Posts com Circo

Índex* | Junho, 2021

Para Bruno e Assis

*

O aniversário

É aquele dia

Em que o tempo

Para

O sangue

Agita

A vida parece

Uma longa estrada

Cheia de pegadas

Do bem que fizemos

Da música que tocamos

Das palavras escritas

No coração vazio

E ganharam

Forma

Luz

E cor

*

(“A estrada são vocês”, Patricia Gonçalves Tenório, 21/06/2020, 05h50)

A longa estrada da Escrita Criativa no Índex de Junho, 2021 do blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa On-line | Os mundos de dentro | Junho, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório & Diversos.

Escrita Criativa em mim | Patricia Gonçalves Tenório.

40 mil visualizações | A baronesa | Patricia Gonçalves Tenório.

Poema de Altair Martins (RS – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho de sempre. Excepcionalmente, a postagem de junho foi antecipada de 27 para 20. A próxima postagem será em 25 de julho de 2021. Abraço bem grande e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* | June, 2021

For Bruno and Assis

*

The birthday

It’s that day

In which time

Stops

The blood

Shakes

Life seems

A long road

Full of footprints

Of the good we did

The music we played

The written words

In the empty heart

And that won

Form

Light

And color

*

(“You are the road”, Patricia Gonçalves Tenório, 06/21/2020, 5:50 am)

The long road of Creative Writing in the June Index, 2021 on Patricia Gonçalves Tenório’s (PE – Brasil) blog.

Studies in Creative Writing Online | The worlds from within | June, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório & Several.

Creative Writing on Me | Patricia Gonçalves Tenório.

40 thousand views | The Baroness | Patricia Gonçalves Tenório.

Poem by Altair Martins (RS – Brasil).

I appreciate the attention and affection always. Exceptionally, the June post was brought forward from 27 to 20. The next post will be on July 25, 2021. Big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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**

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A longa estrada nos confirmando que, apesar de tudo, viver é bom. Música: The long and winding road, Os Beatles. Fotografia: Fred Linardi, do encontro de um dos aniversariantes de junho, Luiz Antonio de Assis Brasil, e Patricia Gonçalves Tenório, em novembro de 2019, Porto Alegre – RS – Brasil. The long road confirming that, despite everything, living is good. Music: The long and winding road, The Beatles. Photograph: Fred Linardi, from the meeting of one of the June birthdays, Luiz Antonio de Assis Brasil, and Patricia Gonçalves Tenório, in November 2019, Porto Alegre – RS – Brasil.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Os mundos de dentro | Junho, 2021

Desembarcamos na Ilhéus do início do século XX, e navegamos pelas técnicas de ficção tão semelhantes às de não ficção em Gabriela, cravo e canela, com Jorge Amado.

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Primeira Aula do Módulo 6:

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Na primeira aula do módulo, investigamos o formato do livro estudado, Gabriela, cravo e canela, que lembra uma peça de teatro ou mesmo manchetes de jornal, antecipando os acontecimentos futuros; navegamos pelos diversos pontos de vista, como se fosse uma câmera; comparamos os subtítulos dos capítulos e a não ficção de Bernardo Bueno; constatamos a utilização de técnicas da não ficção em Gabriela;

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Segunda Aula do Módulo 6:

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Na segunda aula do módulo, comparamos a teoria da psicanalista Melanie Klein na projeção e na introjecção contínuas dos mundos de dentro para os de fora e vice-versa, como podemos ver na personagem central, Gabriela; verificamos a liberdade de Gabriela sendo anunciada em um cenário de sonho; constatamos o manifesto à liberdade feminina nas personagens Gabriela, Glória e Malvina; visitamos as muitas casas de Jorge Amado.

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Terceira Aula do Módulo 6:

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E é com imensa alegria que convidamos para a nossa live do canal do YouTube na quarta-feira 30/06/2021, a partir das 19h, com o escritor, especialista em Jornalismo Literário, mestre e doutorando em Escrita Criativa pela PUCRS, Fred Linardi. Não percam!

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https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

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Exercícios de desbloqueio:

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Módulo 5 – Vinicius de Moraes:

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Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Sobre encontros e vida

(Uma peça escrita on-line por Bernadete Bruto e Elba Lins baseada no “Soneto da Separação” de Vinicius de Moraes e nas músicas “Samba em prelúdio” e “A tonga da mironga do cabuletê”.)

*

Personagens:

Mulher 1

Mulher 2

D.J

*

As autoras advertem que qualquer semelhança é mera coincidência

PRIMEIRO ATO

Em um salão de dança organizado para festa, com mesas e cadeiras cingindo o salão, enquanto todos esperam o início do evento, o DJ testa o som. Ouve-se um trecho da música “Samba em prelúdio”, de Vinicius de Moraes. Duas mulheres vindo de lados opostos se encontram no meio do salão e ouvem ao fundo a primeira estrofe do soneto da separação.

“De repente do riso fez-se o pranto

silencioso e branco como a bruma

e das bocas unidas fez-se a espuma

e das mãos espalmadas fez-se o espanto.”

Primeira mulher: (caminha pelo salão e fala tristemente) não sei se foi tão de repente, mas aquele momento foi como um terremoto para mim, ainda hoje trago no rosto o espanto.

Segunda mulher: (caminha em direção a primeira com ar de zombaria e fala) no meu caso já sentia que a relação estava com “validade vencida” e a cada vez que ele tentava me beijar eu espumava de raiva.

SEGUNDO ATO

Ainda no meio do salão, enquanto as pessoas vão chegando e tomando assento nas mesas, as duas mulheres continuam a dialogar com o poema que escutam ao fundo, que parece estar sendo reproduzido aos poucos, como que propositalmente.

 “De repente da calma fez-se o vento

que dos olhos desfez a última chama

e da paixão fez-se o pressentimento

e do momento imóvel fez-se o drama”

*

Primeira mulher: (triste) naquele fatídico dia, enquanto ele retornava para casa, no fundo um pressentimento me dizia que o vento apagaria nossa última chama.

Segunda mulher: (de forma sensual) amiga, comigo foi bem diferente… O turbilhão que me invadiu, não apagou nenhuma chama, já apagada com o tempo. O que senti foi uma nova chama desde que outros homens demonstraram interesse por mim e um em especial arrebatou todo meu ser.

TERCEIRO ATO

No entorno do salão, as pessoas ocupam rapidamente as mesas. Assim, as mulheres saem do salão para conseguirem uma mesa em local estratégico. Ao sentarem-se ouvem os trechos do soneto.

“De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

*

“Fez do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.”

*

Primeira mulher: (desanimada) ah, que tristeza esta solidão! Antes acompanhada, agora tão solitária! Que alegria haveria em uma casa vazia, fria, que não abrigava uma família?

Segunda mulher: (animada) de repente não mais que de repente, a paixão novamente. A dor sumiu para sempre.

QUARTO ATO

Ao fundo do salão o DJ coloca a música de abertura do baile. os dançarinos já começam a convidar seus parceiros e a segunda mulher se levanta aos primeiros acordes da música de Vinicius e Toquinho “A tonga da mironga do caburetê”.

*

Segunda mulher: (entusiasmada) minha amiga, vem comigo. A vida nos chama. Amar é a dança do espírito e a vida é uma aventura.

*

Primeira mulher: (já se animando) vamos então. Aos poucos deixo a tristeza passar e vivo o próximo instante. Vou seguir dançando e cantando, assim, de repente não mais que de repente, nessa aventura errante chamada vida.

