Posts com Crônica

Índex* – Maio, 2017

Tempo morto

Aquele de

Se esperar

E nunca

Alcança

Aquele de

Ver o mar

E não enxergar

A paisagem 

Aquele de 

Abrir os olhos

E não ter

Porque viver

*

Tempo torto

Que vive

Embriagando

As minhas buscas

Que traça

A imensidão 

Do meu destino

E me deixa

Parada entre os caminhos

*

Tempo solto

Que faz

Endoidecer 

Os meus ouvidos

Que floresce

Nas saias de meus vestidos

E concede

Um pouco de paz

Um pouco de amor

(“Triplo presente”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 16/05/17, 07h40)

*

Tempo morto

quello per aspettare

e mai raggiungere

quello per vedere il mare

e non guardare il paesaggio

quello per aprire gli occhi

e non sapere perchè vivere

*

Tempo contorto

che ubriaca le mie ricerche

che traccia l’immensità del mio destino

lasciandomi ferma tra i percorsi

*

Tempo liberato

che fa impazzire le mie orecchie

che fiorisce tra le pieghe del mio vestito

e concede un po’ di pace

un po’ d’amore.

(TRIPLO PRESENTE (Patricia Tenorio), Traduzione dal portoghese: Alfredo Tagliavia, 21/05/2017)

*

O Tempo solto entre os Espaços, entre os Signos, entre as Artes no Índex de Maio, 2017 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Conto intersemiótico | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Semiose poética” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“À Cidade” | Mailson Furtado (CE – Brasil).

A automedicação na prática | Mara Narciso (MG – Brasil).

A caixa e seus guardados | Marly Mota (PE – Brasil).

“Vida em veios”, de Regina Rapacci  (SP – Brasil) | Apresentação de Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2017 | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Agradeço a atenção e delicadeza, a próxima postagem será em 25 de Junho, 2017, um abraço bem grande e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – May, 2017

Dead time

That of

Waiting

And never

Reaching

That of

Seeing the sea

And not seeing

The landscape

That of

Openning the eyes

And not having

A reason to live

*

Crooked time

That lives

Intoxicating

My searches

That traces

The immensity

Of my destiny

And leaves me

Stopped between the paths

*

Loose time

That goes 

Freaking out

My ears

That flourishes

In the skirts of my dresses

And grants

A little bit of peace

A little bit of love

(“Triple present”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 05/16/17, 07h40)

*

The Loose Time between Spaces, between the Signs, between the Arts in the Index of May, 2017 of the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Intersemiotic Tale | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

“Poetic Semiosis” | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

“To The City” | Mailson Furtado (CE – Brasil).

Self-medication in practice | Mara Narciso (MG – Brasil).

The box and its saved | Marly Mota (PE – Brasil).

“Life in veins”, by Regina Rapacci (SP – Brasil) | Presentation by Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Study Group on Creative Writing – May, 2017 | With Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Thanks for the attention and delicacy, the next post will be on June 25, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Entre Recife e Porto Alegre, a Teoria e a Ficção, a Vida e a Arte. Between Recife and Porto Alegre, Theory and Ficcion, Life and Art. 

“Semiose poética”* | Clauder Arcanjo** [et al.]

As imagens surgiam frente a mim, e eu não conseguia sequer respirar. Como se com receio de que aqueles “flagrantes” do poeta-fotógrafo se espantassem com a intromissão de qualquer sinal de “outra vida”.

Alumbrado, eu batia as pálpebras dos olhos, a demonstrar que me encontrava em vigília de êxtase, mas não suprimido da seiva do humano, do que nos singulariza como demasiadamente belos-humanos.

Em seguida, voltei a circunvagar pela casa, e as fotografias, em flashes de preto e branco, relampejavam por entre os meus pensamentos. A memória, cativa das fotos, se intrometia diante da minha visão, ferrando meu juízo, inquietando todo o corpo.

Quase febril, sentei-me diante do computador, e a tela vazia a se borrar de medo do meu verbo. Como, não sei, num caudal de claro e sombras, o verbo se apresentou: tímido, apático, tosco e roto no mais das vezes. Como se a “arte” do escritor maculasse a lírica (in)finitude daqueles instantes revelados (e eternizados).

Contudo, o mister de escrevinhador é ofício de fanatismo. Sim, fanatismo de não querer mudar de ideia, nem muito menos de mudar de assunto. O coordenador do exercício a cobrar-me e a instigar-me a cumprir com o fatal compromisso: apresentar minhas “revelações textuais” do que, antes, instantes antes, eram imagens.

Quis desistir de tudo, defender (com unhas e dentes, contudo sem verbo) que a tarefa de que me (en)carregaram era missão para algum deus do Olimpo encarnado.

