Posts com Escrita Criativa

Índex* – Junho, 2020

Quem sou eu

Para falar de

Estrelas

E você

Me pede

Chão?

Que o sol

Brilha para

Todos

E você

Entre chuvas

E redemoinhos?

Não sei

Só sei

Que

Deus

Cosmos

O próprio sol

Ou o nome

Que desejar

Me fez

Tomar

Papel

Caneta

E lhe

Escrever

Que tudo

Irá passar

(“Para quem se sentir triste”, Patricia Gonçalves Tenório, 04/06/2020, 11h21)

 

O raio de sol da escrita no Índex de Junho, 2020 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Junho, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Diversos.

“A baronesa”: Uma novela foto-áudio-ensaística em duas vozes e dez capítulos | Com Adriano Portela (PE – Brasil), Jaíne Cintra (PE – Brasil), Juliana Aragão (PE – Brasil), Mariana Guerra (PE – Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Telefonata in “Microcosmo” | Alfredo Tagliavia (Itália).

“2020” | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

Drops de Clarice Lispector | Débora Mutter (RS – Brasil).

24, vi-vos | elilson (PE/SP – Brasil).

Infinita gratidão pelos envios, a próxima postagem será em 26 de Julho de 2020, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

____________________________________________

Index* June, 2020

Who am I

To talk about

Stars

And you

Ask me

For ground?

*

That the sun

Shines for

All

And you

Between rains

And swirls?

*

I do not know

I just know

That

God

Cosmos

The sun itself

Or the name

You want do call

Made me

Take

Paper

Pen

And write

You

That everything

Will pass by

(“For those who feel sad”, Patricia Gonçalves Tenório, 06/04/2020, 11:21 am)

 

The sunshine of writing in the June Index, 2020 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Online Creative Writing Studies – June, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Miscellaneous.

“A baroness”: A photo-audio-essay novel in two voices and ten chapters | With Adriano Portela (PE – Brasil), Jaíne Cintra (PE – Brasil), Juliana Aragão (PE – Brasil), Mariana Guerra (PE – Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Telefonata in “Microcosm” | Alfredo Tagliavia (Italy).

“2020” | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

Drops by Clarice Lispector | Débora Mutter (RS – Brasil).

24, I saw-you | elilson (PE/SP – Brasil).

Infinite gratitude for the contributions, the next post will be on July 26, 2020, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

Fotografia George Barbosa

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O raio de sol da escrita preenchendo os cem dias de quarentena. Fotografia: George Barbosa. The sunshine of writing filling the hundred days of quarantine. Photography: George Barbosa.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Junho, 2020

A escrita do Leste Europeu

Patricia Gonçalves Tenório*

 

Viajamos com os Estudos em Escrita Criativa On-line quase 24 horas para estarmos aqui, no restaurante Bellevue, na Smetanovo nabrezi em Praga, com vista para a Ponte Carlos sobre o rio Vltava. O corpo, ainda modificado pelo fuso horário da viagem, encontra-se aberto para toda percepção, para qualquer sentido que o faça despertar um cenário, uma cena. Um personagem principal.

Chegamos aqui nas asas de Teresa, e Tomas, Sabina, e Franz. Os personagens que nos guiam na Praga dos anos 1960 em A insustentável leveza do ser, do escritor tcheco Milan Kundera.

Descobrimos com o professor e escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil que o seu Escrever ficção é alicerçado em dois pilares: os personagens e o sistema orgânico. Os personagens gerando os eventos imprescindíveis da narrativa. É o que nos aconselha Assis Brasil. É o que realiza Kundera, a começar por Tomas.

O espírito kafkiano impregna as paredes de cimento dos prédios burocráticos da Praga dos anos 1970. Em nós impregna o espírito da cidade, como se soubéssemos escrever em outra língua que não é e é tão diferente da nossa, assim como fizeram Kafka (em alemão) e Kundera (em francês).

Milan Kundera explica essa herança que faz autores tão diversos quanto ele mesmo, Franz Kafka e a poetisa polonesa, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 1996, Wislawa Szymborska, falarem uma mesma linguagem. A linguagem do silêncio que o totalitarismo, o comunismo, o império russo impregnou na escrita do Leste Europeu, em cidades como Varsóvia, Budapeste, Praga.

Em A insustentável, Kundera possui vários temas: o peso, a leveza, a alma, o corpo, a força, a fraqueza. E vai utilizando-os em forma de digressão, mas sempre atrelados a um personagem, sempre os iluminando e os tornando mais profundos. Enquanto isso, Szymborska, numa seleção de Poemas, navega pela política, pelo mito, e pela própria construção da poesia.

E realizamos mais uma viagem pelo Leste Europeu. Dessa vez viajamos para a Áustria e analisamos a construção da novela A baronesa (obra inédita de minha autoria, e que será lançada no site dos Estudos em formato PodCast) ambientada na época áurea da Viena do fim do século XIX e início do século XX, na qual foram contemporâneos nomes como Gustav Klimt, Otto Wagner, Arthur Schnitzler e do pai da Psicanálise, Sigmund Freud.

Finalizamos o quarto módulo dos Estudos em Escrita Criativa On-line com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados e a sugestão de filmes relacionados com o Leste Europeu e a Escrita Criativa.

_______________________________________

* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

_______________________________________

Módulo 4 – Aula 1: 

Módulo 4 – Aula 2:

Módulo 4 – Aula 3:

Módulo 4 – Aula 4:

_______________________________________

Exercícios de Desbloqueio – Módulo 3 – Brasil:

 

Américo Pinheiro

Contatoamericopinheiro@gmail.com

Prosa Poética

 

Andei pesquisando sobre essa tal prosa poética. É um texto em formato de prosa, porém com um pouco de estética. Parágrafos de puro lirismo, que há demais nisso? Poesia vem de poiesis, e na prosa ela deita sua prece. As palavras precisam ser sabiamente escolhidas, para formar uma combinação de todo específica. Algumas letras podem ser propositalmente repetidas, provocando no leitor uma súbita e sutil sensação de sonoridade, suave. Não parece nada fácil pra mim, mas vou tentando e tentando mesmo assim.

 

Angélica Glória

Contato: angelicagloria@id.uff.br

Te implica!

 

É que antes, pra mim, viver era como a escrita: momentos que brotam enquanto eu só acompanho. Bonito até pensar assim, sempre me achei sensível demais, única, por me deixar levar pelas contingências. É poético. Só que tem um preço. A vida que passa como uma história de fluxo contínuo, sem responsabilização, escapa da liberdade, o que tem maior valor sagrado.

Depois eu entendi que não sou um conceito, minha subjetividade é, sim, construída por mim, são nesses lances de implicação comigo mesma é que me torno mais liberta.

Fumo um cigarro de filtro amarelo sentada na baixa soleira da porta da minha avó, foi isso que me fez lembrar de Elena. Hoje, com as pernas bambas e o olfato prejudicado, minha avó não vai mais repetir as broncas que eu ouvia quando garota, fugindo para fora do casebre para dar tragadas rápidas. Então tenho bastante tempo para encarar meus pensamentos, o que me leva para um passado gelado, quando ficava horas sentada fumando com Elena, na mesa do lado de fora. Eu não tinha mais trabalho nenhum para fazer, mas queria aproveitar qualquer oportunidade para passar mais tempo com ela. Fazia frio e, mesmo agasalhada da cabeça aos pés, eu precisava acender cigarros um após o outro para aguentar a ventania no meu pescoço enquanto seguiam nossas conversas. Nem gostava tanto do cheiro da fumaça nessa época, o gosto amargo de nicotina martirizava minha boca por dentro e eu me esforçava para não transparecer numa cara feia. Posteriormente aprendi a gostar.

De alguma forma eu achava que, por ser quem me ensinou a amar, Elena era figura primordial na minha existência. Eu devia priorizá-la em tudo. Passamos incontáveis finais de semana agarradas, trocando carícias, assistindo séries na televisão pequena de sua sala de casa ou simplesmente deitadas uma ao lado da outra enquanto mexíamos no celular. No começo o silêncio ao lado de Elena era reconfortante, depois foi tornando-se tão sólido, duro, apertando meu peito todas as vezes que eu esticava minhas pernas em seu colo e ela mal me olhava.

