Posts com Poesia

Índex* – Julho, 2017

Uma água de côco 

Um sonho nas mãos

Mas o sol

Se esconde por trás da

Chuva

E posso ouvir

A terra cantar

Da terra brotar

Flores particulares

 

Ainda ontem

Andei meu primeiro passo

Doei meu primeiro beijo 

E nem parece

Que o tempo passou

Ou passou

Nas gotas grossas de

Chuva

Que mergulham

Em meus cabelos

(“A trégua”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 10/07/17, cerca de 16h10)

Uma trégua para a Paz, para a Vida, para a Escrita Criativa no Índex de Julho do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Pequeno conto de sonhos | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

O FANTASMA DE LICÂNIA (PARTE XI) | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Um conto e um poema de Alexandra Lopes Da Cunha (DF/RS – Brasil).

“Entre a neve e o deserto” | Gisela Rodriguez (RS – Brasil).

“Convalescente” | Magno Catão (RN – Brasil).

Serra da Capivara e seus mistérios | Mara Narciso (MG – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Diversos participantes.

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 27 de Agosto de 2017, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – July, 2017

A coconut water

A dream in the hands

But the sun

Hides behind the

Rain

And I can hear

The earth sing

From the earth to sprout

Private flowers

 

Yesterday

I walked my first step

I gave my first kiss

And it does not seem

That time passed

Or passed

In the thick drops of

Rain

Diving

Into my hair

(“The truce”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 10/07/17, about 4:10 p.m.)

 

A truce for Peace, for Life, for Creative Writing in the July Index of Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Small tale of dreams | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

THE GHOST OF LICHEN (PART XI) | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

A tale and a poem by Alexandra Lopes Da Cunha (DF / RS – Brasil).

“Between the snow and the desert” | Gisela Rodriguez (RS – Brasil).

“Convalescent” | Magno Catão (RN – Brasil).

Serra da Capivara and its mysteries | Mara Narciso (MG – Brasil).

Study Group in Creative Writing | Several participants.

Thank you for the affection and participation, the next post will be on August 27, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Uma trégua para as Férias no inverno de Recife – PE. A truce for the Holidays in the winter of Recife – PE.

Um conto e um poema de Alexandra Lopes Da Cunha*

Pedido de Natal

A mãe diz: temos sorte de estar vivos. Que espécie de sorte é essa, pensa Anna, cheia de fome, toda ela transformada em falta. Privações, tempos duros, tempos tristes, intermináveis. A sua vida mal começara e parecia já tão gasta: olhava as próprias mãos, cobertas de frieiras, os cabelos a caírem em tufos, os joelhos ossudos. Chega a duvidar que já vivera outra vida, uma vida: com alegrias, comida farta. Lembra-se de que havia bolos, leite, ovos e natas. Geleias, abundância. Até a palavra agora lhe parece untuosa, rica em gorduras, e sente a boca se encher de água, o estômago vazio dar voltas sobre si mesmo e doer. Com os dedos de unhas roídas, escava o solo, à procura de algo para comer. Leva torrões de terra à boca e chora. Quando pensaria, quando cogitaria comer terra? E o reboco das paredes, para acalmar a língua. O inverno piorou tudo. Antes, Piotr conseguia trazer alguma caça: uns coelhos, pombos. Tudo parece haver morrido, pela guerra ou pelo frio.

Frio, frio e fome, duas constantes. Com as mãos cobertas de frieiras, analisa um verme que achou na terra. Cogita comê-lo, pensa que seria fácil fechar os olhos, colocá-lo na boca e mastigar depressa para não sentir. Mas não pode. Ela e Andrezj usavam os vermes para a pesca, para as carpas. Pensa que irá ao rio, levará o verme e, quem sabe, tenha sorte. Quem sabe pesque uma carpa para consumirem no dia de Natal. Terá de suportar a linha entre os dedos, se fisgar o peixe. Hão de doer as feridas, mas a fome dói mais.

Vai até ao estábulo vazio de cavalos, de cabras, de vacas. Encontra a vara de pesca, a sua, ao lado da de Andrezj. Uma fisgada na altura do peito. Lembra-se de anos passados: ela, o irmão a pescar, seus gritos de alegria quando sentia a linha retesar. Olhavam-se cúmplices. Era ali que se iniciavam as celebrações de Natal, com o peixe a puxar a linha.

Caminha arrastando o cabo da vara e o saco de estopa vazio. Os olhos colados no chão. O vento empurra-a para frente, torna seu esforço menor. Não fosse o frio, as poucas roupas que veste, estaria até feliz, mas a falta de alimento, de roupas quentes, a falta que lhe fazem o pai e o irmão, a ausência de notícias deles há tanto tempo, obscurecem o seu espírito. Tem esperança, apesar de tudo. De pescar um peixe. De que, neste Natal, estejam em casa o seu pai e seu irmão.

A barranca do rio já não é como antes. Nada é como antes. Desapareceram as árvores. Encontra carcaças de animais, madeira incinerada. Não percebe nada vivo em lugar nenhum. Não se aproxima muito, mas vê restos de homens. Os restos ainda vestem uniformes, não pode dizer se eram polacos ou alemães, os tecidos perderam as cores. O que era aproveitável: as armas, as botas, os casacos, foi levado pelos vivos.

Ao chegar ao rio, sem esperanças, prende o verme ao anzol, atira-o à água agora turva e pede, não sabe se a Deus, ao Demônio, ao que seja, pede um único presente de Natal; se não for possível ter o pai e Andrezj à mesa, que venha o irmão, que venha o irmão para estar junto dela, junto dela e da mãe, de Maria e de Anton. Haverá o de sempre, os nabos e batatas e, quem sabe, o peixe, se ela conseguir pescá-lo sozinha.

A linha retesa, Anna grita. De alegria e de dor. Esforça-se para puxar a linha, as mãos enregeladas não obedecem. Vai perder o peixe. Grita: Andrezj!

Sente alguém lhe tomar a vara das mãos. A princípio, não reconhece aquela sombra. O quepe cai sobre os olhos, a aba do capote cobre o restante do rosto. As mãos, as mãos tão brancas e frias, o formato das unhas azuladas. O seu irmão.

Imobilizada pela alegria, pela graça concedida, Anna não consegue se mover, não consegue fazer nada mais que admirar a facilidade com que o irmão fisga e traz a carpa à superfície,  liberta-a do anzol sem feri-la e a coloca no saco.

Só então ele a olha. Ou melhor, olham-se os dois. Andrezj veste o mesmo uniforme que levava quando esteve ali pela última vez, há tanto tempo. Seu rosto não mudou, é apenas sua palidez de estátua que denuncia seus sofrimentos de soldado. Isto e as olheiras fundas. Seus olhos, agora turvos como a água, refletem grande tristeza, ou Anna os vê assim.

