camomila para tentar dormir logo. Tomo dois copos grandes. O efeito demora a chegar. Olho o celular: quase meia-noite. Estou com sono, mas não consigo dormir. O dia ainda está sendo longo.

Pego no sono. Acordo de madrugada, mas volto a dormir em seguida. São seis da manhã de terça-feira. Fico um pouco mais na cama já que não tenho aula hoje. Desperto quase meio dia. Acesso o Youtube e vejo a última aula do módulo cinco do curso de escrita criativa. Assisto. Tenho de fazer mais um exercício de desbloqueio. Começo a escrever sobre o dia longo de ontem, enquanto não chega a hora do estágio.

Paulo Roberto de Jesus

Contato: poujesus@hotmail.com

Optei pelo modelo citado por Murakami, até porque não li Shônagon. Escrevo com o ritmo de uma valsa na cabeça.

                No primeiro módulo estudamos os autores de língua inglesa onde degustei os recortes feitos por Patricia Tenório. Não lembro de ter lido os autores trabalhados, mas o que pude absorver dos recortes certamente soma nesta caminhada literária. Ah, gosto de lembrar de uma fala de Patricia: “A escrita é salvadora”.

                No segundo módulo foram os autores portugueses que estudamos. Sophia de Mello Breyner e Fernando Pessoa entre outros. Sophia ainda não li. Mas já li Pessoa e seus heterônimos: Caeiro, Bernardo e outro que não recordo agora. Gosto também de Eça de Queiroz e outros. Não sou especialista em literatura portuguesa, mas alguns autores me gustan. Recentemente estive lá e trouxe Florbela Espanca, Camilo Castelo Branco entre outros. A literatura portuguesa é vasta e riquíssima. Viva Camões.

                No terceiro módulo estudamos os autores tropicais. Clarice Lispector e Adélia Prado. Clarice já li alguma coisa, mas de Adélia li somente alguns poemas. Estou em débito com Adélia. Do Brasil gosto de muitos autores, de Machado a Paulo Leminski. Não esquecer dos Veríssimos, Patativa do Assaré com sua poesia genuína, homem do povo, poeta de vida sofrida. São tantos os autores que o pouco tempo para escrever o texto faz-me citar estes que vieram à memória.

               Depois demos um pulo para o Leste Europeu quando Patricia nos falou de Kundera que não li, de Kafka que já li alguma coisa e gostei muito. Quando jovem, talvez uns dezoito anos, menos de vinte certamente, e sem formação acadêmica, li A metamorfose. Aquela leitura me deu um “barulho” que não foi mole. Eu torcia para que Sansa voltasse a ser homem e deixasse de ser barata. Aquela agonia do sujeito metamorfosear-se em barata… Loucura. Li, porque encontrei free na internet, um livro de poemas de Wislawa Szymborska. Não lembro muito dos poemas. Talvez deva ler novamente.

Finalmente no quinto módulo viajamos dentro da literatura japonesa. Não consegui nada da Sei Shônagon, mas consegui o Romancista como vocação de Murakami que estou terminando de ler. Gosto das dicas, não sei se as aplicarei. Mas tudo o que aprendi neste curso até agora estou gostando. Pretendo colocar em prática algumas das técnicas junto com outras que domino e veremos no que dará. Certamente uma nova técnica que seja o misto das técnicas que conheço, das que estou aprendendo e das que conseguirei pôr em prática. Também vi alguns filmes que sugeriu. Alguns já havia visto. Sempre que vejo algum filme baseado em literatura ou fatos reais assisto. O Curso está gostoso e sempre espero a terça-feira para assistir um novo módulo. Prazer em conhecê-la. Grato pelo curso. Saudações poéticas e democráticas.


Módulo 6 – Os russos:

Bernadete Bruto

SEM TEMA

(…) eu canto

porque o instante existe e minha alma está completa.

