Posts com Psicologia

Índex* | Junho, 2021

Para Bruno e Assis

*

O aniversário

É aquele dia

Em que o tempo

Para

O sangue

Agita

A vida parece

Uma longa estrada

Cheia de pegadas

Do bem que fizemos

Da música que tocamos

Das palavras escritas

No coração vazio

E ganharam

Forma

Luz

E cor

*

(“A estrada são vocês”, Patricia Gonçalves Tenório, 21/06/2020, 05h50)

A longa estrada da Escrita Criativa no Índex de Junho, 2021 do blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa On-line | Os mundos de dentro | Junho, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório & Diversos.

Escrita Criativa em mim | Patricia Gonçalves Tenório.

40 mil visualizações | A baronesa | Patricia Gonçalves Tenório.

Poema de Altair Martins (RS – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho de sempre. Excepcionalmente, a postagem de junho foi antecipada de 27 para 20. A próxima postagem será em 25 de julho de 2021. Abraço bem grande e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* | June, 2021

For Bruno and Assis

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The birthday

It’s that day

In which time

Stops

The blood

Shakes

Life seems

A long road

Full of footprints

Of the good we did

The music we played

The written words

In the empty heart

And that won

Form

Light

And color

*

(“You are the road”, Patricia Gonçalves Tenório, 06/21/2020, 5:50 am)

The long road of Creative Writing in the June Index, 2021 on Patricia Gonçalves Tenório’s (PE – Brasil) blog.

Studies in Creative Writing Online | The worlds from within | June, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório & Several.

Creative Writing on Me | Patricia Gonçalves Tenório.

40 thousand views | The Baroness | Patricia Gonçalves Tenório.

Poem by Altair Martins (RS – Brasil).

I appreciate the attention and affection always. Exceptionally, the June post was brought forward from 27 to 20. The next post will be on July 25, 2021. Big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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**

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A longa estrada nos confirmando que, apesar de tudo, viver é bom. Música: The long and winding road, Os Beatles. Fotografia: Fred Linardi, do encontro de um dos aniversariantes de junho, Luiz Antonio de Assis Brasil, e Patricia Gonçalves Tenório, em novembro de 2019, Porto Alegre – RS – Brasil. The long road confirming that, despite everything, living is good. Music: The long and winding road, The Beatles. Photograph: Fred Linardi, from the meeting of one of the June birthdays, Luiz Antonio de Assis Brasil, and Patricia Gonçalves Tenório, in November 2019, Porto Alegre – RS – Brasil.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Os mundos de dentro | Junho, 2021

Desembarcamos na Ilhéus do início do século XX, e navegamos pelas técnicas de ficção tão semelhantes às de não ficção em Gabriela, cravo e canela, com Jorge Amado.

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Primeira Aula do Módulo 6:

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Na primeira aula do módulo, investigamos o formato do livro estudado, Gabriela, cravo e canela, que lembra uma peça de teatro ou mesmo manchetes de jornal, antecipando os acontecimentos futuros; navegamos pelos diversos pontos de vista, como se fosse uma câmera; comparamos os subtítulos dos capítulos e a não ficção de Bernardo Bueno; constatamos a utilização de técnicas da não ficção em Gabriela;

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Segunda Aula do Módulo 6:

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Na segunda aula do módulo, comparamos a teoria da psicanalista Melanie Klein na projeção e na introjecção contínuas dos mundos de dentro para os de fora e vice-versa, como podemos ver na personagem central, Gabriela; verificamos a liberdade de Gabriela sendo anunciada em um cenário de sonho; constatamos o manifesto à liberdade feminina nas personagens Gabriela, Glória e Malvina; visitamos as muitas casas de Jorge Amado.

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Terceira Aula do Módulo 6:

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E é com imensa alegria que convidamos para a nossa live do canal do YouTube na quarta-feira 30/06/2021, a partir das 19h, com o escritor, especialista em Jornalismo Literário, mestre e doutorando em Escrita Criativa pela PUCRS, Fred Linardi. Não percam!

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https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

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Exercícios de desbloqueio:

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Módulo 5 – Vinicius de Moraes:

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Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Sobre encontros e vida

(Uma peça escrita on-line por Bernadete Bruto e Elba Lins baseada no “Soneto da Separação” de Vinicius de Moraes e nas músicas “Samba em prelúdio” e “A tonga da mironga do cabuletê”.)

*

Personagens:

Mulher 1

Mulher 2

D.J

*

As autoras advertem que qualquer semelhança é mera coincidência

PRIMEIRO ATO

Em um salão de dança organizado para festa, com mesas e cadeiras cingindo o salão, enquanto todos esperam o início do evento, o DJ testa o som. Ouve-se um trecho da música “Samba em prelúdio”, de Vinicius de Moraes. Duas mulheres vindo de lados opostos se encontram no meio do salão e ouvem ao fundo a primeira estrofe do soneto da separação.

“De repente do riso fez-se o pranto

silencioso e branco como a bruma

e das bocas unidas fez-se a espuma

e das mãos espalmadas fez-se o espanto.”

Primeira mulher: (caminha pelo salão e fala tristemente) não sei se foi tão de repente, mas aquele momento foi como um terremoto para mim, ainda hoje trago no rosto o espanto.

Segunda mulher: (caminha em direção a primeira com ar de zombaria e fala) no meu caso já sentia que a relação estava com “validade vencida” e a cada vez que ele tentava me beijar eu espumava de raiva.

SEGUNDO ATO

Ainda no meio do salão, enquanto as pessoas vão chegando e tomando assento nas mesas, as duas mulheres continuam a dialogar com o poema que escutam ao fundo, que parece estar sendo reproduzido aos poucos, como que propositalmente.

 “De repente da calma fez-se o vento

que dos olhos desfez a última chama

e da paixão fez-se o pressentimento

e do momento imóvel fez-se o drama”

*

Primeira mulher: (triste) naquele fatídico dia, enquanto ele retornava para casa, no fundo um pressentimento me dizia que o vento apagaria nossa última chama.