Anna abraça-o. Não desejava chorar, mas chora. Era tanta a dor a corroer seu peito, que, ao entregar-se a ela, perde o controle das pernas. Abraça-se ao corpo rígido do irmão, chora e grita, chora e soluça. Chora e chora, enquanto ele segura o peixe dentro do saco, teso, incapaz de interrompê-la, incapaz de consolá-la.

Anna estranha a atitude do irmão, mas pensa que ele viu demais nos campos de batalha. Anton já havia lhe dito: um soldado que retorna da guerra fica para sempre ferido. Anton era coxo, perdera parte da perna. Anna sabia que pernas amputadas não mais cresciam. O irmão parecia inteiro, mas talvez lhe faltasse um pedaço. Um pedaço que Anna não atinava qual seria.

Quer levar Andrezj para casa, vamos Andrezj, a mãe há de ficar tão feliz, diz a menina.

Não posso, Anna.

A luz que habitava o corpo da menina abandona-o ante a negação. Por que, deseja saber.

A mãe não suportaria, ele responde. Ela se assustaria, agrega.

Mas havia de ser um susto bom, Anna insiste.

“É impossível”, ele mantem-se firme. “Devo voltar para o meu batalhão. É lá onde devo estar”.

“Deve ser assim, Andrezj?”

“Deve ser assim, Anna”.

“Onde está o seu cavalo? Como chegaste até aqui?”

“Apenas cheguei. Para atender o seu chamado, irmã”.

“Saberás voltar?”

“Eu já estou lá”.

Andrezj entrega-lhe o saco com o peixe. Coloca o capote nos ombros da irmã. Ela quase se perde debaixo de tanto tecido, mas sorri, aquecida.

“Tenha coragem, Anna”.

“Eu terei, Andrezj”.

Ela beija o rosto do irmão, tão frio está que lhe pergunta se não lhe fará falta o casaco, se não vai ser penalizado por voltar sem ele.

“Não me fará mais falta”.

“Quando a guerra acabar, Andrezj, poderás então voltar?”

“Uma parte de mim nunca deixou de estar aqui, Anna”.

Andrezj coloca o quepe na cabeça da irmã e este afunda sobre a pequena cabeça. A menina sorri. Quando o levanta, o irmão já não está mais.

Anna retorna para casa. Anda com dificuldade. Pelo peixe que se debate dentro do saco, pelo peso do capote que leva aos ombros, pelo quepe que equilibra sobre a cabeça. Quando a mãe perguntar como conseguiu: o peixe, o casaco e o quepe. A menina já sabe o que responder:

“Foi Andrezj, mamãe. Meu pedido de Natal”.

 

Patrimônio

 

O que tenho de meu é esta dor

calada e queda,

esta dor silente e funda,

dor fundação,

cimento e pedra,

como os ossos que me sustentam

o corpo

(se não os ossos do meu corpo).

 

É esta dor que me acompanha

desde sempre, irmã-siamesa

ou apêndice supurado,

onipotente,

iluminando, com raios tórridos,

o céu exangue de minha boca

sempre cerrada com um sorriso.

 

O que tenho de meu é esta dor,

somente ela,

apenas ela.

Sou eu, minha dor,

o meu silêncio

de catedral vazia]

e um sorriso de cadeado.

 

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* Contatoalexcunham@gmail.com

“Convalescente”* | Magno Catão

autobiografia.

 

Dizem-me sempre que tenho olhos pretos e expressivos.

Não sei por que, se sempre fui míope,

Miro o tempo como se ele tivesse

Um espelho me concedendo meus segredos de alma.

Há um dilúvio estrepitoso no vagar dos meus olhos:

Tenho a mania de ser um perdido inocente.

Não decoro caminhos, continuo encarando-os

Em pontilhados pretos-e-brancos, pretos-e-brancos.

Quando criança, confundia urubus com galinhas negras

Velando o corpo do bicho podre adormecido;

Imaginava as placas Lombadas,

Nas estradas poeirentas do interior,

Prenunciando cidades montanhescas de mesma alcunha.

Aceitei a contragosto que nuvens não eram luvens,

De onde a “luz vem” e passa, translucidando a luz do sol.

Continuo pródigo de luvem, à deriva, perdido de dentro no tempo.

Amo torto, como se o podre fosse um funeral, amo míope,

Amo todo, perscrutando loucuras do meu reflexo.

 

efêmero.

 

Olhei nos olhos do gato,

Dois riscados num fundo acobreado,

Encarando-me de alma lavada.

Se a alma do gato é famélica,

A minha são dois gumes da mesma faca.

Olhei nos olhos dum gato,

E vi minha forma lampejando ingrata,

Desejando seus invólucros mais mesquinhos.

 

Os olhos do gato num fundo acobreado

Denunciando minha sede de pecado.

Se as minhas dores não são mais eternas,

O que dirá dos amores amordaçados.

Meu amor pecaminoso, do gozo e do guincho,

Das guelras grudadas nas minhas grutas,

Do antegozo antevendo os olhos acobreados,

Despeça-se como esse gato mais vagabundo,

Coma as minhas carnes e dê a volta na esquina,

Para nunca mais voltar.

 

borrão.

 

Vejo-me numa grande estrada.

Mas nessa atribulada vida,

Elas são muitas e intermináveis.

Por isso, eu me perco pungentemente:

Sempre vivo no subjuntivo.

Vejo carros conhecidos e fugazes passarem.

Meu olhar, feito flecha, atravessa-os.

Enxergo pelo vidro faces cansadas:

Viagens pelo asfalto cinzento e descuidado

E a extorsão de sorrisos verdadeiros consternam-me.

Deparam-me com pobres criaturas lamentando o passado.

Eu, então, aceno: olhem para mim!, sou eu

Mas eu só pareço um espectro distante.

Ninguém me atravessa o olhar.

Nenhum brilho tinge o meu.

Vou me contaminando pela opacidade.

Vou sobrevivendo ao clima de partidas.

Muitas partidas, e nenhuma parada.

Da beira da estrada, essas pessoas me conhecem

Mas elas não me olham.

Sinto-me um eterno borrão.

 

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Poemas extraídos de Convalescente. Magno Catão. Mossoró: Sarau das Letras, 2017.

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Julho, 2017

Não lembro exatamente quando o nome me foi dedicado, mas lembro perfeitamente quem o dedicou. Meu avô paterno, O Major de meu primeiro livro,[1]  José Tenório de Albuquerque Lins, gostava de me contar estórias de uma corujinha que vivia nas matas do interior de Alagoas, e essa coruja possuía filhotes, e esses filhotes eram os mais lindos do mundo. Veio um gavião e os comeu, achando que não poderiam ser os filhotes da mãe-coruja, visto serem extremamente feios.

