Posts com Escrita Criativa

Índex* | Novembro, 2021

Quando olho

O ano inteiro

Nem parece

Que acabou

Nem merece

Uma tristeza

Vinda

De qualquer

Parte

Só amor

Só amor

Só amor

*

(“21 de novembro”, Patricia Gonçalves Tenório, 18/11/2021, 14h33)

*

Na edição de aniversário, no Índex de Novembro, 2021, no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Novembro, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Diversos.

Dois livros por mês | Artemísias: vozes de libertação (Organização: Iaranda Barbosa, PE/Brasil) & Amora (Natalia Borges Polesso, RS/Brasil).

O jogo das contas de vidro, Hermann Hesse | Texto: Patricia Gonçalves Tenório. Fotografias: Angeli Soares (AL/Brasil).

Poema e foto de Altair Martins (RS/Brasil).

Poemas de Angelo Manitta (Itália).

Exposição de George Barbosa (PE/Brasil).

A arte de Rozze Domingues (PE/Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 26 de Dezembro de 2021, grande abraço e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

________________________________________

Index* | November, 2021

When I look

The whole year

Does not seem

That ended

Neither deserves

A sadness

Coming

Of any

Part

Just love

Just love

Just love

*

(“November 21”, Patricia Gonçalves Tenório, 11/18/2021, 2:33 pm)

*

In the anniversary edition, at Index of November, 2021, on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Studies in Creative Writing Online | November, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Miscellaneous.

Two books a month | Artemísias: voices of liberation (Organization: Iaranda Barbosa, PE/Brasil) & Amora (Natalia Borges Polesso, RS/Brasil).

The Glass Bead Game, Hermann Hesse | Text: Patricia Gonçalves Tenório. Photographs: Angeli Soares (AL/Brasil).

Poem and photo by Altair Martins (RS/Brasil).

Poems by Angelo Manitta (Italy).

Exhibition by George Barbosa (PE/Brasil).

The art of Rozze Domingues (PE/Brasil).

Thank you for your attention and affection, the next post will be on December 26th, 2021, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

________________________________________

**

________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Uma nova etapa de vida, poesia, literatura e amor. A new stage in life, poetry, literature and love.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Novembro, 2021

No mês de novembro de 2021, navegamos pelas veredas do segundo escritor mineiro do nosso curso, de Cordisburgo para o mundo, João Guimarães Rosa, e com o escritor gaúcho Gustavo Melo Czekster.

*

Primeira Aula do Módulo 11:

*

*

Na primeira aula do módulo 11, iniciamos a “Travessia” de Milton Nascimento na obra icônica de João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas, que condensa a vida inteira do autor, assim como nosso curso on-line, não somente “Os mundos de dentro” em 2021, mas desde o começo em 2020; constatamos a intergenericidade de Guimarães (poesia, conto, romance, ensaio) numa mesma obra e a inovação linguística, com as diversas técnicas de escrita criativa encontradas no livro; analisamos os diversos temas possíveis de Grande sertão; comparamos a técnica do refrão, encontrada em “A filosofia da composição”, de Edgar Allan Poe com “Viver é muito perigoso” e “O diabo na rua, no meio do redemoinho…” que Guimarães nos presenteia para não nos perdermos na narrativa caudalosa e intensificar o texto até atingirmos a catarse no final;

*

Segunda Aula do Módulo 11:

*

*

Na segunda aula do módulo, constatamos o fazer fazendo do livro com a presença do alterego de Guimarães no rapaz da cidade, que encontramos também em Amar, verbo intransitivo: idílio, de Mário de Andrade estudado no módulo 9; falamos mais uma vez sobre os diversos temas possíveis de Grande sertão; observamos o ziguezague da narrativa, semelhante às associações livres defendidas por Sigmund Freud; identificamos a semelhança com Hilda Hilst (módulo 8) nas crônicas e com Vinicius de Moraes (módulo 5) nas músicas; concordamos com a técnica de Assis Brasil de saber o fim de um romance para irmos aprendendo, durante a leitura, como o escritor construiu sua história; verificamos a circularidade do romance de Guimarães, tendo como símbolo máximo o infinito; visitamos virtualmente a casa museu de Guimarães em Cordisburgo, MG; apresentamos a teoria-pergunta de Gustavo Melo Czekster em A nota amarela: Devo ser o/a autor/a do romance que imaginei?; sugerimos filmes e exercício de desbloqueio.

*

Terceira Aula do Módulo 10:

*

E foi com imensa alegria que recebemos o advogado, escritor, doutor (PUCRS) e professor de Escrita Criativa Gustavo Melo Czekster na última quarta-feira 24/11/2021 na live sobre João Guimarães Rosa do nosso canal do YouTube. O próximo e último escritor a ser estudado no nosso curso é Mario Quintana e a escritora convidada é Gisela Rodriguez, além de um lançamento muito especial! Não percam!

*

https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

*

Exercícios de desbloqueio:

*

Módulo 5 – Vinicius de Moraes:

*

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com  

VEM

*   

Vem ouvir Vinicius

Vem viver a vida.

Não a vida inventada,

Mas a vida de verdade.

*

Vem ouvir Vinícius

Vem viver a vida.

Não a vida virtual,

Mas a vida visceral.

*

Vem ouvir Vinícius,

Vem evitar o vazio.

Sem vacilar.

Vem!

*

Módulo 7 – Cora Coralina:

*

Diego Pereira

Contato: diegopereiranoleto@hotmail.com

As pequenas que cantam de lá

O homem só aumentou o volume. Bastou. A dois passos de chegar, fugiu-me um pouco de ar do peito, e me sentei no meio-fio ajustando os braços sobre o colo e as mãos em concha ao redor das orelhas. Era Tânia, e eu a ouvia numa voz bem calma e áspera, como o tipo de grama macia que você toca com os pés e sente a textura arranhando sua pele.

Minha mulher me deixou para trás, e, dez passos à frente, já bem perto do vendedor, voltou-se para me ver sentado. Levantou os braços. “Que foi?” Parou ao lado da barraca de vendas.

Mas eu ouvia Tânia – o som de sua voz vindo até mim – e, através dos meus poros, sua música extinguia por alguns segundos o mundo de cá, essa enorme avenida por onde outras pessoas caminhavam e corriam, suas sombras se projetando nas minhas costas e no chão; e extinguia também o céu do final da tarde, esse mar de cores do poente, e o meu cansaço.

Enxuguei o suor das têmporas e um pouco de água nas sobrancelhas, que cobriam e manchavam meus olhos, e desciam até o queixo e me davam um gosto na boca. Era salgado. Salgado como aquelas ondas que vinham rebentar na calçada, com uma pancada imensa espalhando gotas brilhosas de sal, suas ondas com espuma branca chegando até a areia da encosta.

Esqueci essa imagem do mar; esqueci onde estava. Qual foi a última vez? Tânia cantando numa tarde na casa dos meus pais.

Sempre o rádio naquela sintonia, e era o prelúdio para tudo que íamos fazer em casa, desde a manhã até à noite, como um alerta, para mim, de que já era dia – que eu via claro através das brechas da janela – e os primeiros raios de sol pareciam sempre melodias úmidas de orvalho de alguma música suave que saia pelo pequeno aparelho de rádio sob a máquina de lavar e que me brindavam rascantes pelo peito.

Mas não ouço mais nosso programa favorito. Mudei de cidade, mudei de casa duas vezes, pensava, pegando um pouco a carne engelhada da perna, e achei diferente da pele que me habitava. Mas essa lembrança de agora, esse som de bolero que se confunde com o respiro do mar, me diz um nome, numa pronúncia suave de todas as letras que me deram quando criança, e pelas sombras no chão eu revia os números douradas do nosso antigo endereço. Por que parei? Queria ouvir aquelas canções. Pus as mãos no chão, queria sentir o tremor do aparelho de som sobre a máquina ou a bancada da cozinha, o tremor suave nos talheres, e um pouco de chiado; quero sentir, porque cada nova nota é aquela surpresa do desagradável e a felicidade dos momentos em que meus pais podiam dançar juntos – como em sua juventude – ou uma melodia em que mamãe podia cantarolar, como sempre fazia aos sábados pela manhã.

Gosto de música porque eles cantavam para mim quando eu era criança. Lembrei os discos empilhados em suas capas colorias, seus passos de dança do bolero da Tânia Alves, um quadro de Chet Baker na parede como marcas e… uma linha do Jazz de um compositor branquelo. Meu pai dizia que aquele outro não cantava, e a voz do Cartola se arrastando, craquelada, o som da agulha raspando o disco. “O que você acha? Qual sua opinião?”, perguntava.

“Eu amo”, foi o que respondi.

“O quê?”, perguntou Ana. Ouviu de forma mais nítida só a última palavra. Escapou um sorriso de sua boca.

Eu amo essa distância. Talvez tivesse dito.

Ela tinha nas mãos uma garrafa de água. O homem da barraca olhava para nós. A música que vinha do seu rádio já era outra, também distante.

Levantei-me, olhei o aparelho do homem ali, um radinho pequeno e marrom, que me fez sorrir. Tomei sua mão e fomos juntos até o carro.

“Tudo bem com você?”

“Sim”, respondi. Sentia saudades de casa, só isso.

E nos distanciamos dali por um caminho longo e já há muito silencioso.

*

Módulo 8 – Hilda Hilst:

*

Márcia Regina Araújo

Contato: marcia.araujo@ifpi.edu.br

*

O meu mundo, exausto, desistiu.

