Posts com Poesia

Índex* – Junho, 2020

Quem sou eu

Para falar de

Estrelas

E você

Me pede

Chão?

Que o sol

Brilha para

Todos

E você

Entre chuvas

E redemoinhos?

Não sei

Só sei

Que

Deus

Cosmos

O próprio sol

Ou o nome

Que desejar

Me fez

Tomar

Papel

Caneta

E lhe

Escrever

Que tudo

Irá passar

(“Para quem se sentir triste”, Patricia Gonçalves Tenório, 04/06/2020, 11h21)

 

O raio de sol da escrita no Índex de Junho, 2020 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Junho, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Diversos.

“A baronesa”: Uma novela foto-áudio-ensaística em duas vozes e dez capítulos | Com Adriano Portela (PE – Brasil), Jaíne Cintra (PE – Brasil), Juliana Aragão (PE – Brasil), Mariana Guerra (PE – Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Telefonata in “Microcosmo” | Alfredo Tagliavia (Itália).

“2020” | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

Drops de Clarice Lispector | Débora Mutter (RS – Brasil).

24, vi-vos | elilson (PE/SP – Brasil).

Infinita gratidão pelos envios, a próxima postagem será em 26 de Julho de 2020, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* June, 2020

Who am I

To talk about

Stars

And you

Ask me

For ground?

*

That the sun

Shines for

All

And you

Between rains

And swirls?

*

I do not know

I just know

That

God

Cosmos

The sun itself

Or the name

You want do call

Made me

Take

Paper

Pen

And write

You

That everything

Will pass by

(“For those who feel sad”, Patricia Gonçalves Tenório, 06/04/2020, 11:21 am)

 

The sunshine of writing in the June Index, 2020 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Online Creative Writing Studies – June, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Miscellaneous.

“A baroness”: A photo-audio-essay novel in two voices and ten chapters | With Adriano Portela (PE – Brasil), Jaíne Cintra (PE – Brasil), Juliana Aragão (PE – Brasil), Mariana Guerra (PE – Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Telefonata in “Microcosm” | Alfredo Tagliavia (Italy).

“2020” | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

Drops by Clarice Lispector | Débora Mutter (RS – Brasil).

24, I saw-you | elilson (PE/SP – Brasil).

Infinite gratitude for the contributions, the next post will be on July 26, 2020, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Fotografia George Barbosa

**

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O raio de sol da escrita preenchendo os cem dias de quarentena. Fotografia: George Barbosa. The sunshine of writing filling the hundred days of quarantine. Photography: George Barbosa.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Junho, 2020

A escrita do Leste Europeu

Patricia Gonçalves Tenório*

 

Viajamos com os Estudos em Escrita Criativa On-line quase 24 horas para estarmos aqui, no restaurante Bellevue, na Smetanovo nabrezi em Praga, com vista para a Ponte Carlos sobre o rio Vltava. O corpo, ainda modificado pelo fuso horário da viagem, encontra-se aberto para toda percepção, para qualquer sentido que o faça despertar um cenário, uma cena. Um personagem principal.

Chegamos aqui nas asas de Teresa, e Tomas, Sabina, e Franz. Os personagens que nos guiam na Praga dos anos 1960 em A insustentável leveza do ser, do escritor tcheco Milan Kundera.

Descobrimos com o professor e escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil que o seu Escrever ficção é alicerçado em dois pilares: os personagens e o sistema orgânico. Os personagens gerando os eventos imprescindíveis da narrativa. É o que nos aconselha Assis Brasil. É o que realiza Kundera, a começar por Tomas.

O espírito kafkiano impregna as paredes de cimento dos prédios burocráticos da Praga dos anos 1970. Em nós impregna o espírito da cidade, como se soubéssemos escrever em outra língua que não é e é tão diferente da nossa, assim como fizeram Kafka (em alemão) e Kundera (em francês).

Milan Kundera explica essa herança que faz autores tão diversos quanto ele mesmo, Franz Kafka e a poetisa polonesa, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 1996, Wislawa Szymborska, falarem uma mesma linguagem. A linguagem do silêncio que o totalitarismo, o comunismo, o império russo impregnou na escrita do Leste Europeu, em cidades como Varsóvia, Budapeste, Praga.

Em A insustentável, Kundera possui vários temas: o peso, a leveza, a alma, o corpo, a força, a fraqueza. E vai utilizando-os em forma de digressão, mas sempre atrelados a um personagem, sempre os iluminando e os tornando mais profundos. Enquanto isso, Szymborska, numa seleção de Poemas, navega pela política, pelo mito, e pela própria construção da poesia.

E realizamos mais uma viagem pelo Leste Europeu. Dessa vez viajamos para a Áustria e analisamos a construção da novela A baronesa (obra inédita de minha autoria, e que será lançada no site dos Estudos em formato PodCast) ambientada na época áurea da Viena do fim do século XIX e início do século XX, na qual foram contemporâneos nomes como Gustav Klimt, Otto Wagner, Arthur Schnitzler e do pai da Psicanálise, Sigmund Freud.

Finalizamos o quarto módulo dos Estudos em Escrita Criativa On-line com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados e a sugestão de filmes relacionados com o Leste Europeu e a Escrita Criativa.

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* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

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Módulo 4 – Aula 1: 

Módulo 4 – Aula 2:

Módulo 4 – Aula 3:

Módulo 4 – Aula 4:

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Exercícios de Desbloqueio – Módulo 3 – Brasil:

 

Américo Pinheiro

Contatoamericopinheiro@gmail.com

Prosa Poética

 

Andei pesquisando sobre essa tal prosa poética. É um texto em formato de prosa, porém com um pouco de estética. Parágrafos de puro lirismo, que há demais nisso? Poesia vem de poiesis, e na prosa ela deita sua prece. As palavras precisam ser sabiamente escolhidas, para formar uma combinação de todo específica. Algumas letras podem ser propositalmente repetidas, provocando no leitor uma súbita e sutil sensação de sonoridade, suave. Não parece nada fácil pra mim, mas vou tentando e tentando mesmo assim.

 

Angélica Glória

Contato: angelicagloria@id.uff.br

Te implica!

 

É que antes, pra mim, viver era como a escrita: momentos que brotam enquanto eu só acompanho. Bonito até pensar assim, sempre me achei sensível demais, única, por me deixar levar pelas contingências. É poético. Só que tem um preço. A vida que passa como uma história de fluxo contínuo, sem responsabilização, escapa da liberdade, o que tem maior valor sagrado.

Depois eu entendi que não sou um conceito, minha subjetividade é, sim, construída por mim, são nesses lances de implicação comigo mesma é que me torno mais liberta.

Fumo um cigarro de filtro amarelo sentada na baixa soleira da porta da minha avó, foi isso que me fez lembrar de Elena. Hoje, com as pernas bambas e o olfato prejudicado, minha avó não vai mais repetir as broncas que eu ouvia quando garota, fugindo para fora do casebre para dar tragadas rápidas. Então tenho bastante tempo para encarar meus pensamentos, o que me leva para um passado gelado, quando ficava horas sentada fumando com Elena, na mesa do lado de fora. Eu não tinha mais trabalho nenhum para fazer, mas queria aproveitar qualquer oportunidade para passar mais tempo com ela. Fazia frio e, mesmo agasalhada da cabeça aos pés, eu precisava acender cigarros um após o outro para aguentar a ventania no meu pescoço enquanto seguiam nossas conversas. Nem gostava tanto do cheiro da fumaça nessa época, o gosto amargo de nicotina martirizava minha boca por dentro e eu me esforçava para não transparecer numa cara feia. Posteriormente aprendi a gostar.

De alguma forma eu achava que, por ser quem me ensinou a amar, Elena era figura primordial na minha existência. Eu devia priorizá-la em tudo. Passamos incontáveis finais de semana agarradas, trocando carícias, assistindo séries na televisão pequena de sua sala de casa ou simplesmente deitadas uma ao lado da outra enquanto mexíamos no celular. No começo o silêncio ao lado de Elena era reconfortante, depois foi tornando-se tão sólido, duro, apertando meu peito todas as vezes que eu esticava minhas pernas em seu colo e ela mal me olhava.

Nossa relação foi perdendo um pouco a forma, a magia, mas Elena continuava sempre ali. Às vezes um pouco ausente, um pouco distante, necessitando da frequente corrida de minhas pernas para alcançá-la. Elena sempre me dava bolo em cima da hora ou atrasava ou aparecia no dia seguinte ao combinado e eu me sentia egoísta se não entendesse e aceitasse suas explicações. Como eu poderia julgá-la mal se gostava tanto de mim? Foi um amor confortável até nos seus desconfortos, cujos problemas eu demorei muito tempo para notar. Ficamos juntas por pouco mais de três anos. Por pelo menos metade deles, eu me senti inadequada.

Foi difícil ter forças para sair. Se eu saía, depois de pouco tempo voltava. Quando eu pensava em escapar desse ciclo e viver de uma outra maneira não conseguia porque se eu pensasse em Elena, logo via minha imagem junto a dela. As pessoas sempre nos associavam também, eu chegava em um encontro de amigos na praia ou numa lanchonete e logo perguntavam “a Elena vem?”. Nossas testemunhas sabiam que éramos inseparáveis. Mas ninguém sabia de nada, do que eu sentia, dos vácuos temporais, dos pensamentos autodestrutivos, da falta de valor que eu atribuía a mim, nem Elena. Só eu sabia.

Minha perna sinaliza que tenho uma materialidade, dando indícios que começará a ficar dormente a qualquer momento, troco de posição. Hoje faz realmente muito frio, minha coluna se arrepia e eu penso em ligar para Elena, contar como me senti durante todo aquele tempo, me explicar. Talvez se eu fosse um pouco mais sincera poderíamos ter dado certo.

Cogito um contato que sei que não farei. Foi tortuosa e lentamente, mas aprendi que a minha narrativa não se conta sem meu papel articulando os atores, tudo ficou mais fácil quando escolhi a liberdade de poder ser eu mesma. Não é tão ruim assim ficar sozinha, como eu temia.