Foi assim, sentada no colo de meu avô, que ele me chamou  pela primeira vez de professorinha. Eu usava, desde os três anos, óculos de grau com arame atrás das orelhas, por causa de hipermetropia e astigmatismo. Sentada no colo de meu avô, ele profetizava o que, mais de quarenta anos depois, foi repetido pela segunda vez por minhas alunas do Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

Alunas. Nome doce e ao mesmo tempo difícil de conciliar, quando lembramos da responsabilidade que carregamos em nossas costas – feito as asas de Ícaro –, por depender de nós toda uma tendência para o bem ou para o mal. O professor pode elevar o aluno ao mais alto grau de auto-estima, e de conhecimento, e de desenvolvimento próprio, como também pode destruir um potencial num piscar de olhos. Uma vez escrevi que as duas profissões que mais admiro no mundo são o médico e o professor. De maneiras diferentes – mas tão importantes quanto –, as duas profissões salvam ou condenam uma vida, curam ou matam. E o professor pode retirar de nós o melhor do ser humano. Isso tudo quando aplicando a aprendizagem que mais acredito, aquela que na língua francesa encontramos tão bem exemplificada com o verbo aprendre – de ensinar e aprender –, aquela que chamo de “aprendizagem pelo afeto”.

Nada melhor na aprendizagem pelo afeto do que um livro bom. Os nossos melhores amigos. Aqueles que não nos deixam sós, e dizem exatamente aquilo que gostaríamos de escutar naquele exato momento.

E nada melhor do que construir um livro bom. O cheiro de um livro bom. O som das páginas novas folheadas. O tato nas palavras recém-impressas. Sobre a Escrita Criativa. Essa é a experiência que estamos vivendo, eu e minhas alunas do Grupo de Estudos em Escrita Criativa. Foi proposto aos participantes do I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco[2] que escrevessem como a Escrita Criativa entrou em suas vidas, e estão surgindo textos em que se retoma toda a trajetória de seus processos de criação. Textos emocionantes, mas sem perder a qualidade teórica nem ficcional, pois navegar entre esses dois âmbitos, entre os dois pólos aparentemente contrários, mas que se comunicam, e se complementam, e se ajudam, é o que nos faz seres humanos. É o que nos faz escrever melhor.

Em agradecimento a esses participantes, e, principalmente, às minhas alunas Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, dedico este post, e esse livro, e a minha história de vida, d’O Major até os dias de hoje.

Elas

Apareceram

De repente

Em minha vida

Todas

Transparecendo

Em algum momento

Uma ruptura

Um cansaço

Uma busca

 

Eu

Propus um tema

E todas

Me entregaram

As tarefas

Tão brilhantes

Tão limpinhas

 

Que foi só

Triunfo

Da Poética

Que se fez

Conto

Da História

Que floresceu

Assim

Como se nada

Aconteceu

 

(“As alunas”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 01/07/17, 17h15)

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(1) TENÓRIO, Patricia. O major – eterno é o espírito. Recife: Edição do Autor, 2005.

(2) Que acontecerá de 13 a 15/10/2017 na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, Centro de Convenções, Recife – PE. Maiores informações: patriciatenorio@uol.com.br, rogerio@cia-eventos.com e sidneyniceas@gmail.com.

Índex* – Junho, 2017

Hoje

Ouvi estórias

Que me fizeram

Arrepiar

Que me fizeram

Acreditar

Em mera

Inspiração 

*

Mas 

Inspiração é

Carne

Inspiração é

Osso

Onde o frio

Penetra

Até o mais 

Insuportável 

*

De se criar

*

De se escrever

*

Uma estória criativa

Uma escrita criativa

A partir

De textos seus

Em busca

De textos meus

(“Ode à Escrita Criativa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 07/06/17, 18h00)

Uma Festa da Escrita Criativa no Índex de Junho, 2017 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Contos para uma Escrita Criativa | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Correr com rinocerontes” | Cristiano Baldi (RS – Brasil).

“O Jardim das Hespérides” | Daniel Gruber (RS – Brasil).

“O amor é um lugar estranho” | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

“Ocaso: contos de entreluz” | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

“Noite em clara: um romance (e uma mulher) em fragmentos” | Sidney Nicéas (PE – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa & I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco | Diversos.

Agradeço a participação e o carinho, a próxima postagem será em 30 de Julho de 2017, um grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

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Index* – June, 2017

Today

I heard stories

That made me

Bristle

That made me

Believe

In mere

Inspiration

*

But

Inspiration is

Meat

Inspiration is

Bone

Where the cold

Penetrates

Until the

Unbearable

*

To create

*

To write

*

A Creative Story

A Creative Writing

Starting

From your texts

In search

Of my texts

(“Ode to the Creative Writing”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/07/17, 6:00 p.m.)

 

A Creative Writing Feast in the June, 2017 Index of Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Tales for a Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Running with rhinos” | Cristiano Baldi (RS – Brasil).

“The Garden of the Hesperides” | Daniel Gruber (RS – Brasil).

“Love is a strange place” | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

“Sundown: fairy tales” | Ricardo Timm de Souza (RS – Brasil).

“Clear night: a romance (and a woman) in fragments” | Sidney Nicéas (PE – Brasil).

Creative Writing Studies Group & I National Seminar on Creative Writing | Miscellaneous of authors.

Thanks for the participation and the affection, the next post will be on July 30, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Festa Criativa da turma Oficina de Criação Literária I – Narrativa, 2017.1, ministrada pelo Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUCRS – Brasil. The Creative Feast of the Classroom of Literary Creation I – Narrative, 2017.1, taught by Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil, at PUCRS – Brasil.

 

Contos para uma Escrita Criativa| Patricia (Gonçalves) Tenório*

Intervalo[1]

Atravessei a avenida ao encontro da praia. O sol ainda nascia, uma leve brisa tocou o pescoço descoberto dos meus cabelos pretos, lisos; arrepiei. Juntei a barra do vestido rodado, descalçando as sandálias me sentei num tronco caído de coqueiro.

Na carteira de cigarro importado havia apenas um, minha última chance. Acendi com cuidado, sorvi cada molécula; procurei o sabor da canela travando nos dentes brancos.

Passei um longo tempo olhando a pintura se desenhar à minha frente, os pensamentos me levavam distante, mas estavam ali do meu lado, presentes como um amigo fiel. Pensava no que pensar, trazia as recordações para tão perto que se tornavam insuportáveis; a briga com Marcelo, o pedido de demissão.