(As duas mulheres sambam e cantam no meio do salão)

FIM

*

Elenara Leitão

Contato: arqstein@gmail.com

MULHER

Solteira, chorei.

Casada, já nem lágrima tive.

Viúva, perdi olhos

para tristezas.

O destino da mulher

é esquecer-se de ser.

Mia Couto

*

Solteira, sonhei

Casada já nem sei

Delirei

Viúva, lembrei e

Fui em frente

O destino da mulher

é ser ela mesma

*

Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Vinicius de Moraes

*

Da mulher e suas agruras,

tanto receitam nossas dores

tanto moldam nossos amores

achando que descobrem

nossos segredos

Mal sabem, incautos,

que mulher tem qualquer coisa

muito além dos entendimentos

qualquer coisa muito além das luzes

qualquer coisa que vai além

Porque nasceu para gerar

gerar vida, gerar amor, gerar ir

A vida da mulher

para tristeza e choro de muitos

não passa pelo esquecimento de si

e sim, pelo redescobrimento

além de qualquer fraqueza

além de qualquer dor

Mulher tem, por destino e sina

o sorriso e a capacidade

de reamar

de retomar

de vir a ser

de fechar e REabrir portas

Dela a casa

dela o caminho

*

Poetas tão afamados,

não riam de minha ousadia,

de querer debater

Por mais que as palavras lhes sejam amantes

Falta-lhes o sentido do ser feminino

Aquele que tentam margear

aquele que, olhando pedaços,

teimam enxergar o inteiro

Da menina que olha assustada

à velha sábia que mais maga

todas espíritos que teimam

andar etéreas e livres

por mais correntes que teimem

colocar em suas vidas

*

nada nos tolhe

talvez nós apenas

Uma mulher se constrói

Se edifica

Se consolida

E dela apenas se diz

Viveu, amou, morreu

Virou luz

*

e seguiu em frente

*

Módulo 6 – Jorge Amado:

*

Elenara Leitão

Caminhos de Salvador

Moças, a igreja da Conceição da Praia fica a duas quadras daqui. Mas recomendo que não vão até lá. É zona do baixo meretrício…sorriu ao lembrar o aviso do policial militar naquela manhã. Ele mal podia imaginar que duas estudantes de arquitetura, vindas do distante estado do Rio Grande do Sul, pouco iam se incomodar com aquele detalhe. Queriam mais é conhecer as igrejas da cidade, quantas mesmo? Coisa de uma para cada dia do ano, tinha dito o guia. Imaginaram que, no máximo, podiam encontrar com Vadinho, saindo de alguma vadiagem diurna enquanto sua Flor ficava na cozinha, ensinando a arte de bem comer. Disso sabia ele com mais maestria. Era começo da década de 80. Mais uma vez voltava àquela cidade mágica. Sentada no meio fio, comia um acarajé, se lambuzando de pimenta (Moça, pimenta para turista ou local? Local, por obvio). Sua mente voltou no tempo.

*

Enquanto o ônibus corria pela BR em direção à uma Salvador ainda desconhecida, a caloura da faculdade de arquitetura misturava duas imagens em sua cabeça. Era um dia normal de aula, no minhocão da UnB em Brasília, aquele prédio comprido e serpenteante que abrigava as aulas. Projeto de Oscar Niemeyer naquela universidade que foi pensada para ser um exemplo de excelência e cujos professores foram expurgados em 1968. Sete anos depois, 1975, uma jovem sulista olha um cartaz, grudado nas paredes de tijolo. Operação Mauá em Salvador. A OPEMA era um programa do governo militar para que estudantes universitários do ciclo básico pudessem se integrar às problemáticas dos transportes nacionais. Na prática, uma viagem visita (leia-se turística) para a capital baiana, só com mulheres na linha moralista da época.  Salvador lembrava aquela novela que tinha recém visto na TV. Há pouco a cor se tornara visível nas telinhas, embora ainda fosse um luxo para alguns. Era um romance de Jorge Amado, Gabriela da cor do cravo, do gosto da canela. Uma atriz nova que surgia. Paranaense, mas esses são detalhes em um país que se vendia diverso. Bastava um bom bronzeado e surgia a alegre menina que “Só desejava campina, colher as flores do mato / Só desejava um espelho de vidro prá se mirar / Só desejava do sol calor para bem viver / Só desejava o luar de prata prá repousar / Só desejava o amor dos homens prá bem amar !”. Na sua memória, o sotaque arrastado, o romance que a marcara nem era da Bié do seu Nacib, moço bonito. Ela se identificava com a mocinha Jerusa, neta certinha do coronel que mandava na cidade. Embora uma pontinha dela, ainda muito insipiente, se encantara mesmo era com Malvina, aquela que percebia que homem covarde não se espera e se agradece o livramento.

*

Enquanto tocava Tony Tornado em uma rádio na beira da estrada, “E a gente corre (a gente corre) Na BR-3 (na BR-3) – E a gente morre (e a gente morre) – Na BR-3 (na BR-3)”, via uma pracinha de cidade pequena, tão parecida com a cidade cinematográfica da novela. Cores fortes, gente que vai caminhando mansamente em um dia claro. Baianas com seus tabuleiros, fazendo reverências aos velhos coronéis do sertão. Cheiros das essências se misturavam no ar. Ao longe um som de berimbau mostrava uma turma lutando capoeira.

*

A Salvador de 75 era muito parecida com a imagem da Ilhéus que tinha em sua cabeça. Não pelo tamanho, que obviamente, era muito diferente. Mas na diferença social gritante. Sentiu isso ao entrar nos Alagados, uma favela sobre palafitas que era algo que nunca tinha vivenciado, nem imaginara existir. Se os militares imaginavam que, mostrando um Brasil real, iam acabar com os delírios de esquerda de uma juventude que seria o seu futuro, deviam ter pouquíssima imaginação. Na sequência, uma visita com palestra ufanista na base naval de Aratu, com as praias mais lindas que já tinha visto. Poucas pessoas na verdade tinham tido o privilégio de passear por ali: militares e presidentes.  “Não sejam como os baianos que nada fazem…dizia o cara fardado lá na frente, ao que retrucava o estudante que era nosso anfitrião: “Fazer por quê? Paulista trabalha para quê? Para tirar férias na Bahiiiiiiaaaa (o sotaque comprido tornava tudo mais encantador). A gente já mora aqui...” enquanto piscava o olho em um flerte gostoso e livre como uma brincadeira.

*

Mas foi ao passear pelo Pelourinho, com suas ladeiras e casas quase em ruínas que sentiu a baianidade tão intensa que lhe fisgou para sempre. As baianas cobravam para posar junto, por certo. O turista japonês arregalou os olhos ao ouvir o guia descrever o tanto de ouro que havia na igreja de São Francisco. A voz de Gal Costa, a mesma que cantava a modinha de Gabriela e que tinha visto em Brasília, no primeiro show em que fora sozinha, gritava em seus ouvidos: “Tenho pensado tanto na vida /Volta bandida mata essa dor /Volta pra casa, fica comigo/ Eu te perdoo com raiva e amor”

*

Salvador misturou as entradas e saídas de uma trajetória estudantil. Só foi voltar muito mais tarde, já formada. Apresentando trabalho do mestrado, redescobriu outra Salvador. Os velhos casarões meio em ruínas do Pelourinho, agora já restaurados. Muita gente, diziam, tinha sido afastada. O local era um imenso canteiro turístico. Já tinha sido avisada da insegurança da cidade. Mas no Pelourinho pode andar tranquila, diziam com orgulho. Podia mesmo. Era altamente policiado naquele início do século XXI. Podia andar pelas ruas com máquinas fotográficas, entrar na fundação de Jorge Amado, comer nos restaurantes. Comer, na verdade, era um exercício complicado. Muitas crianças de olhar faminto ficavam pedindo as sobras. Não dava para não sentir como uma facada no peito aqueles pequenos capitães de areia já sem dignidade, ansiando por uma esmola, um resto daqueles pratos cheios que alimentavam a curiosidade gastronômica de turistas.

