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Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 2018

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O tempo                                     A viagem

                         O amor                            A imagem    

O mito                                        A música

                         O sonho                           O fogo

Encontros mensais e temáticos para, a partir da Teoria, estimular a Criatividade na Escrita de Ficção, Poesia, Ensaios Teórico-Poéticos. Em cada cidade, participação especial de escritores locais falando sobre seus processos criativos.

* Patricia Gonçalves Tenório é escritora, mestre em Teoria da Literatura (UFPE), doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS). 

Índex* – Abril, 2017

Perdi

A capacidade de dizer

Bom dia

Senti

A necessidade de dizer

Te amo

Mas as palavras 

Não estavam lá

Não estão aqui

Dentro do meu

Peito

Soltas na minha

Língua

Para saírem

Quando quiserem

Quando puderem

Fazer um mundo

Mais colorido

Trazer o sonho

Para o dia-a-dia

E amanhecer em mim 

Um gosto bom

De infância

(“O fim das lentes cor-de-rosa”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 23/04/17, 05h02)

 

A capacidade de transmutar Vida em Poesia no Índex de Abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Pequeno conto circense (e prefigural) | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

Sobre “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

Un Poema de Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Agradeço o carinho e participação, a próxima postagem será em 28 de Maio de 2017, um abraço bem grande e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – April, 2017

I’ve lost

The ability to say

Good Morning

I felt

The need to say

I love you

But the words

They were not there

They were not here

Inside my

Chest

Loose in my

Tongue

To get out

When they want

When they can

Make a world

More colorful

Bring the dream

To the day by day

And dawn on me

A good taste of

Childhood

(“The end of the pink lenses”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/23/17, 05h02)

 

The ability to transmute Life in Poetry in the Index of April, 2017 in Patricia (Gonçalves) Tenório’s blog.

Little circus (and prefigural) tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

About “There is no tomorrow”, from Gustavo Melo Czekster (RS – Brasil).

About “The Book of Puppies”, from Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

A Poem by Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing – April, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil), Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil).

Thank you for the affection and participation, the next post will be on May 28, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Transmutando Vida em Poesia no Jardim do Baobá, em Recife, PE – Brasil. Transmuting Life in Poetry in the Garden of Baobab, in Recife, PE – Brasil.

Sobre “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster | Patricia (Gonçalves) Tenório

27/04/2017 12h49

 

Esta é a terceira vez que narro a paralisia que me invade quando tento ler um livro bom. Aconteceu com O mar, de John Banville. Com os livros do escritor e professor universitário paulista-pernambucano, residente em Aracajú, SE, Fernando de Mendonça (1984), Detalhe em H[1] e 23 de Novembro.[2] Sei que é um livro bom – já fui impactada anteriormente por suas faíscas –, mas insisto em permanecer paralisada, bloqueada, feito em um espelho de cristal.

Feito em um espelho de águas. Narciso paralisa diante de sua própria imagem. Eu cristalizo diante de Não há amanhã,[3] do escritor gaúcho Gustavo Melo Czekester (1976). Paralisei em 2016 com O homem despedaçado,[4] seu primeiro livro de contos, a ponto de nada conseguir falar, nenhuma palavra balbuciar após a leitura impactante.

Após a leitura inquietante que faço hoje do segundo livro de contos (são 30) de Czekster. Começo com “Não morto, apenas dormindo” e sinto a falta de palavras que prefigurei me preencher novamente, assim como aconteceu em “Um mundo de moscas” do primeiro livro.

“Então, eis o que era morrer – ficar o tempo todo sonhando com mortes, uma atrás da outra, sem receber ligações, esquecido. Através da janela, viu moscas infestando o pátio e, ao olhar o seu braço, gritou ao vê-lo se desfazendo em um mosaico raivoso de zumbidos, voltando a si quando bateu com a cabeça na janela, meu Deus, tinha dormido acordado!” (CZEKSTER, 2017, p. 14)

O braço se desfazendo “em um mosaico raivoso de zumbidos”, feito as moscas que criaram os seres humanos – afirmava Anton Lopez para mim em 2016.

“Anton Lopez expandiu a sabedoria de Montanelli e disse que os homens não só eram delírios como também foram criados pelas moscas. Isso explicaria o fato delas ajuntarem-se sobre cadáveres, dos quais retirariam pedaços microscópicos para construir outra pessoa.” (CZEKSTER, 2011, p. 19)

Eis o inquietante que encontramos em Czekster, Mendonça, Banville… Amabile.[5] “O inquietante”[6] de Sigmund Freud (1856-1939) amplamente analisado no texto de mesmo nome de 1919. O unheimilich  que transita entre o familiar e o desconhecido, entre a palavra e o silêncio, entre a vida e a morte. Freud analisa o termo desde a sua etmologia em várias línguas – inclusive na versão brasileira traduzida do inglês da Standart Edition aparece como “O estranho” –, quanto em um texto do escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822), mais conhecido por E. T. A. Hoffmann, “O homem de areia” (1816).

Em “O homem de areia”, Hoffmann narra a história de Natanael, que é assombrado, desde a infância, com a suposta existência de um homem de areia que arranca os olhos das crianças e dá para alimentar seus filhotes, feito fosse uma espécie de abutre, ou coruja. Em “O inquietante”, Freud alerta para o complexo de castração no personagem principal, Natanael, ao mesmo tempo que me faz lembrar de outro texto seu chamado “Os arruinados pelo êxito”,[7] que aparentemente pertence ao mesmo volume (XIV) das obras completas do pai da psicanálise, no qual analisa a histeria a partir do sucesso, e não do fracasso – como normalmente acontece –, investigando as peças teatrais “Macbeth”, de William Shakespeare (1564-1616), e “Rosmersholm”, de Henrik Ibsen (1828-1906).

Podemos encontrar este “inquietante” em textos de Franz Kafka, Thomas Mann, Friedrich Dürrenmatt, mas também dos mais próximos – mais próximos no duplo sentido do tempo e do espaço – Fernando de Mendonça, Luís Roberto Amabile, Alexandra Lopes da Cunha[7]… e também nos contos do escritor e advogado gaúcho Gustavo Melo Czekster.

 

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(1) MENDONÇA, Fernando de. Um Detalhe em H. Recife: Grupo Paés, 2012. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4809

(2) MENDONÇA, Fernando de. 23 de Novembro. Recife: Grupo Paés, 2014. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=5923

(3) CZEKSTER, Gustavo Melo. Não há amanhã. Porto Alegre: Zouk, 2017.

(4) CZEKSTER, Gustavo Melo. O homem despedaçado. Porto Alegre: Dublinense, 2011. Veja: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6683

(5) Vide em outro post do mês de abril, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7359

(6)  FREUD, S. “O inquietante”, in: Obras completas vol. XIV, São Paulo: Cia das Letras, 2010, p. 328-373, [FREUD, S. “Das UNHEIMLICHE”, in: FREUD, S. Der Moses des Michelangelo, Frankfurt a. M.: Fischer, 1992(1996), p. 135-172].

(7)  FREUD, S. “A história do movimento psicanalítico”. Volume XIV. Comentários e notas: James Strachey. Tradução sob Direção-Geral e Revisão Técnica: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

(8) Vide: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6963

Índex* – Dezembro, 2016

No silêncio da cópia oculta

Agradeço

A cada um

A cada uma

Por tanto que

Me ajudaram

Na construção

Pedrinha por pedrinha

Desse ano de

2016

Ano difícil para

Todos nós

Mas que

Na certeza de que o

Dar-se as mãos

É a única saída

Espero que

Estejamos mais uma vez

Juntos

Em 2017

E em muitos outros

Que hão de vir

(“Construção”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 13/12/16, 05h57)

Na Construção de um Mundo Novo que há de vir, esperamos no Índex de Dezembro, 2016, no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Rinascimento | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Carta de Oleg Almeida (Bielo-Rússia / DF – Brasil).

