Posts com Arquitetura

Índex* | Agosto, 2021

Escrevo

Um livro novo

Feito palavra

Em flor

Feito botão

De rosa

Desabrochando

Em meus

Sentidos

*

Com tato

Paladar

E o aroma

Das frases

Chega

Em visão

Harmoniosa

Canção cheia

De sustenidos

E lá bemol

*

Para aquietar

O sexto

Sentido

Aquele

Da intuição

De artista

Que avisa

Para começar

Tudo

Outra vez

*

(“Comecei a escrever um livro novo”, Patricia Gonçalves Tenório, 14/08/2021, 06h34)

*

O recomeço da escrita a cada dia no Índex de Agosto, 2021 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Agosto, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Diversos.

Dois livros por mês: tática operacional para sobreviver ao cotidiano (Lara Ximenes, PE/Brasil) apaguei a playlist / comecei a dançar (Fernando de Albuquerque, PE/Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

Poema de Altair Martins (RS/Brasil).

Palco Iluminado | Bernadete Bruto (PE/Brasil), Alexandre Santos (PE/Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Agradeço a participação e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 26 de Setembro de 2021, grande abraço e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* | August, 2021

I write

A new book

Like word

In flower

Like pink

Button

Blooming

In my

Senses

*

With tact

Taste

And the scent

Of the sentences

It arrives

In harmonious

Vision

Song full

Of sharps

And la flat

*

To quieten

The sixth

Sense

That one

From intuition

Of artist

That warns

To begin

Everything

Again

*

(“I started writing a new book”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/14/2021, 06:34)

*

The restart of writing every day in the August Index, 2021 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Online Creative Writing Studies | August, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Miscellaneous.

Two books a month: operational tactics to survive everyday life (Lara Ximenes, PE/Brasil) I deleted the playlist / I started dancing (Fernando de Albuquerque, PE/Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

Poem by Altair Martins (RS/Brasil).

Illuminated Stage | Bernadette Bruto (PE/Brasil), Alexandre Santos (PE/Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Thank you for your participation and affection, the next post will be on September 26, 2021, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Um novo dia, uma nova chance, para a escrita, para a vida. A new day, a new chance, to writing, to life.

Índex* | Julho, 2021

Duvides

Do que tu escutas

Mas não duvides

De quem tu és

*

A vida

Se oferece

Inteira

E tu escolhes

O que já

Se encontra

Em ti

Nas qualidades

Nos defeitos

Um mundo

De maravilhas

Beleza

E milagres

Que habita

Ao alcance

Da tua mão

Que escreve

*

(“Os mundos de dentro são para sempre”, Patricia Gonçalves Tenório, 01/07/2021, 06h34)

Os mundos de dentro de quem escreve e lê no Índex de Julho, 2021 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Julho, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Diversos.

Escrita Criativa em mim | Patricia Gonçalves Tenório.

Dois livros por mês: A nota amarela (Gustavo Melo Czekster, RS/Brasil) e Anotações de um voyeur (Krauh Offman, desconhecido) | Patricia Gonçalves Tenório.

Um afilhado se escolhe: Adriano Portela (PE/Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

Poema de Altair Martins (RS/Brasil).

Poema de Cilene Santos (PE/Brasil).

Medo de quê, Hugo? (Hugo Peixoto, PE/Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

Agradeço a participação e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 29 de Agosto de 2021, grande abraço e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* | July, 2021

Doubts

What you hear

But don’t doubt

Who you are

*

Life

Offers itself

Entire

And you choose

What already

Is found

On thee

In the qualities

In defects

One World

Of wonders

Beauty

And miracles

Who inhabits

Within reach

From the hand

Of  who writes

*

(“The inner worlds are forever”, Patricia Gonçalves Tenório, 07/01/2021, 06:34)

The worlds from within from who writes and reads in Index of July, 2021 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Online Creative Writing Studies | July, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Miscellaneous.

Creative Writing on Me | Patricia Gonçalves Tenório.

Two books per month: The Yellow Note (Gustavo Melo Czekster, RS/Brasil) and Notes of a Voyeur (Krauh Offman, unknown) | Patricia Gonçalves Tenório.

A godson is chosen: Adriano Portela (PE/Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

Poem by Altair Martins (RS/Brasil).

Poem by Cilene Santos (PE/Brasil).

Afraid of what, Hugo? (Hugo Peixoto, PE/Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

Thank you for your participation and affection, the next post will be on August 29, 2021, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A árvore dos mundos de dentro que sempre brota frutos bons se você acreditar em si. The tree of the worlds from within that always bears good fruit if you believe in yourself.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Junho, 2021

Chegamos ao centro do país para visitarmos a senhora de Goiás, Cora Coralina, e conhecermos o processo de criação da jovem escritora do Mato Grosso do Sul, Moema Vilela.

*

Primeira Aula do Módulo 7:

*

*

Na primeira aula do módulo 7, descobrimos a forma imbricada da poesia e da prosa de Cora Coralina e a semelhança com a escrita de Moema Vilela; investigamos o conceito de ekphrasis (na descrição do escudo de Ulisses, na Ilíada, na análise da escultura Laocoonte por Lessing, no poema “Ode a uma urna grega”, de John Keats) aplicado na obra de Cora (“O prato azul-pombinho”) e também na de Moema (“A dupla vida de Dadá”); observamos os objetos como pontos de partida para a construção de prosa e verso, como se fosse o tear de Penélope à espera de Ulisses na Odisseia de Homero;

*

Segunda Aula do Módulo 7:

*

*

Na segunda aula do módulo, navegamos pelas reminiscências de Jacqueline de Romilly (Les Roses de la Solitude) nos textos de Cora e Moema; apreendemos o conceito das palavras e das coisas de Michel Foucault diante do quadro “Las meninas”, de Diego Velázquez, aplicando nas obras de Cora e Moema; visitamos as muitas casas de Cora; descobrimos a persistência na publicação e o reconhecimento tardio da senhora de Goiás.

*

Terceira Aula do Módulo 7:

*

E, com imensa alegria, convidamos para a nossa live do canal do YouTube na próxima quarta-feira, 28/07/2021, a partir das 19h, com a escritora, doutora e professora de Escrita Criativa na PUCRS e uma das coordenadoras da Especialização em EC (Unicap/PUCRS), Moema Vilela. Não percam!

*

https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

*

Exercícios de desbloqueio:

*

Módulo 3 – Ferreira Gullar:

*

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Lembranças da cidade da infância

*

Lembro as frias manhãs do sertão na minha cidade também, cheia de luz

Outros dias eram redemoinhos varrendo as ruas e espalhando poeira

E quando nosso olfato era inundado pelo cheiro que subia da terra era sinal de chuva.

Olhávamos para o céu cheio de nuvens de chumbo:

“Estava bonito para chover”

O cheiro das carteiras de cigarro – vazias

Continental, Hollywood, Minister,

Gaivota, Eldorado

Não importava se cigarro de rico ou de pobre

Se transformavam em dinheirinho de brinquedo

Naquele tempo o café cheirava mais

De manhã cedo inundava nossa casa.

A tapioca com doce de leite

E o pirulito

Vendidos por Teté no colégio.

O sábado era dia de costelinhas assadas e fígado partidinho no molho.

Quando o jantar estava fraco papai partia tomate, pimentão e ovos

Era dia do mexido.

No domingo

Os pães com nata esquentando no forno

As natas, eram guardadas para manteiga, biscoitinhos ou para passar no pão

No almoço todos queriam os ovinhos da galinha, a moela e a coxinha da asa

Os cheiros os sabores os sons…

Relâmpagos e trovões

O barulho da chuva nas calhas.

A cisterna enchendo.

E nós tiritando de frio embaixo das bicas.

No São João o cheiro das fogueira e dos fogos de artifício.

A casa da minha Vó tinha de tudo

Buchada, Pirão de ovos

Até tatu comi lá, um dia…

*

Módulo 4 – Graciliano Ramos:

*

Elba Lins

MEMÓRIAS DO CÁRCERE – Dos abraços aos écrans

*

Sobrevivo,

Fechada entre quatro paredes…

*

Paredes sólidas

Que se movem

E me acompanham

Pelos cômodos da casa.