“Nas ruas de Salvador
nunca dormiram crianças
cobertas de esperança
descobertas pelo medo
dormem adultos franzinos
dormem corpos de meninos
que envelheceram cedo
dormem num corpo de homem
tendo a fome por brinquedo
Pedro Bala não tem nome
como tantos outros Pedros.”

*

Lembrou da cena final da novela de 1975. Pessoas que passam e se cumprimentam, com respeito. Um homem jovem de branco. Chapéu panamá. Duas baianas se ajoelham e beijam sua mão. Aquela cena final marcava um Brasil que, apesar das mudanças sociais e culturais que se anunciavam no romance e na novela, ainda perpetuava velhas relações de poder.

*

A ginga eterna da cidade se modificando com o passar do tempo. Novos coronéis ocupando o poder. O povo ainda aos seus pés naquela mudança de faz de conta que mantém tudo sempre igual….Eu nasci assim, eu cresci assim, E sou mesmo assim, vou ser sempre assim: Gabriela, sempre Gabriela! ..

*

A última vez que percorreu os caminhos de Salvador foi em forma de avatar. Um Pelourinho digital em um mundo paralelo.    

*

Letras das Músicas: Jorge Amado Letra e Música

Pod cast – https://podcasts.apple.com/us/podcast/jorge-amado-tinha-pacto-com-leitor-n%C3%A3o-com-intelectuais/id1371163424?i=1000429127313

Escrita Criativa em mim* | Patricia Gonçalves Tenório**

Junho, 2021

Capítulo 11 – Sonhos e devaneios

            Uma das maiores aprendizagens nesses tempos sombrios de pandemia é a capacidade de continuar sonhando. Literalmente ou metaforicamente. Acordamos assustadas/os no meio da noite, no meio do quarto, bem longe do mundo. A angústia e a ansiedade são nossas maiores inimigas, e chegamos muito perto de desistir.

            Mas aí vêm os sonhos e os devaneios. Jean-Jacques Rousseau, em Os devaneios do caminhante solitário, nos apresenta a saída para os dois últimos anos de vida e de exílio, tão produtivos graças aos passeios que realizava nos arredores de Paris.

“Quando a noite se aproximava, eu descia dos cumes da ilha e em geral sentava na beira do lago, sobre a areia, em algum refúgio escondido; ali o barulho das ondas e a agitação da água, fixando meus sentidos e afastando de minha alma qualquer outra agitação, a mergulhavam em um devaneio delicioso em que muitas vezes a noite me surpreendia sem que eu percebesse. O fluxo e o refluxo dessa água, seu ruído contínuo e retomado a cada intervalo, atingindo sem parar meus ouvidos e meus olhos, substituíam os movimentos internos que o devaneio apagava em mim e bastavam para me fazer sentir com prazer minha existência sem me dar ao trabalho de pensar.”[1]

            Enquanto isso, outro filósofo francês, Gaston Bachelard, compara os sonhos investigados incansavelmente pela Psicanálise (vide Sigmund Freud e Carl Gustav Jung) ao devaneio diante do fogo.

“Para nós, que nos limitamos a psicanalisar uma camada psíquica menos profunda, mais intelectualizada, cumpre substituir o estudo dos sonhos pelo estudo do devaneio, mais especialmente, neste pequeno livro, o devaneio diante do fogo. Em nossa opinião, esse devaneio é extremamente diferente do sonho pelo próprio fato de se achar sempre mais ou menos centrado num objeto. O sonho avança linearmente, esquecendo seu caminho à medida que avança. O devaneio opera como estrela. Retorna a seu centro para emitir novos raios.”[2]

            E, em 15 de dezembro de 2021, se tudo der certo, na residência da escritora, poetisa, atriz, diretora de teatro, Gisela Rodriguez, em Porto Alegre, realizarei um grande sonho que a pandemia, até agora, não me permitiu: lançaremos os Estudos em Escrita Criativa, livro que fecha o ciclo do curso de mesmo nome que iniciou lá nos idos de 2016, quando eu começava a trilhar a minha trajetória pelas veredas, nem sempre tão lineares, mais em forma de estrela, da Escrita Criativa em mim.   

O sonho de rever os amigos de Porto Alegre em 15 de dezembro de 2021, no lançamento dos Estudos em Escrita Criativa. Da esquerda para a direita: Bibiana Simionatto, Andrezza Postay, Gisela Rodriguez e Fred Linardi.

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* Coluna publicada mensalmente nos blogs www.patriciatenorio.com.br e www.veragora.com.br/tesaoliterario.      

** Escritora, vinte livros publicados, sendo um em formato vídeopodcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

[1] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Tradução: Julia da Rosa Simões. Porto Alegre, RS: L&PM, (1776-1778 in) 2008, p. 68.     

[2] BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. Tradução: Paulo Neves. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, (1949 in) 2008, p. 22 – (Tópicos).    

Mulheres poéticas

Escrita erótica para mulheres poéticas[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Novembro, 2020

As poetisas

No prefácio de Delta de Vênus, da escritora francesa radicada em Nova York nos anos 1930 Anaïs Nins, descobrimos como construiu as suas histórias eróticas.

Ela e um grupo de peso – Henry James entre outros – foram contratados para escreverem narrativas eróticas para um colecionador de livros, que afirmava que eram para um de seus clientes. E mais: “o velho”, como o colecionador o chamava, queria somente as cenas de sexo.

Poderíamos ter engarrafado segredos melhores para lhe contar, mas ele teria sido surdo a tais segredos. Porém, um dia, quando ele estivesse saturado, eu lhe diria como ele quase nos fez perder o interesse pela paixão devido à obsessão com os gestos esvaziados das emoções e como o xingamos, porque ele quase nos levou a fazer voto de castidade, pois o que desejava que excluíssemos era o nosso próprio afrodisíaco – a poesia.[3]

É na contramão desse desejo do “velho” (ou quem sabe do próprio colecionador) que o grupo das Mulheres poéticas nasce. Idealizado pela engenheira-poeta Elba Lins, foram convidadas mais três escritoras-poetas para uma façanha, digamos, poderosa: Bernadete Bruto, Raldianny Pereira, e esta que vos escreve. Alguns dias depois, recebemos com imensa alegria as (também) escritoras-poetas Monique Becher, Patricia Alves e Taciana Valença.

A ideia inicial era lermos poemas sugeridos pelo escritor e professor gaúcho de Escrita Criativa Altair Martins quando ministrou a disciplina Oficina de Poesia na especialização lato sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS em setembro de 2019.

Altair classifica os poemas em sensuais (que apenas sugerem), eróticos (quando a coisa acontece) e pornográficos (quando o que acontece é escrachado). Elba sugeriu que selecionássemos poemas próprios ou de outros(as) poetas, classificássemos e levássemos para a reunião que iniciaria uns poucos minutos após escrever este texto.

Como tive pouco tempo para analisar todos os poemas sugeridos por Altair, resolvi escrever este breve texto e trazer trechos de algumas poetisas/poesias – selecionadas por Altair e por mim.

Comecemos por Hilda Hist.