Poems from Alan Britt (EUA).

“De paisagens e de outras tardes” | Ana Adelaide Peixoto (PB – Brasil).

“Condutor de tempestades” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Anjos de Teatro (PE – Brasil).

Agradeço a participação e o carinho, a próxima postagem será em 29 de Janeiro, 2017, um grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – December, 2016

In the silence of the hidden copy

I thank you

Each man

Each woman

For everything

You helped me

In the construction

Little stone by little stone

Of that year

2016

Difficult year for

All of us

But what

In the certainty that the

Holding hands

It’s the only way out

I hope

That we’ll be one more time

Together

In 2017

And in many others

Who are to come

(“Construction“, Patricia (Gonçalves) Tenório, 12/13/16, 05:57)

 

In Construction of a New World to come, we look forward to the Index of December, 2016, in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Rinascimento | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Letter from Oleg Almeida (Belarus-Russia / DF – Brasil).

Poems from Alan Britt (USA).

“Of landscapes and other afternoons” | Ana Adelaide Peixoto (PB – Brasil).

“Storm driver” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB / PE – Brasil) & Theater Angels (PE – Brasil).

Thanks for the participation and the kindness, the next post will be on January 29, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Construindo Mundos Novos, Recife, PE – Brasil, 2016. Constructing New Worlds, Recife, PE – Brasil, 2016.

Rinascimento* | Patricia (Gonçalves) Tenório**

09/10/2010 & 20/12/2016

Sempre me faço perguntas de vida e morte às vésperas do Ano Novo.

“Nada há de gratuito exceto a morte”. (Freud, extraído de O prazer do texto, Roland Barthes)

Varro os fatos de outros tempos, as fotos do aqui e agora e não posso supor, não posso imaginar o que me aguarda, o que me surpreenderá.

“O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias, pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Aguardo uma outra estrada, um país diverso onde possa espalhar sementes de alegria e colher ramalhetes de amizades…

 

 Mãe Natureza – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

 Mãe natureza

Patricia Tenório

(Extraído de D´Agostinho, 2010)

Gosto do cheiro

De terra molhada

Da única escolha –

Ficar lendo livros

Ouvindo a chuva cair

Forte

Grossa

Violenta

Deixo-me banhar

Pelas lágrimas

Que clamam

– Patricia, Patricia! Por que me abandonastes?

 

Lendo Mãe natureza

Stella Leonardos

Setembro/2010

 

À Patricia Tenório

 

Sinto esse cheiro

De ideia molhada

Viver sortilégio

Ficar lendo livros

Ouvindo irmã água

Leve

Fértil

Fraterna.

Entendo essa chuva

Riso e lágrima.

Segreda

– Patricia! Patricia do coração poeta!

        Procuro descobrir nos acontecimentos o sentido perdido nos textos, nas pessoas, na vida.

“Quando o trabalho que você faz tem vinculação com seu percentual de humanidade, você se conecta ao outro”. (Ismael Caldas, artista plástico em “Das sutilezas e fraquezas humanas”, Viver, Diário de Pernambuco, 08 de Setembro de 2010)

“O que ao leigo pode parecer uma obra-prima nunca chega a representar para o criador uma obra de arte completa, mas, apenas, a concretização insatisfatória daquilo que tencionava realizar; ele possui uma tênue visão da perfeição, que tenta sempre reproduzir sem nunca conseguir satisfazer-se.” (Sigmund Freud em “Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”)

Tento seguir o que em mim pulsa, o que em mim se parece com a Verdade e a sinto eclodir por todas as minhas células.

“A filosofia natural apaziguará os conflitos e as dissensões de opinião que atormentam, dilaceram e devastam a alma sem trégua. Mas ela os apaziguará, ordenando-nos não esquecer que a natureza nasce da guerra e que ela é, por tal razão, chamada por Homero de luta.” (“Oratio de dignitate hominis”, Giovanni Pico della Mirandola)

“A diferença não é aquilo que mascara ou edulcora o conflito: ela se conquista sobre o conflito, ela está para além e ao lado dele”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

Tomo do lápis e papel e derramo todo o meu Ser Humana em palavras e contradições, na esperança que a Arte se faça, me salve. Exprima.

“… o texto: ele produz em mim o melhor prazer se consegue fazer-se ouvir indiretamente…” (O prazer do texto, Roland Barthes)

“… estamos sempre demasiadamente prontos a esquecer que, de fato, o que influi em nossa vida é sempre o acaso, desde nossa gênese a partir do encontro de um espermatozóide com um óvulo – acaso que, no entanto, participa das leis e necessidades da natureza, faltando-lhe apenas qualquer ligação com nossos desejos e ilusões.” (“Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”, Sigmund Freud)

Renasço a cada instante meu, a cada sorriso dado, a cada momento de partilha, experimentado, sem medos e vaidades, o que em mim possuo apesar de todos os detalhes…

Rinascimento*, Patricia Tenório

Filmado em Câmera Cannon 7D. Editado em Final Cut Program.

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* Apresentado na X Setimana della Lingua Italiana nel Mondo – “L´Italiano nostro e degli altri”, 18 a 24 Outubro 2010 – Dante Alighieri – Recife – PE – Brasil.

**  Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (Ars Longa, Romênia, 2013), Vinte e um/Veintiuno  (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE,O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 25/12/16 | Com Bernadete Bruto, Elba Lins & Anjos de Teatro

Patricia (Gonçalves) Tenório

22/12/2016

 

O desejo de viagem tem sua confusa origem nessa água lustral. Tépida, ele se alimenta estranhamente dessa superfície metafísica e dessa ontologia germinativa. Ninguém se torna nômade impenitente a não ser instruído, na carne, pelas horas do ventre materno, arredondado como um globo, um mapa-múndi. O resto é um pergaminho já escrito. (ONFRAY, 2009, p. 9)

 

Tudo começou em Agosto, 2016. Um encontro em uma Dança Circular. Três amigas que se propõem a estudar juntas, a navegar juntas pelo mundo das palavras, a viver juntas a Poesia e a Teoria de maneira inexorável e inseparável…

Incompreensível, irracional, mas sólido…

Foram essas palavras que me assombraram a madrugada de ontem para hoje, dia que me propus escrever sobre a experiência de 5 meses, 10 encontros e dezenas de textos críticos, poéticos, ficcionais que brotaram de Bernadete Bruto e Elba Lins no Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

Por que me proponho a compartilhar nossa experiência, quando já existem tantas Oficinas Literárias, cursos de Escrita Criativa, acadêmicos ou não, pelo país, pelo mundo afora?

Lembrei esses dias da experiência com a adaptação de As joaninhas não mentem para o Teatro em 2011. O diretor Jorge Féo nos ensinou algo muito forte e presente até hoje nos meus estudos, na minha vida: aquele grupo, composto por aqueles atores, com aquela adaptação, era único. Foram 6 meses lapidando o texto, a vivência de cada personagem – não era interpretação nem representação – para germinar em 50 minutos de espetáculo.

Algo semelhante aconteceu com o GEEC. Nos servindo de teóricos tais como Christopher Vogler, Joseph Campbell, Carl Gustav Jung, Cecília Almeida Salles, Roland Barthes, Umberto Eco, até chegarmos aos teóricos do deslocamento, entre outros o autor da epígrafe Michel Onfray, e músicas, e pinturas, fotos, filmes, filmes e filmes, fomos nos alimentando e nos provocando a ponto de gerarmos inúmeros textos, dos quais selecionei do mês de Dezembro alguns a seguir. Textos que, como afirma Michel Onfray no seu Teoria da viagem, nos requisitam: “Não escolhemos os lugares de predileção, somos requisitados por eles” (ONFRAY, 2009, p. 20).