(Cecilia Meirelles)

As batidas do coração saltam fortemente até os ouvidos. Mãos geladas, respiração em suspense, mente vasculhando ideias na pressa. Um estado de alerta sempre despertado em momentos como este, como se fosse assim sua natureza em resposta à vida e agora na escrita. O dia não estava ventando para que a friagem perpassasse pelo corpo como um aviso refletido em rosto tenso.

Sempre ele. O Senhor Tempo com um relógio entre as mãos cronometrando os passos por toda uma existência, marcando os dias, meses, anos… até aquele instante de criação. Está presente também na escrita que se espicha enviesada no caderninho em resposta, ao mesmo tempo em que vasculha as paredes da memória. Um caderno, a caneta, a escrita. Escreve buscando um tema que faça sentido as letras entortadas de forma quase ininteligível preenchendo o espaço entre linhas tão retas. Linhas tão retilíneas exigindo o perfeito à altura dos russos. E o tema brinca de esconde-esconde com aquela menina que ainda hoje vive correndo para acompanhar os passos largos cadenciados da mãe caminhando por todo centro da cidade. Agora, na escuridão da caverna empilhada de livros, se pergunta qual é mesmo o tema para hoje e tudo isso por culpa do tempo!  Caros leitores, quantas vezes ouvira e até afirmara que o tempo cura tudo? Parece que não é sempre assim… Mas talvez nem seja o tempo o verdadeiro vilão…

Faz muito tempo que respirou o ar puro olhando o céu azul, sentido a brisa leve passando como uma suave canção pelo corpo, o coro de passarinhos nas verdes copas das árvores, ressoando no coração em completa comunhão com a natureza. O tempo já distante nas deliciosas horas de ócio. Neste momento, somente a Água viva de Clarisse com uma pergunta se o tema é o instante.  O que sente é algo associado ao correr das horas sem gosto de passatempo. Faz muito tempo que o receio se instalou naquela mente a recitar Cecilia Meirelles: não sei se fico ou se passo… talvez ela não saiba mais como sair de casa e sabe que não pode ficar indefinidamente…

A mão crispada correndo aflita dá o tom da urgência perante o Senhor Tempo. É daí que surge aquilo que se esgueira no peito. O anseio de sempre que pensa que o momento acabou sem a chance de encontrar um tema. Quase enxerga os poucos grãos de areia que ainda restam no alto da ampulheta, sente na pele a fração de segundos que não permitirá chegar ao final. Respira fundo e abraça a ansiedade. Rende-se ao sentimento que caminha ao lado faz um bom tempo. Nem sabe mais quando se instalou em sua vida. Sabe que deve encarar a angústia.

Observo-a procurando a palavra derradeira, leitores. Percebo o esforço de tentar utilizar em pequeno pano de fundo algo dos ensinamentos da apurada escrita russa. Naquela estação da vida, os trilhos devem correr soltos, o trem que chega em breve parte e não pretende entregar os pontos desistindo da vida, tão amada! Chega, então, na aceitação do que pode ser escrito. Decide se entregar àquele instante poético cheio de serenidade onde um coração bate compassadamente, pura melodia, mesmo sem um tema.

Recife, 19 de agosto de 2020.

Joel Martins Cavalcante

Mulher virtuosa

        As palavras do pastor no culto de ontem, domingo, não saíam da cabeça de Lúcia. “Não leste que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: – Por isso deixa o homem pai e mãe e une-se com sua mulher e os dois formam uma só carne? Não separe, pois, o homem o que Deus uniu.” Acordou cedo. Tinha de fazer o café da manhã do marido e dos filhos, além de passear com Bela, sua cachorrinha.

         “Oi, seu João, bom dia”, cumprimentou o vizinho idoso. Saiu por algumas ruas com Bela. Na mente a pregação do pastor remoía. Casamento é coisa de Deus. Divórcio é coisa do diabo. Se você não aguenta seu marido, ore e seja firme, porque Deus tem um propósito em tudo. Olha para o braço da mão que segurava a corrente da cadela. Estava roxo.