E me isolam

Por trás do vidro dos écrans

Que me tornaram espelho

Do que vejo lá fora.

*

Nem todas as palavras

Escritas e faladas

Me trazem de volta o ‘cimento social’

Todo o álcool

Toda água

Muito sabão

Não me aproximam do outro.

Me isolo do mundo 

Que ficou vazio,

Que se tornou grande,

Abaixo da minha janela.

*

Que ficou cheio nas telas do Windows.

*

Nossas casas

Guetos vazios

Sombras de uma sociedade

Que treme.

Pálida fotografia

Do que fomos um dia.

Oceano de fotos espalhadas em mídias

Que nos enganam,

Quando nossa mão se estende

E toca

Numa tela fria.

*

Módulo 6 – Jorge Amado:

*

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Roteiro Sentimental a Ilhéus

COMO UMA SENHORA CONHECEU E SE APAIXONOU POR JORGE AMADO        

Recife, 26 de junho de 2021 – Ilhéus, 1958.

*                                                                                            

                                                                                   (…) Hoje eu sou Gabriela

                                                                                                           Gabriela ê meus camaradas.

                                                                                   (Modinha para Gabriela – Dorival Caymmi)

*

Organizo minha viagem para conhecer Ilhéus nesse tempo de pandemia. Diferentemente de outros tempos a viagem será toda virtual. Abri o celular e comecei minha busca para encontrar um roteiro que me levasse até mais perto de Jorge Amado e de sua escrita. Descubro o Bar Vesúvio e a Casa Jorge Amado, que mais parecem ter saído da novela televisiva que assisti.  Os prédios antigos têm logo na entrada estátuas do escritor, como que marcando sua presença e ao mesmo tempo nos dando boas-vindas. O passeio pela casa é outra viagem, encontramos muito do acervo de Jorge e de sua esposa! Nessa pequena visita ao centro histórico percebo que ele me remete à cidade cenográfica da novela Gabriela, protagonizada por Sônia Braga. Hoje descubro ter sido uma réplica da cidade recriada no município de Guaratiba (RJ). É dessa forma que começo a recordar quando conheci o escritor.

*

Um som de fundo chega aos ouvidos como quem retorna ao ano de 1975: iaiê, iaiê ioná, meu amor iaiê… e revejo em pensamento a novela Gabriela, uma das primeiras novelas em cores! Aqui começa outra viagem, bem mais sentimental. Estou novamente no terraço de uma casa em Olinda, onde reconheço uma moça sentada em frente para a TV recém adquirida, que mostrava imagens tão coloridas! Reconheço a moça morena da novela, assim como a mocinha de dezessete anos que assistia Gabriela. Naquele tempo já havia lido uma trilogia de romances de Jorge Amado que encontrou em casa reunidos num só livro: Cacau, Suor e No País do Carvanal.  A moça também leu emprestado do vizinho os livros Mar Morto e Capitães de Areia. Depois será o tempo de filmes e novelas, que instigarão outras leituras.

Relembrando esse tempo, três se confundem na tela, quando aumenta o som de uma canção na voz de Gal Costa: Quando vim para esse mundo eu não atinava em nada… Assim, faço esse passeio insólito entrando novela adentro nesta escrita que me descortina aos poucos o roteiro do meu itinerário. Assim inicio percorrendo o mesmo caminho de Grabriela até chegar a Ilhéus. Caminho a pé, sofrido de povo esfomeado vindo da seca.

Chegamos a Ilhéus, entramos na cidade dos anos vinte, precisamente em 1925, na terra de grandes produtores de cacau. Terra e época na qual viveu o escritor e que ambientou esta e muitas de suas histórias.  Acompanho os passos de Gabriela pela cidade até vir trabalhar no Vesúvio para Nacib. Acompanho o encantamento dos homens por ela.  O amor correspondido por Nacib. Seu casamento, a tentativa de Nacib transformá-la em uma dama, seu jeito livre, a traição, a estadia desconfortável no Bataclã, até o acordo entre os amantes sobre um casamento aberto. Gabriela que era morena e cheirava a cravo e canela. Assim como a mocinha lá de Olinda, mas que cheirava a rayto del sol.

A Gabriela de Jorge Amado, assim como eu, nasce em 1958. Assim como ela, a mocinha também encontrará em breve um NACIB, “seu Nacib moço bom”. Assim como Gabriela, a alma da mulher era livre e seria feliz vivendo fora dos conceitos idealizados de uma vida de dona de casa padrão. Sempre Gabriela! O final da mulher seria diferente da novela, embora muitos anos depois, a senhora desfrutasse de uma liberdade plena e sadia.

 Retorno ao cenário de novela… a vida de cada mulher daquele elenco, como se revisitasse os papéis femininos da nossa sociedade. Chego à casa de sinhazinha Guedes Mendonça assassinada junto com seu amante pelo marido coronel Jesuíno. Saio de coração apertado e me divirto vendo Glória, amante do coronel Coriolano, sempre debruçada na varanda do casarão que dá direto na praça, mostrando seus formosos peitões. Acompanho com receio e divertimento sua paixão pelo professor Josué, apimentada pela cantiga de Fafá de Belém: ai moreno! Com sorriso nos lábios visito aquelas senhoras de família duras com o peso da religiosidade sobre elas e sinto pena… já imagino a confusão da procissão juntado-as com as meninas de Maria Machadão. Sigo pelo mesmo caminho de opressão feminina ao chegar ao Bataclã, desmascarando a sociedade hipócrita que abusa das mulheres. Procuro uma saída e sigo em direção à casa de Malvina, a bela menina cheia de ideias novas, querendo se libertar das amarras e presa num amor sem futuro e a um homem fraco… se falo em mim e não em ti é que nesse momento é que já me despedi… meu coração ateu não chora e não lembra, parte e vai embora…

Com esse fundo musical, regresso ao meu presente, ao espaço que ocupo agora em casa, nesse instante que leio a biografia de Jorge Amado. Aquele homem soube viver! Ao rememorar sua história nesta leitura, percebo que perseguiu e alcançou o sonho de viver da escrita, teve uma vida bem vivida, longa e feliz e foi muito bem amado!  A escolha deste roteiro sentimental proporcionado pela escrita e leituras me fez até rever uma cidade que nunca visitei. Quer viagem mais agradável de fazer sem sair de casa? Posso dizer que há muito não sou a mocinha da cor de canela, mas continuo pensando com muita admiração, no Jorge, para sempre, Amado!

*

Elba Lins

UM PASSEIO NO TEMPO

*

Finalizo a leitura de Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado.

Os Mundos de Dentro têm me levado a viajar por caminhos já trilhados no passado e sempre garimpo boas lembranças – joias encobertas pelo tempo.

Durante a leitura, uma lembrança chegava até mim, lembrança da novela Gabriela, de todos aqueles personagens que povoaram as noites de minha adolescência distante, nos idos de 1975.

Que vontade senti, de rever os personagens que habitavam nossas noites – coronéis com revólver na cinta, jagunços que tocaiavam, matavam e escondiam-se, jovens sonhadoras, prostitutas bonitas, donas de casa sujeitas ao mando dos maridos e alguns poucos que buscavam mudanças que pareciam impossíveis de acontecer.

A cada noite uma gama de artistas desfilavam aos nossos olhos. Alguns tão jovens quanto nós, hoje da mesma forma mães, pais, avós ou bisavós.  Outros não mais estão entre nós, como Armando Bógus na pele de Seu Nacib – o árabe baiano mais amado do Brasil, de quem nem Marcelo Mastroianni tomou o lugar – no seu Bar Vesúvio.

Sônia Braga na eterna pele de Gabriela, a única que roubou de Jorge Amado qualquer outra figura que ele houvesse imaginado para retratar Gabriela, que também roubou de mim a primeira ideia que tive de Gabriela. Gabriela que viajou para os Estados Unidos e quando esteve aqui, passou no Aquarius e se mandou, direto para Bacurau.