Certa vez, um repórter auspicioso perguntou a Ariano Suassuna se o que ele escrevia já estava na cultura popular, o que ele fazia afinal? Ariano respondeu brilhantemente:

– Você quer saber o que eu fiz, se tudo já estava aí, não é, rapaz?

O repórter mudo.

– Eu escrevi!

Então, tentando responder à pergunta que eu mesma fiz acima: “Por que me proponho a compartilhar nossa experiência, quando já existem tantas Oficinas Literárias, cursos de Escrita Criativa, acadêmicos ou não, pelo país, pelo mundo afora?”, e parodiando o saudoso Mestre Ariano Suassuna:

– Eu vivi!

 

Referências:

ONFRAY, Michel. Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

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(“O violeiro”, Almeida Júnior, 1899, óleo sobre tela, 141 x 172 cm) 

 

A viola fala Alto

 

            Toda vez que se senta na janela e toca sua viola, algo me chama e largo tudo que estou fazendo,  encosto na sua janela para cantar. Canto com todo o coração:

É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um remédio pros meus desenganos
É que a viola fala alto no meu peito, humano
E toda mágoa é um mistério fora deste plano
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pruma visitinha
Que no verso ou no reverso da vida inteirinha
Há de encontrar-me num cateretê(*)

Não sei o que se passa com aquele casal… Ele sintonizado com sua viola e ela seguindo a canção. Vejo que são UM na música. Dois artistas fora do palco, na mais pura expressão da arte, na vida cotidiana, em pleno interior de uma cidade qualquer. A viola é quem fala. Fala alto em qualquer peito humano quando seus acordes tocam no coração de cada um de nós. Eu mesma reconheço essa canção!

 

Recife, 4 de Dezembro de 2016

 

(*) Vide vida marvada de Rolando Boldrin

https://www.youtube.com/watch?v=9lw5EXnqOYc

 

(Câmara e edição: Bernadete Bruto)

HÁ SEMPRE UMA LUZ NO FINAL DO TÚNEL

Vós não sabeis de que espírito sois! O Filho do Homem não veio para perder, mas para salvar as almas” (Lucas 9:54).

Embora estejamos neste quadrado, embora tudo indique que não resta saída, somente a fé faz com que a vida seja amena. Ela perdeu seu ideal de família. Ele se perdeu da família. Ambos caminham aprisionados na alma. Ele e ela no fundo maldizem seu destino… São Tiago vela pelos peregrinos. Há uma rota que conduz a um túnel. É o túnel de fuga! Que maravilha!

Um túnel que lembra aquelas histórias de lugares mágicos! Um portal de luz! Por este túnel muitos escaparam. Por este mesmo túnel também passou em direção à morte Frei Caneca. Talvez ele e ela não tenham respostas mágicas. São Tiago, aquele do campo da estrela, foi até martirizado… A grade está fechada com um cadeado! Ele sabe bem o que é isso de estar preso… Ela sabe bem o que é ter um coração fechado. Deu de cara com sua chance de oferecer o perdão e virou-lhe as costas…

Mas há uma luz no final do túnel.  É preciso ter fé em meio à escuridão da alma. São Tiago aceitou o desafio e pregou o evangelho até o fim. Ainda hoje é patrono da Espanha e tem um caminho de peregrinação desde o tempo medieval que é feito pela pura fé.

Por aqui, na atualidade, Maria passa na frente e vai abrindo estradas e caminhos, abrindo portas e portões, abrindo casas e corações. (*) Ele está aprendendo a ter fé e ela precisa chegar no final do túnel e abrir a porta do perdão para ser realmente livre. Mesmo assim, ela envia uma mensagem para aquele menino de olhar vazio encoberto pela muralha. Uma linda mensagem, que tanto amparou outra alma que por 27 anos passou aprisionada. Um poema de William Henley que diz: EU SOU O DONO E SENHOR DE MEU DESTINO. EU SOU O COMANDANTE DA MINHA ALMA!(**) E um pequeno filme para acalentar o sonho de libertação.

Ela é mais velha e sabe seu dever de resgatar almas, mesmo que a sua ainda esteja evoluindo no  tempo e espaço. Ela tem fé que um dia a porta se abra e uma vida completa chegue para ambos. Pois sempre há uma luz no final do túnel e o segredo é tão simples há séculos: Fé e Esperança!

Recife, 15 de novembro de 2016.

 

(*) oração MARIA PASSA NA FRENTE

(**) Poema de William Henley

 

(Câmera e edição: Bernadete Bruto)

PASSAEANDO PELO POÇO DA PANELA

Num recanto bucólico e sombrio

Onde atenua a marcha o grande rio

À sombra de recurvas ingazeiras

Batem roupas, calejadas, lavadeiras

Trago ainda nos olhos: é bem ela.

            A passagem do Poço da Panela (…)

(Trecho da poesia  Poço da Panela de Olegário Mariano)

 

Neste domingo, assim como meus pés, meus olhos passeiam por esta parte da cidade. Entram no antigo arrabalde conservando resquícios de séculos passados, chamado de Poço da Panela. O seu nome se deve ao fato de lá ter sido construído um poço de agua potável em formato de panela.

Procuro o que resta do passado nesta rua que me dirijo a pé e o caminho chega até uma Igreja. Li que esta Igreja também foi erigida por Capitão Henrique Martins, que interessante! Aquele senhor devia ser um homem muito importante. Como era imenso o espaço para tão poucas pessoas! Hoje ao menos, este é dividido com mais gente. Caminho pelo mesmo espaço que Capitão Henrique já caminhou. Aquele senhor  que também construiu a Capela da Jaqueira. Caminho em direção  desta igreja chamada N.S. da Saúde. A Igreja foi construída em agradecimento pela melhora de sua esposa que se encontrava doente, dona Ana Clara. O amor de Henrique por Ana Clara toca meu coração. Duas igrejas construídas ficam como prova desse amor profundo. Vou caminhando pelos arredores, como talvez costumasse fazer Henrique há séculos atrás.

Pego o carro e me dirijo mais para frente e mais um pouco  chego na Rua Antônio Vitruvio. Já frequentei aquela rua nos anos 90, quando fazia Aikidô. Sabia que o final  dela chegaria à beira do rio. Queria olhar o rio. Aquela via, pois no passado o rio era muito usado e estou em busca do passado. Esse mesmo rio que nunca usei… Dois guardiões  encontram-se protegendo aquele lugar, esta parte do Capibaribe, coitado, hoje tão desprezado! A vista me dá essa impressão de que aquela área é especial e quem sabe seja um portal que nos leve de volta há outros tempos… Vejo um avô de bicicleta levando seu neto para conhecer o rio…O velho com o novo  olhando para o rio e sinto esperança. Me despeço dos guardiões pego o carro para conhecer mais do Poço da Panela.

Passo por esta rua de casarios antigos coloridos, rua onde mora Luzilá Gonçalves e penso que ela fez uma excelente escolha de moradia. Que local mais agradável! Fiquei até com vontade de ligar para ela e que me esperasse na porta, onde seria protagonista desta parte do filme, mas escolhi passar sem incomoda-la no domingo, um dia de descanso. Outro dia eu paro. Assim dirijo por  este caminho de casas antigas em direção ao futuro. Como é visível a mudança de construções e de ares! Tenho a impressão que o passado se despede e que o futuro não é tão romântico.

No fim do caminho, já beirando o bairro do Monteiro, volto a me encontrar com o Capibaribe. Deparo-me com uma vida diferente do outro lado do rio. Vida totalmente contraste com aquela que vejo no Poço da Panela atual. Uma comunidade muito pobre, sem infraestrutura adequada, à beira de um rio malcheiroso! Fico besta com esse afronte à vida.

