Posts com Poesia

Índex* – Janeiro, 2019

Hoje acordei

Com o mar

De Sophia Breyner 

O desassossego 

De Fernando Pessoa

E umas palavras

Pulsando no peito

Querendo nascer

 

Uma canção de infância

Uma dança de roda

Ver a lua nascer

Redonda

O sol brotar

Imenso

 

E eu

Na pequenez

Desses meus versos

Deitá-los na rede

E descansar

(“Férias”, Patricia Gonçalves Tenório, 06/01/2019, 05h54)

 

A volta das férias e início de escrita no Índex de Janeiro, 2019, no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa 2019 | Boas vindas! | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

O Fantasma de Licânia | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Mi Salamanca: guía de un poeta nordestino | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

Por uma mobilidade performativa | Elilson (PE/RJ – Brasil).

Livraria Linardi y Risso | Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Vivendo na nuvem virtual | Mara Narciso (MG – Brasil).

 

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 24 de Fevereiro, 2019, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* January, 2019

I woke up today

With the sea

From Sophia Breyner

The unrest

From Fernando Pessoa

And a few words

Pulsing in the chest

Wanting to be born

 

A childhood song

A spinning dance

See the moon rise

Round

The sun will rise

Immense

 

And I

In the smallness

Of these my verses

Put them on the net

And rest

(“Holidays”, Patricia Gonçalves Tenório, 1/6/2019, 5:54 a.m.)

 

The return of the vacations and beginning of writing in the Index of January, 2019, in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Creative Writing Studies 2019 | Welcome! | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

The Phantom of Licânia | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

My Salamanca: guide of a northeastern poet | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

For a performative mobility | Elilson (PE / RJ – Brasil).

Linardi and Risso bookshop | Fred Linardi (SP / RS – Brasil).

Living in the virtual cloud | Mara Narciso (MG – Brasil).

 

Thank you for the affection and the participation, the next post will be on February 24, 2019, a big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Portugal, Brasil, Inglaterra, Japão, … e um oceano de palavras. Portugal, Brasil, England, Japan, … and an ocean of words.

Estudos em Escrita Criativa 2019 | Boas vindas!

Sejam bem-vindos(as) aos Estudos em Escrita Criativa 2019!

O grupo de Estudos nasceu em 2016, e vem se ampliando a cada ano no sentido de, a partir de teóricos de várias áreas de conhecimento (Literatura, Filosofia, Psicanálise, Semiótica…), e artistas de várias artes (Literatura, Poesia, Cinema, Fotografia, Teatro, Música…), alicerçarmos e provocarmos a nossa escrita para que ela floresça cada vez mais e melhor. Em 2018, tivemos encontros na Livraria Cultura do Recife e de Porto Alegre (cidade onde eu estava realizando até outubro de 2018 o doutorado em Escrita Criativa na PUCRS), e abordamos 8 temas, O tempo, O mito, A viagem, A música, O amor, O sonho, A imagem, O fogo. Na primeira parte do encontro, eu trazia teóricos, ficcionistas, poetas, artistas plásticos, cineastas para conversarmos sobre o tema do mês. Na segunda parte, fazíamos exercícios de desbloqueio relacionados com o tema. Na terceira parte, convidamos escritores locais para falarem sobre seus processos criativos.

Em 2019, trabalharemos a temática da viagem, com teóricos tais como Michel Onfray, Wladimir Krysinsk, Marcel Brion, Octavio Ianni, e ficcionistas/poetas selecionados por país/região/língua, tais como Margaret Atwood, Aldous Huxley, Emily Dickinson, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Adélia Prado, e muitos mais. Teremos novamente a primeira parte teórica; na segunda parte, escritores convidados de Recife e Porto Alegre falarão do tema do mês e/ou de seus processos criativos; na terceira parte, aplicaremos juntos, eu e os escritores convidados de cada encontro, exercícios de desbloqueio com os participantes.