Tranco-me no quarto, dispo-me de todas as vestes e tento dormir: vã tentativa de fugir de tudo, de me exilar no escuro profundo da noite longa e vazia. Qual o quê!… A madrugada dispõe-me um laboratório de inquietações, tal qual uma exposição fotográfica (diria dantesca, caso não se traduzisse no sublime) contínua. As dezenas de imagens surgem e ressurgem, ao tempo em que detecto que algumas reminiscências pululam na lente do juízo.

Suado, levantei-me e passei a conspurcar palavras, versos e sentenças (?) no meu computador.

Salvei (e salvei-me?) tudo. Com pouco mais, entreguei-me à paz dos alumbrados.

No crepúsculo, as imagens acalentavam-me no colo do novo alvorecer, enquanto o verbo enfiava-se por entre os espinhos de êxtase da cândida noite repartida.

Quando duas artes se aproximam, aprendi, há sempre um parto de luz, alumbramento, inveja, mistério e dor.

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* Semiose poética. Ângela Rodrigues Gurgel… [et al.]. Mossoró: Sarau das Letras, 2017.

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com

A automedicação na prática | Mara Narciso*

21 de maio de 2017

A prescrição de medicamentos é ato exclusivo do médico e dentista que são obrigados a fazê-lo de forma legível e sem rasuras. Automedicar-se, isto é, sem receita médica é rotina corriqueira dos brasileiros, sendo comum se ter uma farmacinha no banheiro (o pior lugar para isso). No tempo em que “remédio não vencia”, os armários tinham medicamentos para dor, febre, diarréia, má digestão, colírio, gotas para nariz, linimento, mercúrio cromo e Mertiolate. Não havia regulamentação da propaganda de remédios e o rádio, em sinal de progresso, subentendendo-se que “povo medicado é povo adiantado”, explicava as vantagens das Pílulas de Lussen (vias urinárias), Regulador Xavier (menstruação: Número um, excesso, Número dois escassez) e Vick Vaporub.

Chegaram as regulamentações, lotes, prazos de validade, bulas detalhadas com indicações, contra-indicações, modo de ação, dose, interação medicamentosa (remédios que não combinam entre si) e os efeitos colaterais, citados mesmo quando ocorre um em um milhão, entre eles podem-se ler “morte súbita”. Ainda assim, o exagero é marcante. Há médicos que mandam ler a bula, outros proíbem a leitura. Tem cliente que desiste do remédio e outros ignoram os riscos. Muitos estão doentes e sem diagnóstico, enquanto outros tomam remédios de forma errada ou sem necessidade/eficácia.

O mercado de medicamentos movimenta bilhões, sendo que um novo medicamento demora anos para ser comercializado. A patente é quebrada após 20 anos, quando o genérico pode ser produzido, e durante este período o laboratório cobra o que quer, enquanto cria planos de desconto. Cobrando menos não tem prejuízo, então, por que não generalizar o menor preço?

Correm na internet informações de que o lucro abusivo e a ganância dos Laboratórios Farmacêuticos impedem a divulgação de formas alternativas de tratar e curar. Muitas dessas conversas são falácias, deixando o doente inseguro.

A TV e a internet trazem excessivas informações sobre doenças, exames e medicamentos, mas elas também espalham opiniões como se fossem estudos científicos. Dentro da Medicina há correntes divergentes, enquanto grupos de consenso buscam uma conduta comum. Nessa guerra, acuado, o médico pode perder, algumas vezes agarrado às suas próprias crenças. O cliente mais estudioso acaba levando o profissional às cordas e lhe dando bordoadas, o que o obriga a se atualizar. Por outro lado, notícias mal escolhidas e em profusão podem gerar pânico.

Além das falsas verdades e apavoramento, o prato cheio é o tratamento da obesidade. A toda hora surge notícia de droga milagrosa, para a pessoa emagrecer sem fome, ginástica, esforço ou sacrifício. Comercializadas no exterior via internet e pelos riscos, proibidas pela Anvisa, são mais caras por ser sem receita. Muitos embarcam nessa aventura, depois a medicina tradicional tenta reverter as complicações. No ramo de rejuvenescimento a lista de milagres não tem fim. Em relação aos remédios para outras finalidades, muitos têm uma sugestão de amigo ou parente, sem contar com as mudanças que balconistas de farmácia fazem.

