Posts com Psicologia

Índex* – Abril, 2017

Perdi

A capacidade de dizer

Bom dia

Senti

A necessidade de dizer

Te amo

Mas as palavras 

Não estavam lá

Não estão aqui

Dentro do meu

Peito

Soltas na minha

Língua

Para saírem

Quando quiserem

Quando puderem

Fazer um mundo

Mais colorido

Trazer o sonho

Para o dia-a-dia

E amanhecer em mim 

Um gosto bom

De infância

(“O fim das lentes cor-de-rosa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 23/04/17, 05h02)

 

A capacidade de transmutar Vida em Poesia no Índex de Abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Pequeno conto circense (e prefigural) | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Sobre “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

Un Poema de Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Agradeço o carinho e participação, a próxima postagem será em 28 de Maio de 2017, um abraço bem grande e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – April, 2017

I’ve lost

The ability to say

Good Morning

I felt

The need to say

I love you

But the words

They were not there

They were not here

Inside my

Chest

Loose in my

Tongue

To get out

When they want

When they can

Make a world

More colorful

Bring the dream

To the day by day

And dawn on me

A good taste of

Childhood

(“The end of the pink lenses”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/23/17, 05h02)

 

The ability to transmute Life in Poetry in the Index of April, 2017 in Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Little circus (and prefigural) tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

About “There is no tomorrow”, from Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

About “The Book of Puppies”, from Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

A Poem by Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing – April, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Thank you for the affection and participation, the next post will be on May 28, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Transmutando Vida em Poesia no Jardim do Baobá, em Recife, PE – Brasil. Transmuting Life in Poetry in the Garden of Baobab, in Recife, PE – Brasil.

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster | Patricia (Gonçalves) Tenório

27/04/2017 12h49

 

Esta é a terceira vez que narro a paralisia que me invade quando tento ler um livro bom. Aconteceu com O mar, de John Banville. Com os livros do escritor e professor universitário paulista-pernambucano, residente em Aracajú, SE, Fernando de Mendonça (1984), Detalhe em H[1] e 23 de Novembro.[2] Sei que é um livro bom – já fui impactada anteriormente por suas faíscas –, mas insisto em permanecer paralisada, bloqueada, feito em um espelho de cristal.

Feito em um espelho de águas. Narciso paralisa diante de sua própria imagem. Eu cristalizo diante de Não há amanhã,[3] do escritor gaúcho Gustavo Melo Czekester (1976). Paralisei em 2016 com O homem despedaçado,[4] seu primeiro livro de contos, a ponto de nada conseguir falar, nenhuma palavra balbuciar após a leitura impactante.

Após a leitura inquietante que faço hoje do segundo livro de contos (são 30) de Czekster. Começo com “Não morto, apenas dormindo” e sinto a falta de palavras que prefigurei me preencher novamente, assim como aconteceu em “Um mundo de moscas” do primeiro livro.

“Então, eis o que era morrer – ficar o tempo todo sonhando com mortes, uma atrás da outra, sem receber ligações, esquecido. Através da janela, viu moscas infestando o pátio e, ao olhar o seu braço, gritou ao vê-lo se desfazendo em um mosaico raivoso de zumbidos, voltando a si quando bateu com a cabeça na janela, meu Deus, tinha dormido acordado!” (CZEKSTER, 2017, p. 14)

O braço se desfazendo “em um mosaico raivoso de zumbidos”, feito as moscas que criaram os seres humanos – afirmava Anton Lopez para mim em 2016.

“Anton Lopez expandiu a sabedoria de Montanelli e disse que os homens não só eram delírios como também foram criados pelas moscas. Isso explicaria o fato delas ajuntarem-se sobre cadáveres, dos quais retirariam pedaços microscópicos para construir outra pessoa.” (CZEKSTER, 2011, p. 19)

Eis o inquietante que encontramos em Czekster, Mendonça, Banville… Amabile.[5] “O inquietante”[6] de Sigmund Freud (1856-1939) amplamente analisado no texto de mesmo nome de 1919. O unheimilich  que transita entre o familiar e o desconhecido, entre a palavra e o silêncio, entre a vida e a morte. Freud analisa o termo desde a sua etmologia em várias línguas – inclusive na versão brasileira traduzida do inglês da Standart Edition aparece como “O estranho” –, quanto em um texto do escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822), mais conhecido por E. T. A. Hoffmann, “O homem de areia” (1816).

Em “O homem de areia”, Hoffmann narra a história de Natanael, que é assombrado, desde a infância, com a suposta existência de um homem de areia que arranca os olhos das crianças e dá para alimentar seus filhotes, feito fosse uma espécie de abutre, ou coruja. Em “O inquietante”, Freud alerta para o complexo de castração no personagem principal, Natanael, ao mesmo tempo que me faz lembrar de outro texto seu chamado “Os arruinados pelo êxito”,[7] que aparentemente pertence ao mesmo volume (XIV) das obras completas do pai da psicanálise, no qual analisa a histeria a partir do sucesso, e não do fracasso – como normalmente acontece –, investigando as peças teatrais “Macbeth”, de William Shakespeare (1564-1616), e “Rosmersholm”, de Henrik Ibsen (1828-1906).

Podemos encontrar este “inquietante” em textos de Franz Kafka, Thomas Mann, Friedrich Dürrenmatt, mas também dos mais próximos – mais próximos no duplo sentido do tempo e do espaço – Fernando de Mendonça, Luís Roberto Amabile, Alexandra Lopes da Cunha[7]… e também nos contos do escritor e advogado gaúcho Gustavo Melo Czekster.

 

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(1) MENDONÇA, Fernando de. Um Detalhe em H. Recife: Grupo Paés, 2012. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4809

(2) MENDONÇA, Fernando de. 23 de Novembro. Recife: Grupo Paés, 2014. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=5923

(3) CZEKSTER, Gustavo Melo. Não há amanhã. Porto Alegre: Zouk, 2017.

(4) CZEKSTER, Gustavo Melo. O homem despedaçado. Porto Alegre: Dublinense, 2011. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6683

(5) Vide em outro post do mês de abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7359

(6)  FREUD, S. “O inquietante”, in: Obras completas vol. XIV, São Paulo: Cia das Letras, 2010, p. 328-373, [FREUD, S. “Das UNHEIMLICHE”, in: FREUD, S. Der Moses des Michelangelo, Frankfurt a. M.: Fischer, 1992(1996), p. 135-172].

(7)  FREUD, S. “A história do movimento psicanalítico”. Volume XIV. Comentários e notas: James Strachey. Tradução sob Direção-Geral e Revisão Técnica: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

(8) Vide: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6963

Índex* – Dezembro, 2016

No silêncio da cópia oculta

Agradeço

A cada um

A cada uma

Por tanto que

Me ajudaram

Na construção

Pedrinha por pedrinha

Desse ano de

2016

Ano difícil para

Todos nós

Mas que

Na certeza de que o

Dar-se as mãos

É a única saída

Espero que

Estejamos mais uma vez

Juntos

Em 2017

E em muitos outros

Que hão de vir

(“Construção”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 13/12/16, 05h57)

Na Construção de um Mundo Novo que há de vir, esperamos no Índex de Dezembro, 2016, no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Rinascimento | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Carta de Oleg Almeida (Bielo-Rússia / DF – Brasil).

Poems from Alan Britt (EUA).

“De paisagens e de outras tardes” | Ana Adelaide Peixoto (PB – Brasil).

“Condutor de tempestades” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Anjos de Teatro (PE – Brasil).

Agradeço a participação e o carinho, a próxima postagem será em 29 de Janeiro, 2017, um grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – December, 2016

In the silence of the hidden copy

I thank you

Each man

Each woman

For everything

You helped me

In the construction

Little stone by little stone

Of that year

2016

Difficult year for

All of us

But what

In the certainty that the

Holding hands

It’s the only way out

I hope

That we’ll be one more time

Together

In 2017

And in many others

Who are to come

(“Construction“, Patricia (Gonçalves) Tenório, 12/13/16, 05:57)

 

In Construction of a New World to come, we look forward to the Index of December, 2016, in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Rinascimento | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Letter from Oleg Almeida (Belarus-Russia / DF – Brasil).

Poems from Alan Britt (USA).

“Of landscapes and other afternoons” | Ana Adelaide Peixoto (PB – Brasil).

“Storm driver” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB / PE – Brasil) & Theater Angels (PE – Brasil).

Thanks for the participation and the kindness, the next post will be on January 29, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Construindo Mundos Novos, Recife, PE – Brasil, 2016. Constructing New Worlds, Recife, PE – Brasil, 2016.

Rinascimento* | Patricia (Gonçalves) Tenório**

09/10/2010 & 20/12/2016

Sempre me faço perguntas de vida e morte às vésperas do Ano Novo.

“Nada há de gratuito exceto a morte”. (Freud, extraído de O prazer do texto, Roland Barthes)

Varro os fatos de outros tempos, as fotos do aqui e agora e não posso supor, não posso imaginar o que me aguarda, o que me surpreenderá.

“O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias, pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Aguardo uma outra estrada, um país diverso onde possa espalhar sementes de alegria e colher ramalhetes de amizades…

 

 Mãe Natureza – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

 Mãe natureza

Patricia Tenório

(Extraído de D´Agostinho, 2010)

Gosto do cheiro

De terra molhada

Da única escolha –

Ficar lendo livros

Ouvindo a chuva cair

Forte

Grossa

Violenta

Deixo-me banhar

Pelas lágrimas

Que clamam

– Patricia, Patricia! Por que me abandonastes?

 

Lendo Mãe natureza

Stella Leonardos

Setembro/2010

 

À Patricia Tenório

 

Sinto esse cheiro

De ideia molhada

Viver sortilégio

Ficar lendo livros

Ouvindo irmã água

Leve

Fértil

Fraterna.

Entendo essa chuva

Riso e lágrima.

Segreda

– Patricia! Patricia do coração poeta!

        Procuro descobrir nos acontecimentos o sentido perdido nos textos, nas pessoas, na vida.

“Quando o trabalho que você faz tem vinculação com seu percentual de humanidade, você se conecta ao outro”. (Ismael Caldas, artista plástico em “Das sutilezas e fraquezas humanas”, Viver, Diário de Pernambuco, 08 de Setembro de 2010)

“O que ao leigo pode parecer uma obra-prima nunca chega a representar para o criador uma obra de arte completa, mas, apenas, a concretização insatisfatória daquilo que tencionava realizar; ele possui uma tênue visão da perfeição, que tenta sempre reproduzir sem nunca conseguir satisfazer-se.” (Sigmund Freud em “Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”)

Tento seguir o que em mim pulsa, o que em mim se parece com a Verdade e a sinto eclodir por todas as minhas células.

“A filosofia natural apaziguará os conflitos e as dissensões de opinião que atormentam, dilaceram e devastam a alma sem trégua. Mas ela os apaziguará, ordenando-nos não esquecer que a natureza nasce da guerra e que ela é, por tal razão, chamada por Homero de luta.” (“Oratio de dignitate hominis”, Giovanni Pico della Mirandola)

“A diferença não é aquilo que mascara ou edulcora o conflito: ela se conquista sobre o conflito, ela está para além e ao lado dele”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

Tomo do lápis e papel e derramo todo o meu Ser Humana em palavras e contradições, na esperança que a Arte se faça, me salve. Exprima.

“… o texto: ele produz em mim o melhor prazer se consegue fazer-se ouvir indiretamente…” (O prazer do texto, Roland Barthes)

“… estamos sempre demasiadamente prontos a esquecer que, de fato, o que influi em nossa vida é sempre o acaso, desde nossa gênese a partir do encontro de um espermatozóide com um óvulo – acaso que, no entanto, participa das leis e necessidades da natureza, faltando-lhe apenas qualquer ligação com nossos desejos e ilusões.” (“Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”, Sigmund Freud)

Renasço a cada instante meu, a cada sorriso dado, a cada momento de partilha, experimentado, sem medos e vaidades, o que em mim possuo apesar de todos os detalhes…

Rinascimento*, Patricia Tenório

Filmado em Câmera Cannon 7D. Editado em Final Cut Program.

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* Apresentado na X Setimana della Lingua Italiana nel Mondo – “L´Italiano nostro e degli altri”, 18 a 24 Outubro 2010 – Dante Alighieri – Recife – PE – Brasil.

**  Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (Ars Longa, Romênia, 2013), Vinte e um/Veintiuno  (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE,O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 25/12/16 | Com Bernadete Bruto, Elba Lins & Anjos de Teatro

Patricia (Gonçalves) Tenório

22/12/2016

 

O desejo de viagem tem sua confusa origem nessa água lustral. Tépida, ele se alimenta estranhamente dessa superfície metafísica e dessa ontologia germinativa. Ninguém se torna nômade impenitente a não ser instruído, na carne, pelas horas do ventre materno, arredondado como um globo, um mapa-múndi. O resto é um pergaminho já escrito. (ONFRAY, 2009, p. 9)

 

Tudo começou em Agosto, 2016. Um encontro em uma Dança Circular. Três amigas que se propõem a estudar juntas, a navegar juntas pelo mundo das palavras, a viver juntas a Poesia e a Teoria de maneira inexorável e inseparável…

Incompreensível, irracional, mas sólido…

Foram essas palavras que me assombraram a madrugada de ontem para hoje, dia que me propus escrever sobre a experiência de 5 meses, 10 encontros e dezenas de textos críticos, poéticos, ficcionais que brotaram de Bernadete Bruto e Elba Lins no Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

Por que me proponho a compartilhar nossa experiência, quando já existem tantas Oficinas Literárias, cursos de Escrita Criativa, acadêmicos ou não, pelo país, pelo mundo afora?

Lembrei esses dias da experiência com a adaptação de As joaninhas não mentem para o Teatro em 2011. O diretor Jorge Féo nos ensinou algo muito forte e presente até hoje nos meus estudos, na minha vida: aquele grupo, composto por aqueles atores, com aquela adaptação, era único. Foram 6 meses lapidando o texto, a vivência de cada personagem – não era interpretação nem representação – para germinar em 50 minutos de espetáculo.

Algo semelhante aconteceu com o GEEC. Nos servindo de teóricos tais como Christopher Vogler, Joseph Campbell, Carl Gustav Jung, Cecília Almeida Salles, Roland Barthes, Umberto Eco, até chegarmos aos teóricos do deslocamento, entre outros o autor da epígrafe Michel Onfray, e músicas, e pinturas, fotos, filmes, filmes e filmes, fomos nos alimentando e nos provocando a ponto de gerarmos inúmeros textos, dos quais selecionei do mês de Dezembro alguns a seguir. Textos que, como afirma Michel Onfray no seu Teoria da viagem, nos requisitam: “Não escolhemos os lugares de predileção, somos requisitados por eles” (ONFRAY, 2009, p. 20).