Segunda mulher: (de forma sensual) amiga, comigo foi bem diferente… O turbilhão que me invadiu, não apagou nenhuma chama, já apagada com o tempo. O que senti foi uma nova chama desde que outros homens demonstraram interesse por mim e um em especial arrebatou todo meu ser.

TERCEIRO ATO

No entorno do salão, as pessoas ocupam rapidamente as mesas. Assim, as mulheres saem do salão para conseguirem uma mesa em local estratégico. Ao sentarem-se ouvem os trechos do soneto.

“De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

*

“Fez do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.”

*

Primeira mulher: (desanimada) ah, que tristeza esta solidão! Antes acompanhada, agora tão solitária! Que alegria haveria em uma casa vazia, fria, que não abrigava uma família?

Segunda mulher: (animada) de repente não mais que de repente, a paixão novamente. A dor sumiu para sempre.

QUARTO ATO

Ao fundo do salão o DJ coloca a música de abertura do baile. os dançarinos já começam a convidar seus parceiros e a segunda mulher se levanta aos primeiros acordes da música de Vinicius e Toquinho “A tonga da mironga do caburetê”.

*

Segunda mulher: (entusiasmada) minha amiga, vem comigo. A vida nos chama. Amar é a dança do espírito e a vida é uma aventura.

*

Primeira mulher: (já se animando) vamos então. Aos poucos deixo a tristeza passar e vivo o próximo instante. Vou seguir dançando e cantando, assim, de repente não mais que de repente, nessa aventura errante chamada vida.

(As duas mulheres sambam e cantam no meio do salão)

FIM

*

Elenara Leitão

Contato: arqstein@gmail.com

MULHER

Solteira, chorei.

Casada, já nem lágrima tive.

Viúva, perdi olhos

para tristezas.

O destino da mulher

é esquecer-se de ser.

Mia Couto

*

Solteira, sonhei

Casada já nem sei

Delirei

Viúva, lembrei e

Fui em frente

O destino da mulher

é ser ela mesma

*

Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Vinicius de Moraes

*

Da mulher e suas agruras,

tanto receitam nossas dores

tanto moldam nossos amores

achando que descobrem

nossos segredos

Mal sabem, incautos,

que mulher tem qualquer coisa

muito além dos entendimentos

qualquer coisa muito além das luzes

qualquer coisa que vai além

Porque nasceu para gerar

gerar vida, gerar amor, gerar ir

A vida da mulher

para tristeza e choro de muitos

não passa pelo esquecimento de si

e sim, pelo redescobrimento

além de qualquer fraqueza

além de qualquer dor

Mulher tem, por destino e sina

o sorriso e a capacidade

de reamar

de retomar

de vir a ser

de fechar e REabrir portas

Dela a casa

dela o caminho

*

Poetas tão afamados,

não riam de minha ousadia,

de querer debater

Por mais que as palavras lhes sejam amantes

Falta-lhes o sentido do ser feminino

Aquele que tentam margear

aquele que, olhando pedaços,

teimam enxergar o inteiro

Da menina que olha assustada

à velha sábia que mais maga

todas espíritos que teimam

andar etéreas e livres

por mais correntes que teimem

colocar em suas vidas

*

nada nos tolhe

talvez nós apenas

Uma mulher se constrói

Se edifica

Se consolida

E dela apenas se diz

Viveu, amou, morreu

Virou luz

*

e seguiu em frente

*

Módulo 6 – Jorge Amado:

*

Elenara Leitão

Caminhos de Salvador

Moças, a igreja da Conceição da Praia fica a duas quadras daqui. Mas recomendo que não vão até lá. É zona do baixo meretrício…sorriu ao lembrar o aviso do policial militar naquela manhã. Ele mal podia imaginar que duas estudantes de arquitetura, vindas do distante estado do Rio Grande do Sul, pouco iam se incomodar com aquele detalhe. Queriam mais é conhecer as igrejas da cidade, quantas mesmo? Coisa de uma para cada dia do ano, tinha dito o guia. Imaginaram que, no máximo, podiam encontrar com Vadinho, saindo de alguma vadiagem diurna enquanto sua Flor ficava na cozinha, ensinando a arte de bem comer. Disso sabia ele com mais maestria. Era começo da década de 80. Mais uma vez voltava àquela cidade mágica. Sentada no meio fio, comia um acarajé, se lambuzando de pimenta (Moça, pimenta para turista ou local? Local, por obvio). Sua mente voltou no tempo.

*

Enquanto o ônibus corria pela BR em direção à uma Salvador ainda desconhecida, a caloura da faculdade de arquitetura misturava duas imagens em sua cabeça. Era um dia normal de aula, no minhocão da UnB em Brasília, aquele prédio comprido e serpenteante que abrigava as aulas. Projeto de Oscar Niemeyer naquela universidade que foi pensada para ser um exemplo de excelência e cujos professores foram expurgados em 1968. Sete anos depois, 1975, uma jovem sulista olha um cartaz, grudado nas paredes de tijolo. Operação Mauá em Salvador. A OPEMA era um programa do governo militar para que estudantes universitários do ciclo básico pudessem se integrar às problemáticas dos transportes nacionais. Na prática, uma viagem visita (leia-se turística) para a capital baiana, só com mulheres na linha moralista da época.  Salvador lembrava aquela novela que tinha recém visto na TV. Há pouco a cor se tornara visível nas telinhas, embora ainda fosse um luxo para alguns. Era um romance de Jorge Amado, Gabriela da cor do cravo, do gosto da canela. Uma atriz nova que surgia. Paranaense, mas esses são detalhes em um país que se vendia diverso. Bastava um bom bronzeado e surgia a alegre menina que “Só desejava campina, colher as flores do mato / Só desejava um espelho de vidro prá se mirar / Só desejava do sol calor para bem viver / Só desejava o luar de prata prá repousar / Só desejava o amor dos homens prá bem amar !”. Na sua memória, o sotaque arrastado, o romance que a marcara nem era da Bié do seu Nacib, moço bonito. Ela se identificava com a mocinha Jerusa, neta certinha do coronel que mandava na cidade. Embora uma pontinha dela, ainda muito insipiente, se encantara mesmo era com Malvina, aquela que percebia que homem covarde não se espera e se agradece o livramento.