Meus olhos enxergam aquele homem e a história que ele tem para contar.  Uma história que já estou até curiosa para ouvir. Vou perguntar. Tenho quase a certeza que ele poderá me apresentar à vida que existia ali antes e agora. Pois esse é o sentido da minha busca, neste domingo de manhã.

Nem sabia que do outro lado do rio era o bairro da Iputinga! Nem que havia aqui tão perto, um meio de transporte ligando Poço da Panela à Iputinga. O barco de seu José. Obrigada, Patrícia, por sugerir este passeio, ao Capitão Henrique pelo presente amoroso do passado, aos guardiões apontando para a esperança de sobrevivência do velho com o novo e ao senhor José por terminar minha história.

O final não é feliz, mas é verdade tudo que ele me diz. Até outro dia, Seu José!

 

Recife, 14 de novembro de 2016.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

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A partir da leitura do volume “Viajantes Contemporâneos” da Pinacoteca de São Paulo, surgiu a intenção de sentir Cartagena a partir do meu “olhar estrangeiro”.

Me imaginei chegando à cidade sem nada conhecer de sua história – via de regra, é o que acontece, chego ao destino sem nenhum preparo adicional ao que porventura já exista em mim. Vou sem muitas informações e  até juro fazer diferente na próxima oportunidade.

Desta vez, o desconhecimento, me proporcionaria uma maior legitimidade para fotografar ou descrever o sentimento advindo de olhar a cidade pela primeira vez.

Tal não foi minha surpresa quando ao sentar na poltrona do avião encontrar no bolsão à minha frente a revista de bordo com o artigo Cartagena: As Cores de Cartagena da Índia. A capa da revista me abraçava a partir da parede azul celeste misturada com verde piscina, se descascando para mostrar-me uma cor terra, original. E a pequena sacada pintada em cor lilás com muitas flores por trás das grades de madeira, me trazia o primeiro abraço, o acolhimento típico das cidades cujas vidas se traduzem através das cores.

Ao terminar de ler o texto no qual Cartagena se apresentou para mim nas suas cores e sabores, levanto o olhar já não tão estrangeiro e na tela à minha frente vejo o movimento da cidade que me convida a sentir o sabor dos seus frutos, dos seus sorvetes gelados bem conhecidos por todos que a visitam. Seus peixes, crustáceos, passeios em mercados me convidam a sentir seus sabores, a respirar as fragrâncias do seu povo, das suas flores e frutos e sentir as cores de Frida Kallo saírem do México para me receberem em Cartagena ao som da Rumba.

Referências:

* Viajantes Contemporâneos” da Pinacoteca de São Paulo.

* As Cores de Cartagena da Índia – Revista de bordo da LATAM, Novembro, 2016.

 

 

(Encontro com Cartagena – 25.11.2016

Para o GEEC – Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

Escrito durante o vôo Recife-São Paulo que dali me levaria a Bogotá e posteriormente a Cartagena o objetivo principal da viagem.)

 

lua

(Lua do espetáculo “As joaninhas não mentem”)

 

Ontem dormi sozinha

A maior lua do século

Me deixou esperando

Sentada à beira-mar

E se escondeu por entre nuvens

 

E enquanto eu

Sentia nas pernas

As carícias do mar

Que na verdade não eram para mim

Tu lua

Te deitavas com estrelas…

Sim, com todas as estrelas.

 

Era isso que eu conseguia ver

Cada vez que o vento

Soprava e abria

As cortinas de nuvens,

Espessas,

Que guardavam, tua intimidade…

 

Mas hoje é um novo dia

E talvez te lembres de mim

Talvez te lembres do mar

Talvez hoje

Não nos deixes a esperar.

 

………………

 

 

(DE LUA E DE MAR – 17.12.2016

Para o Grupo de Escrita Criativa – G.E.E.C.)

 

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(Foto: Elba Lins)

Acordei e me vi sozinho, ou melhor, acompanhado do irmão, que quase siamês esteve comigo todos os dias da existência. Mas onde andaria aquele, com quem até o momento, caminháramos juntos?

A eternidade foi se tecendo, o tempo refazendo a realidade, e nosso aspecto se alterando. O lodo se alojou na nossa carne, na nossa pele; agora somos abrigo, refúgio de passarinhos que chegam e parecem fazer parte da nossa história. Durante todo o tempo esperamos em vão pelo retorno do nosso companheiro.

Algumas vezes, pensamos que O Esperado seria Manoel de Barros já que numa alegoria ao mestre estamos possuídos de lodo, algas, pássaros e plantas. Outros dias na nossa pele se desenharam os traços de Magritte. Também lembrei Van Gogh e me pergunto porque não me levou no seu caminho, para trilhar com ele sua loucura e solidão?

Assim me vi transformado em barro, e me questiono se o mesmo aconteceu ao Esperado.

Junto a mim, só chegam os pássaros que me fazem companhia e deixam em mim sementes de vida que brota no barro e me faz esquecer de tudo; esquecer até de ansiar pelo retorno de quem possívelmente já se fez barro.

 

(O Esperado –

Elba Lins 16.11.2016

Para o GEEC – Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

A partir de uma experiência real criar o universo ficcional.

Lembrando a foto tirada na Casa Cor, Van Gogh, Magritte e Manoel de Barros)

 

 

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 27/11/16 | Com Bernadete Bruto & Elba Lins

Da experiência criadora

Patricia (Gonçalves) Tenório

01/11/2016

 

A doutora em Linguística e Estudos em Línguas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), Cecília Almeida Salles, analisa em Gesto inacabado: processo de criação artística,[1] a questão da experiência na produção da obra de arte e os limites impostos pelos próprios artistas a si mesmos para a potencialização da sua poiesis.

Cecília é a favor da perspectiva do trabalho, do processo contínuo, da pesquisa, o que podemos encontrar em vários artistas elencados em Gesto inacabado e que relacionarei com alguns livros estudados por escritores em busca de uma Escrita Criativa, em especial, na Pós-Graduação de mesmo nome da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre – a PUCRS.

Antes de tudo, explico a necessidade extrema de escrever sobre o assunto – a experiência –, e relacionar com os livros elencados. Desde que comecei a escrever, procurei me impor limites a serem ultrapassados, na tentativa de elevar a qualidade da minha escrita: Oficinas Literárias no Brasil (Recife e Porto Alegre – PUCRS), e exterior (Sorbonne – Atelier d’Ecriture), Filmmaking na New York Film Accademy, em Nova York, EUA, Residência de Artistas em Val-David, Canadá, Mestrado em Teoria da Literatura na Universidade Federal de Pernambuco, Aluna Especial e participante da seleção para Doutorado/2017 em Escrita Criativa da PUCRS.

Ao invés de fins, todos esses limites e deslocamentos que impus aos meus corpo e alma trazem à tona aspectos da minha subjetividade que nunca transpareceriam sem a provocação da experiência, e com isso, a escritora que descobri em mim desde 2004 nunca alargaria as suas fronteiras, de maneira lenta, construindo passo a passo, letra a letra, o caminho da melhor escrita possível. E para esse espaço do Grupo de Estudos em Escrita Criativa, o exercício de Novembro, 2016 – feito vocês verão mais abaixo – tem a ver tanto com a experiência quanto com o movimento que ela desperta.

Voltando ao Gesto inacabado, descobrimos que o poeta e diplomata brasileiro João Cabral de Melo Neto no ensaio “A psicologia da composição”, acredita que a seleção de acontecimentos da realidade é a verdadeira originalidade do artista, uma seleção que é composição, que é 5% de inspiração e 95% de trabalho, feito concorda em Iniciação à estética[2] o poeta, escritor, dramaturgo brasileiro Ariano Suassuna, quando afirma que não basta a Forma (ou intuição criadora), mas é preciso a Técnica (ou estudo contínuo) e o Ofício (ou trabalho diário) para transformar em obra de arte e não mero artesanato aquilo que temos em nossas mãos.