Quantos amores viram abortos forçados

Extraídos à violência de impedimentos fúteis?

Quanta vida é abandonada

Pela morte trágica

Linha habitual do não dever?

Quanto sonho é vilipendiado

Pela realidade cinza do cotidiano…

                        medíocre?!

Quantos corações são implodidos

Violentamente pelo dever de

Permanecer?

Existe morte e crueza no limite

Imposto pela realidade                      

                        (a que me coube!)

A fraqueza me revolta!

                        Eu choro

                                    ela

Um lamento pelo compulsório

Caminho miserável de

Não viver e seguir…

                        indo!

Sem alma!

Precipício e abandono!

A minha vida me ama!

Mas o que eu faço dela

                        me odeia!

*

Módulo 9 – Mário de Andrade:

*

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Exercício de desbloqueio relativo ao mês de setembro de 2021

Sinopse

Arqueólogo com especialização em espeleologia descobre túnel inexplorado que pode mudar a história dos deslocamentos humanos na face da Terra, mas ao mesmo tempo em que se aproxima do sonho de fazer história, vê exacerbado o medo de pequenos espaços.

Personagem

Tremendamente obstinado, não abre mão dos objetivos, não desanima facilmente, grande bagagem teórica, dando os primeiros passos nas pesquisas de campo. É bastante observador – qualidade indispensável no seu trabalho. Petrus é alto, forte e sempre se dedicou aos esportes radicais ao ar livre. Mas tem um problema que o persegue desde cedo e que ele insiste em manter em segredo: o medo de pequenos espaços.

Lista de Providências e Planejamento – Desenvolver o personagem, como são suas relações com os companheiros de trabalho, os amigos, as mulheres etc. Sua família que se resume ao pai, já que perdeu a mãe ao nascer.

A questão essencial do personagem.

O medo dos pequenos espaços e sua dificuldade em encarar o problema.

Lista de Providências e Planejamento –

Buscar informações sobre o tipo de fobia de Petrus.

O conflito da narrativa

O conflito vai surgir exatamente por conta da dificuldade em expressar o medo de pequenos espaços e este será o espaço quase que permanente dos seus próximos meses.

O enredo e a estrutura

O enredo tratará do caminho a ser percorrido por Petrus. Enquanto se empolga com os resultados do trabalho de exploração dos túneis, ele entra em contato com seu lado mais obscuro e vai descobrindo a própria história e as raízes dos seus medos.

A estrutura da narrativa deve ser fragmentada levando o leitor do presente ao passado numa exploração da vida de Petrus. Em paralelo este mesmo caminho leva à possível descoberta da história do ser humano na face da terra.

Lista de Providências e Planejamento – Mesmo sabendo tratar-se de ficção estudar sobre o assunto para dar maior credibilidade à história a ser inventada.

O enredo e a estrutura

Para trabalhar o enredo poderemos utilizar uma fundamentação baseada na jornada do herói. Sem, no entanto, ficar totalmente condicionada a este.  A conclusão final pode ser o retorno com o elixir ou a danação total.

Vale salientar que ao mesmo tempo tentaremos abordar a escrita por Petrus do seu caderno de observações dos trabalhos que de forma não programada trará no seu conteúdo muitos aspectos psicológicos e comportamentais vivenciados e anotados por Petrus.

A focalização

A princípio haverá dois tipos de focalização:

– interna na 1ª pessoa, quando se tratar do tempo presente,

– externa na 3ª pessoa quando se tratar de flashback

O espaço

 Lista de Providências e Planejamento –

Tipo de espaço de cenário a ser utilizado em cada cena.

O tempo 

O tempo será marcado por cada etapa dos trabalhos de exploração de túneis não faz muito e também com todo o processo que levou ao nascimento de Petrus.

O estilo  

O estilo será intermediário entre o essencial e o abundante (sem chegar a tanto), já que envolverá aspectos de comportamento humano.

*

Módulo 10 – Carlos Drummond de Andrade:

*

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

*

Carta a Carlos Drummond de Andrade

*

Ilmo. Sr.

Carlos Drummond de Andrade

Praça do Centenário, 137, Centro –

Itabira/MG – CEP: 35900-023

*

Prezado Drummond,

*

            Passei uma hora tentando escrever uma carta para você, Carlos! Mas os dedos não conseguem digitar a escrita desta mulher, que por traz do computador não é nada séria, essa mulher por traz do computador que é meio moleque, apesar da idade! Além disso, tem boas amigas e amigos dentro de seu coração.  Uma senhora de coração aberto seria rima e solução neste vasto mundo. Desde o princípio gostei dessa possibilidade de um mundo vasto onde mais vasto seria meu coração. Que vibração boa entregaste para uma adolescente. A mulher não esqueceu, apesar de escrever esta carta meio atravessada, misto de exercício de escrita e de brincadeira.

            Se no meio do caminho da escrita existe a pedra, eu penso que seja a pedra bruta que preciso lapidar como me ensinaram. Devo desbastar o texto deixando a pérola. A pedra do meio do caminho da vida, ficou lá como semente de textos catárticos e de alma lavada! Aquela que te escreve hoje sabe que a palavra montanhosa é galeria vertical varando o ferro para chegar ao âmago da escrita. O que dizer para o ilustre itabirano, oitenta por cento de ferro? Eu que sou mar aberto esparramado na costa da existência? Somente conjugando o verbo amar seu lado, querido poeta! Amar simplesmente amar e esquecer, amar e malamar. Amar, desamar, amar!

Passei uma hora tentando escrever essa carta para entender que o processo criativo leva também a energia de cada momento de seus poemas que inundam a minha vida inteira. Então, não serei uma poeta de um mundo caduco, aprendo contigo e com todos poetas que passam pela minha vida formando uma escrita camaleoa. De agora em diante, não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Gratidão, essa palavra-tudo!

Ciao!

*

Bernadete Bruto

*

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com  

*

INFÂNCIA

*

   Era criança. À tardinha, os irmãos sentávamos na soleira da porta. Havia, perto da casa, um sítio ou era uma fazenda. Não lembro. Lembro bem que, em todas as tardes, passava em nossa porta, um carro de bois, carregado de palmas, para a alimentação do gado. As rodas eram de madeira e arrastavam-se cansadas, pela terra. O seu rangido parecia um lamento. A força e o peso da carroça dilaceravam as pedrinhas. Não esqueci aquele chiado que lembrava o atrito da pedra mó, quando moíamos o milho. E os meus olhos acompanhavam a carroça até o final da rua, quando ela dobrava a esquina. Minha atenção voltava-se agora para o alto. Lá no horizonte, o sol se punha, dourando a tarde fresca de verão. Uma revoada de arribaçãs passava no céu, à procura de abrigo. Eram milhares e voavam juntas. Revolteavam em movimentos sincronizados, formando imagens estranhas, em seu bailado. Enormes, fantasmagóricas. Esquecia aquelas imagens e voltava-me para a noite, com um céu sertanejo respingado de estrelas. Pouco a pouco, escurecia. Hora de entrar para a ceia. Todos ao redor da mesa. Havia silêncio. Tínhamos medo de papai. Após a ceia, ficávamos na sala.

   Sempre surgia alguém para ler um Cordel, à luz do candeeiro. Papai ou um vizinho fazia a leitura. As crianças ainda não frequentavam a escola. Eu ouvia atenta aquelas histórias. Umas alegres, outras bem tristes. Algumas me emocionavam, ao ponto de me fazerem chorar, como a história de um pintinho que se perdeu de sua mãe e sofreu muito, até reencontrá-la. Nas noites de Cordel, eu dormia e sonhava com personagens das histórias lidas. Sem saber, eu já estava entrando no maravilhoso mundo da palavra.

*

Diego Pereira

São Luís, 30 de outubro, 2021

*

Querida Dêva…

Prometi te escrever, não o fiz, e essas palavras estão já há anos-luz de distância. Por isso não sei por onde começar. Aqui chove, aquela garoa de fim de tarde, que invade a varanda e as janelas. É o vento forte, muito forte e às vezes gelado, tão diferente do nosso calor. Te falo da chuva porque na última vez em que fui até aí, uma torrencial me pegou na volta. Era aquela de agosto, a mesma que antecede a colheita das mangas. Lembra-te? A gente se encontrava na praça, no banco laranja, esperando o cimento da calçada esfriar, para nos sentar no piso e comermos as mangas doces de fiapo. E enquanto voltava para casa as gotas de chuva no vidro da janela fechada me trouxe você e teus olhos marejados, tua boca curva e trêmula, teu peito inquieto e tua mão que desenhava não sei quê para mim. Faz tanto tempo? Não, e para mim é como um gosto rápido no palato, ou cheiro que vem de uma brisa às cinco da tarde, e quase tua mão na minha, uns sons da Sarah Voughan que posso jurar ser tua voz.

Tenho saudades. Aqui ainda é tudo muito silêncio, de amor e de gente, de avenidas iluminadas pelos carros que exalam seu vapor. Acho que ainda estou nascendo por aqui, descobrindo cores e palavras. Não travei muitos amigos, não me sentei nos cafés. Mas quero, porque é preciso dar abraços ao abraço, e essa cidade me põe em seu colo, como se abrisse no peito uma brecha a me conter. Tudo sorri: tem casarões lindos, prédios históricos, lendas de rua e de água, e, ao final do dia, as luzes amarelas se acendem e a gente pensa estar em algum mês do século XIX ou num cenário de filme francês. E tem o pôr do sol. Essa cidade é o pôr do sol, e, em cada escadaria, nas dunas, no palácio do governo ou na enseada, entre barcos de pobres pescadores, é possível ver o pôr do sol, o mais lindo que tu poderias ver.