As inscrições dessa vez serão realizadas diretamente no site da Unicap (http://www.unicap.br/universidade/pages/?p=1952), com número limitado de vagas, e certificado de participação. Informações: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com

Espero encontrá-lo(a) nos nossos encontros, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

www.patriciatenorio.com.br

 

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Cartaz A3 e Banner_PAlegre

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Diário de Pernambuco, coluna Opinião, 23/01/2019

 

 

Livraria Linardi y Risso | Fred Linardi*

Era para ser um dia de passagem rápida pelo terminal rodoviário de Montevidéu, mas decidimos sair de Colônia de Sacramento mais cedo. Antecipamos as passagens e saímos três horas antes. Das livrarias da capital uruguaia que gostaríamos de conhecer, a Linardi y Risso era a única na qual ainda não havíamos conseguido entrar. Além de ter sido uma dica da minha amiga Annie Piagetti Muller, a LyR carrega em seu nome o meu sobrenome.

É uma das mais antigas livrarias do país e, certamente, a mais antiga em atividade, aberta em 1944 por Adolfo Linardi Montero. Oito anos depois, ele se associou a outro descendente de italianos, Juan Ignacio Risso. Hoje, na segunda geração, é administrada pelos filhos Alvaro Risso e Andres Linardi.

No fim da tarde do dia 27 de dezembro, quando entramos lá, um senhor veio de uma das salas administrativas e nos deu boas-vindas. Eu arrisquei meu espanhol inexistente dizendo da minha satisfação de estar lá, não apenas pelo belo lugar, mas também por eu ser um Linardi. Eu não sabia, mas ele era o próprio Andrés, que parou o que tinha para fazer, me convidou a sentar numa das cadeiras de leitura e pediu para eu continuar falando em português mesmo – seria mais simples.

Contou-me dos primeiros anos da livraria, quanto era apenas uma pequena loja num outro prédio daquele mesmo centro de Montevidéu. De quando ele começou a trabalhar junto do seu pai, do início da sociedade e da compra daquele prédio onde eles estão hoje. A livraria, especializada em títulos latino-americanos, dos antigos ao mais modernos, também costuma lançar alguns livros com o selo próprio.

Eu, que já havia conhecido o Café Brasilero, frequentado por Eduardo Galeano e que fica na rua logo de trás, imaginei o tanto de outras mentes que haviam passado entre aquelas prateleiras. A resposta veio quando Andrés me mostrou uma foto do pai ao lado de Pablo Neruda numa foto na parede do escritório, ao lado de outros registros do lugar, cuja história recebeu a presença de outros como Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, Armonía Somers, Juan José Saer, Mario Vargas Llosa…

Perguntei-lhe se havia um livro sobre a história da loja, e ele me assentiu com a cabeça. Trouxe um exemplar único, que não estava à venda, produzido por eles próprios. Mas havia um outro, escrito por Patricia Demicher Ilaria, sobre famílias italianas no Rio da Prata. “Deste tenho vários. Pode levar como um presente.”

Impossível não me sentir em casa naquele ambiente e com aquela conversa. Falamos do que sabíamos dos nossos antepassados. Lembramos que há, na região da Calábria, uma forte concentração de Linardi. Era de lá que eu havia encontrado a documentação dos meus e, há alguns anos, havia descoberto que na cidade de Rossano é produzido um vinho chamado Linardi. Ele já conhecia e, há algum tempo atrás, haviam conseguido uma remessa de garrafas através de uma encomenda.

Ao final da conversa, o telefone tocou com latidos de cachorro. Era sua esposa, para quem começou a contar sobre a visita inusitada dos parentes brasileiros. Depois de desligar, contou para nós sobre o motivo do toque do telefone. “Ela cria sheepdogs”. Com livros, vinhos e cachorros, não há necessidade de melhores companhias e referências para encontrar laços que unem parentescos, mesmo que não tão próximos.