“A arte é filha da liberdade”, já dizia o poeta e filósofo alemão Friedrich Schiller. Mas Cecília alerta que a liberdade absoluta é desvinculada à intenção, não leva à ação, ou seja, não gera obras.

O poeta e filósofo russo (Vladimir) Maiakóviski em (Cecília) Salles, em (Patricia) Tenório, em… afirma que procura escrever sobre o que viveu; o dramaturgo brasileiro Dias Gomes é levado a escrever compulsivamente pela angústia, pela insatisfação consigo mesmo; a teórica e artista plástica brasileira, nascida na Polônia, Fayga Ostrower, afirma que nos interessamos e buscamos (em termos de arte) por aquilo que já possuímos em nós, mas de maneira potencial.

Esses artistas – e muitos outros elencados por Cecília Almeida Salles em Gesto inacabado – comprovam o que o semiólogo e romancista italiano Umberto Eco insiste no “Pós-escrito a O nome da rosa”: de que devemos impor obstáculos – e que maiores obstáculos senão os acontecimentos da vida? – para potencializar a obra de arte.

O escritor francês, nascido em Paris, André Gide, no Diário dos Moedeiros Falsos[3]Diário que apresenta a construção do seu romance Os moedeiros falsos[4] – insiste para que deveria escrever como se fosse o “último livro”, “verter-se por inteiro”, e com isso (também) potencializar a criação.

Enquanto isso, em O leitor comum,[5] a escritora e editora inglesa, nascida em Londres, analisa Robson Crusoé, e seu autor, o jornalista e escritor conterrâneo Daniel Defoe, que por sua vez transforma seres reais que vivem na violência e na pobreza em personagens dos quais tudo retira – deixa-os na miséria – para provocar o seu empenho e superação.

Outro livro estudado nesse caminho de aperfeiçoamento da Técnica e do Ofício da Escrita Criativa é A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores,[6] do roteirista americano Christopher Vogler. A partir de sete arquétipos do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (HERÓI, MENTOR, ARAUTO, GUARDIÃO DO LIMIAR, CAMALEÃO, SOMBRA E PÍCARO) e doze estágios da Jornada do Herói do pesquisador em mitologia americano Joseph Campbell (1 – MUNDO COMUM, 2 – CHAMADO À AVENTURA, 3 – RECUSA AO CHAMADO, 4 – ENCONTRO COM O MENTOR, 5 – TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR, 6 – TESTES, ALIADOS E INIMIGOS, 7 – APROXIMAÇÃO DA CAVERNA OCULTA, 8 – PROVAÇÃO, 9 – RECOMPENSA (APANHANDO A ESPADA), 10 – CAMINHO DE VOLTA, 11 – RESSURREIÇÃO, 12 – RETORNO COM O ELIXIR), Vogler vai nos apresentando as dificuldades a serem superadas pelo Herói, pelo escritor, ou pelo ser humano de uma maneira geral para conseguir trilhar da melhor maneira possível a maior viagem de todos os tempos: a nossa própria vida.

Quis neste breve estudo, falar um pouco sobre as restrições de limites (ou de liberdade), ou mesmo a proposição de experiências a todo a artista para alargar, alavancar, potencializar a criação. Além dessas experiências “programadas”, intencionais, a vida nos prepara surpresas, tais como apresentei no arquivo abaixo em anexo “A experiência de um(a) artista da fome” quando na minha viagem para a Romênia-Alba Iulia e para a capital tcheca Praha (Praga) e no fotofilme desta postagem de Novembro de 2016, “(des)carnaval(ha)”.

O exercício proposto às escritoras Bernadete Bruto e Elba Lins foi justamente tentar captar em filme – de celular – esse acaso que nos toca, da mesma maneira que o punctum de Roland Barthes, e nos provoca poemas, contos, ensaios poéticos. E vice-versa. Pois a imagem, quer seja em movimento, quer seja estática, nos ronda em busca de um “receptáculo” a preencher, uma “carcaça” que o poeta romântico inglês John Keats em carta a Woodhouse afirma veementemente: “O poeta é a mais impoética das criaturas de Deus”.[7] Ele está sempre se esvaziando e sendo preenchido pela Poesia, está sempre adentrando e preenchendo outras criaturas, o sol, o mar, a lua. Os rouxinóis.

Que venham as experiências do Grupo de Estudos em Escrita Criativa do mês de Novembro de 2016!

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(1) SALLES, Cecilia Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: FAPESP: Annablume, 1998.

(2) SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado: Carlos Newton Júnior. 5. ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2002.

(3) GIDE, André. Diário dos Moedeiros falsos. Tradução: Mário Laranjeira. São Paulo: Estação Liberdade, (1927 in) 2009.

(4) GIDE, André. Os moedeiros falsos. Tradução: Mário Laranjeira. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.

(5) WOOLF, Virgínia. O leitor comum. Tradução: Luciana Viégas. Rio de Janeiro: Graphia, 2007.

(6) VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores.  Tradução e prefácio: Ana Maria Machado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

(7) KEATS, John. Ode sobre a melancolia e outros poemas. Organização e tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Hedra, 2010.

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

(Câmera: Bernadete Bruto)

A caminho de sua própria casa

Experiência Com música e filmagem

Acreditou nela… Perdeu-se no caminho! Não sabe mais qual a direção tomar. Para onde vai.  Como ir sozinho? Olha para o trânsito dentro deste carro que lhe conduz ao mesmo caminho de sempre. Cotidianamente. Sem ânimo. Sem anima. Só. Na confusão do trânsito, olhos procurando por ela… em cada carro. A música tocando fala alguma coisa de casa… Me leve para casa! É o que ele gostaria de poder falar, de ouvir… Se pudesse… Já faz tanto tempo… Por que ele ainda persiste nesta canção, porque o lamento? Ahhhh ah ah ah ah ah ah ah! Ainda? Quem mandou confiar nela? Entregar toda sua confiança sem reservas para uma pessoa. Que ingenuidade! Hum, o  ah ah ah da canção é por isso! Raiva! Ele sente raiva de si ainda. Por ter sido bobo. Porque ficou pedindo não me deixe. Me leve para casa! Ai quanta dor havia naquele ser! O tempo parou com o trânsito. Ele agora olha como ainda está congelado. Mudou seu olhar que leva para outra direção. De volta ao passado como esses carros passando contrariamente a sua direção e vontade. Olhos que buscam um sentido. O sentido foi todo ensinado por ela… Palavra por palavra. Verdade por verdade. Ele ficou vazio. Desconectado.

Hoje, neste carro, a mulher de coração leve, retornando de lembranças amargas, olha finalmente para si. Expande seu olhar, sabendo que foi difícil, mas conseguiu! Sente-se livre após a dor e entende que a sua casa é muito mais além do que alguém. Alguém que talvez nem merecesse que o coração de uma mulher fosse capturado por promessas feitas por sua voz masculina tão insinuante. Coitado desse alguém! Um homem que talvez nem soubesse que não poderia ter comando de seu próprio destino.

De volta ao presente, no meio do trânsito, no fim da música, a mulher enxerga para além da confusão diária. Libera seu coração das promessas ecoadas pela voz daquele pobre homem e vê o caminho que as árvores apontam. A simplicidade da vida, da sua própria natureza celestial. Reconhece sua verdadeira casa, o perdoa e sorri.

 

Recife, 1 de novembro de 2016.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

(Câmera: Débora Quintans)

Que maravilha de Concerto! O Teatro Santa Isabel em festa, lotação esgotada, os músicos impecáveis aguardavam o sinal do maestro para iniciarem a tão esperada apresentação.

E na plateia, estava eu, ansiosa. Duas horas de muita emoção. Na primeira parte do concerto foram apresentados vários números de blues e na segunda parte o jazz nos encantou.