Eu o vejo sempre que posso – e quando quero – porque é tudo saudade. Então é comum que eu saia para andar um pouco no centro, e entre num sebo ou numa loja de bricabraque, e depois desço ao Palácio dos Leões de onde se pode disputar a beleza de mais um adeus. Queria que estivesses aqui, sei que tu a amaria também, como eu já a amo. Íamos à praia, ver o mar e os enormes cargueiros que à noite parecem vagalumes. É lindo. Vem, e assim a solidão se torna um fardo leve, até prazeroso e romântico. Ontem mesmo fui ver o mar, e via longe aqueles barcos cheios de gente. Pensei naqueles corações solitários e distantes, eles também, de muita coisa. Isso me reconfortou. Sim, deixou-me um pouco feliz, e menos sozinho ao reconhecê-los tão iguais a mim. Vem, se puderes – se quiseres – mas não tarda, porque a vida cansa e às vezes não abençoa, e eu sigo bem devagar na companhia dos que ainda esperam.

Diego Noleto

*

Ilana Kaufman

Contato: ilakau7@gmail.com

Prezado Carlos Drummond de Andrade,

Espero encontrá-lo em paz. Escrevo esta carta com o intuito de contar um pouco sobre o meu fazer literário.                                   

Um lápis, um caderno e o meu tão sonhado e nem sempre possível lugar em que haja silêncio.                                            

Dois autores latino-americanos, Gabriel Garcia Marquez e Alejo Carpentier, me encantaram com suas histórias. Ao ler os seus livros, conseguia me transportar para dentro das narrativas e era sublime.  Também são em dois os autores norte-americanos que me influenciaram, um modernista e realista, Ernest Hemingway e o outro, pós-modernista, Paul Auster.                                      

Procuro, também, sempre que possível, ler estes autores na língua na qual escreveram. Me parece mais verdadeiro.                           

E o poeta que mais me tem acompanhado é Fernando Pessoa, com uma certa predileção pelo heterônimo Alberto Caieiro.               

Termino esta carta com uma parte de um poema dele:

“Não basta abrir a janela                                                                           

  Para ver os campos e o rio.

  Não é bastante não ser cego

  Para ver as árvores e as flores.

  É preciso também não ter filosofia nenhuma.

  Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.

  Há só cada um de nós, como uma cave.

  Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;

  E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,

  Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.”

                              Cordiais saudações, 

                                              Ilana Kaufman

*

Módulo 11 – João Guimarães Rosa:

*

Bernadete Bruto

MARIA: A GUARDIÃ DE HISTÓRIAS 

*                                            

  Espie, moça! Vou ti contá uma istória passada num tempo não muito distante. Eu merma mi alembro da história que se passô aqui nu Récife. Arrudeio pelo juízo para retorná ao passado beim pertinho de mim nu fundo di meu coração. Conto nesse linguajá, apesar de sê pessoa estudada, porque faço o execicio di iscrevê como falu, pra contá mode vai esta istória. Pensano bem, num ixiste uma uniformidade na língua e sim, vários dizeres por lugá. Você que mi iscuta qui te explicano logo mais o desenrolá dessa istória. Agora que to falando daqui deste meu canto entendo que “da vida, assim como na missa, não se sabe um terço”… Intão vamo divagarinho porque num vô iscrevê no meu sabê di menina criada em Récife, qui istá aprendendo com se conta istórias no papel. Faço a tentativa entrano não pelos sertões e veredas de Minas Gerais e seu falá. Mais no falá da cidade qui moro e que tem aqui mermo muitas formas, dependeno du lugá. Procuro a linguage certa para iscrever do presente sobre o passado sobre a istória de Maria. Talveiz iscreva na forma aprendida na iscola, cum palavras daqui do Nordeste. Mais esse cumeçu a istoria vai sair meiu estabanada nesse dizê porque vem com todo gosto da fala daquelas muleres qui serviam nas casas e que contaru muitas istorias para todas nós, fique aqui pra sabê. Muleres que viviam pertinho da gente, mas moravam tão longi e sem as mermas condições da gente. Longi na vida e na linguage, que agora nos aproxima quando estou a dizê assim…” Para bom entendedor, meia palavra basta”. Maria era uma dessas muleres que moravam nos arrabaldes da cidade. Uma minina que vinha com sua mãe que trabalhava numa casa grande cheia de gente. Eita vida de opostos num mermo ispaço que nem mistura crianças! Quem vê quem? “Só alcançamos o valor da água depois que a fonte seca”. Mais eu vi Maria naquele santo dia. Num tempo que num se pensava nu futuro, nem nu passado. Ali era um tempo eterno quando estamo in fazeres ispeciais.

 Maria era a filha de Guiomar, qui trabalhava como doméstica. Mulé de uma força danada mermo sendo tão magra e seca. Guiomá e sua linguage ininteligível… Maria era uma de seus três filhos. Era a filha do meio entre homins. Ela morava com seus pais num arrabalde desta cidade, longi de onde a mãe trabalhava. O bairro tinha um nome muito simpático, se chamava “Águas Compridas”.  Ficava beim perto do bairro de Beberibe e era tambeim pertu di um outro de nome ainda mais curioso: “Linha do Tiro”! E de lá vinha Maria de Guiomar para o bairro do Espinheiro. Vinha com Guiomar pra brincá e intretê os filhos daquela casa, que eram tantas crianças. Tempo de brincá num era para todas crianças, hoje eu entendo. “O que não tem remédio, remediado está”. Fazê o que agora? Lamentar u distino… Fique de orelha inqui vou cumeçá do cumeço, professora-doutora. Volto pra esse lugá onde realembro Maria, na primeira vez qui dispertô minha atenção. Escute que ao cumeçá minha fala, me transporto para um terraço da casa grande e lá está Maria! Desdi ali dava pra que ela tinha algo beim ispecial. Maria uma menina cor de jambo do Pará, cheinha de corpo, na flô da idade! Longus cabelus pretus, dum cumpridu que escorria pelas costas parecendo um manto.  Maria está sentada nu chão, num canto do longu terraço que circunda metade da casa grande. Está rodeada de crianças.  Ao sentá no chão pra contá istórias, ganhava um brilho especial porque nela é que havia um baú cheiu di istórias de reis, princesas, de bruxas, de fadas. É daí que enxergo Maria. Lá está, di costas para meu recordá, sentada com crianças a sua volta. Seu longu cabelu prêtu cobrino o vestido branco. Como era alvo seu coração naqueles tempos de minina na casa da patroa de sua mãe! Naquele momento, Maria ainda ocupava um ispaço longi da cunzinha. Naquele tempo Maria era mais especial das mocinhas nu olhá das crianças da casa. Ela era a contadora di istórias. Pois fique comigo para sabê qui “Uma longa viagem começa por um passo”. Caminhe então nu meu contá.

PROPOSTA DO ROMANCE

Personagens: narradora, interlocutora e Maria.

A história se passa em Recife, onde se mistura presente e passado em várias épocas. Conta a trajetória de vida de Maria, mulher pobre que morava nos arrabaldes do Recife e que tinha o dom de contar histórias.

Maria mulher, moradora dos arrabaldes da cidade do Recife. Morena de olhos cheios de vida que em criança acompanha a mãe ao trabalho domestico, que depois de anos assume, para poder sustentar os filhos que teve de dois casamentos. Depois ela vai trabalhar como servente num hospital. Maria tem o dom de contar histórias, mas a falta de oportunidades a tantas mulheres pobres moradoras de arrabaldes das grandes cidades lhe obriga a ter um emprego que supra suas necessidades. A sua habilidade é suplantada em outros afazeres, mas ela, no fundo de seu coração, tem a dó de não ter conseguido repassar para ninguém as histórias que tão bem contava.

A narrativa é um exercício baseado no livro Grande sertão: veredas dessa forma, tem a narradora-personagem que relata a história de Maria para uma interlocutora (Professora de escrita criativa), também a narrativa se desenvolverá em um fluxo oral e da mesma forma, também não haverá capitulação. E a escrita vem, muitas vezes, inspirada pela linguagem falada, algumas de uso regional do Nordeste e traz alguns também alguns ditados populares, para amparar as reflexões sobre a existência.

Recife, 15 de novembro de 2021.

*

Diego Pereira

Nossos círculos

Narrativa em 1ª Pessoa. Diego é fotógrafo e descobre, através das imagens que registra e admira, como as coisas são circulares em sua vida. Será o mesmo para todos? Talvez seja possível mudar meu próprio destino – e me redimir dos erros – sabendo que a vida dá sempre a mesma volta, como uma oportunidade que renasce a cada novo ciclo.

Mas e se vivêssemos no “Eterno retorno”? Se nunca fôssemos capazes de sair da nossa roda e da nossa rota?

Não percebemos o quanto os pequenos acontecimentos da vida passam por nós e não o desfrutamos completamente. Amamos, mas nunca achamos que seja um sentimento completo e de forma perfeita até uma outra pessoa surgir em nosso caminho e nos darmos conta de que aquele novo sentimento é único. Assim também é com nossos temores. Estamos sempre fugindo deles, mas que se renovam a cada novo ciclo e mudam de nome e mudam de casa, mas que estão ali para nos atormentar.

