Posts com Poesia

Índex* – Julho, 2018

Escrevo

Para me libertar

Para expurgar

Esse sol

Que nasce aqui

No meu peito

Que nasce assim

Uma história 

Repleta de

Amanhã 

Prenhe de sonhos

E começo a concretizar

Hoje

Passo a passo

Em cada palavra

Inscrita no papel

Na ideia

Na imaginação 

Que o raio de sol

Ajudou a despertar

(“Poiesis”, Patricia Gonçalves Tenório, 15/07/2018, 06h04)

 

A Escrita Criativa dando asas à imaginação no Índex de Julho, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Sete textos de viagem | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Filmes e filosofia de vida & Cinco textos curtos | Bernadete Bruto (PE – Brasil).

Eu amo os advérbios | Cilene Santos (PE – Brasil).

Quem sou eu? | Elba Lins (PB/PE – Brasil).

À Palomar, de Ítalo Calvino | João Paulo Nascimento de Lucena (PE – Brasil).

Lua de sangue | Natália Setúbal (RS – Brasil).

joelhos curvados | Talita Bruto (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Julho, 2018 | Recife e Porto Alegre.

 

E os links do mês:

 

O blog de Kênia Medeiros (RS – Brasil), participante dos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre: https://bookcaccino.wordpress.com/2018/06/26/subscribe

O livro de Fotografia & Arte, organização Fernando de Mendonça (SP – Brasil), Maria do Carmo Nino (PE – Brasil) e Patricia Gonçalves Tenório: https://issuu.com/ppgavufpeufpbrevistacartema/docs/dossi___arte_e_fotografia

 

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 26 de Agosto de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – July, 2018

 

I write

To set me free

To purge

This sun

That is born here

In my chest

That is born this way

A story

Full of

Tomorrow

Pregnant of dreams

And I begin to realize

Today

Step by step

In every word

Inscribed on paper

In idea

In imagination

That the ray of sun

Helped to wake up

(“Poiesis”, Patricia Gonçalves Tenório, 07/15/2018, 06h04 a.m.)

 

The Creative Writing giving wings to the imagination in the Index of July, 2018 of the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Seven Travel Texts | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Movies & Philosophy of Life & Five Short Texts | Bernadete Bruto (PE – Brasil).

I Love Adverbs | Cilene Santos (PE – Brasil).

Who am I? | Elba Lins (PB / PE – Brasil).

To Palomar, by Italo Calvino | João Paulo Nascimento de Lucena (PE – Brasil).

Blood moon | Natália Setúbal (RS – Brasil).

curved knees | Talita Bruto (PE – Brasil).

Studies in Creative Writing – July, 2018 | Recife and Porto Alegre.

 

And the links of the month:

 

The blog of Kênia Medeiros (RS – Brasil), participant in the Creative Writing Studies of Porto Alegre: https://bookcaccino.wordpress.com/2018/06/26/subscribe

The book of Photography & Art, organization Fernando de Mendonça (SP – Brasil), Maria do Carmo Nino (PE – Brasil) and Patricia Gonçalves Tenório: https://issuu.com/ppgavufpeufpbrevistacartema/docs/dossi___arte_e_fotografia

 

Thank you for the attention and the affection, the next post will be on August 26, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O Sol da Escrita Criativa que nasce aqui no meu peito. The Sun of Creative Writing that is born here in my chest. 

Sete textos de viagem | Patricia Gonçalves Tenório*

 

14/07/2018  09h30

No capítulo “Querida tela… diário e computador” de O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet, o ensaísta e sociólogo francês Philippe Lejeune afirma que a tela do computador permite o distanciamento necessário para uma escrita terapêutica, funcionando como uma quarta parede do teatro.

“A convergência dos cinco depoimentos que vamos ler me impressionou. Todos atribuem ao computador o mérito de ser uma espécie de escuta terapêutica que decanta o que se quer dizer, que permite, graças à neutralidade da tipografia, ser objetivo, fugir de si mesmo, se distanciar. Outros fatores intervêm, como veremos: a posição face a face, a possibilidade de corrigir e, especialmente, a fantasia de ter um leitor desconhecido. O distanciamento benéfico permite que pessoas que sofrem, desgostosas com sua escrita ou bloqueadas no silêncio, encontrem um caminho em direção a si. Há, certamente, um lado dramático nas experiências contadas, mas pode-se concluir que, minimamente, para um certo número de pessoas, o computador permite realizar melhor do que o caderno as funções do diário: a expressão e a deliberação.”[1]

Tentaremos neste (o mais) breve (possível) ensaio, analisar uma viagem realizada pela autora do texto, assim, na primeira pessoa do plural, para ser possível a objetividade que Lejeune propõe, e o desbloqueio quando se aparenta não haver mais nada a ser escrito.

Comecemos pelo motivo da viagem. A proposta seria visitar as cidades de Praga e Budapeste com os filhos da autora, que doravante chamaremos de P.. Na verdade, Praga seria uma revisita, pois P. esteve, há pouco mais de quatro anos, quando em viagem para a Romênia e a República Tcheca.

“São onze horas da manhã. Estou no Café Mozart, primeiro andar da Staroměstské Náměstí 22, em Praga, lugar onde Franz (Frantisěk) Kafka (1883-1924) habitou durante algum tempo. É o décimo dia da viagem em que percorri a Romênia, e, em seguida, conheci a capital tcheca, Praha.”[2]

O filósofo francês Michel Onfray já dizia em Teoria da viagem que o corpo, aberto à nova experiência, retém bem mais estímulos do que de costume. É então que os seis sentidos – sim, o principal sentido é a intuição – da escritora se ampliam e inauguram a viagem literária.