Me levanto e volto para dentro. É hora de esquentar a janta da minha avó.

 

Bernadete Bruto

Contatobernadete.bruto@gmail.com

Crônica de uma vida anunciada

 

Mote: “Tudo havia passado, porque nada passa. É agora que tudo é.” – Adélia Prado

 

Neste intervalo de tempo, sinto que o movimento do mundo parece ter diminuído o ritmo, posso ficar aqui sentada procurando entender o que é este agora que fala Adélia Prado.

Neste intervalo de tempo, tomo consciência da finitude da vida e que muito tempo já se passou desde quando tomei conhecimento da dimensão do tempo aprendendo a contar as horas e minutos num desenho de relógio analógico. Tempo avisado por badalar relógios da minha infância.

Agora, muito já é passado. Quase uma vida inteira…vejo uma criança feliz correndo sem preocupação com as horas. Depois, uma mocinha morena na beira da praia, desfrutando o sol despreocupadamente. Mais para frente, já é uma mãe de família que trabalha e se desdobra para estar com os filhos, para tudo que precisa fazer…na escuridão da vida, uma mulher madura enfrentando a solidão, a angustia de uma longa espera de histórias sombrias…até chegar a mulher idosa reconciliada com o tempo.

Neste intervalo tempo, enquanto escrevo, sinto saudades de um passado onde muitos entes queridos ainda viviam. Procuro por eles nesses melhores momentos, no meu álbum de memórias coloridas e minha alma se conforta, porque sinto a forte presença de todos os que se foram batendo forte nesse coração. Sinto também a força de todos os antepassados que nem conheci e estão presentes em mim, através de suas histórias e do meu DNA. Meus bisavós, avós, meus tios, tias, primos e primas têm seu lugar no coração da minha grande família.

Enquanto escrevo, neste intervalo de tempo, tomo consciência da eternidade da existência dentro da vida, tão corrida e breve, que sorrio para o agora que é. Olho de frente o que foi mal passado, entretanto carrego no peito aquele passado bem passado. E porque nada passa, deixo-me levar na plenitude deste amor eterno, agora.

Recife, 27 de maio de 2020.

 

 

Elba Lins 

SENTIMENTO DE SERTÃO

Contatoelbalins@gmail.com 

 

Sentimento de Sertão!

Talvez não tenha sido uma frase vinda da boca (ou do papel) dos escritores da vez, mas quando na aula Patrícia fala em “Sentimento do Sertão” algo se liga no meu pensamento.

 

Sentimento de Sertão!

É algo longínquo no tempo

Algo distante no espaço

Mas que, uma centelha

Me traz de volta:

– O cheiro da terra molhada em dias de chuva.

– As águas enchendo as biqueiras, limpando telhados e escorrendo pelas calçadas.

– Aquela poesia de Guilherme de Almeida sobre o barquinho de papel – Quando a chuva cessava e um vento fino franzia a tarde tímida e lavada.

– Aqueles trovões distantes que de repente iam ficando próximos. O barulho dos trovões cada vez mais próximo da luz que rasgava o céu cinzento e cobria de luz breve a noite escura. Era o céu se preparando para parir, em contrações cada vez mais próximas. Era o céu abrindo seu ventre para muito em breve inundar o meu lugar. [Belíssima imagem!]

–  Os galhos secos do marmeleiro (que também era, a Fazenda do meu avô) que se faziam verdes após as chuvas.

– Os galhos do marmeleiro que tirados do pé, se transformavam em pequenos cavalos de pau. E nós corríamos em cima deles, pelo terreiro da fazenda Marmeleiro, em viagens que marcaram minha infância.

 

Sentimento de Sertão!

– É o queijo quente, feito na grande tigela.

– É a toalha de quadros tentando se despregar da mesa da fazenda para voar livre, ao vento.

– É o cavalo de verdade, onde uma vez minha prima montou e ele saiu em disparada.

 

Sentimento de Sertão!

– É quando o céu está escuro, dizer que “está bonito para chover”.  Diferentemente daqui no litoral onde dizemos que “o tempo está feio”.

 

Sentimento de Sertão!

– É tudo isso que mesmo tantos anos distantes traz à nossa alma esta presença de chão seco/ de vento seco/ de redemoinho empoeirando tudo.

 

Sentimento de Sertão!

– É ser matuto e mesmo na cidade se ver representado no trecho da música que diz

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.

(Lamento Sertanejo -Gilberto Gil / José Domingos)

 

 

Gabriela Vieira

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

“o que me comanda não gosta de divisões”, de Adélia Prado.

 

não nasci para me doar em metades.

o universo não levou todos esses anos

para criar a galáxia que dentro de mim vive

só para eu contar nos dedos as estrelas

que deixo cair de meus céus

c u i d a d o s a m e n t e

 

não, meu coração não diz meias verdades.

quando abre a boca não apenas fala,

grita para quem puder ouvir

suas dores, seus amores

porque quando eu deixo alguém aqui entrar

não é só para a vista apreciar

como uma daquelas corriqueiras paixões

mas para receber minha alma por inteiro

s e m   d e v o l u ç õ e s

 

então não ouse

esperar de mim

uma vida contida

porque não se

doar em metades

é indispensável parte

do artista cujo coração

é sua maior obra de arte.

 

Giovana Teixeira

Contatogigiteixeira.pereira@gmail.com 

 

“[…] Pois como eu disse a palavra tem que se parecer com a palavra, instrumento meu. Ou não sou um escritor? […].”

(A hora da estrela, Clarice Lispector, 1977)

 

Não sei se sou alguma coisa. Queria ser, mas me imagino à margem, não sei a qual lugar pertenço. Nada daqui, desse texto e de todos os outros, é digno de nome. Não tenho voz agora e me pergunto se alguma vez já tive. Minha voz costuma ser emprestada dos outros, assim como minha vida também os diz respeito. Tenho sede de palavras, mas elas não são minhas. O que isso faz de mim? Sou eu quem escreve, mas não sou escritora.

Não sei se estou perdendo tempo confessando minha falta de originalidade aqui. Parece-me que estou conversando comigo mesma, coisa que sempre fez sentido. Escrevo por motivos de força maior também, Clarice. Mas mesmo assim sinto que não uso meu próprio instrumento para fazê-lo, assim como também não uso de minhas próprias pernas para viver. Não sei de onde vem esse sentimento que me balança inteira, mas existem momentos que sou página em branco, quem escreve por mim são as palavras que me alimentaram desde a infância. [Belíssima imagem!] Devo sofrer com isso? Talvez não, mas sofro. Entro no campo da confusão: quero ser muito algo que ainda não sou. Vocação é mesmo diferente de talento e eu fui chamada, sim, diversas vezes me chamaram, Clarice, mas não sei como ir.

 

Joel Martins Cavalcanti

Contatojmartinscavalcante@gmail.com 

O pedido de casamento

 

Sinopse baseada na frase: “É preciso necessidade para as coisas acontecerem.” (Adélia Prado em O homem da mão seca)

 

O conto narra o pedido de casamento de João a Luiza. Apesar de trabalharem juntos há muito tempo e sentirem uma atração mútua, nenhum dos dois tinha coragem de expressar seus sentimentos. Quando Luiz, o novo empregado, chega na fábrica, e passa a se aproximar de Luíza, João fica com ciúmes. Certo dia, na hora do intervalo, quando saía do banheiro, João ouve Luiz se declarando para Luíza, interrompe a conversa de supetão, e faz o pedido, antes que ela pudesse responder ao outro.

 

Júnior Melo

Contatojuniormelo2005@gmail.com 

Desbloqueio criativo 3 (C. Lispector e A. Prado)

 

A caneta começou a riscar o papel lentamente, mas o coração batia forte. Não era inspiração, nem nada. Era raiva mesmo. Raiva de mim e dos outros. Raiva de tudo. Eu queria mesmo era sair gritando aos quatro ventos tudo que está na minha garganta feito um bago de jaca parado na goela. Mas, esse sol sobre minha cabeça, arde a alma e paralisa as atitudes. Ainda ontem, vieram me contar sobre ele. Que estava bem, que arranjou um novo amor. Uma mulher nova… não me importo. Quero mesmo é que ele refaça o calvário que teve comigo, já que me deixou. Eu? Eu sou mulher o bastante pra viver sozinha. Não sei porque o mundo masculino se acha imprescindível. Claro que na hora do sexo, sim, mas isso é tão pequeno em relação às grandes lutas. Hoje, o dia amanheceu mais calmo. O senhor do andar de cima não reclamou com a esposa na hora do café. Maria me ligou logo cedo. Mulher, pequena, ágil, nordestina. Veio morar aqui no prédio assim que chegou de Recife. Logo vi que era boa pessoa. Um dia, me percebendo triste, falou com aquela sabedoria das pessoas simples: despeja tua peleja no caderno! Ah… Maria.

 

Lis Diniz

Contato: lisgranjeiro@gmail.com

Coma poético

 

O Sol invade a rotina em anestesia com pouca frequência. Quando acontece, eu me tomo de uma dança interna como se meu corpo todo tivesse memória, mas eu sequer noto uma unha encravada, tampouco uma adaga cravada nesse vazio indigesto.

Ah, a indigestão, as palavras inauditas de um silêncio provocador. O quanto comiserei, quanto poupei o mundo de meus ordinários tropeços pensando ter alguém a assistir. Agora: aplausos para o nada. A cortina fechou.

As poéticas escapam à confusão por serem inconvencionais, disse Adélia. O tempo se confunde nessa caixa, quem diria as palavras acumuladas não transbordaram e sem as pretensiosas revoluções a poesia ficou entalada. Como um cano de esgoto, fétida, cujo caráter cáustico não corrói as paredes do silêncio, diamante de tamanha rareza e deveras lapidado, nostálgico.

Se alguém espera respostas para indagações poéticas, esse livro é mais uma pergunta a propriamente um diário de resoluções. Quem quer resoluções busca por vidas instangramáveis perfeitas e a paupérrima literatura auto-ajuda -avesso de toda poética -, por vezes sonsa e mesquinha.