É quando percebo o ciclo da minha vida. É engraçado como sempre volto aos mesmos temas, como o mar, amor, hereditariedade e a fotografia. Mas só depois de um olhar profundo para mim mesmo, em meus acertos e em meus erros, percebo que as coisas sempre voltam.

Abro o álbum de infância e me vejo na foto com os meus pais, encostados na coluna em forma de leão, numa cidade onde fomos passar férias. Eu era um garoto ainda, oito anos talvez. Mas, coincidentemente, é a cidade onde moro hoje, depois de 25 anos. Isso me faz pensar no meu primeiro ensaio fotográfico, há dez anos, onde retrato o mar – uma de minhas maiores paixões – com pessoas entregues em um dia de sol. Hoje, posso desfrutar o mar a cada nova hora do dia; posso senti-lo em seus pés em dias de calor; posso ouvi-lo na solidão.

Em primeiro de março de 1962 nascia meu pai. Era o terceiro dos oitos filhos de uma família rural, do interior do estado do Maranhão.  Muda-se para Teresina, capital do Piauí, no final da década de 70, indo atrás do sonho da cidade grande.

Cinquenta anos depois que ele sai do Maranhão – sua terra natal – eu faço a viagem de volta, e é como se visse reminiscências de meu pai em cada lugar, como se fosse ele, e não eu, a desfrutar as ruas e os caminhos. Estou dentro de um círculo, talvez reproduzindo seus anseios e medos, talvez vivendo uma vida que ele mesmo sonhou, mas que outro vai agora realizar.

Mas não é assim. Somos pessoas diferentes, com desejos diferentes, profissões também diferentes, o que nos faz ver o mundo também de formas quase opostas. Estamos apenas na mesma roda, e o ciclo me perturba, esse voltar sempre aos mesmos reflexos e sombras, e mesmo vendo outro caminho à frente – longe demais do que foi meu (ante)passado – eu quero saber onde o círculo me leva, e me pergunto: PARA ONDE SEMPRE VOLTAMOS? O que puder decifrar, como experiência, digo agora, porque posso compreender a mim e iniciar uma nova etapa sem rancor. 

*

Elenara Leitão

A guria que não gostava de Guimarães Rosa

(ou como não se ama o que não se conhece)

 1.        Introdução

Lhes conto como me aprocheguei no mundo dos Rosas. Joãozinho, que também era o Guimarães. o foi pela obra e graça de sua Ara. Deixa lhes dizer como foi essa trajetória de conhecimento, e estranhamento, entre os mundos de dentro e de fora nas veredas de vida e obra.

Gostava não do Guimarães, leitura posta goela abaixo em tempos de pouca liberdade. Mas eis que uma cabra pernambucana, meio vinda dos sertões, me desafia a entender mais da escrita do mineiro e me faz sair tentando entender quem era o homem atrás da obra. Dá para julgar e gostar de algo sem entender os processos de vida do criador? Lhes deixo com essa pulguinha enquanto narro, sem palavras pomposas, um pouco da minha própria trajetória e como cheguei a gostar, ou não, do Guimarães Rosa.   

Assim começa a introdução que leva Violeta, guria do interior do RS, a  revisitar sua infância, juventude e maturidade, passando por tempos de lutas políticas e transformações culturais nas cidades onde morou. E lutas internas de descobrimento e, por final, redescobrimentos onde os mundos de dentro e de fora se tocam e se harmonizam. E como os Rosas se encaixam na sua percepção de mundo, com a escrita de José Guimarães Rosa e a ação de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa.

 2.        infância

“– A vida é boba. Depois é ruim. Depois, cansa. Depois, se vadia. Depois a gente quer alguma coisa que viu. Tem medo. Tem raiva do outro. Depois cansa. Depois a vida não é de verdade… Sendo que é formosa!”  João Guimarães Rosa, da novela “Cara-de-Bronze”. em “No Urubuquaquá, no Pinhém”, no livro Corpo de Baile, 1965.

*

Cidade/leituras/expectativas

Cidade e sua cultura

Violeta não nasceu na cidade dos primeiros anos. As duas, porém, se assemelhavam. Cidades pequenas, mas promissoras, cuja origem era de imigrantes. Alemães em sua maioria, mas também poloneses, judeus e russos. Traçar um rumo da arquitetura e cultura e de como isso influenciava a protagonista em suas expectativas de mundo. Complementar com fotos e pesquisas sobre a cidade. Mudança para a capital e vivências de outras escalas de cidade.

Leituras

As primeiras leituras, o mundo dos contos de fadas clássicos e a casa onde os livros ficavam ao alcance das mãos ávidas da pequena, que crescia entre acenos à liberdade e o medo das pessoas. Falar sobre os livros em voga e os clássicos que sua família lia em breves pinceladas. Mundo brasileiro surgindo nos livros de Monteiro Lobato, se contrapondo aos contos europeus a que estava acostumada. 

Expectativas de mundo

Anos 60 e sua pré ebulição cultural em contraponto com as certezas conservadoras de suas aldeias, cidade, capital, país. A ditadura e o cerceamento da liberdade vistos pelos olhos da criança com seus pais preocupados com abastecimento e futuro. Estudantes sendo contidos em passeatas, sob seus olhos de criança, vendo da sacada de sua casa enquanto começa a adolescer e a se estranhar como mulher. E a sonhar com o amor.

 3.        juventude

“- Pior, pior… Começamos a olhar o medo…o medo grande e a pressa…O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho… É ruim ser boi de carro. É ruim viver perto dos homens… As coisas ruins são do homem: tristeza, fome, calor – tudo pensado é pior…” João Guimarães Rosa – ‘Sagarana’.

*

Cidade/sagarana/obrigação

Cidade capital

Mudança dos mundos de capital de estado para capital do país. Violeta, adolescente, vive as inquietações do crescimento e suas angústias, ao mesmo tempo em que convive com os bastidores e benesses do poder militar que domina a cena nacional. Espaços arquitetônicos diferentes de tudo o que já viveu e pessoas de todos os estados do Brasil tornam a sua realidade mais ampla e a fazem amar mais o seu estado natal.

Sagarana

Primeiro contato com Guimarães Rosa. Imposto por listas de leitura. Violeta sente um estranhamento e repulsa pelo livro, pelo tema, consequentemente pelo autor. São tempos de rebeldia e certezas absurdas sobre amor e ódio. Não há espaço para a cultura do povo do interior no seu descobrimento dos mundos do conhecimento do exterior.

Obrigação

Violeta sente as dualidades do desejo e convenções. Rebela-se com as normas impostas, a censura. O futuro é ao mesmo tempo, assustador e fascinante. Vive entre as promessas de paixão e os namoros de conveniência.

 4.        maturidade

*

“Amar é a gente querer se abraçar com um pássaro que voa.” – João Guimarães Rosa, Ave, palavra.

*

Cidade/amor proibido/conhecimento

Cidade de volta

O mundo de fora de Violeta volta a se encontrar com o mundo de dentro em uma pandemia que transforma o mundo conhecido. Mora na sua velha e conhecida cidade. Vê o mundo de sua janela e observa. Seu país e o mundo envolto em velhas e conhecidas lutas de repressão.

Amor proibido

Já quase avó, Violeta passou por amores e guardou um em especial. É sobre ele que resolve escrever seu romance após RE descobrir Guimarães Rosa, não o escritor, mas o homem apaixonado que se encontra em seu segundo e definitivo amor, Aracy. Ele descreve Diadorim e Violeta pensa em Miguel, seu eterno amor proibido, encontro de tardes furtivas, casado que era com outra e que soube morrer na pandemia. Resolve enfim escrever e gritar seu nome, tantas vezes reprimido e omitido, enquanto aprende como Aracy não teve medo de fazer o que era certo e não o que era imposto pelas leis da época em que viveu. Coragens intensas de uma mulher que apenas deixou seu coração generoso falar mais alto que as convenções e políticas.

Conhecimento

Violeta parte em busca de si, em uma visita pelos seus mundos da infância e juventude, agora com o olhar da maturidade. E inicia seu romance falando de como o conhecimento do homem a levou a compreender a obra. Termina com sua abertura de asas para que voe sobre as cidades.

Dois livros por mês | “Artemísias: vozes de libertação”** & “Amora”***

As vozes da libertação[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Novembro, 2021

            Em março de 2020, inaugurei o curso on-line e gratuito Estudos em Escrita Criativa com o mergulho em escritores ingleses, em especial, O conto da aia,[3] de Margaret Atwood.

            Narrado em uma sociedade distópica, mas que nos traz – de maneira apavorante – muitos dos elementos do mundo atual, Atwood nos apresenta a República de Gilead, depois do golpe que matou o presidente dos Estados Unidos e a maioria do Congresso americano. O grupo ditador e terrorista é católico e tem como tônica afastar as mulheres do mercado de trabalho e deixá-las apenas para serem mães e esposas dedicadas. Por causa de vazamentos químicos e radioativos, a maioria das mulheres tornou-se estéril, e aquelas em condições de procriar foram transformadas em aias, pertencentes aos comandantes do grupo terrorista, perdendo sua identidade (até mesmo o nome, por exemplo, a narradora deixa de se chamar June Osborne para ser Offred, ou seja, De Frederic Waterford, o comandante proprietário) e tendo como único objetivo de vida gerar filhos para as famílias às quais pertencem.

            Assistindo ao Fronteiras do Pensamento de 27 de outubro de 2021,[4] maravilhei-me com a lucidez dessa canadense de 81 anos, com mais de sessenta livros publicados e (ainda) atualmente professora de Escrita Criativa. Ela afirma, de maneira bem humorada, que é muito tarde para mudar de profissão, mas, o que mais nos interessa para esta breve resenha, é a proximidade do pensamento de Atwood com o dos textos das quinze escritoras da coletânea de contos e poemas Artemísias: vozes de libertação.