Nossa relação foi perdendo um pouco a forma, a magia, mas Elena continuava sempre ali. Às vezes um pouco ausente, um pouco distante, necessitando da frequente corrida de minhas pernas para alcançá-la. Elena sempre me dava bolo em cima da hora ou atrasava ou aparecia no dia seguinte ao combinado e eu me sentia egoísta se não entendesse e aceitasse suas explicações. Como eu poderia julgá-la mal se gostava tanto de mim? Foi um amor confortável até nos seus desconfortos, cujos problemas eu demorei muito tempo para notar. Ficamos juntas por pouco mais de três anos. Por pelo menos metade deles, eu me senti inadequada.

Foi difícil ter forças para sair. Se eu saía, depois de pouco tempo voltava. Quando eu pensava em escapar desse ciclo e viver de uma outra maneira não conseguia porque se eu pensasse em Elena, logo via minha imagem junto a dela. As pessoas sempre nos associavam também, eu chegava em um encontro de amigos na praia ou numa lanchonete e logo perguntavam “a Elena vem?”. Nossas testemunhas sabiam que éramos inseparáveis. Mas ninguém sabia de nada, do que eu sentia, dos vácuos temporais, dos pensamentos autodestrutivos, da falta de valor que eu atribuía a mim, nem Elena. Só eu sabia.

Minha perna sinaliza que tenho uma materialidade, dando indícios que começará a ficar dormente a qualquer momento, troco de posição. Hoje faz realmente muito frio, minha coluna se arrepia e eu penso em ligar para Elena, contar como me senti durante todo aquele tempo, me explicar. Talvez se eu fosse um pouco mais sincera poderíamos ter dado certo.

Cogito um contato que sei que não farei. Foi tortuosa e lentamente, mas aprendi que a minha narrativa não se conta sem meu papel articulando os atores, tudo ficou mais fácil quando escolhi a liberdade de poder ser eu mesma. Não é tão ruim assim ficar sozinha, como eu temia.

Me levanto e volto para dentro. É hora de esquentar a janta da minha avó.

 

Bernadete Bruto

Contatobernadete.bruto@gmail.com

Crônica de uma vida anunciada

 

Mote: “Tudo havia passado, porque nada passa. É agora que tudo é.” – Adélia Prado

 

Neste intervalo de tempo, sinto que o movimento do mundo parece ter diminuído o ritmo, posso ficar aqui sentada procurando entender o que é este agora que fala Adélia Prado.

Neste intervalo de tempo, tomo consciência da finitude da vida e que muito tempo já se passou desde quando tomei conhecimento da dimensão do tempo aprendendo a contar as horas e minutos num desenho de relógio analógico. Tempo avisado por badalar relógios da minha infância.

Agora, muito já é passado. Quase uma vida inteira…vejo uma criança feliz correndo sem preocupação com as horas. Depois, uma mocinha morena na beira da praia, desfrutando o sol despreocupadamente. Mais para frente, já é uma mãe de família que trabalha e se desdobra para estar com os filhos, para tudo que precisa fazer…na escuridão da vida, uma mulher madura enfrentando a solidão, a angustia de uma longa espera de histórias sombrias…até chegar a mulher idosa reconciliada com o tempo.

Neste intervalo tempo, enquanto escrevo, sinto saudades de um passado onde muitos entes queridos ainda viviam. Procuro por eles nesses melhores momentos, no meu álbum de memórias coloridas e minha alma se conforta, porque sinto a forte presença de todos os que se foram batendo forte nesse coração. Sinto também a força de todos os antepassados que nem conheci e estão presentes em mim, através de suas histórias e do meu DNA. Meus bisavós, avós, meus tios, tias, primos e primas têm seu lugar no coração da minha grande família.

Enquanto escrevo, neste intervalo de tempo, tomo consciência da eternidade da existência dentro da vida, tão corrida e breve, que sorrio para o agora que é. Olho de frente o que foi mal passado, entretanto carrego no peito aquele passado bem passado. E porque nada passa, deixo-me levar na plenitude deste amor eterno, agora.

Recife, 27 de maio de 2020.

 

 

Elba Lins 

SENTIMENTO DE SERTÃO

Contatoelbalins@gmail.com 

 

Sentimento de Sertão!

Talvez não tenha sido uma frase vinda da boca (ou do papel) dos escritores da vez, mas quando na aula Patrícia fala em “Sentimento do Sertão” algo se liga no meu pensamento.

 

Sentimento de Sertão!

É algo longínquo no tempo

Algo distante no espaço

Mas que, uma centelha

Me traz de volta:

– O cheiro da terra molhada em dias de chuva.

– As águas enchendo as biqueiras, limpando telhados e escorrendo pelas calçadas.

– Aquela poesia de Guilherme de Almeida sobre o barquinho de papel – Quando a chuva cessava e um vento fino franzia a tarde tímida e lavada.

– Aqueles trovões distantes que de repente iam ficando próximos. O barulho dos trovões cada vez mais próximo da luz que rasgava o céu cinzento e cobria de luz breve a noite escura. Era o céu se preparando para parir, em contrações cada vez mais próximas. Era o céu abrindo seu ventre para muito em breve inundar o meu lugar. [Belíssima imagem!]

–  Os galhos secos do marmeleiro (que também era, a Fazenda do meu avô) que se faziam verdes após as chuvas.

– Os galhos do marmeleiro que tirados do pé, se transformavam em pequenos cavalos de pau. E nós corríamos em cima deles, pelo terreiro da fazenda Marmeleiro, em viagens que marcaram minha infância.

 

Sentimento de Sertão!

– É o queijo quente, feito na grande tigela.

– É a toalha de quadros tentando se despregar da mesa da fazenda para voar livre, ao vento.

– É o cavalo de verdade, onde uma vez minha prima montou e ele saiu em disparada.

 

Sentimento de Sertão!

– É quando o céu está escuro, dizer que “está bonito para chover”.  Diferentemente daqui no litoral onde dizemos que “o tempo está feio”.

 

Sentimento de Sertão!

– É tudo isso que mesmo tantos anos distantes traz à nossa alma esta presença de chão seco/ de vento seco/ de redemoinho empoeirando tudo.

 

Sentimento de Sertão!

– É ser matuto e mesmo na cidade se ver representado no trecho da música que diz

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.

(Lamento Sertanejo -Gilberto Gil / José Domingos)

 

 

Gabriela Vieira

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

“o que me comanda não gosta de divisões”, de Adélia Prado.

 

não nasci para me doar em metades.

o universo não levou todos esses anos

para criar a galáxia que dentro de mim vive

só para eu contar nos dedos as estrelas

que deixo cair de meus céus

c u i d a d o s a m e n t e

 

não, meu coração não diz meias verdades.

quando abre a boca não apenas fala,

grita para quem puder ouvir

suas dores, seus amores

porque quando eu deixo alguém aqui entrar

não é só para a vista apreciar

como uma daquelas corriqueiras paixões

mas para receber minha alma por inteiro

s e m   d e v o l u ç õ e s

 

então não ouse

esperar de mim

uma vida contida

porque não se

doar em metades

é indispensável parte

do artista cujo coração

é sua maior obra de arte.

 

Giovana Teixeira

Contatogigiteixeira.pereira@gmail.com 

 

“[…] Pois como eu disse a palavra tem que se parecer com a palavra, instrumento meu. Ou não sou um escritor? […].”

(A hora da estrela, Clarice Lispector, 1977)

 

Não sei se sou alguma coisa. Queria ser, mas me imagino à margem, não sei a qual lugar pertenço. Nada daqui, desse texto e de todos os outros, é digno de nome. Não tenho voz agora e me pergunto se alguma vez já tive. Minha voz costuma ser emprestada dos outros, assim como minha vida também os diz respeito. Tenho sede de palavras, mas elas não são minhas. O que isso faz de mim? Sou eu quem escreve, mas não sou escritora.