         Caminha pelas calçadas e nem percebe que Bela faz xixi onde não devia. A mulher de Deus é virtuosa. Se o casamento vai mal, a culpa é da mulher. Uma lágrima desce do rosto. Lembra das vezes que fez surpresas para o esposo, mas era ignorada. Só ganhava tapas em troca.

         Casou cedo. Nunca havia namorado antes. No encontro de jovens da igreja batista de uma cidade vizinha ficou encantada com aquele jovem que cantava louvor tão bem. As amigas em comum fizeram as apresentações. Ela, 16 anos, ele, 19. Um ano depois estavam casados. Nove meses em seguida vieram os gêmeos. Passaram cinco anos.

        No começo tudo foi como Lúcia sonhara. Amor para cá, amor para lá. Só bastou os filhos nascerem que tudo mudou. Ele ficava irritado com os choros, não queria ajudar nos banhos, colocar para dormir. “Isso é coisa para você”, dizia.

         Um dia, quando os bebês choravam muito com fome, ela foi fazer comida para eles. Na mesma hora o marido chegou do trabalho. “Cadê minha janta?”, disse. Não adiantou explicar o motivo do atraso. Ele derrubou a panela com papa de leite e meteu um tapa no rosto dela. “Eu sou prioridade. Eu, eu.” Depois vieram outras e outras.

         Todo domingo iam para a igreja. De mãos dadas entravam no templo. Ele levava um bebê, ela o outro. Lá havia um local onde as crianças pequenas ficavam. Duas horas de tranquilidade que passava. Orava para que a celebração fosse maior. Queria demorar para chegar em casa. O marido ainda cantava no grupo de música.

         Nem se deu conta quando já estava abrindo a porta de casa. O passeio com a cachorrinha passou rápido. Acordou o marido para o café. Deu banho nos filhos e os vestiu para irem para a escola. “Mãe, o que foi isso em seu braço?”, perguntou um deles. “Mamãe dormiu mal, meu anjo”, respondeu. Mas não ficou ressentida por mentir. Casamento é coisa de Deus.

        O marido foi para o trabalho. Lúcia levou os filhos para a escola. A professora, antes de receber os gêmeos, perguntou se estava tudo bem com ela. Viu seus olhos vermelhos. “Sim, professora. Graças a Deus.” Nunca teria coragem de deixar aquele casamento. Divórcio é coisa do diabo, disse o pastor.


Escrita Criativa em mim* | Patricia Gonçalves Tenório**

Agosto, 2020

Capítulo 1 – Domenico

            Pode-se escutar os passos das pessoas subindo a escadaria de ferro. No auditório, as cadeiras organizadas em fileiras de cinco, e os inúmeros convidados não param de subir os degraus da escadaria, com roupas coloridas, sorrisos e o desejo de conhecer aquele velhinho misterioso.

            Abril de 2002. 18h. José Mindlin chega na hora marcada. Eu o aguardo na entrada da Livraria Domenico que inaugurei há aproximadamente um mês. Ele traz debaixo do braço um exemplar do seu Uma vida entre livros[1]. E uma dedicatória:

“Para Patricia, que também sofre do mesmo mal de viver entre livros, a piedade do José Mindlin.”

            Mindlin nos presenteia com uma palestra inesquecível sobre a leitura, ainda melhor, sobre o amor à leitura dos livros raros que ele tanto possuía. Nos conta casos detetivescos de como conseguiu escavar exemplares originais de O guarani, Os lusíadas, por exemplo; de como abriu e fechou uma livraria por vender e logo em seguida recomprar dos clientes os livros que, no íntimo, não desejava se desfazer; de como esse repórter, advogado, empresário, escritor, editor, livreiro e bibliófilo da cidade de São Paulo, aos treze anos iniciou a sua coleção de livros raros pelos sebos da cidade e além-mares, até chegar ao número inacreditável de trinta mil volumes, que guardava com todo cuidado e carinho na biblioteca da sua residência – em 2006 o acervo foi inteiramente doado para a Universidade de São Paulo (USP).