Repórter do Diário da Manhã. Uma profissão meio diferente para a minha época. Enquanto as outras moças casadas, com uma fileira de filhos entrando e saindo das saias, subindo ao colo, salpicando beijos e ouvindo canções de ninar, perguntava para que tudo isso, essa vontade de ser independente, a diferença se estampando na primeira página.

Uma mulher no jornalismo.

Não sei se fiquei triste ou alegre, não sei. O que pareceu ironia também me agradava, soando estranho até mesmo aos meus pais. Se acostumaram à minha irreverência e isto me provocava.

Alisei os grãos da areia à minha frente, fumava devagarzinho, o cigarro na metade. E cada segundo gasto me parecia roubado, voava com a fumaça e nunca mais o alcançaria.

Uma criança desceu com a babá de um prédio do outro lado da rua, acompanhei cada passinho hesitante, cada murmúrio pedindo braço e a moça não cedia. E se eu estivesse no lugar dela? Tentei por um instante pensar e o pensamento continuava fugidio. Foi quando o vi.

Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.

Procurei na bolsa minha caderneta, não a encontrava. Por que bolsa de mulher tem que ser tão apertada, tão cheia de coisas? Ele se sentou na calçada, no banco de cimento, cruzando as pernas longas, colocou uma caneca ao lado.

As pessoas se aproximavam. Um senhor jogou a moeda na caneca. Ela rodava e rodava até bater no fundo, ouvia o ruído e o brilho me ofuscava os olhos; sentei alguns metros, fiquei como distraída. Ouvi o nome pela primeira vez.

– Há quanto tempo, Seu Mateus.

Mateus. A palavra ficava rodando e rodando em minha cabeça. Será bíblico, Mateus? Será católico, eu que sou judia? De sabás e mandamentos, os sábados pertenciam aos rituais. Mas não devo me perder, volto à palavra, agarro-a, prendo na mão.

Os dedos dele são longos, longos e grossos. Será músico? Pianista quem sabe. Desses que tocam no Banana Café, entre blues e jazz, a nova música, talvez bossa, talvez. Quais serão os gostos, gosta de fumar também?

Ah, como desejo um cigarro agora… Deixei o meu pela metade, ainda no tronco do coqueiro, imagino se consumindo, o vento apagando, levando embora um prazer emprestado. Mateus começa a falar.

Nem quero ouvi-lo, e ouço a voz rouca, pausada, um leve sotaque mineiro, a minha mania de realidade impondo notas na caderneta. Se me cansei de realidade? Se para isso me sentei aqui, nesta praia, de frente para este mar, ouvindo o som dos pombos que me avizinham pousando nos ombros do casaco de Mateus.

Porque não quero sabê-lo e desejo-lhe o toque. Me aproximar mais e mais e descobrir segredos. Quem foi, o que é? Mas precisava de classificação? Para ver em que parte do jornal o enquadraria? O livro de Rilke nas mãos.

O que faria um velho, gasto, usado livro de Rilke nas mãos do homem? De onde tirou tamanha poesia? A caixa de madeira, deveras ser. Descansava sob os pés sandálias de couro cobertas de poeira. Mateus discutia o tratado do amor com o senhor amigo.

Que sabia mais de amor, ele vivera? O que ensinar para mim que não mais acreditava? Uma Cecília sem fé, eu me dizia. Seria agnóstico?  Eu não me deixava perguntar, e queria perguntar, fazer entrevistas. Ele não me percebia.  Com roupa de festa, saia rodada e ele não me percebia.

Será que me queria percebida? Invejava a transparência? Eu que até prêmios ganhei e de repente nada fazia sentido, nada se coloria à minha frente e não me espantava mais. Perdia pouco a pouco a inocência de uma criança que abre o presente, desfaz a fita dourada em laço, desenrola do papel seda, a caixa de papelão grosso, a minha primeira boneca.

Brinquei com Sofia até quase namorar. Meu primeiro presente, com um mês de namoro, foi uma boneca. Parece que ele me adivinhava, sabia que não poderia competir, era muito mais velho que eu. E numa sabedoria grega perguntava para o meu oráculo, um novelo que se desfiava lentamente. E já estava lá: a minha boneca, o namorado, a primeira noite, separação; vai e vem de amores, sair de casa; o jornalismo, páginas policiais. O encontro com Mateus.

Tudo projetado como se fosse um filme na tela da minha vida, o novelo se desfazendo e fora antes escolhido, estava dentro de mim.  Um destino plantado feito semente. Criando raízes, alastrando e me puxava para mais perto numa louca atração pelo personagem, queria ganhar forma, pular da caderneta, irromper em vida própria. Me dominar.

E antes que acontecesse, antes que em mim mandasse, puxei-lhe as rédeas, o afastei. Fechando o bloco de anotações. Guardando na bolsa. Ele tirou do casaco um maço de cigarro, a mesma marca do meu. Sentei e fiquei esperando. Me olhou. Talvez um segundo, uma fração e já não me olhava. Implorei perdão. Bateu de leve no joelho, retirou um cigarro. Me ofereceu.

Tremi. Meus dedos finos quase o encontravam, tocava a mão que me oferecia, se deixava seduzir. Ele continuando, talvez soubesse da minha desistência, de que estava pronta para entrar nas águas e me afogar, deixar  o sal embeber meu corpo até ficar inchada, os lábios ressecariam se cobrindo  com  algas, os caranguejos carregando meus restos mortais para bem longe, além da curva  da praia, outros mares, minha consolação.

Um pouco de mim sendo repartido com outros, eu me daria enfim, não seria mais minha, inteira e unicamente minha, a outros pertencendo até virar pó.

O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas.  Moraria na caixa de madeira.

 

O Grito[2]

No começo foi o grito.

(Anésia Pacheco e Chaves)

Acendo o abajur e a lâmpada queimada não ajuda a chegar ao banheiro, lavar o rosto, olhar no espelho quebrado.

Me olhar no espelho quebrado.

Crescem rugas no meu rosto estranho. Não pertenço a este lugar? Desde ontem vejo coisas, sinto coisas e não sei o que dizer.

– Aceita este homem…

Bebo um café bem forte. Tão forte o café que a garganta arrepia as amídalas, desperta as papilas.

– … na saúde e na doença…

Tomo um banho demorado. Faço espuma com o sabão, ensaboo o corpo inteiro à procura de mim mesma.

– … respeitando-se…

Que sorte ser feriado! Não preciso levar as crianças ao colégio, a roupa na lavanderia, o cachorro para passear…

– … como seu futuro ex-marido?

Carlos veio ontem visitar as crianças com os papéis do divórcio. Devo ler com calma, assinar com calma, consultar com calma o advogado. O advogado, olhos cor do céu.

Um novo céu.

Um novo dia.