*

Enquanto tocava Tony Tornado em uma rádio na beira da estrada, “E a gente corre (a gente corre) Na BR-3 (na BR-3) – E a gente morre (e a gente morre) – Na BR-3 (na BR-3)”, via uma pracinha de cidade pequena, tão parecida com a cidade cinematográfica da novela. Cores fortes, gente que vai caminhando mansamente em um dia claro. Baianas com seus tabuleiros, fazendo reverências aos velhos coronéis do sertão. Cheiros das essências se misturavam no ar. Ao longe um som de berimbau mostrava uma turma lutando capoeira.

*

A Salvador de 75 era muito parecida com a imagem da Ilhéus que tinha em sua cabeça. Não pelo tamanho, que obviamente, era muito diferente. Mas na diferença social gritante. Sentiu isso ao entrar nos Alagados, uma favela sobre palafitas que era algo que nunca tinha vivenciado, nem imaginara existir. Se os militares imaginavam que, mostrando um Brasil real, iam acabar com os delírios de esquerda de uma juventude que seria o seu futuro, deviam ter pouquíssima imaginação. Na sequência, uma visita com palestra ufanista na base naval de Aratu, com as praias mais lindas que já tinha visto. Poucas pessoas na verdade tinham tido o privilégio de passear por ali: militares e presidentes.  “Não sejam como os baianos que nada fazem…dizia o cara fardado lá na frente, ao que retrucava o estudante que era nosso anfitrião: “Fazer por quê? Paulista trabalha para quê? Para tirar férias na Bahiiiiiiaaaa (o sotaque comprido tornava tudo mais encantador). A gente já mora aqui...” enquanto piscava o olho em um flerte gostoso e livre como uma brincadeira.

*

Mas foi ao passear pelo Pelourinho, com suas ladeiras e casas quase em ruínas que sentiu a baianidade tão intensa que lhe fisgou para sempre. As baianas cobravam para posar junto, por certo. O turista japonês arregalou os olhos ao ouvir o guia descrever o tanto de ouro que havia na igreja de São Francisco. A voz de Gal Costa, a mesma que cantava a modinha de Gabriela e que tinha visto em Brasília, no primeiro show em que fora sozinha, gritava em seus ouvidos: “Tenho pensado tanto na vida /Volta bandida mata essa dor /Volta pra casa, fica comigo/ Eu te perdoo com raiva e amor”

*

Salvador misturou as entradas e saídas de uma trajetória estudantil. Só foi voltar muito mais tarde, já formada. Apresentando trabalho do mestrado, redescobriu outra Salvador. Os velhos casarões meio em ruínas do Pelourinho, agora já restaurados. Muita gente, diziam, tinha sido afastada. O local era um imenso canteiro turístico. Já tinha sido avisada da insegurança da cidade. Mas no Pelourinho pode andar tranquila, diziam com orgulho. Podia mesmo. Era altamente policiado naquele início do século XXI. Podia andar pelas ruas com máquinas fotográficas, entrar na fundação de Jorge Amado, comer nos restaurantes. Comer, na verdade, era um exercício complicado. Muitas crianças de olhar faminto ficavam pedindo as sobras. Não dava para não sentir como uma facada no peito aqueles pequenos capitães de areia já sem dignidade, ansiando por uma esmola, um resto daqueles pratos cheios que alimentavam a curiosidade gastronômica de turistas.

“Nas ruas de Salvador
nunca dormiram crianças
cobertas de esperança
descobertas pelo medo
dormem adultos franzinos
dormem corpos de meninos
que envelheceram cedo
dormem num corpo de homem
tendo a fome por brinquedo
Pedro Bala não tem nome
como tantos outros Pedros.”

*

Lembrou da cena final da novela de 1975. Pessoas que passam e se cumprimentam, com respeito. Um homem jovem de branco. Chapéu panamá. Duas baianas se ajoelham e beijam sua mão. Aquela cena final marcava um Brasil que, apesar das mudanças sociais e culturais que se anunciavam no romance e na novela, ainda perpetuava velhas relações de poder.

*

A ginga eterna da cidade se modificando com o passar do tempo. Novos coronéis ocupando o poder. O povo ainda aos seus pés naquela mudança de faz de conta que mantém tudo sempre igual….Eu nasci assim, eu cresci assim, E sou mesmo assim, vou ser sempre assim: Gabriela, sempre Gabriela! ..

*

A última vez que percorreu os caminhos de Salvador foi em forma de avatar. Um Pelourinho digital em um mundo paralelo.    

*

Letras das Músicas: Jorge Amado Letra e Música

Pod cast – https://podcasts.apple.com/us/podcast/jorge-amado-tinha-pacto-com-leitor-n%C3%A3o-com-intelectuais/id1371163424?i=1000429127313

Escrita Criativa em mim* | Patricia Gonçalves Tenório**

Junho, 2021

Capítulo 11 – Sonhos e devaneios

            Uma das maiores aprendizagens nesses tempos sombrios de pandemia é a capacidade de continuar sonhando. Literalmente ou metaforicamente. Acordamos assustadas/os no meio da noite, no meio do quarto, bem longe do mundo. A angústia e a ansiedade são nossas maiores inimigas, e chegamos muito perto de desistir.