Outro desastre são os remédios controlados, especialmente os viciadores de tarja preta. A ação deletéria do Clonazepam – Rivotril®, anticonvulsivante não danoso por si, mas sim pelo mau uso, tem ação ansiolítica, relaxante e no sono, merecendo destaque pelo baixo preço, quantidade de viciados e manutenção da dependência por médicos não psiquiatras. Acontece também a tolerância, com necessidade de doses cada vez maiores. Em poucas semanas, a dose padrão, que é de cinco gotas, leva ao vício e a retirada rápida causa crises de abstinência.

Pessoas idosas estão tomando 20/30 gotas de Clonazepam há 20/30 anos, e mostram perda parcial da inteligência, raciocínio e capacidade de memorização. Mesmo diante da recusa do médico que não fez a 1ª receita, alguns dependentes exigem uma nova prescrição em talonário azul. Tenta-se reduzir esse abuso, mas, como “são apenas algumas gotinhas” a orgia continua.

 

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Contato: yanmar@terra.com.br

A caixa e seus guardados | Marly Mota

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Índex* – Março, 2017

Foi às portas do

Inferno

E provou

O gosto árduo

De amar e

Não ser amada

*

Mesmo só

No infinito

Purgatório

Experimentou

Gotas de orvalho

Que desciam

Suavemente

Lá do

Céu

*

Avistou São Pedro

E suas chaves

Douradas

E os portões

Dourados

Que se abriam

De par em par

Como se para Beatriz

Fossem

Como se para Beatriz

Abrissem

Um sem fronteiras

De bênçãos

E felicidade

*

Pedro sorriu para Beatriz

Ele que negou

Três vezes

Ele que sofreu

Três vezes

O suplício de negar

A quem muito

Amava

*

Ele estendeu a mão

Ela se encolheu

Ele deu mais um passo

Ela compreendeu

Que o verdadeiro

Amor

É aquele que tudo

Com a consciência de talvez

Nunca

Receber nada em troca

(“Dante ao contrário”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/03/2017, 15h05)

O Amor sem receber nada em troca no Índex de Março, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

A volta de um”A menina do olho verde” | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Alfredo Pérez Alencart (Salamanca – Espanha) | Poemas.

Geórgia Alves (PE – Brasil) | “Reflexo dos Górgias”.

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Luís Augusto Cassas (MA – Brasil) | “A Poesia sou Eu”.

Marta Braier (Argentina) | Por Rolando Revagliatti (Argentina).

E os links do mês:

– O lançamento de “Não verás amanhã” (29/03/2017), de e no blog de Gustavo Melo Czekester (RS – Brasil): www.homemdespedacado.wordpress.com

– A fotografia de Tatiana Barroso de Oliveira (“Dona Mariana”) no Singular e Plural: www.singulareplural.wixsite.com

– A tradução e apresentação de Tiago Silva da escritora Namrata Poddar na Revista da UEPB: www.revista.uepb.edu.br/index.php/sociopoetica/article/view/3427/1873

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 30 de Abril, 2017, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – March, 2017

 

She went to the doors of

Hell

And proved

The hard taste

Of loving and

Not being loved

*

Even alone

In the infinite

Purgatory

She tasted

Dew drops

That descended

Gently

There from

Heaven

*

She sighted St Peter

And his golden

Keys

And the golden

Gates

That opened

Wide

As for Beatriz

Were

As for Beatriz

Opened

One without borders

Of blessings

And happiness

*

Peter smiled at Beatriz

He who denied

Three times

He who suffered

Three times

The punishment of denying

Who he much

Loved

*

He held out his hand

She cringed

He took another step

She understood

That the true

Love

It’s the one which

One gives

With the consciousness of maybe

Never

Receive nothing in return

(“Dante to the contrary”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/03/2017, 15:05)

 

The Love without receiving anything in return in the Index of March, 2017 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

The Return of a “The Green Eye Girl” | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Alfredo Pérez Alencart (Salamanca – Spain) | Poems.

Georgia Alves (PE – Brasil) | “Reflection of the Gorgias”.

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Luís Augusto Cassas (MA – Brasil) | “Poetry is Me”.

Marta Braier (Argentina) | By Rolando Revagliatti (Argentina).

And the links of the month:

– The launch of “You will not see tomorrow” (03/29/2017), from and on the blog of Gustavo Melo Czekester (RS – Brasil): https://homemdespedacado.wordpress.com/

– The photo of Tatiana Barroso de Oliveira (“Dona Mariana”) in the Singular and Plural: http://singulareplural.wixsite.com

– The translation and presentation by Tiago Silva of the writer Namrata Poddar in the UEPB Magazine: http://revista.uepb.edu.br/index.php/sociopoetica/article/view/3427/1873

Thanks for the participation and affection, the next post will be on April 30, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Crítica Genética de um Poema. The Genetic Critique of a Poem.