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca

Austera. Toma-me AGORA, ANTES

Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes

Da morte, amor, da minha morte, toma-me

Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute

*

Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome

Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,

Um sol de diamante alimentando o ventre,

O leite da tua carne, a minha

Fugidia.

E sobre nós este tempo futuro urdindo

Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida

A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

[…][4]

Podemos considerar o poema de Hilda Hilst como beirando o erótico e o sensual. Ela não revela tudo, mas quase, mais do que sugestão. Estaria, portanto, em um lugar híbrido, entre as duas categorias.

Essa carne de Hilda – e o Verbo se fez carne e habitou entre nós – também habita o imaginário de uma das maiores poetisas vivas brasileiras: a mineira Adélia Prado.

Em entrevista para os Cadernos de Literatura Brasileira, Adélia nos fala da fenomenologia da escrita poética.

[…] Poesia não é algo que eu crio com as palavras; sento e falo: “Agora com estas palavras vou criar isso ou aquilo”. As palavras me servem na medida em que dão carne a uma experiência anterior. Eu posso até cutucar um pouquinho em alguma palavra e ela me despertar a coisa, mas essa coisa que a poesia desperta é que é o grande mistério. Para mim, é o corpo de Cristo; ela é encarnação da divindade, é um experimento do divino. E o máximo desse experimento é um Deus que tem carne, que no caso é Jesus. É o máximo de poesia possível.[5]

E mais adiante nos Cadernos, Adélia nos brinda com um poema inédito que podemos classificar no mesmo híbrido erótico-sensual:

Oh, quem me fez, socorra-me,

a carne do meu coração

é a pele esticada de um tambor

onde ecoam sofrimentos

que parecem tentações,

dor travestida de dor ainda maior

para que eu desista

e duvide da crença de que tenho um pai.

Vem tudo em forma de carne

grandes mantas de carne palpitante,

recobrem ossos, mágoas, frustrações, desejos

sobre os quais tenho culpa e devo purgar-me

até que eu mesma seja apenas ossos.

[…][6]

Antes de finalizar este breve texto, trago um poema meu que penso compactuar com esse mesmo não lugar de Hilda, de Adélia, entre o erótico e o sensual. Talvez seja essa a carne da poesia que Adélia nos alerta, por habitar todo poema, por ser a encarnação do Verbo de sentido que permeia as entranhas de cada uma de nossas mãos que escrevem poesia.

Com

A mais bela rosa

Risco

O teu corpo nu

Beijo

Cada uma das células

Latejantes

Incongruentes

*

Entrego

Em taça dourada

O néctar do desejo

Antigo

Ancestral

Em que tu em mim farias

Gruta úmida e rara

Para apagar dos pecados

A solidão solícita

*

Do meu ser

Tens o inteiro

Cada margem

Cada escuta

E podes

Se apropriar do que digo[7]

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[1] Texto escrito para o primeiro encontro das Mulheres poéticas em 20 de novembro de 2020.

[2] Escritora, vinte livros publicados, sendo um em formato vídeo-podcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

[3] NINS, Anaïs. Delta de Vênus: histórias eróticas. Tradução: Lúcia Brito. Porto Alegre: L&PM, 2005, p. 8.

[4] “Júbilo memória noviciado da paixão” (1974), Hilda Hilst – seleção Altair Martins.

[5] PRADO, Adélia. Entrevista em Cadernos de Literatura Brasileira. Número 9. Rio de Janeiro: IMS, junho de 2000, p. 24 – seleção Patricia Tenório.

[6] PRADO, Adélia. Línguas. In Cadernos de Literatura Brasileira. Número 9. Rio de Janeiro: IMS, junho de 2000, p. 62 – seleção Patricia Tenório.

[7] TENÓRIO, Patricia Gonçalves. O dom e o fruto. In D’Agostinho. In 7 por 11. Recife: Raio de Sol, 2019, p. 233 – seleção Patricia Tenório.

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Escrita infantil para mulheres adultas[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Dezembro, 2020

As poesias

O grupo das poetisas continua se encontrando. Continua me provocando leitura e criação. Elba Lins, conduzindo “as meninas”, sugere a leitura da seleção de poesias infantis do professor Altair Martins.

Começo de maneira diferente. Lembro do especial da Rede Globo Vinícius para criança,[3] que assisti aos onze anos de idade. Mas poeta é criança para sempre. Então fui atrás do Poetinha – que, por essas coincidências da arte, eu estava estudando – e me deparo com A arca de Noé.

Sete em cores, de repente

O arco-íris se desata

Na água límpida e contente

Do ribeirinho da mata.

*

O sol, ao véu transparente

Da chuva de ouro e de prata

Resplandece resplendente

No céu, no chão, na cascata.

*

E abre-se a porta da Arca

De par em par: surgem francas

A alegria e as barbas brancas

Do prudente patriarca.[4]

Vinícius nos apresenta de maneira infantil, mas inteligente – com o cuidado para não subestimar a capacidade de apreensão da poesia pelas crianças – todo um universo que a arca de Noé nos remete: a recriação do mundo após o dilúvio. Interessante utilizarmos essa metáfora na escrita poética, em especial na infantil, porque acredito que não existe nada mais original, tudo já foi criado, mas não com o nosso olhar, nossa subjetividade, nossa bagagem de leitura e de vida.

Leão! Leão! Leão!

Rugindo como o trovão

Deu um pulo, e era uma vez

Um cabritinho montês.

*

Leão! Leão! Leão!

És o rei da criação![5]

Não podemos deixar de comparar com o poema “The Tyger”, do poeta e artista inglês William Blake, de quem Vinícius revela a inspiração.

Tyger Tyger, burning bright!

In the forests of the night;

What imortal hand or eye,

Could frame thy fearful symmetry?

*

[Tyger Tyger, queimando brilhante!

Nas florestas da noite;

Que mão ou olho imortal,

Poderia enquadrar tua simetria terrível?][6]

Notem que são poemas para idades diferentes, escritos por poetas de línguas diferentes, mas que possuem na essência o mesmo gérmen da poesia, mostrando-nos que a arte não tem idade, e o mais importante é entrarmos em contato com quem nos lê.

Era uma casa

Muito engraçada

Não tinha teto

Não tinha nada

Ninguém podia

Entrar nela não

Porque na casa

Não tinha chão

Ninguém podia

Dormir na rede

Porque na casa

Não tinha parede

Ninguém podia

Fazer pipi

Porque penico

Não tinha ali

Mas era feita

Com muito esmero

Na Rua dos Bobos

Número Zero.[7]

E, ao nos debruçarmos sobre a seleção de poemas infantis feita por Altair Martins, nos deparamos com essa mesma simplicidade inteligente que encontramos em Vinícius e Blake: Walmir Ayala nos apresenta Cecília Meireles.

Você que vai ler este livro, não sei que idade terá. Não posso prever. Seja qual for, você terá uma surpresa, porque este é um livro mágico. Gostaria que você imaginasse a menina Cecília, sem pai nem mãe, apenas com sua avó Jacinta Garcia Benevides, debruçada sobre um tapete, descobrindo o mundo. Que tapete seria esse? Certamente parecido com esses que aparecem nas histórias orientais, com pássaros e flores, e muitos caminhos retorcidos onde ela imaginava o labirinto do sonho. Da Solidão de menina, e da atenção sobre as coisas que passam, ou pelas quais passamos, se nutriu a poeta Cecília Meireles, que depois foi mãe, avó e mestra. Todas estas experiências estão neste livro, que é como aquele tapete povoado de mistérios. Cecília entendia as crianças. Transitou com leveza entre os netos que foram tão simples e curiosos como vocês. Foi colhendo uma coisa ali, outra acolá, um cachimbo dourado de cabelo, uma birra, até um pensamento triste, e transformou tudo em matéria de vida. Mas esta Cecília tinha um amor muito especial pela palavra. E resolveu brincar, fazer ciranda com os sons, entrelaçar os fatos com rimas ingênuas, musicar o pensamento.[8]

A música de Cecília (assim como a de Vinícius) nos embala, e nos ensina a escrever… 

O mosquito pernilongo trança as

pernas, faz um M, depois, treme,

treme, treme, faz um O bastante

oblongo, faz um S.