           Organizado, entre outras, por Iaranda Barbosa, Artemísias nos apresenta casos dolorosos de abuso sexual, de todas as formas possíveis e (in)imaginárias. A mulher como temerária, afirma Atwood na palestra, e por isso abafada, e violentada, e subjugada à opressão patriarcal da nossa sociedade (ainda) hoje em dia. A aia de Margaret, despossuída de qualquer direito, não está muito longe de vários casos citados no livro organizado (e um dos contos escrito) por Iaranda. E o pior: nós mulheres seguindo o regime patriarcal e condenando a nós próprias mulheres, por causa de roupas ousadas, de vida sexual libertária, de se dedicar a uma profissão normalmente exercida por homens.

            Mas a escrita independe de gêneros para nos salvar. Em “Teus continentes e os meus”,[5] resenha de setembro de 2021 desta coluna “Dois livros por mês”, ao analisar Os continentes de dentro, de María Elena Morán, cito o caso na vida real de uma pessoa amada que, adoecida psiquicamente, teve de ser internada em uma clínica. Isso tudo narrei nos originais do livro de apenas poucas leitoras (três para ser exata), no intuito de preservar a pessoa amada, Caminhos manchados de não. O que não mencionei na resenha do livro de Morán, é que a minha pessoa amada também sofreu abuso sexual, tendo como consequência o adoecimento psíquico.

            Quantas mulheres que conhecemos, inclusive nós mesmas, precisam chegar ao fundo do poço, inclusive tirando a própria vida, para que façamos algo generoso umas para as outras? Para nos protegermos? Para nos dar carinho, e força, e qualidade literária com técnicas refinadíssimas (transição de vozes narrativas, transformação em linguagem das características de personagens, fluidez entre os gêneros em um mesmo texto) que encontrei no livro de tantas mãos dadas que se chama Artemísias e ecoar, nos quatro cantos do planeta, a nossa voz de mulher?

__________________________________________________

__________________________________________________

[1] Sobre Artemísias: vozes de libertação. Claudete Bispo, Iaranda Barbosa, Suelany Ribeiro… [et al.]. Organização: Amira Rose Medeiros, Denise Sintani, Iaranda Barbosa… [et al.]. Apresentação: Iaranda Barbosa. Prefácio: Geórgia Alves. Ilustrações: Amira Rose Medeiros, Liliane Correa, Maria Cardoso, Marina Presbítero. Design/Diagramação: Rebeca Gadelha. 1ª ed. Recife: Selo Mirada, 2021.       

[2] Escritora, vinte livros publicados, e um no prelo, escrito a quatro mãos com Adriano Portela, a ser lançado em dezembro de 2021. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[3] ATWOOD, Margaret Eleanor. O conto da aia. Tradução: Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, (1985 in) 2017.

[4] O Fronteiras do Pensamento é um projeto promovido por várias instituições, entre elas, a PUCRS. No segundo semestre de 2021, trouxe ao público grandes nomes do pensamento mundial, entre eles Jared Diamond, Yuval Noah Harari e Margaret Atwood. A palestra com Atwood foi mediada pela escritora e atriz Bruna Lombardi. Maiores informações: https://www.fronteiras.com/

[5] Sobre Os continentes de dentro, María Elena Morán. Apresentações: Luiz Antonio de Assis Brasil e Julia Dantas. Porto Alegre, RS: Zouk, 2021. Publicado em 26 de setembro de 2021 no link: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=10098      

__________________________________________________

Amor & Amora[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Novembro, 2021

            A maioria dos professores e professoras de oficinas literárias e Escrita Criativa afirmam, com todos os átomos de Epicuro, que não existe talento. Tomo a liberdade (e a ousadia) em discordar.

            E acreditar na máxima de Ariano Suassuna quando, no seu Iniciação à estética[3](que não me canso de repetir e repetir e repetir), afirma (também), com todos os átomos (de Epicuro), que não basta a intuição (ou inspiração criadora); é preciso o ofício (ou trabalho diário) e a técnica (ou estudo contínuo), para quando aquela inspiração criadora descer do sol feito ave de rapina, nos encontrar preparados e preparadas e darmos o salto, e construirmos uma obra de arte.

            Mas estamos falando o mesmo de maneiras diversas. Ariano afirmando a intuição; eu, o talento. Está bem, vamos chamar talento de uma tendência maior para a escrita. E, para resenhar nesta coluna “Dois livros por mês”, encontro, após vinte e um meses do presente recebido, o livro vencedor do Prêmio Jabuti de 2016, Amora, da escritora e professora gaúcha Natalia Borges Polesso.   

           Conheci Natalia na especialização em Escrita Criativa da Unicap/PUCRS (ela foi uma das ministrantes da Oficina de Narrativa II – O romance e a novela) que ajudei a criar em Recife, assim como coordenar a primeira turma e ministrar a disciplina Empreendedorismo Literário (2019/2020). Conheci Natalia às vésperas do Carnaval de 2020, o último Carnaval antes da pandemia. E não sabíamos o que nos aguardava, eu não sabia o que me aguardava lendo esse livro abissal com o qual me presenteou.

            Amora converge coragem, carinho e técnica. Tudo no mesmo espaço contíguo da página impressa, no mesmo espaço contínuo do coração de Natalia para quem a lê. E lá estão as técnicas mais refinadas – mudança de voz narrativa sem que nos percamos, transmissão de conhecimento de maneira literária, pílulas de poesia em plena prosa e intergenericidade dos textos, intergenericidade da vida.

            Composto por trinta e três contos, os vinte e sete mais longos fazendo parte de “Grandes e sumarentas”, e, os seis mais curtos, de “Pequenas e ácidas”, Amora vem me provocar escritura, e das boas (espero eu) – e que deveria ser, penso eu, o sentido da leitura dos grandes livros contemporâneos ou clássicos: nesta madrugada de 15 de novembro, brota um texto, uma novela fragmentada, e provocada pela leitura, em dois dias, do livro de duzentas e cinquenta e cinco páginas de Natalia, a quem agradeço, com vinte e um meses de atraso, o presente, no melhor sentido da palavra, que ela nos deu.


__________________________________________________

[1] Sobre Amora. Natalia Borges Polesso. Apresentação: Paloma Vidal. 6ª impressão. Porto Alegre: Não Editora: 2015.       

[2] Escritora, vinte livros publicados, e um no prelo, escrito a quatro mãos com Adriano Portela, a ser lançado em dezembro de 2021. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[3] SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002, pp. 235-240.

“O jogo das contas de vidro”, de Hermann Hesse

O jogo das contas de vidro[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Novembro, 2021

            No último sábado, 06 de novembro de 2021, participei de um evento do Traço Freudiano Veredas Lacanianas, intitulado Literatura & Psicanálise, juntamente com a psicanalista Elizabete Siqueira. Foi um convite de Lourdes Rodrigues e Luciane Batista. No encontro, apresentei a minha tese de doutorado em Escrita Criativa pela PUCRS, 12 horas: o mito individual em uma autobioficção,[3] defendida em outubro de 2018, há três anos.

            A tese é formada por uma parte ficcional e outra teórica. Na parte teórica, analisei os conceitos de autobiografia e autoficção de Philippe Lejeune[4] e do mito individual do neurótico de Jacques Lacan,[5] aplicando na parte ficcional a técnica freudiana da transferência como cura.

            O que me saltou à vista, e que vem ao encontro deste breve ensaio, são os ciclos da vida anunciados por uma espécie de “despertar”, palavra utilizada pelo escritor e pintor alemão, radicado em Montagnolo, Suíça, Hermann Hesse, no romance de mais de quinhentas páginas, e que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1946, O jogo das contas de vidro.

            No romance de Hesse, conhecemos a história do Mestre do Jogo de Avelórios José Servo, história que o narrador esclarece que é parte real, parte lenda ou ficção. Em um futuro distante e utópico, uma sociedade à parte do mundo chamada Castália gera e nutre mestres e jogadores do Jogo de Avelórios. Servo vem de uma origem humilde, mas vai crescendo em beleza e sabedoria e atinge o ápice dessa sociedade erudita, que elabora jogos refinadíssimos a partir da música, astronomia, matemática e outras áreas de conhecimento e de arte.

            Tive o privilégio (e risco), ainda em plenos tempos pandêmicos, agora em outubro de 2021, de visitar a casa de Hermann Hesse em Montagnolo, à margem do lago Lugano, sul da Suíça. E o cenário de O jogo é bem próximo a esse país neutro na vida real, que não se intromete em guerras nem questões políticas, não possuindo até mesmo um exército. No romance de Hesse, parece que vemos a casinha de três andares, com uma máquina datilográfica no quarto de vista para o lago, onde Hesse escreveu suas maiores obras.

            O jogo trata da educação como base e consequência para a criação. A teoria provocando a poesia. A crítica instigando a ficção. Contrapondo o Yang e o Yin da filosofia oriental, principalmente no I Ching ou o Livro das Mutações, Hesse nos revela, através de seu personagem José Servo, momentos de quebra de paradigmas, mudanças radicais de vida, a partir do que ele chama “despertar”. Partindo de um simples aluno das escolas preparatórias, passando pela Elite, pelo refúgio com um eremita, pela aprendizagem com o beneditino Padre Jacobus, ou mesmo no cargo de Mestre do Jogo de Avelórios, Servo vai tomando posse do próprio desejo, da mais íntima essência, e desperta o mais profundo mistério da única certeza que temos em vida: a morte. Isso tudo em forma de bíblia, ou seja, unindo gêneros tão diversos quanto cartas, poemas, história, ensaio, ficção.

