Posts com Poesia

Índex* | Dezembro, 2021

Desfaço

O tempo

Como quem

Desfaz

A morte

E retira

Aqueles

Nozinhos de

Amargura

Que os maus

Momentos

Nos dão

*

Invento

A vida

Como quem

Escreve

Um verso

Cheio de

Ternura

E ao mundo

Inteiro

Presentear

*

(“A vida por um segundo”, 11/12/2021, 07h48)

A vida por um segundo no último Índex do ano, em Dezembro de 2021, no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Dezembro, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Diversos.

Rio a quatro mãos | Adriano Portela (PE/Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

As filhas do adeus | Patricia Gonçalves Tenório.

Dois livros por mês | Dezembro, 2021 | Frutar, de Rizolete Fernandes (PE/Brasil) & A caixa-preta, de Geórgia Alves (PE/Brasil).

“As casas” | Com Jaíne Cintra (PE/Brasil), Juliana Aragão (PE/Brasil) & Mariana Guerra (PE/Brasil).

Poema de Altair Martins (RS/Brasil).

Um panorama da Escrita Criativa | Patricia Gonçalves Tenório & Raldianny Pereira (PE/Brasil).

Agradeço imensamente a atenção, a força e o carinho durante todo ano de 2021, a próxima postagem será em 30 de Janeiro de 2022, abraços cheios de Sonhos, Saúde & Poesia e até lá!

Patricia Gonçalves Tenório.

_______________________________________

Index* | December, 2021

Undo

The time

As we

Undo

The death

And withdraw

Those little nodes

Bitterness

That the bad

Moments

Give us

*

I invent

Life

As we

Write

One verse

Full of

Tenderness

And to the entire

World

We give

*

(“Life for a second”, 12/11/2021, 7:48 am)

Life for a second in the last Index of the year, in December 2021, on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Studies in Creative Writing Online | December, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Miscellaneous.

Rio in four hands | Adriano Portela (PE/Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Farewell’s daughters | Patricia Gonçalves Tenório.

Two books a month | December, 2021 | Frutar, by Rizolete Fernandes (PE/Brasil) & A black box, by Georgia Alves (PE/Brasil).

“The houses” | With Jaíne Cintra (PE/Brasil), Juliana Aragão (PE/Brasil) & Mariana Guerra (PE/Brasil).

Poem by Altair Martins (RS/Brasil).

An Overview of Creative Writing | Patricia Gonçalves Tenório & Raldianny Pereira (PE/Brasil).

I am immensely grateful for your attention, strength and affection throughout the year of 2021, the next post will be on January 30th, 2022, hugs full of Dreams, Health & Poetry and see you there!

Patricia Gonçalves Tenório.

_______________________________________

_______________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A viagem poético-afetiva pelo centro de Porto Alegre (RS/Brasil) e pela PUCRS, fechando mais um ciclo de ano e vida. The poetic-affective journey through the center of Porto Alegre (RS/Brasil) and by PUCRS, closing another cycle of year and life.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Dezembro, 2021

E chegamos ao fim do curso on-line e gratuito “Os mundos de dentro”, curso que faz parte dos Estudos em Escrita Criativa em 2021. No mês de dezembro, nos deslocamos pelas casas de oito escritores brasileiros, aterrizamos na Porto Alegre de Mario Quintana, visitamos o hotel Majestic e a casa da poetisa performática, escritora, atriz, diretora de teatro, mestre e doutoranda em Escrita Criativa pela PUCRS, a gaúcha-carioca Gisela Rodriguez.

*

Primeira Aula do Módulo 12:

*

*

Na primeira aula do módulo 12, descobrimos que Os mundos de dentro de Mario Quintana nos ajudam a sair para Os mundos de fora; degustamos a tranquilidade profunda de seus poemas; confirmamos a temática da casa permeando sua escrita com a professora Tania Carvalhal; nos encantamos com o quanto o autor valorizava a obra acima da própria vida; percebemos o isolamento de Quintana na casa-hotel Majestic como metáfora para o mergulho nos mundos de dentro de nós, escribas, especialmente, durante a pandemia;

*

Segunda Aula do Módulo 12:

*


*

Na segunda aula do módulo 12, acompanhamos a entrevista de Mario Quintana para Edla Van Steen e a impressão de fluxo simultâneo na escrita do autor gaúcho; traçamos diálogos possíveis com a poesia de Quintana: Alberto Caeiro, Carlos Pena Filho, Hermann Hesse; visitamos virtualmente antecipando a visita presencial à casa de Quintana no Hotel Majestic; constatamos a dificuldade de Quintana em sair para o mundo, após uma infância enclausurada por questões de saúde, semelhante ao que vivemos na pandemia; sugerimos filmes e o último exercício de desbloqueio.

*

Terceira Aula do Módulo 11:

*

E foi com imensa alegria que fechamos com chave de ouro, na quarta-feira 15/12/2021, em Porto Alegre, o nosso curso na casa da queridíssima Gisela Rodriguez, com direito a sarau poético, lançamento da coletânea Estudos em Escrita Criativa (abaixo) e da novela policial Rio a quatro mãos (em outro post) e a presença de dois escritores convidados de Os mundos de dentro: Altair Martins (Manuel Bandeira) e Adriano Portela (Osman Lins). Agradecemos a atenção e o carinho de todos e todas vocês, continuem trilhando esse caminho tão lindo da Escrita Criativa, nos mundos de dentro e nos mundos de fora da literatura e da poesia mundial e brasileira! No post “As casas”, vocês podem conferir um vídeo de retrospectiva do curso preparado com todo carinho pelas meninas super poderosas Jaíne Cintra, Juliana Aragão e Mariana Guerra! Boas viagens!

*

https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

*

*

Exercícios de desbloqueio:

*

Módulo 10 – Carlos Drummond de Andrade:

*

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Bom dia, Drummond

Mesmo te conhecendo desde cedo através de alguns poemas, nunca me senti à vontade para conversar contigo como se conversa com um amigo íntimo. Jamais pensei em um papo descontraído num dos bancos da calçada de uma praia no Rio de Janeiro – jamais! Sempre me intimidou tua presença altiva e distante de mim.

Agora tive a oportunidade de te conhecer um pouco mais e mesmo assim tenho receio de parecer inconveniente. E mais agora, que te sei “triste, orgulhoso, de ferro” como as calçadas da tua Itabira. Mesmo agora, te vejo inacessível aos simples mortais, talvez por estares no cume da montanha, da qual ainda tentamos vencer as pedras do meio do caminho.

Mas apesar de tudo, te escrevo, e aproveito para perguntar: E agora, Drummond?

Com esta tarefa, só me resta voltar no tempo e te dizer que por aqui as coisas não mudaram muito e, com a pandemia, nunca foram tão verdadeiras as suas palavras:

“o povo sumiu,

a festa acabou

a luz apagou

o povo sumiu”

Sim, Drummond, nunca foi tão atual esta incerteza, esta desesperança – a cada dia tentamos escalar montanhas, mas ligamos a TV e caímos de volta ao fundo do poço.

É a COVID,

A variante Delta,

A Amazônia em chamas,

O Pantanal deserto.

É o Ômicron,

É a fome,

O desgoverno – Tinha realmente uma pedra no meio do caminho…

Só nos resta esperar,

Por um novo dia – que por enquanto, tarda a chegar.

Pois é, caro Drummond:

O dia não veio,

O bonde não veio

O riso não veio,

Não veio a utopia

E tudo acabou.”

E agora, Drummond?

*

Módulo 11 – João Guimarães Rosa:

*

Elba Lins

Exercício de desbloqueio relativo ao mês de novembro de 2021

Sinopse

Jovem narra a história de sua vida, sua relação com as palavras, e a dificuldade em lidar com o afastamento da natureza depois de ter sido resgatada ainda criança do local em que viveu com sua mãe surda-muda.

Personagem

Luna é jovem, dona de um corpo esbelto, forte e flexível e sua voz é doce, mas cortante. Viveu até os oito anos na floresta onde aprendeu a se movimentar como os animais. Sua voz doce, tem notas cortantes, pois até o resgate tudo que aprendeu veio do convívio com os pássaros e com a observação das feras.

Lista de Providências e Planejamento –

Desenvolver o personagem e planejar como será sua relação com as pessoas que lhe resgataram.

Assistir ao filme Nell com Jodie Foster para observar alguns traços da personagem exposta ao mesmo ambiente que Luna.

A questão essencial do personagem

A questão essencial do personagem é que só teve uma única forma de aprendizado – a observação dos animais e da natureza.

Lista de Providências e Planejamento –

Recolher exemplos sobre como este aprendizado era feito. Exemplo: dançar – através da observação dos pássaros, das águas, do vento e do fogo. Cantar – através do canto dos pássaros e rugir das feras.

Assistir a alguns episódios sobre animais e sua vida na floresta.

O conflito da narrativa

O conflito vai surgir quando Luna precisar se relacionar com as pessoas e desenvolver novas formas de aprendizado. Já que tudo era feito a partir da observação dos animais e da natureza e com bastante tempo para observar, Luna estranhará a pressa como deve aprender a partir de agora e sempre dependendo de outra pessoa para lhe ensinar.

O enredo e a estrutura

O enredo é a trajetória de Luna e mostrará a partir de sua própria escrita todas as dificuldades em aprender a se comunicar, aprender novos signos, novos sinais. É a construção de uma nova forma de vida. Sua decisão de colocar em papel sua história é outro desafio para Luna.

A estrutura da narrativa será fragmentada levando o leitor e a própria autora a uma viagem do presente ao passado, a uma expectativa de como será seu futuro. Neste trajeto da escritura Luna avaliará o caminho trilhado até aqui e as possíveis bifurcações.

A focalização

Será interna na 1ª pessoa quando se tratar do tempo passado e dos planos para o futuro.

Será externa na 3ª pessoa quando se tratar do presente.

O espaço

Lista de Providências e Planejamento –

Tipo de espaço de cenário a ser utilizado em cada cena da época atual e da infância.

O tempo 

O tempo do passado será medido pelas estações e o presente será medido em minutos gastos nas atividades.

O estilo  

A escrita deverá ser bem compacta quando ela fala no presente e bastante completa quando relembra do passado. A estrutura deverá ser diferente do esperado. Agora que ela dispõe de maior vocabulário ela falará de forma racional e suscinta e quando fala do passado ela descreve tudo com detalhes vibrantes. É como se ao invés de usar os recursos gramaticais e ortográficos agora disponíveis, ela buscasse traduzir o que está na sua alma quando fala de cada situação.

Módulo 12 – Mario Quintana:

*

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

CRÔNICA SOBRE UMA VIAGEM NÃO REALIZADA

                                                           Será simplesmente o tempo ou

                                                a memória do homem que transforma

a história em lenda?