“A viagem, de fato, é uma ocasião para ampliar os cinco sentidos: sentir e ouvir mais vivamente, olhar e ver com mais intensidade, degustar ou tocar com mais atenção – o corpo abalado, tenso e disposto a novas experiências, registra mais dados que de costume. O viajante percebe-se menos preso aos detalhes do cotidiano do que submetido à prova fenomenológica: imerso no real, ele se conhece através do jogo da intencionalidade e da consciência, experimenta ser forçado a emergir como acontecimento e do nada onde são encontrados os resíduos da decisão. Viajar é uma intimação a funcionar sensualmente por inteiro.”[3]

Carta ao pai

P. está lendo Carta ao pai, de Franz Kafka. Ela está no avião de Recife a Lisboa. Ela não consegue dormir.

 

“Pego a tosse

Na mão

E me aproximo

De Kafka

Na tentativa

De com ele me parecer

Em angústia

Para não perecer

No mar profundo

Das palavras

 

Ele me dá a mão

Do outro lado

Da Carta[4]

Do outro lado

Da grade

De artista da fome[5]

Que se impôs

Na busca

De uma cura

Da tosse

E comigo se parecer

E comigo não perecer

No mar profundo

Das palavras”

(“Chegando a Praga”, 30/06/2018, 16h45)

 

O corpo aberto à nova experiência parece se misturar com o corpo de Kafka, com as letras de Kafka que aparentam guiar aquela viagem, aparentam levá-los, P. e dois de seus três filhos, até a porta do Museu de Kafka na Hergetova Cihelná, Cihelná 2b, Malá Strana.

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“Não me imponha

A culpa

Pois a culpa

Está na raiz

Do medo

Que nasce

Da falta

De amor

E isso

Eu te dei

Demais,

Meu filho

 

Chama-me

De monstro

Diante

Da cidade

Diante

Dos cidadãos

De respeito

E admiração

 

Como se eu

Não fosse um

Kafka

Do mesmo

Barro que

Te moldou

 

E que um

Dia se reconhecerá

Fraco

Mas que nunca

Perguntou

Se não era isso

O que realmente

Queria

E não era de mim

Que fugia

Quando se olhava

No espelho”

(“Carta ao filho”, 01/07/2018, 22h39)

 

E se Hermann Kafka houvesse recebido a fatídica Carta? E se, a recebendo, pudesse responder? O “se” da ficção, amalgamado com os sentimentos da autora, reatualiza o mito e inscreve uma possibilidade – a possibilidade de um(a) pai/mãe expor seus motivos.

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Um outro dia. Uma nova história. Poder fazer tudo diferente, ainda que numa cidade que se visitou há quatro anos. O rio Vlatva não é o mesmo, e é o mesmo sob a ponte de Carlos IV. O verão queimando a pele, inebriando os olhos, que busca sombra e silêncio sob as paredes da igreja de São Nicolau.

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“Sento

Na Staré Město

Na igreja

De São Nicolau

 

Vejo o tempo

Fugir nos vitrais

Fluir no teto

Pintado em ondas

 

Passeio

Com meus filhos

No presente

No passado

E quem sabe

O futuro me

Aguardará

Para colher os frutos

Dessas minhas palavras

Lançadas

No ar?”

(“Kostel sv. Mikuláše”, 02/07/2018, 11h54)

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O catolicismo de P.. O judaísmo de K.. Tudo de K. referia-se ao pai, inidicava ao pai, feito setas com destino certeiro. O “nojo” contra qualquer uma das atividades do filho transparecia na indiferença de “Coloca em cima do criado mudo!”[6] do pai, como se o livro não existisse, como se K. desaparecesse por entre suas palavras de fogo.

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P. chega ao Café Mozart. A primeira repetição acontece quando reconhece Yamilet ao piano. Elas trocam olhares, trocam acenos de que um dia se encontraram, e passaram quatro horas sorvidas em músicas do leste europeu.

 

“No Café

Tomei

Sorvi

Cada uma

De tuas

Palavras

Como se fossem

Ouro

Como se fosse

E ao pó

Voltasse

Cada uma de

Minhas células

 

Feri

Meus ouvidos

Alcancei

Tua voz

Inaugurando

Em mim

Um canto

Novo

Livre do sentimento

De culpa

E autocomiseração

Que tua Carta[7]

Ao contrário

Em mim instalou”

 

(“No Café Mozart”, 02/07/2018, 17h30)

 

A segunda coincidência ocorreu no Národiní Dúm Na Vinohradech, a Casa Nacional, com o concerto do melhor de Mozart e Dvořák. O violinista-maestro era o mesmo de quatro anos atrás. Mas ele também não é o mesmo, pois na ocasião fora apresentado pelo violinista-maestro de então.

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Os dias em Praga chegam ao fim. Mas ainda resta um tempo para passear livremente na cidade, para se andar insistente na cidade até gastar a sola dos sapatos e sentir como se não tivesse pés. Eles chegam ao Kampa Park. Os filhos descansam sob a sombra de uma árvore. A mãe se mantém à distância, até porque na distância é que eles poderão voar.

 

“Vejo

Os filhos

Crescerem

Por entre

As folhas

Da árvore

Descortinando

As páginas

Escritas

De uma

Longa história

De amor

Teimosia

E imensa

Dor

 

Eles se parecem

Comigo

Eles são feitos

Da mesma

Matéria de sonhos

Que um dia

Visitou o parque

Ao meio-dia

E na terra

Germinou

Flor”

 

(“Kampa Park”, 04/07/2018, 13h23)

 

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Carro. Aeroporto. Espera. Avião. Budapeste. Eles chegam tarde à cidade dividida, à cidade prometida de belezas e contradições. Por isso o medo de P.. Por isso a decepção de dois de seus filhos – ou a decepção que era dela, mas se projetava na tela dos rostos filiais.

Mas uma noite. O dia recomeça com a esperança. E, ali, a esperança tem cor azul.