            Mas aí vêm os sonhos e os devaneios. Jean-Jacques Rousseau, em Os devaneios do caminhante solitário, nos apresenta a saída para os dois últimos anos de vida e de exílio, tão produtivos graças aos passeios que realizava nos arredores de Paris.

“Quando a noite se aproximava, eu descia dos cumes da ilha e em geral sentava na beira do lago, sobre a areia, em algum refúgio escondido; ali o barulho das ondas e a agitação da água, fixando meus sentidos e afastando de minha alma qualquer outra agitação, a mergulhavam em um devaneio delicioso em que muitas vezes a noite me surpreendia sem que eu percebesse. O fluxo e o refluxo dessa água, seu ruído contínuo e retomado a cada intervalo, atingindo sem parar meus ouvidos e meus olhos, substituíam os movimentos internos que o devaneio apagava em mim e bastavam para me fazer sentir com prazer minha existência sem me dar ao trabalho de pensar.”[1]

            Enquanto isso, outro filósofo francês, Gaston Bachelard, compara os sonhos investigados incansavelmente pela Psicanálise (vide Sigmund Freud e Carl Gustav Jung) ao devaneio diante do fogo.

“Para nós, que nos limitamos a psicanalisar uma camada psíquica menos profunda, mais intelectualizada, cumpre substituir o estudo dos sonhos pelo estudo do devaneio, mais especialmente, neste pequeno livro, o devaneio diante do fogo. Em nossa opinião, esse devaneio é extremamente diferente do sonho pelo próprio fato de se achar sempre mais ou menos centrado num objeto. O sonho avança linearmente, esquecendo seu caminho à medida que avança. O devaneio opera como estrela. Retorna a seu centro para emitir novos raios.”[2]

            E, em 15 de dezembro de 2021, se tudo der certo, na residência da escritora, poetisa, atriz, diretora de teatro, Gisela Rodriguez, em Porto Alegre, realizarei um grande sonho que a pandemia, até agora, não me permitiu: lançaremos os Estudos em Escrita Criativa, livro que fecha o ciclo do curso de mesmo nome que iniciou lá nos idos de 2016, quando eu começava a trilhar a minha trajetória pelas veredas, nem sempre tão lineares, mais em forma de estrela, da Escrita Criativa em mim.   

O sonho de rever os amigos de Porto Alegre em 15 de dezembro de 2021, no lançamento dos Estudos em Escrita Criativa. Da esquerda para a direita: Bibiana Simionatto, Andrezza Postay, Gisela Rodriguez e Fred Linardi.

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* Coluna publicada mensalmente nos blogs www.patriciatenorio.com.br e www.veragora.com.br/tesaoliterario.      

** Escritora, vinte livros publicados, sendo um em formato vídeopodcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

[1] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Tradução: Julia da Rosa Simões. Porto Alegre, RS: L&PM, (1776-1778 in) 2008, p. 68.     

[2] BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. Tradução: Paulo Neves. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, (1949 in) 2008, p. 22 – (Tópicos).    

40 mil visualizações | A baronesa | Patricia Gonçalves Tenório

Tudo começou em uma manhã de junho de 2019. Estávamos, eu e o escritor e professor gaúcho Amilcar Bettega, passeando pelo Recife Antigo, bairro da capital pernambucana, quando um vendedor de chapéus me chamou de baronesa.

Começou

De mansinho

Feito céu

De madrugada

As letras

Juntando-se

Ali

As palavras

Fazendo sentido

E toda a construção

De uma personagem

Bela

Inteligente

Rica

Atravessa

O tempo

O espaço

E materializa-se

Aqui

Na mão

Que escreve

(A Baronesa, Patricia Gonçalves Tenório, 08/06/2019, 05h07)

A novela, escrita sob o pseudônimo de Charles Allington, narra a história de Natália Shoemberg, cantora de ópera, acusada do assassinato do marido, o barão Viktor Shoemberg. O cenário é a Viena do final do século XIX, início do século XX, onde eram contemporâneos artistas como Gustav Klimt e Koloman Moser, os arquitetos Otto Wagner e Adolf Loos, os escritores Arthur Schnitzler e Hugo von Hofmannsthal, além de Gustav e Alma Mahler e o pai da Psicanálise, Sigmund Freud.

Em outubro de 2019, viajei para a Viena do século XXI para confirmar detalhes da novela. Em março de 2020, entramos na pandemia de Covid-19, e propus a Adriano Portela, Jaíne Cintra, Juliana Aragão e Mariana Guerra que realizássemos (cada um/a em suas residências) um vídeopodcast, com a gravação das vozes de Adriano (masculinas) e minha (femininas) e a edição de imagens da Viena do século XIX por Jaíne Cintra e a equipe das meninas super poderosas, transformando o texto em uma espécie de rádio novela, tornando-o acessível (texto e vídeopodcast), em forma de capítulos semanais, no site dos Estudos em Escrita Criativa.

E, para a nossa surpresa, descobrimos, em 15/06/2021, que o primeiro capítulo desse trabalho a tantas mãos (e que nos deu imenso prazer realizar, apesar da pandemia), foi agraciado com mais de 40 mil visualizações no YouTube.

A minha infinita gratidão a todas as pessoas que nos leram e escutaram, e, em especial, a essa equipe maravilhosa que me ajudou a transformar mais um sonho em realidade.

Apesar de todas as dificuldades, mais um sonho que se realizou.

Lançamento Coleção Quarentena | Patricia Gonçalves Tenório*

Se isolar

É um bom

Remédio

Para quem

Não sofre

Solidão:

Se conhece

Por inteiro

As qualidades

Os defeitos

Sem tirar

Os pés

Do chão

*

Para quem

Já conhece

A profunda

Solidão

Se isolar

É uma alegria

É encontrar

Todo dia

As várias

Faces

Do próprio

Ser

*

Mas é preciso

Se lembrar

De sair sempre

Devagarzinho

E encontrar

Gente amiga

Ao menos

Numa tela

De PC

(“Convite para não se sentir só”, Patricia Gonçalves Tenório, 11/12/2020, 08h28)

Setembro, Poemas de cárcere e Exílio ou Diário depois do fim do mundo fazem parte da Coleção Quarentena, uma trilogia de ficção, poemas e não ficção escrita durante os primeiros seis meses da pandemia de Covid-19 e que foi imprescindível para a autora expurgar os medos mais profundos, mas também enxergar a beleza que sempre brota nos períodos sombrios da humanidade.