 

(Montevidéu, dezembro de 2018)

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* Contato: fred.linardi@gmail.com

Índex* – Dezembro, 2018

O Menino

Continua

Crescendo, fortificando

 

Até o umbral

De um novo ano

Até os primeiros raios

Do dia

Em que

Nos levantamos

Nos renovamos

 

E transformamos

Ao redor em

Paz

Luz

Amor e

Poesia

(“Em mim, nasce o poema”, Patricia Gonçalves Tenório, 25/12/2018, 06h05)

 

O umbral do novo ano se aproxima no Índex de Dezembro, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – 2019 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

O Natal de Bernadete Bruto (PE – Brasil) e Cilene Santos (PE – Brasil).

Facas na literatura | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

O fogo de Ina Melo (PE – Brasil).

Do fim | Geysiane Andrade (RS – Brasil).

Poemas de Márcia Maia (PE – Brasil).

Essa tal felicidade | Natália Setúbal (RS – Brasil).

E o desejo de um 2019 de muitos Sonhos realizados, Paz, Saúde, Luz, Amor & Alegria, a próxima postagem será em 27 de Janeiro, 2019, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – December, 2018

The Boy

Continues

Growing, fortifying

 

Until the threshold

Of a new year

Until the first rays

Of the day

On what

We get up

We renew

 

And we transformed

Around in

Peace

Light

Love and

Poetry

(“In me, the poem is born”, Patricia Gonçalves Tenório, 12/25/2018, 06:05 a.m.)

 

The threshold of the new year is approaching in the Index of December, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – 2019 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

The Christmas of Bernadete Bruto (PE – Brasil) and Cilene Santos (PE – Brasil).

Knives in literature | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

The fire of Ina Melo (PE – Brasil).

From the end | Geysiane Andrade (RS – Brasil).

Poems by Márcia Maia (PE – Brasil).

Such happiness | Natália Setúbal (RS – Brasil).

And the wish for a 2019 of many Dreams realized, Peace, Health, Light, Love & Joy, the next post will be on January 27, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Sonhos a se realizarem no Ano Novo que se aproxima. Dreams to be fulfilled in the approaching New Year.

 

Estudos em Escrita Criativa – 2019

Os Estudos em Escrita Criativa nasceram em 2018 a partir do I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco que ocorreu de 13 a 15/10/2017 no Pavilhão do Centro de Convenções, em Olinda.

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Com o apoio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, através dos Profs. Luiz Antonio de Assis Brasil, Cláudia Brescancini e Maria Eunice Moreira, e da XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, em nome de Rogério Robalinho, foram realizadas diversas oficinas e mesas, entre elas “Estimulando a leitura através da Escrita Criativa”, “A importância de um ambiente estimulante na Criação Artística”, “Devaneios Fílmicos, Cósmicos e Poéticos” e “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”. Levamos para Recife escritores graúchos, tais como Assis Brasil, Valesca de Assis, Gustavo Melo Czekster, Daniel Gruber, María Elena Morán, e trocamos experiências com autores pernambucanos e de outros estados do país, entre eles Lourival Holanda, Maria do Carmo Nino, Igor Gadioli, Fernando de Mendonça, Cida Pedrosa, Robson Teles.

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O resultado extremamente positivo do I Seminário em 2017 nos incentivou a ampliarmos o projeto e levarmos para as Livrarias Cultura de Recife e Porto Alegre em 2018. Criamos encontros mensais, temáticos e independentes: O tempo, O mito, A viagem, A música, O amor, O sonho, A imagem e O fogo.