(Richard Henning)

            Passeio os dedos pelo teclado para escrever sobre uma viagem, como tarefa final dessa também viagem pelos mundos de dentro proporcionada pela escrita e conto sobre o que se segue. Houve viagens inesquecíveis, no Brasil ou no exterior, repleta de histórias bem interessantes. Todas, frutos de sonhos realizados. Mas houve uma em particular que foi sonhada num tempo passado e que não foi concretizada. Esta é a crônica para a pretensa viagem à Ilha de Páscoa e acerca de sonhos não realizados.

           Sempre me interessei por história. Qualquer história! E se ela vem com castelos de contos de fadas desenhados em nossa imaginação, ou monumentos sobre o qual possa ver no concreto (e imaginar) outras histórias, que maravilha! A Ilha de Páscoa tem muitos desses monumentos imponentes que nos fazem sonhar, pensar o que verdadeiramente significavam. Aquelas imensas figuras encravadas na ilha, os moais, pela disposição, pareciam estar protegendo o povo. Como alguns povos antigos, restaram a nós esses monumentos e pouca história, o que nos faz sonhar, especular e imaginar sobre aquele espaço. Um pedacinho da Polinésia perto da América do Sul.

           Recordo que por volta do final dos anos setenta, ao assistir o filme Eram os deuses astronautas, filme baseado no livro de Erick Von Daniken, fui tocada pela curiosidade acerca daquela ilha, a sua magia. Bateu a curiosidade de ver de perto aquelas criaturas rochosas imensas!!!! Uma feitiçaria despertada também pelas leituras do livro que havia recebido no Natal me falava sobre os enigmas do universo. Mas, somente após muitas viagens realizadas, chegaria o momento de estar bem perto e ir ou não ir à Ilha de Páscoa.

           Faz alguns anos que viajo com amigas durante o carnaval. Fugimos da folia e vamos conhecer outras coisas nesse momento, apesar de amarmos nosso carnaval. Assim, em 2013, entrou nos planos a viagem à Santiago do Chile. Foi quando voltou a ideia de aproveitar para conhecer a Ilha de Páscoa. Estaríamos separadas por apenas mais um voo. Do trio ou quarteto dessas viagens, restamos duas. Então propus a esticada à ilha. No entanto, minha amiga explicou que teríamos pouco tempo para fazer mais uma viagem, não tinha vontade de conhecer a ilha e, como não era algo que justificasse eu me separar um período para poder ir ver a ilha e voltar, escolhi não ir. Penso que as escolhas sempre são de nossa responsabilidade e que uma amizade e um planejamento conjunto sobre qualquer atividade deve ter concessões de ambas as partes e assim foi. A viagem a Santiago foi inesquecível! Cheia de histórias interessantes que merece outra crônica. E, acredito, que só assim aconteceu porque tivemos o tempo necessário lá. Afinal eram somente oito dias.

           Mal podia imaginar que tanta coisa me esperava, embora fosse com o coração cheio de poesia para encontrar com o admirável poeta Neruda! E ele não me decepcionou! Ao visitar suas casas reencontrei suas poesias, lá bem nos seus mundos de dentro! Houve o engraçado encontro (mais de uma vez) com grupos de brasileiros (recifenses) também fugindo do carnaval….,  o encontro com Nossa Senhora da Concepcion no Morro de Santa Lucia e o futuro milagre na vida da minha amiga; o muito mais engraçado “Valentine Day” que participamos em um jantar “romântico” minha amiga e eu , quando descobrimos a comemoração;  o gosto ainda na boca da empanada e tortilha que trocamos  na hora de experimentar, mas provamos um pouco do gosto  da civilização andina nos tocando;  e a vinícola Concha e Toro e a história do Casillero del Diabo…. a música nas ruas, na feira, escutando de Roberto Carlos ao Condor passa!

           Mas foi em Valparaíso, aquele outro local que sempre sonhei ver, somente por conta de Neruda, que tudo aconteceu. Receber a maresia ventando no rosto; o passeio à casa da praia do poeta, entrar no seu quarto, olhar a mesma vista… Quantas histórias numa só viagem! Até que me deparei com um MOAI sacado da ilha. O guia explicou porque ele foi para lá…sinceramente, não me recordo mais porque, mas recordo de ter aperreado para descer e fui até lá para ver de perto aquele imenso ser rochoso: eu VI de perto um MOAI!!!!!  Já havia visto os de madeira, mas aquele foi especial. E como se não bastasse, perto de voltar, já em Santiago, fui àqueles shows feito para turista ver e tive a grata surpresa de assistir a várias danças folclóricas do povo da Ilha de Páscoa. As belas dançarinas encantaram a todos, mas os homens, ah, aqueles vigorosos homens tomaram o lugar das dançarinas e nunca mais esquecerei da dança vigorosa dos homens da Ilha de Páscoa!  E também da exclamação da minha amiga que me confessa: Berna, estou viva!  Estávamos vivas, alegres e dançantes naquele prazeroso encontro. Diz o ditado: “Se Maomé não vai à montanha”…. Pois foi assim: a ilha veio até mim naquela bela viagem a Santigo do Chile. Dei-me por satisfeita. Sou sempre feliz por tantos sonhos realizados. Alguns que não realizei, eu sei bem o porquê. No que dependeu de mim, sinto-me feliz do que pude ter. Não lamento o que não pude, deixo que a vida se encarregue de me mostrar o melhor caminho e sigo feliz. E sou feliz quando outro (a) realiza seus sonhos. Por quê? Porque a felicidade e a infelicidade não são exclusivas de ninguém e a todos pertencem. Foi nesse entendimento que escrevi, em 2014, o poema “Mea Culpa”:

Nunca houve real empecilho

Nesta minha via

O que não fui

– por falta de ousadia –

O que não fiz

– por covardia –

Não posso apontar ninguém

Foi tudo por opção

Escolha

Responsabilidade

Ou exclusivamente

Culpa minha!

            O livro que recebi no Natal de 1975 se chamava Os grandes enigmas do universo de autoria de Richard Henning. Na dedicatória, o pai de nossas amigas, nossas vizinhas lá em Olinda, me estimulava a procurar meu caminho profissional. Um dos caminhos que ele apontava foi o que segui inicialmente e que me serve até hoje na minha antropologia da poética. Talvez, por muitas dessas experiências, penso que sonhos e boas palavras é o que devemos deixar para os outros. Aquelas palavras ainda hoje estão comigo! A infelicidade particular reservo uma boa expurgação poética e deixo-a lá com parte minha.

            Quanto à viagem à Ilha de Pascoa que pude experienciar em Santiago do Chile, bastou para mim. A memória encantou essa viagem não realizada. Não me arrependo por esta escolha e, como diria minha amiga, quando, em nossas viagens, não vale o esforço de fazer algo em nossa programação: Dei por visto! Assim, no ponto final despeço da viagem não realizada com aquela canção de Santiago do Chile que diz assim: Adios, Santiago querido, me voy, me voy! E vou por aqui, compartilhando sonhos, histórias e na poesia da vida, enquanto durar minha viagem rumo ao desconhecido.

                                                                               Recife, 18 de Dezembro de 2021.

                ÁLBUM DA VIAGEM NÃO REALIZADA


*

Elba Lins

Mundos de dentro

Paredes fechadas

Espaços que explodem

Em possibilidades.

Sonhos

Mídias

Pensamentos

E eu vôo para onde não sei

Para espaços que me sugam

Ou para situações que me lançam

Num tempo só meu.

*

Às vezes me comprimo

Em interstícios –

Precipícios,

Espaço-tempo cortante

Grutas e labirintos…

*

Busco pelo espaço

Espaço vazio

Amplidão

E fantasio a saída

Para tecer a vida

Fora de mim

Para navegar

Em nuvens de possibilidades

Escalar estrelas encobertas

Mergulhar em pensamentos profundos

Ou saltar de paraquedas

No tempo-livre do sonho

Ou no mergulhar de cabeça

No espaço concreto

Da realidade em construção

*

Elenara Leitão

Contato: arqstein@gmail.com

A verdadeira arte de viajar…

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,

Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.

Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali…

Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

Mário Quintana

*

Rompendo com a estagnação me diz a carta do tarot. Tudo bem que é jogo virtual como tudo o que fazemos hoje. Viramos nós as nuvens que confundimos com as ânsias de vida que nos percorrem. Nossas perguntas, nossas respostas todas viram dados em números binários. Será que se entrecruzam com outros dados em um metaverso, já que o nosso se tornou tão virulento?

*

Romper com a estagnação, diz a carta, enquanto ouço a voz de Mario Quintana falando do desamparo do anjo Malaquias. A janela que enquadra o mundo já se torna prisão. Hora de romper com as inércias, abrir portas e percorrer os mundos de fora.

*

Olho o globo, presente de meu pai. O mundo é vasto. Lembro que vou fazer 65 anos em 2022. Qual melhor presente que me presentear com uma viagem? Qual melhor maneira de romper amarras que deixar de lado o virtual e seguir passo a passo em outras paragens?

*

Aonde ir?

*

Giro o globo. Talvez apenas isso, girar e deixar o dedo apontar.

*

E se cair no meio do oceano? Se pousar no Everest? Se acabar voltando ao lar?

Para aonde ir?

*

Cabo-verde aponta o dedo matreiro.

*

Cabo-verde? Não sei nada sobre Cabo Verde. Mais fácil Holanda e Bélgica onde moram amigos queridos. Portugal com a mesma língua. Alemanha de onde partiu o avô missionário…

*

Uma rápida passada pelo Google me mostra um arquipélago com lindas praias. Colonização portuguesa, a língua crioula cabo/verdiana falada por lá não deve ser tão difícil de entender. Quem quer comunicar sempre dá um jeito, aprendi na vida.

*

Uma viagem começa por uma possibilidade. Diria mais, começa em uma curiosidade. Antes da decisão, há que se pesquisar. O que conhecer em determinado lugar? Qual o mês mais adequado? Qual a comida e os costumes. Como vive a gente de lá? Uma viagem começa bem antes da decisão. Bem antes de marcar passagens e hotéis. Há que se projetar. Não tudo, que é preciso deixar espaço para o imponderável. Afinal viajar é se lançar ao mundo. Deixar o porto seguro, içar velas feito marinheiro que descobre novos mundos.  