Que vontade de rever aquelas cenas,

Que vontade de passear pelas ruas de Ilhéus,

Que vontade de visitar o Bataclan e dançar um tango.

Que vontade de comer o acarajé, o xinxim, o abará e o vatapá de Gabriela.

Fui ao Globoplay, mas não encontrei a versão mais antiga da novela.

Graças ao YouTube consegui descobrir capítulos de Gabriela. E a começar pela música de abertura – “Porto” – de Dori Caymmi (Laiê, iaiê, oni-ona, iaiê …) comecei a navegar nas águas da Bahia, comecei a andar nas terras do cacau, me senti de volta àquela terra. Novamente eu estava lá:

Entrei no cabaré e encontrei logo de cara, Fúlvio Stefanini, representando Tonico Bastos – namorador descarado – dançando tango com uma das meninas do Bataclan. Ainda ali vejo a saudosa Dina Sfat – a Zarolha do Bataclan.

Me encontro novamente com Nívea Maria e Elizabeth Savalla na pele de Jerusa e Malvina.

Tantos atores e atrizes que não mais fazem parte da nossa vida, já subiram para o andar de cima para comer acarajé junto com Jorge Amado na outra dimensão.

Quero muito revê-los todos, de Gabriela a Sinhazinha. Vou assistir o que encontrar no YouTube e depois conto para vocês o que conseguir garimpar nesta viagem ao passado.

*

Ilana Kaufman

Contato: ilakau7@gmail.com

*

Chegando em Salvador, resolvi ir à Ilhéus de balsa, atravessando a Baía de Todos os Santos por ferryboat. De longe se vê o mangue e uma das cidades mais antigas do Brasil, Cairu, um município arquipélago. Assusta um pouco o mar estar turvo na rebentação. Apesar da paisagem indescritível, rezava para desembarcar logo na terra de Jorge Amado. Deixei as bagagens na Pousada dos Hibiscus e dali avistei o azul diferenciado do mar em Ilhéus. Queria conhecer o Centro Histórico. Consegui contemplar o Palácio Paranaguá, o Museu de Arte Sacra, o Teatro Municipal e, de repente, me deparo com o Bar do Vesúvio, importante ponto de encontro de “Gabriela”, onde é possível provar o quibe do Nacib. Em seguida, a casa de Cultura Jorge Amado. Local em que Jorge viveu a sua infância e adolescência. Na volta à Salvador, visitei a Fundação Casa de Jorge Amado ou Casa Azul do Pelourinho. Há um mirante no qual se pode observar os sobrados e os mistérios dos mesmos.

Índex* | Junho, 2021

Para Bruno e Assis

*

O aniversário

É aquele dia

Em que o tempo

Para

O sangue

Agita

A vida parece

Uma longa estrada

Cheia de pegadas

Do bem que fizemos

Da música que tocamos

Das palavras escritas

No coração vazio

E ganharam

Forma

Luz

E cor

*

(“A estrada são vocês”, Patricia Gonçalves Tenório, 21/06/2020, 05h50)

A longa estrada da Escrita Criativa no Índex de Junho, 2021 do blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa On-line | Os mundos de dentro | Junho, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório & Diversos.

Escrita Criativa em mim | Patricia Gonçalves Tenório.

40 mil visualizações | A baronesa | Patricia Gonçalves Tenório.

Poema de Altair Martins (RS – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho de sempre. Excepcionalmente, a postagem de junho foi antecipada de 27 para 20. A próxima postagem será em 25 de julho de 2021. Abraço bem grande e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* | June, 2021

For Bruno and Assis

*

The birthday

It’s that day

In which time

Stops

The blood

Shakes

Life seems

A long road

Full of footprints

Of the good we did

The music we played

The written words

In the empty heart

And that won

Form

Light

And color

*

(“You are the road”, Patricia Gonçalves Tenório, 06/21/2020, 5:50 am)

The long road of Creative Writing in the June Index, 2021 on Patricia Gonçalves Tenório’s (PE – Brasil) blog.

Studies in Creative Writing Online | The worlds from within | June, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório & Several.

Creative Writing on Me | Patricia Gonçalves Tenório.

40 thousand views | The Baroness | Patricia Gonçalves Tenório.

Poem by Altair Martins (RS – Brasil).

I appreciate the attention and affection always. Exceptionally, the June post was brought forward from 27 to 20. The next post will be on July 25, 2021. Big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A longa estrada nos confirmando que, apesar de tudo, viver é bom. Música: The long and winding road, Os Beatles. Fotografia: Fred Linardi, do encontro de um dos aniversariantes de junho, Luiz Antonio de Assis Brasil, e Patricia Gonçalves Tenório, em novembro de 2019, Porto Alegre – RS – Brasil. The long road confirming that, despite everything, living is good. Music: The long and winding road, The Beatles. Photograph: Fred Linardi, from the meeting of one of the June birthdays, Luiz Antonio de Assis Brasil, and Patricia Gonçalves Tenório, in November 2019, Porto Alegre – RS – Brasil.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Os mundos de dentro | Junho, 2021

Desembarcamos na Ilhéus do início do século XX, e navegamos pelas técnicas de ficção tão semelhantes às de não ficção em Gabriela, cravo e canela, com Jorge Amado.

*

Primeira Aula do Módulo 6:

*

*

Na primeira aula do módulo, investigamos o formato do livro estudado, Gabriela, cravo e canela, que lembra uma peça de teatro ou mesmo manchetes de jornal, antecipando os acontecimentos futuros; navegamos pelos diversos pontos de vista, como se fosse uma câmera; comparamos os subtítulos dos capítulos e a não ficção de Bernardo Bueno; constatamos a utilização de técnicas da não ficção em Gabriela;

*

Segunda Aula do Módulo 6:

*

*

Na segunda aula do módulo, comparamos a teoria da psicanalista Melanie Klein na projeção e na introjecção contínuas dos mundos de dentro para os de fora e vice-versa, como podemos ver na personagem central, Gabriela; verificamos a liberdade de Gabriela sendo anunciada em um cenário de sonho; constatamos o manifesto à liberdade feminina nas personagens Gabriela, Glória e Malvina; visitamos as muitas casas de Jorge Amado.

*

Terceira Aula do Módulo 6:

*

E é com imensa alegria que convidamos para a nossa live do canal do YouTube na quarta-feira 30/06/2021, a partir das 19h, com o escritor, especialista em Jornalismo Literário, mestre e doutorando em Escrita Criativa pela PUCRS, Fred Linardi. Não percam!

*

https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

*

Exercícios de desbloqueio:

*

Módulo 5 – Vinicius de Moraes:

*

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Sobre encontros e vida

(Uma peça escrita on-line por Bernadete Bruto e Elba Lins baseada no “Soneto da Separação” de Vinicius de Moraes e nas músicas “Samba em prelúdio” e “A tonga da mironga do cabuletê”.)

*

Personagens:

Mulher 1

Mulher 2

D.J

*

As autoras advertem que qualquer semelhança é mera coincidência

PRIMEIRO ATO

Em um salão de dança organizado para festa, com mesas e cadeiras cingindo o salão, enquanto todos esperam o início do evento, o DJ testa o som. Ouve-se um trecho da música “Samba em prelúdio”, de Vinicius de Moraes. Duas mulheres vindo de lados opostos se encontram no meio do salão e ouvem ao fundo a primeira estrofe do soneto da separação.

“De repente do riso fez-se o pranto

silencioso e branco como a bruma

e das bocas unidas fez-se a espuma

e das mãos espalmadas fez-se o espanto.”

Primeira mulher: (caminha pelo salão e fala tristemente) não sei se foi tão de repente, mas aquele momento foi como um terremoto para mim, ainda hoje trago no rosto o espanto.

Segunda mulher: (caminha em direção a primeira com ar de zombaria e fala) no meu caso já sentia que a relação estava com “validade vencida” e a cada vez que ele tentava me beijar eu espumava de raiva.