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Os encontros foram divididos em três partes. Na primeira parte, ministrada por Patricia Gonçalves Tenório, apresentamos, sob a temática do mês, teóricos de várias áreas de conhecimento (Teoria da Literatura, Filosofia, Psicanálise, Semiótica), artistas de diversas áreas de arte (Literatura, Cinema, Fotografia, Música, Artes Plásticas). Na segunda parte estimulamos os participantes a realizarem exercícios de desbloqueio relacionados com o tema. Na terceira parte convidamos escritores locais para apresentarem seus processos criativos, entre eles, em Recife, Flávia Suassuna, Fátima Quintas, Jacques Ribemboim, Ana Maria César e Adriano Portela, em Porto Alegre, Alexandra Lopes da Cunha, Andrezza Postay, Camilo Mattar Raabe, Luís Roberto Amabile, Annie Muller, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Júlia Dantas, Guilherme Azambuja Castro, Tiago Germano e Débora Ferraz. Firmamos parceria em Recife com a União Brasileira de Escritores – PE, em nome de Alexandre Santos e Bernadete Bruto, e em Porto Alegre com a PUCRS no sentido de convidarmos os escritores locais e termos o projeto apoiado por uma instituição relacionada com a Literatura.

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O resultado foi surpreendente. Houve uma recepção além do esperado nas duas cidades. Chegamos a ter mais de 30 participantes por encontro e constatamos a eficiência do método na qualidade dos textos elaborados, a maioria das vezes, no instante mesmo da parte prática. E lançamos, no último encontro do ano em cada cidade, a coletânea de artigos Sobre a escrita criativa II com textos dos escritores convidados e escritores/professores do Brasil inteiro que fazem a Escrita Criativa acontecer.

Em 2019, daremos continuidade ao nosso grupo de Estudos em Escrita Criativa de Recife. Em breve estaremos anunciando o local e a data de início dos nossos encontros que estão sendo construídos com muito carinho. Aguardem!

E, em comemoração aos cinquenta anos de vida e quinze anos de escrita, serão lançados cinco livros bem especiais em Novembro, 2019. Aguardem também!

Desejo um Ano Novo de muita Paz, Saúde, Luz & Sonhos realizados, grande abraço e até breve!

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

 

O Natal de Bernadete Bruto* & Cilene Santos**

LEMBRANÇAS DE NATAL

Bernadete Bruto*

Recife, 11 de dezembro de 2018.

 

A bola era colorida e no Natal ela sempre sonhará como era bela aquela bola…

Os filhos andavam sempre junto da mãe.

Em dezembro não se trabalhava, nem estudava.

As férias eram na praia.

Há tempos a menina está na rua escrevendo sua nova vida.

Há muito os filhos largaram a mão da mãe.

Nas festas todos dançavam felizes.

A música vem do celular, quando Lennon não mais está aqui. Nem Vinícius, nem mais os amores idealizados. Ouve-se uma canção. É de Natal: I feel it in my fingers… ah! A canção nem mesmo é em português! Mas o Natal está em volta.

A menina pode brincar segura em casa que Papai Noel vai chegar e papai está em casa. Mamãe está viva! Vamos todos à missa do galo. Depois, na casa da vovó todos se abraçarão em breve. Aquela casa que já nem existe mais… Embora esteja na eternidade da alma.

Agora, as iguarias estão na mesa, alguns parentes envelhecidos ainda estão presentes (talvez o maior presente de Natal). No ar, o amor e olhar são os de sempre. O coração enxerga além.

Nesse ínterim, cinco mulheres seguem seu destino. Cada qual em seu tempo e idade, escolhas, dentro desta cidade e com amizade, juntas, comemoram com singeleza as mais puras lembranças de Natal.

 

O SENTIDO DO NATAL

Cilene Santos**

Recife, 21/12/2018

Natal! Festa deslumbrante.
Momento de muita luz.
Dia em que celebramos
A chegada de Jesus.
Como num deslumbramento,
O mundo se transfigura.
Dentro de cada pessoa,
Nasce nova criatura.
E esta metamorfose
Que ocorre em toda a gente
É o reflexo da nobreza
Da energia transcendente
Que emanou naquele dia
Em que Jesus complacente
Se fez menino e ensinou
A toda a humanidade
Que só o amor e o perdão
Purificam a nossa alma
E dão a oportunidade
De nos tornarmos Cristãos.
Que todos nós entendamos
Sua mensagem de amor.
Despertemos nova vida
E vivamos praticando
O que Ele ensinou.