Certa vez, um repórter auspicioso perguntou a Ariano Suassuna se o que ele escrevia já estava na cultura popular, o que ele fazia afinal? Ariano respondeu brilhantemente:

– Você quer saber o que eu fiz, se tudo já estava aí, não é, rapaz?

O repórter mudo.

– Eu escrevi!

Então, tentando responder à pergunta que eu mesma fiz acima: “Por que me proponho a compartilhar nossa experiência, quando já existem tantas Oficinas Literárias, cursos de Escrita Criativa, acadêmicos ou não, pelo país, pelo mundo afora?”, e parodiando o saudoso Mestre Ariano Suassuna:

– Eu vivi!

 

Referências:

ONFRAY, Michel. Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

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(“O violeiro”, Almeida Júnior, 1899, óleo sobre tela, 141 x 172 cm) 

 

A viola fala Alto

 

            Toda vez que se senta na janela e toca sua viola, algo me chama e largo tudo que estou fazendo,  encosto na sua janela para cantar. Canto com todo o coração:

É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um remédio pros meus desenganos
É que a viola fala alto no meu peito, humano
E toda mágoa é um mistério fora deste plano
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pruma visitinha
Que no verso ou no reverso da vida inteirinha
Há de encontrar-me num cateretê(*)

Não sei o que se passa com aquele casal… Ele sintonizado com sua viola e ela seguindo a canção. Vejo que são UM na música. Dois artistas fora do palco, na mais pura expressão da arte, na vida cotidiana, em pleno interior de uma cidade qualquer. A viola é quem fala. Fala alto em qualquer peito humano quando seus acordes tocam no coração de cada um de nós. Eu mesma reconheço essa canção!

 

Recife, 4 de Dezembro de 2016

 

(*) Vide vida marvada de Rolando Boldrin

https://www.youtube.com/watch?v=9lw5EXnqOYc

 

(Câmara e edição: Bernadete Bruto)

HÁ SEMPRE UMA LUZ NO FINAL DO TÚNEL

Vós não sabeis de que espírito sois! O Filho do Homem não veio para perder, mas para salvar as almas” (Lucas 9:54).

Embora estejamos neste quadrado, embora tudo indique que não resta saída, somente a fé faz com que a vida seja amena. Ela perdeu seu ideal de família. Ele se perdeu da família. Ambos caminham aprisionados na alma. Ele e ela no fundo maldizem seu destino… São Tiago vela pelos peregrinos. Há uma rota que conduz a um túnel. É o túnel de fuga! Que maravilha!

Um túnel que lembra aquelas histórias de lugares mágicos! Um portal de luz! Por este túnel muitos escaparam. Por este mesmo túnel também passou em direção à morte Frei Caneca. Talvez ele e ela não tenham respostas mágicas. São Tiago, aquele do campo da estrela, foi até martirizado… A grade está fechada com um cadeado! Ele sabe bem o que é isso de estar preso… Ela sabe bem o que é ter um coração fechado. Deu de cara com sua chance de oferecer o perdão e virou-lhe as costas…

Mas há uma luz no final do túnel.  É preciso ter fé em meio à escuridão da alma. São Tiago aceitou o desafio e pregou o evangelho até o fim. Ainda hoje é patrono da Espanha e tem um caminho de peregrinação desde o tempo medieval que é feito pela pura fé.

Por aqui, na atualidade, Maria passa na frente e vai abrindo estradas e caminhos, abrindo portas e portões, abrindo casas e corações. (*) Ele está aprendendo a ter fé e ela precisa chegar no final do túnel e abrir a porta do perdão para ser realmente livre. Mesmo assim, ela envia uma mensagem para aquele menino de olhar vazio encoberto pela muralha. Uma linda mensagem, que tanto amparou outra alma que por 27 anos passou aprisionada. Um poema de William Henley que diz: EU SOU O DONO E SENHOR DE MEU DESTINO. EU SOU O COMANDANTE DA MINHA ALMA!(**) E um pequeno filme para acalentar o sonho de libertação.

Ela é mais velha e sabe seu dever de resgatar almas, mesmo que a sua ainda esteja evoluindo no  tempo e espaço. Ela tem fé que um dia a porta se abra e uma vida completa chegue para ambos. Pois sempre há uma luz no final do túnel e o segredo é tão simples há séculos: Fé e Esperança!

Recife, 15 de novembro de 2016.

 

(*) oração MARIA PASSA NA FRENTE

(**) Poema de William Henley

 

(Câmera e edição: Bernadete Bruto)

PASSAEANDO PELO POÇO DA PANELA

Num recanto bucólico e sombrio

Onde atenua a marcha o grande rio

À sombra de recurvas ingazeiras

Batem roupas, calejadas, lavadeiras

Trago ainda nos olhos: é bem ela.

            A passagem do Poço da Panela (…)

(Trecho da poesia  Poço da Panela de Olegário Mariano)

 

Neste domingo, assim como meus pés, meus olhos passeiam por esta parte da cidade. Entram no antigo arrabalde conservando resquícios de séculos passados, chamado de Poço da Panela. O seu nome se deve ao fato de lá ter sido construído um poço de agua potável em formato de panela.

Procuro o que resta do passado nesta rua que me dirijo a pé e o caminho chega até uma Igreja. Li que esta Igreja também foi erigida por Capitão Henrique Martins, que interessante! Aquele senhor devia ser um homem muito importante. Como era imenso o espaço para tão poucas pessoas! Hoje ao menos, este é dividido com mais gente. Caminho pelo mesmo espaço que Capitão Henrique já caminhou. Aquele senhor  que também construiu a Capela da Jaqueira. Caminho em direção  desta igreja chamada N.S. da Saúde. A Igreja foi construída em agradecimento pela melhora de sua esposa que se encontrava doente, dona Ana Clara. O amor de Henrique por Ana Clara toca meu coração. Duas igrejas construídas ficam como prova desse amor profundo. Vou caminhando pelos arredores, como talvez costumasse fazer Henrique há séculos atrás.

Pego o carro e me dirijo mais para frente e mais um pouco  chego na Rua Antônio Vitruvio. Já frequentei aquela rua nos anos 90, quando fazia Aikidô. Sabia que o final  dela chegaria à beira do rio. Queria olhar o rio. Aquela via, pois no passado o rio era muito usado e estou em busca do passado. Esse mesmo rio que nunca usei… Dois guardiões  encontram-se protegendo aquele lugar, esta parte do Capibaribe, coitado, hoje tão desprezado! A vista me dá essa impressão de que aquela área é especial e quem sabe seja um portal que nos leve de volta há outros tempos… Vejo um avô de bicicleta levando seu neto para conhecer o rio…O velho com o novo  olhando para o rio e sinto esperança. Me despeço dos guardiões pego o carro para conhecer mais do Poço da Panela.

Passo por esta rua de casarios antigos coloridos, rua onde mora Luzilá Gonçalves e penso que ela fez uma excelente escolha de moradia. Que local mais agradável! Fiquei até com vontade de ligar para ela e que me esperasse na porta, onde seria protagonista desta parte do filme, mas escolhi passar sem incomoda-la no domingo, um dia de descanso. Outro dia eu paro. Assim dirijo por  este caminho de casas antigas em direção ao futuro. Como é visível a mudança de construções e de ares! Tenho a impressão que o passado se despede e que o futuro não é tão romântico.

No fim do caminho, já beirando o bairro do Monteiro, volto a me encontrar com o Capibaribe. Deparo-me com uma vida diferente do outro lado do rio. Vida totalmente contraste com aquela que vejo no Poço da Panela atual. Uma comunidade muito pobre, sem infraestrutura adequada, à beira de um rio malcheiroso! Fico besta com esse afronte à vida.

Meus olhos enxergam aquele homem e a história que ele tem para contar.  Uma história que já estou até curiosa para ouvir. Vou perguntar. Tenho quase a certeza que ele poderá me apresentar à vida que existia ali antes e agora. Pois esse é o sentido da minha busca, neste domingo de manhã.

Nem sabia que do outro lado do rio era o bairro da Iputinga! Nem que havia aqui tão perto, um meio de transporte ligando Poço da Panela à Iputinga. O barco de seu José. Obrigada, Patrícia, por sugerir este passeio, ao Capitão Henrique pelo presente amoroso do passado, aos guardiões apontando para a esperança de sobrevivência do velho com o novo e ao senhor José por terminar minha história.

O final não é feliz, mas é verdade tudo que ele me diz. Até outro dia, Seu José!

 

Recife, 14 de novembro de 2016.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

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A partir da leitura do volume “Viajantes Contemporâneos” da Pinacoteca de São Paulo, surgiu a intenção de sentir Cartagena a partir do meu “olhar estrangeiro”.

Me imaginei chegando à cidade sem nada conhecer de sua história – via de regra, é o que acontece, chego ao destino sem nenhum preparo adicional ao que porventura já exista em mim. Vou sem muitas informações e  até juro fazer diferente na próxima oportunidade.

Desta vez, o desconhecimento, me proporcionaria uma maior legitimidade para fotografar ou descrever o sentimento advindo de olhar a cidade pela primeira vez.

Tal não foi minha surpresa quando ao sentar na poltrona do avião encontrar no bolsão à minha frente a revista de bordo com o artigo Cartagena: As Cores de Cartagena da Índia. A capa da revista me abraçava a partir da parede azul celeste misturada com verde piscina, se descascando para mostrar-me uma cor terra, original. E a pequena sacada pintada em cor lilás com muitas flores por trás das grades de madeira, me trazia o primeiro abraço, o acolhimento típico das cidades cujas vidas se traduzem através das cores.

Ao terminar de ler o texto no qual Cartagena se apresentou para mim nas suas cores e sabores, levanto o olhar já não tão estrangeiro e na tela à minha frente vejo o movimento da cidade que me convida a sentir o sabor dos seus frutos, dos seus sorvetes gelados bem conhecidos por todos que a visitam. Seus peixes, crustáceos, passeios em mercados me convidam a sentir seus sabores, a respirar as fragrâncias do seu povo, das suas flores e frutos e sentir as cores de Frida Kallo saírem do México para me receberem em Cartagena ao som da Rumba.

Referências:

* Viajantes Contemporâneos” da Pinacoteca de São Paulo.

* As Cores de Cartagena da Índia – Revista de bordo da LATAM, Novembro, 2016.

 

 

(Encontro com Cartagena – 25.11.2016

Para o GEEC – Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

Escrito durante o vôo Recife-São Paulo que dali me levaria a Bogotá e posteriormente a Cartagena o objetivo principal da viagem.)

 

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(Lua do espetáculo “As joaninhas não mentem”)

 

Ontem dormi sozinha

A maior lua do século

Me deixou esperando

Sentada à beira-mar

E se escondeu por entre nuvens

 

E enquanto eu

Sentia nas pernas

As carícias do mar

Que na verdade não eram para mim

Tu lua

Te deitavas com estrelas…

Sim, com todas as estrelas.

 

Era isso que eu conseguia ver

Cada vez que o vento

Soprava e abria

As cortinas de nuvens,

Espessas,

Que guardavam, tua intimidade…

 

Mas hoje é um novo dia

E talvez te lembres de mim

Talvez te lembres do mar

Talvez hoje

Não nos deixes a esperar.

 

………………

 

 

(DE LUA E DE MAR – 17.12.2016

Para o Grupo de Escrita Criativa – G.E.E.C.)

 

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(Foto: Elba Lins)

Acordei e me vi sozinho, ou melhor, acompanhado do irmão, que quase siamês esteve comigo todos os dias da existência. Mas onde andaria aquele, com quem até o momento, caminháramos juntos?

A eternidade foi se tecendo, o tempo refazendo a realidade, e nosso aspecto se alterando. O lodo se alojou na nossa carne, na nossa pele; agora somos abrigo, refúgio de passarinhos que chegam e parecem fazer parte da nossa história. Durante todo o tempo esperamos em vão pelo retorno do nosso companheiro.

Algumas vezes, pensamos que O Esperado seria Manoel de Barros já que numa alegoria ao mestre estamos possuídos de lodo, algas, pássaros e plantas. Outros dias na nossa pele se desenharam os traços de Magritte. Também lembrei Van Gogh e me pergunto porque não me levou no seu caminho, para trilhar com ele sua loucura e solidão?

Assim me vi transformado em barro, e me questiono se o mesmo aconteceu ao Esperado.

Junto a mim, só chegam os pássaros que me fazem companhia e deixam em mim sementes de vida que brota no barro e me faz esquecer de tudo; esquecer até de ansiar pelo retorno de quem possívelmente já se fez barro.

 

(O Esperado –

Elba Lins 16.11.2016

Para o GEEC – Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

A partir de uma experiência real criar o universo ficcional.

Lembrando a foto tirada na Casa Cor, Van Gogh, Magritte e Manoel de Barros)

 

 

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 27/11/16 | Com Bernadete Bruto & Elba Lins

Da experiência criadora

Patricia (Gonçalves) Tenório

01/11/2016

 

A doutora em Linguística e Estudos em Línguas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), Cecília Almeida Salles, analisa em Gesto inacabado: processo de criação artística,[1] a questão da experiência na produção da obra de arte e os limites impostos pelos próprios artistas a si mesmos para a potencialização da sua poiesis.

Cecília é a favor da perspectiva do trabalho, do processo contínuo, da pesquisa, o que podemos encontrar em vários artistas elencados em Gesto inacabado e que relacionarei com alguns livros estudados por escritores em busca de uma Escrita Criativa, em especial, na Pós-Graduação de mesmo nome da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre – a PUCRS.

Antes de tudo, explico a necessidade extrema de escrever sobre o assunto – a experiência –, e relacionar com os livros elencados. Desde que comecei a escrever, procurei me impor limites a serem ultrapassados, na tentativa de elevar a qualidade da minha escrita: Oficinas Literárias no Brasil (Recife e Porto Alegre – PUCRS), e exterior (Sorbonne – Atelier d’Ecriture), Filmmaking na New York Film Accademy, em Nova York, EUA, Residência de Artistas em Val-David, Canadá, Mestrado em Teoria da Literatura na Universidade Federal de Pernambuco, Aluna Especial e participante da seleção para Doutorado/2017 em Escrita Criativa da PUCRS.