Acompanho os alunos na visita ao museu. Pedro é o maior de todos. Pedro, com seus nove anos e a cadeira de rodas.

– Tenho superpoderes, professora!

– Sim, temos todos superpoderes, Pedro. Você, na cadeira de rodas, pode chegar mais rápido. O Flávio, com os óculos, enxerga melhor. A Alice, o aparelho nos dentes… tão afiados os dentes da Alice. Mas não temos, nenhum de nós, o poder de desaparecer e aparecer em outro lugar… Por isso, meninos e meninas, eu na frente, porque somente eu sei o caminho!

O caminho diferente hoje, no museu de sempre. Os quadros de sempre e ninguém me avisou, que, no meio da exposição de Gauguin, e Van Gogh, e Tarsila do Amaral, lá estava ele, impávido, silencioso, tão silencioso como sua morte certa, como se me contasse algum segredo vindo do caixão.

– Desculpe, professora, esquecemos de avisar que esta área está reservada ao velório do Doutor Muniz.

Não quero saber do segurança, dos quadros, dos alunos, só o morto me interessa, só o morto atravessa a sala enorme sem jardins. Por que nem os girassóis, nem a pergunta de onde somos, mas para onde iremos, Sr. Muniz? O senhor agora sabe, o senhor agora entende como tudo aconteceu. Como Carlos me deixou. Como Carlos deixou de me amar amando outra, ou será que amou outra para deixar de me amar?

– São tão estranhos, os mortos…

São tão estranhos, os homens… E ali me aquietei. Ao lado da viúva. (A amante?) Da filha. (Uma bastarda?) O caixão. Um homem de bigode e barbas brancas. Ele não olhava para mim. Não olhava mais ninguém. Mas, se eu me abaixasse, se por um instante escutasse, sairia o que dos seus pulmões?

– No começo foi o grito.

Lembro aqui, sentada, parada, com os alunos pulando ao meu redor, o segurança falando ao meu redor, que ouvi aquela frase, eu li aquela frase, no começo foi o grito, em alguma exposição. Mas o que importa agora? A arte, os artistas, os alunos, se o Sr. Muniz está morto?

– Não conheço o Sr. Muniz.

E a viúva (amante?), a filha (bastarda?) seguraram a minha mão. Aqueceram a minha mão como se ao defunto aquecessem, como se ao defunto quisessem fazer ressurgir e descobrir o que há do outro lado.

– Ele é mais feliz agora.

Saberá de tudo agora? Com a viúva e a filha em minhas mãos? Que eu traí Carlos primeiro, com o carteiro, o padeiro, o açougueiro, a amiga da sua prima. Com a prima também?

– Era um homem muito justo.

E a justiça, Sr. Muniz? A quem se aplicaria, a quem se gritaria pedindo o perdão?

 

A CIDADE UNIVERSITÁRIA[3]

Foram derrubados os muros da cidade, o Muro Alto não existia mais. Plantaram jardins conjuntos, escreveram livros para uns aos outros ler. Era bom aquele começo, com a esperança no coração. Inventaram para o Barulho Extremo músicas dessas para relaxar. Ouviam baixinho antes, durante e após as refeições. Conseguiam fazer suas tarefas mais difíceis, das que precisam de uma concentração profunda, usando aquelas músicas que aquietavam.

O filho do prefeito, era João o seu nome, inventou uma outra ferramenta para ao Barulho abafar. Era o Riso, ele dizia, que se mal não faz, bem então fará. No princípio, todos riam assim forçados, todos riam desanimados só para agradar ao menino. Mas depois descobriram que rir era mais fácil que imaginavam e rir fazia imaginar. Imaginavam dias luminosos, coloridos, as árvores cheias de folhas, as abelhas retornando às colmeias, o néctar de flor em flor.

E foram aos poucos e persistentes, exercitando aquele Riso, e transformando o pensamento em positivo cada vez mais. Se reuniam na pracinha da cidade, debaixo da sombra do Carvalho, e riam uns dos outros, de si mesmos e dos animais, que passeavam livremente, meio espantados no começo, por verem aquele sorriso contínuo. Sentiam-se ridículos, é verdade, os habitantes da cidade. Mas sentiam-se jovens, intrépidos, relaxados, e brincavam uns com os outros, e faziam cócegas uns nos outros para o Riso fomentar.

Voltavam para casa cansados, o rosto vermelho, os olhos brilhantes. E nem mesmo na hora da refeição, conseguiam parar o Riso – ele já contagiava. A cidade era assim transformada, de uma cidade comum que vivia nas cinzas, no Barulho Extremo, em uma Cidade Universitária.

As disciplinas estudadas pelas crianças na Escola, levadas em tarefas para casa eram multidisciplinares. Sabiam entre si estudar das mais fáceis às mais difíceis, e retornavam às mais fáceis para melhor aprender. Os adultos começaram a sentir necessidade em retornar aos estudos, para aos filhos ajudar, para aos filhos fazer admirar, do menorzinho ao mais velho.

Mas professora Mariana alertou que não era esse o caminho. Que não deveriam estudar somente para aos outros agradar. Precisavam encontrar um propósito, um propósito original, um sentido essencial, que agradasse a si próprio em primeiro lugar. Para então, aos pouquinhos, às crianças ajudar, aos seus filhos ensinar com o Aprendizado pelo Afeto.

Era o Aprendizado mais eficiente, aquele que perpassa o Tempo, transpõe Espaços e quem recebe carrega para a vida inteira. Ninguém do aluno ou da aluna pode retirar. Quando se entrega um Ensinamento coberto de Carinho, esse Carinho se entranha no Ensinamento, se entranha em quem recebe para nunca mais acabar. A Memória permanece fiel ao Ensinamento, pois com o Afeto se tornaram irmãos. Irmãos gêmeos, siameses, e espelham um no outro o que o Carinho envolveu, o que o Afeto transmutou em ondas de Aprendizado perpétuo.

 

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Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados: O major – eterno é o espírito2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa; Vinte e um/Veintiuno (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Doutoranda em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, sob a orientação de Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil.

Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(1) Conto extraído de Grãos, de Patricia (Gonçalves) Tenório. Rio de Janeiro: Calibán, 2007.

(2) Conto extraído de Vinte e um/Veintiuno, de Patricia (Gonçalves) Tenório. Madri, Espanha: Mundi Books, 2016.

(3) Trecho extraído de A menina do olho verde, de Patricia (Gonçalves) Tenório. Recife: Raio de Sol, 2016.

 

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2017 & I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco

Trazemos para o meio do ano de 2017, o meio do caminhar na Escrita Criativa, a importância das leituras de outros autores na nossa própria leitura e escrita de mundo. No mês de Junho, 2017 postamos neste blog trechos de autores do sul, sudeste e nordeste do Brasil que estão se influenciando, que estão se estimulando no processo do bem escrever.