 

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* Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores – UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa da Confraria das Artes e dos Estudos em Escrita Criativa. Tem quatro livros publicados, sendo três coletâneas de poesias, Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011), Querido diário peregrino (2014), e um infantil, A menina e a árvore (2017). Participa de antologias, assim como de diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

** Cilene Santos, escritora, poeta, cordelista. Professora graduada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa. Membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 08, e tem como patrono Dimas Batista. Publicou Branca de Neve e os Sete Anões em Versos e a vida de Joel Pontes, em cordel. Participou dos Estudos em Escrita Criativa 2018 de Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

Facas na literatura* | David de Medeiros Leite**

Alguns hábitos queremos largar, outros, não. O da leitura concomitante de dois livros faz tempo que me acompanha e, não fazendo força em sentido contrário, pretendo assim seguir. Na maioria das vezes, prefiro gêneros e assuntos díspares. Porém, recentemente, ocorreu-me uma incessante coincidência: dei-me conta de que estava lendo duas obras, cujos títulos faziam referências à faca. Sim, isso mesmo, ambos os títulos remetem a tão cortante instrumento de lâmina: Dançar com facas, de Hildeberto Barbosa Filho (Mondrongo, 2016); e Entre facas, algodão, de João Almino (Record, 2017).

François Silvestre diz que inveja é como colesterol, tem a boa e a ruim. Lembrei-me da brincadeira desse amigo, quando da leitura do Dançar com facas, pois, qualquer um que busca a concisão poética para versejar, com certeza invejará esse trabalho de Hildeberto. Como se costuma dizer hoje em dia, o tomo está “redondo”, cada poema deixa aquela impressão de que nada falta e nada sobra.

Quando comentamos algum livro, sempre nos deparamos com a dificuldade em eleger poema ou estrofe, mas, claro, temos que arriscar. No poema “Velhice”, Hildeberto, propositadamente melancólico, sentencia: “Os fardos da idade / começam a humilhar / o pobre corpo. // E a alma, / papoula desgarrada, / nem está mais aqui!”. Na mesma pisada, deparamo-nos com o poema “Horizonte”, talvez, carregando a representação mais impactante da obra: “Velhos com conhaque / na alma, lúcidos, / sem horizonte.” Imagem forte, que cala fundo em qualquer um que não tenha apenas uma pedra no peito, como sugere o cancioneiro popular.

Mudando a temática, porém no mesmo tom minimalista, vem o “Metáfora”: “Num antigo verso / falava das ‘pupilas da manhã’. // Hoje invento a metáfora: // nas tuas pupilas, Pâmela, nadam / todas as manhãs”. No poema “Verão”, a nordestina seca esturricada se mistura com um intimismo que não possui imbricação geográfica e puxa a conversa para abarcar outras estações que nem temos: “É verão / e as pessoas nem estão / mais alegres. // (Tudo é claro, quente, triste!) // O sol explode / dentro de mim / enquanto me despeço / das outras estações.”. Na mesma pegada intimista, no poema “El condor”, o eu lírico transfigura-se no próprio pássaro que ganha voz: “El condor, / nomearam-me os de outra espécie, / os que se dizem dotados / de uma segunda natureza. // Suspenso no azul, / com as asas abertas, / nomeio o mundo,”.

E, quando Hildeberto aborda o mister poético ou a própria poesia como arte, entra em cena o doutor em literatura a nos ensinar lições difíceis de assimilarmos nesse mundo de danações e açodamentos. Difíceis porque o aprendizado requer maturação, condição antagônica à pressa dos dias atuais. Contudo, vamos lá. Com a dificuldade do escrutínio antes mencionado, considero “RIO/POEMA”, como o ápice do livro: “Rio nenhum vale um poeta, / porque rio é somente rio, / e suas correntezas têm destino certo, / e suas margens são apenas margens. // O poeta, não. / É rio, é margem, é correnteza, / é água, muita água, correndo por dentro, / enchente, naufrágio…”.