Ao invés de fins, todos esses limites e deslocamentos que impus aos meus corpo e alma trazem à tona aspectos da minha subjetividade que nunca transpareceriam sem a provocação da experiência, e com isso, a escritora que descobri em mim desde 2004 nunca alargaria as suas fronteiras, de maneira lenta, construindo passo a passo, letra a letra, o caminho da melhor escrita possível. E para esse espaço do Grupo de Estudos em Escrita Criativa, o exercício de Novembro, 2016 – feito vocês verão mais abaixo – tem a ver tanto com a experiência quanto com o movimento que ela desperta.

Voltando ao Gesto inacabado, descobrimos que o poeta e diplomata brasileiro João Cabral de Melo Neto no ensaio “A psicologia da composição”, acredita que a seleção de acontecimentos da realidade é a verdadeira originalidade do artista, uma seleção que é composição, que é 5% de inspiração e 95% de trabalho, feito concorda em Iniciação à estética[2] o poeta, escritor, dramaturgo brasileiro Ariano Suassuna, quando afirma que não basta a Forma (ou intuição criadora), mas é preciso a Técnica (ou estudo contínuo) e o Ofício (ou trabalho diário) para transformar em obra de arte e não mero artesanato aquilo que temos em nossas mãos.

“A arte é filha da liberdade”, já dizia o poeta e filósofo alemão Friedrich Schiller. Mas Cecília alerta que a liberdade absoluta é desvinculada à intenção, não leva à ação, ou seja, não gera obras.

O poeta e filósofo russo (Vladimir) Maiakóviski em (Cecília) Salles, em (Patricia) Tenório, em… afirma que procura escrever sobre o que viveu; o dramaturgo brasileiro Dias Gomes é levado a escrever compulsivamente pela angústia, pela insatisfação consigo mesmo; a teórica e artista plástica brasileira, nascida na Polônia, Fayga Ostrower, afirma que nos interessamos e buscamos (em termos de arte) por aquilo que já possuímos em nós, mas de maneira potencial.

Esses artistas – e muitos outros elencados por Cecília Almeida Salles em Gesto inacabado – comprovam o que o semiólogo e romancista italiano Umberto Eco insiste no “Pós-escrito a O nome da rosa”: de que devemos impor obstáculos – e que maiores obstáculos senão os acontecimentos da vida? – para potencializar a obra de arte.

O escritor francês, nascido em Paris, André Gide, no Diário dos Moedeiros Falsos[3]Diário que apresenta a construção do seu romance Os moedeiros falsos[4] – insiste para que deveria escrever como se fosse o “último livro”, “verter-se por inteiro”, e com isso (também) potencializar a criação.

Enquanto isso, em O leitor comum,[5] a escritora e editora inglesa, nascida em Londres, analisa Robson Crusoé, e seu autor, o jornalista e escritor conterrâneo Daniel Defoe, que por sua vez transforma seres reais que vivem na violência e na pobreza em personagens dos quais tudo retira – deixa-os na miséria – para provocar o seu empenho e superação.

Outro livro estudado nesse caminho de aperfeiçoamento da Técnica e do Ofício da Escrita Criativa é A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores,[6] do roteirista americano Christopher Vogler. A partir de sete arquétipos do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (HERÓI, MENTOR, ARAUTO, GUARDIÃO DO LIMIAR, CAMALEÃO, SOMBRA E PÍCARO) e doze estágios da Jornada do Herói do pesquisador em mitologia americano Joseph Campbell (1 – MUNDO COMUM, 2 – CHAMADO À AVENTURA, 3 – RECUSA AO CHAMADO, 4 – ENCONTRO COM O MENTOR, 5 – TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR, 6 – TESTES, ALIADOS E INIMIGOS, 7 – APROXIMAÇÃO DA CAVERNA OCULTA, 8 – PROVAÇÃO, 9 – RECOMPENSA (APANHANDO A ESPADA), 10 – CAMINHO DE VOLTA, 11 – RESSURREIÇÃO, 12 – RETORNO COM O ELIXIR), Vogler vai nos apresentando as dificuldades a serem superadas pelo Herói, pelo escritor, ou pelo ser humano de uma maneira geral para conseguir trilhar da melhor maneira possível a maior viagem de todos os tempos: a nossa própria vida.

Quis neste breve estudo, falar um pouco sobre as restrições de limites (ou de liberdade), ou mesmo a proposição de experiências a todo a artista para alargar, alavancar, potencializar a criação. Além dessas experiências “programadas”, intencionais, a vida nos prepara surpresas, tais como apresentei no arquivo abaixo em anexo “A experiência de um(a) artista da fome” quando na minha viagem para a Romênia-Alba Iulia e para a capital tcheca Praha (Praga) e no fotofilme desta postagem de Novembro de 2016, “(des)carnaval(ha)”.

O exercício proposto às escritoras Bernadete Bruto e Elba Lins foi justamente tentar captar em filme – de celular – esse acaso que nos toca, da mesma maneira que o punctum de Roland Barthes, e nos provoca poemas, contos, ensaios poéticos. E vice-versa. Pois a imagem, quer seja em movimento, quer seja estática, nos ronda em busca de um “receptáculo” a preencher, uma “carcaça” que o poeta romântico inglês John Keats em carta a Woodhouse afirma veementemente: “O poeta é a mais impoética das criaturas de Deus”.[7] Ele está sempre se esvaziando e sendo preenchido pela Poesia, está sempre adentrando e preenchendo outras criaturas, o sol, o mar, a lua. Os rouxinóis.

Que venham as experiências do Grupo de Estudos em Escrita Criativa do mês de Novembro de 2016!

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(1) SALLES, Cecilia Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: FAPESP: Annablume, 1998.

(2) SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado: Carlos Newton Júnior. 5. ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2002.

(3) GIDE, André. Diário dos Moedeiros falsos. Tradução: Mário Laranjeira. São Paulo: Estação Liberdade, (1927 in) 2009.

(4) GIDE, André. Os moedeiros falsos. Tradução: Mário Laranjeira. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.

(5) WOOLF, Virgínia. O leitor comum. Tradução: Luciana Viégas. Rio de Janeiro: Graphia, 2007.

(6) VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores.  Tradução e prefácio: Ana Maria Machado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

(7) KEATS, John. Ode sobre a melancolia e outros poemas. Organização e tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Hedra, 2010.

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

(Câmera: Bernadete Bruto)

A caminho de sua própria casa

Experiência Com música e filmagem

Acreditou nela… Perdeu-se no caminho! Não sabe mais qual a direção tomar. Para onde vai.  Como ir sozinho? Olha para o trânsito dentro deste carro que lhe conduz ao mesmo caminho de sempre. Cotidianamente. Sem ânimo. Sem anima. Só. Na confusão do trânsito, olhos procurando por ela… em cada carro. A música tocando fala alguma coisa de casa… Me leve para casa! É o que ele gostaria de poder falar, de ouvir… Se pudesse… Já faz tanto tempo… Por que ele ainda persiste nesta canção, porque o lamento? Ahhhh ah ah ah ah ah ah ah! Ainda? Quem mandou confiar nela? Entregar toda sua confiança sem reservas para uma pessoa. Que ingenuidade! Hum, o  ah ah ah da canção é por isso! Raiva! Ele sente raiva de si ainda. Por ter sido bobo. Porque ficou pedindo não me deixe. Me leve para casa! Ai quanta dor havia naquele ser! O tempo parou com o trânsito. Ele agora olha como ainda está congelado. Mudou seu olhar que leva para outra direção. De volta ao passado como esses carros passando contrariamente a sua direção e vontade. Olhos que buscam um sentido. O sentido foi todo ensinado por ela… Palavra por palavra. Verdade por verdade. Ele ficou vazio. Desconectado.

Hoje, neste carro, a mulher de coração leve, retornando de lembranças amargas, olha finalmente para si. Expande seu olhar, sabendo que foi difícil, mas conseguiu! Sente-se livre após a dor e entende que a sua casa é muito mais além do que alguém. Alguém que talvez nem merecesse que o coração de uma mulher fosse capturado por promessas feitas por sua voz masculina tão insinuante. Coitado desse alguém! Um homem que talvez nem soubesse que não poderia ter comando de seu próprio destino.

De volta ao presente, no meio do trânsito, no fim da música, a mulher enxerga para além da confusão diária. Libera seu coração das promessas ecoadas pela voz daquele pobre homem e vê o caminho que as árvores apontam. A simplicidade da vida, da sua própria natureza celestial. Reconhece sua verdadeira casa, o perdoa e sorri.

 

Recife, 1 de novembro de 2016.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

(Câmera: Débora Quintans)

Que maravilha de Concerto! O Teatro Santa Isabel em festa, lotação esgotada, os músicos impecáveis aguardavam o sinal do maestro para iniciarem a tão esperada apresentação.

E na plateia, estava eu, ansiosa. Duas horas de muita emoção. Na primeira parte do concerto foram apresentados vários números de blues e na segunda parte o jazz nos encantou.

Voltei para casa ainda sob o fascínio da apresentação e resolvi terminar a noite com vinho e boa música. Após ouvir Astor Piazolla, Nina Simone, Diane Krall, eu ouvi John Coltrane. Estava ouvindo “Aisha”, quando lembrei de Sérgio…

Aquela música tinha sons que me remetiam ao disco de vinil acabando de tocar, e rodando infinitamente, enquanto nós, cansados de amar não tínhamos sequer coragem de erguer os braços para desligar o som.

Fiquei escutando a música e me afastando de toda a alegria que fora minha noite até aquele instante. Só chegava até mim o lamento… e mesmo quando quis dançar para tentar extrair algum som que me animasse, que me fizesse voar para além daquele instante, eu nada consegui. Eu dançava apenas minha solidão. Então caí por terra por não conseguir voar.

 

O anjo que tocou para mim

Arranhou minha alma

Queria voar com ele por entre estrelas

Mas a frágil corda dos meus sentimentos

Se rompeu

E eu que viajaria entre estrelas

Acabei caindo na terra fria

 

 

(Réquiem para um amor Saudade ao som de Blues e Jazz)

Elba Lins 06.11.2016.

Escrita para o GEEC, a partir da música AISHA de John Coltrane.

Com base na história e na música foi feito o Vídeo de mesmo nome)

Índex* – Agosto, 2016

Se eu fosse um

Passarinho 

Esqueceria as

Folhas mortas

Do passado

Arrancaria as

Ervas daninhas

Do presente

E passearia

Suavemente

No céu azul

*

Mas como

Não sou um 

Passarinho

Vivo à cata

De migalhas

Vivo em busca

De palavras

Assim

Pequenininhas 

Que possam

Traduzir

Por um segundo

A imensidão

De eternidade

Presa aqui

No meu peito

(“Quem escreve não se cansa de buscar”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/08/16, 07h55)

A busca sem fim pela Escrita Criativa no Índex de Agosto, 2016 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Dois contos para uma Escrita Criativa | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE, Brasil).

O físico fica menor enquanto o mito cresce | Mara Narciso (MG, Brasil).

Projeto Pasárgada nos jardins da Academia | Marly Mota (PE, Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE, Brasil) e Elba Lins (PB/PE, Brasil).

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 25 de Setembro, 2016, grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – August, 2016

If I were

A little bird 

I’d forget the

Dead leaves

From the past

I’d rip out the

Weeds

Of the present

And I’d walk

Gently

In the blue sky

*

But because

I’m not

A little bird

I live in seek

Of crumbs

I live in search

Of words

Like this

Little niggling

That can

Translate

For a second

The immensity

Of eternity

Trapped here

Inside my chest

(“Who writes doesn’t be tired of searching”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 08/06/16, 7:55 a.m.)

The endless search for Creative Writing in the Index of August, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Two short stories for a Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE, Brasil).

The physical gets smaller as the mith grows | Mara Narciso (MG, Brasil).

Pasargadae Project in the gardens of the Academy | Marly Mota (PE, Brasil).

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE, Brasil) and Elba Lins (PB/PE, Brasil).

Thank you for participation and caring, the next post will be on September 25, 2016, a big hug and see you there,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O Paraíso Perdido e Encontrado de Piracanga, BA, Brasil. The Lost and Found Paradise of Piracanga, BA, Brasil.

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 28/08/16 | Com Bernadete Bruto* e Elba Lins**

Era uma tarde de Julho, 2016. Para ser exata, domingo 17. Estávamos no Parque da Jaqueira, Recife, Pernambuco, Bernadete Bruto, Elba Lins e eu, estávamos em um evento de Dança Circular. A caminho do parque, a ideia já havia brotado, a semente havia sido plantada na alma de quem vive sempre em busca de um solo fértil para uma Escrita Criativa.

A ideia era simples, feito semente de girassol, feito o caule do girassol que gira à procura do sol. Nos encontraríamos uma vez a cada quinze dias, ou uma vez por mês, para conversarmos sobre a arte de escrever. A partir de textos de teóricos tais como Joseph Campbell, Christopher Vogler, Carl Gustav Jung, mas também de depoimentos sobre seus “fazeres artísticos” de escritores tais como Orhan Pamuk, Virgínia Woolf, Albert Camus, Henry James, entre (muitos) outros, iríamos nos alimentando, alimentando a nossa escrita, e somente assim, cresceríamos como escritoras, poetisas, enfim, pensadoras.

Esse projeto tem a ver com a minha pesquisa desde 2004 no campo da Escrita Criativa. Acredito no crescimento na Arte através da Forma, da Técnica e do Ofício que Ariano Suassuna nos ensina no seu Iniciação à Estética. Ariano afirma que é preciso a Técnica, ou estudo contínuo, o Ofício, ou trabalho/escrita diário(a) para quando a “ave de rapina” da Inspiração Criadora, ou Forma, se manifestar em nós, estarmos prontos para “darmos o salto”, e não apenas sermos “meros artesãos”. De 2004 a 2010, participei de oficinas literárias no Brasil e no exterior; em 2012, busquei no ambiente acadêmico, no Programa de Pós-Graduação da UFPE, Mestrado em Teoria da Literatura, a matéria-prima para a minha escrita, e, atualmente, participando como Aluna Especial do Programa de Pós-Graduação da PUCRS, Doutorado em Escrita Criativa.