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“Procuro

Transparência

Nas paredes

De Budapeste

E encontro

Os dois lados

Da mesma

Cidade

Os opostos

Que se complementam

Não se contradizem

E não me sinto

 

Sento-me

Em um monte

Alto

Às margens

De um rio

E escuto

Os acordes

De uma valsa antiga

Emoldurando

Em tom azul

 

Para que

Eu possa viver

A transparência

Nos dois lados

Da mesma moeda

De Buda a Peste

E sendo uma

Só”

(“A cidade azul”, 07/07/2018, 09h45)

 

14/07/2018  11h33

A prosa vai se aproximando devagar. Ela observa os personagens. Ela trilha seus caminhos. Sente o cansaço. E após os quatro dias na capital húngara, aquela que foi conquistada por mais povos ainda do que Praga, a prosa toma o lugar da poesia ao chegarem, P. e dois de seus três filhos, ao aeroporto de Budapeste rumo à Lisboa. No retorno ao Brasil. No final da viagem literária. A vida que imita a viagem muito mais do que a viagem imita a vida.

“Desde Recife, não haviam se afastado nem um segundo. Uma sabia da história da outra, como se fossem irmãs siamesas.

No voo de Recife para Lisboa, escutou cada acesso de tosse da outra, mesmo não estando lado a lado. A tosse era um sinal de cansaço, a presença do rapaz, mesmo ela havendo terminado o namoro.

No aeroporto de Lisboa ficou esperando que ela almoçasse num restaurante com opção vegana – era mais difícil se alimentar sob restrição de leite e ovos.

Praga emanando o aroma da primavera em pleno mês de julho. Ficou no hotel enquanto ela visitava o Castelo, a ponte Carlos IV, o museu de Kafka… Kafka e seus amores inacabados, e sua tosse interminável, feito a tosse de Manoela.

Mas não havia sangue na tosse de Manoela, e poderiam continuar a viagem. O bairro judeu, a sinagoga Staronová, e a lista de nomes apagados da terra nos campos de concentração das paredes no memorial ao lado do Cemitério Judaico. Ali Manoela se lembraria do documentário “Red Trees”, de Marina Willer, que narra a história de Alfred sob o olhar da filha mais velha. A família de Alfred fugiu da perseguição nazista em Berlim, veio para Praga, e conseguiu emigrar para o Rio de Janeiro.

Uma pausa para visitar o Café Mozart, no mesmo prédio onde Kafka morou na Staroměstské Náměstí 22, na frente do relógio Astronômico. E a pianista é a mesma de quatro anos atrás – a cubana Yamilet, Yamila para os mais próximos –, Manoela escreveu no diário assim que chegou ao hotel.

E estavam as duas tão juntas, mais juntas do que aquela que Manoela perdeu há quatro anos.

Até chegarem a Budapeste. A cidade dividida. A cidade reconstruída a cada conquistador, cada povo, cada língua e cultura, feito um selo de bagagem, um carimbo de passaporte que elas haviam construído passo a passo, viagem a viagem, até chegarem a Budapeste, a cidade dividida, onde iriam se despedir após quatro anos juntas.

Sim, Manoela poderia viver com o básico. Mas as duas juntas fora o mais básico que conseguiu em toda vida. Mesmo após o término do namoro. Mesmo finalizando o doutorado. E depois? O que faria? Aprenderia línguas? Aperfeiçoaria um instrumento? Viajaria o mundo inteiro em 180 dias? Porque algo deveria ser feito com o vazio. No vazio não se põe em pé, não se levanta ao menos da cama, e a cama pareceria estreita no quarto de hotel, forçando Manoela a acordar cedo e caminhar a cidade inteira, até gastar a sola dos sapatos e não sentir os pés.

E não sentiu os pés, como se deslizasse em rodinhas pelas ruas de Budapeste. Primeiro Peste, e o Parlamento ao meio-dia, e o sol queimando a pele branca de Manoela até entrar-lhe nos ossos e dos ossos não saír mais. Buscava nos ossos a razão para a briga com Jonatas, como se jogada fora da barriga da baleia, depois de morte, e três dias, e ressurreição.

No hotel juntas, e Manoela tomando um banho quente para esquecer o passado, para só lembrar o presente e o metrô para Buda, a igreja de São Matias, o Bastão do Pescador, a Galeria Nacional, e havia uma exposição de Frida Kahlo, que preferiu não visitar, para conhecer melhor os artistas húngaros do museu, tais como Viktor Madarasz, Bertalan Székely, Ligeti Miklós, Károly Ferencey e Laszlá Tajképei.

O círculo se fechando com o terminar dos dias, com o final da viagem que as iria separar. Só por umas horas? Mas como se fossem anos, como se o tempo condensasse em tanta informação e não teriam uma à outra para provar a certeza das coisas, para descobrir na materialidade das coisas os átomos de Epicuro, e o centro dos átomos não se tocando jamais, e, na verdade, elas nunca estiveram juntas, desde que Manoela a comprou na viagem para a Romênia e a República Tcheca quando perdeu aquela outra há quatro anos.

Fora tudo uma ilusão. Ao comprar a passagem com direito a uma – e somente uma – bagagem de bordo, não sabia que a bolsa vermelha também contaria, e da companheira se separaria, de Budapeste até Lisboa, com o coração suspenso se na chegada a encontraria, rodando e rodando em círculos, preocupada com a tensão de sua dona, com o perigo que sua dona corria, apesar da briga com a recepcionista do check-in, com o selo de frágil em sua face, com o ticket que garantia o embarque na parte inferior do avião.”

(“Mala”, de Budapeste a Lisboa, 16h10 – 19h, 08/07/2018)

 

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Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

[1] LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Organização: Jovita Maria Gerheim Noronha. Tradução: Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, p. 327.

[2] A experiência de um(a) artista da fome em http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6990. Em 16/05/2014.

[3] ONFRAY, Michel. Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009, p. 49.

[4] KAFKA, Franz. Carta ao pai. Tradução: Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, 2007.

[5] KAFKA, Franz. Um artista da fome. In Um artista da fome seguido de Na colônia penal & outras histórias. Tradução: Guilherme da Silva Braga. Porto Alegre, RS: L&PM, 2015.