*

O mosquito sobe e desce. Com

artes que ninguém vê, faz um Q,

faz um U, e faz um I.

*

Este mosquito

esquisito

cruza as patas, faz um T.

*

E aí,

se arredonda e faz outro O, mais

bonito.

*

Oh!

Já não é analfabeto, esse

inseto,

pois sabe escrever seu nome.

*

Mas depois vai procurar

alguém que possa picar, pois

escrever cansa,

não é, criança?

*

E ele está com muita fome[9]

… a dançar…

Esta menina tão

pequenina

quer ser bailarina.

*

Não conhece nem dó nem ré mas

sabe ficar na ponta do pé.

*

Não conhece nem mi nem fá

mas inclina o corpo para cá e para lá.

*

Não conhece nem lá nem si, mas

fecha os olhos e sorri.

*

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar e não

fica tonta bem sai do lugar.

*

Põe no cabelo uma estrela e um véu e diz

que caiu do céu.

*

Esta menina tão

pequenina

quer ser bailarina.

*

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.[10]

… a fazer escolhas quando um dia formos adultas, pequenas meninas que ainda somos…

Ou se tem chuva e não se tem sol

ou se tem sol e não se tem chuva!

*

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

*

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

*

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo em dois lugares!

*

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou

compro o doce e gasto o dinheiro.

*

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo … e

vivo escolhendo o dia inteiro!

*

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranquilo.

*

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.[11]

… até tomarmos coragem e voltarmos a ser crianças, no apagar das luzes e das forças do dia, e escrever infanto-poesia.

Minha mãe

Mandou dizer

Que eu escrevesse

Isso daqui

*

Mas quando

Eu fui escrever

Achei as palavras

Tão feinhas

Os versos

Pixototinhos

*

Que resolvi

Ler gente

Grande

Um Vinícius

Um Quintana

Um outro

Chamado Gullar

*

Mas

De quem

Eu gostei

Mesmo

Foi daquela

De nome

Cecília

*

Que me

Botou

No colo

Contou

História

E me

Fez

Um dia

Sonhar[12]


____________________________________


[1] Texto escrito para o terceiro encontro das Mulheres poéticas em 13 de dezembro de 2020.      

[2] Escritora, vinte livros publicados, sendo um em formato vídeo-podcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa     

[3] O especial Vinícius para criança foi exibido na Rede Globo em 10/10/1980, no horário das 21h. Com direção de Ewaldo Ruy e direção-geral de Augusto César Vanucci, teve a participação especial de Aretha Marcos, Alceu Valença, Chico Buarque, Fábio Júnior, Milton Nascimento, MPB4 e muitos mais.

[4] MORAES, Vinícius de. A arca de Noé. In Vinícius de Moraes: obra reunida. Organização: Eucanaã Ferraz. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, (1970 in) 2017, p. 443.

[5] MORAES, Vinícius de. O leão. In Op. cit., (1970 in) 2017, p. 450.

[6] BLAKE, William. William Blake. The British Museum. London: The Random House, 2005, p. 32 – Tradução livre nossa.

[7] MORAES, Vinícius de. A casa. In Op. cit., (1970 in) 2017, p. 450.

[8] Prefácio de Walmir Ayala para Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles – seleção de Altair Martins.

[9] O mosquito escreve. In Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles – seleção de Altair Martins.

[10] A bailarina. In Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles – seleção de Altair Martins.

[11] Ou isto ou aquilo. In Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles – seleção de Altair Martins.

[12] “Quando eu quis virar poeta”, Patricia Gonçalves Tenório. Escrito às 21h47 de 12/12/2020.


      

Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2018 – Recife e Porto Alegre

Os encontros de Agosto, 2018 em Recife e Porto Alegre falaram sobre O amor. Não somente o amor entre os amantes, mas, principalmente, o amor à escrita. Passeamos pelos encontros do primeiro semestre, revisamos conceitos, e acrescentamos o de carcaça de John Keats, quando o poeta se esvazia de si para se preencher com Poesia,  Ficção, com Escrita Criativa. Encontramos essa carcaça na escrita de Orhan Pamuk, de Ian McEwan, e tantos outros artistas de diversas artes, teóricos de inúmeras áreas de conhecimento…

A partir dessas conexões do octógono dos Estudos em Escrita Criativa, fomos presenteados com textos que se encontram aqui neste post, com os processos criativos de Ana Maria César (Recife), Annie Müller e Luís Roberto Amabile (Porto Alegre), e outros textos que foram além do tempo e do tema do mês e que se encontram em posts individuais.

E nos preparamos para os encontros de Setembro, 2018 em Recife e Porto Alegre que falarão sobre O sonho. Desta vez teremos a honra e a alegria de receber Adriano Portela (Recife), Gisela Rodriguez e Fred Linardi (Porto Alegre) para falarem sobre suas criações artísticas, poéticas, literárias.

Que venha Setembro e uma boa leitura!

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

_______________________________________

 

Branco

André Souto

Recife, 11/08/2018, V Encontro de Escrita Criativa

Contato: asla56@outlook.com

 

A tela à sua frente. Branca. O cursor pisca. Oscila. Pronto a receber alguém. Alguma coisa, mesmo sem trama nem final.

A tela: insulto e desejo. Sozinho e sentindo a presença. Frio, branco: o olhar do inquisidor mudo.

Compreendeu “a luta mais vã”. Arremeteu contra os seus moinhos de vento.

No cursor inquieto, a pergunta tantas vezes repetida:

— E agora?

 

                                                                    

 

ESCRITA AMOROSA

BERNADETE  BRUTO

Recife, 11 de Agosto de 2018

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

Foi principalmente por amor que pegou o papel e escreveu o primeiro poema. Vieram outros depois, que rasgou por não achar bonito comparado com os da irmã. Aquela sim tinha o dom, a vez, a voz e todos os olhos e amor daquela grande família.

Ali do seu canto, percebeu, também queria ser amada, embora fosse apenas uma menina perante a adolescente cheia de vida. Foi à luta. Insistiu. Alguns olhares se voltaram e pousaram na sua pessoa miúda. A partir dali, ganhou seu espaço e um lugar na família.

Depois o ato de escrever surgiu como confissão de outros amores transitórios, doloridos ou desenganados. Muitas lágrimas pingando no papel, unidas à escrita desenfreada, foram despejadas e, por vezes, o ato tenha ficado meio desbotado.

Somente quando olhou para si e para o outro com amor, o ato de escrever foi tornando-se forte, sereno e eficaz. Hoje, escrever continua sendo um ato de amor, que chega impregnado do grande amor que ela tem por si e pelo outro.

Assim ela imagina que deva ser. É essa busca no seu ato. Quando isso acontecer, um dia, a sua escrita poderá ser conhecida pelo próprio ato que a moldou desde o princípio, podendo ser denominada de AMOROSA.

 

 

O PODER DA PALAVRA

Cilene Santos

Recife, 19/08/2018

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

Pudesse ser

Um gesto,

Um olhar,

Uma miragem.