*

Sorrio ao pensar que, depois de dois anos de vida reclusa, imaginar o mundo assim tão aberto é alguma ilusão. Ou muita. A vida gira como o globo. Talvez nossas nuvens interajam com as nuvens virtuais. Talvez não. Talvez a vida se faça de sortes ao acaso, como um dedo pousado em um globo determinando uma rota. Talvez eu me negue. Talvez eu me abra. Talvez a derradeira viagem esteja ao meu lado, esperando para me embalar em seus sonhos de promessas nunca realizadas. Talvez apenas esteja esperando que eu abra as portas e rompa as estagnações. Talvez  

 *

Viagem futura

Um dia aparecerão minhas tatuagens invisíveis:

marinheiro do além, encontrarei nos portos

caras amigas, estranhas caras, desconhecidos tios mortos

e eles me indagarão se é muito longe ainda o outro mundo…

Mario Quintana

As filhas do adeus | Patricia Gonçalves Tenório

Este livro é composto por histórias reais, por ficções verdadeiras. Escrevo uma novela fragmentada em vinte e um breves contos (novela por se tratar da mesma protagonista, Patricia, em terceira pessoa do singular), a partir de fatos que poderiam ter sido, a partir do encontro com personagens femininas que marcaram, de alguma forma, a minha vida, situações da realidade, o que poderia ter acontecido de maneira diferente, e, o mais importante, se eu seria essa pessoa que tem a escrita como água e ar dos meus dias parados.

Dois livros por mês | Dezembro, 2021

Dois livros por mês: Frutar, de Rizolete Fernandes[1] & A caixa-preta, de Geórgia Alves[2]

Patricia Gonçalves Tenório[3]

Dezembro, 2021

Durante seis meses, de agosto a dezembro de 2021, escrevi sobre “Dois livros por mês” nesta coluna. Foi um desafio a que me propus, após encerrar a escrita do material de apoio do curso gratuito e on-line “Os mundos de dentro”, curso este participante dos “Estudos em Escrita Criativa”, o qual totalizou vinte e oito módulos.

E, não por coincidência, apresento breves resenhas de dois livros que estavam há muito na minha cabeceira aguardando uma leitura atenciosa. Porque, após ler os clássicos da literatura mundial e brasileira, debrucei-me nos contemporâneos, e, entre eles, em Frutar, de Rizolete Fernandes e A caixa-preta, de Geórgia Alves.

Comecemos por Frutar. O livro de poemas da cientista social, feminista e poeta nascida em Caraúbas, RN, e residente em Natal, Rizolete Fernandes, é, no mínimo, curioso. Após a leitura de As frutas na medicina doméstica, de Alfons Balbach, Rizolete nos presenteia com uma seleta de quarenta poemas-frutas que frequentam as nossas mesas e aguçam o paladar de amantes da poesia e de outras artes. De uma forma que poderia muito bem ser escrita em prosa erudita, Rizolete nos guia pela origem das frutas nacionais e importadas, frutas que nos curam de inúmeras formas e nos alimentam, assim como os versos de um poema bom.

A baga carnosa tem forma elíptica

dotada de cinco gomos separados;

cortada em transverso pare estrelas[4]

[…]

Pequena árvore da família

Anonáceas, a Anona reticulata

(folha áspera máculas purpúreas)

contém madeira fibrosa e macia

à construção civil destinada[5]

[…]

As sementes do sapoti em decocção

após trituradas são boas diuréticas

e aperientes, igualmente as cascas

d’árvore: febrífugas e adstringentes[6]

           Enquanto isso. O livro da jornalista, cineasta, professora e ex-modelo pernambucana, nascida em Recife Geórgia Alves, A caixa-preta, nos desafia do início ao fim da sua leitura. Narrando a história de Évora, secretária, ex-modelo, e fotógrafa, passeamos pelas ruas do Recife, durante a pandemia de Covid-19. Passeamos quando conseguimos adentrar em sua floresta labiríntica de axiomas, e filosofia, e trechos de músicas, e ditados populares, e indicações eruditas.

Quando conseguimos. Adentrar em sua floresta labiríntica, tal como a bíblia de Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas, ou mesmo a pulsão narrativa do livro de uma das escritoras mais veneradas por Geórgia: Clarice Lispector em Água viva.

Da mesma forma. Que nos preparamos para Guimarães em Grande sertão, nos desprendendo do significado das palavras para mergulhar no significante (também) de Clarice em Água viva, nos desarmamos, e podemos sorver versos-frases-axiomas que nos transformam por inteiro e nos fazem ser pessoas-escribas melhores.

A arte organiza a gente desde dentro.[7]

[…]

“Amor é casas separadas”.[8]

[…]

Porque se não houver Arte, a realidade me devora, Bio.[9]

[…]

O poeta [Drummond] ensina remover a pedra. Ensina a viver?[10]

[…]

O mar do mundo no peito.[11]

[…]

Fui Pandora. Virei Antígona. Serei Atenas.[12]

[…]

A matéria dá origem ao sentimento ou é o contrário? [13]

            Ao mesmo tempo. Técnicas refinadíssimas de escrita criativa: transposição para a linguagem de características de personagens; intergenericidade com trechos de músicas, entre elas, “Mama África”, de Chico César; diálogo entre a literatura e outras áreas de conhecimento, outros pensadores, tais como Friedrich Nietzche, Santo Agostinho, Roland Barthes, poetas e escritores, tais como Elizabeth Bishop, Manoel de Barros e… Eu! Porque Geórgia me advinha inteira, transcreve a cena da ligação anônima narrando a traição da pessoa amada, e é uma cena vivida, e sofrida, e sublimada pelas artes que nos une, que amamos: a literatura e a poesia.

            As palavras. Faltam para (eu dizer a) Geórgia. Faltam para (eu proferir a) Rizolete. Essas duas monstras-sagradas-escribas, do tempo em que poeta era profeta, era lei maior e conduzia quem estivesse no fundo do poço da vida real a transcendê-la através e graças à catarse literário-poética.

            Ao menos uma. Palavra. Obrigada. E secam as letras. E não se conjuram mais espaços entre as escritas. Apenas a certeza, inexorável, de que não estamos sós.

_____________________________________

_____________________________________

[1] Sobre Frutar. Rizolete Fernandes. Mossoró, RN: Sarau das Letras: 2021.       

[2] Sobre A caixa-preta. Geórgia Alves. Apresentação: Alexandre Furtado. Maringá: Viseu: 2021.       

[3] Escritora, vinte e um livros publicados, entre eles, Rio a quatro mãos (2021), escrito com Adriano Portela. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE), doutora em Escrita Criativa (PUCRS) e ministrante dos Estudos em Escrita Criativa. Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[4] FERNANDES, Rizolete. Carambola. In Op. cit., 2021, p. 28.       

[5] FERNANDES, Rizolete. Graviola. In Op. cit., 2021, p. 43, itálico da edição.       

[6] FERNANDES, Rizolete. Sapoti. In Op. cit., 2021, p. 76.       

[7] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 56.       

[8] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 64, aspas da edição.       

[9] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 71.       

[10] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 74, colchetes nossos.       

[11] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 121.       

[12] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 132.       

[13] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 154.       

“As casas”

Mistérios

Vêm do passado

Antecipam o futuro 

E aterrizam

Suavemente 

No presente 

No instante

Que abro

O caderno

Em branco

Tomo a caneta

Na mão

E escrevo

Um rio de

Saudade

(“Casa”, Patricia Gonçalves Tenório, 13/12/2021, 15h18)

De 03 a 16 de dezembro de 2021, para fechar com chave de ouro o curso “Os mundos de dentro”, percorri oito casas de escritores e escritoras brasileiros, e foi uma alegria infinita. Estar no mesmo espaço que esses monstros sagrados da literatura e da poesia brasileiras é uma honra, especialmente no aprendizado de seus processos de criação, mesmo e principalmente dentro das quatro paredes de suas casas, que contêm e provocam suas criações.

E, com a ajuda dessas meninas super poderosas Jaíne Cintra, Juliana Aragão e Mariana Guerra, apresento uma retrospectiva do curso que tanto prazer me proporcionou, com a participação dos escritores convidados lendo os respectivos escritores estudados.

Muito obrigada, meus queridos!

Patricia.

________________________________________________


________________________________________________

Espaço Pasárgada (Recife, PE) | Manuel Bandeira

Casa de Osman Lins em Vitória do Santo Antão, PE.

Casa de Cora Coralina, Goiás Velho, GO.

Casa de Mário de Andrade, São Paulo, SP.

Casa do Sol, de Hilda Hilst, Campinas, SP.

Casa de Carlos Drummond de Andrade, Itabira, MG.

Casa de João Guimarães Rosa, Cordisburgo, MG.

Hotel Majestic, casa de Mario Quintana, Porto Alegre, RS.

Poema de Altair Martins**

80. DE LONGE, TODAS AS QUESTÕES SÃO A MESMA
*

Minhas pernas caminharam
sozinhas
pela estação rodoviária.
*
Era fim de tarde
sem vento,
e os ônibus mal respiravam
montados no horizonte.
*
E as minhas pernas
mais bonitas se vistas de longe
pra onde iam eu não sabia.
*
Perdidas de mim
e não perdidas: sem olhos
e no entanto pisavam firmes
como quem nunca bebeu
(porque, mesmo sem boca,
minhas pernas já beberam).
*
Pernas finalmente longe
e finalmente minhas
(nunca perdidas),
elas subiram as escadas
e deixaram a estação
e outra vez não deixaram:
*
repentinamente fundidas
na multidão,
minhas pernas
sobre a ponte do arroio
ou dormindo à sombra da tarde
não encontraram mais
as mesmas pernas
de agora.
*
Creio
que o tempo também
envelhece.

__________________________________________


__________________________________________

* Fotografia: Leonardo Sessegolo

** Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar (Porto Alegre: EdiPucrs, 2019), o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) e Labirinto com linha de pesca (Porto Alegre: Diadorim Editora, 2021) são suas últimas publicações. Ministrante, desde 2019, da disciplina Oficina de Poesia na especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br

Um panorama da Escrita Criativa | Patricia Gonçalves Tenório

A origem da Escrita Criativa vem dos tempos ancestrais. Reza a lenda que a mãe de Virgílio, o autor da Eneida, sonhou quando grávida com um loureiro. Consultou um mágico e este revelou, para alegria da futura mãe, que o filho seria um grande poeta. Mas o mágico advertiu: ela deveria enviar Virgílio para Roma para que aprendesse com os grandes poetas da época. Escritores do mundo inteiro já falaram de suas técnicas de maneira incansável. Descobrimos nas Cartas exemplares que Guy de Maupassant bebia em Gustave Flaubert. Virgínia Woolf compartilha os segredos da sua escrita em O leitor comum. Henry James derrama a própria técnica em A arte da ficção. Edgar Allan Poe explica, de trás para frente, como escreveu seu poema mais conhecido, “O corvo”, em “A filosofia da composição”. Milan Kundera revela os bastidores de A insustentável leveza do ser em A arte do romance. Orhan Pamuk conta da profecia paterna quanto ao Prêmio Nobel de Literatura que recebeu em 2006 em A maleta do meu pai. Por outro lado, Franz Kafka declara que tudo o que escreveu foi para ser respeitado na sua nunca entregue longa Carta ao pai.