Não sei se estou perdendo tempo confessando minha falta de originalidade aqui. Parece-me que estou conversando comigo mesma, coisa que sempre fez sentido. Escrevo por motivos de força maior também, Clarice. Mas mesmo assim sinto que não uso meu próprio instrumento para fazê-lo, assim como também não uso de minhas próprias pernas para viver. Não sei de onde vem esse sentimento que me balança inteira, mas existem momentos que sou página em branco, quem escreve por mim são as palavras que me alimentaram desde a infância. [Belíssima imagem!] Devo sofrer com isso? Talvez não, mas sofro. Entro no campo da confusão: quero ser muito algo que ainda não sou. Vocação é mesmo diferente de talento e eu fui chamada, sim, diversas vezes me chamaram, Clarice, mas não sei como ir.

 

Joel Martins Cavalcanti

Contatojmartinscavalcante@gmail.com 

O pedido de casamento

 

Sinopse baseada na frase: “É preciso necessidade para as coisas acontecerem.” (Adélia Prado em O homem da mão seca)

 

O conto narra o pedido de casamento de João a Luiza. Apesar de trabalharem juntos há muito tempo e sentirem uma atração mútua, nenhum dos dois tinha coragem de expressar seus sentimentos. Quando Luiz, o novo empregado, chega na fábrica, e passa a se aproximar de Luíza, João fica com ciúmes. Certo dia, na hora do intervalo, quando saía do banheiro, João ouve Luiz se declarando para Luíza, interrompe a conversa de supetão, e faz o pedido, antes que ela pudesse responder ao outro.

 

Júnior Melo

Contatojuniormelo2005@gmail.com 

Desbloqueio criativo 3 (C. Lispector e A. Prado)

 

A caneta começou a riscar o papel lentamente, mas o coração batia forte. Não era inspiração, nem nada. Era raiva mesmo. Raiva de mim e dos outros. Raiva de tudo. Eu queria mesmo era sair gritando aos quatro ventos tudo que está na minha garganta feito um bago de jaca parado na goela. Mas, esse sol sobre minha cabeça, arde a alma e paralisa as atitudes. Ainda ontem, vieram me contar sobre ele. Que estava bem, que arranjou um novo amor. Uma mulher nova… não me importo. Quero mesmo é que ele refaça o calvário que teve comigo, já que me deixou. Eu? Eu sou mulher o bastante pra viver sozinha. Não sei porque o mundo masculino se acha imprescindível. Claro que na hora do sexo, sim, mas isso é tão pequeno em relação às grandes lutas. Hoje, o dia amanheceu mais calmo. O senhor do andar de cima não reclamou com a esposa na hora do café. Maria me ligou logo cedo. Mulher, pequena, ágil, nordestina. Veio morar aqui no prédio assim que chegou de Recife. Logo vi que era boa pessoa. Um dia, me percebendo triste, falou com aquela sabedoria das pessoas simples: despeja tua peleja no caderno! Ah… Maria.

 

Lis Diniz

Contato: lisgranjeiro@gmail.com

Coma poético

 

O Sol invade a rotina em anestesia com pouca frequência. Quando acontece, eu me tomo de uma dança interna como se meu corpo todo tivesse memória, mas eu sequer noto uma unha encravada, tampouco uma adaga cravada nesse vazio indigesto.

Ah, a indigestão, as palavras inauditas de um silêncio provocador. O quanto comiserei, quanto poupei o mundo de meus ordinários tropeços pensando ter alguém a assistir. Agora: aplausos para o nada. A cortina fechou.

As poéticas escapam à confusão por serem inconvencionais, disse Adélia. O tempo se confunde nessa caixa, quem diria as palavras acumuladas não transbordaram e sem as pretensiosas revoluções a poesia ficou entalada. Como um cano de esgoto, fétida, cujo caráter cáustico não corrói as paredes do silêncio, diamante de tamanha rareza e deveras lapidado, nostálgico.

Se alguém espera respostas para indagações poéticas, esse livro é mais uma pergunta a propriamente um diário de resoluções. Quem quer resoluções busca por vidas instangramáveis perfeitas e a paupérrima literatura auto-ajuda -avesso de toda poética -, por vezes sonsa e mesquinha.

Menina Clarice tinha a língua presa e além de ruiva em um país de morenos, era clandestina. Decerto romantizaram a sua existência, todo poeta carrega algum incômodo de fundo e toda poeta carrega o silêncio a mais.

Quanto tempo para desengavetar sabendo: de futuro célebre são poucas. Nas palestras um caderno cheio, nada dito. Nos recitais um constante incômodo, como o quebra-panela que fizeram em seu aniversário com uma panela de barro, mal sabiam entre as camadas de barro havia ferro.

Para fluir incólume precisaria de uma força estranha ali. Sem tamanha ousadia dos artistas performáticos e da oralidade mnemônica foi se guardando, até as pedras pesaram seu estômago, mãos e vértices. Virou um corpo poético no além êxtase flutuando sobre a vida.

 

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com 

 

 

A morta-viva

Expirou vida

À beira da morte.

 

Grávida de esperança,

Desfez-se em luz.

 

Sem título

Engasgada pelo passado

Muda pelas palavras não ditas

Cega por tudo aquilo que não queria ver

Coração descompassado por falta de amor.

Cansada

 

Ao dobrar a esquina

Descobriu-se grávida.

Grávida de esperança

Pelo que estava por vir.

 

Cai o pano.

 

Mariana Moura

Contatomariana.moura88@gmail.com

O amor às palavras

 

Aquele que gosta de escrever

Parece tradutor da vida

Ele descreve em palavras, sentimentos

Descreve pequenos grandes momentos

Como quando se vê depois de dias de mal tempo

O sol aparecendo em uma fresta entre as nuvens

Ou como quando os olhos brilham ao ver pela primeira vez

Aquele que pode ser o próximo grande amor

Ou ainda o sorriso da criança ao ver uma simples taça de sorvete

que se abre como um botão de flor

É, a poesia e a prosa são nossas portas para o mundo

E aqueles que têm em escrever mais que vontade

Uma necessidade

São a ponte.

 

Olga Nancy

Contato: olga.cortes@acad.pucrs.br

Folha em branco

 

O temor da folha em branco transforma o sentir em concretude. Mais do que isso, transforma o vazio existencial que parecia vago e abstrato, porque egoisticamente me pertencia, em algo compartilhado porque confrontado. A folha branca me confronta. Confronta-me com minha miséria de ideias, de conexões e de conhecimentos. Empobrecida, vejo-me transformada em uma máquina reprodutora de pensamentos alheios repetidos atrás dos muitos sinônimos que a rica língua portuguesa oferta. Não há tempo para maturar. É tempo de reproduzir à luz do fordismo, taylorismo e todos os ismos em que nós passivamente nos inserimos. Folha em branco, vazio concretizado, pânico instaurado. Fugir dessa branquitude é um remédio que insidiosamente torna-se um poderoso veneno. Preencher a folha de qualquer forma para escapar da angústia nos empobrece. Não é para isso que vivo. Isso é apenas sobreviver. Isso é apenas manter um controle ilusório sobre algo que adormece e logo despertará. Pensar é um ato, dizia Lispector. É um ato de resistência, talvez o único ato em que posso me singularizar, em que posso me recriar e, por meio do qual posso viver.