Mas foi uma palavra,

Guiada pelo vento

Que, num relance,

Invadiu-me a alma.

Alojando-se,

De lá fez morada.

Uniu-se aos sentimentos

Que lá já se encontravam.

E, me atormentando.

Suplicava liberdade,

Em forma de poesia.

Relutei. Expliquei.

Não era ainda chegada a

hora.

Não sou liberta.

Sou prisioneira da minha inspiração.

Não me pertence o momento

De a poesia vir à luz.

E a palavra, com rogos instantes,

Não respeitou o meu instante.

De súbito, a explosão.

Fui vencida!

O verbo se fez asas

E alçou voo

Rumo ao infinito

Mundo da escrita.

 

 

ODE A KEATS

ELBA LINS

Recife, 11/08/2018

Contato: elbalins@gmail.com

 

Me esvazio de mim

De minha existência sem graça

Quando vejo teus olhos de sombra

A me mostrar confusos caminhos

Por onde a alma transita

Quando de paixões

Quando de dores

Quando de mistérios

Que entrevejo através dos teus olhos.

 

Teus olhos de sombra

São lagos profundos

Onde mergulho

E me perco de mim mesmo.

São bosques escuros

Por onde avanço

Na certeza de me perder

Por onde caminho tresloucadamente

Buscando a vida ou a morte

Buscando enfim, a luz

Dos teus olhos mornos.

 

 

Gabi Vieira

Recife, 11/08/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Aos sete anos, lhe foi dado papel e lápis, não importa mais por quem. Na euforia de sua mente curiosa e de seu jeito espivitado, encarou a folha em branco com uma urgência que só cabe às crianças – e ouviu alguma coisa. Com espanto, percebeu vir daquele papel à sua frente. Um chamado, uma súplica, uma única palavra:

 

“Escreva”.

 

Tão simples, mas tão extraordinária. Tão curta, mas tão longínqua. Tão silenciosa, mas tão desesperada.

 

E então, o que lhe restava? Não podia apenas ignorar aquele pedido, que era de certa forma uma ordem, uma necessidade profunda cujas raízes já sentia brotar no próprio âmago. Era isso. Não tinha jeito.

Se não escrevesse, sufocaria.

Depois disso – depois de se entregar ao papel, às palavras e às ideias – não mais foi somente o que se era. Foi alegria, foi tristeza. Foi ódio, foi amor, e nem sempre soube descrever o que se era. Foi Anna, foi Julia, foi Stella, mas também foi Caio, Davi, Lucas. Foi tanto e ao mesmo tempo foi tão pouco. Seu corpo não era mais composto de água, sangue, carne, osso. Na pele, se imprimiam as paisagens que criara no fundo da mente e depois passara para o papel. Os cabelos esvoaçavam com o vento das risadas daquelas vidas que trouxera à existência, caminhando ao seu lado como velhas amigas. E nas veias, corriam as letras que pulsavam de seu coração, espalhando-se pelo corpo todo e dando-lhe a plena certeza de que ela própria era feita de palavras.

 

 

para um poema de amor

Márcia Maia

Recife, 11/08/2018

Contato: marciamaia@uol.com.br

 

acordei querendo escrever um poema de amor

 

um poema que de amor reluzisse

nessa manhã sem azul

que trouxesse de volta o bem-te-vi sumido

e reinventasse ninhos no pinheiro

e fantasmas amigos na varanda

vivos ou não

 

um poema que verdágua transbordasse

num misto de mar e capibaribe

de paralelepípedo e mangue

e que fizesse florir em pleno inverno os

baobás e todas as acácias

guardando os flamboyants para o verão

 

um poema que se negasse ao corriqueiro

eu te amo e dissesse do amar

com verso e rima

numa voz peculiar de gesto novo

que fosse efêmero como o bronze esverdeado

das estátuas e permanente como o brilho

que há nas bolas de sabão

 

que dissesse de mim sem me dizer

e alardeasse o querer de cada gente

dispensando os como os quando e todos os porquês

 

e que algum dia em um livro em um blogue

onde quer que alguém o visse

que se lhe abrisse um sorriso ao fim de o ler

 

 

Ana Paula Bardini

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: apbardini@terra.com.br

Encontrar palavras que se possa expressar

Sentimentos que insistem em não se mostrar

 Não tem nada de pensado

Muito menos de ensaiado

Vem da alma no momento apropriado

Tomam forma, dando vida ao inanimado

 E, aos poucos, a natureza antes dura

Se matiza e se mistura

Como cores em pintura

Na extrema delicadeza

De sua ímpar beleza

Tem-se então uma sinfonia

Sonhos e desejos em total harmonia

Palavras não se deve procurar

Pois são elas que se fazem encontrar

#APB

 

Nem sempre sou fala, às vezes sou escuta

E é quando escrevo que me sinto ouvida

 

Nem sempre sou clara, às vezes sou escura

E é quando escrevo que me revelo luz

 

Nem sempre sei quem sou, às vezes não sei

E é quando escrevo que me desvendo em mim

 

Nem sempre sou Ana, às vezes sou Paula

Mas sempre que escrevo sou sem-fim

 

Muitas em mim.

#APB

 

 

Escrever-se

Gabriela Guaragna

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: gabi_guaragna@hotmail.com

 

Antes mesmo de pousar no oco da boca, o beijo das palavras entregam-se aos pulmões e escorrem, feito água morna, pela ponta de cada dedo que segura uma letra. A caneta finca o papel como se fincasse a musculatura mais profunda e assina nas vísceras as vozes que não encontraram espaço na garganta. Escritor desagua-se sobre o papel e a escrita o escreve em si.

 

 

Gabriel Nascimento

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: gsabritto@yahoo.com.br

 

Quatro da manhã. Deveria estar exausto, mas meu corpo desconhece senso comum. O ronco de minha mãe desmata o silêncio como uma motoserra. Respiro fundo, sufocando o grito que quase escapa. Meu amigo ouve sem reclamar, como se a reclamação lhe desse identidade. Nunca questionei como um pedaço de papel é meu melhor amigo. Curioso como o inanimado nos dá identidade. Sem palavras, uma folha é somente isso. E sei que é o ato de impor a tinta no papel que me torna um escritor. Tudo bem. Prefiro um pulso dolorido do que um grito no escuro.

 

 

GESTAÇÃO

Luciana Beirão de Almeida

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

A palavra,

Fecundando a página,

Gerando vida.

Nutrindo sonhos,

Acalentando sentimentos.

 

Vai se formando uma ideia,

Ponto por ponto,

Linha por linha.

 

A tinta pressiona o papel,

Até ficar tudo pronto

Para a derradeira expulsão!

 

 

LIGAÇÃO

Luciana Beirão de Almeida

 

Como letra que forma a palavra,

Sou única.

Como palavra que forma o texto,

Sou só.

Cada palavra,

Cada ser,

Cada um.

Formando um todo.

Um arco-íris cintilante e belo,

Numa ciranda multicolorida.

Iluminando,

Brilhando,

Unindo,

Sendo!

 

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Recife, 11 de Agosto de 2018

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Porto Alegre, 15 de Agosto de 2018

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Próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_Recife

Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Índex* – Agosto, 2015

“Era uma vez uma palavra que não saiu da boca de Alice. Ele então ruborizou diante daquele nada.

A palavra era um Nome, um Nome tão querido que Alice não pôde sustentar entre a língua e os dentes e deixou cair no chão.

Ele foi de uma gentileza pois a Alice entendeu, a Alice ofereceu o seu melhor sorriso.

E assim os dois sozinhos, cada qual em sua estrada, seguiram com o aroma um do outro e a lembrança daquele nada.”