No segundo volume da trilogia Sobre a escrita criativa, o escritor e professor da PUCRS Luís Roberto Amabile traça um panorama da área no exterior: “No meio acadêmico, as oficinas deram origem a um campo de estudos nos Estados Unidos, na década de 1930-40: a Escrita Criativa, que floresceu após a II Guerra. E naquele momento, em meados da década de 1980, quase todas as universidades norte-americanas e muitas europeias possuíam seus programas de Creative Writing. Além disso, em países da América Latina, como México e Argentina, crescia o número de oficinas de criação, mesmo sem vínculo acadêmico” (AMABILE, 2018, p. 257).

No Brasil, data de 1962 um dos primeiros cursos dessa natureza (LAMAS/ HINSTZ, 2002), ministrado pelo escritor e professor Cyro dos Anjos, na Universidade de Brasília (UnB). Quatro anos depois, Judith Grossmann fundou, na Universidade Federal da Bahia, as oficinas de criação literária. Na década seguinte, em 1975, no Rio de Janeiro, ocorreu uma oficina ministrada por Silviano Santiago e Affonso Romano de Sant’Anna (este último participou do Program in Creative Writing, iniciado pela Iowa University). E desde 1985, funciona, de maneira ininterrupta e inserida no Programa de Pós-Graduação em Letras, a Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil.

Vamos chegar mais perto. Há quase cinco anos, as poetisas, escritoras e especialistas em Escrita Criativa (Unicap/PUCRS) Bernadete Bruto e Elba Lins me fizeram uma provocação: 

            – Por que você não cria um curso para compartilhar o que está aprendendo na PUCRS?

            Era o início dos meus estudos de doutorado na capital gaúcha, e o início de um ciclo com as minhas amigas pesquisadoras (2016 e 2017); em seguida, na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco com o I Seminário Nacional de Escrita Criativa de Pernambuco, na Livraria Cultura (Recife e Porto Alegre, em 2018), na Unicap (curso de extensão, em 2019.1, e primeira turma de especialização, em 2019.2), além dos cursos on-line, em 2020 e 2021.

Os Estudos em Escrita Criativa, presencial e on-line, somaram vinte e oito módulos (O tempo, O mito, A viagem, A música, O amor, O sonho, A imagem, O fogo, Língua Inglesa, Portugal, Brasil, Leste Europeu, Japão, Os russos, Os franceses, Os italianos, Osman Lins, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, Graciliano Ramos, Vinicius de Moraes, Jorge Amado, Cora Coralina, Hilda Hilst, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Mario Quintana), milhares de visualizações e centenas de alunos.

            Em 2018, conheci a professora, artista plástica, poetisa, escritora, especialista em Escrita Criativa Raldianny Pereira. Estava eu no auditório da Livraria Cultura do shopping center RioMar, me preparando para iniciar a aula de um dos módulos dos Estudos em Escrita Criativa presencial, quando uma jovem mãe e seu filhinho aproximaram-se do palco. Abri os braços, como sempre faço com as pessoas que me acrescentam e me fazem um ser humano melhor, e ela me apresentou Pedro, nome do personagem de meu livro A menina do olho verde (2016). A presente comunicação marca o fim do meu ciclo e início do ciclo dessa jovem mãe e artista, com a missão de levar a vocês e a tantas outras pessoas que nos acrescentam, o espírito da Escrita Criativa, gestado e conduzido pelo papa da área no país, Luiz Antonio de Assis Brasil, desde 1985.

_______________________________________________


Aula, em 17/12/2021, de fechamento da disciplina eletiva de Escrita Criativa da UFPE com a professora, escritora, poetisa, artista plástica e especialista em EC (Unicap/PUCRS) Raldianny Pereira.

_______________________________________________

Referências:

AMABILE, Luís Roberto. Escrita criativa, a aventura começa. In Sobre a escrita criativa II. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Prefácio: Bernardo Bueno. Recife: Editora Raio de Sol, 2018.

ASSIS BRASIL, Luiz Antonio. Escrever ficção: Um manual de criação literária. Colaboração de Luís Roberto Amabile. São Paulo: Cia das Letras, 2019.

FLAUBERT, Gustave. Cartas exemplares. Tradução: Carlos Eduardo Lima Machado. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2005.

JAMES, Henry. A arte da ficção. Tradução e prefácio: Daniel Piza. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2011.

KAFKA, Franz. Carta ao pai. Tradução: Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, (1919 in) 2007.

KUNDERA, Milan. A arte do romance. Tradução: Teresa Bulhões C. da Fonseca e Vera Mourão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

LAMAS, Berenice Sica; HINTZ, Marli Marlene. Oficina de criação literária: um olhar de viés. 2ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

PAMUK, Orhan. A maleta do meu pai. Tradução: Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

POE, Edgar Allan. A filosofia da composição. In Poemas e ensaios. Tradução: Oscar Mendes e Milton Amado. Revisão e notas: Carmen Vera Cirne Lima. 3ª ed. revista. São Paulo: Globo, 1999.

WOOLF, Virgínia. O leitor comum. Tradução: Luciana Viégas. Rio de Janeiro: Graphia, 2007.

Trilogia Sobre a escrita criativa:

Sobre a escrita criativa. Prefácio: Luiz Antonio de Assis Brasil. Capa, design e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Com Adriano Portela, Alexandra Lopes Da Cunha, André Balaio, Annie Piaget Müller, Bernadete Bruto, Carlos Enrique Sierra, Daniel Gruber, Elba Lins, Fernando de Mendonça, Guilherme Azambuja Castro, Gustavo Melo Czekster, Igor Gadioli, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luís Roberto Amabile, Maria do Carmo Nino, María Elena Morán Atencio, Patricia Gonçalves Tenório, Robson Teles, Sidney Nicéas, Valesca de Assis. Recife, PE: Raio de Sol, 2017.

Sobre a escrita criativa II. Prefácio: Bernardo Bueno. Capa, design e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Com Adriano Portela, Alexandra Lopes da Cunha, Amilcar Bettega, Andrezza Postay, Annie Piaget Müller, Antonio Aílton, Bernadete Bruto, Bernardo Bueno, Camilo Mattar Raabe, Daniel Gruber, Elba Lins, Fernando de Mendonça, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Guilherme Azambuja Castro, Gustavo Melo Czekster, Lourival Holanda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luís Roberto Amabile, Maria do Carmo Nino, María Elena Morán Atencio, Paulo Ricardo Kralik Angelini, Patricia Gonçalves Tenório, Ricardo Timm de Souza, Tiago Germano. Recife, PE: Raio de Sol, 2018.

Sobre a escrita criativa III. Prefácio: Luiz Antonio de Assis Brasil. Capa, design e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Com Adriano Portela, Altair Martins, Ana Paula Almeida, Ana Teresa Van Der Ley, Arthur Telló, Bernadete Bruto, Bernardo Bueno, Cristina Albert, Dinara Menezes, Elba Lins, Fabiana Plech, Hugo Peixoto, Juliana A. Cordeiro, Lourival Holanda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Moema Vilela, Patricia Alves, Patricia Gonçalves Tenório, Raldianny Pereira, Talita Bruto. Recife, PE: Raio de Sol, 2020.

Livro Estudos em Escrita Criativa. Capa e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Design: Hana Luzia. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Com Adriano Portela, Alexandra Lopes da Cunha, Altair Martins, Andrezza Postay, Antonio Aílton, Bárbara Correia, Bernadete Bruto, Bernardo José de Moraes Bueno, Camilo Mattar, Cleyton Cabral, Cristina Albert Mesquita, Daniel Gruber, Elba Lins, Fernando de Albuquerque, Fernando de Mendonça, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Guilherme Azambuja Castro, Gustavo Melo Czekster, Hugo César, Julia Dantas, Juliana Almeida Cordeiro, Lara Ximenes, Lourival Holanda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luís Roberto Amabile, Maria do Carmo Nino, María Elena Morán Atencio, Moema Vilela, Patricia Alves, Patricia Gonçalves Tenório, Raldianny Pereira, Renata Rolim, Talita Bruto, Tiago Germano. Recife, PE: Raio de Sol, 2021.

_______________________________________________

* Patricia Gonçalves Tenório é escritora, vinte e um livros publicados, entre eles, A baronesa (2020), em formato vídeopodcast, e Rio a quatro mãos (2021), escrito em parceria com Adriano Portela. Recebeu prêmios no Brasil e no exterior por As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), Como se Ícaro falasse (2012), A menina do olho verde (2016) e pelo conjunto da obra em 2013. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS), ministrou, de 2016 a 2021, cursos on-line e presenciais do grupo de Estudos em Escrita Criativa, e foi idealizadora da especialização em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com  

Índex* | Novembro, 2021

Quando olho

O ano inteiro

Nem parece

Que acabou

Nem merece

Uma tristeza

Vinda

De qualquer

Parte

Só amor

Só amor

Só amor

*

(“21 de novembro”, Patricia Gonçalves Tenório, 18/11/2021, 14h33)

*

Na edição de aniversário, no Índex de Novembro, 2021, no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Novembro, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Diversos.

Dois livros por mês | Artemísias: vozes de libertação (Organização: Iaranda Barbosa, PE/Brasil) & Amora (Natalia Borges Polesso, RS/Brasil).

O jogo das contas de vidro, Hermann Hesse | Texto: Patricia Gonçalves Tenório. Fotografias: Angeli Soares (AL/Brasil).

Poema e foto de Altair Martins (RS/Brasil).

Poemas de Angelo Manitta (Itália).

Exposição de George Barbosa (PE/Brasil).

A arte de Rozze Domingues (PE/Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 26 de Dezembro de 2021, grande abraço e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

________________________________________

Index* | November, 2021

When I look

The whole year

Does not seem

That ended

Neither deserves

A sadness

Coming

Of any

Part

Just love

Just love

Just love

*

(“November 21”, Patricia Gonçalves Tenório, 11/18/2021, 2:33 pm)

*

In the anniversary edition, at Index of November, 2021, on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Studies in Creative Writing Online | November, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Miscellaneous.

Two books a month | Artemísias: voices of liberation (Organization: Iaranda Barbosa, PE/Brasil) & Amora (Natalia Borges Polesso, RS/Brasil).

The Glass Bead Game, Hermann Hesse | Text: Patricia Gonçalves Tenório. Photographs: Angeli Soares (AL/Brasil).

Poem and photo by Altair Martins (RS/Brasil).