SEGUNDO ATO

Ainda no meio do salão, enquanto as pessoas vão chegando e tomando assento nas mesas, as duas mulheres continuam a dialogar com o poema que escutam ao fundo, que parece estar sendo reproduzido aos poucos, como que propositalmente.

 “De repente da calma fez-se o vento

que dos olhos desfez a última chama

e da paixão fez-se o pressentimento

e do momento imóvel fez-se o drama”

*

Primeira mulher: (triste) naquele fatídico dia, enquanto ele retornava para casa, no fundo um pressentimento me dizia que o vento apagaria nossa última chama.

Segunda mulher: (de forma sensual) amiga, comigo foi bem diferente… O turbilhão que me invadiu, não apagou nenhuma chama, já apagada com o tempo. O que senti foi uma nova chama desde que outros homens demonstraram interesse por mim e um em especial arrebatou todo meu ser.

TERCEIRO ATO

No entorno do salão, as pessoas ocupam rapidamente as mesas. Assim, as mulheres saem do salão para conseguirem uma mesa em local estratégico. Ao sentarem-se ouvem os trechos do soneto.

“De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

*

“Fez do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.”

*

Primeira mulher: (desanimada) ah, que tristeza esta solidão! Antes acompanhada, agora tão solitária! Que alegria haveria em uma casa vazia, fria, que não abrigava uma família?

Segunda mulher: (animada) de repente não mais que de repente, a paixão novamente. A dor sumiu para sempre.

QUARTO ATO

Ao fundo do salão o DJ coloca a música de abertura do baile. os dançarinos já começam a convidar seus parceiros e a segunda mulher se levanta aos primeiros acordes da música de Vinicius e Toquinho “A tonga da mironga do caburetê”.

*

Segunda mulher: (entusiasmada) minha amiga, vem comigo. A vida nos chama. Amar é a dança do espírito e a vida é uma aventura.

*

Primeira mulher: (já se animando) vamos então. Aos poucos deixo a tristeza passar e vivo o próximo instante. Vou seguir dançando e cantando, assim, de repente não mais que de repente, nessa aventura errante chamada vida.

(As duas mulheres sambam e cantam no meio do salão)

FIM

*

Elenara Leitão

Contato: arqstein@gmail.com

MULHER

Solteira, chorei.

Casada, já nem lágrima tive.

Viúva, perdi olhos

para tristezas.

O destino da mulher

é esquecer-se de ser.

Mia Couto

*

Solteira, sonhei

Casada já nem sei

Delirei

Viúva, lembrei e

Fui em frente

O destino da mulher

é ser ela mesma

*

Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Vinicius de Moraes

*

Da mulher e suas agruras,

tanto receitam nossas dores

tanto moldam nossos amores

achando que descobrem

nossos segredos

Mal sabem, incautos,

que mulher tem qualquer coisa

muito além dos entendimentos

qualquer coisa muito além das luzes

qualquer coisa que vai além

Porque nasceu para gerar

gerar vida, gerar amor, gerar ir

A vida da mulher

para tristeza e choro de muitos

não passa pelo esquecimento de si

e sim, pelo redescobrimento

além de qualquer fraqueza

além de qualquer dor

Mulher tem, por destino e sina

o sorriso e a capacidade

de reamar

de retomar

de vir a ser

de fechar e REabrir portas

Dela a casa

dela o caminho

*

Poetas tão afamados,

não riam de minha ousadia,

de querer debater

Por mais que as palavras lhes sejam amantes

Falta-lhes o sentido do ser feminino

Aquele que tentam margear

aquele que, olhando pedaços,

teimam enxergar o inteiro

Da menina que olha assustada

à velha sábia que mais maga

todas espíritos que teimam

andar etéreas e livres

por mais correntes que teimem

colocar em suas vidas

*

nada nos tolhe

talvez nós apenas

Uma mulher se constrói

Se edifica

Se consolida

E dela apenas se diz

Viveu, amou, morreu

Virou luz

*

e seguiu em frente

*

Módulo 6 – Jorge Amado:

*

Elenara Leitão

Caminhos de Salvador

Moças, a igreja da Conceição da Praia fica a duas quadras daqui. Mas recomendo que não vão até lá. É zona do baixo meretrício…sorriu ao lembrar o aviso do policial militar naquela manhã. Ele mal podia imaginar que duas estudantes de arquitetura, vindas do distante estado do Rio Grande do Sul, pouco iam se incomodar com aquele detalhe. Queriam mais é conhecer as igrejas da cidade, quantas mesmo? Coisa de uma para cada dia do ano, tinha dito o guia. Imaginaram que, no máximo, podiam encontrar com Vadinho, saindo de alguma vadiagem diurna enquanto sua Flor ficava na cozinha, ensinando a arte de bem comer. Disso sabia ele com mais maestria. Era começo da década de 80. Mais uma vez voltava àquela cidade mágica. Sentada no meio fio, comia um acarajé, se lambuzando de pimenta (Moça, pimenta para turista ou local? Local, por obvio). Sua mente voltou no tempo.

*

Enquanto o ônibus corria pela BR em direção à uma Salvador ainda desconhecida, a caloura da faculdade de arquitetura misturava duas imagens em sua cabeça. Era um dia normal de aula, no minhocão da UnB em Brasília, aquele prédio comprido e serpenteante que abrigava as aulas. Projeto de Oscar Niemeyer naquela universidade que foi pensada para ser um exemplo de excelência e cujos professores foram expurgados em 1968. Sete anos depois, 1975, uma jovem sulista olha um cartaz, grudado nas paredes de tijolo. Operação Mauá em Salvador. A OPEMA era um programa do governo militar para que estudantes universitários do ciclo básico pudessem se integrar às problemáticas dos transportes nacionais. Na prática, uma viagem visita (leia-se turística) para a capital baiana, só com mulheres na linha moralista da época.  Salvador lembrava aquela novela que tinha recém visto na TV. Há pouco a cor se tornara visível nas telinhas, embora ainda fosse um luxo para alguns. Era um romance de Jorge Amado, Gabriela da cor do cravo, do gosto da canela. Uma atriz nova que surgia. Paranaense, mas esses são detalhes em um país que se vendia diverso. Bastava um bom bronzeado e surgia a alegre menina que “Só desejava campina, colher as flores do mato / Só desejava um espelho de vidro prá se mirar / Só desejava do sol calor para bem viver / Só desejava o luar de prata prá repousar / Só desejava o amor dos homens prá bem amar !”. Na sua memória, o sotaque arrastado, o romance que a marcara nem era da Bié do seu Nacib, moço bonito. Ela se identificava com a mocinha Jerusa, neta certinha do coronel que mandava na cidade. Embora uma pontinha dela, ainda muito insipiente, se encantara mesmo era com Malvina, aquela que percebia que homem covarde não se espera e se agradece o livramento.

*

Enquanto tocava Tony Tornado em uma rádio na beira da estrada, “E a gente corre (a gente corre) Na BR-3 (na BR-3) – E a gente morre (e a gente morre) – Na BR-3 (na BR-3)”, via uma pracinha de cidade pequena, tão parecida com a cidade cinematográfica da novela. Cores fortes, gente que vai caminhando mansamente em um dia claro. Baianas com seus tabuleiros, fazendo reverências aos velhos coronéis do sertão. Cheiros das essências se misturavam no ar. Ao longe um som de berimbau mostrava uma turma lutando capoeira.

*

A Salvador de 75 era muito parecida com a imagem da Ilhéus que tinha em sua cabeça. Não pelo tamanho, que obviamente, era muito diferente. Mas na diferença social gritante. Sentiu isso ao entrar nos Alagados, uma favela sobre palafitas que era algo que nunca tinha vivenciado, nem imaginara existir. Se os militares imaginavam que, mostrando um Brasil real, iam acabar com os delírios de esquerda de uma juventude que seria o seu futuro, deviam ter pouquíssima imaginação. Na sequência, uma visita com palestra ufanista na base naval de Aratu, com as praias mais lindas que já tinha visto. Poucas pessoas na verdade tinham tido o privilégio de passear por ali: militares e presidentes.  “Não sejam como os baianos que nada fazem…dizia o cara fardado lá na frente, ao que retrucava o estudante que era nosso anfitrião: “Fazer por quê? Paulista trabalha para quê? Para tirar férias na Bahiiiiiiaaaa (o sotaque comprido tornava tudo mais encantador). A gente já mora aqui...” enquanto piscava o olho em um flerte gostoso e livre como uma brincadeira.

