Sobre “Laydo: em hora de dormir” | Diogo Bruno Calife* | Por Patricia Gonçalves Tenório**

Capa de Laydo - Diogo Calife

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Existe um livro escrito pela Prof. Dra. Virgínia Axline da Universidade Estadual de Ohio, EUA, chamado Dibs: em busca de si mesmo (1986). Trata da história de Dibs, um menino que chega à ludoterapia da Dra. Axline sem conversar, sem brincar, isolado em si mesmo, em um mundo inacessível para seus pais e as pessoas ao seu redor.

Essa história marcou profundamente a minha adolescência, e me acompanhou até a fase adulta, até eu ser mãe. Considero que isto se deva ao fato do que a tradutora para o português do Brasil, a Prof. Célia Soares Linhares das Universidade do Maranhão e Universidade Federal Fluminense, menciona em uma nota na 13ª edição do livro.

“É um convite para entender e amar a criança que continua escondida em cada um de nós e sentir a grandiosidade da participação no mistério cósmico que nos une às montanhas, ao mar, às chuvas, às árvores, aos passarinhos e a todos os animais, às crianças, aos jovens, aos adultos num agigantamento do nosso ser e num aprofundamento de nossa originalidade pessoal”. (Linhares in Axline, 1986, p. 9)

Quando recebi Laydo: em hora de dormir (2013), de Diogo Bruno Calife das mãos de sua mãe, Rejane Calife, imediatamente o remeti a Dibs, e a esse mergulho em si mesmo que nos alerta Prof. Axline, Prof. Linhares e o próprio Diogo Calife. Narra a estória de Laydo, que pensando estar perdendo tempo ao dormir, vai ao encontro de seus amigos Lagarto, Ratinho Azul e Dr. Caramujo para não deixá-los também dormir, pois “a gente perde muito tempo dormindo, tem muita coisa acontecendo”.

Diogo tem 16 anos e autismo. Criou – texto e ilustrações – um livro “quando muita gente tenta e não consegue” (Rejane e Roberto Calife, pais de Diogo). E criou um livro sobre “a perda de tempo” tão comum na nossa sociedade acelerada que não quer “perder tempo” cuidando de si. Paradoxalmente, Diogo, vencendo todas as dificuldades para se expressar nesse mundo que o cerca, consegue dizer muito mais das nossas próprias dificuldades de entrar em si, se conhecer, se encontrar, para somente então ter condições de sair de si ao encontro do outro. O que os antigos faziam com frequência ao final do dia, feito nos lembra Foucault (2013, p. 46) com “a insistência sobre a atenção que convém ter para consigo mesmo”, feito nos acalanta Sêneca em Da tranquilidade da alma.

“Não há nada mais relaxante do que ficar entre as paredes de nosso lar. Que ninguém me furte um único dia, já que nunca poderia me compensar tão grande perda. Neste local, a alma fica dedicada a si mesma, pode ser cultivada, nada nem nenhum juízo alheio pode afetá-la. Livre dos cuidados particulares e públicos, dedica-se à tranquilidade”. (Sêneca, 2009, p. 38)

Que os exemplos de Dibs, Diogo e os que acreditaram neles (Dra. Virgínia Axline, Rejane e Roberto Calife) nos incentivem a nunca deixar de acreditar em nossos sonhos, e mais importante, a sempre acreditar no poder dos sentimentos, dos afetos, no poder transformador do amor, que possibilita o “agigantamento do nosso ser” e o “aprofundamento de nossa originalidade pessoal”.

 

Referências bibliográficas

 

AXLINE, Virgínia M.. Dibs: em busca de si mesmo. Tradução: Célia Soares Linhares. 13ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1986.

CALIFE, Diogo Bruno. Laydo: em hora de dormir. Texto e ilustração: Diogo Bruno Calife. Nota biográfica do autor: Rejane e Roberto Calife. Recife: Editora Coqueiro, 2013.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 3: o cuidado de si. Tradução Maria Thereza da Costa Albuquerque. 12ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2013.

SÊNECA, Lúcio Anneo. Da vida retirada; Da tranquilidade da alma; Da felicidade. Tradução Lúcia Sá Rebello e Ellen Itanjara Neves Vranas. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

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* Contatos: rejane.calife@uol.com.br e roberto.calife@tagsi.com.br

**  Patricia Gonçalves Tenório é escritora de poemas, contos e romances desde 2004, tem 8 livros publicados e é mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, com o projeto O retrato de Dorian Gray: um romance indicial, agostiniano e prefigural. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br