Menina Clarice tinha a língua presa e além de ruiva em um país de morenos, era clandestina. Decerto romantizaram a sua existência, todo poeta carrega algum incômodo de fundo e toda poeta carrega o silêncio a mais.

Quanto tempo para desengavetar sabendo: de futuro célebre são poucas. Nas palestras um caderno cheio, nada dito. Nos recitais um constante incômodo, como o quebra-panela que fizeram em seu aniversário com uma panela de barro, mal sabiam entre as camadas de barro havia ferro.

Para fluir incólume precisaria de uma força estranha ali. Sem tamanha ousadia dos artistas performáticos e da oralidade mnemônica foi se guardando, até as pedras pesaram seu estômago, mãos e vértices. Virou um corpo poético no além êxtase flutuando sobre a vida.

 

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com 

 

 

A morta-viva

Expirou vida

À beira da morte.

 

Grávida de esperança,

Desfez-se em luz.

 

Sem título

Engasgada pelo passado

Muda pelas palavras não ditas

Cega por tudo aquilo que não queria ver

Coração descompassado por falta de amor.

Cansada

 

Ao dobrar a esquina

Descobriu-se grávida.

Grávida de esperança

Pelo que estava por vir.

 

Cai o pano.

 

Mariana Moura

Contatomariana.moura88@gmail.com

O amor às palavras

 

Aquele que gosta de escrever

Parece tradutor da vida

Ele descreve em palavras, sentimentos

Descreve pequenos grandes momentos

Como quando se vê depois de dias de mal tempo

O sol aparecendo em uma fresta entre as nuvens

Ou como quando os olhos brilham ao ver pela primeira vez

Aquele que pode ser o próximo grande amor

Ou ainda o sorriso da criança ao ver uma simples taça de sorvete

que se abre como um botão de flor

É, a poesia e a prosa são nossas portas para o mundo

E aqueles que têm em escrever mais que vontade

Uma necessidade

São a ponte.

 

Olga Nancy

Contato: olga.cortes@acad.pucrs.br

Folha em branco

 

O temor da folha em branco transforma o sentir em concretude. Mais do que isso, transforma o vazio existencial que parecia vago e abstrato, porque egoisticamente me pertencia, em algo compartilhado porque confrontado. A folha branca me confronta. Confronta-me com minha miséria de ideias, de conexões e de conhecimentos. Empobrecida, vejo-me transformada em uma máquina reprodutora de pensamentos alheios repetidos atrás dos muitos sinônimos que a rica língua portuguesa oferta. Não há tempo para maturar. É tempo de reproduzir à luz do fordismo, taylorismo e todos os ismos em que nós passivamente nos inserimos. Folha em branco, vazio concretizado, pânico instaurado. Fugir dessa branquitude é um remédio que insidiosamente torna-se um poderoso veneno. Preencher a folha de qualquer forma para escapar da angústia nos empobrece. Não é para isso que vivo. Isso é apenas sobreviver. Isso é apenas manter um controle ilusório sobre algo que adormece e logo despertará. Pensar é um ato, dizia Lispector. É um ato de resistência, talvez o único ato em que posso me singularizar, em que posso me recriar e, por meio do qual posso viver.

 

Paulo Roberto de Jesus

Contatopoujesus@hotmail.com 

 

“Não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas”, disse André pensativo. Joãozinho que o escutava atentamente disparou: ”explique, Sujeito, o que quer dizer. Para mim parece uma dessas frases de efeito”. “Frase de efeito, João? Pô, cara! Parece que não me conhece. E a frase é autoexplicativa. A interpretação faz parte do pacote”. Joãozinho gargalhou com vontade e disse: “Não falei que estava enrolando? Saiu esta frase e você disse a esmo.” O outro insatisfeito com o comentário do amigo disse: “frase de efeito é o…  tenho o meu desejo nas coisas você pode entender de maneiras diferentes. A primeira é auto evidente. Pô! Não tenho tudo que desejo, mas desejo estas coisas e por deseja-las tenho meu desejo nelas, entendeu, Caroço?” O outro coçou o nariz e disse: “Caroço é a senhora que te pariu e acho que entendi. Tenho cara de burro por acaso? E qual seria outra maneira de entender?” André disse: “Caroço, você é um caroço. E se falar da minha mother novamente o bicho vai pegar. Fique esperto, Caroço. O outro modo é que se tenho o meu desejo nas coisas é só porque tenho as coisas que desejo, só tenho as coisas que me são úteis. Óbvio. Porque teria coisas que não me fossem úteis? Neste caso não teria nelas o meu desejo, entendeu?” “Entendi, Senhor Cabeção, mas não concordo. A segunda interpretação por vós exposta não passa de enrolação, porque o mote diz que não tenho todas as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas, o que implica dizer que não são somente as coisas que possui mas estão também inclusas neste conjunto as coisas que não possui e por isto tem o seu desejo nelas, entendeu, Crânio?” “Sim, Caroço, acho que tem razão, pisei no melão…” “Caroço é a velha que te pariu”, disse Joãozinho que saiu rapidamente do lugar antes que o clima esquentasse entre os amigos.

 

“A baronesa” | Uma novela foto-áudio-ensaística em duas vozes e dez capítulos

De Charles Allington

Com Patricia Tenório e Adriano Portela

 

É com imensa alegria que apresento A baronesa: Uma novela foto-áudio-ensaística em duas vozes e dez capítulos, de Charles Allington.

Durante a pandemia de Covid-19, cada pessoa em sua residência, eu e o escritor, professor e cineasta Adriano Portela fizemos a leitura dramatizada das vozes feminina e masculina de A baronesa, sob orientação da designer Jaíne Cintra (identidade visual), Mariana Moura (edição de áudio e vídeo) e Juliana Aragão (roteiro e divulgação).

A ideia é apresentar cada capítulo nos sábados à tarde, como se fossem aquelas rádio-novelas de antigamente.

O detetive Charles Allington narra a história da baronesa Natália Shoemberg, acusada de desaparecimento e assassinato do marido, o barão Viktor Schoemberg. O cenário é a Viena do final do século XIX, início do século XX, período áureo da cidade no qual eram contemporâneos os artistas Gustav Klimt e Kolom Moser, os arquitetos Otto Wagner e Adolf Loos, os escritores Arthur Schnitzler e Hugo von Hofmannsthal, a estilista Emilie Flöge, além do pai da Psicanálise, Sigmund Freud, e do compositor Gustav Mahler.

Com vocês: A baronesa.

 

A baronesa – Charles Allington – Capítulo 1 – PDF

 

Quadro Gustav Klimt - Portrait Of Emilie Floge - 1902

Retrato de Emilie Flöge, Gustav Klimt

Índex* – Maio, 2020

Primeiro

Me concebeu

Me deu

Carne e ossos

E preencheu

De espírito

 

Curioso

Que a tudo

Pergunta

E lê

A outra face

Das histórias

O outro lado

Da palavra

Doce

Que se chama

Mãe

(“Para todas as mães do mundo”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/05/2020, 09h00)

 

Nascimentos e cuidado de mãe no Índex de Maio, 2020 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Sobre a escrita criativa III | Organização Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) | Prefácio Luiz Antonio de Assis Brasil (RS/Brasil).

Estudos em Escrita Criativa On-line – Maio, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório e Diversos.

Trechos de “Exílio” ou “Diário depois do fim do mundo” | Patricia Gonçalves Tenório.

Livres de Isabelle Macor (France).

E os links do mês com o nosso Oleg Almeida (DF/Brasil):

https://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4583&titulo=Entrevista_com_o_tradutor_Oleg_Andreev_Almeida

https://sites.google.com/site/olegalmeida/ensaios/ensaio-02

O lançamento do Sobre a escrita criativa III está acontecendo agora! Agradeço o carinho e a força de sempre, a próxima postagem será em 28 de Junho, 2020, abraços cheios de Saúde e Luz,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – May, 2020

First

She conceived me

Gave me

Meat and bones

And filled

In curious

 

Spirit

Which questions

Everything

And reads

The other face

From the stories

The other side

Of the sweet

Word 

That is called

Mom

(“For all the mothers in the world”, Patricia Gonçalves Tenório, 05/08/2020, 09 a.m.)

 

Births and mother care in the May, 2020 Index on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

About creative writing III | Organization Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) | Foreword Luiz Antonio de Assis Brasil (RS/Brasil).

Online Creative Writing Studies – May, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório and Miscellaneous.

Excerpts from “Exile” or “Diary after the end of the world” | Patricia Gonçalves Tenório.

Books from Isabelle Macor (France).

And the links of the month with our Oleg Almeida (DF/Brasil):

https://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4583&titulo=Entrevista_com_o_tradutor_Oleg_Andreev_Almeida

https://sites.google.com/site/olegalmeida/ensaios/ensaio-02

The launch of About Creative Writing III is happening now! I thank you for your affection and strength, the next post will be on June 28, 2020, hugs full of Health and Light,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Carinho de mãe e filhos, mesmo que à distância, no período de quarentena. Affection of mother and children, even at a distance, in the quarantine period.

“Sobre a escrita criativa III”* | Organização Patricia Gonçalves Tenório | Prefácio Luiz Antonio de Assis Brasil

 

O livro

Nasce

Para aquietar

A dor

Para acalmar

O corpo

Preso no

Isolamento

 

Porque a alma

Ah… a alma

É do tamanho dos

Sonhos

E muito mais…

 

(“Nasce a lenda”, Patricia Gonçalves Tenório, 01/05/2020, 05h47)

 

A literatura, quanto é vária**

Luiz Antonio de Assis Brasil

 

Quando se reúnem pessoas dotadas de vocação e força, é porque há algo superior que as une. Aqui, neste livro, a força é visível, e a vocação, inegável. Estamos falando de pessoas que se congregam em torno da literatura. A literatura é, com a desculpa das outras artes, a forma mais abrangente de expressão da sensibilidade humana, pois tem uma face bifronte: a face de quem escreve e a face de quem lê. Quem escreve necessariamente é um grande leitor. Nesta antologia estão artigos que justamente atendem a essas duas perspectivas, pois tanto há textos literários como textos que refletem acerca da escrita e do ato de escrever, fechando esse círculo virtuoso que tanto nos encanta. Daí porque o leitor de Sobre a Escrita Criativa III terá um manancial de experiências estéticas e intelectuais. Este volume resulta de diversas práticas em sala de aula, e só por isso, pela heterogeneidade de perspectivas do mundo e do ser humano, ele é capaz de levar-nos a vivenciar diferentes mundos de saber e emoção, induzindo-nos a conhecer frente e verso do ato criativo.