E, apesar de não estarmos (ainda) em um ambiente acadêmico, percebi nesses poucos encontros do mês de Agosto, 2016, o potencial dessas escritoras/poetisas Bernadete Bruto e Elba Lins. Todas as narrativas, quer sejam literárias, quer sejam cinematográficas se originam no Mito. Iniciando, portanto, com o estudo da Jornada do Herói, essas “escrevinhadoras” – termo utilizado por Bernadete em um dos textos produzidos – mostram que, ao cuidarmos “do alimento” para a nossa arte – textos teóricos, filmes e até músicas –, vamos “produzindo” pequenas pérolas em forma de textos teóricos/crônicas e textos poéticos/ficcionais, que, juntamente com “Dois contos para uma Escrita Criativa”, de minha autoria que abrem a edição de Agosto, 2016 deste blog, tenho o prazer e honra de lhes apresentar em uma seleção a seguir.

Patricia (Gonçalves) Tenório

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Bernadete Bruto

 

Memórias de uma Gueixa: todos os passos em direção ao amor

Recife, 12 de Agosto de 2016

 

“As grandes histórias nos recordam à nossa própria história, pois elas não contam somente a história de um ser humano qualquer: contam o que também comove, atinge, faz sofrer e torna felizes todos os seres humanos. Elas também são nossa história.”

(Bert Hellinger in Pensamentos a caminho)

 

Assisti em 2006 ao filme de produção de Steven Spielberg Memórias de uma Gueixa e imediatamente me apaixonei pelo filme.

Em primeiro lugar, já gostei porque o filme tinha sua história localizada no Japão, era um filme de época, coisa que me agrada bastante. Em segundo lugar, vinha mostrando as instituições japonesas antes da segunda guerra mundial, a vida das gueixas e a história particular de uma gueixa chamada Sayuri, um exemplo de persistência em direção ao amor de sua vida. E, finalmente, toda a produção do filme, fotografia, trilha sonora, foram fatores que concorreram para aumentar meu encantamento.

No filme, que é baseado num livro de escritor americano, a história é contada por  uma menina chamada Chyio Sakamoto, moradora de uma aldeia de pescadores japoneses, que é vendida pelo seu pai a uma casa de gueixas. Naquele lugar ela começa a fazer os serviços domésticos, como pedia a tradição. Um dia, ela ainda menina encontra-se com um homem poderoso que a trata com carinho e naquele exato instante ela se apaixona por ele. A partir daí, a história de Chyio, toma um sentido especial, buscando se tornar Sayuri, uma gueixa famosa, para poder chegar junto do seu amor. No entanto, até lá, passa por muitos percalços, encontra ajuda numa gueixa famosa, como também, inimigos em sua própria casa.

Hoje observo que a história segue um roteiro muito bem elaborado que pode encontrar base no modelo da Jornada do Herói apresentado por Christopher Vogler (pág. 46) conforme exponho em seguida.

No primeiro ato nossa heroína (Sayuri) ainda chamada Chyio moradora de uma vila de pescadores (MUNDO COMUM) é vendida à casa das gueixas (CHAMADO À AVENTURA). Num determinado momento ela se rebela por sua condição e sai à procura de sua família (RECUSA AO CHAMADO). Ao conhecer seu amado, ela tem o desejo de poder estar com ele, encontra  Mameha,  uma gueixa famosa que se oferece para ser sua tutora (ENCONTRO COM O MENTOR), começando o aprendizado para se tornar uma gueixa (TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR). Nesse momento começam as rivalidades entre as gueixas, o difícil jogo dos homens poderosos para ficar com as gueixas, a ajuda de Mameha e do seu amado (PROVAS, INIMIGOS E ALIADOS)

No ato dois, a crise da história, no caso da nossa heroína, o momento que ela vai ser desmoralizada por um homem bem poderoso que utiliza de má fé na sua conduta (APROXIMAÇÃO DA CAVERNA SECRETA); o momento de ajuda para ela se recuperar; a chegada da guerra onde o mundo modificou totalmente e toda a esperança com relação ao amado também (A PROVAÇÃO); o fim da guerra e credibilidade readquirada (RECOMPENSA); no ato 3, observamos o retorno à vida pós-guerra (O CAMINHO DE VOLTA); a possibilidade de retornar o caminho em direção ao seu amor (RESSURREIÇÃO); o retorno ao MUNDO COMUM com o aprendizado deixado pela guerra (RETORNO COM O ELIXIR).

Duas cenas me tocaram profundamente. Uma foi por sua beleza artística: o debut de Sayuri quando ela se apresenta aos candidatos prováveis numa belíssima dança em cima dos tamancos de madeira. É indescritível a cena, somente vendo para poder apreciar verdadeiramente. A outra cena, foi por sua delicadeza romântica, quando no final do filme,  depois de todos os percalços, os amantes se encontram juntos e a protagonista responde a um questionamento do seu amado com esta afirmação: “Não vê que todos os passos que dei foram na sua direção?”

A história de amor, a dedicação daquela menina ao seu amor, a persistência dos protagonistas deram um gosto especial à história, e, até hoje, dez anos após ter assistido esse drama épico, experimento a mesma sensação de empatia com a vitória e completude com relação à conquista do amor.

Por fim, ao verificar essas conexões poderia ficar um pouco desanimada com relação ao filme, que foi pré-fabricado para poder gerar todos os sentimentos que senti ao assistí-lo em 2006. Mas foi muito mais do que isso. Este filme foi uma linda produção, uma obra de arte que ultrapassou a receita básica de se escrever uma história com finalidade de agradar ao público. Apesar das críticas que foram muitas, das polêmicas lançadas pelo Japão e China, que não vem ao caso me reportar agora, noto que  o produtor e demais envolvidos foram felizes em escolher uma boa história e fazê-la com gosto e arte.  O filme descreveu uma linda história com uma plasticidade encantadora e encheu meu coração de fé e esperança no amor naquele longínquo ano de 2006 quando eu mais precisava.

 

*

 

“O dom essencial da história tem dois aspectos: que no mínimo reste uma criatura que saiba contar histórias e que, com esse relato, as forças maiores do amor, da misericórdia, da generosidade e da perseverança sejam continuamente invocadas a se fazer presentes no mundo.”

 (Clarissa Pinkola Estés in O dom da história)

 

Eram uma vez palavras mal feitas, desordenadas à procura de um significado próprio que lhes concedesse uma estética ideal no profundo vazio da caneta e do papel submetido ao intrínseco inconsciente do Escrevinhador.

Um dia, a mente do Escrevinhador de tanto rodar à cata do ideal, mergulhou no universo íntimo das palavras, pronto para o desafio lançado pelo mundo exterior e, de repente foram surgindo todo tipo de palavras!

As primeiras vieram manifestando-se no peso do negativismo assim: “não sei!”, “não vai dar certo!”. Não! Não! Eram palavras que voam daquele universo esbarrando de encontro à mente do Escrevinhador.

Por algum tempo foi dessa maneira, até que timidamente foram surgindo alternadamente as palavras estrelares. Apareciam como luzinhas fracas, contudo de um brilho intenso a piscar e transformar-se em palavras coloridas, brilhantes que foram aumentando sua irradiação, aumentando, aumentando até capturarem aquelas cheias de negativismo no laço da verdade que lhes dizia: “vocês são mera ilusão”! “Por trás tudo é bom, belo e afirmativo!”

A partir daquele vislumbre consciente, como que por encanto, as palavras negativas, Puff! Sumiram! Podendo o Escrevinhador dizer com firmeza: “eu agora digo sim! Sim às palavras boas, criativas”. E foi nessa vibração que as palavras boas, as mesmas que os indígenas chamam Porã Hei, desceram em forma de um cocar multicolorido coroando a imaginação do Escrevinhador.

Daí então ele escreve cheio de energia palavras que brilham no papel. Não sabe ainda se essas palavras se organizam direito para fazer a prosa, no entanto, há algum tempo, vive cheio de alegria porque encontrou um caminho na vida e toda a sua poesia!

(Jornada rumo à poesia da vida, 28/Julho/2016)

 

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Elba Lins

 

O Físico

Na Idade Média, enquanto no Oriente a medicina se especializava e se desenvolvia, na Europa, todos os recursos na arte de curar, provenientes dos romanos, haviam sido abandonados e os doentes estavam entregues à própria sorte e aos barbeiros ambulantes – um misto de aprendiz de mágico e de palhaço. Estes barbeiros não tinham nenhum preparo para tratar qualquer enfermidade, que fosse além de arrancar um dente ou imobilizar um osso quebrado.

É nesse cenário que vive Rob Cole, é este seu Mundo Comum no qual sua mãe morre por falta de uma ajuda “médica” adequada. Na ocasião, sem saber como, Rob tem a visão da proximidade da morte da mãe, acometida da “Doença do Lado” e tenta sem sucesso obter a ajuda do barbeiro. Era uma época de resignação e trevas e qualquer tentativa de novas formas de cura era renegada pelo clero como bruxaria.

Por ser o maior dos seus irmãos nenhum dos vizinhos quer ficar com ele pois daria prejuízo. Ficando só, sua única opção é acompanhar o barbeiro mesmo não sendo aceito por ele. Aos poucos ele vai se tornando necessário e começa a se interessar em aprender a curar e em descobrir a causa do mal que matou sua mãe. Desde cedo ele tem curiosidade em saber o que existe internamente ao corpo humano. Esta é a fase de saída do seu Mundo Comum. Este é o seu primeiro Chamado à Aventura.

Quando o barbeiro queima as mãos e não consegue trabalhar é a primeira oportunidade de Rob substituí-lo. A partir daí aquele passa a considerá-lo um novo barbeiro e faz sua cerimônia de “batismo”. É a Travessia do Primeiro Limiar. Em seguida o barbeiro apresenta grandes problemas de visão. Nesta oportunidade eles tomam conhecimento de um judeu que poderia curar sua cegueira. Rob insiste e eles vão procurar o judeu que consegue curar os olhos do barbeiro. Através dele Rob descobre a existência do Madraçal, a escola onde o judeu estudou em Isfahan. A escola é dirigida por Ibn Sina o maior físico da época. É um Novo Chamado à Aventura e Rob decide viajar até a Pérsia em busca de Ibn Sina.

Somente depois de muita discussão, o barbeiro decide apoiá-lo. Apesar da dificuldade que irá enfrentar, hora nenhuma Rob Recusa o Chamado.

Ele parte para uma viagem inimaginável, primeiro por via marítima e depois uma longa travessia pelo deserto. Vários Testes ele precisa enfrentar: fazer uma circuncisão em si mesmo; se passar por judeu sem conhecer os costumes, além de uma tempestade no deserto, onde se perde dos demais. Esses são alguns desafios até chegar a Isfahan. Durante a travessia se apaixona por uma moça que está sendo transportada para a Pérsia na Caravana e se perde dela na tempestade.

Ao chegar no Madraçal novas dificuldades têm lugar, mas finalmente ele consegue se tornar aluno de Ibn Sina, se apresentando como judeu de nome Jesse. Seu grande interesse em aprender e em questionar logo o aproxima do seu Mentor Ibn Sina.

Como o destino prega peças, Rob, agora Jesse, reencontra a garota que na verdade vai casar com um importante Judeu.

Também a situação político-religiosa vem se agravando e um grupo religioso radical não apoia a política do Xá, mais voltada ao secular, e se alia aos Seljúcidas, um grupo sanguinário que pretende invadir a Pérsia. É neste clima que outro problema chega para afligir a todos: a peste negra.

Ibn Sina com a maioria dos alunos passa a combater a peste e a pesquisar as causas deste mal. Entre os infectados, Jesse cuida de sua amada que foi deixada para trás pelo marido por estar doente. Para Jesse este é mais um Teste que terá que enfrentar.

Como nada é tão fácil para Jesse, a garota é curada, a peste está controlada, mas para sua tristeza o marido volta e sua amada tem que retornar ao casamento. É quando eles finalmente fazem amor e, como veremos mais tarde, ela fica grávida.

A Aproximação da Caverna Oculta se dá a partir da morte de um Zoroastrista que lhe pede para deixar seu corpo para os abutres. Jesse aproveita para dissecá-lo e fazer desenhos dos órgãos internos. A partir destes estudos chega à conclusão sobre a causa “Doença do Lado” que hoje sabe-se ser apendicite. Cada dia ele se aprofunda nos estudos, mesmo sabendo que se for descoberto pelos mulás poderá ser condenado. E é o que acontece. Ele é descoberto e levado a julgamento pelos religiosos por estar praticando a necromancia. É a sua primeira Provação. A sorte, entretanto, vem ao seu encontro e na hora de sua decapitação é salvo pelos soldados do Xá que está acometido pela “Doença do Lado” e soube que Jesse pode salvá-lo. Esta é mais uma Provação que terá que enfrentar pois se o Xá morrer também será morto.

A cidade está sendo invadida pelos Seljúcidas, mas Jesse juntamente com Ibn e outro colega conseguem salvar o Xá que como recompensa proporciona a fuga de Jesse, agora já Rob novamente, com o povo judeu, entre eles, sua amada. É o Caminho de Volta ao Mundo Comum feliz por estar em companhia de sua amada e triste por ter perdido Ibn Sina que fica no Madraçal incendiado e toma um veneno. Antes, porém, entrega a Rob todas as anotações feitas ao longo da vida para que sejam corrigidas e ampliadas. Esta é a Recompensa, juntamente com a descoberta da “Doença do Lado”.

No caminho para casa, a moça fala para ele de um sonho que teve sobre um novo Madraçal a ser construído por eles. É sua Ressureição.

O filme termina quando o velho barbeiro sem cliente nenhum toma conhecimento de que agora vão ao hospital do Físico Cole. O Rato, como ele chamava, havia retornado com o Elixir.

 

(Resenha do filme The Physician, baseado no romance de Noah Gordon e inspirada em A jornada do escritor, de Christopher Vogler. Para o Grupo de Estudo em Escrita Criativa. Recife, 22/08/2016)

 

 

*

 

 

JORNADA

 

Recebi uma tarefa:

De uma Jornada falar

Não sabia o que dizer

E me quedei a pensar.

 

Eu no Mundo Comum

E a ideia sem chegar,

Eu precisava sair,

E começar a criar.

 

Me lembrei de outro curso

Um curso de ensinar

Histórias a construir

Ou histórias a contar.

 

Lembrei de uma tarefa

Que me pedia falar

Eu pegara o telefone

Começara a digitar.

 

Entendi neste momento

Que este era o sinal

O Chamado à aventura

Que estava a esperar.

 

Mas a dúvida persistiu

Continuei a pensar

Será que eu não devia

O chamado recusar?

 

Mas, como a ideia chegou

E insistiu em ficar

Levantei bem de mansinho

Comecei a digitar

E a pensar uma a uma

Etapas do caminhar.