[6] KAFKA, Franz. Carta ao pai, p. 69.

[7] KAFKA, Franz. Carta ao pai, p. 69.

Quem sou eu?* | Elba Lins**

Recife, 21/07/2018, 21h37

 

Noite em claro!

O frio não me deixa dormir. Na lareira, mirrado, um único feixe de gravetos secos, se mistura às cinzas e tenta me aquecer, substituindo a figura a meu lado – que já foi fogo e agora é menos que gelo. Amanhã preciso colher gravetos secos na floresta.

Agora, sentada à beira do caminho, penso no ontem.

 

*********

Cansaço!

Que importa o peso nas costas? Preciso parar, fechar os olhos, me entregar por instantes, aos braços de Morfeu. Fugir das lembranças da noite insone. Na pedra bruta me aconchego e sou mais feliz que na cama compartilhada.

Neste momento a paz chega a mim.

 

**********

Esquisito!

De repente me sinto em paz. Já nem lembro da noite insone, do peso nas costas, do amor desfeito. Sinto uma mão externa refazendo meus passos, dando novas cores à minha face e pensamentos leves à minha mente.

Isto agora é parte de mim.

 

**********

Dúvida!

Continuo sem saber quem sou. Se a camponesa abandonada com frio e sem sono, se a jovem tranquila de faces coradas ou esta presença estranha que parece extrapolar minha figura feminina.

De repente, já não sei mais quem sou ou o que sou.

 

**********

Pobre menina!

De lenço vermelho da mesma cor da boca úmida, braços cansados e perfeitos, semblante de paz. Tudo nela inspira paixão. Já não tenho certeza se ela existe. Minhas mãos inquietas procuram tocá-la, senti-la…

E cada pincelada vã, me aproxima dela.

 

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* Exercício de um encontro extra do grupo original dos Estudos em Escrita Criativa, em Recife, com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard e Talita Bruto em 17/07/2018.

** Elba Santa Cruz Lins (Monteiro/PB, 1957) é formada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1979), fez MBA em Gestão de Negócios (EAD) pela PUC-PR. Trabalhou durante 34 anos na área de Telecomunicações da CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco). Atualmente aposentada, dedica-se à escrita. Fez curso de Contação de Histórias no Zumbaiar (Recife). Faz poesias e há dois anos participa dos Estudos em Escrita Criativa, sob a coordenação de Patricia Gonçalves Tenório. Lançou em 2017 seu primeiro livro de poemas, Do outro lado do espelho: O feminino em estado de poesia. Contatos: elbalins@gmail.com

*** Woman Carrying Brushwood, 1873, Munkácsy Mihály.

 

Lua de sangue* | Natália Setúbal**

Sondar os mistérios da face oculta

a inquieta humanidade

à espera da efêmera apoteose

 

Distraídos das coisas  mundanas

atentos içaremos nossas velas

no caminho das nuvens

 

E mais tarde,

quando o véu da noite

descer sobre a Terra

Ó lua carmim,

transmuta teu escarlate

– tamanha magia

e asparge  sobre a Terra

 

a cor da esperança

 

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* Poema publicado no Zero Hora (Porto Alegre, RS) em 26/07/2018.

** Natália Setúbal é participante dos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre. Contato: nataliasetubal.adv@gmail.com

 

joelhos curvados* | Talita Bruto**

Recife, 18/07/2018, 22h55

 

os joelhos dobrados em posição de ataque, ombros arquejados, sobrancelhas selvagens.

no piscar, uma levantada de olho.

pés bambos, joelhos curvados, cerimonialistas. à espera.

mão em falso guardando o vazio do gesto.

*

o menino do lado.

vigia. de passadas truncadas.

…memora…os sons saltados das pedras no mar…

pequeno galope, pequena onda.

*

a praia do sal. única lembrança nítida.

de sua primeira década. quando já ido…alguém.

entre a decisão (distante) de jogar-se pedra e a escolha (estática) de apanhar-se grito.

a entrada da vida é o mesmo lugar do porto: a manhã.

*

amanhã, que será?

*

hoje?

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* Exercício de um encontro extra do grupo original dos Estudos em Escrita Criativa, em Recife, com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard e Talita Bruto em 17/07/2018.

** Talita Albuquerque Bruto da Costa é estudante de graduação de Letras Bacharelado com ênfase em estudos literários pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ela tem principal interesse nas áreas que envolvem os estudos do hermetismo, da psicologia e do imaginário simbólico nas narrativas literárias. Contato: talitabruto@gmail.com

*** Boys throwing pebbles, 1890, Károly Ferenczy.

Estudos em Escrita Criativa – Julho, 2018 | Recife e Porto Alegre

Nossas férias foram de uma riqueza ímpar. Além de nos reabastecermos para trazer o melhor para os encontros do segundo semestre de 2018 dos Estudos em Escrita Criativa, nos reunimos, o grupo original com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard e Talita Bruto, e exercitamos o que apreendi na disciplina Textos breves e híbridos ministrada pelo Prof. Dr. Amilcar Bettega na única Pós-Graduação com Mestrado e Doutorado em Escrita Criativa do país na PUCRS: a partir da leitura de ficcionistas e teóricos tais como Robert Walser, Walter Benjamin, Noemi Jaffe, Júlio Cortazar, Enrique Vila-Matas e Lydia Davis, escrever 05 minitextos com até 05 linhas cada.

Os exercícios estão especialmente do lado de fora deste post, justamente para dar asas a essas primeiras alunas que já, há muito tempo, sabiam voar sozinhas, mas que tiveram a humildade – qualidade tão rara e que prezo tanto no ser humano – de aprenderem/ensinarem (assim como o verbo apprendre em francês) nos nossos encontros.

Tivemos também a imensa alegria em receber textos de participantes dos Estudos de Recife (Cilene Santos e João Paulo Nascimento de Lucena) e de Porto Alegre (Natália Setúbal).