Muitos podem achar que ter consciência dos mecanismos da criação é um desmancha-prazeres; muito ao contrário: conhecer é, também, uma forma de prazer. Lembremo-nos de Edgar Allan Poe, que escreveu o extraordinário poema “The Raven”, e, dado o grande sucesso com que foi recebido, resultou num outro texto do mesmo Poe, “The Philosophy of Composition”, em que o poeta explica o mecanismo que utilizou para escrever o poema, e esse ensaio célebre causa tanto prazer quanto a leitura do próprio “The Raven”. Assim, sugiro ao leitor abeirar-se desses textos sem prejulgamentos, e que os percorra sem se perguntar acerca do gênero que está lendo – se poesia, se prosa, se prosa poética, se reflexão teórica. Tenha em conta que nossa época rompeu as compartimentações esquemáticas dos gêneros literários e, por outro lado, a sucessão da variedade atende ao desejo contemporâneo de tudo investigar, tudo fruir, como um jornal de faits divers, só que, dessa vez, com conteúdo. Por último, quero registrar a proeza que é publicar este volume; dadas as condições dispersivas da cultura e da economia brasileira, cada livro que sai ao público pode ser considerado um milagre. Mas cada milagre tem quem o realize, e é fácil identificar esta pessoa: Patricia Gonçalves Tenório. Ela é a alma e a razão desta coletânea. Praticando a expressão de Quintiliano, suave in modo fortiter in re, Patricia literalmente consegue culminar todos seus propósitos, e o resultado está aqui, neste terceiro tomo de uma sequência que tem tudo para seguir em frente. E agora a palavra está com você, leitor.

Porto Alegre, verão de 2020.

 

 

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* Veja também no http://www.patriciatenorio.com.br/?p=9215

** Prefácio de Luiz Antonio de Assis Brasil em Sobre a escrita criativa III. Diversos autores. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Recife: Raio de Sol, 15 de maio 2020, às 19h.

*** Booktrailer de Sobre a escrita criativa III. Com Luiz Antonio de Assis Brasil, Adriano Portela, Bernardo Bueno, Bernadete Bruto, Elba Lins e Raldianny Pereira. Design: Jaíne Cintra. Roteiro: Juliana Aragão. Edição: Mariana Guerra.

Sobre a escrita criativa III – PDF: Sobre a escrita criativa III

Estudos em Escrita Criativa On-line – Maio, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório*

Eu vi o mundo… ele começava no Recife

Antes da pandemia, acordaríamos cedo e sairíamos, a pé, para nos deslumbrarmos com uma cidade que parecia não ser nossa, como se estivéssemos em um país que não é nosso, como se fôssemos estrangeiros: Recife do Marco Zero, Rua do Bom Jesus, Torre Malakoff, Praça da República, Rua da Aurora, Praça Maciel Pinheiro, Brasília Teimosa, Pina, Boa Viagem.

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Foi essa a cidade escolhida para falarmos para o mundo – como pintou o artista pernambucano Cícero Dias  no painel “Eu vi o mundo… ele começava no Recife” –, no terceiro módulo do curso gratuito Estudos em Escrita Criativa On-line, cidade que vestirá com suas cores uma das escritoras que se sentia a mais brasileira de todas, apesar de haver nascido na Ucrânia, e habitou em Recife ainda na infância: Clarice Lispector.

A começar pelo conto “Felicidade clandestina”, que nos descreve uma Clarice menina e o desejo de ler um livro: As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. O cenário é o centro do Recife. Podemos imaginar a pobre menina Clarice caminhando pelas ruas da capital pernambucana, saindo da Praça Maciel Pinheiro em direção à Rua da Imperatriz, buscando o livro desejado em uma das principais livrarias da cidade. E uma colega rica, depois de exercer um poder sádico em reter o livro desejado, é obrigada pela mãe a cedê-lo, por tempo indeterminado, à menina pobre que, ao chegar em casa, toma-o nos braços, na rede, e se faz mulher com o livro-amante.

Chegaríamos ao estado-nação das Minas Gerais. Viríamos de ônibus noturno do Rio de Janeiro de Macabéa (de A hora da estrela, de Clarice) para cá, numa viagem de doze horas. Sentiríamos o aroma mineiro, o sabor do pão de queijo, da couve refogada, do doce de leite com queijo minas. Olharíamos ao redor, e parece que também nos sentiríamos em casa, apesar das singularidades ou alteridades de cada tempo-espaço visitado.

Em O homem da mão seca, da poetisa e escritora mineira Adélia Prado, a narradora Antônia escreve em seus cadernos poéticas, compartilha conosco segredos do seu processo de criação. Descobrimos que sempre fecha as passagens, revisando os conceitos, e que uma personagem (a filha Clara) fala dentro da fala da outra personagem (a mãe Antônia), como se fossem aquelas bonecas russas, as mamuskas.

Finalizamos o terceiro módulo dos EEC On-line com um exercício de desbloqueio a partir das autoras elencadas e a sugestão de filmes relacionados com Recife, Minas Gerais, Brasil e a Escrita Criativa.

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* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

 

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Módulo 2 – Aula 4 – Portugal:

 

Módulo 3 – Aula 1 – Brasil:

Módulo 3 – Aula 2 – Brasil:

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E os nossos Exercícios de Desbloqueio!

 

Módulo 1 – Língua Inglesa:

 

Ágata Cruz

Contato: agatamg7@gmail.com 

Olhar Offred (of Fred)

 

Eu a via com diversão, estava exausto, tenso, irritado, com medo. Mas agora, iria relaxar. Seus olhos me fitavam com medo, mas eu não me importava, no fundo a guerra tinha endurecido meu coração. Era provável que antes disso eu não a tratasse assim, me lembro de Anne. Ela me lembra a Anne. Tão doce, suas mãos eram macias, seu beijo era suave, seus olhos me olhavam com amor, com desejo. Nunca pude ter a Anne por completo em meus braços e abraços e saciar o meu desejo. Mas ela não está mais aqui, a guerra destruiu todos os nossos planos… Quem sabe destruiu também os planos dessa aia… Mas isso não importa, porque estou pensando isso? O que está acontecendo comigo? Devo estar completamente louco, estressado. Não perderei mais tempo e irei simplesmente me satisfazer esta noite. Não serei delicado, como seria com Anne. Não farei ela feliz, como faria com a Anne. Anne… Ela se parece com a Anne. Que saudade que sinto! Meu peito está apertado, não posso demonstrar afeto… Porque não? Será que a guerra também não destruiu os sonhos dela? O que está acontecendo comigo?! Devo estar ficando completamente louco…

Já chega de pensar e ficar perdido em meus devaneios do passado. Preciso aceitar que a Anne se foi e nunca mais irá voltar. Nunca mais a terei em meus braços.

Daqui sinto o medo dessa mulher como nunca antes senti. Realmente não devo estar bem, não posso deixar que perceba. Mas ela está tão tensa que não consigo evitar. Seus olhos, seus olhos me fitam com ódio, nojo e repulsa. Ela não me quer, como a Anne me queria. Mas ela se parece com a Anne. Eu a beijo com doçura, envolvo meu braço em sua cintura e minha mão em sua nuca. Sei que ela está me olhando, mas sinto seus ombros relaxarem. Continuo a beijá-la e agora parece que a Anne está em meus braços, sinto seu cheiro, sinto sua mão macia no meu rosto. Estou completamente apaixonado, a beijo com mais intensidade, sinto seus braços em volta do meu pescoço, ela cada vez mais próxima a mim corresponde com paixão. Me sinto feliz, mais leve, amo a Anne. Essa será a nossa primeira noite e farei com que seja inesquecível para ela. Paro pra respirar e me afasto um pouco, abro os olhos e… onde está a Anne? O que aconteceu? Quem a levou?

 

Olga Nancy

Contato: olga.cortes@acad.pucrs.br 

(Sem título)

03/04/2020

 

Arquitetura.

Tua.

Nada.

Crua. Safada.

Fada.

Sem asa. Amada.

Calada!

(Sem título)

 

Victoria Gorelik

Contato: gorelik.vbg@gmail.com 

 

A catarse é sem sentido

Voz teimosa

Negação

Maníaco quer ordenar

A desordem com sentido

Quer dar-se vida

A ti

Que morreu

És enlutado às palavras

Tenta formas à dependência

 

Mas sua catarse tem sentido

E o sintoma é escritor

 

Módulo 2 – Portugal:

 

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com  

Atracada em casa

“Viver a vida em sonho falso é sempre viver a vida.”

                                                                                                            (Livro do desassossego, Fernando Pessoa)

                                                                                                             

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Sentada naquela sala de casa, sem saída, a empregada pública, em frente ao computador, olha na tela o cursor que pisca, como se contasse o tempo de espera para se ter uma resposta. Sente a solidão deste trabalho em tempo incerto.

Enquanto espera, no silêncio da manhã, ouve em seu coração o compassado eco das ondas do mar e sonha. Vê o amplo mar que cobriu sua infância e juventude. Mar por diversas vezes experimentado em vários tons, gosto e tepidez, hoje, uma quimera escondida no fundo da alma, no mar absoluto de seus pensamentos e naquele quadro afixado na parede.