 

 

Pouco a pouco eu já via

Algo a se estruturar

Mas eu tinha muitas dúvidas

Na mente a martelar.

 

Quem era meu Mentor?

Não sabia se eu mesma

Ou a tela do celular.

Mas estava empolgada

Pois sabia já passara

O Primeiro Limiar.

 

Resolvi fazer um Teste

Resolvi verificar

Tudo o que digitei

Se iria aproveitar.

 

Foi aí que a dúvida veio

O que tentava criar

Era poesia ou cordel?

Não soube classificar.

 

Entrei na Caverna Oculta

A dúvida a exasperar

E se a “professorinha”

Isto não considerar?

 

É esta a Provação

Que preciso enfrentar;

Se terei a Recompensa

Se poderei enfrentar;

Todo o Caminho de Volta

Trazendo ou não na bagagem

O Elixir de criar.

 

(Criação inspirada nas etapas da Jornada do Herói em A jornada do escritor, de Christopher Vogler. Para o Grupo de Estudo em Escrita Criativa. Recife, 22/08/2016)

 

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* Contato: bernadete.bruto@gmail.com

** Contato: elbalins@gmail.com

 

Índex* – Janeiro, 2016

Amanda aguarda ansiosa os acontecimentos amadurecendo na árvore antiga.

Ela vê os galhos crescendo tortuosos, ela trilha os caminhos mais escuros.

Então faz a Paciência brotar verdinha no último botão em flor de Dezembro.

(“A Paciência não tem hora de chegar”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 29/12/15, 11h09)

Um Ano Novo crescendo nos galhos do Índex de Janeiro, 2016 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Entre “Qu’est-ce que créer?”, Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela |Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil).

Poema de Antonio Aílton (São Luís – MA, Brasil).

Um Conto e um Poema de Clauder Arcanjo (Mossoró – RN, Brasil).

Duas Crônicas de Mara Narciso (Montes Claros – MG, Brasil).

Agradeço o carinho e a participação de todos, a próxima postagem será em 28 de Fevereiro de 2016, um grande abraço e muita Luz,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – January, 2016

Amanda anxiously awaits the events maturing in the ancient tree.

She sees the branches growing croocked, she tracks the darkest paths.

So she makes Pacience sprout greenish in the last spring flower bud of December.

(“Pacience doesn’t have time to come”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 12/29/15, 11:09 a.m.)

A New Year growing in the branches of the Index of January, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Between “Qu’est-ce que créer?”, Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela |Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil).

Poem from Antonio Aílton (São Luís – MA, Brasil).

A Short Story and a Poem from Clauder Arcanjo (Mossoró – RN, Brasil).

Two Chronicles from Mara Narciso (Montes Claros – MG, Brasil).

Thank you all for the kindness and participation, the next post will be on 28th February, 2016, a big hug and too much Light,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

**Patricia (Amanda) Tenório aguarda os acontecimentos… Patricia (Amanda) Tenório awaits events…

Entre “Qu’est-ce que créer?”, Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela |Patricia Tenório[1]

30/12/15 10h00

Era uma vez (mais) um final de ano. Acontece (comigo) sempre uma espécie de Epifania[2] nesses últimos dias, nessas últimas horas de um calendário gregoriano. E quão bom saber (e sentir) que essa Epifania é provocada por um Livro, por uns Versos, e a Teoria que dele emana, que ele solicita, feito um filho pedindo (urgentemente) para nascer.

Abro a primeira página de Girândola[3], d’O Poeta de Meia-Tigela Alves de Aquino. Lembro do que aprendi em uma das disciplinas (Bases da Teoria), com uma das professoras do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, a também poetisa Prof. Dra. Lucila Nogueira:

– É preciso contextualizar o objeto a ser estudado, quer seja um escritor teórico, quer seja um escritor poético ou ficcional.

O Poeta de Meia-Tigela veio a mim de uma maneira meio que por acaso, meio que por “coincidência” – e eu não acredito em coincidências. Através de e-mails de “corrente do bem” – um escritor que apresenta a outro escritor que apresenta a outro escritor… – pela Internet, e ainda não o conheço pessoalmente. E o conheço, nos seus versos, nas suas tiradas cítricas e irônicas em relação ao mercado editorial brasileiro, quando se apresenta ao final de Girândola em “O Autor”:

O Poeta de Meia-Tigela nasceu Aves de Aquilino a 08 de agosto de 1968, em Brejo Santo, Ceará. Publicou em 2008 o Memorial Bárbara de Alencar & Outros Poemas. Em 2010 o Concerto Nº 1Nico em Mim Maior para Palavra e Orquestra. Poema (1º Movimento) e, em 2011, a reedição revista, ampliada e desmelhorada do Memorial. Este não foi traduzido para várias línguas: dentre as quais o espanhol italiano francês inglês alemão russo nepalês e náuatle. Em 2011 o Concerto não ganhou o Prêmio Jabuti apesar de não ter concorrido. Nos derradeiros anos a obra d’O Poeta de Meia-Tigela tem sido aclamada pela crítica nacional e internacional com estrondoso silêncio.[4]

Volto à primeira página de Girândola. Não exatamente à primeira página, mas à Epígrafe dessa minha Epifania. E encontro Hermann Hesse com um extrato de O jogo das contas de vidro.

Foi girando cada vez mais depressa e, por fim,

girando com enorme rapidez, rebentou,

espalhando-se pelo ar qual um punhado

de estrelas cintilantes.[5]  

Seguindo o conselho da professora Lucila – e essa “corrente do bem” de um escritor “chamando” o outro (“chamar” que vem de chamamento, vocação), também podemos encontrar essa “corrente” no método que adotaremos e que elucidaremos mais adiante –, seguindo o conselho da professora, apresento o segundo objeto de pesquisa de nosso estudo (“segundo”, mas em paralelo com o “primeiro”): o escritor nascido na Alemanha em 1877, e naturalizado suíço em 1923, Hermann Hesse.

Hesse foi contista, poeta, ensaísta e “editor de importantes obras da literatura alemã”[6]. Foi declaradamente contra o nazismo, escrevendo artigos na época da ascensão da ditadura. Viajou para a Índia em 1911 e a partir dessa experiência escreveu livros considerados místicos, ou mesmo foi rotulado como o “primeiro hippie”. Entre os livros, Sidarta (1922) e O lobo da estepe (1927). Utilizaremos no presente estudo O jogo das contas de vidro (1943), obra-prima que levou Hesse a receber o Prêmio Nobel em Literatura em 1946, e que, no nosso caso, além de relacioná-lo com a Poesia de Meia-Tigela, também tentaremos relacionar com a Escrita Criativa, objeto maior de estudo em que tenho me debruçado (insaciavelmente) nesses últimos dias (meses) do ano.

30/12/15 14h10

Assim como a Poesia (Tigela) e a Ficção (Hesse) me vieram de maneira “acidental”, meio que “por acaso”, a Teoria e a Crítica vieram ao meu encontro de uma maneira (um pouco) menos acidental. Estas vieram pelas mãos de minha orientadora de Mestrado na UFPE, a artista plástica, teórica da Literatura & Intersemiose, Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino.

Durante a escrita da dissertação O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, Nino me apresentou Qu’est-ce que créer?[7] (O que é criar?), do filósofo francês, nascido em 1º de dezembro de 1917, professor de filosofia no Liceu de Yaoudé e Universidades de Alger, Nantes, Abidjan e Poitiers, Jacques Rolland de Renéville.

Dividido em nove capítulos, Renéville cerca as fontes da criação por todos os ângulos possíveis e termina com um “Pastiche e Mistura” no IX Capítulo, quando “dialoga” com a obra de La Bruyère, para exemplificar e esclarecer os conceitos por nós apreendidos no transcorrer do livro. Além de nos apropriarmos de maneira “antropofágica” dessa técnica do filósofo francês, seguiremos o seu “desfiar do novelo” sobre a criação, sobre “O que é criar?”, ao mesmo tempo que tentaremos nos apropriar da técnica do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu (1963) utilizada em Birdman[8] (2014).

O filme narra a estória de Raymond Carver (Michael Keaton), um ator de filmes de heróis (Birdman) que se encontra no esquecimento de público e crítica e tenta montar um espetáculo em que protagoniza na Broadway de Nova York. O que tomamos para nosso estudo feito técnica é “como” Iñárritu narra a estória: uma sequência fílmica única, fluida, sem cortes, mas marcada pela presença de um baterista anônimo que toca uma peça de Jazz. O tempo do filme é único, linear. O nosso tempo tentará ser único, linear, um autor “chamando” outro, um texto “convocando” outro, e a nossa sequência textual “fluida”, “marcada” (apenas) pelo dia e hora do início de (cada) escrita.

30/12/15 17h35

O livro de Renéville começa estabelecendo uma relação entre o Mestre, o Escravo (ou Servo) e a Obra (Capítulo I).[9] Cada Ser Humano, ao se tornar Humano, ao galgar o degrau do Ser Animal à Civilização, se coloca em uma das duas primeiras posições acima. Ou é Mestre de outrem – dominador, possuidor, comandante –, ou é Escravo, Servo desse mesmo Mestre – o Escravo/Servo como dominado, despossuído, obediente. Mas Jacques de Renéville nos lembra: todos podem vir a se tornar Mestres e lutamos contra o maior dos Mestres, aquele inexorável, o Mestre dos Mestres: a Morte.

O filósofo afirma que a Morte é o que nos faz sair do lugar. Diante dela temos duas (e apenas duas) escolhas. Ou nos prostrarmos e imobilizarmos, “De que vale fazer alguma coisa, se iremos mesmo morrer um dia?”, ou nos erguermos e mobilizarmos, e lutarmos contra a Senhora Morte com todas as nossas forças, com “todos os átomos do corpo (e da alma) de Epicuro” através da produção, da criação da Obra.

O Mestre é aquele que possui consciência de si mesmo, enquanto o Escravo/Servo age de maneira inconsciente, levado por seu Mestre, levado pela “manada”. O Mestre prevê e provê, mas também explora e reprime o Escravo/Servo. Mas quando o Escravo/Servo consegue adquirir consciência de si, construir uma Obra com suas próprias mãos e ser “reconhecido” por seu Mestre, invertem-se os papéis, e o Escravo/Servo passa a ser Mestre do seu Mestre, e o Mestre passa a ser Escravo de seu Escravo.

            Paremos um pouco. Ouçamos a Música.

O pensamento dos parágrafos acima não pertence apenas a Renéville. Ele é originário do filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831) e apropriado, e transformado em um pensamento mais largo por Jacques Rolland de Renéville. A Morte é o Mestre Absoluto, mas também o Servo Absoluto, nos afirma Hegel/Renéville. Ela nos arranca da vida biológica, mas nos insere na vida do espírito. Ao se afastar da Natureza, ao cindir com a Natureza, o Ser Humano forja a Cultura, erige as paredes da Civilização e, ao mesmo tempo, mantém a alteridade, nasce a História. No a-Histórico, cada Ser Humano se descobriria como Mestre e Servo de si mesmo, o que nos faz lembrar de Erich Fromm no seu A Arte de Amar quando fala da Mãe e do Pai introjectados no Ser de Amor Maduro.[10]

31/12/15 10h20

Só o Homem morre; o Animal desaparece. A Verdade dessa afirmação nos faz constatar que nos alimentamos do Outro para nos “conservar”, nos alimentamos de outros animais, nos alimentamos de outros escritores, pensadores, Mestres de si mesmos.

(Jacques de) Renéville cita (Jean) Baudrillard (1929-2007) que em A Sociedade de Consumo (1970) nos apresenta os três momentos da evolução humana, do rompimento com o Caos-Natureza até chegar à Civilização-Organizada: a Lei Natural do Valor, na Renascença; a Lei Mercadológica do Valor, na Era Industrial; a Lei Estrutural, no Reinado do Código, nos dias atuais, quando o sistema “produz e reproduz os indivíduos em tanto que elementos do sistema”.[11] É quando chegamos a O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse.

Assim como a Epígrafe de Girândola, do Poeta de Meia-Tigela é dedicada a Hermann Hesse, a Epígrafe de O jogo das contas de vidro é dedicada aos “peregrinos do Oriente”. Segundo o astrólogo, músico e escritor brasileiro Waldemar Falcão que prefacia O jogo na edição utilizada no nosso estudo, “Hesse preservou na íntegra a sua rebeldia e a sua inesgotável capacidade de não se conformar com as verdades prontas e estabelecidas”.[12] Filho de pastores protestantes, Hesse caminha em direção ao Oriente, mas faz em sua última e maior obra, próximo de completar setenta anos, uma reverência e um “Pastiche e Mistura” das diversas religiões e filosofias que habitavam o seu pensamento.

O jogo é narrado em um livro dentro de um livro dentro de um livro… quando é dividido em uma Introdução (“Ensaio de introdução popular à sua história”), na “Biografia” propriamente dita de José Servo, o Mestre dos Mestres do Jogo de Avelórios, e suas “Obras póstumas”. Em um tempo (não tão) distante, 2200, existe uma sociedade fechada chamada Castália, para onde os jovens intelectuais almejam e se preparam (incansavelmente) desde a infância para ingressar. O Jogo de Avelórios é feito das contas de vidro e das disciplinas (Música, Matemática, Filosofia…) “misturadas” e ao mesmo tempo individuais. O intuito do “Jogo” – parece a nós estrangeiros de outros tempos – não é o “vencer”, mas o “aprender”, e esse “jogo do texto” que (também) foi trabalhado por Wolfgang Iser nos faz querer elevar ao infinito o movimento do jogo, numa semiose sem fim até encontrarmos o sentido, até nos preenchermos por inteiro, de maneira diferente da nossa sociedade atual, uma sociedade em que o consumo preenche de maneira provisória e descartável a alma sedenta do Ser Humano caído que apreendemos com Erich Fromm no estudo há algumas linhas citado.

“Assim como os pensadores devotos de tempos antigos representavam a vida das criaturas encaminhando-se para Deus, a variedade do mundo das aparências completa apenas na unidade divina, e só nela pensada até o fim, assim também as figuras e fórmulas do Jogo de Avelórios construíam, musicavam e filosofavam numa linguagem universal, que se fundamentava em todas as ciências e artes, num jogo livre e num anseio pela perfeição, pelo ser puro e pela plena realidade. ‘Realizar’ era uma expressão apreciada pelos jogadores, e eles sentiam que seu ato era um caminho do devir para o ser, do possível para o real.”[13]

Prometemos o estudo paralelo entre Girândola e O livro, entre Tigela e Hesse. E o segundo ilumina o primeiro quando descobrimos no volume de Poesia do autor cearense o agrupamento dos poemas explicitado no “Foguetório”, espécie de Sumário Posfaceado. “Oratórios”, “Profissão de Fé”, “Subversongs” e “As Musas Alheias”. Música, Ninfas, Astrologia, o “Sonetódromo” que salta do imaginário de Alves-de-Aquino-Poeta-de-Meia-Tigela e nos convida a um “Pastiche”, e nos induz a uma “Mistura” com “as contas de vidro” cósmicas do escritor suíço-alemão.