 

Paulo Roberto de Jesus

Contatopoujesus@hotmail.com 

 

“Não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas”, disse André pensativo. Joãozinho que o escutava atentamente disparou: ”explique, Sujeito, o que quer dizer. Para mim parece uma dessas frases de efeito”. “Frase de efeito, João? Pô, cara! Parece que não me conhece. E a frase é autoexplicativa. A interpretação faz parte do pacote”. Joãozinho gargalhou com vontade e disse: “Não falei que estava enrolando? Saiu esta frase e você disse a esmo.” O outro insatisfeito com o comentário do amigo disse: “frase de efeito é o…  tenho o meu desejo nas coisas você pode entender de maneiras diferentes. A primeira é auto evidente. Pô! Não tenho tudo que desejo, mas desejo estas coisas e por deseja-las tenho meu desejo nelas, entendeu, Caroço?” O outro coçou o nariz e disse: “Caroço é a senhora que te pariu e acho que entendi. Tenho cara de burro por acaso? E qual seria outra maneira de entender?” André disse: “Caroço, você é um caroço. E se falar da minha mother novamente o bicho vai pegar. Fique esperto, Caroço. O outro modo é que se tenho o meu desejo nas coisas é só porque tenho as coisas que desejo, só tenho as coisas que me são úteis. Óbvio. Porque teria coisas que não me fossem úteis? Neste caso não teria nelas o meu desejo, entendeu?” “Entendi, Senhor Cabeção, mas não concordo. A segunda interpretação por vós exposta não passa de enrolação, porque o mote diz que não tenho todas as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas, o que implica dizer que não são somente as coisas que possui mas estão também inclusas neste conjunto as coisas que não possui e por isto tem o seu desejo nelas, entendeu, Crânio?” “Sim, Caroço, acho que tem razão, pisei no melão…” “Caroço é a velha que te pariu”, disse Joãozinho que saiu rapidamente do lugar antes que o clima esquentasse entre os amigos.

 

“A baronesa” | Uma novela foto-áudio-ensaística em duas vozes e dez capítulos

De Charles Allington

Com Patricia Tenório e Adriano Portela

 

É com imensa alegria que apresento A baronesa: Uma novela foto-áudio-ensaística em duas vozes e dez capítulos, de Charles Allington.

Durante a pandemia de Covid-19, cada pessoa em sua residência, eu e o escritor, professor e cineasta Adriano Portela fizemos a leitura dramatizada das vozes feminina e masculina de A baronesa, sob orientação da designer Jaíne Cintra (identidade visual), Mariana Moura (edição de áudio e vídeo) e Juliana Aragão (roteiro e divulgação).

A ideia é apresentar cada capítulo nos sábados à tarde, como se fossem aquelas rádio-novelas de antigamente.

O detetive Charles Allington narra a história da baronesa Natália Shoemberg, acusada de desaparecimento e assassinato do marido, o barão Viktor Schoemberg. O cenário é a Viena do final do século XIX, início do século XX, período áureo da cidade no qual eram contemporâneos os artistas Gustav Klimt e Kolom Moser, os arquitetos Otto Wagner e Adolf Loos, os escritores Arthur Schnitzler e Hugo von Hofmannsthal, a estilista Emilie Flöge, além do pai da Psicanálise, Sigmund Freud, e do compositor Gustav Mahler.

Com vocês: A baronesa.

 

A baronesa – Charles Allington – Capítulo 1 – PDF

 

Quadro Gustav Klimt - Portrait Of Emilie Floge - 1902

Retrato de Emilie Flöge, Gustav Klimt

Telefonata in “Microcosmo” | Alfredo Tagliavia

nuova-copertina-Tagliavia

 

Telefonata

 

 

Sì?

Pronto João?

Chi parla?

Sono Don Geraldo.

Padre, che piacere! Tutto bene?

Mica tanto.

Che succede?

Ho notizie per te, João, importanti.

Di che si tratta? Niente di grave, spero.

Insomma.

Padre, non mi faccia preoccupare. Cosa è successo?

Allora vado subito dritto al punto, tanto è inutile perdersi in cerimoniali, che non c’è nemmeno tanto tempo.

Tempo per fare cosa?

João, ti sto chiamando da una cabina fuori Recife, ho preso la Rodoviária, sono su una strada di campagna che dovrebbe portare a Caruaru, un confratello mi ha detto che era l’unico posto al sicuro dalla censura.

Padre, non so cosa dire, parli lei, l’ascolto.

Sto verificando la sicurezza del posto, voglio vedere prima se ci sono cimici o altri aggeggi piazzati su punti strategici, ma non mi pare : sono in aperta campagna, vedo soltanto la strada sterrata, le sterpaglie, il cielo… tu stai pensando che io sia impazzito tutto a un tratto, vero João?

Non so davvero cosa pensare, Padre, ma continui pure, la prego.

Dunque, João, te lo dirò nel modo più breve e diretto. Il motivo di questa telefonata è un appuntamento : dobbiamo vederci stasera alle sette sull’Avenida Boa Viagem, all’altezza della panetteria, sul lato opposto della strada, quello che dà sul mare, ma non avremo molto tempo.

Tempo per fare cosa? Io non sto capendo proprio niente, può spiegarsi un po’ meglio?

Non è facile spiegare, ma mi rendo conto anche che per te non sia facile capire. Dunque, stammi bene a sentire, il fatto è questo : io verrò in taxi, quando mi vedrai uscire dovrai entrare dalla portiera opposta facendo finta di non conoscermi, lascerò  per te sul sedile posteriore una borsetta contenente ventimila cruzeiros e un biglietto, il taxi ti porterà direttamente all’aereoporto.

Ma che significa? Don Geraldo, io comincio davvero a pensare che sia uno scherzo di pessimo gusto, mi dica che non è così!

Magari fosse uno scherzo, purtroppo non lo è. Il biglietto è un volo aereo per l’Italia, Roma. Parte alle nove e mezza stasera e tu dovrai prenderlo. Ah, portati anche una valigia con un po’ di vestiti e beni indispensabili, ma la più piccola e la meno vistosa che hai, mi raccomando, dovesse dare adito a qualche sospetto, non si sa mai.

Italia, Roma… Ma che ci vado a fare a Roma? Io non conosco nessuno lì, e non so nemmeno una parola d’italiano!

Per questo non preoccuparti, João, ho già pensato a tutto io. All’aeroporto di Fiumicino verrà a prenderti Don Luigi, un giovane sacerdote italiano, una persona molto buona, impegnata nel sociale come noi. Ti porterà nella sua parrocchia, che si trova in un quartiere della periferia romana, e nel primo periodo ti aiuterà ad ambientarti. Tra l’altro Don Luigi è stato più volte qui da noi a Recife e se la cava pure bene con il portoghese, quindi all’inizio potrà farti da interprete.

Padre, io sto capendo che la questione è abbastanza grave, ma mi vuole spiegare cosa sta accadendo? Cosa c’è dietro? Altrimenti in queste ore che ci separano dall’appuntamento diventerò matto.

E va bene, João, non volevo perdere troppo tempo qui alla cabina telefonica, sai che sono in pericolo anche io? Ma mi rendo conto che qualcosa devo pur dirti, non posso mandarti a Roma nel giro di poche ore senza nemmeno una spiegazione. Tu lo sai che giorno è oggi?

Sissignore, oggi è il 24 aprile 1964.

Ecco, e lo sai che esattamente da ventiquattro giorni, dallo scorso primo aprile in cui ci hanno regalato un bel pesce, la situazione politica qui in Brasile è totalmente cambiata?

Sì padre, ho letto qualcosa sui giornali e sentito qualche voce per strada, ma in realtà non ne so molto di più.

João, João, mi meraviglio di te, capisco che sei un ragazzo, ma qui di questi tempi bisogna tenere occhi e orecchi ben spalancati, informarsi e tenersi sempre aggiornati. E poi tu stai facendo anche il primo anno di Scienze Politiche, possibile che all’università non hai sentito nessuna voce più precisa? Che so, un dibattito, un’assemblea del collettivo studentesco…

No, non ho sentito niente di preciso.

E allora ti devo davvero spiegare tutto io. Qui da qualche settimana la situazione non è più sicura, per quelli come me e neanche e soprattutto per quelli come te.

Per quelli come me? Ma cosa ho fatto io, Don Geraldo? Non ho mai fatto del male a nessuno, glielo posso giurare.

João carissimo, non è questione di fare del male direttamente a qualcuno, la questione è che qualcuno in alto ritiene che tu possa fare del male a lui e ai suoi amichetti.

Proprio io? E chi sono io per fare male a un governo?

Semplice : sei un educatore di strada.

E cosa c’entra questo con il governo?

João, vedo che tardi a comprendere e ci stiamo dilungando già troppo. Ti faccio una sola domanda : qual è il progetto sociale a cui stai collaborando?