Despertando do transe, a empregada pública responde ao e-mail que brota na tela, como uma concha na areia da praia, depois que a onda recuou. Em resposta, recebe um WhatsApp com explicações mais detalhadas sobre o que fazer, rompendo o sossego das quatro paredes onde está encerrada.  Mais incógnita do que antes, aguarda um sinal de vida vindo lá de fora. Notícias boas e as más…

Em seu trabalho solitário, emparedada como aquela tela onde barcos enfileirados estão refletidos no mar, ela sente sua limitação. Recorda da velha imensidão do mar, da existência colorida, além de seu apartamento, além do tempo. Aquele instante eterno, aquele rumor de gente saudável, contente!

O que ela sente, ali atracada, é o que os portugueses nos confiaram desde o nascimento e se chama SAUDADE.

 

Elba Lins

Contatoelbalins@gmail.com

Isolamento Social

29.04.2020

 

Nestes dias de solidão inquietante

Preciso desenhar dentro de mim

O mundo inteiro

O sol

O mar

A vastidão infinita de pessoas

 

Sou só.

Um simples fio.

E não posso ser puxado para fora

Para não destruir toda

A trama tecida do Universo.

 

Sou apenas uma dama de ouro

Que se tirada destrói

O castelo de cartas.

 

Johany Medeiros

Contato: johanymedeiros6@gmail.com 

Isolamento de uma poetisa II

 

Você trocou o verde por arranha-céus e
claustrofóbicas massas cinzentas.
Partiu para a cidade grande,
para poluição constante,
sem ao menos me dizer adeus.

Enquanto isso,
escrevo poemas que nunca chegarão até você,
mantenho-me isolada do que sobrou do mundo,
porque preciso,
— porque eu quero,
porque não mais posso olhar os pássaros do meu jardim,
admirá-los, sem me sentir culpada.

Afinal, eles me ensinaram a voar
e você sempre teve medo de altura.
— por que você não gosta de pássaros?

 

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com

De Fora Pra Dentro

 

A cidade,

Antes agitada,

De repente parou.

Aquietou-se.

E eu,

Aqui dentro,

Consigo ouvir

O canto dos pássaros.

Uma criança que brinca,

Alheia aos perigos que nos assolam.

Consigo escutar o silêncio.

Consigo escutar o meu silêncio.

Meus pensamentos,

A minha alma,

Que me acalma.

Eu, aqui de dentro,

Estou aprendendo a olhar pra dentro.

 

Mariana Moura

Contato: mariana.moura88@gmail.com

O Mar e o fim de tarde

 

Lá no final dessa vila circundada de areia

Existe um pôr-do-sol irretocável

Que cai todos os dias alaranjado, como se o mar beijasse

Nele mora toda a simplicidade do que é viver em plenitude

Contemplar aqueles instantes do dia traz todo o sentido da existência

Que é amor gratidão paz e presença

Os quais vêm como ondas mostrando que nada é perene

Mas taí a vida em magnitude.

 

Giovana Teixeira Pereira

Contato: gigiteixeira.pereira@gmail.com 

UM DIA NA FEIRA, SONHOS E EU

 

Minha mãe me acordou cedo naquela manhã de sábado. Tínhamos que ir às compras, porque muita coisa lá em casa estava acabando. Leite, pão, manteiga, arroz. Essas coisas, sabe. Nem fiquei brava nem nada, porque a verdade é que as férias já estavam me cansando. Tudo o que eu fazia era dormir, comer e brincar (mas não era legal, porque eu não tenho irmãos, então sempre tenho que inventar todas as brincadeiras sozinha).

Desci as escadas bem rápido depois de trocar a roupa e escovar os dentes. Encontrei mamãe no quintal me esperando e regando nosso jardim. O dia estava bem claro, sabe, como aqueles dias de verão em que você, ou tem piscina, ou derrete no sol.

Bom, saímos logo em seguida e mamãe disse que antes do mercado íamos à feira. Eu não me importei. A verdade é que estava um pouco desanimada. Todas as minhas amigas tinham ido viajar e eu não tinha nada para fazer durante o dia. Às vezes eu conversava com a minha mãe, mas não eram conversas muito longas. Quando eu dizia isso para ela, mamãe falava: “Bom, mas é claro, você tem nove anos, o que uma menina de nove anos e uma mulher de quarenta e dois vão dizer uma para a outra? Você devia procurar a Laís para brincar um pouco, ela vai adorar.” Eu consegui pensar em muitas coisas sobre as quais podíamos conversar, mas não disse nada, porque mamãe parecia ter certeza. (Laís era uma garota que morava lá na rua, mas ela era cinco anos mais velha do que eu e eu não achava que gostava tanto assim de mim. Os adultos nunca entendem as coisas direito.)

Quando chegamos à feira já tinha bastante movimento. Mamãe e eu estávamos na barraca das maçãs quando uma senhora com um vestido lilás falou “Roberta, quanto tempo!!!!” Mamãe virou e respondeu “Madalena, meu Deus! Quando foi a última vez que nos vimos mesmo?” E as duas começaram a conversar como se eu nem estivesse ali. Fiquei meio emburrada. Até minha mãe tinha uma amiga e eu não. Quando a senhora que minha mãe chamou de Madalena pareceu me notar, mamãe me apresentou para ela como sua filha, Elena, só de nove anos.

Depois daquele dia fiquei pensando nas palavras dela, porque eu não entendia. Por que eu tinha nove anos? Minha mãe tinha quarenta e dois? Parecia que a única coisa que eu tinha era aquilo, mais nada. Seria isso eu? Só o meu tamanho? Talvez seja por isso que mamãe nunca conversa comigo e ninguém me enxerga direito na feira. Não sei se faz sentido, mas eu não me acho tão pequena assim. Quero dizer, sei que sou pequena, mas não me sinto assim. Meus sonhos são bem grandes, isso não vale de nada? Não quero crescer só para ter tamanho, já sou grande, porque tenho sonhos. Sabe, eu queria muito falar isso para mamãe, mas não acho que ela ia me ouvir. Aí acabei escrevendo aqui.

 

 

Vanessa da Silva

Contatonessacy99@gmail.com

Adentro de mim

 

Uma vez, certamente, li…

Que sou do tamanho que me vejo

Como posso então ir

Além dos acordes desse sofrimento

Que enfrento no meu mundo adentro?

 

Sou feita de grandes desafios em um mar aberto

Coberta de tamanha profundeza

Eu sou meu mundo inteiro ferido

Que se dissolve no restante do

Cosmos místico.

 

 

Trechos de “Exílio” ou “Diário depois do fim do mundo”* | Patricia Gonçalves Tenório

Março, Abril, Maio…, 2020

 

Dia 4

 

21 de março. Sábado. 11h45 da manhã.

Estou no meu quarto e resolvi escrever uma espécie de diário para acompanhar o período de exílio.

Acordei às 06h com Preta latindo muito para alguém descer. Minha filha levantou meio tonta e desceu com ela, mas fiquei preocupada se a cachorrinha continuava com diarreia, e não consegui meditar.

Meditar me deixa em paz comigo mesma. Assim como ir para a missa, e amanhã não poderei ir. Parece que faz um mês que fui para a missa no domingo passado, e não sei quando poderei ir novamente. Parece que faz um mês que foi o dia 1.

 

Dia 1

 

Quarta-feira. 15h11.

Passei o dia tentando ensaiar para as gravações de sábado pela manhã. Conseguimos chegar em quinhentas inscrições no site e cem no Youtube dos Estudos em Escrita Criativa On-line.

É o que me salva. Deus, em primeiro lugar, e a minha produção em segundo. Mas em segundo lugar encontra-se também a análise, que faço há quase quinze anos.

Não consegui ensaiar para as gravações de sábado pela manhã, porque sou muito autocrítica. Assim como estamos autocentrados nesse período de exílio.

Mas penso que a tensão de ir para São Paulo, no auge da pandemia, é o motivo principal para não conseguir ensaiar, para não me considerar suficientemente boa, nem como escritora, professora, mulher. Mãe.

O voo está marcado para as 19h45. Havíamos escolhido esse horário por causa das aulas do meu filho mais novo, que foram suspensas desde segunda-feira. No final, não teve aula, mas demoramos a chegar no aeroporto, a companhia aérea informou que havia cancelado nossas passagens e nos colocou no próximo voo para São Paulo.

Meu filho caçula estava muito angustiado com essa viagem. O problema do zumbido contínuo no ouvido esquerdo e a possibilidade de perder a audição o fez querer ir logo a São Paulo para uma consulta com uma otorrino especializada na área e pesquisadora da USP.

Mas São Paulo é uma cidade de alto risco da pandemia. Saímos de casa de máscaras-filtro doadas pelo pai do meu filho, e ficamos o tempo inteiro lavando as mãos.

Chegamos em São Paulo às 00h30. Fomos para o hotel, ficamos no mesmo quarto. Finalmente retiramos as máscaras. Meu rosto estava todo marcado.

 

[…]

 

Dia 40

 

Segunda-feira. 09h.

Hoje fazem quarenta dias que escrevo neste Diário.

Ontem terminei de ler Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

Os dois, a escrita e a leitura, começaram no mesmo Dia 04, sábado 21/03/2020. Quanto tempo se passou, e parece que foi ontem. Sinto um cansaço imenso, uma vontade infinita de dormir para sempre. Mas ainda bem que as obrigações me chamam – guardar roupas lavadas desde sexta-feira, higienizar o pano de chão da entrada que faço diariamente, fazer café, dar água e comida de Preta, porque a minha filha já desceu com ela.

Sinto-me abandonada pelo livro que terminei de ler.  Mas existem outros na biblioteca, e é bom dar um tempo – ou fazer o luto da leitura, como dizem alguns –, para depois começar a ler uma nova história.