            Essa fome de realidade de José Servo/Hermann Hesse reverbera em minha vida e me faz lembrar de tantos ciclos que se abriram e se fecharam em minha trajetória, coincidentemente (ou não) de cinco em cinco anos: divórcio, fechamento da Livraria Domenico, saída da Editora Calibán, saída da UFPE após o mestrado, fim do ciclo do doutorado na PUCRS, tendo como consequências cursos de especialização Unicap/PUCRS, extensão, presenciais e on-line dos Estudos em Escrita Criativa, que encerra no próximo mês, com o lançamento do livro de coletânea de artigos e depoimentos de escritores do Brasil inteiro, uma viagem para a casa de sete (talvez oito) dos doze escritores estudados no curso on-line de 2021, e a live em 15 de dezembro em Porto Alegre com Gisela Rodriguez.            

E depois? O que farei de minha vida profissional? Não sei. Só sei que atingi aquele ponto que nosso José Servo/Hermann Hesse, de maneira brilhante e sublime feito estrela cadente, riscou o céu de um lado ao outro, foi parar no mais profundo de um lago (Lugano?), mas deixou rastros, marcas, com certeza nesta três vezes leitora apaixonada (2011, 2016, 2021) que vos escreve.

________________________________________________

Fotografias: Angeli Soares

________________________________________________

[1] Sobre O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse. Tradução: Lavínia A. Viotti e Flávio Vieira de Souza. Rio de Janeiro: BestBolso, 2007.    

[2] Escritora, vinte livros publicados, e um no prelo, escrito a quatro mãos com Adriano Portela, a ser lançado em dezembro de 2021. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[3] A tese foi publicada na íntegra em novembro de 2019 no livro 12 horas, de Patricia Gonçalves Tenório. Apresentação: Luiz Antonio de Assis Brasil. Recife, PE: Raio de Sol, 2019.    

[4] LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à internet. Organização: Jovita Maria Gerheim Noronha. Tradução: Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra Guedes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

[5] LACAN, Jacques. O mito individual do neurótico. In O mito individual do neurótico.Tradução: Brigitte Cardoso e Cunha, Fernanda Bernardo, Margarida Medeiros, Tito Cardoso e Cunha. Prefácio: Tito Cardoso e Cunha. Lisboa: Assírio & Alvin. Edição 124, 1987.

Poema e foto de Altair Martins*

78. CHOVIA: O PAI ME TROUXE OS SAPATOS
*

Estava encharcado (o pai)
e com olhos de uma espera,
fatia de vento
e areia.
Ficou à porta da casa
com os braços tão curtos
que me deram muita pena.
*
Estavam secos (os sapatos)
e dentro, enroladas, as meias.
E disso tudo emanava
uma leveza
de voo e de volta:
algo domesticado como
aquelas conversas que apenas
queriam tapar buracos de tempo
de rosto e de dinheiro.
*
Depois o pai
(ele pareceu mais novo):
disse aquilo de que podia
com um canivete
esculpir um gavião
num galho de macieira,
que me faria astronauta, se pudesse,
e cavalgou pra algum lugar
que a chuva não me permitiu.
*
Os sapatos enfim
(eles pareceram apertados):
e por isso os deixei
chegando da chuva
subindo os três degraus
que levavam à casa
que não sei onde fica
porque não fica,
*
a casa que aprendeu a falar
— Pra que vivemos? —
e é só o que ela fala.

____________________________________________

AUDIO-2021-11-16-10-35-16

____________________________________________

* Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar (Porto Alegre: EdiPucrs, 2019), o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) e Labirinto com linha de pesca (Porto Alegre: Diadorim Editora, 2021) são suas últimas publicações. Ministrante, desde 2019, da disciplina Oficina de Poesia na especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br

Poemas* de Angelo Manitta

O NARRADOR

*

A constelação do escudo

me apareceu pequena e lábil.

Seu nome, desejado por razões

políticas, me fez pensar

numa sociedade de reis, príncipes

e presidentes que se impõem.

Justa é a causa. Johannes

Hevelius, perscrutador dos céus,

observa o universo, mas no dia

 maldito tudo se incendeia.

O rei Sobieski, amante da ciência,

esbanja a mancheias.

Cálculos com esquadros e goniômetros

retribuem ao suserano generoso:

um pequeno amontoado de estrelas

eterniza seu nome.

Meus olhos estavam tentando

penetrar o céu escuro,

pensando nas razões

de uma existência infeliz, quando

me aparece uma estrela, Delta Scuti,

que chamei de Mizpa:

Sua luminosidade variava

no decorrer de poucas horas.

De maneira misteriosa lá chegou,

de reflexo, a luz da terra

E, lançado para trás no tempo,

o passado se fundiu com o presente

e o presente com o futuro. Me encontrei

na idade de bronze e o escudo

me fez retroceder a guerras de outros tempos,

não menos cruéis que as de hoje.

*

 O VENTO TRANSTORNA AMANHECERES

*

O vento transtorna amanheceres

outonais. O eterno fluir

mescla os elementos do caos

original para oferecer magias

de juventudes parabólicas. Penetrar

o mistério do ser é um quebra-cabeças

simbólico, como as estações de uma Via Crucis

que compensam a ênfase da agonia

em projetos lânguidos. E a belissima

imagem de uma virgem, de cabelos

ondulados como a onda do mar

desaparece sob dardos de ignara

eficácia. A metamorfose é um espelho

universal: a borboleta se fecha

no casulo, o broto se transforma

em carvalho, o homem se funde

com a terra. E a cósmea alta,

da cabeça branca e das lígulas

ovais, faz murchar seus cálices

a confundi-los com o orvalho etéreo.

_________________________________________

* Poemas extraídos de La ragazza di Mizpa. A moça de Masfa. Tradução: Alexandru Solomon. Castiglione di Sicilia, Itália: Il Convivio Editore, 2021.

Exposição George Barbosa

A arte de Rozze Domingues

Fiz primeiro um desenho (sem usar o racional) conversando com Fernando, meu professor na FBAUL e meu orientador, sobre a matéria da escola de Belas Artes, sobre arte, exposições, sobre como está a vida em Lisboa e no Brasil, sobre possíveis projetos etc …
Quando finalizamos a conversa (por telefone) tinha diante de mim, um desenho que foi feito sem que tivesse pensado, nem por um segundo, se seria melhor assim ou de outro jeito – minha mão apenas desenhava enquanto eu conversava com ele.

Depois, fotografei o desenho e inseri em um programa onde posso escolher as cores e pintar com a minha mão.

Em seguida, passei pelos filtros e edições digitais – usando comandos como saturação de cores, definição, contraste, calidez, etc.

E o resultado final foi este.

Se imprimo em papel ou em canvas e se faço grandes formatos, não sei…

É tudo uma experiência onde o processo, após o que você intuitivamente desenhou, é prazeroso. O objetivo é se colocar nesse processo e vivê-lo sem amarras, sem preconceitos e modelos, permitindo que o resultado – que pode nunca ter um final, ou nunca chegar, a não ser sob sua decisão de parar – se apresente a você.
Aprendi que arte não necessariamente é comunicação – ela é a expressão do divino que existe em seu espírito. E que o mundo vê, se você mostra; aprendi isso lendo A Guerra da Arte, de Steven Pressfield e constatei na prática com meu professor Fernando Quintas, estudando e praticando essa arte, em Lisboa.

* Contato: http:/rozzedomingues.com.br/

Índex* | Outubro, 2021

O que está

Enternecido

Enternecido

Ficará

Nos meus sonhos

Na minha vontade

De tornar o mundo

*

Melhor

Para os meus filhos

Os seus

Os nossos

*

E poder

Caminhar tranquila

Na beira-mar

De Boa Viagem

*

(“Você é o mundo que lhe contém”, Patricia Gonçalves Tenório, 01/10/2021, 05h18)

*

O mundo em nossas mãos no Índex de Outubro, 2021 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Diversas.

Dois livros por mês | O lado que não era visível para quem estava na estrada (Luís Roberto Amabile, SP/RS/Brasil) & Catálogo de pequenas espécies (Tiago Germano, PB/RS/Brasil).

Poema de Altair Martins (RS/Brasil).

Literatura & Psicanálise | Traço Freudiano Veredas Lacanianas | Com Elizabete Siqueira (PE/Brasil) e Patricia Gonçalves Tenório.

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 28 de Novembro de 2021, grande abraço e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

___________________________________________

Index | October, 2021

What is

Tender

Tender

Will stay

In my dreams

In my will

To make the world

*

Better

For my children

For yours

Ours

*

Then I can

Walk calmly

At the seaside

Of Boa Viagem

*

(“You are the world that contains you”, Patricia Gonçalves Tenório, 10/01/2021, 5:18 am)

*

The world in our hands in the October Index, 2021 from Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Studies in Creative Writing Online | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Miscellaneous.

Two books a month | The side that was not visible to those on the road (Luís Roberto Amabile, SP/RS/Brasil) & Catalog of small species (Tiago Germano, PB/RS/Brasil).

Poem by Altair Martins (RS/Brasil).