Correr com rinocerontes, do professor e escritor nascido em Caxias do Sul, RS, Cristiano Baldi, nos joga no rosto, nos esmurra o estômago da nossa hipocrisia em nos sentirmos menos canalhas do que os outros, do que todos ao redor. Iremos encontrar essa verdade “jogada no rosto” em O amor é um lugar estranho, do jornalista e escritor paulista nascido em Assis, radicado em Porto Alegre desde 2011, Luís Roberto Amabile: a verdade de não sermos nem tão bons assim, não sermos nem tão ruins assim, mas sermos apenas seres humanos – o que a narrativa contemporânea tem enfatizado veementemente.

O Jardim das Hespérides, do escritor nascido em Nova Hamburgo, RS, Daniel Gruber, desconstrói esse mito do “amor épico” e o torna mais próximo da carne, mais dentro do sangue das nossas próprias veias, com o cotidiano saturado e desgastante, a vida nos mergulhando na falta de sentido para nos agarrarmos à Arte, à Literatura, feito Homero ao mastro do navio e não se afogar com as sereias.

A “Festa” (Ocaso: contos de luz), do professor, filósofo e inquietante escritor nascido em Farroupilha, RS, Ricardo Timm Souza, nos brinda com uma estranheza semelhante àquela que encontramos nos contos do escritor de Praga, Franz Kafka, e ambos, Timm e Kafka, nos remetem a nós mesmos, e nos abandonam à solidão de nosso destino.

O escritor pernambucano Sidney Nicéas recolhe os fragmentos de uma vida e tece um romance fragmentado, fragmentário, Noite em clara, em consonância com os autores sulistas e com as escritoras e poetas Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, feito veremos mais adiante.

Esse desejo de unir as pontas de um país, em um momento em que o egoísmo, a desonestidade, a corrupção, negam o natural do ser humano que é o Amor, a Paz, a União, no momento em que nada mais reúne, a Arte vem e salva a Vida, e aponta para o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco, que acontecerá de 13 a 15 de Outubro de 2017 na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, Recife – PE, com nomes tais como Adriano Portela (PE), Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS), André Balaio (PE), Bernadete Bruto (PE), Cida Pedrosa (PE), Daniel Gruber (RS), Elba Lins (PB/PE), Fernando de Mendonça (SP/PE/SE), Gustavo Melo Czekster (RS), Luís Roberto Amabile (SP/RS), Luisa Bérard (AL/PE), Luiz Antonio de Assis Brasil (RS), Maria do Carmo Nino (PE), María Elena Morán (Venezuela/RS), Patricia (Gonçalves) Tenório (PE), Raimundo Carreiro (PE), Robson Teles (PE), Talita Bruto (PE), Valesca de Assis (RS). Isso tudo sob a organização e maiores informações de Patricia (Gonçalves) Tenório (patriciatenorio@uol.com.br), Rogério Robalinho (rogerio@cia-eventos.com) e Sidney Nicéas (sidneyniceas@gmail.com).

E o exercício do mês de Junho, 2017 reflete esse diálogo entre escritores de todo o Brasil: a partir de “textos meus” postados no início desta edição do blog (“Intervalo” (Grãos), “O Grito” (Vinte e um) e trecho de A menina do olho verde), estimular “contos”, “poemas”, “textos seus”, trazidos ao centro por Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, nessa “Festa” literária chamada Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

 

Recife, 19 de Junho de 2017,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

 

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

 

 

No intervalo do intervalo

                                                                     

                                                        Intervalo Berna                                           

 

Escapo. Lá está ela! Um livro no colo, com nosso cigarro importado entre os dedos soltando fumaça, olhar perdido… Ainda não me viu, alheia está em suas conjecturas que chego a ler seus pensamentos… Não sou eu quem os contará! Deixa ela mesma digitar tim tim por tim tim tudo que lhe vai em mente, quando for a hora.

Alisa os grãos da areia a sua frente quase em câmara lenta com o cigarro na metade, cinzas quase caindo, divagando pela vida, alheia… Ausente da sua própria vida? Foi quando me viu. Um déjà vu… Já me viu antes. Agora acompanha meus movimentos. Finjo não notar, para quê assustá-la? Vou ganhando força. Vida própria, a cada movimento monitorado.

Ela procura algo na bolsa numa pressa danada, enquanto me sento na calçada no banco de cimento e coloco a caneca de lado. As pessoas se aproximam e ela também sentou alguns metros de orelha em pé.  De repente, não está mais tão perto, parece que se perde no meio dos pensamentos e algo a traz de volta. Ah, vejo que ela retorna quando seus olhos pousam no livro de Rilke que trouxe comigo. Ahá! Agora sei que ela deve estar imaginando o que faço com um livro desses, sendo um homem, neste mundinho pequeno. Discuto o tratado do amor com Paulo, só para agradá-la, pois sei que me ouve. Ainda que falasse a língua dos homens… Deixo-a imaginar quem seria, submeto-me aos seus julgamentos. Deixo-a divagar juntamente com sua saia rodada de festa, que balança ao vento. Seus pensamentos voam tanto que reverberam junto a mim. E neste momento, ela fecha o caderno de anotações, e olho para ela num pequeno instante. No intervalo que pode durar um século, quando os olhos se encontram num entendimento. Neste ínterim, sumo carregando comigo todos os maus pensamentos. Um personagem também tem o dom de cura.

Mateus se levanta, bate os grãos que grudavam seus pés, nas roupas, levanta-se e segue o caminho de volta a sua vida. Nem sequer nota a presença daquela Pérola. Vai de encontro ao seu destino, sem nem perceber que um pouco dele ficou naquela praia e será repartido com os outros. Pérola, vestida de festa, renascida na dor naquela praia, permanece sentada na areia com a cabeça cheia de ideias, uma caderneta fechada aprisionando um personagem e o livro de Rilke no colo cuja página marcada, passada e repassada ao vento, lhe aconselha:

“por isso, minha cara senhora, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si própria e sonde as profundidades onde sua vida brota; na sua fonte encontrará a resposta à pergunta “Devo criar?” Aceite a resposta, tal como lhe é dada, sem tentar interpretá-la. Talvez chegue à conclusão de que a arte a chama. Nesse caso, aceite o seu destino e tome-o, com o seu peso e a sua grandeza, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior. Porque o criador deve ser todo um universo para si próprio, tudo encontrar em si próprio e na Natureza à qual toda a sua vida é devotada.”(*)

E o personagem chamado Mateus, lá dentro da caderneta, sorri.

Recife, 19 de maio de 2017, reformulado em 4 de junho de 2017.

* Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta. Modificação do gênero para melhor servir ao texto.

 

Texto elaborado a partir do conto “Intervalo” do livro Grãos de Patrícia Tenório.

 

Prelúdio para uma escrita criativa

Prelúdio Berna

Durante 21 dias, no intervalo de uma vida a outra, seu Muniz com olhos cheios de Grãos rondava Mateus que não achou graça, nem gostou daquela companhia. Foi quando a escritora, sentada na praia, deu um Grito alucinante reconhecendo-os de outros carnavais!!!!

Perdida com aquela situação peculiar, sem nome, mudou-se para a Cidade Universitária onde A menina de olho verde lhe esperava de braços abertos para lhe contar que se Ícaro voasse, poderia ver do alto que A mulher pela metade era aquela que não sabia que As joaninhas não metem e o melhor estava por vir. Começou a sentir o mundo como as palavras de D’Agostinho, pura poesia que voava nas mãos e resultava em Diálogos simples que chegavam aos ouvidos passando pelo coração das pessoas.

Daí em diante, a sua escrita ficou tão criativa, mas tão criativa, que formou um grupo e saiu disseminando conhecimento como o Major intuíra desde sempre.

E ela foi feliz para sempre sem Intervalos.

 

Recife, 29 de Maio de 2017 reformulado em 3 de Junho de 2017.

Texto elaborado a partir dos nomes do livros da Escritora Patricia Tenório e uma homenagem ao Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

 

E DE REPENTE SEUS OLHOS

Recife, 28 de maio de 2017.

 

“ Achei engraçado o jeito de andar, alto, o cabelo assanhado, barba comprida. Era magro também. Não uma magreza seca, esturricada, uma magreza fina, elegante. O casaco bege puído, deixava mostrar uma camisa amarela desbotada de malha, a calça de brim azul.”(1)

 

Este foi o primeiro pensamento que surgiu na minha cabeça, há cinco anos quando vi Augusto pela primeira vez – o jeito engraçado dele andar.

Depois, ele chegou mais perto e de repente vi seus olhos… eram olhos azulados, da cor do mar. Do mar para onde me levaria e onde, pescador, me aprisionaria na rede e no seu olhar marinho.

Cada dia seu, desenhava o meu, pois não conseguia me libertar dos seus braços âncoras.

 

“Reconheci no teu canto

Um convite pra te amar

Retiramos nossos mantos

Descobri tuas riquezas

A pérola do teu sorriso

O brilho do teu olhar

 

Exploraste meus segredos

Saciaste meus desejos

Provei o sal do teu beijo

Passeei entre as estrelas

E ancorei no teu cais”. (2)

 

Meu caminho era agora azul, minha rota era o mar. Augusto me fez sereia, e meu canto o seduziu até o dia em que mergulhou sozinho e me deixou a esperar no cais, agora pedra, agora espuma…

Só vejo chuvas, águas barrentas, não mais o azul a lavar minha alma e iluminar o meu olhar.

Augusto possivelmente se foi, se tornou sal, se quedou para sempre no fundo do mar.

Mas aqui sozinha ainda espero o sol e pelo menos a cor azul do seu olhar.

 

– TENÓRIO, Patrícia. GRÃOS – Conto “Intervalo”. Calibán, 2007

– LINS, Elba. Poema Sem Pecado 22.08.2009

 

 

Até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó hás de tornar. (Gen. 3,19)

 

“O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, lhe sujaria de novo os pés, se entranharia nas roupas. Moraria na caixa de madeira.”  (ref. 1)

Finalmente, Mateus!

Eu não ficaria a te olhar de longe

Ansiando por tocar na tua pele

 

Agora

Viajaria no vento amigo

Que entra em todas as casas

Que assanha cabelos

E para o qual nada é segredo

 

E, nesta viagem infinda,

Aportaria nos teus braços

Invadiria tuas reservas

Teu corpo enfim,

Seria meu

Seria eu

Grão de areia

A invadir segredos

A passear pelos bolsos

Nas tuas calças e camisa

 

Faria carícia

Arranhando teu peito

E enfim descobriria,

Os segredos da caixa de madeira

Que tantas vezes

Me transformou em curiosa.

 

 

Referências:

– TENÓRIO, Patrícia. GRÃOS – Conto “Intervalo”. Calibán, 2007

– ANDRADE BARBOSA, Rogério. O FILHO DO VENTO. DCL, 2013

 

(Eu Sou o Pó e Retornarei

Elba Lins – 02.06.2017

Após reler “Intervalo” e ao escrever lembrei O Filho do Vento)

 

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Luisa Bérard

falecom@luisaberard.com.br

 

ALIANÇA DE BRILHANTE

 

O brilho promissor de uma nova vida

Que se desejou esplendorosa e bela,

Desponta ofuscante, valiosa e eterna

Na aliança que um dia me presenteou.

 

Em que pese a desventura do fim,

Permeada de tristeza e desilusão,

Não tenho forças para dela me desfazer

Por simbolizar o seu amor por mim!

 

Como foi dolorido ter de lhe esquecer,

Para deixar de sofrer e poder sobreviver,

Quando o meu romântico coração

Só desejava amor, paixão e compreensão.

 

E na estrada fria e distante da separação,

Aquela aliança é a forma de manter

Gravada na minha saudosa memória

Os sonhos perdidos da nossa história.

 

O DESPERTAR DA ESCRITA

 

Escrever…

Por quê?!

Senão a necessidade de expurgar a dor;

Fantasiar mundos;

Viver outras identidades;

Divagar em infindáveis possibilidades;

Numa incessante tentativa de recriar

A realidade ao meu redor.

 

No descortinar das emoções,

Onde escrever é viver!

Os personagens ganham independência,

Preenchendo os vazios da existência.

Se o despertar da escrita

Deu-se pela solidão do dia-a-dia,

Ouso ironicamente dizer:

Ao menos teve uma utilidade o meu sofrer!

 

 

Índex* – Maio, 2017

Tempo morto

Aquele de

Se esperar

E nunca

Alcança

Aquele de

Ver o mar

E não enxergar

A paisagem 

Aquele de 

Abrir os olhos

E não ter

Porque viver

*

Tempo torto

Que vive

Embriagando

As minhas buscas

Que traça

A imensidão 

Do meu destino

E me deixa

Parada entre os caminhos

*

Tempo solto

Que faz

Endoidecer 

Os meus ouvidos

Que floresce

Nas saias de meus vestidos

E concede

Um pouco de paz

Um pouco de amor

(“Triplo presente”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 16/05/17, 07h40)

*

Tempo morto

quello per aspettare

e mai raggiungere

quello per vedere il mare

e non guardare il paesaggio

quello per aprire gli occhi

e non sapere perchè vivere

*

Tempo contorto

che ubriaca le mie ricerche

che traccia l’immensità del mio destino

lasciandomi ferma tra i percorsi

*

Tempo liberato

che fa impazzire le mie orecchie

che fiorisce tra le pieghe del mio vestito

e concede un po’ di pace

un po’ d’amore.