Parece que Saramago adivinhou o período de desterro. Ou mesmo me adivinhava. Porque encontro, quase no finalzinho do Ensaio:

“À noite não comeram, só o rapazinho estrábico recebeu algo para entretenimento dos queixos e engano do apetite, os outros sentaram-se a ouvir ler o livro, ao menos o espírito não poderá protestar contra a falta de nutrimento, o mau é que a debilidade do corpo levava algumas vezes a distrair-se a atenção da mente, e não era por falta de interesse intelectual, não, o que acontecia era deslizar o cérebro para uma meia modorra, como um animal que se dispôs a hibernar, adeus mundo, por isso não era raro cerrarem estes ouvintes mansamente as pálpebras, punham-se a seguir com os olhos da alma as peripécias do enredo, até que um lance mais enérgico os sacudia do torpor, quando não era simplesmente o ruído do livro encadernado ao fechar-se de estalo, a mulher do médico tinha destas delicadezas, não queria dar a entender que sabia que o devaneador estava a dormir.”[1]

 

Saramago utiliza técnicas de escrita refinadíssimas, tais como repetição de listas, mas em contextos diferentes…

“Proclamava-se ali o fim do mundo, a salvação penitencial, a visão do sétimo dia, o advento do anjo, a colisão cósmica, a extinção do sol, o espírito da tribo, a seiva da mandrágora, o unguento do tigre, a virtude do signo, a disciplina do vento, o perfume da lua, a reivindicação da treva, o poder do esconjuro, a marca do calcanhar, a crucificação da rosa, a pureza da linfa, o sangue do gato preto, a dormência da sombra, a revolta das marés, a lógica da antropofagia, a castração sem dor, a tatuagem divina, a cegueira voluntária, o pensamento convexo, o côncavo, o plano, o vertical, o inclinado, o concentrado, o disperso, o fugido, a oblação das cordas vocais, a morte da palavra, Aqui não há ninguém a falar de organização, disse a mulher do médico ao marido, Talvez a organização seja noutra praça, respondeu ele.”[2]

 

[…]

 

“Proclamava-se ali os princípios fundamentais dos grandes sistemas organizados, a propriedade privada, o livre câmbio, o mercado, a bolsa, a taxação fiscal, o juro, a apropriação, a desapropriação, a produção, a distribuição, o consumo, o abastecimento e o desabastecimento, a riqueza e a pobreza, a comunicação, a repressão e a delinquência, as lotarias, os edifícios prisionais, o código penal, o código civil, o código das estradas, o dicionário, a lista de telefones, as redes de prostituição, as fábricas de material de guerra, as forças armadas, os cemitérios, a polícia, o contrabando, as drogas, os tráficos ilícitos permitidos, a investigação farmacêutica, o jogo, o preço das curas e dos funerais, a justiça, o empréstimo, os partidos políticos, as eleições, os parlamentos, os governos, o pensamento convexo, o côncavo, o plano, o vertical, o inclinado, o concentrado, o disperso, o fugido, a oblação das cordas vocais, a morte da palavra, Aqui fala-se de organização, disse a mulher do médico ao marido, Já reparei, respondeu ele, e calou-se.”[3]

 

… descrição de personagens sem lhes dar nomes, mas que intuímos quem são…

“[…] todas as imagens da igreja tinham os olhos vendados, as esculturas com um pano branco atado ao redor da cabeça, as pinturas com uma grossa pincelada de tinta branca, estava além uma mulher a ensinar a filha a ler [Sant’Ana e a Virgem Maria criança], e as duas tinham os olhos tapados, e um velho com um livro aberto onde se sentava um menino pequeno [São José e o Menino Jesus], e os dois tinham os olhos tapados, e um velho de barbas compridas, com três chaves na mão [São Pedro], e tinha os olhos tapados, e outro homem com o corpo cravejado de flechas [São Sebastião], e tinha os olhos tapados […].”[4]

 

… isso tudo sem dizer, mas mostrando.

Chove muito em Recife. Fecho as páginas do Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. A pandemia pode acabar a qualquer instante. Ou não. Durar meses feito a cegueira branca. Ou quando vejo a notícia no portal da UOL: Fernando Meirelles contraiu a Covid-19 e afirma que esta pandemia é infinitamente menos impactante que os problemas ecológicos. Coincidência? O mesmo homem que levou ao cinema a adaptação do Ensaio[5]?

Não acredito em coincidências. Apenas sei que preciso fazer, no sistema do banco do celular, os pagamentos e as transferências da semana, ir na biblioteca procurar um novo livro para ler, e talvez aguardar mais quarenta dias, quarenta meses. A vida inteira.

 

[…]

 

Dia 53

 

Domingo. 09h44. Dia das Mães. Estou no meu quarto depois de um início de dia abençoado, com envio de poema e vídeo “Para todas as mães do mundo”, assistir missa com padre Marcelo Rossi e dom Fernando Figueiredo desde o começo (está começando agora umas 06h10 na Rede Globo), tomar café demorado, organizar sala, cozinha, lavanderia, higienizar a entrada com água sanitária e pinho, descer com Preta somente às 09h30 e alimentá-la. Um dia perfeito.

Ontem à noite gravei seis vídeos. O do poema de hoje pela manhã, e os das leituras de cinco poetas que amo de paixão para postar nos Estudos em Escrita Criativa durante a quarentena – Poesia para sublimar a dor.

Começando com a poetisa russa Anna Akhmátova e o seu “Terceira”:

“Eu, como um rio,

fui desviada por estes duros tempos.

deram-me uma vida interina. E ela pôs-se a fluir

num curso diferente, passando pela minha outra vida,

e eu já não reconhecia mais minhas próprias margens.

Oh, quantos espetáculos perdi,

quantas vezes o pano ergueu-se

e caiu sem mim. Quantos de meus amigos

nunca encontrei uma só vez em toda a minha vida,

e quantas paisagens de cidades

poderiam ter-me arrancado lágrimas dos olhos;

mas só conheço uma cidade neste mundo

embora nela fosse capaz de achar meu caminho até dormindo;

e quantos poemas nunca cheguei a escrever,

e seus refrões misteriosos pairam à minha volta […]”[6]

**

Depois me emaranhei na “Ubiquidade” do pernambucano-recifense-brasileiro Manuel Bandeira:

“Estás em tudo que penso,

Estás em quanto imagino:

Estás no horizonte imenso,

Estás no grão pequenino.

 

Estás na ovelha que pasce,

Estás no rio que corre:

Estás em tudo que nasce,

Estás em tudo que morre.

 

Em tudo estás, nem repousas,

Ó ser tão mesmo e diverso!

(Eras no início das cousas,

Serás no fim do universo.)

 

Estás na alma e nos sentidos.

Estás no espírito, estás

Na letra, e, os tempos cumpridos,

No céu, no céu estarás.”[7]

**

Flanei na brisa d“A rua dos cataventos”, do gaúcho-brasileiro Mário Quintana:

“I

Escrevo diante da janela aberta.

Minha caneta é cor das venezianas:

Verde!… E que leves, lindas filigranas

Desenha o sol na página deserta!

 

Não sei que paisagista doidivanas

Mistura os tons… acerta… desacerta…

Sempre em busca de nova descoberta,

Vai colorindo as horas quotidianas…

 

Jogos da luz dançando na folhagem!

Do que eu ia escrever até me esqueço…

Pra que pensar? Também sou da paisagem…

 

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…

E me transmuto… iriso-me… estremeço…

Nos leves dedos que me vão pintando!”[8]

 

Confirmo a força da escrita própria da mineira-brasileira Adélia Prado em “Oráculos de maio”:

“Sei que Deus mora em mim

como em sua melhor casa.

Sou sua paisagem,

sua retorta alquímica

e para sua alegria

seus dois olhos.

Mas esta letra é minha.”[9]

**

E finalizo quebrando todas as barreiras de tempo e espaço, que a Poesia gentilmente nos oferece, com “Pleno de vida agora”, do poeta estadunidense-do-norte Walt Whitman:

“Pleno de vida agora, sólido, visível,

Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três anos de Estados Unidos,

A alguém, um século adiante ou muitos séculos adiante,

A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.

 

Quando leres estes versos, eu, que era visível, invisível me terei tornado,

Agora és tu, sólido, visível, lendo meus poemas, procurando-me,

Imagino a tua felicidade se eu pudesse estar contigo e fosse teu camarada,

Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não estejas tão certo de que não estou neste momento junto a ti.)”[10]

 

O dia de hoje está sendo perfeito. O de ontem também.

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*Trechos de Exílio ou Diário depois do fim do mundo encontram-se também no blog de Moema Vilela https://www.osdiaseasnoites.com.br

** Esses e outros vídeos também serão postados nos stories do Instagram dos Estudos em Escrita Criativa: @estudosemescritacriativa

[1] SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 305-306.

[2] SARAMAGO, José. Op. cit., p. 284, sublinhado nosso.

[3] SARAMAGO, José. Op. cit., p. 295-296, sublinhado nosso.

[4] SARAMAGO, José. Op. cit., p. 301, colchetes nossos.

[5] Trata-se de Ensaio sobre a cegueira. Blindness. 2008. Brasil, Canadá, Japão. 121 min. Direção: Fernando Meirelles. Com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Danny Glover, Sandra Oh, Alice Braga, entre outros. Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=kxvKalWMPb0

[6] AKHMÁTOVA, Anna. Terceira. In Antologia poética. Seleção, tradução, apresentação e notas: Lauro Machado Coelho. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009, p. 125, colchetes nossos.

[7] BANDEIRA, Manuel. Ubiquidade. In Bandeira de bolso: uma antologia poética. Organização e apresentação: Mara Jardim. Porto Alegre, RS: L&PM, 2008, p. 110-111.

[8] QUINTANA, Mario. I A rua dos cataventos. In Quintana de bolso. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 7.

[9] PRADO, Adélia in HOHLFELDT, Antonio. Oráculos de maio. In A epifania da condição feminina. In Cadernos de Literatura Brasileira. Número 9. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2000, p. 96.

[10] WHITMAN, Walt. Pleno de vida agora. In Folhas de relva. Tradução: Luciano Alves Meira. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 149.