Poems by Angelo Manitta (Italy).

Exhibition by George Barbosa (PE/Brasil).

The art of Rozze Domingues (PE/Brasil).

Thank you for your attention and affection, the next post will be on December 26th, 2021, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

________________________________________

**

________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Uma nova etapa de vida, poesia, literatura e amor. A new stage in life, poetry, literature and love.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Novembro, 2021

No mês de novembro de 2021, navegamos pelas veredas do segundo escritor mineiro do nosso curso, de Cordisburgo para o mundo, João Guimarães Rosa, e com o escritor gaúcho Gustavo Melo Czekster.

*

Primeira Aula do Módulo 11:

*

*

Na primeira aula do módulo 11, iniciamos a “Travessia” de Milton Nascimento na obra icônica de João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas, que condensa a vida inteira do autor, assim como nosso curso on-line, não somente “Os mundos de dentro” em 2021, mas desde o começo em 2020; constatamos a intergenericidade de Guimarães (poesia, conto, romance, ensaio) numa mesma obra e a inovação linguística, com as diversas técnicas de escrita criativa encontradas no livro; analisamos os diversos temas possíveis de Grande sertão; comparamos a técnica do refrão, encontrada em “A filosofia da composição”, de Edgar Allan Poe com “Viver é muito perigoso” e “O diabo na rua, no meio do redemoinho…” que Guimarães nos presenteia para não nos perdermos na narrativa caudalosa e intensificar o texto até atingirmos a catarse no final;

*

Segunda Aula do Módulo 11:

*

*

Na segunda aula do módulo, constatamos o fazer fazendo do livro com a presença do alterego de Guimarães no rapaz da cidade, que encontramos também em Amar, verbo intransitivo: idílio, de Mário de Andrade estudado no módulo 9; falamos mais uma vez sobre os diversos temas possíveis de Grande sertão; observamos o ziguezague da narrativa, semelhante às associações livres defendidas por Sigmund Freud; identificamos a semelhança com Hilda Hilst (módulo 8) nas crônicas e com Vinicius de Moraes (módulo 5) nas músicas; concordamos com a técnica de Assis Brasil de saber o fim de um romance para irmos aprendendo, durante a leitura, como o escritor construiu sua história; verificamos a circularidade do romance de Guimarães, tendo como símbolo máximo o infinito; visitamos virtualmente a casa museu de Guimarães em Cordisburgo, MG; apresentamos a teoria-pergunta de Gustavo Melo Czekster em A nota amarela: Devo ser o/a autor/a do romance que imaginei?; sugerimos filmes e exercício de desbloqueio.

*

Terceira Aula do Módulo 10:

*

E foi com imensa alegria que recebemos o advogado, escritor, doutor (PUCRS) e professor de Escrita Criativa Gustavo Melo Czekster na última quarta-feira 24/11/2021 na live sobre João Guimarães Rosa do nosso canal do YouTube. O próximo e último escritor a ser estudado no nosso curso é Mario Quintana e a escritora convidada é Gisela Rodriguez, além de um lançamento muito especial! Não percam!

*

https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

*

Exercícios de desbloqueio:

*

Módulo 5 – Vinicius de Moraes:

*

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com  

VEM

*   

Vem ouvir Vinicius

Vem viver a vida.

Não a vida inventada,

Mas a vida de verdade.

*

Vem ouvir Vinícius

Vem viver a vida.

Não a vida virtual,

Mas a vida visceral.

*

Vem ouvir Vinícius,

Vem evitar o vazio.

Sem vacilar.

Vem!

*

Módulo 7 – Cora Coralina:

*

Diego Pereira

Contato: diegopereiranoleto@hotmail.com

As pequenas que cantam de lá

O homem só aumentou o volume. Bastou. A dois passos de chegar, fugiu-me um pouco de ar do peito, e me sentei no meio-fio ajustando os braços sobre o colo e as mãos em concha ao redor das orelhas. Era Tânia, e eu a ouvia numa voz bem calma e áspera, como o tipo de grama macia que você toca com os pés e sente a textura arranhando sua pele.

Minha mulher me deixou para trás, e, dez passos à frente, já bem perto do vendedor, voltou-se para me ver sentado. Levantou os braços. “Que foi?” Parou ao lado da barraca de vendas.

Mas eu ouvia Tânia – o som de sua voz vindo até mim – e, através dos meus poros, sua música extinguia por alguns segundos o mundo de cá, essa enorme avenida por onde outras pessoas caminhavam e corriam, suas sombras se projetando nas minhas costas e no chão; e extinguia também o céu do final da tarde, esse mar de cores do poente, e o meu cansaço.

Enxuguei o suor das têmporas e um pouco de água nas sobrancelhas, que cobriam e manchavam meus olhos, e desciam até o queixo e me davam um gosto na boca. Era salgado. Salgado como aquelas ondas que vinham rebentar na calçada, com uma pancada imensa espalhando gotas brilhosas de sal, suas ondas com espuma branca chegando até a areia da encosta.

Esqueci essa imagem do mar; esqueci onde estava. Qual foi a última vez? Tânia cantando numa tarde na casa dos meus pais.

Sempre o rádio naquela sintonia, e era o prelúdio para tudo que íamos fazer em casa, desde a manhã até à noite, como um alerta, para mim, de que já era dia – que eu via claro através das brechas da janela – e os primeiros raios de sol pareciam sempre melodias úmidas de orvalho de alguma música suave que saia pelo pequeno aparelho de rádio sob a máquina de lavar e que me brindavam rascantes pelo peito.

Mas não ouço mais nosso programa favorito. Mudei de cidade, mudei de casa duas vezes, pensava, pegando um pouco a carne engelhada da perna, e achei diferente da pele que me habitava. Mas essa lembrança de agora, esse som de bolero que se confunde com o respiro do mar, me diz um nome, numa pronúncia suave de todas as letras que me deram quando criança, e pelas sombras no chão eu revia os números douradas do nosso antigo endereço. Por que parei? Queria ouvir aquelas canções. Pus as mãos no chão, queria sentir o tremor do aparelho de som sobre a máquina ou a bancada da cozinha, o tremor suave nos talheres, e um pouco de chiado; quero sentir, porque cada nova nota é aquela surpresa do desagradável e a felicidade dos momentos em que meus pais podiam dançar juntos – como em sua juventude – ou uma melodia em que mamãe podia cantarolar, como sempre fazia aos sábados pela manhã.

Gosto de música porque eles cantavam para mim quando eu era criança. Lembrei os discos empilhados em suas capas colorias, seus passos de dança do bolero da Tânia Alves, um quadro de Chet Baker na parede como marcas e… uma linha do Jazz de um compositor branquelo. Meu pai dizia que aquele outro não cantava, e a voz do Cartola se arrastando, craquelada, o som da agulha raspando o disco. “O que você acha? Qual sua opinião?”, perguntava.

“Eu amo”, foi o que respondi.

“O quê?”, perguntou Ana. Ouviu de forma mais nítida só a última palavra. Escapou um sorriso de sua boca.

Eu amo essa distância. Talvez tivesse dito.

Ela tinha nas mãos uma garrafa de água. O homem da barraca olhava para nós. A música que vinha do seu rádio já era outra, também distante.

Levantei-me, olhei o aparelho do homem ali, um radinho pequeno e marrom, que me fez sorrir. Tomei sua mão e fomos juntos até o carro.

“Tudo bem com você?”

“Sim”, respondi. Sentia saudades de casa, só isso.

E nos distanciamos dali por um caminho longo e já há muito silencioso.

*

Módulo 8 – Hilda Hilst:

*

Márcia Regina Araújo

Contato: marcia.araujo@ifpi.edu.br

*

O meu mundo, exausto, desistiu.

Quantos amores viram abortos forçados

Extraídos à violência de impedimentos fúteis?

Quanta vida é abandonada

Pela morte trágica

Linha habitual do não dever?

Quanto sonho é vilipendiado

Pela realidade cinza do cotidiano…

                        medíocre?!

Quantos corações são implodidos

Violentamente pelo dever de

Permanecer?

Existe morte e crueza no limite

Imposto pela realidade                      

                        (a que me coube!)

A fraqueza me revolta!

                        Eu choro

                                    ela

Um lamento pelo compulsório

Caminho miserável de

Não viver e seguir…

                        indo!

Sem alma!

Precipício e abandono!

A minha vida me ama!

Mas o que eu faço dela

                        me odeia!

*

Módulo 9 – Mário de Andrade:

*

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Exercício de desbloqueio relativo ao mês de setembro de 2021

Sinopse

Arqueólogo com especialização em espeleologia descobre túnel inexplorado que pode mudar a história dos deslocamentos humanos na face da Terra, mas ao mesmo tempo em que se aproxima do sonho de fazer história, vê exacerbado o medo de pequenos espaços.

Personagem

Tremendamente obstinado, não abre mão dos objetivos, não desanima facilmente, grande bagagem teórica, dando os primeiros passos nas pesquisas de campo. É bastante observador – qualidade indispensável no seu trabalho. Petrus é alto, forte e sempre se dedicou aos esportes radicais ao ar livre. Mas tem um problema que o persegue desde cedo e que ele insiste em manter em segredo: o medo de pequenos espaços.

Lista de Providências e Planejamento – Desenvolver o personagem, como são suas relações com os companheiros de trabalho, os amigos, as mulheres etc. Sua família que se resume ao pai, já que perdeu a mãe ao nascer.

A questão essencial do personagem.

O medo dos pequenos espaços e sua dificuldade em encarar o problema.

Lista de Providências e Planejamento –

Buscar informações sobre o tipo de fobia de Petrus.

O conflito da narrativa

O conflito vai surgir exatamente por conta da dificuldade em expressar o medo de pequenos espaços e este será o espaço quase que permanente dos seus próximos meses.

O enredo e a estrutura

O enredo tratará do caminho a ser percorrido por Petrus. Enquanto se empolga com os resultados do trabalho de exploração dos túneis, ele entra em contato com seu lado mais obscuro e vai descobrindo a própria história e as raízes dos seus medos.

A estrutura da narrativa deve ser fragmentada levando o leitor do presente ao passado numa exploração da vida de Petrus. Em paralelo este mesmo caminho leva à possível descoberta da história do ser humano na face da terra.

Lista de Providências e Planejamento – Mesmo sabendo tratar-se de ficção estudar sobre o assunto para dar maior credibilidade à história a ser inventada.

O enredo e a estrutura

Para trabalhar o enredo poderemos utilizar uma fundamentação baseada na jornada do herói. Sem, no entanto, ficar totalmente condicionada a este.  A conclusão final pode ser o retorno com o elixir ou a danação total.