Astrologia

Em todo acontecente oculto lastro

há, das rotas dançantes dos cometas

Prende-nos um sutil mas sempre nastro

às esferas distantes aos planetas

Pensamos ser apenas nosso o rastro

que leva à high society ou às sarjetas

Quando as estrelas atam-nos ao mastro

do fado a nos pregar peças e petas

Vem do empíreo mais alto de alabastro

a luz que rege e faz nossas cabeças

Grande poder alcanço e aumento e alastro

porém pouco perante o agir de um astro

Por isso estamos juntos não te esqueças:

o céu o quis e o predisse Zoroastro[14]

31/12/15 13h40

Hegel em Renéville afirma que “ao criar o objeto, o escravo cria a si mesmo”.[15] Os versos de Tigela são forjados por ele e o constituem, as contas de vidro de Hesse brilham nas mãos do Mestre/Magister Ludi José Servo – um Mestre que é Servo ao mesmo tempo, assim como aquele de Nazaré afirmava sobre “quem desejar ser o maior se faça o menor dos pequeninos” –, ficando nós leitores com a missão de investigar melhor essa Obra que os constitui e os faz transcenderem a Morte, serem maiores do que a Morte passando a serem o Mestre dos Mestres de si mesmos.

No II Capítulo, “Da Obra”,[16] Renéville narra a história das necessidades humanas, daquelas mais básicas na Era da Espada, quando era preciso usar a espada como instrumento de luta para sobreviver; passamos pela Era do Ouro, ou o uso do instrumento do poder; chegamos à Era do Espírito, ou ao utilizarmos o instrumento do significado. Se erige Mestre aquele que enfrenta a Morte até o fim, ficando o Servo reservado àqueles que desistem ou permanecem humilhados em seu lugar – aprendemos com Renéville. O Mestre forja no “fogo portentor” a sua imagem e semelhança, fogo que foi analisado em A psicanálise do fogo do filósofo e poeta francês Gaston Bachelard (1884-1962).

“Para nós, que nos limitamos a psicanalisar uma camada psíquica menos profunda, mais intelectualizada, cumpre substituir o estudo dos sonhos pelo estudo do devaneio, mais especialmente, neste pequeno livro, o devaneio diante do fogo. Em nossa opinião, esse devaneio é extremamente diferente do sonho pelo próprio fato de se achar sempre mais ou menos centrado num objeto. O sonho avança linearmente, esquecendo seu caminho à medida que avança. O devaneio opera como estrela. Retorna a seu centro para emitir novos raios.”[17]

A Epígrafe de Girândola e o extrato de O jogo das contas de vidro retornam “ao centro” do nosso estudo “para emitir novos raios”. O Criador, Mestre e Servo de si mesmo – forjado no “fogo portentor” –, ao criar sua Obra, não somente “some” a diferença entre Mestre e Servo, mas, principalmente, a diferença entre Criador e Obra.

“Servo pertence à classe dos indivíduos venturosos que parecem ter nascido e ser predestinados para Castália, para a Ordem e o serviço das instituições oficiais de ensino; e, ainda que não lhe fosse desconhecida a problemática da vida espiritual, foi-lhe dado viver sem amargor pessoal a tragédia de uma vida dedicada ao espírito.”[18]

 

Bem-aventurado, o

Eu sei alguém não sei quem provavelmente uma namorada do pueritempo me escreve diariamente duas cartas de amor, acontece até agora não chegadas. Do outro lado do mundo outro alquem pensa positivissimamente em mim seu príncipe encantado, apenas ainda não coroado mas um belo dia. Sei nalgum lugar, deste lado mesmo do grão-pará, uma condecoração por honra ao mérito à minha espera há, falta ma entregarem. E se declino do nobel da paz não se deve tal pela medalha que receberei daqui a breve em atenção aos meus feitos militares porém em função de já me ter predisposto àquele nobel que mais me interessa, o de. Talvez vocês me julguem sobremodo sortudo quiçá bem-aventurado. Pode ser, alguns como eu parecem nascidos para terem tudo aquilo que nascem querendo ter. O que sei é que um pombo-correio diariamente voa à minha procura, duas cartas no bico, somente até agora nunca me encontrou[19]

 

            Ainda ouvimos aquela Música?

Investigamos a Criação e descobrimos no Capítulo III[20] de (quase) mesmo nome Renéville invocando a Intuição do filósofo e diplomata francês Henri Bergson (1859-1941), e nos lembramos do estudo que fizemos durante a nossa dissertação de Mestrado quando mergulhamos em sua Bíblia, A evolução criadora (1907).[21]

No livro de mais de quatrocentas páginas, Bergson trata da separação entre a Inteligência e a Intuição ao traçar um panorama das teorias evolucionista e criacionista, salientando a diferença do evolucionismo em Darwin – que ocorre por “variações acidentais” –, enquanto em Eimer e Lamarck seria naquele “uma influência contínua do exterior sobre o interior” e neste “a faculdade de variar em consequência do uso ou não uso dos seus órgãos”, e também a “de transmitir aos seus descendentes a variação assim adquirida”, trazendo para nós a maior das Criações, que seria a Poiesis.

Essa mesma Intuição – que é fonte de Vida, fonte de Criação –, encontramos na sequência de setas que é a Palavra de Meia-Tigela, a Poesia de Alves de Aquino apontando para a Prosa de Hermann Hesse, que por sua vez, híbrida de Teoria, nos aponta para O que é criar?, do filósofo e professor francês Jacques de Renéville.

A Palavra

Há que lidar com a Palavra

Com suma delicadeza

Permitir brote a beleza

Para além de toda trava

Tome-a como adversária

E arrisque-se por perdê-la

Cativá-la é calar (e Ela

Mostrar-se-á esposa e amásia)

Pôr-se a lutar e enfrentá-la

É acirrar sua aspereza

Mas transitar-lhe as veredas

É deixá-la ser a Fala[22]

 

“A obra do espírito, a obra da cultura e da arte, é exatamente o contrário [da História universal], significa sempre um rompimento com a escravização do tempo, uma libertação do homem da sujeira de seus instintos e da sua inércia para orbitar num novo plano, intemporal, liberto do tempo, numinoso, em tudo e por tudo anistórico e anti-histórico.”[23]

(São quatro horas da tarde. O ano em breve se encerra e eu a escrever (e transcrever) Verso, Prosa ou Teoria. Mas feito o Servo/Escravo que ao forjar uma Obra com as próprias mãos se forja, se constitui Mestre e Espírito, Liberdade e Pensamento, continuo (mais) um pouco nesta luta com as Palavras, nessa busca de Sentido.)

Jacques de Renéville lembra Platão que em A República narra a vida anterior, esse céu de Imagens primeiras, o conhecimento primeiro da Verdade a redescobrir. E compara-o a (Marcel) Proust que Em busca do Tempo Perdido encarna “o autor em um de seus personagens por homologia entre ele e seu Narrador”.[24]

            A Música muda de ritmo. Façamos uma pequena pausa.

Relacionamos essa “encarnação” de Proust em seus personagens e esse retorno às Imagens primeiras de Platão com o que descobrimos na disciplina Metodologia da Pesquisa Literária ministrada no Programa de Pós-graduação em Letras da UFPE pelo Prof. Dr. Antony C. Bezerra: o filólogo judeu alemão Erich Auerbach (1892-1957), durante a Segunda Grande Guerra Mundial, também escreve a sua Bíblia. Chama-se Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental,[25] e foi escrita no exílio do filólogo alemão em Istambul, Turquia, quando dispunha de uma parca bibliografia – o que torna sua memória ainda mais admirável. No livro de “mais de quatrocentas páginas”, Auerbach, analisando extratos de textos de Homero à Virgínia Woolf, expõe e aplica o seu conceito de Figura,[26] tema de outro livro de mesmo nome em que narra a origem do conceito na relação que os Primeiros Padres, os Pais da Igreja Católica – em especial São Paulo e Santo Agostinho de Hipona – traçaram entre figuras do Antigo Testamento, tais como Davi, Moisés, Elias…, e a figura do Cristo, aquelas como prefiguração do preenchimento perfeito realizado com a vinda do Messias, tanto há mais de dois mil anos, quanto na segunda vinda esperada para o final dos tempos.

01/01/16 15h15

(Um ano aponta para outro ano. Construímos a partir do Passado, perceptivos do Presente, em direção a um Futuro não muito distante. 2016 inicia e nossos estudos continuam na busca desse preenchimento pleno que nos traz o Sentido.)

O Capítulo IV de “O que é criar?”, “Obra e Ipseité”,[27] aborda o Criador “como aquele que se nega para se elevar em direção de um Todo Outro”.[28]  Ele sai de si – um si exterior – em busca desse Absoluto que o arrebata e o fascina – um Absoluto individual –, e o que chama o Criador a criar é ele mesmo.

Essa relação do dentro de si e fora de si do (mesmo) Criador comparamos com o conceito de Figura de Auerbach – uma “figura” do Antigo Testamento que aponta para a “figura” do Cristo no Novo Testamento e no além-Evangelhos, no além-Bíblia –, e o aproximamos do pensamento de Hegel em Renéville quando afirma que o “animal devorando outro ou copulando com outro nada mais deseja que a si”, assim como “o futuro criador, ao consumir as obras de criadores mais velhos, deseja ser criador ele mesmo”, ou seja, “fazer existir uma obra”, e esta obra “fará de si um criador”.

São os textos que apontam uns para os outros em Mimesis, de Auerbach, são os teóricos do nosso estudo que apontam uns para os outros, são o Poeta Tigela e o Prosista Hesse que apontam um para o outro num círculo sem fim, numa Girândola d’O jogo das contas de vidro.

O Fugitivo

Por que parto por que corro se a vejo?

Por que fujo se a sinto aproximar-se?

Azulo se me bate o relampejo

De pensar e se agora ela chegasse?

Eis que desapareço percevejo

Jamais ousando olhá-la face-a-face

Tão logo seu andar ouço ou farejo

Me coiso me outro à mão qualquer disfarce

– Se abalo se me mando sem porquê

É que o meu gosto é tanto por você

Que só de imaginar correspondência

Temo perder o sumo da existência

Desse amor que lhe voto sem tenência:

Para mantê-lo, sumo, pererê[29]

 

“Quero assinalar apenas que a criação espiritual é alguma coisa da qual não podemos [os castálicos] propriamente participar, como muitos pensam. Um diálogo de Platão ou uma composição coral de Heinrich Isaac e tudo o que denominamos ação do espírito, obra de arte ou espírito objetivado são fechos, resultados finais de uma luta pela purificação e libertação; são, por assim dizer, como o designas, erupções do tempo no intemporal, e, na maioria dos casos, as obras mais perfeitas são aquelas que não deixam suspeitar as lutas e os combates que as precederam.”[30]

Parece que o motivo para essas “setas” entre textos, dessa Palavra “Fugitiva” que tentamos capturar e segurar ao máximo em nossas mãos feito “pedras quentes”, o motivo parece estar na constatação que perceber, “compreender, dar sentido, constituir, falar, é usar de um significante como significado lá onde o em si é roubado, nada mais oferece que o vazio”.[31]

“A constituição é uma substituição”, continua Renéville na mesma página do parágrafo anterior. E ainda na mesma página do parágrafo anterior, de maneira saussurreana, “o significado significa ao substituir o referente com o significado, o signo em lhe substituindo sua significação”.

O mundo nos constitui, assim como na criação as relações entre signos e significações já existentes são renovadas pelo artista Criador, naquele que impinge – ao mesmo tempo que em si impinge – um sentido todo novo, uma expressão toda própria e individual de uma Obra de arte.

No Capítulo V, “As duas fontes da criação”,[32] Jacques de Renéville nos ensina que informatizar é “tratar automaticamente todas as informações que se prestam”, informação como “elemento ou sistema de elementos que podem ser transmitidos por um sinal ou um sistema de sinais”.[33] Descobrimos que é informatizável em uma Cultura “o que é automatizável”. Ou, em outras palavras, “tudo menos o essencial”.

O que pode ser imitado, reproduzido, transcendido, traduzido, transmitido, codificado, mecanizado: não faz parte do essencial. Do essencial faz parte a Criação, o ato livre “no qual o que é vem a não ser enquanto o que não é ainda vem a ser”.[34]

O Homem é aquele que nega, afirma Renéville na página 76. Mas ele só pode negar “alguma coisa”, aquilo que já existe, o que lhe impõe “uma resistência criativa”. Nós “não negamos, não esculpimos, não escrevemos nem compomos no vazio” – na mesma página 76. Então nos lembramos de uma outra obra “essencial” de Hermann Hesse, obra que nos meus 35 anos mudou inteiramente a minha vida.

Trata-se de O lobo da estepe. Escrito quando Hesse havia completado 50 anos, sobre um personagem aos 50 anos (Harry) – e eu “não acredito em coincidências” –, trata desse vazio que Renéville afirma que não podemos “negar”, que precisamos “resistir”, e superar, e transcender nos últimos instantes de um ano, nas primeiras horas de uma nova vida, de uma nova Obra que almejamos, e lutamos incessantemente para construir, ao mesmo tempo que nos construímos.

“– É para mim uma alegria, meu caro Harry, poder tê-lo um instante como hóspede. Você tem andado frequentemente desgostoso da vida e com ânsias de deixá-la, não é verdade? Tem ansiado abandonar este tempo, este mundo, esta realidade, e entrar numa outra realidade que lhe seja mais adequada, num mundo intemporal. Pois faça-o, meu amigo, eu o convido a isso. Você já sabe onde se oculta esse outro mundo, já sabe que esse outro mundo que busca é a sua própria alma. Só em seu próprio interior vive aquela outra realidade por que anseia. Nada lhe posso dar, que já não exista em você mesmo, não posso abrir-lhe outro mundo de imagens além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível seu próprio mundo, e isso é tudo.”[35]

Criar é “pôr para fora” o que há “para dentro”. É exteriorizar até o que não sabemos existir em nós mesmos, e que só nos é possível (entre)ver ao manusear o barro, ao esculpir o mármore, ao (ins)escrever no papel, computador aquelas palavras que “me surpreendem e me ensinam meu pensamento”[36] – já dizia Maurice Merleau-Ponty em Jacques Rolland de Renéville.