Voltei para casa ainda sob o fascínio da apresentação e resolvi terminar a noite com vinho e boa música. Após ouvir Astor Piazolla, Nina Simone, Diane Krall, eu ouvi John Coltrane. Estava ouvindo “Aisha”, quando lembrei de Sérgio…

Aquela música tinha sons que me remetiam ao disco de vinil acabando de tocar, e rodando infinitamente, enquanto nós, cansados de amar não tínhamos sequer coragem de erguer os braços para desligar o som.

Fiquei escutando a música e me afastando de toda a alegria que fora minha noite até aquele instante. Só chegava até mim o lamento… e mesmo quando quis dançar para tentar extrair algum som que me animasse, que me fizesse voar para além daquele instante, eu nada consegui. Eu dançava apenas minha solidão. Então caí por terra por não conseguir voar.

 

O anjo que tocou para mim

Arranhou minha alma

Queria voar com ele por entre estrelas

Mas a frágil corda dos meus sentimentos

Se rompeu

E eu que viajaria entre estrelas

Acabei caindo na terra fria

 

 

(Réquiem para um amor Saudade ao som de Blues e Jazz)

Elba Lins 06.11.2016.

Escrita para o GEEC, a partir da música AISHA de John Coltrane.

Com base na história e na música foi feito o Vídeo de mesmo nome)

Índex* – Agosto, 2016

Se eu fosse um

Passarinho 

Esqueceria as

Folhas mortas

Do passado

Arrancaria as

Ervas daninhas

Do presente

E passearia

Suavemente

No céu azul

*

Mas como

Não sou um 

Passarinho

Vivo à cata

De migalhas

Vivo em busca

De palavras

Assim

Pequenininhas 

Que possam

Traduzir

Por um segundo

A imensidão

De eternidade

Presa aqui

No meu peito

(“Quem escreve não se cansa de buscar”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/08/16, 07h55)

A busca sem fim pela Escrita Criativa no Índex de Agosto, 2016 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Dois contos para uma Escrita Criativa | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE, Brasil).

O físico fica menor enquanto o mito cresce | Mara Narciso (MG, Brasil).

Projeto Pasárgada nos jardins da Academia | Marly Mota (PE, Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE, Brasil) e Elba Lins (PB/PE, Brasil).

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 25 de Setembro, 2016, grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – August, 2016

If I were

A little bird 

I’d forget the

Dead leaves

From the past

I’d rip out the

Weeds

Of the present

And I’d walk

Gently

In the blue sky

*

But because

I’m not

A little bird

I live in seek

Of crumbs

I live in search

Of words

Like this

Little niggling

That can

Translate

For a second

The immensity

Of eternity

Trapped here

Inside my chest

(“Who writes doesn’t be tired of searching”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 08/06/16, 7:55 a.m.)

The endless search for Creative Writing in the Index of August, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Two short stories for a Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE, Brasil).

The physical gets smaller as the mith grows | Mara Narciso (MG, Brasil).

Pasargadae Project in the gardens of the Academy | Marly Mota (PE, Brasil).

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE, Brasil) and Elba Lins (PB/PE, Brasil).

Thank you for participation and caring, the next post will be on September 25, 2016, a big hug and see you there,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O Paraíso Perdido e Encontrado de Piracanga, BA, Brasil. The Lost and Found Paradise of Piracanga, BA, Brasil.

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 28/08/16 | Com Bernadete Bruto* e Elba Lins**

Era uma tarde de Julho, 2016. Para ser exata, domingo 17. Estávamos no Parque da Jaqueira, Recife, Pernambuco, Bernadete Bruto, Elba Lins e eu, estávamos em um evento de Dança Circular. A caminho do parque, a ideia já havia brotado, a semente havia sido plantada na alma de quem vive sempre em busca de um solo fértil para uma Escrita Criativa.

A ideia era simples, feito semente de girassol, feito o caule do girassol que gira à procura do sol. Nos encontraríamos uma vez a cada quinze dias, ou uma vez por mês, para conversarmos sobre a arte de escrever. A partir de textos de teóricos tais como Joseph Campbell, Christopher Vogler, Carl Gustav Jung, mas também de depoimentos sobre seus “fazeres artísticos” de escritores tais como Orhan Pamuk, Virgínia Woolf, Albert Camus, Henry James, entre (muitos) outros, iríamos nos alimentando, alimentando a nossa escrita, e somente assim, cresceríamos como escritoras, poetisas, enfim, pensadoras.

Esse projeto tem a ver com a minha pesquisa desde 2004 no campo da Escrita Criativa. Acredito no crescimento na Arte através da Forma, da Técnica e do Ofício que Ariano Suassuna nos ensina no seu Iniciação à Estética. Ariano afirma que é preciso a Técnica, ou estudo contínuo, o Ofício, ou trabalho/escrita diário(a) para quando a “ave de rapina” da Inspiração Criadora, ou Forma, se manifestar em nós, estarmos prontos para “darmos o salto”, e não apenas sermos “meros artesãos”. De 2004 a 2010, participei de oficinas literárias no Brasil e no exterior; em 2012, busquei no ambiente acadêmico, no Programa de Pós-Graduação da UFPE, Mestrado em Teoria da Literatura, a matéria-prima para a minha escrita, e, atualmente, participando como Aluna Especial do Programa de Pós-Graduação da PUCRS, Doutorado em Escrita Criativa.

E, apesar de não estarmos (ainda) em um ambiente acadêmico, percebi nesses poucos encontros do mês de Agosto, 2016, o potencial dessas escritoras/poetisas Bernadete Bruto e Elba Lins. Todas as narrativas, quer sejam literárias, quer sejam cinematográficas se originam no Mito. Iniciando, portanto, com o estudo da Jornada do Herói, essas “escrevinhadoras” – termo utilizado por Bernadete em um dos textos produzidos – mostram que, ao cuidarmos “do alimento” para a nossa arte – textos teóricos, filmes e até músicas –, vamos “produzindo” pequenas pérolas em forma de textos teóricos/crônicas e textos poéticos/ficcionais, que, juntamente com “Dois contos para uma Escrita Criativa”, de minha autoria que abrem a edição de Agosto, 2016 deste blog, tenho o prazer e honra de lhes apresentar em uma seleção a seguir.

Patricia (Gonçalves) Tenório

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Bernadete Bruto

 

Memórias de uma Gueixa: todos os passos em direção ao amor

Recife, 12 de Agosto de 2016

 

“As grandes histórias nos recordam à nossa própria história, pois elas não contam somente a história de um ser humano qualquer: contam o que também comove, atinge, faz sofrer e torna felizes todos os seres humanos. Elas também são nossa história.”

(Bert Hellinger in Pensamentos a caminho)

 

Assisti em 2006 ao filme de produção de Steven Spielberg Memórias de uma Gueixa e imediatamente me apaixonei pelo filme.

Em primeiro lugar, já gostei porque o filme tinha sua história localizada no Japão, era um filme de época, coisa que me agrada bastante. Em segundo lugar, vinha mostrando as instituições japonesas antes da segunda guerra mundial, a vida das gueixas e a história particular de uma gueixa chamada Sayuri, um exemplo de persistência em direção ao amor de sua vida. E, finalmente, toda a produção do filme, fotografia, trilha sonora, foram fatores que concorreram para aumentar meu encantamento.

No filme, que é baseado num livro de escritor americano, a história é contada por  uma menina chamada Chyio Sakamoto, moradora de uma aldeia de pescadores japoneses, que é vendida pelo seu pai a uma casa de gueixas. Naquele lugar ela começa a fazer os serviços domésticos, como pedia a tradição. Um dia, ela ainda menina encontra-se com um homem poderoso que a trata com carinho e naquele exato instante ela se apaixona por ele. A partir daí, a história de Chyio, toma um sentido especial, buscando se tornar Sayuri, uma gueixa famosa, para poder chegar junto do seu amor. No entanto, até lá, passa por muitos percalços, encontra ajuda numa gueixa famosa, como também, inimigos em sua própria casa.