*

Mas foi ao passear pelo Pelourinho, com suas ladeiras e casas quase em ruínas que sentiu a baianidade tão intensa que lhe fisgou para sempre. As baianas cobravam para posar junto, por certo. O turista japonês arregalou os olhos ao ouvir o guia descrever o tanto de ouro que havia na igreja de São Francisco. A voz de Gal Costa, a mesma que cantava a modinha de Gabriela e que tinha visto em Brasília, no primeiro show em que fora sozinha, gritava em seus ouvidos: “Tenho pensado tanto na vida /Volta bandida mata essa dor /Volta pra casa, fica comigo/ Eu te perdoo com raiva e amor”

*

Salvador misturou as entradas e saídas de uma trajetória estudantil. Só foi voltar muito mais tarde, já formada. Apresentando trabalho do mestrado, redescobriu outra Salvador. Os velhos casarões meio em ruínas do Pelourinho, agora já restaurados. Muita gente, diziam, tinha sido afastada. O local era um imenso canteiro turístico. Já tinha sido avisada da insegurança da cidade. Mas no Pelourinho pode andar tranquila, diziam com orgulho. Podia mesmo. Era altamente policiado naquele início do século XXI. Podia andar pelas ruas com máquinas fotográficas, entrar na fundação de Jorge Amado, comer nos restaurantes. Comer, na verdade, era um exercício complicado. Muitas crianças de olhar faminto ficavam pedindo as sobras. Não dava para não sentir como uma facada no peito aqueles pequenos capitães de areia já sem dignidade, ansiando por uma esmola, um resto daqueles pratos cheios que alimentavam a curiosidade gastronômica de turistas.

“Nas ruas de Salvador
nunca dormiram crianças
cobertas de esperança
descobertas pelo medo
dormem adultos franzinos
dormem corpos de meninos
que envelheceram cedo
dormem num corpo de homem
tendo a fome por brinquedo
Pedro Bala não tem nome
como tantos outros Pedros.”

*

Lembrou da cena final da novela de 1975. Pessoas que passam e se cumprimentam, com respeito. Um homem jovem de branco. Chapéu panamá. Duas baianas se ajoelham e beijam sua mão. Aquela cena final marcava um Brasil que, apesar das mudanças sociais e culturais que se anunciavam no romance e na novela, ainda perpetuava velhas relações de poder.

*

A ginga eterna da cidade se modificando com o passar do tempo. Novos coronéis ocupando o poder. O povo ainda aos seus pés naquela mudança de faz de conta que mantém tudo sempre igual….Eu nasci assim, eu cresci assim, E sou mesmo assim, vou ser sempre assim: Gabriela, sempre Gabriela! ..

*

A última vez que percorreu os caminhos de Salvador foi em forma de avatar. Um Pelourinho digital em um mundo paralelo.    

*

Letras das Músicas: Jorge Amado Letra e Música

Pod cast – https://podcasts.apple.com/us/podcast/jorge-amado-tinha-pacto-com-leitor-n%C3%A3o-com-intelectuais/id1371163424?i=1000429127313

40 mil visualizações | A baronesa | Patricia Gonçalves Tenório

Tudo começou em uma manhã de junho de 2019. Estávamos, eu e o escritor e professor gaúcho Amilcar Bettega, passeando pelo Recife Antigo, bairro da capital pernambucana, quando um vendedor de chapéus me chamou de baronesa.

Começou

De mansinho

Feito céu

De madrugada

As letras

Juntando-se

Ali

As palavras

Fazendo sentido

E toda a construção

De uma personagem

Bela

Inteligente

Rica

Atravessa

O tempo

O espaço

E materializa-se

Aqui

Na mão

Que escreve

(A Baronesa, Patricia Gonçalves Tenório, 08/06/2019, 05h07)

A novela, escrita sob o pseudônimo de Charles Allington, narra a história de Natália Shoemberg, cantora de ópera, acusada do assassinato do marido, o barão Viktor Shoemberg. O cenário é a Viena do final do século XIX, início do século XX, onde eram contemporâneos artistas como Gustav Klimt e Koloman Moser, os arquitetos Otto Wagner e Adolf Loos, os escritores Arthur Schnitzler e Hugo von Hofmannsthal, além de Gustav e Alma Mahler e o pai da Psicanálise, Sigmund Freud.

Em outubro de 2019, viajei para a Viena do século XXI para confirmar detalhes da novela. Em março de 2020, entramos na pandemia de Covid-19, e propus a Adriano Portela, Jaíne Cintra, Juliana Aragão e Mariana Guerra que realizássemos (cada um/a em suas residências) um vídeopodcast, com a gravação das vozes de Adriano (masculinas) e minha (femininas) e a edição de imagens da Viena do século XIX por Jaíne Cintra e a equipe das meninas super poderosas, transformando o texto em uma espécie de rádio novela, tornando-o acessível (texto e vídeopodcast), em forma de capítulos semanais, no site dos Estudos em Escrita Criativa.

E, para a nossa surpresa, descobrimos, em 15/06/2021, que o primeiro capítulo desse trabalho a tantas mãos (e que nos deu imenso prazer realizar, apesar da pandemia), foi agraciado com mais de 40 mil visualizações no YouTube.

A minha infinita gratidão a todas as pessoas que nos leram e escutaram, e, em especial, a essa equipe maravilhosa que me ajudou a transformar mais um sonho em realidade.

Apesar de todas as dificuldades, mais um sonho que se realizou.

EECs 2021 | Os mundos de dentro | Manuel Bandeira

Continuamos nessa viagem maravilhosa para “Os mundos de dentro” de autores e autoras super inspirador@s para a nossa escrita… Dessa vez, investigamos o país imaginário do poeta pernambucano, nascido em Recife, Manuel Bandeira:

Primeira Aula do Módulo 2:

Na primeira aula do módulo, constatamos a urgência e os olhos de estrangeiro com os quais Bandeira retratou o Recife em sua obra; navegamos com Plínio Santos-Filho e Francisco Carneiro da Cunha em “Um dia no Recife” e “Um dia em Olinda”; verificamos que João Cabral de Melo Neto está para o engenheiro enquanto Bandeira está para o arquiteto dos versos; experimentamos a antítese de Bandeira: sofrimento e Carnaval; e comparamos a técnica de Bandeira com a de Edgar Allan Poe – refrão, tom, efeito e intenção.

Segunda Aula do Módulo 2:

Continuamos na análise de alguns poemas de Bandeira, em especial, os do livro Libertinagem, entre eles, “Evocação do Recife” e a poesia-ícone “Vou-me embora pra Pasárgada”, relacionando o país imaginário de Bandeira com o país anterior do poeta francês Yves Bonnefoy, além da indicação de filmes sobre Manuel Bandeira;

Terceira Aula do Módulo 2 (Live com Altair Martins):

E o encontro virtual com um dos maiores apaixonados pela obra de Manuel Bandeira, o escritor, poeta e professor de Escrita Criativa Altair Martins (RS | Brasil):

https://youtu.be/nh5Dj9YZaxo

O próximo módulo será sobre a casa, a vida e a obra do poeta maranhense, nascido na ilha de São Luís, Ferreira Gullar, e contaremos com a participação especial do escritor, poeta e professor Antonio Aílton. A primeira e a segunda aulas do módulo 3 irão ao ar, respectivamente, em 03 e 10/03/2021 e o encontro virtual será em 31/03/2021, a partir das 19h – acompanhem nas redes sociais @estudosemescritacriativa (Instagram e Facebook). Não percam!

Exercícios de Desbloqueio:

Módulo 1 – Osman Lins:

Bernadete Bruto (Recife, PE | Brasil)

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Lista de pequenos gestos diários

Minhas palavras morreram.

 Só os gestos sobrevivem.