É com infinita gratidão por todas as pessoas que me ajudaram a atravessar esse período e continuam me ajudando, em especial, meus filhos Vítor, Maria Eduarda e Bruno, e as amigas-poéticas Bernadete Bruto, Elba Lins e Raldianny Pereira, que ofereço a Coleção Quarentena, lançada virtualmente em 18/12/2020 – segue abaixo o link da gravação no Zoom.

Abraços cheios de Sonhos, Saúde & Luz,

Patricia Gonçalves Tenório.

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(Os arquivos abaixo já estão na versão final da gráfica.)

Coleção Quarentena:

Exílio ou Diário depois do fim do mundo

Poemas de cárcere

Setembro

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Lançamento Coleção Quarentena | 18/12/2020 | Gravação Zoom:

https://us02web.zoom.us/rec/share/GIVIfULR2SGtJWw2V_q23D1rPDJp_aSq-InQ_crD7RLxA-o0NuNfP5oUIZUyM-Av.TvbgRE72qaFWiUzq  

(Senha de acesso: f?ec7&9z)


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* Patricia Gonçalves Tenório é escritora, vinte livros publicados, sendo um deles, A baronesa (2020), em formato vídeopodcast. Recebeu prêmios no Brasil e no exterior por As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), Como se Ícaro falasse (2012), A menina do olho verde (2016) e pelo conjunto da obra em 2013. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS), ministra, desde 2016, cursos on-line e presenciais do grupo de Estudos em Escrita Criativa. Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

Estudos em Escrita Criativa 2021 | Os mundos de dentro

Estudos em Escrita Criativa On-line: Uma (ret)(p)rospectiva

Patricia Gonçalves Tenório

Dezembro, 2020

2020 foi um ano atípico com a pandemia de Covid-19. Inúmeras pessoas reclamaram da baixa produção, ou até mesmo da paralização em suas áreas de trabalho. Mas isso não aconteceu com aquelas que escrevem ficção, poesia, não ficção, ou que buscaram na escrita a sua válvula de escape. Isso não aconteceu com as pessoas participantes dos Estudos em Escrita Criativa On-line.

Nascido em 2016, o grupo de Estudos criou o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco (outubro, 2017); os cursos em formato de módulos sobre oito temas da Literatura (o tempo, o mito, a viagem, a música, o amor, o sonho, a imagem, o fogo) nas Livrarias Cultura de Recife e Porto Alegre; um curso de Extensão (2019.1) sobre a temática da viagem na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), que foi cartão de visitas para a primeira turma da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2).

Mas em 2020, batemos todos os recordes. Transformamos o curso de Extensão da Unicap em curso de oito módulos, gratuito e on-line, abordando escritores, poetas, teóricos de países, regiões e línguas do mundo inteiro (Língua Inglesa, Portugal, Brasil, Leste Europeu, Japão, Os russos, Os franceses, Os italianos).

E os resultados, mais uma vez, nos surpreenderam. Chegamos a 14.200 visualizações, 465 inscritos no canal de YouTube, 906 inscritos no curso, 1.525 seguidores no Instagram. Em meio à pandemia de Covid-19, o curso também alcançou o mundo com as pessoas participantes. Escritores e poetas das cidades do Porto e de Lisboa, em Portugal, e do Brasil inteiro (São Paulo, Paraná, Bahia, interior de Pernambuco, Alagoas, Goiás (DF), entre outros) foram provocados pelas vídeo aulas dos EECs On-line 2020, gerando um crescimento na qualidade da escrita, que encontramos desde o início do grupo em 2016.

Isso tudo nos deu ânimo para continuarmos o trabalho em 2021. De maneira on-line e gratuita, imaginamos um curso que abordasse a obra e as casas de alguns dos ficcionistas e poetas brasileiros mais significativos. E sem sairmos de casa. Em 2020, viajamos, mesmo que de forma virtual, por países do mundo inteiro. Em 2021, viajaremos para dentro de nós mesmos, nas quatro paredes de nossos lares, onde a nossa obra é gestada, acarinhada, até ser dada à luz ao público.

O curso será dividido em três momentos a cada módulo. Na primeira aula, abordaremos um livro do escritor estudado; na segunda aula, estudaremos uma teoria relacionada com o livro daquele escritor; na terceira aula, visitaremos a casa do escritor do mês, e faremos um bate-papo on-line e ao vivo com um escritor contemporâneo sobre a obra do escritor estudado, além de aplicarmos juntos um exercício de desbloqueio. Visitaremos Osman Lins (com Adriano Portela), Manuel Bandeira (com Altair Martins), Ferreira Gullar (com Antonio Aílton), Graciliano Ramos (com Lourival Holanda), Vinícius de Moraes (com Elba Lins), Jorge Amado (com Fred Linardi), Cora Coralina (com Moema Vilela), Hilda Hilst (com Fernando de Mendonça), Mário de Andrade (com Maria do Carmo Nino), Carlos Drummond de Andrade (com Bernadete Bruto), Guimarães Rosa (com Gustavo Czekster) e Mário Quintana (com Gisela Rodriguez).

As pessoas participantes terão direito a certificado de participação por módulo ou total do curso mediante apresentação do exercício de desbloqueio, que, nesta nova versão, poderá ser realizado em outros formatos além do escrito (vídeos, fotografias, pinturas, podcasts).