Literature & Psychoanalysis | Freudian Trait Lacanian Paths | With Elizabete Siqueira (PE/Brasil) and Patricia Gonçalves Tenório.

Thank you for your attention and affection, the next post will be on November 28, 2021, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

___________________________________________

**

___________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Um mundo melhor para todos. Fotografias: George Barbosa. A better world for everyone. Photographs: George Barbosa.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Outubro, 2021

No mês de outubro de 2021, visitamos, em Itabira, MG, um dos maiores escritores brasileiros, Carlos Drummond de Andrade, e recebemos a escritora pernambucana e uma das tias do curso Estudos em Escrita Criativa, Bernadete Bruto.

*

Primeira Aula do Módulo 10:

*

*

Na primeira aula do módulo 10, apreendemos o ABC de Drummond com a coleção de livros para jovens; investigamos o entrelaçamento das crônicas em As palavras que ninguém diz; nos maravilhamos com o dom mágico de criar e narrar histórias fascinantes e diversas técnicas de escrita criativa em suas crônicas; constatamos a intergenericidade dos textos de Drummond; apreciamos a transposição para a linguagem das características dos personagens, assim como Hilda Hilst, no módulo 8 do curso; relacionamos a paixão de Drummond pelos contos e o desafio que me propus com 13 (cinquenta contos em um mês), lançado no meu aniversário de 50 anos, em 2019; adentramos a majestosa poesia de Drummond;

*

Segunda Aula do Módulo 10:

*

*

Na segunda aula do módulo, apresentamos Sentimento de mundo, e a sensação de tempo e espaço unos na escrita de Drummond; comparamos o filme Radioactive, a apresentação de Silviano Santiago em Sentimento de mundo e a simultaneidade que nos referimos na escrita de Drummond; comparamos com a Teoria da Relatividade de Einstein; constatamos o sentimento que une tempo e espaço e que permeia toda a obra de Drummond: o amor; constatamos a viagem no tempo e no espaço de Drummond no aniversário de 50 anos de outro escritor de nosso curso, Manuel Bandeira e a comparamos com um poema de 14, “E as joaninhas não mentem”, também lançado no meu aniversário de 50 anos; visitamos a casa-museu de Drummond e os “drummonzinhos”.

*

Terceira Aula do Módulo 10:

*

E foi com imensa alegria que recebemos a poetisa, escritora e especialista em Escrita Criativa Bernadete Bruto na última quarta-feira 27/10/2021 na live sobre Carlos Drummond de Andrade do nosso canal do YouTube. O próximo escritor a ser estudado é João Guimarães Rosa e o escritor convidado é Gustavo Melo Czekster. Não percam!

*

https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

*

Exercícios de desbloqueio:

*

Módulo 4 – Graciliano Ramos:

*

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com  

*

Módulo 9 – Mário de Andrade:

*

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Uma linguagem nada comportada

Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura(…)

(Olavo Bilac)

*                              

Já faz algum tempo que essa história anda lhe perseguindo com seu português “rabo de cabra”, aqui da pós-modernidade. A narradora anda meio aperreada por conta dessa linguagem tão inculta lhe assediando, assim como o tal personagem frenético que cisma em ir para onde ela não programou…

            Se esse personagem conhecesse o poema “Cântico Negro” de José Régio retrucaria logo de imediato: “Não, não vou por aí. Só para onde me levam os meus próprios passos…” Mas ele nem precisa disso. Se desata de todo modo da narrativa pré-estabelecida, da linguagem rebuscada e segue seu rumo sob o olhar atônito da narradora, que nem teve tempo para emaranhá-lo na escrita erudita.

            A pobre escritora havia feito todo o esquema para organizar uma história impecável!  Aconteceria no sul do país, lá em São Paulo, terra do Mário de Andrade. O personagem seria contemporâneo do autor e não integrante do movimento modernista. Apreciaria uma escritura baseada nos cânones da linguagem e pronta para orgulhar qualquer português. Seria uma narrativa linear, numa linguagem bem rebuscada. O personagem principal entraria em confronto com o movimento modernista e a narrativa também refletiria sobre as dificuldades de uma mudança cultural e a ampliação da criação literária.  Mas quem consegue segurar seus personagens?  O dela foi rebelde desde o início rejeitando até o nome por ela escolhido: Abelardo Drummond e Andrade. Alcunha que foi logo descartada: Oxi Minina, isso lá é nome? Meu nome é Severino. Sou severo como o sertão. Tome nota aí, Dona Maria: Severino Severo. Num moro nesta terra que num dá futuro para gente comu eu. Nasci pra lá dos cafundó de Judas do Nordeste. Eu nasci num lugá tão longi qui você, nunquinha deu com os pé por lá. Num venha me butar nessa cidade de fala cumplicada, de um povo de fala engrolada. Vôte!

Foi assim que Severino, com sua linguagem peculiar, se impôs à narradora. O que será que vai acontecer com esse pobre nordestino em pleno século XXI? Se interroga em voz alta a narradora: Que personagem mais desvairado! Como sobreviverá com essa língua tão inculta e hedionda? Ô narradora metida a besta, diz Sevé. Aqui em riba, cá dondi moru, todu mundo apreceia minha fala qui é longi bem longi desse negocio de computadô e de uma coisa de consertá o escrevê de nomi esquisito: corretô o-to-glá-fi-co. num seria mió a burracha? Prá quê prendê as palavra?

            A narradora compreende sua pasmaceira. percebe o quanto a linguagem falada pode contribuir, principalmente para a simplicidade da escrita. Desvairada somente ela própria no seu esforço de ser letrada, em querer escrever de forma para agradar aos outros. Certo estava Mário de Andrade, os modernistas ao deglutirem a nossa língua, nosso modo de ser. Ensinaram que devemos nos orgulhar de quem somos.  Foi assim que a narradora exclamou: Grata, Severino, por me lembrar que essa linguagem também é minha. Assim liberta o fluxo da narrativa. Até eu da minha onisciência respiro aliviada, posso pegar o bonde da história.

            Assim nesse tempo distante do modernismo, quem narra pode ousar por meio de muitos experimentos. Inclusive pode até construir uma história dentro de uma história. Hoje, compreende-se a relevância do movimento e é possível iscrevê como se fala. redescobri a língua malemolente, macumaniamamente cadenciada, cheia dos amores no transitivo, que pode ser modificada com o tempo e o espaço. Eita língua bonita, inculta, mas muito bela. A língua do povo forte e resiliente do Nordeste! A linguagem cheia de simplicidade que também é a da narradora! Pode até inriquecê o processo criativo! E quem não gostá vá que procurá o abaporu!

Recife, 17 de setembro de 2021, modificada em 25 de setembro de 2021 e 30 de setembro de 2021.

*

RESUMO DA HISTÓRIA

Esboço de uma história sobre a importância da língua falada na escrita. uma história de uma narradora (que é a própria narradora) que organiza uma história para refletir sobre a escrita mais adequada para uma narrativa e como fazer uma estruturação de romance. Seus personagens e enredo são pré-concebidos, mas o personagem principal se rebela e muda de nome, tempo, lugar da narrativa e fala numa linguagem bem coloquial do Nordeste o que faz a narradora refletir sobre a importância de incorporar na escrita a língua falada, sobre para quem escreve as suas histórias e também a possibilidade de mudar o curso da estrutura programada dando uma certa leva ao processo produtivo, sem perder o foco do assunto a ser tratado. Além de nas entrelinhas recomendar a simplicidade das palavras na narrativa.

*

Estrutura da história

Prólogo – dois primeiros parágrafos

Capitulo 1 – a narradora – terceiro parágrafo

Capitulo 2 – o personagem – quarto parágrafo

Capitulo 3 – a linguagem nordestina – quinto parágrafo

Capitulo 4 – a língua portuguesa – sexto parágrafo

Capitulo 5 – a escrita da narradora – sétimo parágrafo

Epílogo – a língua nordestina – reflexões na escrita corriqueira com sotaque, como também sobre o processo criativo.

*

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Parafraseando o Descobrimento, de Mário de Andrade

*

      Estou em minha casa. Confortavelmente instalada. Olhando pela vidraça da janela, tenho uma delicada paisagem das montanhas, de onde acompanho, todos os dias o Sol, ao nascer. E, mensalmente, o deslumbre da Lua Cheia.

Na praça em frente, vejo um jardim florescente que apraz os meus olhos, quando Primavera.

Na paz do ambiente, Penso em meus filhos. São quatro. Sei onde estão: em seus lares. Fico contente por saber que estão felizes.

Entristeço bruscamente ao lembrar que num bairro, da mesma cidade, uma mulher, igual a mim, também mãe, sofre porque, em seu lar, existe a fome. E os filhos? Perdeu-os para as drogas e para o crime. Ela não sabe onde encontrá-los.

*

Diego Pereira

Contato: diegopereiranoleto@hotmail.com

Projeto de Romance 1

Título: “Para teus olhos enterrados”

Argumento: Gilbert vai até a Índia deixar as cartas de Shankar, seu amigo que morreu em um navio no litoral do Nordeste.

Conflito: com a morte de Shankar, Gilbert passa a se corresponder com a viúva do amigo, de onde surge um sentimento entre eles.

Elementos do texto:

Narrativa epistolar e memórias de Gilbert

Trama:

Brasil. É o ano de 1958. Shankar sai da Índia para uma viagem de navio cargueiro para o nordeste do Brasil, para o porto de Itaqui, em São Luís. Recém-casado, deixa a esposa, para uma expedição de quase um ano e meio longe de casa. Nesse tempo o mundo é acometido por um vírus mortal (Gripe espanhola / Corona Vírus?) que acaba por obrigar as pessoas a ficarem em casa. Paralização da vida como conhecemos e mudança no comportamento social, os civis em quarentena, intervenções médicas, vacinas, muitas vítimas.