Estamos tratando das “duas fontes da criação”. Descobrimos com Renéville (e com os linguistas) que toda língua possui duas funções. A função referencial, ou aquela de “transmitir sobre o objeto descrito uma informação verdadeira, objetiva”, e a função emotiva, ou aquela que transmite “sobre o objeto descrito uma impressão subjetiva”.[37]

Dois são também os tipos de pensamento.[38] O pensamento arcaico, selvagem do “princípio dos tempos” humanos, quando havia mais a necessidade de “celebrar um mistério” do que “uma verdadeira comunicação”, a necessidade de mais comunhão e “formas coletivas de participação”, em um regime totalmente “polissêmico”. O pensamento selvagem, arcaico, polissêmico não percebe nada “que não seja misturado”, ele “ordena o universo ao redor do princípio geral da analogia”, estabelece relações “entre todos os componentes do mundo” por estar mergulhado em um Todo Uno e Absoluto.

Em oposição aos signos polissêmicos de “prestação total”, encontramos os signos “monossêmicos”, ou fundados no direito romano. Os signos monossêmicos são aqueles da “inteligibilidade objetiva” e os signos polissêmicos são aqueles da “expressividade subjetiva”. Descobrimos esse “Pastiche e Mistura” de monossemia e polissemia na obra do filósofo e poeta francês anteriormente (um pouco) analisado neste estudo, Gaston Bachelard, essa “mistura” de Teoria com Poesia, Crítica e Ficção, Vida e Arte.

            Ouçamos um pouco mais de Música. Paremos um pouco mais no Espaço.

A Cultura nasce na independência do “sujeito falante” ou que gesticula: ela nasce na Escritura. E o que na mesma Cultura resiste à informatização é a Criação de Sentido, tanto aquela espontânea “no seio da polissemia vivida” quanto aquela “liberada pela escolha de combinações novas entre elementos monossêmicos e polissêmicos”. O Poeta e o Prosador “cantam”:

 Carme

Os cabelos ao vento versos livres

correndo estrada leves andarilhos

Os olhos pirilampos loucos ivres

que ofuscam cegam com seu estrib(r)ilho

A boca da menina é um rubai

trova quadra ao sabor oriental

Os seios pequeninos dois haicais

Nem Bashô conseguiu fazer igual

O ventre labirinto e desvario

no qual me entranho saio e readentro

As nádegas balada cujo envio

não se dá ao fim mas em pleno centro

Alma a essência sutil de um paracleto

em que me embebo e escrevo este soneto[39]

 

“Minha vida deveria ser um transcender, foi esse o propósito que tomei. Devia ser um progredir, de degrau em degrau, em que os espaços, um após o outro, deveriam ser trilhados e abandonados, da mesma forma como uma melodia se inicia, se desenvolve e chega ao fim, tomando e deixando tema após tema, compasso após compasso; jamais se cansa, nunca adormece, sempre alerta, sempre perfeitamente presente. Procurando relacionar isso com a experiência do ‘despertar’, notei que existem tais degraus e espaços e que o último período de cada capítulo da vida traz em si uma tonalidade de fenecimento e desejo de morrer.”[40]

Porque Criar é “exercer sua liberdade, escolher a angústia”.[41]

02/01/16 10h15

(Hoje foi o primeiro banho de mar do ano. No mar alivio a angústia de criar, ao mesmo tempo que me insiro, que mergulho por inteiro na Criação. Volto renovada aos meus escritos, pressentindo o fim, o fim que poderá ser o início de um Todo Novo.)

Renéville, no Capítulo VI, “O sentido e o som”,[42] descreve a Prosa como aquela que “usa a linguagem como um meio” e a diferencia da Poesia por ser o Prosador aquele que “se serve das palavras para ir direto às coisas”, enquanto o Poeta “se desvia das coisas ou as utiliza para servir as palavras”.[43]

Na origem dos signos, linguísticos ou não, sua função era encantatória. Entre a representação e aquilo que os signos originais representavam havia “mais que relação”, havia “identidade”. O Poeta – e o tomemos aqui como Profeta, no sentido (pre)figural de Auerbach – era aquele que “constrangia” os signos linguísticos a “serem” sua própria significação. Da mesma forma que “Deus disse ‘que a luz se faça’ e a luz se fez”, o sujeito falante, o Poeta cantante se apropria da Palavra, faz a Palavra ecoar através de suas cordas vocais, e essa Palavra “faz infinitamente melhor que exprimir a realidade, ‘ela é esta realidade’ (…)”.[44]

Descobrimos que escrever, ler em silêncio é uma maneira de transformar o mundo, lá onde “os signos criam o que significam sem material”, sem a voz que ecoa e soa através de nossas cordas vocais. A grande herança que recebemos dos antigos Gregos foi que, através do signo escrito, eles conseguiram “fazer uma só coisa do sonoro e do sentido”.[45]

            Faz tempo não ouvimos aquela mesma Música.

“Sentou-se e tocou com esmero, bem baixinho, um movimento daquela sonata de Purcell, uma das peças prediletas do Padre Jacobus. O som caía no silêncio como gotas de luz dourada, tão de leve, que não impedia de ouvir o cantarolar do velho chafariz no pátio. As vozes da graciosa música encontravam-se e cruzavam-se suaves e serenas, parcimoniosas e doces, percorriam corajosas e mansas sua doença interior através do vácuo do tempo e da efemeridade, tornavam o espaço e a hora noturna, durante a curta extensão de sua duração, imensos, da dimensão do universo. Quando José se despediu do hóspede, este mostrava um rosto mudado e iluminado e tinha lágrimas nos olhos.”[46]

 

Tetralogia da incomunicabilidade (α)

Que dizer há muito

Mas dizer sem boca

A garganta é rouca

Para tal assunto

Assunto, coitado

Que fica onde está

Nenhum verso dá

Conta do recado

Recado sisudo

Que morre na toca

A palavra é pouca

Não toca o profundo[47]

 

Na origem dos signos, emitir um som era a reação “ao contato do real”. Com o passar dos tempos, se transforma no “forjar a menor unidade vocal de uma combinatória”, com o intuito de responder “ao infinito os aspectos do mundo”.[48]  Somente com a Escritura, é possível a transformação “efetiva” e não “virtual” do Som em Sentido.

É na Escritura Ideográfica, lá nos tempos do Mesolítico, que se inaugura essa efetivação, que se inscreve essa eternização do Som em Sentido. Mas ainda a Escrita era Escrava da Imagem. A sua libertação só ocorre com o Alfabeto Fenício, entre os séculos XIII ou XII a.C..

No Alfabeto Fenício se ligava “diretamente”, sem a mediação “paralisante” de qualquer “representação”, a coisa significada por um Som à “inicial da palavra significante”. Com isso, além do que já existia, ou seja, o signo sendo “um” com a coisa significada, no signo escrito, o signo se fazia “uma só e mesma coisa do sonoro e do sentido”.[49]

A “imagem acústica” do significante, a “marca psíquica” do Som que nos ensina Saussurre, através de Renéville, (através de Tenório, (através de…)) nos foi apresentada no estudo sobre “O que é, pois, o Tempo?”, do pensador cristão e (pre)figural Agostinho de Hipona (354-430) em suas Confissões.

Em mais uma Bíblia do presente estudo, encontramos Agostinho mergulhado na questão de como pode ser medido o Tempo, ou melhor, como pode existir o Tempo se o mesmo foi criado a partir do Eterno, quando não havia Tempo, quando não havia Espaço. O Deus Todo Poderoso de Agostinho eternamente proferiu a Palavra original, e “se fez luz”, os planetas, os animais e todos os seres vivos foram criados e nomeados por sua Criatura escolhida e forjada à sua imagem e semelhança: o Homem. Essa Palavra original proferida, foi coeternamente proferida no “Verbo que se fez carne e habitou entre nós”, assim como na chama flamejante do Espírito Santo, e que está na base do conceito de Figura que vimos com Auerbach. Mas como pensar o Tempo? – continua a se perguntar o Santo de Hipona – e a pergunta ao encontrar a resposta perfaz o Mito da Criação.

Ele toma então uma Música – barro utilizado por Tigela e Hesse – e faz ressoar um acorde. O acorde ressoa em suas cordas vocais, arranha suas cordas vocais passando do (Presente do) Futuro da Expectativa através do (Presente do) Presente da Percepção até habitar a Memória do (Presente do) Passado – notem os (Presente)(s) entre parênteses para nos lembrar que, segundo Agostinho, só o que existe é Presente.

“Fixa o olhar onde desponta o amanhecer da Verdade. Supõe, por exemplo, que a voz de um corpo começa a ressoar, ecoa, continua a ecoar e cala-se. Fez-se silêncio… a voz esmoreceu… já não é voz. Era futura antes de ecoar e não podia ser medida porque ainda não existia, e agora também não é possível medi-la porque já se calou. Nesses instantes em que ressoava era comensurável, porque então existia uma coisa susceptível de ser medida. Mas mesmo nesses momentos não era estável. Ia esmorecendo e passava. Não seria por acaso esta instabilidade ou movimento o que a tornava mensurável? Com efeito, ao esmorecer, estendia-se por um espaço de tempo pretérito onde seria possível medi-la, já que o presente não tem nenhuma extensão.”[50]

Renéville nos conduz aos Pintores que introduzem uma “dimensão temporal no universo espacial de sua tela”, e aos Músicos que “introduzem como um equivalente do campo espacial na duração sonora”.[51] Além de coincidirmos essa troca de dimensões em cada arte (o temporal no espacial na Pintura, o espacial no temporal na Música) com a técnica de sequência fílmica sem cortes (e que nos dá a sensação de Tempo único, todo no Presente) utilizada por Alejandro González Iñárritu em Birdman, traçamos uma conexão com o espaço quadridimensional de Minkowski, utilizado por Albert Einstein na descoberta da sua Teoria da Relatividade, utilizado por mim na escrita da dissertação de Mestrado quando tratei do “que é, pois, o tempo?” em O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

“[…] o universo dos eventos físicos, que Minkowski chamou simplesmente de “mundo”, é por natureza quadridimensional, no sentido do espaço-tempo. Pois ele se compõe de eventos individuais, cada um dos quais descrito por quatro números: três coordenadas espaciais x, y, z e uma coordenada temporal, o valor t do tempo.”[52]

02/01/16 14h20

O VII Capítulo, “Música, Matemática e Metafísica”,[53] de O que é criar? trata da confluência dessas três disciplinas, confluência que vem desde a época de Plotino quando este afirma que “a procissão a partir do Uno, mal ela se destaca do Logos, a ele retorna, se ‘converte’ em direção ao Uno, e deve alcançar de coincidir de novo com ele, o imita em o contemplando”.[54]

Muito falamos da Música no presente estudo. Estamos mergulhados nela. Mas a Matemática e a Metafísica com a Música também se “misturam”, e as duas primeiras surgem “simultaneamente”, ou melhor, de maneira “indiscernível”, porque surgem de uma progressão contínua do signo que depende do sentido, em direção ao sentido que depende do signo.

Descobrimos que o nascimento da reflexão se faz com o nascimento do “negativo”. E mais uma vez nos lembramos de Agostinho quando em suas Confissões, Livro XIII, tratando (desta vez) sobre a Paz, pergunta como pode existir o Mal se Deus é todo Bem, se Deus permite a existência do Mal feito acreditam os Maniqueístas, e conclui que assim como a Escuridão é a ausência da Luz, o Mal é a ausência do Bem, a ausência de Deus, pois a “obra da criação é essencialmente boa”.[55] É preciso haver “algo” para que possamos negar, pois como vimos na “página 76” com Renéville, “não negamos, não esculpimos, não escrevemos nem compomos no vazio”.

As séries matemáticas, apesar de abstratas, apesar de “construídas a priori, de costas para a experiência”, se refletem na Natureza que “obedece docilmente”, porque a “Vida imita a Arte, muito mais do que a Arte imita a Vida”[56] – já nos disse Oscar Wilde no seu ensaio romanceado “A Decadência da Mentira”.

A Música e a Matemática propõem, determinam o que a Metafísica nega ou interroga – ela tem por princípio ser interrogativa. Ela não é uma tese – é antes uma hipótese. Não governa, feito os “teoremas do matemático”, mas indica, sugere, coloca sempre em questão, gera sempre dúvidas, o incerto, o “nem aqui nem lá”. A Metafísica nos parece estar nesse “entrelugar” da infinita semiose, se preenchendo e esvaziando, sugerindo e desaparecendo, que continua em movimento contínuo feito a nota de Música que ressoa nas cordas vocais de Agostinho, feito a sequência fílmica de Alejandro González Iñárritu em Birdman, feito o “jogo do texto” de Wolfgang Iser, O jogo das contas de vidro da Poesia nas “Obras póstumas de José Servo” em Hermann Hesse, a Girândola sem fim da Prosa Poética de Alves de Aquino, o Poeta de Meia-Tigela – esse jogo de “encarnações” (do autor no personagem) e “pseudônimos” (do autor nele mesmo) é também Figura (se pensarmos bem, “tudo é Figura”),  é também “proposital-intuído”.

Lamento

A nós não foi doado um ser.

Somos apenas correnteza,

Fluímos de bom grado pelas formas:

Pelo dia e a noite, a gruta e a catedral.

Por elas penetramos, incitados

Pela sede de ser.

Assim nós vamos sem repouso,

Enchendo as formas uma a uma,

Sem que nenhuma delas seja para nós

A pátria, a ventura ou a dor.

Estamos sempre a caminhar,

Somos sempre visitantes,

Não ouvimos o apelo do campo nem do arado,

Para nós não cresce o pão.

Os desígnios de Deus sobre nós nada sabemos,

Ele brinca conosco, barro em sua mão,

O barro que é mudo e tem plasticidade,

Que não sabe nem rir nem chorar:

Barro amassado, porém jamais queimado.

Ah! Quem me dera transformar-se em dura pedra!

Permanecer enfim!