Lo sa anche lei, Don Geraldo : è il progetto Piazze di Cultura, quello sponsorizzato anche dalla sua parrocchia per cui ci vediamo tutti i sabati mattina al Sitio da Trindade.

Bene. E qual è lo scopo di questo progetto?

Me lo ha spiegato lei per primo, Don Geraldo. Il progetto mira all’inclusione sociale della popolazione, ad esempio a insegnare a leggere e a scrivere alle persone analfabete attraverso l’utilizzo delle arti, del teatro, della musica.

Perfetto, su questo vedo che continui ad essere molto preparato. Ora ti faccio un’altra semplice domanda : chi è il coordinatore di questo progetto?

È il professor Paulo Freire.

Ecco. E lo sai che fine ha fatto Paulo Freire? Questo forse non lo sai e te lo dico io. Paulo Freire la scorsa settimana è stato portato via da Recife dalla polizia militare ed è stato condotto in prigione a Rio de Janeiro. Ora gli faranno scegliere o la condanna a morte o l’esilio.

O mio Dio, don Geraldo, ma questa è una notizia terribile! Ma che male ha fatto quest’uomo che tanto sta facendo per l’alfabetizzazione e la crescita culturale del nostro paese?

E va bene João, oramai siamo in ballo e balliamo. Vorrà dire che se qualcuno registrerà questa telefonata farò la fine di Paulo anche io. L’accusa che è stata mossa a Freire è di appartenere a un gruppo comunista sovversivo, ma è un’accusa ridicola che nemmeno si regge in piedi. Tutti sanno anche nelle istituzioni che Paulo è un moderato di sinistra e un cattolico, infatti parte della chiesa appoggia il suo lavoro.

E allora qual è il problema?

Il problema è proprio il lavoro che sta svolgendo, in particolare quello di alfabetizzazione, perché c’è qualcuno nel cosiddetto “governo” del primo aprile a cui non va giù il fatto che il popolo stia imparando a leggere e a scrivere in fretta e in gran massa.

Ma non ci posso credere! E perché mai non gli andrebbe giù?

Vogliono cancellare il diritto di voto, João, anzi, lo hanno già fatto. E il primo presupposto per mantenere una dittatura senza elezioni è avere cittadini che non siano in grado di scegliere, di discernere, e al limite nemmeno di leggere e scrivere : idioti insomma.

Questa storia ha davvero dell’incredibile, Don Geraldo, mai ci avrei potuto pensare da solo. Ma continuo a non capire cosa c’entro io…

Il salto non è così grande, João. Non sei tu un educatore di strada in questo progetto? Non ti riunisci tutti i sabati mattina con la popolazione del tuo quartiere per insegnare il Metodo Paulo Freire agli analfabeti?

Ma io non sono mica una persona di potere, non ho nessun ruolo io. Sono povero come loro. L’unica differenza è che so leggere e scrivere perché ho potuto studiare. A chi posso interessare io?

João, a loro non importa chi sei o quanto potere hai. A loro importa solo il lavoro che svolgi. E se il lavoro che svolgi va contro la volontà del governo risulti persona “non gradita”, per usare un’espressione addolcita. Sono così questi signori della morte che hanno espugnato il nostro povero paese.

E questo cosa vorrebbe dire, Don Geraldo? Che devo andarmene? Che devo lasciare tutto e tutti qui a Recife? Mia madre, la mia fidanzata, i miei compagni di università, i miei alunni del progetto? No, non è possibile. Mi dica che non è una storia vera, che è uno scherzo, oppure che sto sognando…

Purtroppo è la realtà João, la nuda e cruda realtà. E non è una scelta, è una condizione imprescindibile. Non so se hai capito o fai ancora finta di non capire : ti hanno già schedato. Se non te ne andrai tu, ti verranno a prendere loro. E sarà ben peggio, dammi retta. Io posso rimanere qui solo perché sono protetto dalla forza della chiesa, e non so nemmeno per quanto tempo ancora rimarrò. Ma per le persone comuni come te non c’è pietà : se sei segnato rimani in lista finché in un modo o nell’altro “la questione non è risolta”, come dicono loro.

Lo so, João, sei ancora molto giovane ed è una realtà difficile da accettare. Anche a me se avessi la tua età pioverebbe addosso come qualcosa di totalmente inaspettato, di incomprensibile. Ma questa è la vita e bisogna accettarla. Nel libero arbitrio, ognuno ha un destino da compiere. E oggi il tuo destino è fare quello che ti ho detto e volare in Italia.

E finiscila di piangere, João, ormai sei un uomo, e anche se non lo sei ancora dovrai diventarlo in fretta, che tu lo voglia o no. Dio ti sta chiamando a una sfida molto difficile e importante.

Allora ci vediamo stasera alle sette sulla Boa Viagem. Abbi cura di te. Sia fatta la volontà di Dio.

 

_____________________________________

** Alfredo Tagliavia è nato a Roma nel 1978. Dottore di ricerca in Pedagogia, attualmente insegnante precario, ha svolto diversi viaggi di studio in Brasile. Per i tipi della EMI ha pubblicato il libro L’eredità di Paulo Freire. Vita, pensiero, attualità pedagogica dell’Educatore del mondo (2011). Per le edizioni IPOC ha tradotto il testo del filosofo brasiliano Marco Heleno Barreto Immaginazione simbolica. Riflessioni introduttive (2012) e La bambina dagli occhi verdi (2016), della scrittrice brasiliana Patricia Gonçalves Tenório. Per le edizioni Book Publish è uscita il suo primo libro di narrativa Un giorno qualunque, una raccolta di racconti a sfondo pedagogico, ambientati fra Italia e Brasile. Contatto: alftag@alice.it

** Alfredo Tagliavia nasceu em Roma em 1978. Doutor em Pedagogia, professor atualmente substituto, realizou várias viagens de estudo para o Brasil. Pela Editora EMI publicou o livro O legado de Paulo Freire. Vida, Pensamento, Educador pedagógico atual do mundo (2011). Para a Editora IPOC traduziu o texto do filósofo brasileiro Marco Heleno Barreto Imaginação simbólica. Reflexões introdutórias (2012) e A menina do olho verde (2016), da escritora brasileira Patricia Gonçalves Tenório. Pela Editora Book Publish foi lançado o seu primeiro livro de ficção Qualquer dia, uma coleção de histórias curtas para a formação educacional, ambientado entre a Itália e o Brasil. Contato: alftag@alice.it

“2020”* | David de Medeiros Leite**

À GUISA DE INTRODUÇÃO

 

– Feliz Ano Novo, Guiomar!

– Feliz 2020, Zezinho!

Apertei ainda mais sua mão direita, pois a esquerda estava imobilizada pelo acesso do soro. Aquele ambiente hospitalar, de UTI, não era aprazível para uma noite de réveillon. Mas, apesar de quase um mês de internação, Guiomar mantinha razoável humor.

Naquele momento, inesperadamente, ela me fez jurar que escreveria o tão esperado livro. Assunto que nos era bastante familiar, desde sempre. Aliás, durante os quarenta e nove anos de nosso casamento, nunca deixamos de falar sobre. Em alguns períodos, tratávamos do tema de forma mais intensa, contrastando com outros lapsos temporais em que o assunto subjazia.

Enquanto estava trabalhando, ou “na ativa”, como dizem, mantive a desculpa de esperar minha aposentadoria. Após esta, a cobrança amiudou-se. E, naquele momento, Guiomar voltou à carga:

– Quero que você me prometa que irá escrever seu livro, agora, neste ano que começa amanhã. E não vale mais a desculpa de não saber usar o computador, depois das aulas que lhe dei.

– Prometo! – disse, levando minha mão direita ao peito e, propositalmente, esboçando um rosto sério, desfazendo o quase-riso que sustentava nas visitas.

– Qual o título? Isto nunca decidimos – completei, como forma de dar continuidade à conversa.

– 2020! – respondeu-me incisiva.

– 2020? E aqueles outros? Ouro do Carmo? Ouro e Pecado?

– Esqueça todos. Você sempre falou que o título seria escolha minha… então, será 2020.