Livres de Isabelle Macor*

Fragment de dialogue K.Lenkowska - L'Harmattan - Trad. I. Macor - jpg

Mémoire opérationnelle_Pamiec operacyjna Ewa Lipska - Introduction et Traduction Isabelel Macor - jpg

Ouvrage chez L'Arbre à paroles 02-05-2020 à 23.26

Ouvrage chez Noir sur Blanc

Ouvrage publié chez Aubier - Flammarion jpeg

Ouvrages - Halina Poswiatowska 01-05-2020 à 16.19

Ouvrages publiés chez Grèges - 30-04-2020 à 23.21

Ouvrages publiés chez Lanskine 30-04-2020 à 23.45

 

* Contactisabelle.macor@gmail.com

Índex* – Abril, 2020

A poeta

Ressuscitou

No quadragésimo

Dia

Abriu

A porta de casa

Enxergou

Em cores novas

Os girassóis

As borboletas

Aquele menino

Nos degraus da igreja

Pedindo esmola

Aquela senhora

Bem velhinha

Sem conseguir

Atravessar a rua

O jovem perdido

Nas drogas

Implorando atenção

 

E entregou

De corpo

Alma

Coração

Inteiros

A imensidão

De poesia

Presa ali

No seu peito

(“Páscoa”, Patricia Gonçalves Tenório, 09/04/2020, 09h09)

 

Páscoa em período de quarentena no Índex de Abril, 2020 no blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa On-line | Patricia Gonçalves Tenório.

Sobre a escrita criativa III | O lançamento | Diversos.

Poemas de Cilene Santos (PE – Brasil).

Prosa poética de Cristina Albert Mesquita (PE – Brasil).

Revista e Premio Il Convivio (Itália).

Agradecemos o carinho de sempre, desejamos muita Paz, Saúde e Luz, abraço bem grande e até a próxima postagem, excepcionalmente, em 15 de maio de 2020,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index*  April, 2020

 

The poet

Risen

In the fortieth

Day

Opened

The door of home

She saw

In new colors

Sunflowers

The butterflies

That boy

On the steps of the church

Asking for alms

That lady

Well old lady

Without achieving

Cross the street

The young man

Lost on drugs

Begging attention

 

And she delivered

Body

Soul

Heart

Entirely

The immensity

Of poetry

Stuck there

In her chest

(“Easter”, Patricia Gonçalves Tenório, 04/09/2020, 09h09 a.m.)

 

Easter in quarantine in the April Index, 2020 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog (PE – Brasil).

Creative Writing Studies Online | Patricia Gonçalves Tenório.

About creative writing III | The launch | Several.

Poems by Cilene Santos (PE – Brasil).

Poetic prose by Cristina Albert Mesquita (PE – Brasil).

Il Convivio Magazine and Award (Italy).

We thank you for your love, we wish you a lot of Peace, Health and Light, a big hug and until the next post, exceptionally, on May 15, 2020,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** 21/04/2020. 06h. A poeta passeando, de carro fechado, pelas ruas vazias do Recife Antigo. 04/21/2020. 6 a.m.. The poet walking, in a closed car, through the empty streets of Recife Antigo.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Abril, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório*

Oh, Portugal!

 

Somos nós, brasileiros, seres portugueses. No paladar, nas tradições, em um certo modo de ver o mundo que nos (re)une através do mar, como se pudéssemos ver o Marco Zero das Américas, aqui em Recife, lá no farol do Cabo da Roca, o ponto mais a oeste do continente europeu.

Em época de quarentena, iniciamos gratuitamente em março 2020 o curso Estudos em Escrita Criativa On-line**. No segundo módulo, investigamos a cultura que também nos deu origem, e dois escritores/poetas que nos são muito caros: Sophia de Mello Breyner Andresen e Fernando Pessoa. Começamos pelo mar de Sophia. Autora nenhuma representou tão bem o mar português como Andresen. Além de transitar pelos mitos, a política e os poetas eleitos pelo coração, encontramos no Oceanário de Lisboa poemas de Sophia cantando o mar e os seus encantos, os braços dos versos tombando nas areias das praias portuguesas.

O importante para nós dos EEC é, através da relação entre a literatura e outras artes e áreas de conhecimento, descobrirmos quais foram as técnicas utilizadas por cada escritor/poeta, apreendermos até entrar no sangue e nos esquecermos no momento de pôr em prática. E encontramos um grande manual de Escrita Criativa em outro poeta português: Fernando Pessoa.

“Esta é uma autobiografia sem fatos”. Fernando Antonio Nogueira Pessoa assim apresenta um dos seus livros mais contundentes: o Livro do Desassossego. Sob a máscara do semi-heterônimo Bernardo Soares – um sujeito que Pessoa afirma ter conhecido em um restaurante e que lhe confia os escritos para fazer o que bem quisesse –, Fernando passeia pela própria subjetividade e investiga diversas questões da natureza humana.

O tema dos nossos Estudos é a Escrita Criativa. E a temática, a viagem. Viajar sem sair da própria cidade de Lisboa. Essa é a proposta de Bernardo/Fernando, esse é o desejo de Soares/Pessoa. Vestido de prosa, mas sem perder a poeticidade do olhar, o Livro também desfia questões da escrita, a começar pela reunião dos heterônimos em um mesmo espaço-texto, além de referências explícitas ao próprio fazer literário de quem o escreve sem querer escrever.

E apresentamos um pouco do conceito de autobioficção (interstício entre a autobiografia e a autoficção), defendido em nossa tese em Escrita Criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em outubro de 2018.

Finalizamos o segundo módulo dos EEC On-line com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados e a sugestão de filmes e séries relacionados com Portugal e a Escrita Criativa.

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Módulo 2 – Aula 1:

Módulo 2 – Aula 2:

Módulo 2 – Aula 3:

 

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É com imensa alegria que compartilho os cinco primeiros textos dos participantes:

 

Exercícios de Desbloqueio do Módulo 1 – Língua Inglesa:

 

Aylanne Silvestre

Contato: aylanne.adriano@gmail.com

 

O sonho contado na janela

Da janela do teu mundo, me disseste que tu já não eras a mesma, mas essa afirmação apareceu de forma tão sofrida e entrecortada que quase não pude compreender. Da minha janela te perguntei o que te fez acreditar em uma mudança em tão pouco tempo nesses dias que se sucedem, esses dias que ninguém aguardava:  dias de morte, sofrimento, solidão, dias de janelas abertas e de portas fechadas.  Me disseste que não compreendias mais o sentido da existência das portas e, por isso, não eras mais a mesma. Da minha janela eu te disse que determinadas situações inesperadas nos obrigam a refletir sobre ações cotidianas remotas que costumamos realizar de forma automática. Me disseste que tu não eras real e que nada disso que vivemos é verdade: as barreiras que se erguiam entre nós, a sobrevivência que dependia do isolamento, o governo nas mãos de um lunático, pessoas que não gozavam do mesmo privilégio de poucos e permaneciam desprotegidas. Injustiça, desigualdade … Tudo é fruto de um sonho.

Mas sonhos têm fim, quando acordamos. E mesmo que não façam sentido, apresentem fatores inesperados e sem correlações aparentes, os sucedidos são baseados naquilo que habita nosso inconsciente, portanto, sonhos são verdades, porém nem sempre visíveis a olho nu. Pensando nisso, te disse então: “Mas ao que me parece todos somos fruto de um sonho”. A minha divagação te fez calar. Pensei: O que é então real? Se sonhos são uma sucessão de eventos inesperados e verdadeiros – pois tudo que habita o inconsciente existe de fato – o que diferencia a realidade e o sonho? Não soube assim responder a mim mesma, mas pude chegar à conclusão que talvez tu estivesses em um estado de choque por negação.  Não queríeis aceitar o que nós, seres humanos, fizéramos para nos colocar aqui nessa história que se segue, nesse movimento derradeiro e agônico do presente, presos nessa miragem do tempo.

“Posso te provar que isso é um sonho? Tudo isso pode acabar rapidamente, eu posso fazer tudo sumir” depois de uma longa pausa silenciosa, ouvi essa pergunta que denotava uma tristeza contagiante, com a voz rouca que expressava grande sofrimento. Não te respondi de imediato, senti um enorme peso na tua dúvida, tua voz exprimia que dentro de ti existia uma angústia que fui incapaz de decifrar. Ao te perguntar como poderias fazer isso, me pediste então para eu descrever exatamente o que estava vendo da minha janela, senti uma vontade de alento no teu pedido, como aqueles desejos que sucedem uma catástrofe, consolos de desastres premeditados. Ignorei essa intuição negativa, quis me convencer que nisso existia um suspiro de normalidade, pois tens prazer nas minhas narrativas descritivas. Naquele exato instante, eu via a selva de pedra que preenche a paisagem que todos os dias contemplo, o manto de um azul enegrecido como pano de fundo e seis majestosas luas crescentes dançavam com suas luzes cintilantes no alto. Olhando para baixo, as luzes artificiais traziam formas diversas, nas quais eu já estava ambientada, tudo conforme as aparições cotidianas e a fase planetária que vivíamos no momento; ressaltei apenas que não via nenhum ser humano a caminhar pelas ruas, como antes era habitual. O silêncio, então, voltou a penetrar-nos e doía aos ouvidos, doía o coração, pois penetrava ao estilo de uma afiada agulha de crochê, como se quisesse costurar alguma coisa por dentro, mas não achava linha.

Então passei a ouvir tua respiração pungente, ofegante, atrapalhada. Ah, tamanha tortura! E eu inerte. Tu estavas chorando, soluçavas com desespero. O teu tormento era para mim compreensível, porém, indecifrável. Por fim, soltaste um longo grito e nada mais pude ouvir, olhei da minha janela para o chão e senti o horror me invadir dos pés à cabeça. Vi o teu corpo envolto em uma poça de sangue, cheguei a duvidar, mas vi que eras mesmo tu: teus cabelos, o pijama azul claro de cetim que eu tanto gosto, tu estavas lá, como uma estrela em teu próprio céu líquido, no qual, por um toque de ingênua beleza natural, projetou-se um singelo espelho lunar. Tanta dor atingiu meu peito ao te ver tão bela e tristemente morta, não enxerguei o menor resquício de vida em ti. Senti uma luz envolver e queimar meu corpo, despertar meus olhos e, repentinamente, tudo eras mesmo um sonho.