(“Quando o Nome emudeceu”, Patricia Tenório, 15/08/15, 06h50)

 

A palavra muda diante da Beleza no Índex de Agosto, 2015 no blog de Patricia Tenório.

O retorno de “O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção)” | Patricia Tenório (Recife, PE – Brasil).

Festas de agosto: devoção, cultura, tradição e família | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

É hoje!: Teatro Intinerante | Marcondes Mesqueu (Rio de Janeiro, RJ – Brasil).

TINTEIROS | Poemas de Diego Mendes Souza (Parnaíba, Piauí – Brasil).

E os links do mês:

Danuza Lima (Recife, PE – Brasil) com o conto Verdejar na coluna PalavraTório do blog Parlatório de Adriano Portela (Recife, PE – Brasil): http://parlatorio.com/verdejar/ 

Poemas de Rizolete Fernandes (Natal, RN – Brasil) no blog Crear en Salamanca: http://www.crearensalamanca.com/poemas-ineditos-de-la-brasilena-rizolete-fernandes-traduccion-de-alfredo-perez-alencart/ 

A nova página de Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva (Recife, PE – Brasil): https://m.facebook.com/pages/DS-Tenório/1712916668938186

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 27 de Setembro de 2015, um abraço bem grande e até lá,

Patricia Tenório.

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Index* – August, 2015

“Once upon a time there was a word that did not come out of Alice’s mouth. He then blushed before that nothing.

The word was a Name, one Name so dear that Alice could not sustain between the tongue and teeth and dropped to the ground.

He had such a kindness because to Alice he understood, to Alice he offered his best smile.

And so the two alone, each in own road, followed with the scent of each other and the memory of that nothing. “

(“When the Name was speechless”, Patricia Tenorio, 8/15/15, 6:50 a.m.)

The silent word before Beauty in the Index of August, 2015 in the blog of Patricia Tenorio.

The return of “The unlearner of stories (Notes for a Theory of Fiction)” | Patricia Tenorio (Recife, PE – Brasil).

Festivities of August: devotion, culture, tradition and family | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

It is now!: Itinerant Theater | Marcondes Mesqueu (Rio de Janeiro, RJ – Brasil).

Inkstand| Poems from Diego Mendes Souza (Parnaíba, Piauí – Brasil).

And the links of the month:

Danuza Lima (Recife, PE – Brasil) with the short story Verdejar in the column PalavraTório in Parlatório blog  from Adriano Portela (Recife, PE – Brasil)http://parlatorio.com/verdejar/

Poems from Rizolete Fernandes (Natal, RN – Brasil) in the blog Crear en Salamanca: http://www.crearensalamanca.com/poemas-ineditos-de-la-brasilena-rizolete-fernandes-traduccion-de-alfredo-perez-alencart/

The new page of Maria Eduarda Tenorio de Oliveira e Silva (Recife, PE – Brasil): https://m.facebook.com/pages/DS-Tenório/1712916668938186

I appreciate the kindness and participation, the next post will be on September 27, 2015, a big hug and until then,

Patricia Tenório.

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foto 1 (4)

 

foto 2 (5)

**

 

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

**Quando Patricia Tenório emudeceu… When Patricia Tenório was speachless… 

É hoje! : Teatro Intinerante | Marcondes Mesqueu*

Marcondes

 

Felicidades

Marcondes Mesqueu

(021) 964523908 ( ID 24*16314 )

(21) 965216662 – TIM / 995265106 – VIVO / 986338884 – OI / 968504072 – CLARO   

Saiba mais:

www.teatroitinerante.blogspot.com e teatroitinerante.rua1@gmail.com

                          Te aguardo no Facebook                            

https://www.facebook.com/MARCONDESTEATRO Marcondes Mesqueu

Índex* – Julho, 2015

Eu sonho

Com um mundo 

Que há de vir

Onde o negro dê a mão

Ao branco

Os sexos sejam apenas 

Sexos

E o homem não seja

O olho invertido da 

Mulher

Olho para trás

E vejo somente

Espinhos

Caminho um passo

De cada vez

E colho flores murchas

Amores perfeitos 

Do que fui um dia

A criança que gera

A mulher que gera

Aquela velhinha

De cabelos brancos

Que dá a mão 

Ao negro

Que não se importa

Com os sexos

Serem apenas sexos

E eu

Me apaixonar

Por você

(“Um livro por vir ou Quando Tenório encontra Blanchot”, Patricia Tenório, 01/07/15, 04h23)

Quando a Poesia encontra a Teoria no Índex de Julho, 2015 do blog de Patricia Tenório.

Poemas de Mestrado – A Prefiguração do Fim | Patricia Tenório (Recife, PE – Brasil).

A Arte de Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva (Recife, PE – Brasil).

Último dia em Paraty | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

Conversa de pai | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

Fotografia para Imaginar | Gilberto Perin (Porto Alegre, RS – Brasil) e outros.

A Poesia de Alves de Aquino (Poeta de Meia-Tigela) (Mucambo, CE – Brasil) e Dércio Braúna (Limoeiro do Norte, CE – Brasil).

O Convite de Adélio Amaro (Algarvia, Açores – Portugal).

E o meu muito obrigada a todos e todas que fizeram parte dessa postagem especial, a próxima postagem será em 30/08/2015, um grande abraço e até lá,

Patricia Tenório.

___________________________________

Index* – July, 2015

I dream

With a world

To-be

Where the black give hand 

To the white

The sexes are only

Sexes

And the man is not

The inverted eye of the

Woman

I look back

And see only

Thorns

I walk a step

At a time

And harvest withered flowers

Pansies

Do I once was

The child that generates

The woman that generates

That white-haired old lady

Giving hand

To the black

Who doesn’t care 

That sexes

Are only sexes

And I

Fall in love

With you

(“A book to-be or When Tenório meets Blanchot”, Patricia Tenório, 07/01/15, 04:23 a.m.)

When Poetry meets Theory in the Index of July, 2015 in the blog of Patricia Tenório.

Master’s Poems – Foreshadowing of the End | Patricia Tenório (Recife, PE – Brasil).

The Art of Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva (Recife, PE – Brasil).

Last day in Paraty | Mara Narciso (Montes Claros, MG – Brasil).

Father talk | Clauder Arcanjo (Mossoró, RN – Brasil).

Photography for Imagine | Gilberto Perin (Porto Alegre, RS – Brasil) and others.

The Poetry of Alves de Aquino (Poeta de Meia-Tigela) (Mucambo, CE – Brasil) and Dércio Braúna (Limoeiro do Norte, CE – Brasil).

The Invitation from Adélio Amaro (Algarvia, Açores – Portugal).

And all my gratitude to all that made part of this special post, the next post will be on 08/30/2015, a big hug and see you there,

Patricia Tenório.

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foto 1 (3)

foto 2 (4)

foto 3 (1)

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

**A Sala de Leitura César Leal, CAC – UFPE, Recife – PE, Brasil, onde a Teoria se encontrou com a Poesia… The Reeding Room César Leal, CAC – UFPE, Recife – PE, Brasil, where Theory met Poetry… 

Último dia em Paraty | Mara Narciso*

10 de julho de 2015

“Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, tocando coisas de amor.” (A Banda, Chico Buarque de Holanda, 1966).

 

O início da apresentação do Grupo Carroça Mamulengo de Rio Claro, MG, estava marcado para as 9 horas da manhã na Praça da Matriz, no último dia da XIII FLIP, Festa Literária Internacional de Paraty. O público chegou aos poucos, juntamente com os atores, uns jovens bonitos, e da mesma família, sendo duas duplas de gêmeos, uma de rapazes e outra de moças, capitaneados pela mãe de um deles. Trouxeram suas crianças, e a atividade faria parte da Flipinha, dedicada ao público infantil.