O paraibano Hildeberto Barbosa Filho encerra o livro com o poema que o nomeia: “Dançar com facas / não é apenas ofício de bailarino / nem dos saltimbancos de ruas. // Se a vida é um tablado, / dançamos todos, com facas, / (…) Dançar com facas / também é ofício de poeta.”.

Já no romance Entre facas, algodão, do mossoroense João Almino, o protagonista possui algo machadiano nisso de “atar as duas pontas da vida”, ou seja, a urdidura acontece a partir de sua decisão de, já setentão, resolver deixar Brasília e comprar uma fazenda no sertão potiguar, onde pretende se instalar e “recompor” um passado que lhe consome.

Além da determinação de largar a vida de advogado na capital federal pela de plantador de feijão, milho e “até algodão”, o personagem principal carrega em si o desejo incontido de vingar a morte do pai. Sem falar que tudo está entremeado com laivos sentimentais, na medida em que vive uma separação conjugal e procura reinventar uma paixão da adolescência.

Romancista com sólida carreira, João Almino sustenta uma linguagem leve numa trama bem sequenciada que prende o leitor. Entre tantas facetas, o romance possui uma característica que merece registro: os personagens manuseiam redes sociais, como WhatsApp e Facebook, ao mesmo tempo em que se ancoram em costumes antigos da vida sertaneja.

E a crise familiar que envolve o protagonista (único personagem cujo nome não é revelado, pois o livro baseia-se em um diário do mesmo), também acontece em duas “dimensões”: tanto na questão da vingança do pai, que termina por gerar uma dúvida quanto à própria paternidade biológica que, até então, era inquestionável, como também no que diz respeito a sua relação com os três filhos, cujas convivências são perpassadas por questões afetivas confusas e bastante atuais.

Um excerto do romance pode justificar parcela do título e situar mais ou menos as lembranças do cenário da infância vivida: “No Riacho Negro, meu padrinho vivia da lavoura do algodão, da oiticica e da carnaúba. Sobretudo do algodão. Me lembro que puxava com orgulho o capucho de algodão para mostrar o tamanho da fibra”.

Quanto às facas existentes por entre a maciez algodoeira, as perspectivas que se abrem são variadas e propositais. Desde a já comentada desforra paterna, até as agruras vividas e revividas pelos personagens, nas diversas épocas e dimensões apresentadas. O sertão de outrora, violento pelo coronelismo. Um pouco da vida moderna, como registros em voos de Brasília a Fortaleza.

Tudo isso sob a pena de quem não é amador no ofício. João Almino coleciona prêmios com outros romances, além de respeitado ensaísta em questões políticas e sociais.

Enfim, entre a poesia de Hildeberto e o romance de Almino, caro leitor, vi-me imbricado num mundo de facas sentimentais por entre um algodoal poético romanesco. Duas obras que enriquecem sobremaneira as letras brasileiras.

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* David de Medeiros Leite é professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha. Entre outros, publicou os seguintes livros; Incerto Caminhar; Ruminar (Poesia); Cartas de Salamanca; Casa das Lâmpadas (Crônica). Contato: davidmleite@hotmail.com

Poemas de Márcia Maia*

Cotidiana e virtual geometria. Márcia Maia. Manaus: Edições Muiraquitã, 2008

 

cinzas

 

fosse a venda o remédio imane à cura

que banisse a poesia da cidade

fosse o dia o negror que a emoldura

e imolando-a qual prenda à tempestade

mata a lenda que amor é amargura –

fantasias compostas de saudade

vã magia que em chita ousa ver renda

renda rota sem charme e sem magia

que em saudade colore as fantasias –

na amargura fugaz refaz-se a lenda

(tempestade finita – inútil prenda)

num cantar que emoldura o tolo dia

e à cidade que nega-se à poesia

diz a cura ao poeta – a morte é venda

 

soneto

 

quanto tempo resistimos sem tocar-nos

quanto tempo quantos dias quantas horas

se o desejo não desiste de aflorar-nos

vem e vara madrugadas rompe auroras

 

nessa mão pássaro breve a ensaiar-nos

velhos voos solitários sem demoras

sem que menbro toque vulva sem beijar-nos

(na tevê desfilam plânctons faunas floras)