Com vocês, Estudos em Escrita Criativa On-line 2021: Os mundos de dentro!


Estudos em Escrita Criativa – Março, 2019

Nos Estudos de 16 de Março de 2019, mergulhamos nas águas de Sophia de Mello Breyner Andresen, nas profundidades de Fernando Pessoa, no fado do Madredeus, nos azuleijos, culinária, literatura, poesia portugueses. Visitamos a cidade do Porto, Sintra, Lisboa, e colhemos jardins de poemas, pérolas-frases de reflexão metafísica, e técnicas de Escrita Criativa extraídas dos livros estudados.

Recebemos os tão caríssimos escritores de Recife (Robson Teles) e de Porto Alegre (Moema Vilela) e os seus processos criativos.

Fomos agraciados, mais uma vez, com textos de altíssima qualidade literária dos participantes e que oferecemos a vocês que acompanham os nossos Estudos em Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico, na Universidade Católica de Pernambuco, a Unicap.

E no próximo sábado, 06 de Abril de 2019, teremos mais um encontro que, tenho certeza, será maravilhoso. Iremos viajar pelo Brasil, com Clarice Lispector, Adélia Prado, Cida Pedrosa (PE) e Luiz Antonio de Assis Brasil (RS) – com o lançamento do seu Escrever ficção, o grande manual de Escrita Criativa no país.

Excelentes leitura e início de semana,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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PARA UMA MARIA EM MARÇO

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

“Fiz de mim o que não pude e o que poderia fazê-lo, não o fiz”… A frase perseguia aquela jovem. Achava bonita e ao mesmo tempo dolorida, soando lá no fundo, como um aviso.   Lembro bem a primeira vez que entrou em contato com o poema. Poema que nunca mais a deixou… A frase pronunciada para si em cada fase da vida, como se alguém lhe sussurrasse perto do ouvido instigando a viver. “Fiz de mim o que não pude e o que poderia fazê-lo não o fiz.”…

Hoje, sentadas na beira do mar, observo a senhora trabalhando em seu quadro. O jogo de tintas à disposição, a escolha das cores. As pinceladas vigorosas pintam toda uma história capturada, cheia de cores! Repleta de nuances como este mar. Mar que contemplo, sentindo no ar respirado uma existência inteira. O quebrar das ondas me transporta para longe, num passeio a milhares de eras. Passeio por vários lugares chegando sucessivamente em todos os portos desses mares já navegados.

Volto à praia. Olho para ela, a pintora de vida, ali, inteira, imersa em seu trabalho, enquanto o som do mar nos acompanha. No quadro de cores fortes e vibrantes, a prova concreta do quanto já realizou nesta existência. Fecho o livro de poemas aconchegado ao colo e sorrio. Justamente no mês dedicado à mulher desvendo uma delas – entre tantas – que fez tudo o que poderia fazer na vida e está feliz! Que assim seja para todas um dia.

 

DE SOPHIA, DE PESSOA E DE MIM

ELBA LINS

Contato: elbalins@gmail.com

 

Quem sou eu?

Nada!

 

Nada do que me dizem

Nada do que sinto

Pode me definir

Sou luz

Sou cor

Sou mar bravio

Sol forte

Que me levanta da cama

A cada dia

Sou nada

Sou apenas sonho

Que por vezes me queda

Na janela perdida do meu quarto

Quando penso nas viagens todas

Que podia fazer

Mas que se perdem

Na minha impossibilidade…

De levantar da cama e agir

Que se perdem no meu medo

De fluir

 

Quem sou eu?

 

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo.(*)

 

Eu sou inclusive

Sonhos de mar

De azul

De navegar

Em ondas bravias

E me agarrar

Nas crinas brancas das ondas

E me deixar levar

Ao desconhecido em mim.

 

(* F. Pessoa – Álvaro de Campos em Tabacaria)

 

 

O MAR DE POETAS

– QUINZE MINUTOS –

João Alderney

Contato: joaoalderney@hotmail.com

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, a poeta portuguesa que conheci hoje nas palavras e na admiração de Patricia Gonçalves Tenório, deixou-me ansioso, ainda hoje quero conhecer um pouco mais, pesquisar a vida dela, ler a poesia que tanto entusiasma minha mestra de literatura. Quero ver, especialmente, como a lusitana consegue falar, em todos os poemas que cria, desse componente da natureza que todos amamos, o mar.

Quero ver se traz passagens poéticas como aquela do conto do literato uruguaio Eduardo Galeano, descrevendo o garoto Diego que morava do lado da montanha oposto ao oceano, mas o pai, pobre e atarefado, não podia atender ao pedido dele, para levá-lo a conhecer essa maravilha do planeta. Nada como um dia atrás do outro, até que chega o momento que Santiago lhe diz: Amanhã cedo te levo pra ver o mar, filho. Depois de muita caminhada, surge a imensidão azul de água à frente dos olhos do menino. Tal foi o deslumbramento, tal foi o fulgor sentido que o pequeno ser ficou mudo, da beleza. E quando finalmente conseguiu falar, trêmulo, gaguejando, pediu: “Pai, me ajuda a olhar!”

Cantador de viola, o cearense José Pretinho após apanhar feio do também poeta popular, o piauiense Manoel Vieira Machado, em décimas, no esquema de rimas abbaaccddc, do martelo agalopado, versos decassílabos, onde os pés, ou tônicas, caem nas sílabas métricas 3, 6 e 10 (exemplo: o meu barco trilhava mar sereno), voltou para Fortaleza e sentou-se, ainda pesaroso, para contemplar a Praia de Iracema, observou o movimento das ondas do mar, comparou o marulho ao som dos cavalos em galope e, para obter o que melhor os traduzia, valeu-se dos versos hendecassílabos no ritmo 2, 5, 8 e 11 (exemplo: amei tua voz, Clara Nunes, princesa) para criar o galope à beira-mar, excelência de canto, igualmente em décimas e mesmo esquema rímico. Esses repentes dos cantadores têm, ainda, “cantando galope na beira do mar”, como último verso, condição que permite parcas exceções, não inclusa a palavra mar, imprescindível. Criado o novo cântico, desafiou o algoz piauiense e devolveu a pisa, em dobro.