Vale salientar que ao mesmo tempo tentaremos abordar a escrita por Petrus do seu caderno de observações dos trabalhos que de forma não programada trará no seu conteúdo muitos aspectos psicológicos e comportamentais vivenciados e anotados por Petrus.

A focalização

A princípio haverá dois tipos de focalização:

– interna na 1ª pessoa, quando se tratar do tempo presente,

– externa na 3ª pessoa quando se tratar de flashback

O espaço

 Lista de Providências e Planejamento –

Tipo de espaço de cenário a ser utilizado em cada cena.

O tempo 

O tempo será marcado por cada etapa dos trabalhos de exploração de túneis não faz muito e também com todo o processo que levou ao nascimento de Petrus.

O estilo  

O estilo será intermediário entre o essencial e o abundante (sem chegar a tanto), já que envolverá aspectos de comportamento humano.

*

Módulo 10 – Carlos Drummond de Andrade:

*

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

*

Carta a Carlos Drummond de Andrade

*

Ilmo. Sr.

Carlos Drummond de Andrade

Praça do Centenário, 137, Centro –

Itabira/MG – CEP: 35900-023

*

Prezado Drummond,

*

            Passei uma hora tentando escrever uma carta para você, Carlos! Mas os dedos não conseguem digitar a escrita desta mulher, que por traz do computador não é nada séria, essa mulher por traz do computador que é meio moleque, apesar da idade! Além disso, tem boas amigas e amigos dentro de seu coração.  Uma senhora de coração aberto seria rima e solução neste vasto mundo. Desde o princípio gostei dessa possibilidade de um mundo vasto onde mais vasto seria meu coração. Que vibração boa entregaste para uma adolescente. A mulher não esqueceu, apesar de escrever esta carta meio atravessada, misto de exercício de escrita e de brincadeira.

            Se no meio do caminho da escrita existe a pedra, eu penso que seja a pedra bruta que preciso lapidar como me ensinaram. Devo desbastar o texto deixando a pérola. A pedra do meio do caminho da vida, ficou lá como semente de textos catárticos e de alma lavada! Aquela que te escreve hoje sabe que a palavra montanhosa é galeria vertical varando o ferro para chegar ao âmago da escrita. O que dizer para o ilustre itabirano, oitenta por cento de ferro? Eu que sou mar aberto esparramado na costa da existência? Somente conjugando o verbo amar seu lado, querido poeta! Amar simplesmente amar e esquecer, amar e malamar. Amar, desamar, amar!

Passei uma hora tentando escrever essa carta para entender que o processo criativo leva também a energia de cada momento de seus poemas que inundam a minha vida inteira. Então, não serei uma poeta de um mundo caduco, aprendo contigo e com todos poetas que passam pela minha vida formando uma escrita camaleoa. De agora em diante, não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Gratidão, essa palavra-tudo!

Ciao!

*

Bernadete Bruto

*

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com  

*

INFÂNCIA

*

   Era criança. À tardinha, os irmãos sentávamos na soleira da porta. Havia, perto da casa, um sítio ou era uma fazenda. Não lembro. Lembro bem que, em todas as tardes, passava em nossa porta, um carro de bois, carregado de palmas, para a alimentação do gado. As rodas eram de madeira e arrastavam-se cansadas, pela terra. O seu rangido parecia um lamento. A força e o peso da carroça dilaceravam as pedrinhas. Não esqueci aquele chiado que lembrava o atrito da pedra mó, quando moíamos o milho. E os meus olhos acompanhavam a carroça até o final da rua, quando ela dobrava a esquina. Minha atenção voltava-se agora para o alto. Lá no horizonte, o sol se punha, dourando a tarde fresca de verão. Uma revoada de arribaçãs passava no céu, à procura de abrigo. Eram milhares e voavam juntas. Revolteavam em movimentos sincronizados, formando imagens estranhas, em seu bailado. Enormes, fantasmagóricas. Esquecia aquelas imagens e voltava-me para a noite, com um céu sertanejo respingado de estrelas. Pouco a pouco, escurecia. Hora de entrar para a ceia. Todos ao redor da mesa. Havia silêncio. Tínhamos medo de papai. Após a ceia, ficávamos na sala.

   Sempre surgia alguém para ler um Cordel, à luz do candeeiro. Papai ou um vizinho fazia a leitura. As crianças ainda não frequentavam a escola. Eu ouvia atenta aquelas histórias. Umas alegres, outras bem tristes. Algumas me emocionavam, ao ponto de me fazerem chorar, como a história de um pintinho que se perdeu de sua mãe e sofreu muito, até reencontrá-la. Nas noites de Cordel, eu dormia e sonhava com personagens das histórias lidas. Sem saber, eu já estava entrando no maravilhoso mundo da palavra.

*

Diego Pereira

São Luís, 30 de outubro, 2021

*

Querida Dêva…

Prometi te escrever, não o fiz, e essas palavras estão já há anos-luz de distância. Por isso não sei por onde começar. Aqui chove, aquela garoa de fim de tarde, que invade a varanda e as janelas. É o vento forte, muito forte e às vezes gelado, tão diferente do nosso calor. Te falo da chuva porque na última vez em que fui até aí, uma torrencial me pegou na volta. Era aquela de agosto, a mesma que antecede a colheita das mangas. Lembra-te? A gente se encontrava na praça, no banco laranja, esperando o cimento da calçada esfriar, para nos sentar no piso e comermos as mangas doces de fiapo. E enquanto voltava para casa as gotas de chuva no vidro da janela fechada me trouxe você e teus olhos marejados, tua boca curva e trêmula, teu peito inquieto e tua mão que desenhava não sei quê para mim. Faz tanto tempo? Não, e para mim é como um gosto rápido no palato, ou cheiro que vem de uma brisa às cinco da tarde, e quase tua mão na minha, uns sons da Sarah Voughan que posso jurar ser tua voz.

Tenho saudades. Aqui ainda é tudo muito silêncio, de amor e de gente, de avenidas iluminadas pelos carros que exalam seu vapor. Acho que ainda estou nascendo por aqui, descobrindo cores e palavras. Não travei muitos amigos, não me sentei nos cafés. Mas quero, porque é preciso dar abraços ao abraço, e essa cidade me põe em seu colo, como se abrisse no peito uma brecha a me conter. Tudo sorri: tem casarões lindos, prédios históricos, lendas de rua e de água, e, ao final do dia, as luzes amarelas se acendem e a gente pensa estar em algum mês do século XIX ou num cenário de filme francês. E tem o pôr do sol. Essa cidade é o pôr do sol, e, em cada escadaria, nas dunas, no palácio do governo ou na enseada, entre barcos de pobres pescadores, é possível ver o pôr do sol, o mais lindo que tu poderias ver.

Eu o vejo sempre que posso – e quando quero – porque é tudo saudade. Então é comum que eu saia para andar um pouco no centro, e entre num sebo ou numa loja de bricabraque, e depois desço ao Palácio dos Leões de onde se pode disputar a beleza de mais um adeus. Queria que estivesses aqui, sei que tu a amaria também, como eu já a amo. Íamos à praia, ver o mar e os enormes cargueiros que à noite parecem vagalumes. É lindo. Vem, e assim a solidão se torna um fardo leve, até prazeroso e romântico. Ontem mesmo fui ver o mar, e via longe aqueles barcos cheios de gente. Pensei naqueles corações solitários e distantes, eles também, de muita coisa. Isso me reconfortou. Sim, deixou-me um pouco feliz, e menos sozinho ao reconhecê-los tão iguais a mim. Vem, se puderes – se quiseres – mas não tarda, porque a vida cansa e às vezes não abençoa, e eu sigo bem devagar na companhia dos que ainda esperam.

Diego Noleto

*

Ilana Kaufman

Contato: ilakau7@gmail.com

Prezado Carlos Drummond de Andrade,

Espero encontrá-lo em paz. Escrevo esta carta com o intuito de contar um pouco sobre o meu fazer literário.                                   

Um lápis, um caderno e o meu tão sonhado e nem sempre possível lugar em que haja silêncio.                                            

Dois autores latino-americanos, Gabriel Garcia Marquez e Alejo Carpentier, me encantaram com suas histórias. Ao ler os seus livros, conseguia me transportar para dentro das narrativas e era sublime.  Também são em dois os autores norte-americanos que me influenciaram, um modernista e realista, Ernest Hemingway e o outro, pós-modernista, Paul Auster.                                      

Procuro, também, sempre que possível, ler estes autores na língua na qual escreveram. Me parece mais verdadeiro.                           

E o poeta que mais me tem acompanhado é Fernando Pessoa, com uma certa predileção pelo heterônimo Alberto Caieiro.               

Termino esta carta com uma parte de um poema dele:

“Não basta abrir a janela                                                                           

  Para ver os campos e o rio.

  Não é bastante não ser cego

  Para ver as árvores e as flores.

  É preciso também não ter filosofia nenhuma.

  Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.

  Há só cada um de nós, como uma cave.

  Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;

  E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,

  Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.”

                              Cordiais saudações, 

                                              Ilana Kaufman

*

Módulo 11 – João Guimarães Rosa:

*

Bernadete Bruto

MARIA: A GUARDIÃ DE HISTÓRIAS 

*                                            

  Espie, moça! Vou ti contá uma istória passada num tempo não muito distante. Eu merma mi alembro da história que se passô aqui nu Récife. Arrudeio pelo juízo para retorná ao passado beim pertinho de mim nu fundo di meu coração. Conto nesse linguajá, apesar de sê pessoa estudada, porque faço o execicio di iscrevê como falu, pra contá mode vai esta istória. Pensano bem, num ixiste uma uniformidade na língua e sim, vários dizeres por lugá. Você que mi iscuta qui te explicano logo mais o desenrolá dessa istória. Agora que to falando daqui deste meu canto entendo que “da vida, assim como na missa, não se sabe um terço”… Intão vamo divagarinho porque num vô iscrevê no meu sabê di menina criada em Récife, qui istá aprendendo com se conta istórias no papel. Faço a tentativa entrano não pelos sertões e veredas de Minas Gerais e seu falá. Mais no falá da cidade qui moro e que tem aqui mermo muitas formas, dependeno du lugá. Procuro a linguage certa para iscrever do presente sobre o passado sobre a istória de Maria. Talveiz iscreva na forma aprendida na iscola, cum palavras daqui do Nordeste. Mais esse cumeçu a istoria vai sair meiu estabanada nesse dizê porque vem com todo gosto da fala daquelas muleres qui serviam nas casas e que contaru muitas istorias para todas nós, fique aqui pra sabê. Muleres que viviam pertinho da gente, mas moravam tão longi e sem as mermas condições da gente. Longi na vida e na linguage, que agora nos aproxima quando estou a dizê assim…” Para bom entendedor, meia palavra basta”. Maria era uma dessas muleres que moravam nos arrabaldes da cidade. Uma minina que vinha com sua mãe que trabalhava numa casa grande cheia de gente. Eita vida de opostos num mermo ispaço que nem mistura crianças! Quem vê quem? “Só alcançamos o valor da água depois que a fonte seca”. Mais eu vi Maria naquele santo dia. Num tempo que num se pensava nu futuro, nem nu passado. Ali era um tempo eterno quando estamo in fazeres ispeciais.