Hoje observo que a história segue um roteiro muito bem elaborado que pode encontrar base no modelo da Jornada do Herói apresentado por Christopher Vogler (pág. 46) conforme exponho em seguida.

No primeiro ato nossa heroína (Sayuri) ainda chamada Chyio moradora de uma vila de pescadores (MUNDO COMUM) é vendida à casa das gueixas (CHAMADO À AVENTURA). Num determinado momento ela se rebela por sua condição e sai à procura de sua família (RECUSA AO CHAMADO). Ao conhecer seu amado, ela tem o desejo de poder estar com ele, encontra  Mameha,  uma gueixa famosa que se oferece para ser sua tutora (ENCONTRO COM O MENTOR), começando o aprendizado para se tornar uma gueixa (TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR). Nesse momento começam as rivalidades entre as gueixas, o difícil jogo dos homens poderosos para ficar com as gueixas, a ajuda de Mameha e do seu amado (PROVAS, INIMIGOS E ALIADOS)

No ato dois, a crise da história, no caso da nossa heroína, o momento que ela vai ser desmoralizada por um homem bem poderoso que utiliza de má fé na sua conduta (APROXIMAÇÃO DA CAVERNA SECRETA); o momento de ajuda para ela se recuperar; a chegada da guerra onde o mundo modificou totalmente e toda a esperança com relação ao amado também (A PROVAÇÃO); o fim da guerra e credibilidade readquirada (RECOMPENSA); no ato 3, observamos o retorno à vida pós-guerra (O CAMINHO DE VOLTA); a possibilidade de retornar o caminho em direção ao seu amor (RESSURREIÇÃO); o retorno ao MUNDO COMUM com o aprendizado deixado pela guerra (RETORNO COM O ELIXIR).

Duas cenas me tocaram profundamente. Uma foi por sua beleza artística: o debut de Sayuri quando ela se apresenta aos candidatos prováveis numa belíssima dança em cima dos tamancos de madeira. É indescritível a cena, somente vendo para poder apreciar verdadeiramente. A outra cena, foi por sua delicadeza romântica, quando no final do filme,  depois de todos os percalços, os amantes se encontram juntos e a protagonista responde a um questionamento do seu amado com esta afirmação: “Não vê que todos os passos que dei foram na sua direção?”

A história de amor, a dedicação daquela menina ao seu amor, a persistência dos protagonistas deram um gosto especial à história, e, até hoje, dez anos após ter assistido esse drama épico, experimento a mesma sensação de empatia com a vitória e completude com relação à conquista do amor.

Por fim, ao verificar essas conexões poderia ficar um pouco desanimada com relação ao filme, que foi pré-fabricado para poder gerar todos os sentimentos que senti ao assistí-lo em 2006. Mas foi muito mais do que isso. Este filme foi uma linda produção, uma obra de arte que ultrapassou a receita básica de se escrever uma história com finalidade de agradar ao público. Apesar das críticas que foram muitas, das polêmicas lançadas pelo Japão e China, que não vem ao caso me reportar agora, noto que  o produtor e demais envolvidos foram felizes em escolher uma boa história e fazê-la com gosto e arte.  O filme descreveu uma linda história com uma plasticidade encantadora e encheu meu coração de fé e esperança no amor naquele longínquo ano de 2006 quando eu mais precisava.

 

*

 

“O dom essencial da história tem dois aspectos: que no mínimo reste uma criatura que saiba contar histórias e que, com esse relato, as forças maiores do amor, da misericórdia, da generosidade e da perseverança sejam continuamente invocadas a se fazer presentes no mundo.”

 (Clarissa Pinkola Estés in O dom da história)

 

Eram uma vez palavras mal feitas, desordenadas à procura de um significado próprio que lhes concedesse uma estética ideal no profundo vazio da caneta e do papel submetido ao intrínseco inconsciente do Escrevinhador.

Um dia, a mente do Escrevinhador de tanto rodar à cata do ideal, mergulhou no universo íntimo das palavras, pronto para o desafio lançado pelo mundo exterior e, de repente foram surgindo todo tipo de palavras!

As primeiras vieram manifestando-se no peso do negativismo assim: “não sei!”, “não vai dar certo!”. Não! Não! Eram palavras que voam daquele universo esbarrando de encontro à mente do Escrevinhador.

Por algum tempo foi dessa maneira, até que timidamente foram surgindo alternadamente as palavras estrelares. Apareciam como luzinhas fracas, contudo de um brilho intenso a piscar e transformar-se em palavras coloridas, brilhantes que foram aumentando sua irradiação, aumentando, aumentando até capturarem aquelas cheias de negativismo no laço da verdade que lhes dizia: “vocês são mera ilusão”! “Por trás tudo é bom, belo e afirmativo!”

A partir daquele vislumbre consciente, como que por encanto, as palavras negativas, Puff! Sumiram! Podendo o Escrevinhador dizer com firmeza: “eu agora digo sim! Sim às palavras boas, criativas”. E foi nessa vibração que as palavras boas, as mesmas que os indígenas chamam Porã Hei, desceram em forma de um cocar multicolorido coroando a imaginação do Escrevinhador.

Daí então ele escreve cheio de energia palavras que brilham no papel. Não sabe ainda se essas palavras se organizam direito para fazer a prosa, no entanto, há algum tempo, vive cheio de alegria porque encontrou um caminho na vida e toda a sua poesia!

(Jornada rumo à poesia da vida, 28/Julho/2016)

 

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Elba Lins

 

O Físico

Na Idade Média, enquanto no Oriente a medicina se especializava e se desenvolvia, na Europa, todos os recursos na arte de curar, provenientes dos romanos, haviam sido abandonados e os doentes estavam entregues à própria sorte e aos barbeiros ambulantes – um misto de aprendiz de mágico e de palhaço. Estes barbeiros não tinham nenhum preparo para tratar qualquer enfermidade, que fosse além de arrancar um dente ou imobilizar um osso quebrado.

É nesse cenário que vive Rob Cole, é este seu Mundo Comum no qual sua mãe morre por falta de uma ajuda “médica” adequada. Na ocasião, sem saber como, Rob tem a visão da proximidade da morte da mãe, acometida da “Doença do Lado” e tenta sem sucesso obter a ajuda do barbeiro. Era uma época de resignação e trevas e qualquer tentativa de novas formas de cura era renegada pelo clero como bruxaria.

Por ser o maior dos seus irmãos nenhum dos vizinhos quer ficar com ele pois daria prejuízo. Ficando só, sua única opção é acompanhar o barbeiro mesmo não sendo aceito por ele. Aos poucos ele vai se tornando necessário e começa a se interessar em aprender a curar e em descobrir a causa do mal que matou sua mãe. Desde cedo ele tem curiosidade em saber o que existe internamente ao corpo humano. Esta é a fase de saída do seu Mundo Comum. Este é o seu primeiro Chamado à Aventura.

Quando o barbeiro queima as mãos e não consegue trabalhar é a primeira oportunidade de Rob substituí-lo. A partir daí aquele passa a considerá-lo um novo barbeiro e faz sua cerimônia de “batismo”. É a Travessia do Primeiro Limiar. Em seguida o barbeiro apresenta grandes problemas de visão. Nesta oportunidade eles tomam conhecimento de um judeu que poderia curar sua cegueira. Rob insiste e eles vão procurar o judeu que consegue curar os olhos do barbeiro. Através dele Rob descobre a existência do Madraçal, a escola onde o judeu estudou em Isfahan. A escola é dirigida por Ibn Sina o maior físico da época. É um Novo Chamado à Aventura e Rob decide viajar até a Pérsia em busca de Ibn Sina.