(Osman Lins)

Já existia uma rotina que desenvolvera naquele tempo que iniciava ao desligar o despertador.  Através daqueles pequenos gestos diários pude me reconciliar com a minha casa, antes entregue a outra pessoa que não pôde vir por muito tempo. Então fiquei com todo o serviço doméstico mais o do meu trabalho. Penso que, de qualquer modo, foi bom estar em casa em tempos tão inseguros. Os objetos de consumo mais imprescindíveis eram as garrafas de álcool gel, de álcool 70, álcool em spray e a de água sanitária. Hoje, faço uma lista das atividades rotineiras daquele período.

Desligar o despertador do celular

Escovar os dentes

Vestir uma roupa leve

Fazer alongamento

Preparar o café

Fazer anotações

Dar comida ao cachorro

Limpar área de serviço

Colocar água sanitária no tapete da entrada

Organizar almoço

Lavar pratos

Ligar TV para ouvir um programa em inglês

Faxina sala quartos e banheiro

Aguar plantas

Limpar varanda

Tomar banho de sol

Tomar banho

Ligar computador

Cozinhar o almoço

Atualizar listas de compras, reparos

Programar despertador para sesta

Lavar pratos

Retornar ao computador e aguardar e-mails, Whatsapp ou telefonemas

Fechar o computador

Fazer o jantar

Ligar a TV

Preparar um lanche

Desligar TV

Lavar pratos

Recolher lixo

Apagar as luzes da casa

Acender luz do quarto

Tomar banho

Vestir o pijama

Ligar ventilador do quarto

Deitar na cama

Abrir um livro

Fazer anotações

Fechar e guardar livro

Programar despertador

Apagar luz

Era uma variação de gestos diários, dependendo das circunstâncias: meticulosos, firmes, caprichados, nervosos, apressados, cansados, displicentes… Mas sempre, rotineiramente, gestos ritmados para no final descobrir que você ainda era sua própria fiscal. Ha, ha, ha, em todo lugar observava pequenos defeitos que requereria mais gestos e listas e mais listas do que fazer, o que comprar, do que consertar…

Mesmo assim, foram aqueles pequenos gestos diários que me conduziam ao encontro comigo. A maior parte dos barulhos era proveniente dos gestos. Gestos que realizava no silêncio. Não silêncio como nos mosteiros, pois havia uma TV ligada, ou um celular vibrando, um cachorro latindo, os barulhos de fora. Mas gestos cadenciados na atenção plena. Aqueles gestos cotidianos me mantiveram no chão e pude enfrentar a pandemia, o isolamento, as tarefas externas e as grandes perdas que desabaram sobre minhas costas, pesaram meus ombros, oprimiram meu coração durante esses tempos tão sombrios.

E mesmo assim a minha casa foi o meu paraíso. 

*

Cilene Santos (Caruaru, PE | Brasil)

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

O QUARTO

Era grande a casa; porém, não dividida a contento. Havia apenas dois quartos. O quarto do casal e o quarto das crianças, onde quatro camas compunham o mobiliário. O ambiente era aconchegante. Na parede, alguns quadros, de cores vivas, quebravam a seriedade da madeira. Uma cortina de voil abrandava a claridade do sol da manhã. Uma janela grande mostrava a paisagem da rua da frente: algumas casas, uma praça, onde as crianças brincavam ao final da tarde. Por ali, passavam o sorveteiro, o pipoqueiro e um senhor idoso vendia bolas de sopro. Da janela se via a igrejinha que, vez ou outra, quebrava o silêncio com o badalar nostálgico do sino. Naquele quarto havia também uma mesa, que servia de apoio nas tarefas escolares. Em todas as noites havia contação de histórias, para os menores. Eram quatro, ao todo. E o tempo foi passando lentamente, desfazendo a magia daquele quarto. Quando dei por mim, meus meninos não eram mais crianças. Haviam partido para o mundo. Cada um para o seu lado. Às vezes, nas noites, entro no quarto e sinto o cheiro do passado. Não tem mais a mesma aparência, mas a poesia daqueles momentos da infância ficou marcada nas paredes, no teto, no ar. Chego a escutar umas vozinhas reclamando: “Não, mamãe, não quero ir para a escola!” E eu, aturdida com o pensamento no passado, falo em voz alta: “Sim, meus filhos, precisam ir à escola. Hoje é dia de prova.”  Assustada comigo mesma, saio do quarto e entrego-me aos afazeres domésticos.

*

Dilma França (Caruaru, PE | Brasil)

Contato: dilma_franca@hotmail.com

O MEU JARDIM

03.06.2020

É diminuto…

Meu pequeno mundo

Meu pedacinho de céu

Minha constelação

Meu eu, meu tudo!…

Nele, costumo despir a alma,

O que me traz a calma,

Despojar-me de mim mesma,

Contemplar o interior

E ouvir a voz do coração!…

Numa maravilhosa sensação

De intimidade perfeita

Com o infinito, com o silêncio,

Com o Deus do amor,

Da esperança e da paz.

É glória… É louvor…

É tudo que me satisfaz: meu jardim!

Necessito dele

Porque me fascina

E me faz ver a beleza

De acreditar

Na luminosidade dos dias

E no colorido da Natureza.

Inspira-me a sonhar… E a poetizar…

Ensina-me que, mesmo na velhice

Retorcida pelo tempo,

Ainda é possível dar flor…

Nele, oxigeno a minha emoção,

Alimento a minha fé

E sinto a felicidade plena:

A libertação!

No meu jardim!

No meu jardim!…

*

Elba Lins (Recife, PE | Brasil)

Contato: elbalins@gmail.com

GESTOS QUE DEFINEM

Gestos – pequenos gestos, que dizem quem somos. Gestos que às vezes ficam para sempre gravados – para nos lembrar quem somos, para recordar quem fomos, para possibilitar que muito tempo depois possamos concluir se mudamos, ou se ainda somos os mesmos de outrora – capturados um dia pelas lentes amadoras de uma câmera.

A foto em preto e branco – antiga – é de uma época em que a família era completa e jovem. Época em que eu não ousava mostrar sentimentos. Minha irmã deixava transparecer toda sua amorosidade, seu carinho, seus gestos de aconchego – que eu quis inibir. O clique da máquina, entretanto, foi mais rápido que eu e deixou impressa a tentativa – inútil – de alterar o jeito se ser de minha irmã.

Sempre que olho a foto, lembro do meu movimento, do movimento que mostra alguém frio, ou que não ousava ser de outra forma…

No momento, não tenho a foto em mãos, mas quando pegá-la lembrarei novamente de como era meu jeito de ser e da sensação de reprovação pela atitude tão carinhosa e bonita de se mostrar inteira de minha irmã.

*

Fabíola Lucena (Porto | Portugal)

Contato: falucena@gmail.com

A segunda xícara

Os dias ficaram mais longos, mais lentos. Não importa se é hora de levantar e tomar banho. Não vou mais a correr apanhar o metrô. Agora eu converso com minha segunda xícara de café. A segunda porque agora temos tempo e ela me faz companhia. Ela sequer teve oportunidade algum dia de existir antes da pandemia. A casa ainda dorme e eu converso com ela. A conversa se desenrola enquanto olhamos as árvores frondosas da Quinta do Cisne que ficam em frente ao meu apartamento. Sinto vontade de caminhar por baixo delas, mas só posso admirá-las. Que bom que tenho um quadro vivo de muito verde! Mas sinto saudades da brisa que corre lá fora, só posso sentir do metro quadrado de varanda. A segunda xícara partilha comigo a vista verde no sol primaveril. Refletimos sobre os dias de isolamento, do medo, falamos muito da impotência que me resta junto com a tentativa de ter paciência. A segunda xícara me recorda os planos adiados, das férias em família canceladas com o vôo que nunca chegou e me vê chorar. E assim ela se vira derramando seu adoçado café em minha boca e diz:

– Então, você achava que dominava o tempo? Ou dominava teus atos? Não, querida, doce ilusão! Põe-te a traçar rumos novos dentro da tua cabeça. O que te preenche?