 Maria era a filha de Guiomar, qui trabalhava como doméstica. Mulé de uma força danada mermo sendo tão magra e seca. Guiomá e sua linguage ininteligível… Maria era uma de seus três filhos. Era a filha do meio entre homins. Ela morava com seus pais num arrabalde desta cidade, longi de onde a mãe trabalhava. O bairro tinha um nome muito simpático, se chamava “Águas Compridas”.  Ficava beim perto do bairro de Beberibe e era tambeim pertu di um outro de nome ainda mais curioso: “Linha do Tiro”! E de lá vinha Maria de Guiomar para o bairro do Espinheiro. Vinha com Guiomar pra brincá e intretê os filhos daquela casa, que eram tantas crianças. Tempo de brincá num era para todas crianças, hoje eu entendo. “O que não tem remédio, remediado está”. Fazê o que agora? Lamentar u distino… Fique de orelha inqui vou cumeçá do cumeço, professora-doutora. Volto pra esse lugá onde realembro Maria, na primeira vez qui dispertô minha atenção. Escute que ao cumeçá minha fala, me transporto para um terraço da casa grande e lá está Maria! Desdi ali dava pra que ela tinha algo beim ispecial. Maria uma menina cor de jambo do Pará, cheinha de corpo, na flô da idade! Longus cabelus pretus, dum cumpridu que escorria pelas costas parecendo um manto.  Maria está sentada nu chão, num canto do longu terraço que circunda metade da casa grande. Está rodeada de crianças.  Ao sentá no chão pra contá istórias, ganhava um brilho especial porque nela é que havia um baú cheiu di istórias de reis, princesas, de bruxas, de fadas. É daí que enxergo Maria. Lá está, di costas para meu recordá, sentada com crianças a sua volta. Seu longu cabelu prêtu cobrino o vestido branco. Como era alvo seu coração naqueles tempos de minina na casa da patroa de sua mãe! Naquele momento, Maria ainda ocupava um ispaço longi da cunzinha. Naquele tempo Maria era mais especial das mocinhas nu olhá das crianças da casa. Ela era a contadora di istórias. Pois fique comigo para sabê qui “Uma longa viagem começa por um passo”. Caminhe então nu meu contá.

PROPOSTA DO ROMANCE

Personagens: narradora, interlocutora e Maria.

A história se passa em Recife, onde se mistura presente e passado em várias épocas. Conta a trajetória de vida de Maria, mulher pobre que morava nos arrabaldes do Recife e que tinha o dom de contar histórias.

Maria mulher, moradora dos arrabaldes da cidade do Recife. Morena de olhos cheios de vida que em criança acompanha a mãe ao trabalho domestico, que depois de anos assume, para poder sustentar os filhos que teve de dois casamentos. Depois ela vai trabalhar como servente num hospital. Maria tem o dom de contar histórias, mas a falta de oportunidades a tantas mulheres pobres moradoras de arrabaldes das grandes cidades lhe obriga a ter um emprego que supra suas necessidades. A sua habilidade é suplantada em outros afazeres, mas ela, no fundo de seu coração, tem a dó de não ter conseguido repassar para ninguém as histórias que tão bem contava.

A narrativa é um exercício baseado no livro Grande sertão: veredas dessa forma, tem a narradora-personagem que relata a história de Maria para uma interlocutora (Professora de escrita criativa), também a narrativa se desenvolverá em um fluxo oral e da mesma forma, também não haverá capitulação. E a escrita vem, muitas vezes, inspirada pela linguagem falada, algumas de uso regional do Nordeste e traz alguns também alguns ditados populares, para amparar as reflexões sobre a existência.

Recife, 15 de novembro de 2021.

*

Diego Pereira

Nossos círculos

Narrativa em 1ª Pessoa. Diego é fotógrafo e descobre, através das imagens que registra e admira, como as coisas são circulares em sua vida. Será o mesmo para todos? Talvez seja possível mudar meu próprio destino – e me redimir dos erros – sabendo que a vida dá sempre a mesma volta, como uma oportunidade que renasce a cada novo ciclo.

Mas e se vivêssemos no “Eterno retorno”? Se nunca fôssemos capazes de sair da nossa roda e da nossa rota?

Não percebemos o quanto os pequenos acontecimentos da vida passam por nós e não o desfrutamos completamente. Amamos, mas nunca achamos que seja um sentimento completo e de forma perfeita até uma outra pessoa surgir em nosso caminho e nos darmos conta de que aquele novo sentimento é único. Assim também é com nossos temores. Estamos sempre fugindo deles, mas que se renovam a cada novo ciclo e mudam de nome e mudam de casa, mas que estão ali para nos atormentar.

É quando percebo o ciclo da minha vida. É engraçado como sempre volto aos mesmos temas, como o mar, amor, hereditariedade e a fotografia. Mas só depois de um olhar profundo para mim mesmo, em meus acertos e em meus erros, percebo que as coisas sempre voltam.

Abro o álbum de infância e me vejo na foto com os meus pais, encostados na coluna em forma de leão, numa cidade onde fomos passar férias. Eu era um garoto ainda, oito anos talvez. Mas, coincidentemente, é a cidade onde moro hoje, depois de 25 anos. Isso me faz pensar no meu primeiro ensaio fotográfico, há dez anos, onde retrato o mar – uma de minhas maiores paixões – com pessoas entregues em um dia de sol. Hoje, posso desfrutar o mar a cada nova hora do dia; posso senti-lo em seus pés em dias de calor; posso ouvi-lo na solidão.

Em primeiro de março de 1962 nascia meu pai. Era o terceiro dos oitos filhos de uma família rural, do interior do estado do Maranhão.  Muda-se para Teresina, capital do Piauí, no final da década de 70, indo atrás do sonho da cidade grande.

Cinquenta anos depois que ele sai do Maranhão – sua terra natal – eu faço a viagem de volta, e é como se visse reminiscências de meu pai em cada lugar, como se fosse ele, e não eu, a desfrutar as ruas e os caminhos. Estou dentro de um círculo, talvez reproduzindo seus anseios e medos, talvez vivendo uma vida que ele mesmo sonhou, mas que outro vai agora realizar.

Mas não é assim. Somos pessoas diferentes, com desejos diferentes, profissões também diferentes, o que nos faz ver o mundo também de formas quase opostas. Estamos apenas na mesma roda, e o ciclo me perturba, esse voltar sempre aos mesmos reflexos e sombras, e mesmo vendo outro caminho à frente – longe demais do que foi meu (ante)passado – eu quero saber onde o círculo me leva, e me pergunto: PARA ONDE SEMPRE VOLTAMOS? O que puder decifrar, como experiência, digo agora, porque posso compreender a mim e iniciar uma nova etapa sem rancor. 

*

Elenara Leitão

A guria que não gostava de Guimarães Rosa

(ou como não se ama o que não se conhece)

 1.        Introdução

Lhes conto como me aprocheguei no mundo dos Rosas. Joãozinho, que também era o Guimarães. o foi pela obra e graça de sua Ara. Deixa lhes dizer como foi essa trajetória de conhecimento, e estranhamento, entre os mundos de dentro e de fora nas veredas de vida e obra.

Gostava não do Guimarães, leitura posta goela abaixo em tempos de pouca liberdade. Mas eis que uma cabra pernambucana, meio vinda dos sertões, me desafia a entender mais da escrita do mineiro e me faz sair tentando entender quem era o homem atrás da obra. Dá para julgar e gostar de algo sem entender os processos de vida do criador? Lhes deixo com essa pulguinha enquanto narro, sem palavras pomposas, um pouco da minha própria trajetória e como cheguei a gostar, ou não, do Guimarães Rosa.   

Assim começa a introdução que leva Violeta, guria do interior do RS, a  revisitar sua infância, juventude e maturidade, passando por tempos de lutas políticas e transformações culturais nas cidades onde morou. E lutas internas de descobrimento e, por final, redescobrimentos onde os mundos de dentro e de fora se tocam e se harmonizam. E como os Rosas se encaixam na sua percepção de mundo, com a escrita de José Guimarães Rosa e a ação de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa.

 2.        infância

“– A vida é boba. Depois é ruim. Depois, cansa. Depois, se vadia. Depois a gente quer alguma coisa que viu. Tem medo. Tem raiva do outro. Depois cansa. Depois a vida não é de verdade… Sendo que é formosa!”  João Guimarães Rosa, da novela “Cara-de-Bronze”. em “No Urubuquaquá, no Pinhém”, no livro Corpo de Baile, 1965.

*

Cidade/leituras/expectativas

Cidade e sua cultura

Violeta não nasceu na cidade dos primeiros anos. As duas, porém, se assemelhavam. Cidades pequenas, mas promissoras, cuja origem era de imigrantes. Alemães em sua maioria, mas também poloneses, judeus e russos. Traçar um rumo da arquitetura e cultura e de como isso influenciava a protagonista em suas expectativas de mundo. Complementar com fotos e pesquisas sobre a cidade. Mudança para a capital e vivências de outras escalas de cidade.

Leituras

As primeiras leituras, o mundo dos contos de fadas clássicos e a casa onde os livros ficavam ao alcance das mãos ávidas da pequena, que crescia entre acenos à liberdade e o medo das pessoas. Falar sobre os livros em voga e os clássicos que sua família lia em breves pinceladas. Mundo brasileiro surgindo nos livros de Monteiro Lobato, se contrapondo aos contos europeus a que estava acostumada. 

Expectativas de mundo

Anos 60 e sua pré ebulição cultural em contraponto com as certezas conservadoras de suas aldeias, cidade, capital, país. A ditadura e o cerceamento da liberdade vistos pelos olhos da criança com seus pais preocupados com abastecimento e futuro. Estudantes sendo contidos em passeatas, sob seus olhos de criança, vendo da sacada de sua casa enquanto começa a adolescer e a se estranhar como mulher. E a sonhar com o amor.

 3.        juventude

“- Pior, pior… Começamos a olhar o medo…o medo grande e a pressa…O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho… É ruim ser boi de carro. É ruim viver perto dos homens… As coisas ruins são do homem: tristeza, fome, calor – tudo pensado é pior…” João Guimarães Rosa – ‘Sagarana’.