 

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

Ainda bem

Ainda bem
Que agora encontrei você
Eu realmente não sei
O que eu fiz pra merecer
Você

(Ainda bem, Marisa Monte)

 

Encerrado em casa, não sabia o que fazer diante do medo. O noticiário avisava que o vírus ainda ia se propagar bastante e em progressão geométrica. Talvez, por essa razão, a ansiedade que brotava do noticiário escorreu da tela por água abaixo como se fosse numa enxurrada e espalhava-se no chão da sala.

Era um liquido verde gosmento. Não sabia como estancar aquela praga que, de repente, entrara em seu lar. Depressa, já alcançava outros cômodos. Ia entrando pelos quartos, banheiro, cozinha. Estranhamente concentrava-se na sua casa… Não escapava pelas frestas, parecia mais uma escolha particular em estabelecer-se ali. Que estranho!

Agora, subia vertiginosamente, como no tempo daquelas enchentes presenciadas por ele na infância, e invadia as casas numa rapidez tão grande, levando tudo quanto existia, tudo que era bem querido: gente, pertences, bichos. Todos carregados da mesma forma que as árvores, para serem encontrados como um entulho, espolio de uma devastação muito tempo depois.

A dificuldade maior daquele vírus invasor era o fato de ser uma gosma, como as gelecas que as crianças usam para brincar, e aderia ao corpo, dificultando os movimentos. Como aumentava seu volume da mesma forma que numa enchente, já estava na altura do pescoço. Ao perceber o fim bem próximo, surgiu um último pensamento: Queria ter feito tanta coisa ainda… agora, nunca, nunca mais! Que fim mais triste acabar uma existência por conta de um vírus! Assim tão de repente…

Neste triste pensamento, acorda. Ainda bem que foi apenas um sonho! Entretanto, sabe o que significa o medo. Observa ele, o gosmento, procurando brechas para se instalar em seu espírito. Por esta razão, levanta-se prontamente para fazer alguma coisa. Qualquer iniciativa que dê sentido à vida naquele momento. Não quer mais saber o que não pode ser, o que não serve mais… Ainda há tempo para fazer coisas que lhe façam feliz ou apenas ser simplesmente. Caminha descalço, com tranquilidade em direção à sala. Lá, pode sentir sua alma. Está em casa! Olha ao redor, constata que a TV está desligada e tudo é paz. “Ainda Bem!”

 

Recife, 31 de março de 2020.

 

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

 

EM TEMPOS SOMBRIOS ESPERO SATURNO

01.04.2020

 

Quem sou eu?

Quem somos todos nós?

Que aflitos anseiam,

Pela passagem do tempo.

 

A morte da humanidade

Se desenhando

Nas telas de TV

Me fazem pequena

“Um número”

Que tenta se esvaziar

Do supérfluo

E vê o quanto estamos sós

 

A morte da humanidade

Se alastrando a cada dia

Nas telas de TV

Me fazem frágil

Pequena noz

No oceano

Das dores humanas

 

A morte da humanidade

Por culpa

Dos que não querem

Apenas ficar em casa

Me mostram

Como ainda precisamos

Nos esvaziar da carcaça do ego

Da ilusão do poder

 

A morte da humanidade

De todas as cores

De todas as raças

De todo o Planeta

Estampada na tela de TV

 

Me faz clamar

Pelo retorno de Saturno

Apressando o tempo

E nos deixando viver.

 

Saturno, Senhor do tempo!

Acelera os relógios

Para que este pesadelo

Acabe.

 

Gabriela Vieira

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Verdade Não Dita

 

se a mais verdadeira beleza

for aquela que se faz presente

em gestos, formas, sons

se for aquela que se mostra

quando seu amor dança,

esbanja o maior dos sorrisos

e dele faz nascer uma gargalhada,

 

talvez haja então

uma verdade não dita

pois o que vejo quando observo

seu sono, sua respiração

regular em meu peito,

quando ouço um

comentário indignado

– que, sem ser visto, no meu rosto

faz nascer um sorriso –

ou o que vejo quando

meu amor faz o mais

corriqueiro dos movimentos

também deve ser considerado beleza

ou não são belas

todas as coisas lindas do mundo.

 

 

Juliana Almeida

Contato: jualmeidacordeiro@gmail.com

 

Mary Shelley contrariou a regra

As regras

Várias

Todas elas

 

Um bom romance só se faz depois dos trinta

Quarenta ou mesmo sessenta

Mulher não escreve

E o que é essa narrativa

Esses monstros…

Mary, o que você fez?

Ele está vivo!

Até hoje está vivo!

 

Assombrados, lemos outra vez

 

Esse Victor é um verdadeiro monstro

Mas Frankenstein é um monstro

Exatamente, Frankenstein é o sobrenome de Victor

E qual o nome do monstro

Victor não deu, criou e deixou solto no mundo, sem orientação nenhuma

Isso é um pai?

 

Isso é um pai?

 

Quem é o monstro?

O que é ser monstro?

Vai, Mary, uma pista

 

Leia outra vez

 

Mary, quantas outras não tiveram a tua sorte?

Foi sorte?

Sendo mulher, acho que precisava de um pouco de sorte

Esses homens…

Aqueles homens!

 

O que faz uma mulher?

 

Exercícios de Desbloqueio do Módulo 2 – Portugal (em processo, falta a 4a aula na terça-feira 28/04/2020):

 

Joel Martins Cavalcante

Contato: jmartinscavalcante@gmail.com

 

A lua no mar

 

Que raiva. Que dor. Eu queria tá na praia. Queria tá no show de Ana. Era meu sonho. Show de Ana na praia. Por que ele fez isso? Por quê? Faz quase um ano que terminamos, mas não consigo esquecê-lo.

Lembro até hoje do dia que nos vimos. Do primeiro beijo. Retiro de Carnaval. Eu saí de minha cidade e fui até a dele. Claro que eu queria conhecê-lo, vê-lo pessoalmente. Não aguentava mais as conversas pelas redes sociais.

Foi tudo de última hora. O pessoal havia me chamado para o retiro de Carnaval. Eu disse que não ia. Queria mesmo ficar em casa. Eu nem era tão próximo dos meninos desse grupo de oração novo. No dia de ir, sábado, antes do Carnaval, eu disse vou. Arrumei tudo muito rápido. Disse a mãe que ia ficar retirado por quatro dias. Ela apoiou, claro.

Chegando lá, antes de entrar na escola, meu coração acelera. Minhas mãos tremem.  O suor escorre pelo meu corpo. Chego no local. Ele está na portaria. “Oi, tudo bem?” “Tudo bem, e você?” “Também”. Sigo para a sala que seria meu quarto pelos dias seguintes. Achei ele frio comigo. Seria só impressão? Não sei. Vou até a portaria, sento ao lado dele. Falo que finalmente nos vimos. Ele disse que bom, né? Tão seco. Desisti. Fui procurar o povo chato que eu tinha ido para o retiro.

Teve a missa de abertura. Teve o jantar com cuscuz e ovos depois. Teve a festa com frevo católico. Teve adoração na sala do Sacrário. Fui pra lá. Rezei. Meu coração apaixonado doía. Eu disse a Deus que tirasse aquela dor de mim. Uma senhora vem orar por mim, coloca as mãos na minha cabeça. Fica um tempão rezando. Percebi que ela queria me fazer descansar, um tipo de desmaio, pra relaxar no Espírito Santo. Faço o que ela quer.

Vou dormir. É tarde da noite. No quarto muita bagunça, muita conversa. Todo retiro é assim. As pessoas aproveitam o quarto pra fazer tudo o que não podem fazer fora. Eu tento dormir, mas o sono não vem. Saio. Vou pra um canto afastado da escola. Fico lá um tempão. Do nada, ele aparece. Pergunta se pode sentar. “Claro, fique à vontade”, eu digo. Tremo. Ficamos olhando para o escuro. A frieza que ele me recebeu no início se transforma em conversa plena. Parecíamos velhos amigos.

Madrugada entra. As vozes silenciam nos quartos. O povo tá dormindo. Eu e ele. Só. A escola é nossa. Ninguém por perto. Conversa avança. Nos beijamos. Até hoje sinto o gosto do beijo dele. Ficamos os dias todos do retiro entre missas, orações, terços, e beijos e abraços. Que tudo.

Pouco depois começamos a namorar. Tudo intenso. Ele diz que me ama. Um dia, na sua casa, o pai dele nos pega. Ele enfrenta o pai. Diz que me ama na frente do progenitor. Sou expulso de lá. Mas continuamos por uns meses. Fizemos planos. Um deles era estar no show de Ana, numa noite de luar. Mas acabamos.

É janeiro. Tem shows na orla de João Pessoa. Um dos shows é o de Ana. Vejo no Twitter ele dizendo que iria com o atual namorado. Que dor. Que angústia. Era para eu estar com ele. Praia de Tambaú. Aquele mar lindo. Noite de lua cheia.

Léo, meu amigo, me liga. “Vamos ao show de Ana?” “Vou não, não posso, estou doente”. Minto. “Está bom. Vou indo. Xau”. Começo a beber. Fico embriagado. Que dor. Choro. Puxo os cabelos. Tremo. Em algum lugar da praia, diante do mar, naquela noite de lua, ele estaria beijando o atual, quando poderíamos, deveríamos, era para ser nós dois lá, abraçados, com os lábios colados, dançando com as canções de Ana Carolina.

 

Vanessa da Silva

Contatonessacy99@gmail.com

 

Adentro de mim

Uma vez, certamente, li…

Que sou do tamanho que me vejo

Como posso então ir

Além dos acordes desse sofrimento

Que enfrento no meu mundo adentro?

 

Sou feita de grandes desafios em um mar aberto

Coberta de tamanha profundeza

Eu sou meu mundo inteiro ferido

Que se dissolve no restante do

Cosmos místico.

 

 

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* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

** Com design de Jaíne Cintra (PE), câmera e edição de Mariana Guerra (PE), roteiro e redes sociais de Juliana Aragão (PE). O curso fornece certificado de participação por módulo e total (oito módulos).