 

e o antigo cheiro a sexo a inebriar-nos

que invadia o quarto a casa aonde moras

e rompendo o lacre frágil da janela

 

se estendia rua afora a delatar-nos

(em um tempo feito de antes não de agoras)

faz-se espelho que oculta e não revela

 

 

Onde a minha Rolleflex? Márcia Maia. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2012.

 

em câmera lenta

 

o ar aquareliza-se em cinzentos

os verdes envelhecem de repente

o rubro do sobrado se anemiza

a tarde por inteiro empalidece

 

os pássaros mais cedo se recolhem

e a breve quietude prenuncia

o instante que desata a tempestade

 

 

epigrama

 

em cada verso de amor

há um naufrágio iminente

um tsunami descrente

seu imanente furor

 

e um campo de margaridas

 

o resto é tolice

(artifício de escrita)

acácia desflorida no verão

 

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* Márcia Maia é médica e se aventura nos caminhos da poesia. Publicou Espelhos (2003), segundo lugar no 3º Concurso Blocos de Poesia; Um Tolo Desejo de Azul (2003); Olhares/Miradas (2004); Em Queda Livre (2005) e Cotidiana e Virtual Geometria (2008), vencedor do Prêmio Violeta Branca Menescal (Manaus, 2007). Participa de coletâneas no Brasil e em Portugal. Seu livro Onde a Minha Rolleyflex?, ganhou o Prêmio Eugênio Coimbra (Recife, 2008). Faz parte de Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009). Publicou ainda Sem Amém (pela Editora Moinho de Ventos, 2011). Edita os blogues Tábua de Marés e Mudança de Ventos e Itinerário. Participante dos Estudos em Escrita Criativa 2018 de Recife. Contato: marciamaia@uol.com.br

 

 

 

 

Índex* – Novembro, 2018

Fecham

As portas

Do avião

De Porto Alegre

Para Recife

E não estou

Mais lá

Não estou 

Ainda aqui

Nesse trânsito 

Entre dois mundos

Dois amores

 

Duas saídas

Para um mar de estrelas 

Oceano de vontades

Papel e lápis

E escrever

Me inscrever

Crer…

Crer…

(“Oceano”, Patricia Gonçalves Tenório, 09/11/2018, 06h54)

 

Água e Fogo, Teoria e Poesia, Crítica e Ficção na edição de aniversário do Índex – Novembro, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

O fogo da criação | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

DE CRIAÇÃO E FOGO DA MEMÓRIA | Bernadete Bruto (PE – Brasil).

O FOGO CAMONIANO | Cilene Santos (PE – Brasil).

Fogo – Do Barro à Pira, Companheiro de Vida | Elba Lins (PE – Brasil).

Sobre o fogo | Gabi Vieira (PE – Brasil).

O fogo de Gabriel Nascimento (RS – Brasil).

O fogo | João Orlando Alves (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa 2018 – Recife e Porto Alegre | Diversos.

Agradeço imensamente o carinho e a força, a próxima postagem será em 30 de Dezembro, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – November, 2018

Close

The doors

From the airplane

From Porto Alegre

To Recife

And I’m not

More there

I’m not

Still here

In this passage

Between two worlds

Two loves

 

Two exits

For a sea of stars

Ocean of wills

Paper and pencil

And write

Sign me up

Believe…

Believe…

(“Ocean”, Patricia Gonçalves Tenório, 11/10/2018, 06h54)

 

Water and Fire, Theory and Poetry, Criticism and Fiction in the anniversary edition of the Index – November, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

The fire of creation | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

OF CREATION AND FIRE OF MEMORY | Bernadete Bruto (PE – Brasil).