Agora me pergunto, quem amaria mais o mar? A poeta do Porto ou o menestrel nordestino? Acredito que esse jogo vai dar 1×1. Empate na cabeça!

 

O MAR

Maria Eduarda Fernandes

Contato: mefernandesdemelo@gmail.com

 

Da primeira vez que (lembro) botei os pés no mar, fui queimada por uma água-viva. Me recordo tão pouco daquele dia, naquela praia distante que não sei o nome, com um pai que não vejo há anos e uma irmã que, disseram, se formou em Direito mês passado.

Daquela água-viva, lembro bem. Era rosa e roxa, parecia um brinquedo, e por isso quis levá-la comigo. A dor foi imediata e o choro também. Naquela época, uma vida inteira atrás, meu pai corria quando eu gritava, com a preocupação de quem nunca iria embora. Por horas tentaram me acalmar, mas eu sabia que a dor nunca ia passar e pedia, do alto dos meus oito anos e com absoluta certeza já sabendo o que era melhor pra mim, que cortassem meu braço fora.

Mas a dor passou e deixou apenas a bolha da queimadura, marca que por semanas exibi com orgulho, atrelada à incrível história da menina que, sozinha, lutou contra o bicho esquisito da praia sem derramar uma lágrima.

Por anos, tive medo do mar e, quando finalmente o visitei novamente, não estava sozinha e a água salgada não foi a única coisa estranha que senti no meu corpo. Levei anos para me recuperar do que aconteceu, do que começou ali e terminou anos depois no quarto de hóspedes daquela casa de praia. Mas hoje, com ele longe e parte das pessoas que me viram crescer me acusando de arruinar a reputação de um bom homem, decidi fazer as pazes com o mar.

Cautelosamente, finquei os pés na areia com a certeza de que não sabia o que estava fazendo e fui hipnotizada pelas ondas quebrando, chegando sem pedir licença, fazendo um estardalhaço e agonizando, para enfim morrerem nas minhas pernas. Já eu fiz o caminho inverso: por tanto tempo morri, agonizei e agonizo, mas levantei e fiz barulho, passei derrubando quem estivesse na minha frente e quisesse me impedir de virar oceano.

Olhei de novo o mar, como se buscando coragem para me molhar. Mas lembrei que ondas não precisam provar nada para ninguém. E para mim, já me provei há muito tempo.

Virei as costas e fui embora. Sempre preferi piscina, mesmo.

 

1 É 2 3 É 5

Osmar Barbalho

Contato: osmarbarbalho@gmail.com

 

Todo dia. Seja por volta das 10 horas ou no final da tarde lá pelas 4 horas. Ele fica no início da ponte ou no final. Tanto faz. 1 é 2 3 é 5! Ele não para de repetir. Quando vem um grupo ele dispara: 1 é 2 3 é 5! De início você não entende o que significa 1 é 2 3 é 5!. Mas ele não para. 1 é 2 3 é 5. A medida que ele diz 1 é 2 3 é 5, seus olhos procuram outros olhos desatentos. Quando seu olhar encontra o olhar de alguém, aí ele diz enfático: 1 É 2 3 É 5! E num gesto, ele oferece o produto: um Cola Rato. 1 Cola Rato é 2 reais, 3 Colas Rato são 5 reais. Tem gente que compra. Mesmo vendendo ele não para. 1 é 2 3 é 5! Sempre em busca de um olhar. Sempre em busca de uma venda. Ele tá lá todos os dias. No início ou no final da Ponte da Boa Vista. 1é 2 3 é 5! Repete, repete, repete!

 

PARA SOPHIA

Raldianny Pereira

Contato: raldianny.pereira@gmail.com

 

Você me foi apresentada em outubro de 2016 quando assimilava uma grande e recente perda: a finitude da vida do meu amor. A encontrei tardiamente, considero. Mas antes tarde do que mais tarde. Tratava-se de um encontro científico, e não nego minha surpresa por você estar ali, num ambiente tão pouco afeito aos sentimentos e à poesia. Não nego também minha imensa felicidade por nosso encontro.

Quis logo saber quem era que tão profundamente conhecia minha alma. Era “poeta do outro lado do mar” e já não mais na mesma dimensão da minha existência. Fiquei triste. Não poderia alimentar o sonho de falar-lhe, abraçar-lhe, ter meus olhos nos teus. “Mas reconheço a sua voz há muitos anos. E digo ao silêncio o seus versos devagar”, de olhos fechados, desde então:

Escuto mas não sei

Se o que ouço é silêncio

Ou deus

 

Escuto sem saber se estou ouvindo

O ressoar das planícies do vazio

Ou a consciência atenta

Que nos confins do universo

Me decifra e fita

 

Apenas sei que caminho como quem

É olhado amado e conhecido

E por isso em cada gesto ponho

Solenidade e risco

(“Escuto”, Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

 

Talita Bruto

Contato: talitabruto@gmail.com

 

Assim. Calados pensamentos.

Passando, sussurrando no toque.

Quanto tempo.

Correu. Em fim.

Olhos sob o verde olhar.

O azul

e branco

do céu

não se assustam pelo toque.

Luzia, luzia admirada.

Caindo sede aguada.

A face que roda

(redemoinho)

a fechadura.

E pisca atenção

ao que achou e viu, encantou.

E foi. Embora…já esteja

instante

onde sempre

fluiu

de dentro

o azul

e branco

do céu

norteando…

firmando…

se diziam isso,

ela quem ouvia.