E no dia 31/08/2018, às 14h30, estaremos no Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic), em Uberlândia, com dois estudos de caso – Abril, sobre o mito, e Maio, sobre a viagem – dos nossos encontros, e o lançamento, às 19h, do primeiro volume do Sobre a escrita criativa. O segundo volume já está no forno com textos de autores tais como Alexandra Lopes da Cunha, Amilcar Bettega, Bernadete Bruto, Daniel Gruber, Elba Lins, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Guilherme Azambuja Castro, Lourival Holanda, e esta que vos escreve.

Os Estudos retornarão em Agosto de 2018 com todo o carinho e o melhor que posso oferecer àqueles que os aceitaram e me incentivaram em cada mínimo desafio. Não à toa, o tema será o Amor, e os escritores convidados, Ana Maria César, em Recife, no dia 11/08/2018, na Livraria Cultura do Shopping RioMar, e Annie Müller e Luís Roberto Amabile, em Porto Alegre, no dia 15/08/2018, na Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country.

Que venham os próximos encontros! Grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_Recife

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Índex* – Junho, 2018

Carrego 

As frases

Inacabadas 

Os sonhos

Por vir

Uma estrela

Cadente

Caindo

Em minha mão

Ainda quente

Ainda cheirando 

A jasmim

Até brotar

No centro

Uma palavra

De cor

Azul

(“Até meu céu nascer azul”, Patricia Gonçalves Tenório, 31/05/2018, 15h35)

 

O céu azul de final de semestre, início de outro no Índex de Junho, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Vinte e um | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Il Convivio (Itália), Alfredo Tagliavia (Itália) & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2018 | De Recife a Porto Alegre | Diversos.

Poemas de Cilene Santos (PE – Brasil).

Minicontos de Júlia Dantas (RS – Brasil) nos Estudos em Escrita Criativa – Porto Alegre.

E os links do mês:

– Homero Fonseca (PE – Brasil): https://medium.com/@homerofonseca/literatura-ostenta%C3%A7%C3%A3o-bc355b700c7c

– Gabriel Nascimento (RS –Brasil):  https://www.facebook.com/Reimundo45/

– Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://lituraterre.com/espaco-letra-freudiana/  

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 29 de Julho de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* June, 2018

 

I carry

The phrases

Unfinished

The dreams

For coming

A star

Cadent

Falling down

In my hand

Still hot

Still smelling

The jasmine

Until it comes out

In the center

A word

In color

Blue

(“Until my sky is blue”, Patricia Gonçalves Tenório, 05/31/2018, 3:35 p.m.)

 

The blue sky of the end of semester, beginning of another in the Index of June, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Twenty-one | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Il Convivio (Italy), Alfredo Tagliavia (Italy) & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – June, 2018 | From Recife to Porto Alegre | Several.

Poems by Cilene Santos (PE – Brasil).

Very-short-stories by Júlia Dantas (RS – Brasil) in Studies in Creative Writing – Porto Alegre.

And the links of the month:

– Homero Fonseca (PE – Brasil): https://medium.com/@homerofonseca/literatura-ostenta%C3%A7%C3%A3o-bc355b700c7c  

– Gabriel Nascimento (RS – Brasil): https://www.facebook.com/Reimundo45/

– Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://lituraterre.com/espaco-letra-freudiana/  

Thank you for the attention and the affection of always, the next post will be on July 29, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** “Olha para o céu, meu amor… Nessa noite de São João”. Música: Luiz Gonzaga  (PE – Brasil). Fotografia: George Barbosa  (PE – Brasil). “Look at the sky, my love … On that night of St. John.” Music: Luiz Gonzaga (PE Brasil). Photography: George Barbosa (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2018 | De Recife a Porto Alegre

Os Estudos em Escrita Criativa do primeiro semestre de 2018 cumpriu sua missão. Cumpriu a missão monstruosa de tentar unir as duas pontas do Brasil, as duas cidades em que eu flutuava nas idas e vindas do doutorado em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, única com graduação, mestrado e doutorado na área do país.

As duas cidades se fizeram unas sob as temáticas do tempo – e Agostinho de Hipona, Erich Auerbach, Oscar Wilde –; do mito – e Yuval Harari, André Jolles, Vincent Van Gogh –; da viagem – e Michel Onfray, Luiz Vaz de Camões, Christopher Vogler –; da música – e Thomas Mann, Hermann Hesse, Platão.

E os conceitos se ampliaram – o Eterno e o Tempo agostiniano, Figura dos Primeiros Padres Cristãos, a Pergunta que se anula na Resposta do mito, os viajantes e sedentários desde Abel e Caim, a Teoria Barroca dos Afetos.

E os convidados especiais – Alexandra Lopes da Cunha, Alexandre Santos, Débora Ferraz, Fátima Quintas, Flávia Suassuna, Gustavo Melo Czekster, Jacques Ribemboim, Júlia Dantas, Guilherme Azambuja Castro, Tiago Germano.

E os escritos grandiosos dos participantes – Adriano B. Cracco, Ana Elisabete Cunha, Antonio Ailton, Bernadete Bruto, Cilene Santos, Dulce Albert, Elba Lins, Eliane Mascarenhas, Gabi Vieira, Gabriela Guaragna, Gabriel Nascimento, Giliard Barbosa, João Orlando Alves, Ina Melo, Inalda Dubeux Oliveira, João Paulo Nascimento de Lucena, Luciana Beirão de Almeida, Marco Polo Laufer, Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva, Monique Becher, Rackel Quintas, Rodrigo Ribeiro.

A infinita gratidão por tudo que constuímos juntos. O segundo semestre vem com muitas novidades e desafios. Mas, com vocês, sei que conseguiremos dar o salto e transformarmos a nossa Escrita Criativa em obra de arte.