Aproximei-me para beijar-lhe a testa e, com isso, selar o nosso pacto. Por trás daquele gesto, existia uma larga caminhada. Desde nosso casamento, ruminávamos a “história” que prometia, um dia, contar em livro. Guiomar sempre argumentando contra desculpas que “inventei” ao longo do tempo. Possíveis melindres, em relação a alguém que estivesse vivo e que, por acaso, soubesse da publicação, sempre foi por mim suscitado. Guiomar sustentava o contra-argumento de que a própria distância temporal, conjugada com o artifício de citar codinomes, desaguaria numa autobiografia romanceada e, assim sendo, transporia quaisquer dos receios.

De outra parte, havia quatorze anos que estava aposentado e, por conseguinte, eu perdera a argumentação de “falta de tempo”. E, por fim, esquivei-me, um bom período, sob a desculpa de não saber lidar com o computador, considerando que nunca me afeiçoei às novas tecnologias. Paralelo a isso, Guiomar comprou o equipamento, aprendeu a utilizá-lo e ensinou-me, pelo menos, a usar o editor de texto, desconstruindo minha derradeira cidadela esquivadora.

Só nos faltava uma situação de compromisso quase solene, como a que ocorreu naquela noite na UTI. E hoje creio, piamente, que ela o fez com certa premonição. Foi sua última vontade. E nosso último diálogo. Nos dias seguintes houve agravamento do quadro, entubação e óbito. Guiomar lutava contra um câncer pulmonar havia meses. Sem ter sido fumante, diga-se de passagem.

Mesmo abatido e pesaroso, somente esperei passar a missa de sétimo dia e desvencilhar-me um pouco das obrigações burocráticas do pós-morte, para mergulhar no cumprimento da promessa. Aquela narrativa contada, recontada e repisada entre nós dois finalmente seria transposta para publicação. Ou, pelo menos, esboçaria, em forma de um pretenso livro, uma história que tinha se passado comigo. A sequência dos acontecimentos que seriam narrados, a ênfase nesse ou naquele episódio, os recursos literários que deveria buscar quando a memória não alcançasse o pormenor… tudo, absolutamente tudo, já havia sido escrutinado entre nós. Até mesmo nuances que poderiam causar ciúmes a um casal nunca foram suscitadas por Guiomar.

Vale dizer que cheguei a cogitar, mais de uma vez, que ela própria escrevesse, tamanho era seu entusiasmo. No entanto, ela nunca aceitou tal propositura. Em tom de blague, dizia que, além de “consultora”, somente lhe caberia intitular a obra. Assim ocorreu. Por tudo isso, considerei rabiscar essas linhas introdutórias, ao invés de uma mera e burocrática dedicatória.

_______________________________

IMG_0824

_______________________________

* Texto de abertura de 2020. David de Medeiros Leite. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2020.

** David de Medeiros Leite nasceu em Mossoró-RN (1966). É professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Doutor pela USAL (Universidade de Salamanca) – Espanha.

Sócio efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP); sócio-correspondente da Academia Apodiense de Letras (AAPOL), além de pertencer à Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Norte (AMLERN) e Academia Mossoroense de Letras (AMOL). Com o escritor Clauder Arcanjo, idealizou a editora Sarau das Letras, onde, atualmente, compõem o Conselho Editorial. Contato: davidmleite@hotmail.com

 

Drops de Clarice Lispector* | Débora Mutter

 

* No centenário de nascimento da escritora Clarice Lispector, a professora e escritora gaúcha Débora Mutter inaugura um canal de Youtube, espaço extra-acadêmico para falarmos um pouco sobre a paixão pelos textos da autora que, apesar de nascida na Ucrânia, sentia-se a maior das brasileiras.

Aceitei com infinito prazer o convite de Débora Mutter para falar um pouco sobre o conto “Amor”, de Clarice, que encontra-se na coletânea Laços de família.

Confiram e prestigiem a iniciativa!

24, vi-vos | elilson

É com imenso prazer que compartilho o texto do meu queridíssimo Elilson, artista grande, de sensibilidade ímpar, e que tive a honra de presenciar os inícios de carreira…..

“24, vi-vos” faz parte da Revista Tablóide, da Parêntesis, sob a curadoria das editoras Regina Melim e Gabi Bresola.

elilson – PDF

A revista na íntegra encontra-se no http://www.plataformaparentesis.com/site/tabloide/

Boa leitura!

 

Índex* – Maio, 2020

Primeiro

Me concebeu

Me deu

Carne e ossos

E preencheu

De espírito

 

Curioso

Que a tudo

Pergunta

E lê

A outra face

Das histórias

O outro lado

Da palavra

Doce

Que se chama

Mãe

(“Para todas as mães do mundo”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/05/2020, 09h00)

 

Nascimentos e cuidado de mãe no Índex de Maio, 2020 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Sobre a escrita criativa III | Organização Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) | Prefácio Luiz Antonio de Assis Brasil (RS/Brasil).

Estudos em Escrita Criativa On-line – Maio, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório e Diversos.

Trechos de “Exílio” ou “Diário depois do fim do mundo” | Patricia Gonçalves Tenório.

Livres de Isabelle Macor (France).

E os links do mês com o nosso Oleg Almeida (DF/Brasil):

https://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4583&titulo=Entrevista_com_o_tradutor_Oleg_Andreev_Almeida

https://sites.google.com/site/olegalmeida/ensaios/ensaio-02

O lançamento do Sobre a escrita criativa III está acontecendo agora! Agradeço o carinho e a força de sempre, a próxima postagem será em 28 de Junho, 2020, abraços cheios de Saúde e Luz,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

____________________________________________

Index* – May, 2020

First

She conceived me

Gave me

Meat and bones

And filled

In curious

 

Spirit

Which questions

Everything

And reads

The other face

From the stories

The other side

Of the sweet

Word 

That is called

Mom

(“For all the mothers in the world”, Patricia Gonçalves Tenório, 05/08/2020, 09 a.m.)

 

Births and mother care in the May, 2020 Index on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

About creative writing III | Organization Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) | Foreword Luiz Antonio de Assis Brasil (RS/Brasil).

Online Creative Writing Studies – May, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório and Miscellaneous.

Excerpts from “Exile” or “Diary after the end of the world” | Patricia Gonçalves Tenório.

Books from Isabelle Macor (France).

And the links of the month with our Oleg Almeida (DF/Brasil):

https://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4583&titulo=Entrevista_com_o_tradutor_Oleg_Andreev_Almeida

https://sites.google.com/site/olegalmeida/ensaios/ensaio-02

The launch of About Creative Writing III is happening now! I thank you for your affection and strength, the next post will be on June 28, 2020, hugs full of Health and Light,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

 IMG_0530

IMG_0531

IMG_0532

IMG_0545

**

 

____________________________________________

 

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Carinho de mãe e filhos, mesmo que à distância, no período de quarentena. Affection of mother and children, even at a distance, in the quarantine period.

“Sobre a escrita criativa III”* | Organização Patricia Gonçalves Tenório | Prefácio Luiz Antonio de Assis Brasil

 

O livro

Nasce

Para aquietar

A dor

Para acalmar

O corpo

Preso no

Isolamento

 

Porque a alma

Ah… a alma

É do tamanho dos

Sonhos

E muito mais…

 

(“Nasce a lenda”, Patricia Gonçalves Tenório, 01/05/2020, 05h47)

 

A literatura, quanto é vária**

Luiz Antonio de Assis Brasil

 

Quando se reúnem pessoas dotadas de vocação e força, é porque há algo superior que as une. Aqui, neste livro, a força é visível, e a vocação, inegável. Estamos falando de pessoas que se congregam em torno da literatura. A literatura é, com a desculpa das outras artes, a forma mais abrangente de expressão da sensibilidade humana, pois tem uma face bifronte: a face de quem escreve e a face de quem lê. Quem escreve necessariamente é um grande leitor. Nesta antologia estão artigos que justamente atendem a essas duas perspectivas, pois tanto há textos literários como textos que refletem acerca da escrita e do ato de escrever, fechando esse círculo virtuoso que tanto nos encanta. Daí porque o leitor de Sobre a Escrita Criativa III terá um manancial de experiências estéticas e intelectuais. Este volume resulta de diversas práticas em sala de aula, e só por isso, pela heterogeneidade de perspectivas do mundo e do ser humano, ele é capaz de levar-nos a vivenciar diferentes mundos de saber e emoção, induzindo-nos a conhecer frente e verso do ato criativo.