 

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Sala de imprensa:

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Próximos encontros:

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Índex* – Fevereiro, 2019

Sobreviver

Passar pelo umbral

Das coisas

Dos acontecimentos

E não me sentir

 

Viver

O instante como se fosse

O último

O filho como se nascesse

Agora

O dia como se morresse

Em um segundo

 

Amar

Mesmo que não receba

Ainda que não se acabe

Apesar da vida inteira

E ao outro não poder

Tocar

(“Ainda”, Patricia Gonçalves Tenório, 02/02/2019, 05h11)

 

O ainda sem fim do processo criativo no Índex de Fevereiro, 2019 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Fevereiro, 2019 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Diversos.

Margaridas descalças | Alcides Buss (PR – Brasil).

Dois textos de Cilene Santos (PE – Brasil).

Fogo, terra, água e ar | Mara Narciso (MG – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 31 de Março, 2019, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* Februrary, 2019

Survive

Go through the threshold

Of things

Of the events

And I do not feel

Lonely

 

Live

The instant as it were

The last

The son as if born

Now

The day as if it died

In a second

 

Love

Even if you do not receive

Even if it does not end

Despite a whole life

And the other can not

Touch

(“Still”, Patricia Gonçalves Tenório, 02/02/2019, 05:11)

 

The endless still of creative process in the Index of February, 2019 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – February, 2019 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Several.

Barefoot Daisies | Alcides Buss (PR – Brasil).

Two texts by Cilene Santos (PE – Brasil).

Fire, earth, water and air | Mara Narciso (MG – Brasil).

Thank you for the attention and the affection, the next post will be on March 31, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Flanando por Londres, a língua inglesa e a Escrita Criativa… Flanking in London, the English language and Creative Writing…  

Estudos em Escrita Criativa 2019 | Boas vindas!

Sejam bem-vindos(as) aos Estudos em Escrita Criativa 2019!

O grupo de Estudos nasceu em 2016, e vem se ampliando a cada ano no sentido de, a partir de teóricos de várias áreas de conhecimento (Literatura, Filosofia, Psicanálise, Semiótica…), e artistas de várias artes (Literatura, Poesia, Cinema, Fotografia, Teatro, Música…), alicerçarmos e provocarmos a nossa escrita para que ela floresça cada vez mais e melhor. Em 2018, tivemos encontros na Livraria Cultura do Recife e de Porto Alegre (cidade onde eu estava realizando até outubro de 2018 o doutorado em Escrita Criativa na PUCRS), e abordamos 8 temas, O tempo, O mito, A viagem, A música, O amor, O sonho, A imagem, O fogo. Na primeira parte do encontro, eu trazia teóricos, ficcionistas, poetas, artistas plásticos, cineastas para conversarmos sobre o tema do mês. Na segunda parte, fazíamos exercícios de desbloqueio relacionados com o tema. Na terceira parte, convidamos escritores locais para falarem sobre seus processos criativos.

Em 2019, trabalharemos a temática da viagem, com teóricos tais como Michel Onfray, Wladimir Krysinsk, Marcel Brion, Octavio Ianni, e ficcionistas/poetas selecionados por país/região/língua, tais como Margaret Atwood, Aldous Huxley, Emily Dickinson, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Adélia Prado, e muitos mais. Teremos novamente a primeira parte teórica; na segunda parte, escritores convidados de Recife e Porto Alegre falarão do tema do mês e/ou de seus processos criativos; na terceira parte, aplicaremos juntos, eu e os escritores convidados de cada encontro, exercícios de desbloqueio com os participantes.

As inscrições dessa vez serão realizadas diretamente no site da Unicap (http://www.unicap.br/universidade/pages/?p=1952), com número limitado de vagas, e certificado de participação. Informações: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com

Espero encontrá-lo(a) nos nossos encontros, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

www.patriciatenorio.com.br

 

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Cartaz A3 e Banner_PAlegre

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Diário de Pernambuco, coluna Opinião, 23/01/2019

 

 

Índex* – Dezembro, 2018

O Menino

Continua

Crescendo, fortificando

 

Até o umbral

De um novo ano

Até os primeiros raios

Do dia

Em que

Nos levantamos

Nos renovamos

 

E transformamos

Ao redor em

Paz

Luz

Amor e

Poesia

(“Em mim, nasce o poema”, Patricia Gonçalves Tenório, 25/12/2018, 06h05)

 

O umbral do novo ano se aproxima no Índex de Dezembro, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – 2019 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

O Natal de Bernadete Bruto (PE – Brasil) e Cilene Santos (PE – Brasil).

Facas na literatura | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

O fogo de Ina Melo (PE – Brasil).

Do fim | Geysiane Andrade (RS – Brasil).

Poemas de Márcia Maia (PE – Brasil).

Essa tal felicidade | Natália Setúbal (RS – Brasil).

E o desejo de um 2019 de muitos Sonhos realizados, Paz, Saúde, Luz, Amor & Alegria, a próxima postagem será em 27 de Janeiro, 2019, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – December, 2018

The Boy

Continues

Growing, fortifying

 

Until the threshold

Of a new year

Until the first rays

Of the day

On what

We get up

We renew

 

And we transformed

Around in

Peace

Light

Love and

Poetry

(“In me, the poem is born”, Patricia Gonçalves Tenório, 12/25/2018, 06:05 a.m.)

 

The threshold of the new year is approaching in the Index of December, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – 2019 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

The Christmas of Bernadete Bruto (PE – Brasil) and Cilene Santos (PE – Brasil).

Knives in literature | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

The fire of Ina Melo (PE – Brasil).

From the end | Geysiane Andrade (RS – Brasil).

Poems by Márcia Maia (PE – Brasil).

Such happiness | Natália Setúbal (RS – Brasil).

And the wish for a 2019 of many Dreams realized, Peace, Health, Light, Love & Joy, the next post will be on January 27, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Sonhos a se realizarem no Ano Novo que se aproxima. Dreams to be fulfilled in the approaching New Year.