Os jovens circenses colocaram um lençol colorido no centro da praça e nele se sentaram, improvisando um camarim. Com espelhos nas mãos tiraram objetos mágicos da sacola e iniciaram a pintura dos seus rostos, primeiro com uma base branca, e depois cor preta nas sobrancelhas, boca vermelha e nariz de palhaço. As crianças, filhas dos artistas, também estavam se trocando e se pintando. Eram pessoas bonitas. Algumas delas trazendo instrumentos musicais, sentaram-se nos bancos e começaram a ensaiar alguns acordes. Outros traziam pernas de pau longas, protegidas por grandes sacos de pano.

A platéia foi se formando e invadiu a cena fotografando e filmando. Os atores vestiam roupas de cores alegres e foram subindo nas suas pernas-de-pau. As moças estavam com longos e charmosos vestidos. Mal começaram a andar lá no alto, já impressionavam pela habilidade. A música começou, embalando o aquecimento. Então, eles fizeram uma roda, chamando o público, e de lá de cima seguraram as mãos dos cá de baixo. O grupo fingia o abrir e fechar de uma porteira, imitando o ruído com a voz, abrindo e fechando os braços. Após alguns minutos chamaram a assistência para acompanhá-los ruas afora, o que já seria surpreendente, considerando-se o calçamento da cidade, com pedras altas e irregulares, com sulcos e monturos, onde é difícil caminhar devagar, mesmo de tênis. Com pernas-de-pau?

 

“A minha gente sofrida esqueceu-se da dor, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor.”

 

Com a agilidade de jovens treinados e com boa força nas pernas, o grupo avançou célere pelas ruas pedregosas de Paraty, acompanhado pelo relativamente pequeno grupo, a princípio, que estava na praça naquela manhã fria. Seus filhos seguiram o grupo. A banda de música atrás, com atores igualmente vestidos de alegria. Tocavam músicas cantantes e conhecidas, entre modinhas de carnaval e populares. A caminhada, que era rápida, passou a ser praticamente uma corrida, e a alegria do grupo e da música envolveu o público, que nessa altura era uma pequena multidão que se acotovelava nas ruas estreitas da cidade histórica, felizmente plana.

Os intrépidos atores circenses faziam hábeis malabarismos, corriam, saltavam, dançavam, dobravam as pernas-de-pau à altura da cabeça e levantavam acima dos seus braços estendidos para cima, uma das moças, também de perna-de-pau. Loucura total! A carregavam como a um andor, e, ao ritmo e em conjunto a depositavam delicadamente no chão.  Também seus filhos foram içados. A empolgação do grupo invadia os presentes, que, sem saber exatamente como, estavam magnetizados por tudo, energia, música e euforia, coisa incompreensível para quem acaba de chegar. Os que ouviram a música em casa, foram atraídos por ela, saíam à varanda, à porta ou lá no alto, esticavam pescoço, braços e mãos, capturados pela situação, sendo impelidos para a rua. O contágio da alegria atuava como cachaça. Paraty é, sim, sinônima de cachaça.

Quem acompanhava, corria e dançava, escancarando um riso rasgado de felicidade. O som dos instrumentos e o magnetismo dos participantes hipnotizaram os presentes, que extasiados, seguiram o grupo por quase duas horas, sem avaliar tempo, nem cansaço. Depois do circuito pelas ruas, voltaram para a praça, onde uma grande corrente humana, de mãos dadas, deu um abraço nela. A brincadeira seguiu-se por mais alguns minutos, com integração dos dois grupos, platéia e elenco. Atados pelas mãos, altos e baixos, adultos e crianças rodopiaram na praça num grande caracol.

 

“E para o meu desencanto, o que era doce acabou, tudo tomou seu lugar, depois que a banda passou.”

 

O nível da atração Carroça Mamulengo é de primeira grandeza, sendo facilmente alçado ao patamar de clímax de toda a festa. A perícia dos jovens artistas é alimento para o espírito, e tal instante de felicidade é o melhor convite para uma volta.

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Paraty 2015 147____________________________

* Contato: yanmar@terra.com.br

Índex* – Outubro, 2014

Desaprendi

A contar estórias

Feito se

Desaprende

Cantigas de ninar

 

Basta somente

Deitar na cama

A criança

Que um dia eu fui

Alisar os seus cabelos

E dizer que

O lobo mau

Está longe

Longe

 

E nada

E ninguém

Vai atrapalhar

A nuvem roçar

A lua cheia

Que se esconde

Em seu ouvido

 (“Carochinha ao contrário ou A desaprendiz de estórias”, Patricia Tenório, 10/10/14, 20h00)

 

A criança que habita em nós e nos salva no Índex de Outubro do blog de Patricia Tenório.

“Reverência” em “Grãos” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

VII ENCONTRO DE LITERATURA INFANTOJUVENIL E II ENCONTRO INTERNACIONAL DE LITERATURA INFANTOJUVENIL DA UNICAP | Coord. Prof. Robson Teles (PE – Brasil).

Poema do Dia | Alcides Buss (SC – Brasil).

“Uma garça no asfalto” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“Documentando novos espaços: os vídeos caseiros de Derek Jarman” | Adriana Pinto Azevedo (RJ – Brasil).

“Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico” | Claudio Willer (SP – Brasil).

E as novidades do Suplemento Cultural de Santa Catarina (84) [ô catarina] (SC – Brasil): www.fcc.sc.gob.br/ocatarina

Agradeço o carinho e contribuição de todos e todas, a próxima postagem será em 30 de Novembro de 2014, um abraço bem grande e até lá,

Patricia Tenório.

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Index* – October, 2014

I’ve unlearned

To storyteling

As if

We unlearn

Singing lullabies

 

Just only

Lying in bed

The child

One day I went

Smoothing her hair

And to say

The Bad Wolf

Is far

Far away

 

And nothing

And no one

Will muddle

The cloud brush

The full moon

Hidding itself

In her ear

 (“The Counter Fairies on the contrary or The unlearning storyteller”, Patricia Tenório, 10/10/14, 8 pm)

 

The child that dwells in us and saves us in the Index of October in the blog of Patricia Tenório.

“Reverence” in “Grains” | Patricia Tenório (PE – Brasil).

VIIth MEETING OF LITERATURE FOR CHILDWOOD AND YOUTH AND IInd INTERNATIONAL MEETING OF LITERATURE FOR CHILDWOOD AND YOUTH OF UNICAP | Coord. Prof. Robson Teles (PE – Brasil).

Poem of the Day | Alcides Buss (SC – Brasil).

“A heron on the asfalt” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“Documenting new spaces: the home videos of Derek Jarman” | Adriana Pinto Azevedo (RJ – Brasil).

“The rebels: Beat Generation and mystical anarchism” | Claudio Willer (SP – Brasil).

And the news of the Cultural Supplement of Santa Catarina (84) [ô catarina] (SC – Brasil): www.fcc.sc.gob.br/ocatarina

I appreciate the kindness and contribution of each and all, the next post will be on 30th November, 2014, a big hug and see you there,

Patricia Tenório.

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post. Este mês, por causa do 2º turno das eleições (26 de Outubro de 2014), antecipamos o envio da Newsletter.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post. This month, because of the 2nd turn of the elections (26th October, 2014), we anticipate the sent of the Newsletter.

**Oh! Porto Alegre!