Somente depois de muita discussão, o barbeiro decide apoiá-lo. Apesar da dificuldade que irá enfrentar, hora nenhuma Rob Recusa o Chamado.

Ele parte para uma viagem inimaginável, primeiro por via marítima e depois uma longa travessia pelo deserto. Vários Testes ele precisa enfrentar: fazer uma circuncisão em si mesmo; se passar por judeu sem conhecer os costumes, além de uma tempestade no deserto, onde se perde dos demais. Esses são alguns desafios até chegar a Isfahan. Durante a travessia se apaixona por uma moça que está sendo transportada para a Pérsia na Caravana e se perde dela na tempestade.

Ao chegar no Madraçal novas dificuldades têm lugar, mas finalmente ele consegue se tornar aluno de Ibn Sina, se apresentando como judeu de nome Jesse. Seu grande interesse em aprender e em questionar logo o aproxima do seu Mentor Ibn Sina.

Como o destino prega peças, Rob, agora Jesse, reencontra a garota que na verdade vai casar com um importante Judeu.

Também a situação político-religiosa vem se agravando e um grupo religioso radical não apoia a política do Xá, mais voltada ao secular, e se alia aos Seljúcidas, um grupo sanguinário que pretende invadir a Pérsia. É neste clima que outro problema chega para afligir a todos: a peste negra.

Ibn Sina com a maioria dos alunos passa a combater a peste e a pesquisar as causas deste mal. Entre os infectados, Jesse cuida de sua amada que foi deixada para trás pelo marido por estar doente. Para Jesse este é mais um Teste que terá que enfrentar.

Como nada é tão fácil para Jesse, a garota é curada, a peste está controlada, mas para sua tristeza o marido volta e sua amada tem que retornar ao casamento. É quando eles finalmente fazem amor e, como veremos mais tarde, ela fica grávida.

A Aproximação da Caverna Oculta se dá a partir da morte de um Zoroastrista que lhe pede para deixar seu corpo para os abutres. Jesse aproveita para dissecá-lo e fazer desenhos dos órgãos internos. A partir destes estudos chega à conclusão sobre a causa “Doença do Lado” que hoje sabe-se ser apendicite. Cada dia ele se aprofunda nos estudos, mesmo sabendo que se for descoberto pelos mulás poderá ser condenado. E é o que acontece. Ele é descoberto e levado a julgamento pelos religiosos por estar praticando a necromancia. É a sua primeira Provação. A sorte, entretanto, vem ao seu encontro e na hora de sua decapitação é salvo pelos soldados do Xá que está acometido pela “Doença do Lado” e soube que Jesse pode salvá-lo. Esta é mais uma Provação que terá que enfrentar pois se o Xá morrer também será morto.

A cidade está sendo invadida pelos Seljúcidas, mas Jesse juntamente com Ibn e outro colega conseguem salvar o Xá que como recompensa proporciona a fuga de Jesse, agora já Rob novamente, com o povo judeu, entre eles, sua amada. É o Caminho de Volta ao Mundo Comum feliz por estar em companhia de sua amada e triste por ter perdido Ibn Sina que fica no Madraçal incendiado e toma um veneno. Antes, porém, entrega a Rob todas as anotações feitas ao longo da vida para que sejam corrigidas e ampliadas. Esta é a Recompensa, juntamente com a descoberta da “Doença do Lado”.

No caminho para casa, a moça fala para ele de um sonho que teve sobre um novo Madraçal a ser construído por eles. É sua Ressureição.

O filme termina quando o velho barbeiro sem cliente nenhum toma conhecimento de que agora vão ao hospital do Físico Cole. O Rato, como ele chamava, havia retornado com o Elixir.

 

(Resenha do filme The Physician, baseado no romance de Noah Gordon e inspirada em A jornada do escritor, de Christopher Vogler. Para o Grupo de Estudo em Escrita Criativa. Recife, 22/08/2016)

 

 

*

 

 

JORNADA

 

Recebi uma tarefa:

De uma Jornada falar

Não sabia o que dizer

E me quedei a pensar.

 

Eu no Mundo Comum

E a ideia sem chegar,

Eu precisava sair,

E começar a criar.

 

Me lembrei de outro curso

Um curso de ensinar

Histórias a construir

Ou histórias a contar.

 

Lembrei de uma tarefa

Que me pedia falar

Eu pegara o telefone

Começara a digitar.

 

Entendi neste momento

Que este era o sinal

O Chamado à aventura

Que estava a esperar.

 

Mas a dúvida persistiu

Continuei a pensar

Será que eu não devia

O chamado recusar?

 

Mas, como a ideia chegou

E insistiu em ficar

Levantei bem de mansinho

Comecei a digitar

E a pensar uma a uma

Etapas do caminhar.

 

 

Pouco a pouco eu já via

Algo a se estruturar

Mas eu tinha muitas dúvidas

Na mente a martelar.

 

Quem era meu Mentor?

Não sabia se eu mesma

Ou a tela do celular.

Mas estava empolgada

Pois sabia já passara

O Primeiro Limiar.

 

Resolvi fazer um Teste

Resolvi verificar

Tudo o que digitei

Se iria aproveitar.

 

Foi aí que a dúvida veio

O que tentava criar

Era poesia ou cordel?

Não soube classificar.

 

Entrei na Caverna Oculta

A dúvida a exasperar

E se a “professorinha”

Isto não considerar?

 

É esta a Provação

Que preciso enfrentar;

Se terei a Recompensa

Se poderei enfrentar;

Todo o Caminho de Volta

Trazendo ou não na bagagem

O Elixir de criar.

 

(Criação inspirada nas etapas da Jornada do Herói em A jornada do escritor, de Christopher Vogler. Para o Grupo de Estudo em Escrita Criativa. Recife, 22/08/2016)

 

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* Contato: bernadete.bruto@gmail.com

** Contato: elbalins@gmail.com

 

Índex* – Janeiro, 2016

Amanda aguarda ansiosa os acontecimentos amadurecendo na árvore antiga.

Ela vê os galhos crescendo tortuosos, ela trilha os caminhos mais escuros.

Então faz a Paciência brotar verdinha no último botão em flor de Dezembro.

(“A Paciência não tem hora de chegar”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 29/12/15, 11h09)

Um Ano Novo crescendo nos galhos do Índex de Janeiro, 2016 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Entre “Qu’est-ce que créer?”, Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela |Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil).

Poema de Antonio Aílton (São Luís – MA, Brasil).

Um Conto e um Poema de Clauder Arcanjo (Mossoró – RN, Brasil).

Duas Crônicas de Mara Narciso (Montes Claros – MG, Brasil).

Agradeço o carinho e a participação de todos, a próxima postagem será em 28 de Fevereiro de 2016, um grande abraço e muita Luz,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – January, 2016

Amanda anxiously awaits the events maturing in the ancient tree.

She sees the branches growing croocked, she tracks the darkest paths.

So she makes Pacience sprout greenish in the last spring flower bud of December.

(“Pacience doesn’t have time to come”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 12/29/15, 11:09 a.m.)

A New Year growing in the branches of the Index of January, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Between “Qu’est-ce que créer?”, Hermann Hesse & Poeta de Meia-Tigela |Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil).

Poem from Antonio Aílton (São Luís – MA, Brasil).

A Short Story and a Poem from Clauder Arcanjo (Mossoró – RN, Brasil).

Two Chronicles from Mara Narciso (Montes Claros – MG, Brasil).

Thank you all for the kindness and participation, the next post will be on 28th February, 2016, a big hug and too much Light,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated into English only as a matter of the extension of the post.

**Patricia (Amanda) Tenório aguarda os acontecimentos… Patricia (Amanda) Tenório awaits events…