Com vocês, os escritos dos participantes de Junho, de Recife a Porto Alegre, dos Estudos em Escrita Criativa – 2018.

Grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Ana Elizabete Cunha

Recife, 09/06/2018

Contato: anaelisabetecunha@gmail.com

Venha ao colo de leite

e diga o som que Aninha;

Brinca sem tempo de fim

sentando em pele rosa, tão branca, rosinha.

 

Mas ao silêncio adormece, entorpece,

Respirando anseios de mãe.

Fita o nada e enlouquece;

Renova toda a vida em outro instante.

 

Respira… Já vou;

Respira… Aqui estou:

Um sempre nunca distante.

 

Quem foi cria de puro alento

é o todo e o tudo

a que seja remetido.

 

Se tem a escuridão nos olhos,

ofusca o sol por um sorriso.

Cachos, castanhos e noite

até que se faça esquecido…

 

(“A criança de sonho” – Ana Elisabete Cunha, 09/06/2018, 11:30h)

 

O SOM DA ANCESTRALIDADE

Bernadete Bruto

Recife, 09/06/2018

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Olhou a foto pendurada na parede do quarto, sorrindo ao se rever naquele instante mágico. Atrás da silhueta risonha o TAJ MAHAL e como ele, o som, cheiro, cores retornando para aquele instante mágico inesquecível.

Antes, jamais poderia imaginar o que aconteceria, parodiando com a escrita da própria canção, cuja letra e melodia ecoam de uma lembrança longínqua, tão distante quanto sua ancestralidade provém.

Era criança num terraço. A música ressoava do aparelho radiofônico seduzindo para uma dança (som de harmônio indiano), explicitava um convite: “a Índia fui em férias passear, tornar realidade um sonho meu…”

Hoje, após dez anos, feliz por um sonho realizado, retorna aliciadoramente ao trecho daquela canção da infância, cuja melodia produz um verdadeiro encontro do corpo com a alma: “Se nada mudar no ano que vem, a Índia vou voltar para ver meu bem.” (som do harmônico indiano)

 

A Canção Proibida

Cilene Santos

Recife, 15/06/2018

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

O ano, 1957. Exatamente quando eu me preparava para a Primeira Comunhão, uma canção foi lançada e fez muito sucesso.

Mas fomos orientadas pelas nossas catequistas para não cantar nem ouvir aquela música. Segundo elas, quem cantasse “Eu vou pra Maracangalha, eu vou…” fazia apologia ao inferno.  Seria o mesmo que dizer: “Eu vou pra o inferno, eu vou…” e eu tinha medo do inferno e do capeta. E na minha inocência, eu levava a sério o que elas  ensinavam. E sofria porque sendo algo proibido, aguçava mais o meu pensamento e só a canção proibida manifestava-se. Tentava pensar nas brincadeiras, nas bonecas, mas nada adiantava.

A música teimava, insistia e ficava. Eu pedia a Deus e aos santos para me libertar daquele peso.

Com o passar do tempo, mudei meus conceitos religiosos, passei a ter uma visão diferente do pecado e de Deus. Descobri que Deus não era um carrasco, como me foi apresentado. O inferno não existia. E eu perdi os medos que me afligiram  a infãncia. Eu não seria mais uma pecadora meramente pelo fato de cantar aquele samba tão bonito de Dorival Caymmi.

Todos esses acontecimentos ficaram enclausurados em minhas memórias. Entretanto, hoje, quando me encaminhava ao trabalho, fui surpreendida por aquela melodia. Um alto-falante em alto e bom som tocava a canção, na voz estrondosa do seu compositor.

Nem tive medo! Até segui cantarolando feliz e achando graça. Como pude sofrer tanto, em meus sete anos de idade, por causa de uma canção tão bela. E todo aquele passado veio à tona, justamente quando ouvi a “Canção Proibida”. E nem doeu!

 

Dulce Albert

Recife, 09/06/2018

 

UMA CANÇÃO PARA MAMÃE

Para a mãe já acamada que diziam não mais ouvia, nem falava e, talvez, visse muito pouco, só vulto, ficou junto a sua cama, e, ao confortá-la, cantarolou: “E a fonte a cantar… e a mãezinha: ‘Chuá, chuá’”… Ouviu…respondeu ao seu carinho. Com emoção gritou: mamãe cantou…mamãe cantou!

 

Elba Lins

Recife, 09/06/2018

Contato: elbalins@gmail.com

 

Na praia o sol escaldante lhe queimava a pele, potencializando o fogo que se espalhava pelo corpo.

Os olhos azuis refletiam o sol, refletiam o mar…

E sem saber que de longe alguém lhe observava, andou sem destino, procurando a companhia que melhor se adaptasse à emoção que estava sentindo.

Era solidão, era poder, era desafio…

Lembrou do filme, bem antigo.

Mergulhou na amplitude do pensamento e abordou a primeira pessoa que cruzou o caminho.

A profecia se fez, e de longe observei…

 

(A Moça com Olhos de Blues

Durante o exercício na aula de Escrita Criativa – A Música

Pensando na música La Belle de Jour, de Alceu Valença e no filme A Bela da Tarde)

 

Gabi Vieira

Recife, 09/06/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Ouviu o velho som emitido pelo aparelho quase tão velho quanto, distraindo-se do que estivesse fazendo. Na solidão do pequeno quarto, sentiu ondas de lembranças lhe levarem para outra época, outra casa, outra vida.

Uma vida na qual morava em um enorme casarão, não no minúsculo apartamento atual. Tempos em que corria por vastos jardins que faziam os simples cactos – as únicas plantas que tinha tempo para cuidar – na varanda de hoje se encolherem de vergonha. Em fantasias e com apetrechos em mãos, dançava seguindo o ritmo e a história daquela música emitida pelo mesmo aparelho – em suas memórias, limpo e recém-adquirido – que agora se empoeirava em sua sala.

Sorriu.