Muitos podem achar que ter consciência dos mecanismos da criação é um desmancha-prazeres; muito ao contrário: conhecer é, também, uma forma de prazer. Lembremo-nos de Edgar Allan Poe, que escreveu o extraordinário poema “The Raven”, e, dado o grande sucesso com que foi recebido, resultou num outro texto do mesmo Poe, “The Philosophy of Composition”, em que o poeta explica o mecanismo que utilizou para escrever o poema, e esse ensaio célebre causa tanto prazer quanto a leitura do próprio “The Raven”. Assim, sugiro ao leitor abeirar-se desses textos sem prejulgamentos, e que os percorra sem se perguntar acerca do gênero que está lendo – se poesia, se prosa, se prosa poética, se reflexão teórica. Tenha em conta que nossa época rompeu as compartimentações esquemáticas dos gêneros literários e, por outro lado, a sucessão da variedade atende ao desejo contemporâneo de tudo investigar, tudo fruir, como um jornal de faits divers, só que, dessa vez, com conteúdo. Por último, quero registrar a proeza que é publicar este volume; dadas as condições dispersivas da cultura e da economia brasileira, cada livro que sai ao público pode ser considerado um milagre. Mas cada milagre tem quem o realize, e é fácil identificar esta pessoa: Patricia Gonçalves Tenório. Ela é a alma e a razão desta coletânea. Praticando a expressão de Quintiliano, suave in modo fortiter in re, Patricia literalmente consegue culminar todos seus propósitos, e o resultado está aqui, neste terceiro tomo de uma sequência que tem tudo para seguir em frente. E agora a palavra está com você, leitor.

Porto Alegre, verão de 2020.

 

 

_____________________________________

***

_____________________________________

* Veja também no http://www.patriciatenorio.com.br/?p=9215

** Prefácio de Luiz Antonio de Assis Brasil em Sobre a escrita criativa III. Diversos autores. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Recife: Raio de Sol, 15 de maio 2020, às 19h.

*** Booktrailer de Sobre a escrita criativa III. Com Luiz Antonio de Assis Brasil, Adriano Portela, Bernardo Bueno, Bernadete Bruto, Elba Lins e Raldianny Pereira. Design: Jaíne Cintra. Roteiro: Juliana Aragão. Edição: Mariana Guerra.

Sobre a escrita criativa III – PDF: Sobre a escrita criativa III

Estudos em Escrita Criativa On-line – Maio, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório*

Eu vi o mundo… ele começava no Recife

Antes da pandemia, acordaríamos cedo e sairíamos, a pé, para nos deslumbrarmos com uma cidade que parecia não ser nossa, como se estivéssemos em um país que não é nosso, como se fôssemos estrangeiros: Recife do Marco Zero, Rua do Bom Jesus, Torre Malakoff, Praça da República, Rua da Aurora, Praça Maciel Pinheiro, Brasília Teimosa, Pina, Boa Viagem.

IMG_0395

IMG_0397

IMG_0398

IMG_0399

IMG_0400

Foi essa a cidade escolhida para falarmos para o mundo – como pintou o artista pernambucano Cícero Dias  no painel “Eu vi o mundo… ele começava no Recife” –, no terceiro módulo do curso gratuito Estudos em Escrita Criativa On-line, cidade que vestirá com suas cores uma das escritoras que se sentia a mais brasileira de todas, apesar de haver nascido na Ucrânia, e habitou em Recife ainda na infância: Clarice Lispector.

A começar pelo conto “Felicidade clandestina”, que nos descreve uma Clarice menina e o desejo de ler um livro: As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. O cenário é o centro do Recife. Podemos imaginar a pobre menina Clarice caminhando pelas ruas da capital pernambucana, saindo da Praça Maciel Pinheiro em direção à Rua da Imperatriz, buscando o livro desejado em uma das principais livrarias da cidade. E uma colega rica, depois de exercer um poder sádico em reter o livro desejado, é obrigada pela mãe a cedê-lo, por tempo indeterminado, à menina pobre que, ao chegar em casa, toma-o nos braços, na rede, e se faz mulher com o livro-amante.

Chegaríamos ao estado-nação das Minas Gerais. Viríamos de ônibus noturno do Rio de Janeiro de Macabéa (de A hora da estrela, de Clarice) para cá, numa viagem de doze horas. Sentiríamos o aroma mineiro, o sabor do pão de queijo, da couve refogada, do doce de leite com queijo minas. Olharíamos ao redor, e parece que também nos sentiríamos em casa, apesar das singularidades ou alteridades de cada tempo-espaço visitado.

Em O homem da mão seca, da poetisa e escritora mineira Adélia Prado, a narradora Antônia escreve em seus cadernos poéticas, compartilha conosco segredos do seu processo de criação. Descobrimos que sempre fecha as passagens, revisando os conceitos, e que uma personagem (a filha Clara) fala dentro da fala da outra personagem (a mãe Antônia), como se fossem aquelas bonecas russas, as mamuskas.

Finalizamos o terceiro módulo dos EEC On-line com um exercício de desbloqueio a partir das autoras elencadas e a sugestão de filmes relacionados com Recife, Minas Gerais, Brasil e a Escrita Criativa.

___________________________________________

* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

 

___________________________________________

Módulo 2 – Aula 4 – Portugal:

 

Módulo 3 – Aula 1 – Brasil:

Módulo 3 – Aula 2 – Brasil:

___________________________________________

E os nossos Exercícios de Desbloqueio!

 

Módulo 1 – Língua Inglesa:

 

Ágata Cruz

Contato: agatamg7@gmail.com 

Olhar Offred (of Fred)

 

Eu a via com diversão, estava exausto, tenso, irritado, com medo. Mas agora, iria relaxar. Seus olhos me fitavam com medo, mas eu não me importava, no fundo a guerra tinha endurecido meu coração. Era provável que antes disso eu não a tratasse assim, me lembro de Anne. Ela me lembra a Anne. Tão doce, suas mãos eram macias, seu beijo era suave, seus olhos me olhavam com amor, com desejo. Nunca pude ter a Anne por completo em meus braços e abraços e saciar o meu desejo. Mas ela não está mais aqui, a guerra destruiu todos os nossos planos… Quem sabe destruiu também os planos dessa aia… Mas isso não importa, porque estou pensando isso? O que está acontecendo comigo? Devo estar completamente louco, estressado. Não perderei mais tempo e irei simplesmente me satisfazer esta noite. Não serei delicado, como seria com Anne. Não farei ela feliz, como faria com a Anne. Anne… Ela se parece com a Anne. Que saudade que sinto! Meu peito está apertado, não posso demonstrar afeto… Porque não? Será que a guerra também não destruiu os sonhos dela? O que está acontecendo comigo?! Devo estar ficando completamente louco…

Já chega de pensar e ficar perdido em meus devaneios do passado. Preciso aceitar que a Anne se foi e nunca mais irá voltar. Nunca mais a terei em meus braços.

Daqui sinto o medo dessa mulher como nunca antes senti. Realmente não devo estar bem, não posso deixar que perceba. Mas ela está tão tensa que não consigo evitar. Seus olhos, seus olhos me fitam com ódio, nojo e repulsa. Ela não me quer, como a Anne me queria. Mas ela se parece com a Anne. Eu a beijo com doçura, envolvo meu braço em sua cintura e minha mão em sua nuca. Sei que ela está me olhando, mas sinto seus ombros relaxarem. Continuo a beijá-la e agora parece que a Anne está em meus braços, sinto seu cheiro, sinto sua mão macia no meu rosto. Estou completamente apaixonado, a beijo com mais intensidade, sinto seus braços em volta do meu pescoço, ela cada vez mais próxima a mim corresponde com paixão. Me sinto feliz, mais leve, amo a Anne. Essa será a nossa primeira noite e farei com que seja inesquecível para ela. Paro pra respirar e me afasto um pouco, abro os olhos e… onde está a Anne? O que aconteceu? Quem a levou?