– Não sei (lágrimas travadas na porta dos olhos). Me recuso a chorar pela falta de domínio da minha própria vida. Não estava nos meus planos refazer novos planos. Desengavetar o que ficou à minha espera e eu nem sabia!

– Mas é o que te resta dentro desse concreto. Ou usa tua cabeça que hoje é teu único mundo onde é permitido caminhar, ou melhor, voar. Só assim consegues saltar essas paredes!

E assim foram dias e dias de muita conversa. A segunda xícara nunca me abandonou mesmo quando o mundo parecia pausado e os dias iguais. Foram nesses momentos pequenos e pingados que encontrei minhas novas versões, recheadas de inquietudes, crises, risos e lágrimas. Foi na segunda xícara que encontrei outros mundos meus, que nenhum vírus penetrou. Foi preciso mergulhar fundo, e isso eu sei bem fazer!

A segunda xícara me ensinou sobre o tempo. O tempo que se perdia em passadas largas e apressadas. Tempo do banho rápido, dos afazeres diários no automático, do café engolido, do tempo morrido.

A segunda xícara aguçou meus ouvidos ao canto dos pássaros, a avenida calada, a conversa do vento na varanda e aos burburinhos dos meus pensamentos! 

*

Ilana Kaufman (Porto Alegre, RS | Brasil)

Contato: ilakau7@gmail.com

O mês de março de 2020 parece ter terminado antes. O medo do desconhecido começava num dia que seria o último de tantos que não se repetiriam mais. As ruas, já repentinamente vazias, contrastavam com a pressa dos incertos momentos que se seguiriam. “… Uma ânsia jamais sentida tomou conta de mim…”. O riso irônico dos transeuntes deixava a inquietação tomar conta, quase esquecendo o motivo de ter saído de casa: comprar vitaminas. Na primeira farmácia adentrada, uma cliente tossia muito e pedia remédio para febre. “… Preciso sair. A pandemia está circulando pela população…” Não deu tempo para responder à balconista, quando a mesma bradou 10.  Os passos se tornaram acelerados e certeiros.   Ao chegar em casa, as mãos e os pés não tinham mais o vigor de outrora. “As multidões nunca me atraíram. No entanto, poder caminhar e sentir o ar tocando o rosto… Que saudades!”

*

Johany Medeiros (PE | Brasil)

Contato: johanymedeiros6@gmail.com

O calendário colado na parede com um durex barato, a faz lembrar que é junho. Só agora, antes de marcar mais um xis, percebe, que é dia de São João. O tempo, já parado há tempos, a faz viajar para uma época não tão distante. O peito aperta e palpita ao imaginar a fumaça e a boniteza das fogueiras que agita a criançada e os mais velhos; as pessoas fazendo fila para curtir a festa e a quadrilha animada, que sempre assiste ao lado do avô.

A respiração fica pesada, acaba sentando-se na cama bagunçada e colocando uma das mãos no coração acelerado. Mas o que está acontecendo? Por que parece que engoliu mil agulhas? Por que isso não para? Quer levantar-se, correr para o diário esquecido e listar todas as coisas que está sentindo nesse exato momento, como sempre faz quando uma crise bate à porta. Mas fecha os olhos. E ao fazê-lo, vê um par de olhos azuis encarando-a. Ele está feliz! Ele sempre está feliz quando presencia o salto colorido dos dançarinos de um lado para o outro.

O coração acalmou, as lágrimas escorreram e a vontade de escrever voltou a nascer. A saudade é mesmo um bicho estranho: não sabemos desenhá-la, mas podemos personificá-la em grandes olhos azuis.

*

Luciana Beirão de Almeida (Porto Alegre, RS | Brasil)

Contato: lubeirao@hotmail.com

Sol e chuva

17/01/2021

O sol atravessa a vidraça em meio à chuva, um raio de esperança iluminando a sala. O silêncio da casa vazia. Eu e os meus pensamentos, livros e estudos.  Aqui, escrevendo, me sinto acolhida pelo calor do sol, por sua luz, e vejo a minha sombra na parede. As gotas de chuva na janela me fazem lembrar que lá fora a vida acontece. Mas, por enquanto, neste instante, aproveito o encantamento do meu refúgio.

*

Sueli Agnelli (São Bernardo do Campo, SP | Brasil)

Contato: sbocciadi@gmail.com

Todos os dias eu via o ventilador de teto girando, me sentia assim, a cabeça girando com meus pensamentos acelerados, como um trem desgovernado. O cenário da internet era caótico, a tv nem se fala… A ansiedade resolveu ficar para o jantar. Até que eu resolvi fazer terapia, achava clichê demais conversar sobre o que eu sentia, mas a ansiedade me pediu para que tal ato fosse realizado. Lembro-me de ter adotado meu cachorrinho para a companhia dos dias cinzentos. Erguiam-se as placas em todos os lugares: “Seja criativo, produza”. Mas o que era difícil mesmo era parar, parecia que eu precisava correr mesmo eu clamando por uma pausa. O café ficou frio e melado como os meus dias. Até que meu amor chegou, aquele par de olhos castanhos, juntamente com meu cachorrinho, aquele focinho preto me trazendo abrigo em dias turbulentos. Eu só queria repousar minha cabeça no peito dele e falar sobre essa amiga falsa que chega sem avisar e bagunça toda minha vida. É, meu amor… essa tal da ansiedade faz esquecer o que temos de bom e perdemos o que temos para ganhar mais, que loucura, não é? Com um suspiro profundo, lembro-me de ver meu alívio de ansiedade aqui comigo. A casa era um silêncio tão obscurecido que dava pra ouvir a própria respiração, era cansativo se ouvir todos os dias. Meu refúgio para o caos era sentar na minha mesa e escrever qualquer bobagem, pode ser cartas que não serão endereçadas a alguém, poesias, ou qualquer coisa do tipo. Foi meu refúgio poder escrever e aliviar a tensão que meus dentes e meus ombros tinham durante todos os dias, escrever é meu bote salva-vidas, o cenário não é nada agradável, mas pelo menos a caneta dançando pelo papel faz tornar-se menos caótico possível.

Escrita Criativa em mim* | Patricia Gonçalves Tenório**

Janeiro, 2021

Capítulo 6 – Os mundos de dentro: residências de artistas e o ambiente acadêmico

            No capítulo 5, investigamos o que o dia a dia em uma editora – a preparação dos originais, a revisão do texto, a editoração do livro – pode acrescentar (e muito) na própria escrita.

            Em 2012, ingressei na Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na condição de aluna ouvinte. Ao sair da Calibán (2010) e, ao término do espetáculo teatral As joaninhas não mentem (2011), senti novamente o vazio que Clarice Lispector narra em sua última entrevista,[1] como se estivesse falando de dentro de um túmulo.

            E quantas maravilhas encontrei na UFPE: colegas (Antonio Aílton, Fernando de Mendonça, Ricardo Nonato, entre inúmeros), professores (Maria do Carmo Nino, Lourival Holanda, Anco Márcio Vieira, entre tantos) e livros teóricos (Maurice Blanchot, Gaston Bachelard, Erich Auerbach, entre infinitos) – todos altamente queridos e poéticos. Haviam me alertado de o perigo da Teoria engessar a Poesia, de a Crítica paralisar a Ficção. Mas não aconteceu comigo. Ao contrário, a leitura e a escrita teóricos alimentaram mais ainda a minha veia artística, provocaram mais ainda em mim a criação.

            Em 2013, fui convidada para uma residência de artista em Val-David, Québec, Canadá. Conheci a poetisa romena Flavia Cosma através do poeta francês Denis Emorine, que por sua vez me foi apresentado pela poetisa francesa Isabelle Macor-Filarska – a mesma Isabelle do capítulo 2 da presente coluna. Tudo isso de maneira virtual, com exceção de Isabelle – é o que chamo de corrente do bem da Arte. Na residência de artista de Flavia Cosma, poderíamos realizar qualquer tipo de expressão (fotografia, pintura, escrita poética ou ficcional) que desejássemos. Permaneci dez dias na pequena cidade de Val-David, convivendo com os colegas artistas, culminando, coletivamente, no IV Festival Internacional de Val-David, e, em particular, na tradução do poeta argentino Luís Raúl Calvo e o seu A outra obscuridade, além da organização do meu Sans nom/Fără nume,[2] uma coletânea de crônicas, contos e poemas lançada em outubro 2013 na França (Paris) e em maio de 2014 na Romênia (Alba Iulia) – mas essa é uma outra história.