Com o lápis em mãos e o coração cheio de saudade, deixou que o Pirata José guiasse seus pensamentos até a princesa tão linda, ambos personagens insubstituíveis de seus sonhos de criança.

 

João Paulo Nascimento de Lucena

Recife, 09/06/2018

Contato: jpn.lucena@gmail.com

 

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”. A conformação é sempre algo que mexe com a gente. Nalguns mais do que noutros. Disseram ter a ver com o amadurecimento e citaram um romance de formação, desses em que um jovem tem sua vida apresentada no olho do furação e, no desenrolar da estória, é ou não resolvida. Algo como Truman saindo da caverna de seu próprio Big Brother – com ou sem paranóia. De tanto ouvir, de tão visível, é, por vezes, subestimado. Vai ver conformar-se é com-formar-se, em seu sentido radical: radical de raiz, de individual e coletivo. Sofreu porque, talvez, como dissera o Maluco Beleza, é “chato chegar a um objetivo num instante”. Maldita procrastinação do ser-humano.

 

Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva

Recife, 09/06/2018

Contato: duda.tenorio@hotmail.com

 

É engraçado o que girar faz com as pessoas e como a música leva a isso.

Girar por dentro em busca de algo ou girar o corpo junto com a melodia e o ritmo.

Era primeiro dia de Carnaval e, ainda reunidos na casa de um amigo,…

“Eu ia lhe chamar

Enquanto corria a barca”

Corpos que nem sempre trocam palavras iniciam um processo de trocar movimentos que vêm do som.

Arritmia. A expressão do som no espaço, o éter acima de todo e qualquer elemento, afinal, ele vem antes de tudo, até da luz.

É de onde tudo nasce. E éter é espaço. O som não se propaga no vácuo.

E é por isso que, ao se embeber de música, o ser nasce de novo.

“Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer”

 

Rackel Quintas

Recife, 09/06/2018

Contato: rackelquintas@gmail.com

 

Tomaram-lhe orelha,

garganta e boca,

entre pães e cigarro aceso;

entre-vinhos.

Naquela mesa,

era só e presente

feito a passadeira,

enfeitando todas as coisas.

Era fantasma colorido

de gozo e som

de voz grave que cantava saudade

em tons amarelos, azuis e pretos;

em lutos.

E olhava janelas-retratos,

Olhava pessoas e pássaros,

Imagens inacabadas;

Olhava pegadas.

Amarelas, azuis e pretas.

Ninguém sabia que doía tanto

uma mesa no canto

e pranto… tanto.

Tomaram-lhe as mangas, os sulcos:

Manto.

Naquela mesa está faltando

Encanto

E a saudade dele tá doendo, enfim.

 

Gabriel Nascimento

Porto Alegre, 13/06/2018

Contatos: gsabritto@yahoo.com.br e https://www.facebook.com/Reimundo45/

 

5 anos. Não mantive contagem, mas é natural que ela sim. Sou interrompido pelo concerto matutino de buzinas e gritos. Minha cabeça faz uma apresentação surpresa, o ruído das baquetas quase me leva ao frenesi.  O concerto da manhã atinge o crescendo pelas 18:00, as buzinas da Ipiranga se juntando no refrão. O zunido me mantém acordado até a madrugada, quando o dia reserva sua melhor performance. O vento toca as folhas nas árvores com dedos praticados, um maestro exemplar. A música traz sensações, e com ela lembranças, resultando em marcas úmidas em meu rosto, lembrando-me dos tempos atuais, da pessoa que não pode mais ouvir essa orquestra muda.

 

Luciana Beirão

Porto Alegre, 13/06/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

Nota MI

 

Dó, Ré, Mi, Fá, SOU.

De .

SOU de , SI.

MI FA LÁ

SI SOU,

Ou não SOU.

Ai, que DÓ.

 

Página em branco

 

Da página em branco

Sai uma nota.

Sai uma música.

Da página em branco,

Sai uma palavra.

Uma poesia.

A página em branco vira música,

Batida,

Sentimento.

Sentimos música,

Ouvimos poesia.

Aquela página virou vida.

 

Dor de cotovelo transcontinental

Marco Polo Laufer

Porto Alegre, 13/06/2018

Contato: falecom.marcopolo@gmail.com

 

Sou brasileiro. Nunca saí do Brasil. Gostaria muito de conhecer o Velho Mundo e, enquanto isso não acontece, crio mundos onde meus personagens possam viver suas vidas sem serem perturbados.

Meu sangue é bem misturado, e desde pequeno tive contato com muita gente: negros e italianos, portugueses e índios, árabes e japoneses. Mas o que mais me fascinava era quando meu pai falava com o seu Erich e a dona Sylvia, vizinhos nossos.

Fui crescendo e descobri: aquilo era alemão. O Erich Huebel nascera nos confins da Áustria e fugira para cá assim que a Segunda Guerra acabou, e falava um português todo cheio de remendos; e a dona Sylvia, benzedeira e cartomante, nascera num lugar dentro do Brasil onde todo mundo falava só naquela língua, que não se ensinava na minha escola.

O destino me levou a São Paulo, onde morei por dez anos. Aquilo foi para mim um paraíso: a babel onde se falavam mil línguas, e eu não me importava que o cheiro do esgoto se misturasse com o cheiro das especiarias e dos segredos escondidos na curva da cada esquina.

Mas uma certeza eu sempre tive: meu coração bate dentro de um iceberg no mar do norte. Não posso ouvir holandês, sueco ou qualquer desses xingamentos que lembrem neve ou um sol triste e meio apagado, que meu coração fecha os olhos e sinceramente chora.

Lembro quando isso começou a se tornar uma verdade inegável.

Eu era jovem, nervoso e desorganizado, e tudo dava errado. Só pra mim.

Um colega do cursinho teve de sair mais cedo e perguntou se eu podia ficar com uma sacola dele, que ele pegaria no dia seguinte. Eu disse que sim.

Cheguei em casa e, claro, fui bisbilhotar.