 

Olga Nancy

Contato: olga.cortes@acad.pucrs.br 

(Sem título)

03/04/2020

 

Arquitetura.

Tua.

Nada.

Crua. Safada.

Fada.

Sem asa. Amada.

Calada!

(Sem título)

 

Victoria Gorelik

Contato: gorelik.vbg@gmail.com 

 

A catarse é sem sentido

Voz teimosa

Negação

Maníaco quer ordenar

A desordem com sentido

Quer dar-se vida

A ti

Que morreu

És enlutado às palavras

Tenta formas à dependência

 

Mas sua catarse tem sentido

E o sintoma é escritor

 

Módulo 2 – Portugal:

 

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com  

Atracada em casa

“Viver a vida em sonho falso é sempre viver a vida.”

                                                                                                            (Livro do desassossego, Fernando Pessoa)

                                                                                                             

20200429_072952

 

Sentada naquela sala de casa, sem saída, a empregada pública, em frente ao computador, olha na tela o cursor que pisca, como se contasse o tempo de espera para se ter uma resposta. Sente a solidão deste trabalho em tempo incerto.

Enquanto espera, no silêncio da manhã, ouve em seu coração o compassado eco das ondas do mar e sonha. Vê o amplo mar que cobriu sua infância e juventude. Mar por diversas vezes experimentado em vários tons, gosto e tepidez, hoje, uma quimera escondida no fundo da alma, no mar absoluto de seus pensamentos e naquele quadro afixado na parede.

Despertando do transe, a empregada pública responde ao e-mail que brota na tela, como uma concha na areia da praia, depois que a onda recuou. Em resposta, recebe um WhatsApp com explicações mais detalhadas sobre o que fazer, rompendo o sossego das quatro paredes onde está encerrada.  Mais incógnita do que antes, aguarda um sinal de vida vindo lá de fora. Notícias boas e as más…

Em seu trabalho solitário, emparedada como aquela tela onde barcos enfileirados estão refletidos no mar, ela sente sua limitação. Recorda da velha imensidão do mar, da existência colorida, além de seu apartamento, além do tempo. Aquele instante eterno, aquele rumor de gente saudável, contente!

O que ela sente, ali atracada, é o que os portugueses nos confiaram desde o nascimento e se chama SAUDADE.

 

Elba Lins

Contatoelbalins@gmail.com

Isolamento Social

29.04.2020

 

Nestes dias de solidão inquietante

Preciso desenhar dentro de mim

O mundo inteiro

O sol

O mar

A vastidão infinita de pessoas

 

Sou só.

Um simples fio.

E não posso ser puxado para fora

Para não destruir toda

A trama tecida do Universo.

 

Sou apenas uma dama de ouro

Que se tirada destrói

O castelo de cartas.

 

Johany Medeiros

Contato: johanymedeiros6@gmail.com 

Isolamento de uma poetisa II

 

Você trocou o verde por arranha-céus e
claustrofóbicas massas cinzentas.
Partiu para a cidade grande,
para poluição constante,
sem ao menos me dizer adeus.

Enquanto isso,
escrevo poemas que nunca chegarão até você,
mantenho-me isolada do que sobrou do mundo,
porque preciso,
— porque eu quero,
porque não mais posso olhar os pássaros do meu jardim,
admirá-los, sem me sentir culpada.

Afinal, eles me ensinaram a voar
e você sempre teve medo de altura.
— por que você não gosta de pássaros?

 

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com

De Fora Pra Dentro

 

A cidade,

Antes agitada,

De repente parou.

Aquietou-se.

E eu,

Aqui dentro,

Consigo ouvir

O canto dos pássaros.

Uma criança que brinca,

Alheia aos perigos que nos assolam.

Consigo escutar o silêncio.

Consigo escutar o meu silêncio.

Meus pensamentos,

A minha alma,

Que me acalma.

Eu, aqui de dentro,

Estou aprendendo a olhar pra dentro.

 

Mariana Moura

Contato: mariana.moura88@gmail.com

O Mar e o fim de tarde

 

Lá no final dessa vila circundada de areia

Existe um pôr-do-sol irretocável

Que cai todos os dias alaranjado, como se o mar beijasse

Nele mora toda a simplicidade do que é viver em plenitude

Contemplar aqueles instantes do dia traz todo o sentido da existência

Que é amor gratidão paz e presença

Os quais vêm como ondas mostrando que nada é perene

Mas taí a vida em magnitude.

 

Giovana Teixeira Pereira

Contato: gigiteixeira.pereira@gmail.com 

UM DIA NA FEIRA, SONHOS E EU

 

Minha mãe me acordou cedo naquela manhã de sábado. Tínhamos que ir às compras, porque muita coisa lá em casa estava acabando. Leite, pão, manteiga, arroz. Essas coisas, sabe. Nem fiquei brava nem nada, porque a verdade é que as férias já estavam me cansando. Tudo o que eu fazia era dormir, comer e brincar (mas não era legal, porque eu não tenho irmãos, então sempre tenho que inventar todas as brincadeiras sozinha).

Desci as escadas bem rápido depois de trocar a roupa e escovar os dentes. Encontrei mamãe no quintal me esperando e regando nosso jardim. O dia estava bem claro, sabe, como aqueles dias de verão em que você, ou tem piscina, ou derrete no sol.

Bom, saímos logo em seguida e mamãe disse que antes do mercado íamos à feira. Eu não me importei. A verdade é que estava um pouco desanimada. Todas as minhas amigas tinham ido viajar e eu não tinha nada para fazer durante o dia. Às vezes eu conversava com a minha mãe, mas não eram conversas muito longas. Quando eu dizia isso para ela, mamãe falava: “Bom, mas é claro, você tem nove anos, o que uma menina de nove anos e uma mulher de quarenta e dois vão dizer uma para a outra? Você devia procurar a Laís para brincar um pouco, ela vai adorar.” Eu consegui pensar em muitas coisas sobre as quais podíamos conversar, mas não disse nada, porque mamãe parecia ter certeza. (Laís era uma garota que morava lá na rua, mas ela era cinco anos mais velha do que eu e eu não achava que gostava tanto assim de mim. Os adultos nunca entendem as coisas direito.)

Quando chegamos à feira já tinha bastante movimento. Mamãe e eu estávamos na barraca das maçãs quando uma senhora com um vestido lilás falou “Roberta, quanto tempo!!!!” Mamãe virou e respondeu “Madalena, meu Deus! Quando foi a última vez que nos vimos mesmo?” E as duas começaram a conversar como se eu nem estivesse ali. Fiquei meio emburrada. Até minha mãe tinha uma amiga e eu não. Quando a senhora que minha mãe chamou de Madalena pareceu me notar, mamãe me apresentou para ela como sua filha, Elena, só de nove anos.

Depois daquele dia fiquei pensando nas palavras dela, porque eu não entendia. Por que eu tinha nove anos? Minha mãe tinha quarenta e dois? Parecia que a única coisa que eu tinha era aquilo, mais nada. Seria isso eu? Só o meu tamanho? Talvez seja por isso que mamãe nunca conversa comigo e ninguém me enxerga direito na feira. Não sei se faz sentido, mas eu não me acho tão pequena assim. Quero dizer, sei que sou pequena, mas não me sinto assim. Meus sonhos são bem grandes, isso não vale de nada? Não quero crescer só para ter tamanho, já sou grande, porque tenho sonhos. Sabe, eu queria muito falar isso para mamãe, mas não acho que ela ia me ouvir. Aí acabei escrevendo aqui.

 

 

Vanessa da Silva

Contatonessacy99@gmail.com

Adentro de mim

 

Uma vez, certamente, li…

Que sou do tamanho que me vejo

Como posso então ir

Além dos acordes desse sofrimento

Que enfrento no meu mundo adentro?

 

Sou feita de grandes desafios em um mar aberto

Coberta de tamanha profundeza

Eu sou meu mundo inteiro ferido

Que se dissolve no restante do

Cosmos místico.