*

Cidade/sagarana/obrigação

Cidade capital

Mudança dos mundos de capital de estado para capital do país. Violeta, adolescente, vive as inquietações do crescimento e suas angústias, ao mesmo tempo em que convive com os bastidores e benesses do poder militar que domina a cena nacional. Espaços arquitetônicos diferentes de tudo o que já viveu e pessoas de todos os estados do Brasil tornam a sua realidade mais ampla e a fazem amar mais o seu estado natal.

Sagarana

Primeiro contato com Guimarães Rosa. Imposto por listas de leitura. Violeta sente um estranhamento e repulsa pelo livro, pelo tema, consequentemente pelo autor. São tempos de rebeldia e certezas absurdas sobre amor e ódio. Não há espaço para a cultura do povo do interior no seu descobrimento dos mundos do conhecimento do exterior.

Obrigação

Violeta sente as dualidades do desejo e convenções. Rebela-se com as normas impostas, a censura. O futuro é ao mesmo tempo, assustador e fascinante. Vive entre as promessas de paixão e os namoros de conveniência.

 4.        maturidade

*

“Amar é a gente querer se abraçar com um pássaro que voa.” – João Guimarães Rosa, Ave, palavra.

*

Cidade/amor proibido/conhecimento

Cidade de volta

O mundo de fora de Violeta volta a se encontrar com o mundo de dentro em uma pandemia que transforma o mundo conhecido. Mora na sua velha e conhecida cidade. Vê o mundo de sua janela e observa. Seu país e o mundo envolto em velhas e conhecidas lutas de repressão.

Amor proibido

Já quase avó, Violeta passou por amores e guardou um em especial. É sobre ele que resolve escrever seu romance após RE descobrir Guimarães Rosa, não o escritor, mas o homem apaixonado que se encontra em seu segundo e definitivo amor, Aracy. Ele descreve Diadorim e Violeta pensa em Miguel, seu eterno amor proibido, encontro de tardes furtivas, casado que era com outra e que soube morrer na pandemia. Resolve enfim escrever e gritar seu nome, tantas vezes reprimido e omitido, enquanto aprende como Aracy não teve medo de fazer o que era certo e não o que era imposto pelas leis da época em que viveu. Coragens intensas de uma mulher que apenas deixou seu coração generoso falar mais alto que as convenções e políticas.

Conhecimento

Violeta parte em busca de si, em uma visita pelos seus mundos da infância e juventude, agora com o olhar da maturidade. E inicia seu romance falando de como o conhecimento do homem a levou a compreender a obra. Termina com sua abertura de asas para que voe sobre as cidades.

Dois livros por mês | “Artemísias: vozes de libertação”** & “Amora”***

As vozes da libertação[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Novembro, 2021

            Em março de 2020, inaugurei o curso on-line e gratuito Estudos em Escrita Criativa com o mergulho em escritores ingleses, em especial, O conto da aia,[3] de Margaret Atwood.

            Narrado em uma sociedade distópica, mas que nos traz – de maneira apavorante – muitos dos elementos do mundo atual, Atwood nos apresenta a República de Gilead, depois do golpe que matou o presidente dos Estados Unidos e a maioria do Congresso americano. O grupo ditador e terrorista é católico e tem como tônica afastar as mulheres do mercado de trabalho e deixá-las apenas para serem mães e esposas dedicadas. Por causa de vazamentos químicos e radioativos, a maioria das mulheres tornou-se estéril, e aquelas em condições de procriar foram transformadas em aias, pertencentes aos comandantes do grupo terrorista, perdendo sua identidade (até mesmo o nome, por exemplo, a narradora deixa de se chamar June Osborne para ser Offred, ou seja, De Frederic Waterford, o comandante proprietário) e tendo como único objetivo de vida gerar filhos para as famílias às quais pertencem.

            Assistindo ao Fronteiras do Pensamento de 27 de outubro de 2021,[4] maravilhei-me com a lucidez dessa canadense de 81 anos, com mais de sessenta livros publicados e (ainda) atualmente professora de Escrita Criativa. Ela afirma, de maneira bem humorada, que é muito tarde para mudar de profissão, mas, o que mais nos interessa para esta breve resenha, é a proximidade do pensamento de Atwood com o dos textos das quinze escritoras da coletânea de contos e poemas Artemísias: vozes de libertação.

           Organizado, entre outras, por Iaranda Barbosa, Artemísias nos apresenta casos dolorosos de abuso sexual, de todas as formas possíveis e (in)imaginárias. A mulher como temerária, afirma Atwood na palestra, e por isso abafada, e violentada, e subjugada à opressão patriarcal da nossa sociedade (ainda) hoje em dia. A aia de Margaret, despossuída de qualquer direito, não está muito longe de vários casos citados no livro organizado (e um dos contos escrito) por Iaranda. E o pior: nós mulheres seguindo o regime patriarcal e condenando a nós próprias mulheres, por causa de roupas ousadas, de vida sexual libertária, de se dedicar a uma profissão normalmente exercida por homens.

            Mas a escrita independe de gêneros para nos salvar. Em “Teus continentes e os meus”,[5] resenha de setembro de 2021 desta coluna “Dois livros por mês”, ao analisar Os continentes de dentro, de María Elena Morán, cito o caso na vida real de uma pessoa amada que, adoecida psiquicamente, teve de ser internada em uma clínica. Isso tudo narrei nos originais do livro de apenas poucas leitoras (três para ser exata), no intuito de preservar a pessoa amada, Caminhos manchados de não. O que não mencionei na resenha do livro de Morán, é que a minha pessoa amada também sofreu abuso sexual, tendo como consequência o adoecimento psíquico.

            Quantas mulheres que conhecemos, inclusive nós mesmas, precisam chegar ao fundo do poço, inclusive tirando a própria vida, para que façamos algo generoso umas para as outras? Para nos protegermos? Para nos dar carinho, e força, e qualidade literária com técnicas refinadíssimas (transição de vozes narrativas, transformação em linguagem das características de personagens, fluidez entre os gêneros em um mesmo texto) que encontrei no livro de tantas mãos dadas que se chama Artemísias e ecoar, nos quatro cantos do planeta, a nossa voz de mulher?

__________________________________________________

__________________________________________________

[1] Sobre Artemísias: vozes de libertação. Claudete Bispo, Iaranda Barbosa, Suelany Ribeiro… [et al.]. Organização: Amira Rose Medeiros, Denise Sintani, Iaranda Barbosa… [et al.]. Apresentação: Iaranda Barbosa. Prefácio: Geórgia Alves. Ilustrações: Amira Rose Medeiros, Liliane Correa, Maria Cardoso, Marina Presbítero. Design/Diagramação: Rebeca Gadelha. 1ª ed. Recife: Selo Mirada, 2021.       

[2] Escritora, vinte livros publicados, e um no prelo, escrito a quatro mãos com Adriano Portela, a ser lançado em dezembro de 2021. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[3] ATWOOD, Margaret Eleanor. O conto da aia. Tradução: Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, (1985 in) 2017.

[4] O Fronteiras do Pensamento é um projeto promovido por várias instituições, entre elas, a PUCRS. No segundo semestre de 2021, trouxe ao público grandes nomes do pensamento mundial, entre eles Jared Diamond, Yuval Noah Harari e Margaret Atwood. A palestra com Atwood foi mediada pela escritora e atriz Bruna Lombardi. Maiores informações: https://www.fronteiras.com/

[5] Sobre Os continentes de dentro, María Elena Morán. Apresentações: Luiz Antonio de Assis Brasil e Julia Dantas. Porto Alegre, RS: Zouk, 2021. Publicado em 26 de setembro de 2021 no link: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=10098      

__________________________________________________

Amor & Amora[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Novembro, 2021

            A maioria dos professores e professoras de oficinas literárias e Escrita Criativa afirmam, com todos os átomos de Epicuro, que não existe talento. Tomo a liberdade (e a ousadia) em discordar.

            E acreditar na máxima de Ariano Suassuna quando, no seu Iniciação à estética[3](que não me canso de repetir e repetir e repetir), afirma (também), com todos os átomos (de Epicuro), que não basta a intuição (ou inspiração criadora); é preciso o ofício (ou trabalho diário) e a técnica (ou estudo contínuo), para quando aquela inspiração criadora descer do sol feito ave de rapina, nos encontrar preparados e preparadas e darmos o salto, e construirmos uma obra de arte.

            Mas estamos falando o mesmo de maneiras diversas. Ariano afirmando a intuição; eu, o talento. Está bem, vamos chamar talento de uma tendência maior para a escrita. E, para resenhar nesta coluna “Dois livros por mês”, encontro, após vinte e um meses do presente recebido, o livro vencedor do Prêmio Jabuti de 2016, Amora, da escritora e professora gaúcha Natalia Borges Polesso.   

           Conheci Natalia na especialização em Escrita Criativa da Unicap/PUCRS (ela foi uma das ministrantes da Oficina de Narrativa II – O romance e a novela) que ajudei a criar em Recife, assim como coordenar a primeira turma e ministrar a disciplina Empreendedorismo Literário (2019/2020). Conheci Natalia às vésperas do Carnaval de 2020, o último Carnaval antes da pandemia. E não sabíamos o que nos aguardava, eu não sabia o que me aguardava lendo esse livro abissal com o qual me presenteou.

            Amora converge coragem, carinho e técnica. Tudo no mesmo espaço contíguo da página impressa, no mesmo espaço contínuo do coração de Natalia para quem a lê. E lá estão as técnicas mais refinadas – mudança de voz narrativa sem que nos percamos, transmissão de conhecimento de maneira literária, pílulas de poesia em plena prosa e intergenericidade dos textos, intergenericidade da vida.

            Composto por trinta e três contos, os vinte e sete mais longos fazendo parte de “Grandes e sumarentas”, e, os seis mais curtos, de “Pequenas e ácidas”, Amora vem me provocar escritura, e das boas (espero eu) – e que deveria ser, penso eu, o sentido da leitura dos grandes livros contemporâneos ou clássicos: nesta madrugada de 15 de novembro, brota um texto, uma novela fragmentada, e provocada pela leitura, em dois dias, do livro de duzentas e cinquenta e cinco páginas de Natalia, a quem agradeço, com vinte e um meses de atraso, o presente, no melhor sentido da palavra, que ela nos deu.


__________________________________________________

[1] Sobre Amora. Natalia Borges Polesso. Apresentação: Paloma Vidal. 6ª impressão. Porto Alegre: Não Editora: 2015.       

[2] Escritora, vinte livros publicados, e um no prelo, escrito a quatro mãos com Adriano Portela, a ser lançado em dezembro de 2021. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[3] SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002, pp. 235-240.