           E nada mais justo, para inaugurar o primeiro dos doze capítulos desta coluna mensal, do que trazer o exemplo do grande leitor que foi José Mindlin. A leitura, especialmente dos clássicos, é a base para que se escreva cada vez mais e melhor. Não canso de lembrar do saudoso mestre Ariano Suassuna quando na sua bíblia, Iniciação à estética,[2] nos avisa que é preciso o ofício, ou trabalho diário, mas também – ouso dizer principalmente – a técnica, ou estudo contínuo, para quando a forma, ou intuição criadora, descer do sol feito ave de rapina, estarmos preparados para dar o salto e fazermos nascer uma obra de arte.

            No próximo capítulo, navegaremos pelas oficinas literárias, do Brasil e do mundo, uma das ferramentas imprescindíveis para alavancar a Escrita Criativa em mim.


Domenico Livraria. Abril, 2002.



[1] MINDLIN, José. Uma vida entre livros: reencontros com o tempo. Prefácio: Antonio Candido. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo e Companhia das Letras, 1997.

[2] SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002.

* Coluna publicada mensalmente nos blogs www.veragora.com.br/tesaoliterario e www.patriciatenorio.com.br.      

** Escritora, dezessete livros publicados, sendo um em formato vídeo-podcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

Simpósio 28 | Escrita Criativa para o século XXI | Abralic 2020

Data              | Horário     |    Temática

15/09/2020     19h-21h Personagens e narradoras/es: processos de criação e criações em processo

Ana Luiza Tonietto Lovato

Cristina Moraes Vazquez

Mariana Rissi Azevedo

Sandra Araújo de Lima da Silva

22/09/2020     19h-21h Formação, práticas, percursos de pesquisa e criação na Escrita Criativa

ALEXANDRA LOPES DA CUNHA

Luís Roberto Amabile

Patricia Gonçalves Tenório

29/09/2020     19h-21h    Construção de personagens e narradores/as e atravessamentos entre artes e gêneros literários

Altair Teixeira Martins

FERNANDA VIVACQUA DE SOUZA GALVÃO BOARIN

Gustavo Melo Czekster

Maria Williane da Rocha Souto

06/10/2020     19h-21h Formação, práticas, percursos de pesquisa e criação na Escrita Criativa II

Luciany Aparecida

María Elena Morán Atencio

Moema Vilela Pereira

Maiores informações:
https://www.abralic.org.br/

Poemas de Cilene Santos*

AZUL LILÁS

11/04/2020

Abri portas e janelas

E deixei o Sol entrar.

Reguei as plantas lá fora

E pus-me a observar.

Vi que o mundo estava lindo

Como nunca vi estar.

De um Céu azul lilás

Com salpicos de algodão.

Que encantou os meus olhos

E enlevou meu coração.

Um beija-flor sorrateiro

Roubou da Latana o mel

E feliz saiu voando,

Misturando as suas cores

Com o azul lilás do céu.

O INVERNO

20/07/2020

Uma cortina de água

Escondeu o meu azul

Fiquei sem sol

Perdi o céu

Perdi o Cruzeiro do Sul

O mar em cinza se tornou

A paisagem perdeu a cor

Todos se guardaram

Um bom vinho para aquecer o corpo

Um grande amor para aquecer a alma

Os olhos sonham com a Primavera

O Inverno chegou.

_________________________________________

* Cilene Santos, escritora, poeta, cordelista. Professora graduada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa. Membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 08, e tem como patrono Dimas Batista. Publicou Branca de Neve e os Sete Anões em Versos e A vida de Joel Pontes, em cordel. Participou dos Estudos em Escrita Criativa 2018 de Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com