(TRIPLO PRESENTE (Patricia Tenorio), Traduzione dal portoghese: Alfredo Tagliavia, 21/05/2017)

*

O Tempo solto entre os Espaços, entre os Signos, entre as Artes no Índex de Maio, 2017 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Conto intersemiótico | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Semiose poética” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“À Cidade” | Mailson Furtado (CE – Brasil).

A automedicação na prática | Mara Narciso (MG – Brasil).

A caixa e seus guardados | Marly Mota (PE – Brasil).

“Vida em veios”, de Regina Rapacci  (SP – Brasil) | Apresentação de Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Agradeço a atenção e delicadeza, a próxima postagem será em 25 de Junho, 2017, um abraço bem grande e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – May, 2017

Dead time

That of

Waiting

And never

Reaching

That of

Seeing the sea

And not seeing

The landscape

That of

Openning the eyes

And not having

A reason to live

*

Crooked time

That lives

Intoxicating

My searches

That traces

The immensity

Of my destiny

And leaves me

Stopped between the paths

*

Loose time

That goes 

Freaking out

My ears

That flourishes

In the skirts of my dresses

And grants

A little bit of peace

A little bit of love

(“Triple present”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 05/16/17, 07h40)

*

The Loose Time between Spaces, between the Signs, between the Arts in the Index of May, 2017 of the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Intersemiotic Tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Poetic Semiosis” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“To The City” | Mailson Furtado (CE – Brasil).

Self-medication in practice | Mara Narciso (MG – Brasil).

The box and its saved | Marly Mota (PE – Brasil).

“Life in veins”, by Regina Rapacci (SP – Brasil) | Presentation by Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Study Group on Creative Writing – May, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Thanks for the attention and delicacy, the next post will be on June 25, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Entre Recife e Porto Alegre, a Teoria e a Ficção, a Vida e a Arte. Between Recife and Porto Alegre, Theory and Ficcion, Life and Art. 

“Semiose poética”* | Clauder Arcanjo** [et al.]

As imagens surgiam frente a mim, e eu não conseguia sequer respirar. Como se com receio de que aqueles “flagrantes” do poeta-fotógrafo se espantassem com a intromissão de qualquer sinal de “outra vida”.

Alumbrado, eu batia as pálpebras dos olhos, a demonstrar que me encontrava em vigília de êxtase, mas não suprimido da seiva do humano, do que nos singulariza como demasiadamente belos-humanos.

Em seguida, voltei a circunvagar pela casa, e as fotografias, em flashes de preto e branco, relampejavam por entre os meus pensamentos. A memória, cativa das fotos, se intrometia diante da minha visão, ferrando meu juízo, inquietando todo o corpo.

Quase febril, sentei-me diante do computador, e a tela vazia a se borrar de medo do meu verbo. Como, não sei, num caudal de claro e sombras, o verbo se apresentou: tímido, apático, tosco e roto no mais das vezes. Como se a “arte” do escritor maculasse a lírica (in)finitude daqueles instantes revelados (e eternizados).

Contudo, o mister de escrevinhador é ofício de fanatismo. Sim, fanatismo de não querer mudar de ideia, nem muito menos de mudar de assunto. O coordenador do exercício a cobrar-me e a instigar-me a cumprir com o fatal compromisso: apresentar minhas “revelações textuais” do que, antes, instantes antes, eram imagens.

Quis desistir de tudo, defender (com unhas e dentes, contudo sem verbo) que a tarefa de que me (en)carregaram era missão para algum deus do Olimpo encarnado.

Tranco-me no quarto, dispo-me de todas as vestes e tento dormir: vã tentativa de fugir de tudo, de me exilar no escuro profundo da noite longa e vazia. Qual o quê!… A madrugada dispõe-me um laboratório de inquietações, tal qual uma exposição fotográfica (diria dantesca, caso não se traduzisse no sublime) contínua. As dezenas de imagens surgem e ressurgem, ao tempo em que detecto que algumas reminiscências pululam na lente do juízo.

Suado, levantei-me e passei a conspurcar palavras, versos e sentenças (?) no meu computador.

Salvei (e salvei-me?) tudo. Com pouco mais, entreguei-me à paz dos alumbrados.

No crepúsculo, as imagens acalentavam-me no colo do novo alvorecer, enquanto o verbo enfiava-se por entre os espinhos de êxtase da cândida noite repartida.

Quando duas artes se aproximam, aprendi, há sempre um parto de luz, alumbramento, inveja, mistério e dor.

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* Semiose poética. Ângela Rodrigues Gurgel… [et al.]. Mossoró: Sarau das Letras, 2017.

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com

“À Cidade”* | Mailson Furtado**

α. presente

 

tarde

tarda

alarme

que fala

que arde

que geme

 

de tarde

que fica

cidade

que falo

 

cidade

em meio a tua carne

te                              rasgo

e penetro teu âmago

por entre veias

e ruelas

onde cachorros dão o ar

da graça

 

[…]

 

β. pretérito

 

noutro dia

vem

vem outro sol

o mesmo

de outro dia

o mesmo

de mil oitocentos e setenta e sete

o mesmo

de quinze

de cinquenta e oito

o mesmo

deste quinze

e meu avô ri

 

e quase eu também rio

menos o rio

que goteja

seus últimos goles d’água

que lacrimeja

suas últimas gotas

 

[…]

 

γ. pretérito mais-que-perfeito

 

a manhã desagua

 

a cidade

se           adentra

 

eu a    mergulho

 

em meio ao sossego matutino que um mendigo

o quebra com chacoalhar de moedas em um

caneco de alumínio às dez e dezessete da

manhã

a vagar sem destino

sem prisão

a vagar consigo mesmo

a vagar entre ponteiros de relógios

que somente marcam

a hora de comer

e a hora do cochilo

vaga

 

[…]

 

 

δ. futuro  

 

tantos

se foram

tantos

 

como meu avô foi na década de quarenta

por trinta dias rasgando mar adentro

até o rio de janeiro

 

o mundo existe

fora dos mapas

é grande

é bonito

e é feio

vovô me disse

 

duvido

e sempre duvidei

de tantas verdades

 

[…]

 

_____________________________________

* Extraídos de À Cidade. Mailson Furtado Viana. Ilustração: Renancio C. Monte e Mailson Furtado Viana. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2017.

** Contatos: mailog10@hotmail.com e https://www.facebook.com/Improvisosdemailsonfurtado/