É que nós aspiramos à eternidade,

Mas nossa aspiração é apenas,

Eternamente, um medroso tremor,

E não virá jamais a ser repouso em nossa via.[57]

 

“O réu foi julgado culpado Formou-se um júri para julgar os que o julgaram e estes foram julgados culpados Formou-se outro júri para julgar os que julgaram os que julgaram o réu e foram também julgados todos, culpados Então foram sendo formados júris, continuamente formados e continuamente julgando culpados os anteriores jurados até que num júri bastanto afastado daquele original que julgara o primeiro réu, alguém, um só jurado, deu por inocente o júri anterior sob seu cuidado Mas essa sentença bastou para que esse jurado fosse, por sua vez, inocentado e com ele o júri de que era jurado e com este júri os júris passados até que se resgatou o primeiro cãodenado, o réu, julgado desculpado”[58]

 03/01/16 09h40

(Há umas duas horas retornei da missa. Hoje é celebrado na Igreja Católica o dia da Epifania do Senhor. Na Igreja Primitiva – nos explica Pe. Nilo Luza no “jornalzinho-missal” –, a festa da Epifania era considerada mais importante que o Natal, por trazer o anúncio, a revelação de que o Cristo será conhecido por todos os povos, do Ocidente ao Oriente.

É sempre difícil (para mim) terminar de escrever um texto. Colocar um ponto final. Mas é preciso encerrar o número de páginas, até para que se possa “virar” mais uma página de nossas vidas, para que se possa ir em frente, continuar.)

Jacques Rolland de Renéville no XIII Capítulo[59], penúltimo capítulo de O que é criar ?, Qu’est-ce que créer?, “O eu e o outro”, Renéville trata da Obra em um triplo movimento. Ela começa com um salto para fora de si (do Criador) em direção ao Absoluto.  Em seguida trava-se (no Criador) um combate ao vazio, uma “negação” ao que já existe, pois “não se cria a partir do nada”. Até chegarmos ao retorno a si, a Criação de si mesmo como autor que a Obra permite, dá, proporciona.

Ter consciência de uma falta é o que forja o Ser Criador. Ousadamente comparamos o Criador Humano ao Criador Divino quando este, em meio à eternidade, ergue do barro a sua Criatura, Criatura feita à sua imagem e semelhança e para quem é dado também possuir o poder de criar. Na falta da Criatura, Deus criou. Na falta por algo em si, o Artista cria.

Essa falta nos atira para fora de si. Nos faz sair de um ano (2015) para outro (2016) na busca (insaciável) de ao Passado negar, ao Presente manipular o barro, para ao Futuro lançar um Ser Humano renovado. Ao deixar para trás os “nãos” da Vida, as “negações” do Mundo, vou ao encontro de textos novos – A menina do olho verde, texto ficcional de cinquenta páginas escrito em dez dias no mês de outubro de 2015, o presente estudo “forjado” nesses cinco dias de escrita (e me arrisco a “profetizar”, em vinte e cinco páginas) –, textos que me retiram do lugar, me perfazem Criadora ao mesmo tempo em que crio, relacionados com o já escrito, mas de uma maneira totalmente nova, totalmente heraclitiana desse rio que não pára nunca que é a Criação.

No artigo “Aventuras Artísticas: Incoesão e Coerência”, a minha orientadora de Mestrado, Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino distingue “coesão” e “coerência” nas obras de arte desse “Pastiche e Mistura” que é a nossa sociedade contemporânea. Ela narra que desde os dadaístas, houve a “abolição dos gêneros”, a “ democratização da arte”, mas que podemos (e devemos) ainda separar a “obra específica” – aquela “que se liga a um momento na carreira específica de um autor” – da “obra trajetória” – “que corresponde ao projeto poético de um dado artista” e engloba as “diversas fases e série de obras específicas por ele criadas ao longo de sua carreira”.

Nino nos fala também do “prazer do jogo”, essa dimensão experimental do homo ludens, do Criador, pois quando “um ser humano aprende algo, ultrapassa uma etapa, se torna mais lúcido e consciente sobre sua própria condição humana”. Podemos comparar essa reflexão de Nino com o caráter lúdico da Prosa Poética do Magister Ludi José Servo/Herman Hesse de O jogo das contas de vidro, a Palavra giratória da Girândola do Poeta de Meia-Tigela/Alves de Aquino, a experiência sublimatória nesses cinco (últimos) dias da autora que lhes escreve.

Renéville nos desperta desse nosso sonho criador, dessa nossa reflexão em círculos de autores, dessa sequência textual fluida e nos mostra que assim como os grandes poetas do século XVIII reescreveram as tragédias dos antigos gregos, a negação transformou Karl Marx no autor do Capital, o beijo ansiosamente aguardado fez Marcel Proust escrever páginas e páginas do Em busca do tempo perdido, ou possibilitou a ficcionalização da escrita de Romeu e Julieta e Noite de Reis por William Shakespeare em Shakespeare in Love (Shakespeare Apaixonado)[60] (1998).

“É porque o superego desvia nossas necessidades orgânicas de sua satisfação natural e lhes transpõe a um outro nível, ele as censura, as comprime, as sublima, que do homem surgem a arte, a literatura, a religião, a civilização”,[61] explica Renéville.

E ao chegarmos ao IX Capítulo de Qu’est-ce que créer?, às 11h09 do 03/01/2016, olhamos para trás nos perguntando se conseguimos realizar um “Pastiche e Mistura” entre O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, que por sua vez foi apontado pelas Girândola(s), de O Poeta de Meia-Tigela Alves de Aquino, que por sua vez foram apontados por Tenório e relacionados com Renéville…, ao chegarmos ao último capítulo do livro que nos serviu de base teórica, de novelo de lã que desfiamos e desfiamos de maneira (o mais possível) fluida, descobrimos uma série de entrevistas elencadas por Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino – o “inesperado bom” de Clarice Lispector – e não nos encontramos mais sós. Descobrimos nas entrevistas artistas franceses de diversas áreas, com diferentes projetos, mas semelhantes buscas, similares necessidades – até mesmo “ansiedades” – que as da autora que lhes escreve.

Em “Les secrets de la creation” – que pertence à revista Télerama n. 2175, de 18 de setembro de 1991, p. 12-26 –, um cantor (Claude Nougaro), um arquiteto (Paul Chemetov), um diretor de teatro (Patrice Chereau), um pintor (Zao Wou-Ki), um escritor (Michel Tournier), um compositor (Henri Dutilleux), um fotógrafo (Jean-Marc Tingaud), um cineasta (Jacques Doillon), e uma designer (Andree Putman) nos “relevam” – alguns não os “revelando” – os segredos de sua Criação. Alguns segredos compartilhados por mim e/ou pelo autor de Qu’est-ce que créer?: Criar é “traduzir as notas em palavras, os sons em sentidos” (Nougaro, p. 14); “cada material está em uma certa relação com os outros” (Chemetov, p. 15); “alcançar sempre descobrir sensações novas, ideias novas realizando cem vezes a mesma cena” (Chereau, p. 16); “Existem alguns momentos de milagres, mas é raro. Prefiro um trabalho contínuo e depois isso [a obra] vem pouco a pouco” (Wou-Ki, p. 18); “Para mim, é  todo o romance que é um ser vivo. Eu o educo, eu o alimento, eu obedeço às suas injunções que são às vezes terríveis” (Tournier, p. 20); “As obras às quais eu repenso com o maior prazer são aquelas em que, para me renovar, eu me impus esses riscos” (Dutilleux, p. 22); “Se eu fotografo, é para os outros… Para mim, a imagem, eu a posso ter na cabeça por anos” (Tingaud, p. 23); “Agora, o único meio de retornar a si, é recomeçar a escrever. Cada novo filme é a borracha que apaga o precedente. Mas talvez retracemos sempre o mesmo sulco, talvez nos repitamos! Se nós retornamos ao mesmo ponto, isso seria insuportável” (Doillon, p. 25); “Eu tinha naquela época o desejo de uma imensa superfície vazia – um dos primeiros lofts parisienses. E tive prazer em deixá-lo vazio. No vazio, esquecemos tudo…” (Putman, p. 26).

Os cinco dias de escrita. As vinte e cinco páginas (pro)(metidas)(fetizadas). Não repito erros (será?) antigos de publicar uma Epifania assim que escrita. Deixo o texto amadurecer para que possa transparecer (e prevalecer) o que é melhor em mim. Ou encerrando com os três Teóricos Poetas, os três Críticos Profetas que, feito os Três Reis Magos, anunciam a Epifania do Senhor para todos os povos, “peregrinos do Oriente” e do Ocidente.

“Mas suceder, ou mesmo proceder, não é resultar. A obra traduz a situação de seu autor mas em a transpondo, ela nada mais é que o conjunto de detritos de um esforço por se elevar acima de si, que fracassou, ‘um pouco mais alto’ ou ‘um pouco mais baixo’”.[62]

Um haicai

Meu sangue se esvai

(e vão as gotas no chão

compondo um haicai)[63]

 

“Depois do ardor e empenho da luta pelo seu reconhecimento, sobrevinha-lhe agora um despertar, um arrefecimento e desilusão. Achou-se no âmago de Castália, na mais alta Hierarquia, e percebeu com admirável sobriedade, quase até decepção, que era possível respirar essa tênue atmosfera, mas que ele, que a respirava agora como se nunca tivesse conhecido outra, estava sem dúvida completamente transformado. Era o fruto desse árduo período de provas que havia purificado como nenhum outro cargo, nenhum outro esforço havia feito até então.”[64]

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* Para baixar o arquivo em PDF: Entre Qu-est-ce que créer – Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela – Patricia (Gonçalves) Tenório – 301215

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(1) Patricia (Gonçalves) Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Está no prelo, a ser lançado em abril de 2016 pela editora espanhola Mundi Book Ediciones, Vinte e um / Veintiuno, uma coletânea em português e espanhol de vinte e um contos escritos entre novembro de 2011 e janeiro de 2014. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, com o anexo, o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(2)  Uma “Epifania” semelhante a essa aconteceu em http://www.patriciatenorio.com.br/?p=5923. Escrito em 02/01/2015. Última atualização: 25 de janeiro de 2015.

(3) TIGELA, O Poeta de Meia-. Girândola. Fortaleza, CE: Substânsia, 2015.

(4) TIGELA, o Poeta de Meia-. Op cit., p. 113, negrito nosso.

(5) HESSE, Herman apud TIGELA, o Poeta de Meia-. Op cit., p. 11.

(6) HESSE, Herman. O jogo das contas de vidro. Tradução: Lavínia A. Viotti e Flávio Vieira de Souza. Rio de Janeiro, RJ: BestBolso, 2007, p. 1.

(7) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Qu’est-ce que créer?. Paris, France: Librairie Philosophique J. Vrin, 1988 – Tradução nossa para este estudo.

(8) Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance). Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). 2014. 119 min. Estados Unidos da América. Direção: Alejandro González Iñárritu. Com Michael Keaton, Zach Galifianakis, Edward Norton, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Emma Stone, Naomi Watts.

(9) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 9-23.

(10) Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6362. Escrito em 07/12/2013. Última atualização: 13 de dezembro de 2015.

(11) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 19.

(12) FALCÃO, Waldemar apud HESSE, Hermann. Op cit., p. 10.

(13) HESSE, Hermann. Op cit., p. 53.

(14) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 89.

(15) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 22.

(16) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 25-44.

(17) BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. Tradução: Paulo Neves. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, (1949 in) 2008 – (Tópicos), p. 22.

(18) HESSE, Hermann. Op cit., p. 61.

(19) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 21.

(20) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 45-64.

(21) BERGSON, Henri. A evolução criadora. Tradução: Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Ed. UNESP, (1907 in) 2010, p. 89-93.

(22) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 36.

(23) HESSE, Hermann. Op cit., p. 331, colchetes nossos.

(24) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 51.

(25) AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Vários tradutores. São Paulo: Perspectiva, (1946 in) 2011.

(26) AUERBACH, Erich. Figura. Tradução: Duda Machado. Revisão da tradução: José Marcos Macedo e Samuel Titan Jr. São Paulo: Ática, (1938 in) 1997.

(27) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 65-73.

(28) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 65.

(29) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 60.

(30) HESSE, Hermann. Op cit., p. 332, colchetes nossos.

(31) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 70.

(32) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 75-86.

(33) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 75.

(34) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 75.

(35) HESSE, Herman. O lobo da estepe. Tradução e Prefácio: Ivo Barroso. 29ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 189.

(36) MERLEAU-PONTY, Maurice apud RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 77.

(37) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 78.

(38) Os próximos dois parágrafos encontram-se em RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 78-79.

(39) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 98.

(40) HESSE, Hermann. Op cit., p. 477-478.

(41) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 85.

(42) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 87-103.

(43) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 87.

(44) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 90, itálico da edição francesa.

(45) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 87.

(46) HESSE, Hermann. Op cit., p. 379-380.

(47) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 66.

(48) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 97-98.

(49) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 98-99, itálico da edição francesa.

(50) AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução: L. Oliveira e A. Ambrósio de Pina. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, (397 in) 2013 – (Vozes de Bolso), Livro XI, p. 286.

(51) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 101.

(52) EINSTEIN, Albert. A Teoria da Relatividade: sobre a Teoria da Relatividade especial e geral (para leigos). Tradução: Silvio Levy. Porto Alegre, RS: L&PM, (1916-1917 in) 2013, p. 68-69, itálico da tradução.

(53) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 105-116.

(54) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 107, itálico da edição francesa.

(55) AGOSTINHO, Santo. Op cit., p. 352 e 353-354.

(56) WILDE, Oscar. A Decadência da Mentira. In Obra completa. Volume único. Introdução geral e Nota editorial, Ensaio Biográfico-Crítico, Bibliografia, Cronologia da Vida e da Obra: James Laver. Tradução: Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, (1891 in) 2007, p. 1087.

(57) HESSE, Hermann. Op cit., p. 517-518.

(58) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 53. Esse trecho de Girândola intitula-se “Antikafkiana”, dentro de “Kafkiana”, que não nomeamos por questão de estilo, tendo visto que não trouxemos os títulos da Prosa de Hesse, e quisemos propositalmente “trocar de lugar” com a Poesia de Tigela.

(59) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 117-129.

(60) Shakespeare in Love. Shakespeare Apaixonado. 1998. 123 min. Estados Unidos da América e Reino Unido. Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman / Tom Stoppard. Com Gwyneth Paltrow, Joseph Fiennes, Judi Dench, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Collin Firth, Ben Affleck, entre outros.

(61) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 128.

(62) RENÉVILLE, Jacques Rolland de. Op cit., p. 129.

(63) TIGELA, O Poeta de Meia-. Op cit., p. 26.

(64) HESSE, Hermann. Op cit., p. 272-273.