            Acabo de chegar da residência da minha professora e orientadora de mestrado Maria do Carmo Nino. Acabo de conhecer o anexo de sua residência de artista, e me encontrar com o colega-amigo-escritor-professor Fernando de Mendonça. Sim, a Teoria não paralisa a Poesia. Sim, as residências de artistas acolhem com afeto Os mundos de dentro[3] da Escrita Criativa em mim, em você, em todos nós.


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Festival Internacional de Val-David, Québec – Canadá, na residência de artista de Flavia Cosma, maio de 2013.

Futura residência de artista de Maria do Carmo Nino, Aldeia, PE – Brasil e o encontro com Fernando de Mendonça.

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* Coluna publicada mensalmente nos blogs www.veragora.com.br/tesaoliterario e www.patriciatenorio.com.br.      

** Escritora, vinte livros publicados, sendo um em formato vídeo-podcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

[1] A última entrevista da autora de A hora da estrela encontra-se em Panorama com Clarice Lispector (1977): https://www.youtube.com/watch?v=ohHP1l2EVnU      

[2] CALVO, Luís Raúl. La Otra Oscuridad. A outra obscuridade. Tradução: Patricia Tenório. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2013, & TENÓRIO, Patricia. Sans nom/Fără nume. Trad. Français: Patricia Tenório et colab. Isabelle Macor-Filarska. Trad. Rom.: Flavia Cosma. Pref.: Christian Tămas. Romania: Ars Longa, 2013.        

[3] Os mundos de dentro é um projeto dos Estudos em Escrita Criativa On-line para 2021. Nele investigamos o processo de escrita em suas residências de escritores do século XX, tais como Osman Lins, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Hilda Hilst, e também compartilhamos o processo de criação de escritores contemporâneos, entre eles Adriano Portela, Altair Martins, Fernando de Mendonça, Maria do Carmo Nino. Maiores informações: www.estudosemescritacriativa.com, Instagram e Facebook (@estudosemescritacriativa).         

Escrita Criativa em mim* | Patricia Gonçalves Tenório**

Dezembro, 2020

Capítulo 5 – As editoras

            Para Ana Lucia Gusmão, Jaíne Cintra, Gisela Abad, Marivaldo Costa e Sandra Freitas

Apesar do distanciamento no tempo e no espaço, aprendi muito com a artista plástica pernambucana Karla Melo e o poeta cearense Majela Colares enquanto eu participava da editora Calibán, no Rio de Janeiro, de 2007 a 2010.

Quando retornei da França, em janeiro de 2007, recebi o convite do escritor pernambucano Cláudio Aguiar e do próprio Majela Colares para participar da editora carioca, sediada no bairro da Cinelândia, na av. Treze de Maio, ao lado do belíssimo Teatro Municipal – Karla Melo se juntou à equipe quando eu ingressei na editora. Foi todo um aprendizado do detalhe, de investigar a vírgula, a fonte da letra, a textura do papel, do miolo à capa, e o quanto essa experiência mudou o meu olhar de escritora iniciante.

O texto é imprescindível para que o livro nasça, e aquele de qualidade é o mais querido. Mas a forma como o texto virá ao mundo é também condição essencial. Quem nos lê pode passar adiante na prateleira de uma livraria, quer seja física ou virtual, apenas (e isso não significa pouco) por causa de uma apresentação pobre, desprovida de imaginação criadora em uma capa, na editoração de um texto.

Na organização dos originais já descobrimos a maravilha que é cuidar do livro do outro. E, com um pouco de sorte, evitamos alguns erros tipográficos na impressão, pois, como reza a lenda de Monteiro Lobato, “os erros tipográficos são como moleques peraltas: eles desaparecem na hora da revisão e aparecem saltitantes na hora da impressão”.

E, ao cuidar do livro do outro, apreendemos mais para os nossos próprios livros. Porque, formando um paradoxo com “amar a si para poder amar ao próximo”, o cuidado com o livro do outro desperta em nós o amor pelo que escrevemos, confirma o amor que sinto pela Escrita Criativa em mim.

Vista do belíssimo Teatro Municipal, ao lado da antiga editora Calibán, na av. Treze de Maio, n. 13, Cinelândia, Rio de Janeiro.

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* Coluna publicada mensalmente nos blogs www.veragora.com.br/tesaoliterario e www.patriciatenorio.com.br.      

** Escritora, vinte livros publicados, sendo um em formato vídeo-podcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa     

Índex* – Outubro, 2020

Quando leio

Os olhos teus

Têm passagens preciosas

Cenas misteriosas

De um tempo

Que não é

Meu

*

Eu caminho

Por veredas

Inesperadas

Vales

Montanhas

Escarpadas

E posso

Com a ponta

Dos meus dedos

Sentir a pele

Das palavras

De quando

A tua história

Se escreveu

(“Quando a escrita visita a leitura”, Patricia Gonçalves Tenório, 02/10/2020, 05h34)

Quando a escrita visita o Índex de Outubro, 2020 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Outubro, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Companhia.

Escrita Criativa em mim – Capítulo 3 – Literatura e outras artes | Patricia Gonçalves Tenório.

Poema Trilingue de Antonio Aílton (MA – Brasil).

Poema de Cilene Santos (PE – Brasil).

Sinos = Campanas | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Perfume de Elba Lins (PB/PE – Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

apaguei a playlist / comecei a dançar | Fernando de Albuquerque (PE – Brasil).

E os links do mês:

“Corruíras” de Alcides Buss: http://www.alcidesbuss.com/

Curso de Narrativas de Terror com Andrezza Postay e Bibiana Simionato (RS/PE – Brasil): https://www.sympla.com.br/narrativas-de-terror__969064

Salomé, de Iaranda Barbosa (PE – Brasil): www.catarse.me/salome

Arte Agora – Entrevista de Patricia Gonçalves Tenório para Alexandre Santos e Bernadete Bruto (PE – Brasil):  https://youtu.be/VyB69WRZQX0

Obrigada pela atenção e pelo carinho de sempre, a próxima postagem será em 29 de Novembro, 2020, abraço bem grande e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* October, 2020

When I read

Your eyes

There are precious passages

Mysterious scenes

From a time

That is not

Mine

*

I walk

By unexpected

Paths

Valleys

Rugged

Mountains

And I can

With the tip

Of my fingers

Feel the skin

Of words

Of when

Your story

Was wrote

(“When writing visits reading”, Patricia Gonçalves Tenório, 10/02/2020, 05h34 a.m.)

When writing visits the October Index, 2020 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Online Creative Writing Studies – October, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Company.

Creative Writing in Me – Chapter 3 – Literature and other arts | Patricia Gonçalves Tenório.

Trilingual Poem by Antonio Aílton (MA – Brasil).

Poem by Cilene Santos (PE – Brasil).

Bells = Campana | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Perfume of Elba Lins (PB/PE – Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

I deleted the playlist / started dancing | Fernando de Albuquerque (PE – Brasil).

And the links of the month:

“Corruíras” by Alcides Buss: http://www.alcidesbuss.com/

Horror Narratives Course with Andrezza Postay and Bibiana Simionato (RS / PE – Brasil): https://www.sympla.com.br/narrativas-de-terror__969064

Salomé, by Iaranda Barbosa (PE – Brasil): www.catarse.me/salome

Arte Agora – Interview by Patricia Gonçalves Tenório to Alexandre Santos and Bernadete Bruto (PE – Brasil): https://youtu.be/VyB69WRZQX0

Thank you for your attention and affection, the next post will be on November 29, 2020, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma
questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Quando a escrita visita a leitura dos livros bons. When writing visits reading of good books.