O vírus mortal atinge a população e impede que os navios estrangeiros atraquem, para descarregar suas mercadorias. Isso faz com que o tripulante indiano, Shankar, fique em quarentena no navio contaminado que veio da Índia, com mais 27 tripulantes. Infelizmente, ele não sobrevive 

É década de 50 do século 20. As comunicações ainda estão em desenvolvimento, por isso ainda há o uso de correspondências entre as pessoas. Shankar mantinha correspondências com a sua mulher na Índia, e mais de um ano longe de casa somam-se 13 cartas.

Gilbert, um dos tripulantes, e amigo de Shankar, é quem tem que avisar à sua mulher que já espera mais de mês por notícias, agora, infelizmente, ruins.

Gilbert se sente responsável por ser portador dessas notícias e decide levar todas as cartas pessoalmente para a viúva, na Índia. Resolve, assim, manter um diálogo com a esposa do amigo. Aqui começa uma nova remessa de cartas, envolvendo os dois numa relação sensível entre o luto, a veneração e uma possível amizade/amor. Será que passam a se amar mesmo que próximos do falecido? É possível nascer amor depois de uma perda, de um luto tão recente? Esse amor é justo e puro ou é imoral?

São questões que devem ser respondidas pela amizade, pela atenção dedicada entre os dois, pelas confidências e outros sentimentos que podem nascer de momentos tão difíceis.

Projeto de romance 2

Título: “O búfalo cai” (A ideia de que um animal tão grande e forte pode também perecer)

Argumento: O neto viaja de volta a cidade natal para o enterro da avó e rever os familiares, incluindo o avô e o próprio pai.

Conflito: Uma relação difícil com o avô. Os dois não se falam. O que leva a um relacionamento de desafeto com o próprio pai.

Elementos do texto:

Narrador em Primeira pessoa

Trama: Ricardo Simão volta para o enterro da avó e reencontra os familiares. Essa volta é, na verdade, o reencontro com o próprio passado, e a busca por uma redenção, diante do relacionamento difícil que tem com o avô e com o pai. De alguma forma ele é escolhido (ou se propõe já que precisa se sentir parte da própria família – como se tivesse na obrigação de fazer alguma coisa) a escrever algumas palavras, fazer um discurso, em homenagem à falecida e parte numa busca por informações e na descoberta do passado da sua família. A partir desse ponto ele vai adentrar a personalidade rude do velho avô, sua forma ríspida e seu espírito destituído de prazer e sentimentos, e descobre a vida difícil que levavam seus antepassados, moldados por trabalho forçado para manter um sustento, presos nas convenções sociais, as intrigas, o abandono do lar na busca por um lugar melhor e outros tantos pequenos dramas que vão culminar na vida “seca” daquelas pessoas tão atarefadas e egoístas que agora estão desprovidas de sentimentos, e de como esse vazio foi passado do avô aos filhos (seus tios) e ao seu pai (também quase um retrato do avô) e, quem sabe, a ele mesmo. Nesse resgate, Ricardo Simão vai reavaliar seus próprios privilégios, sua vida de regalias a custo de um esforço do pai disposto a manter as aparências, e daí também seu tempo livre a pensar naquele sentimento que um dia buscou e não teve, e seu lugar de fala e de onde pode – ele mesmo – refletir sobre um passado tão duro que acabou moldando a relação de todos os familiares. Nesse percurso ele pode pensar que há uma relação entre ter tempo livre para pensar na vida (Ele Ricardo Simão) ou viver duramente e manter as convenções e obrigações sociais (vida do avô e do pai). No final, ele também cai, porque desce do seu altar e usa da compaixão para entender a sua vida e dos outros ao redor e precisa entender como as relações familiares e de afeto se constroem e vai reescrever a própria história.

Então é o Búfalo, animal que se acha e se sente forte, mas que também pode cair em algum momento.

*

Elenara Leitão

Contato: arqstein@gmail.com

*

Gestação de memórias

“Eu afirmo que a ‘criação livre’ é uma quimera, porque ninguém não é feito de nada, nem de si mesmo apenas; e a criação não é nem uma invenção do nada, mas um tecido de elementos memorizados, que o criador agencia de maneira diferente e quando muito leva mais adiante. Estou insistindo numa lapalissada. A criação, com toda a sua liberdade de invenção, que eu não nego, não passa de uma reformulação de pedaços de memória.” (ANDRADE, Mário de. O banquete)

1- Memorial descritivo

1- Das motivações

Resgate da memória de tantas mulheres, que anônimas, fizeram e fazem a vida acontecer. Não é um romance clássico, embora tenha dramas, amores e suspenses. Não é uma biografia apenas atenta a fatos. São retalhos de memórias e histórias que foram relatadas de boca em boca, em forma de cartas. São buscas pela vida e pelas mulheres que nos precederam.

As pesquisas que fazemos na história de nossa genealogia nos abrem mundos e curiosidades sobre avós e bisavós. Talvez algumas das coisas que serão aqui relatadas misturem ficção e realidade. Colchas de retalhos sobre fatos, relatos e sentimentos, muitos dos quais assoprados em nossos ouvidos. Talvez por elas, que nos usam como ferramenta para que suas vidas sejam conhecidas pelas suas descendentes.

São histórias que mesclam épocas. Entram no final do século XIX, onde nasceram algumas. Adentra pelo século XX, passando por revoluções e guerras, até chegar aos nossos dias, acompanhando as mudanças pelas quais passaram essas mulheres.

*

pudores sentimos

mulheramente transgressoras

rompendo véus

gritando ardores

*

é preciso que alguém se importe

para ir atrás de nós

vozes adormecidas em lares

que há muito não mais existem

*

2-Prólogo – Dos cenários

Lares. As casas, os mundos de dentro e a situação do mundo nos tempos em que viveram essas mulheres de vida comum.

Descrição dos cenários do interior de uma Alemanha, que ainda não era um país como hoje conhecemos. Aldeias milenares com suas vidas, onde a rotina era quebrada por lutas religiosas, convulsões políticas e pobreza reinante. Tanta que muitos se lançaram ao mar, em busca de novas vidas, em travessias perigosas e um mundo novo, deixando família para trás, sem nunca mais voltar.

Os portugueses e sua situação em Chamuscas e nos Açores, origem das mulheres que me arquitetaram. O Brasil de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul com suas lutas armadas, onde mulheres tinham que arcar com o comando de suas casas, muitas vezes sem preparo e sem profissão.

E o mundo e o que oferecia às mulheres de então. As novas gerações, já nascidas em direitos, não conhecem as limitações e poucas escolhas que suas antepassadas tiveram. Mas mesmo assim, construíram suas vidas. E lançaram sementes para as nossas.

*

Módulo 10 – Carlos Drummond de Andrade:

Elenara Leitão

Carta para Drummond

Porto Alegre-se… em um dia no meio de um outono estranho e ventoso como soem ser as primaveras em solo gaúcho

Meu caro poeta!

Tempos idos minha saudosa cunhada pediu um verso que, de certa forma, me representasse. Adivinha o que escolhi:

A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco.

C. Drummond de Andrade

Confesso, Poeta, a Vida me dá vários socos. Talvez por isso essa minha necessidade de colocar para fora. Escrever, mesmo sem rumo, mesmo sem gurus ou mestres. Inspirações? O que vier no momento. Clarice, Caio e Lya quando mais jovem. Uma pitada de Hilda mais tarde. O Assis Brasil sempre. De ti, Poeta, não lembro de haver mergulhado profundamente. Talvez em um conto mais sacana, desses que a gente escreve para um amor especial, muito corpo, mas também alma.

Mas, se o teu coração, Drummond, pode crescer dez metros, sem arrebentar, o que será de mim? E agora, moça calada?

O céu empedrado, a utopia mofada, os afetos escondidos, a vida que geme. E agora, dona moça das patéticas palavras?

Escutar a ti, poeta mineiro, não me fará escrever melhor. Vai talvez, quem sabe, acordar fagulhas há tempos adormecidas.

As sutilezas jazem no campo nem tão santo dos dias que correm. Gentileza e luminosidade se acabam nas ilusões rotas das malas desfeitas.

E agora, me indago, moça encantada que ainda sou? Espelhos me mostram outro rosto, não o meu, tão ainda cadente. O reflexo ressoa trilhas de décadas de sonhos carpidos.

Um tanto de culturas, para mim exóticas. Mas não, apenas outras formas de ver o mundo. Sentir o tempo. Colher a semente.

Colheita pungente de minutos que escorrem nas águas nascentes. Tocantes sons misturando palavras e voos. Canto de pássaros, buzinas de ônibus, passos apressados, olhares assustados. Memórias e vidas lacrimejam.

E agora, moça? Ainda resta espaço para poesia na minha alma?

Desculpa, Carlos, essas divagações à toa. São o canto dos pássaros, as manicacas que voam alegres nos telhados vizinhos. Talvez os cheiros da manhã que se adivinha sonolenta como tarde com pão de queijo e café quentinho na mesa da casa da mãe.

Se me atrevo, é porque o desconhecido que me habita cada vez se torna mais essencial.

Abraços carinhosos, saudações a todos.

PS: Um beijo especial em Clarice que ainda – e sempre – me companha em inspirações.