THE CAMONIAN FIRE | Cilene Santos (PE – Brasil).

Fire – From Mud to Pira, Companion of Life | Elba Lins (PE – Brasil).

About fire | Gabi Vieira (PE – Brasil).

The fire of Gabriel Nascimento (RS – Brasil).

The fire | João Orlando Alves (PE – Brasil).

Creative Writing Studies 2018 – Recife and Porto Alegre | Several.

Thank you immensely for the affection and the strength, the next post will be on December 30, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Em 2018, um oceano de vontades para o bem escrever. In 2018, an ocean of wills for well write.  

O fogo da criação* | Patricia Gonçalves Tenório**

Descobrimos em A psicanálise do fogo, do filósofo francês Gaston Bachelard, alguns dos temas mais caros à literatura universal, tanto nos clássicos quanto nos contemporâneos, e que investigamos durante 2018, nos encontros dos Estudos em Escrita Criativa, em Recife e em Porto Alegre.

Nos encontros, navegamos pelo tempo e nos lembramos d’“O que é, pois, o tempo?”, e o triplo presente de Agostinho de Hipona nas suas Confissões, onde só o presente do presente existe na alma distendida da percepção. Intuímos o conceito de figura que Erich Auerbach tomou emprestado dos primeiros padres da Igreja Cristã, quando, para angariar mais fiés entre os judeus, gentios, pagãos, tentavam ligar figuras do Antigo Testamento, tais como Davi, Moisés, Josué, à figura do Cristo no Novo Testamento, os primeiros prefigurando o preenchimento pleno com a vinda do Messias. Auerbach aplicou o conceito de figura tentando ligar textos clássicos, um apontando para o outro, desde Homero até chegar ao romance moderno com Virgínia Woolf.

Buscamos em Yuval Harari, e no seu Sapiens: Breve história da humanidade, o motivo para mais de 150 indivíduos caminharem na mesma direção: a construção do mito. Mito que, segundo André Jolles, nasce quando uma pergunta essencial encontra uma resposta perdida, uma sendo feita para a outra de maneira inexorável.

E o que dizer sobre a viagem? Esse tema que vem lá dos nossos pais portugueses com Luís Vaz de Camões em Os Lusíadas, atravessa a Jornada do Herói ou da Heroína, de Chistopher Vogler e Maureen Murdock, e desemboca n”Os devaneios de um caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau?

A música nos traz a Teoria Barroca dos Afetos, e lembramos de Ludwig van Beethoven quando afirma que “Não apenas pratique sua arte, mas force seu caminho em seus segredos, pois ela e o conhecimento podem elevar os homens ao Divino”.

O amor nos apresenta o maior sentimento agregador, aquele para o qual viemos ao mundo, pelo qual retornaremos dele um dia, e que o poeta trovador Guirault de Borneilh nos abre as janelas da alma, de ponta a ponta, lá n’O poder do mito, de Joseph Campbell.

O sonho e a imagem dialogam entre si, quando Carl Gustav Jung extrai dos sonhos a imagem individual, no meio das inúmeras imagens coletivas que nos são impostas todos os dias, e Roland Barthes nos apresenta o punctum da fotografia que nos fere e atinge. Com isso mergulhamos em nós mesmos na direção de nossa essência, e reverberamos em ficção, poesia, imagens teóricas ou poéticas.

E o fogo reunindo em si cada um desses temas elencados para nos provocar, para nos alimentar com teoria de várias áreas de conhecimento, nos iluminar com diversas áreas de arte, o fogo quase nos queimando por inteiro, nos transformando por inteiro, para renascermos feito uma Fênix desmesurada, e escrevermos uma obra de arte.

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* Ao final dos Estudos em Escrita Criativa 2018, Recife e Porto Alegre.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (2015, UFPE) e doutora em Escrita Criativa (2018, PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br