Tinha uma fita K7 escrita Björk*.

Nome estranho. ‘O’ tremado. Podia ser alemão.

Botei no som da minha irmã, rezando a Elfos e Exus que a fita não mascasse.

Era uma música muito estranha para meu ouvido inculto e muito pouco musical. Mais tarde aprendi que aquilo era um piano e um violoncelo, com uma vassourinha varrendo a bateria, e que assim tocava-se jazz.

Aquela música mexeu muito dentro de mim. Especialmente a segunda faixa.

Não entendia uma palavra. Nem inglês nem espanhol. Doce e áspera, triste e calma, uma voz de criança com trinados de gato. Era massagem em minhas orelhas e meus demônios, prontos a afiar machados e ceifar cabeças, queriam agora encontrar uma flor e dar-lhe terra, água, adubo e um vaso.

Quando findou, sentia-me órfão, não sei de quê.

Pedi uma cópia pro meu colega, que me deu a ficha completa**. Era um disco de música islandesa. Islandeses são descendentes diretos dos vikings, e era bem possível que aquelas canções anunciassem a vinda do deus do trovão ou o crepúsculo dos deuses.

Mas pelo menos me acalmavam.

Anos depois, já na era da informação, fui atrás das letras.

Realmente são faixas de jazz de estilos variados, muitas são versões de clássicos americanos, e as letras mais raivosas falam apenas de corações despedaçados.

Em especial a minha preferida, a faixa 2, com o singelo título de “Luktar Gvendur”.

A letra fala de Gvendur, o ‘acendedor de lampiões’ (Luktar), que passava pelas ruas ao cair da noite e acendia as luzes do passeio público.

“Tinha a cabeça grisalha, e a luz fazia seu cabelo brilhar; se ele avistasse um jovem casal, ele não acendia o lampião e os deixava sob a sombra da escuridão; lembrava de seu doce amor, o ressentimento passava e seu coração quebrado até conseguia sorrir um pouco.”

Meu coração ainda pulsa, um pouco mais fraco talvez, numa geleira, mas quando estou com os nervos à flor da pele, ouvir essa música é o que basta para acalmar meus monstros e dar mais um tempo até o próximo apocalipse.

* (OBS: era o começo da era do CD, eu nem tinha aparelho).

** (CD: Gling-Gló, Cantora: Björk, ano: 1990).

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Sala de imprensa:

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Nossos encontros de Junho, 2018:

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Os próximos encontros:

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Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Poemas de Cilene Santos*

Doce Amanhecer

Maio, 2018

 

Um raio do Sol

Desce à Terra.

Fecunda o ar

E faz nascer sorrisos

De olhos que já não riem.

Faz secar lágrimas

De quem já não percebe

O encanto do existir.

Desnubla olhares,

Para que toda a gente aprecie

A beleza da translucidez

De um dia de sol.

E a magnitude deste dia

Atravessa a alma de todos,

Até o ocaso,

Quando o dia findo

Despede-se e dá as boas-vindas

À noite que chega.

 

Quereres

Junho, 2018

 

Quero dividir contigo

A minha vida.

Contar segredos

Que para ninguém eu conto.

Falar dos sonhos

Que sonhei na madrugada.

Mostrar no rosto

Uma lágrima caída.

E no olhar, um sorriso de chegada.

Quero te dizer que vi

Uma flor se revelando,

Um sol se pondo

E uma estrela deslizando.

Te direi também

Que ouvi uma canção

Que de ti me fez lembrar.

Quero te surpreender

Em uma manhã de sol,

Usando aquele vestido

Branco neve de cetim.

Rir contigo, duma piada engraçada.

Depois, ficar em silêncio.

Sem pensar em nada.

Dormir abraçada a ti

E, ao acordar, ver teu rosto

Sorrindo para mim.

 

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* Cilene Santos é professora aposentada e grande poetisa. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Índex* – Maio, 2018

De Arabella

Se aproxima

O fim da sua estória

O fim da narração 

Em terceira pessoa 

Que ficcionaliza

A vida do autor

*

A morte do autor

Está em cada linha

Está em cada palavra

Contada

Narrada

Derramada

Na tela do computador 

Nas letras do teclado

Que protegem o eu

Do outro

E permitem imaginar

E concedem aproximar

O fim de uma estória 

À bordo de um avião

 

(“Arabella em apuro”, Patricia Gonçalves Tenório, 10/11/2017, 06h50)

 

Uma jornada pela Escrita Criativa no Índex de Maio, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2018 | Recife e Porto Alegre | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & convidados.

Uma leitura criativa | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS – Brasil).

O café | Cilene Santos (PE – Brasil).

Um poema criativo | Elba Lins (PB/PE – Brasil).

“BIUTFUL” (de Alejandro González Iñarritu) | por Flávia Suassuna (PE – Brasil).

Um conto heróico | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 25 de Junho de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – May, 2018 

From Arabella

Gets closer

The end of her story

The end of the narration

In third person

That fictionalizes

The life of the author

*

The author’s death

It’s on every line

It’s in every word

Told

Narrated

Spilled

On the computer screen

In the letters of the keyboard

Which protects the self

From the other

And the letters let imagine

And the letters grant get closer

The end of a story

Aboard an airplane

(“Arabella in style”, Patricia Gonçalves Tenório, 11/10/2017, 06:50 a.m.)

 

A journey through Creative Writing in the Index of May, 2018 of the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – May, 2018 | Recife and Porto Alegre | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & guests.

A creative reading | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS – Brasil).

The coffee | Cilene Santos (PE – Brasil).

A creative poem | Elba Lins (PB/PE – Brasil).

“BIUTFUL” (by Alejandro González Iñarritu) | by Flávia Suassuna (PE – Brasil).

A Heroic Tale | Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Thanks for the attention and the affection, the next post will be on June 25, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Escrita Criativa por um país mais respirável. Creative Writhing for a more breathable country.