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto & Elba Lins

Março, 2017

 

A volta às aulas, das férias, vem sempre carregada de novidades doces e tenras, feito um fruto bom.

O Grupo de Estudos em Escrita Criativa passou pelo período de recesso, de entre-meio de estudos e escritas, e, das profundezas do que apreendemos juntas, trago à tona duas propostas.

A da escritora e poetisa Elba Lins (PB/PE – Brasil) tenta conciliar a Prosa e a Poesia, a Crítica com a Ficção: analisa o romance Acais, de Valquíria Lins, e da análise brotam poemas-personagens-símbolos-do-nordeste.

A da escritora e poetisa Bernadete Bruto (PE – Brasil) mergulha na Teoria da viagem, do filósofo francês Michel Onfray (1959), uma das tarefas que propus para o período de férias, e desse mergulho brotam poemas-peregrinos.

A segunda fase do Grupo de Estudos em Escrita Criativa pretende se aproximar – e em quem participa aplicar – as Teorias da Crítica Genética, ciência iniciada em 1966 com a doação dos manuscritos do poeta alemão Henri Heine (1797-1856) à Bibliothèque Nationale de Paris, ciência trazida ao Brasil pelo escritor, artista plástico, crítico literário francês, especializado em Gustave Flaubert, Pierre-Marc de Biasi (1950), e reverberada pela doutora em Linguística Aplicada e Estudos de Línguas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Cecília Almeida Salles.

Aproveito para convidar aqueles(as) que também desejarem fazer parte desse grupo. Enviem para patriciatenorio@uol.com.br um breve Curriculum Vitae com informações (além dos dados básicos):

– Qual o seu interesse em participar do Grupo de Estudos em Escrita Criativa?

– Qual a sua formação?

– Um ou dois textos em Poesia ou Ficção; um ou dois textos em Análise Literária ou Criativa.

Os encontros estão acontecendo uma vez por mês, em Recife – PE. Limite máximo de participantes: 5. Próximo encontro: 28 de abril de 2017.

Um abraço bem grande em todos e até a próxima postagem,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

 

Elba Lins: elbalins@gmail.com

 

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IMPRESSÕES SOBRE O LIVRO “ACAIS”, DE VALQUÍRIA LINS

 

Somete agora pude me dedicar à leitura de Acais com o tempo necessário para um mergulho na saga do seu avô Antônio Ferreira. A partir daí, a leitura seguiu num só fôlego e me encantei ao descobrir seus os personagens. Alguns que realmente devem ter existido na vida real com todas as nuances retratadas por você –  reais, fortes, com traços por vezes violentos e machistas, embora muitas vezes com atitudes de bondade. Outros tão bem inseridos na trama que ficamos a imaginar se realmente existiram e até que ponto são reais ou engendrados pela escritora (Maria Preta, Zefa Mestra, Olívia e a cigana Lolô). E ainda, entre tantos personagens desconhecidos, tive a grata surpresa de reencontrar nossa avó Estelita, que embora jovem e com o nome de Analice teve sua história fielmente retratada – casada com Mamede, separada, oito filhos, seu lado espiritual e mediúnico, tudo ficou claro na sua história. A partir da leitura fica a ânsia de querer saber mais sobre a narrativa; Tia Bia é filha de Antônio Ferreira com Olívia, a “Flor da Mata”? E Nice é filha de quem? Elpídio e João Maçã são reais ou ficção? E a enfermeira?

Seu texto é de quem conhece sobre o que está falando. E assim, você consegue retratar com imensa riqueza de detalhes o ambiente rural e o provinciano onde a história se desenvolve.

À medida que prossigo a leitura me sinto como retornando à infância, tão bem caracterizadas as descrições sobre os costumes das cidades do interior e das fazendas. Consigo me reportar e sentir o clima, as características, os fatos tão presentes na minha meninice; seja nas lembranças de minha própria cidade, seja nas recordações de passeios à fazenda do meu avô. A sua prosa com traços de poesia me remete ao passado à medida em que leio:

“…apertando a mulata que cheirava a extrato…, deixou-se lambuzar pela banha de porco que dela escorria pelos cabelos.”

“…lavadeiras …carregando trouxas sobre rodilhas na cabeça.”

O fogão queimava a queriam, e os abanos de palha espalhavam e atiçavam brasas esfumaçadas.”

Rapé, bonecas de milho, água fria na cabaça, capins, coroas de frade, flores e frutos, cantigas de Lapinha, Pastoreio, dente de ouro, vaqueiros com seus berrantes tocando a boiada, água da quartinha, flores cultivadas em latas, rolete de cana, fumo de rolo, varrer o terreiro, crianças nuas e de barriga inchada, mulheres rezadeiras.

Balinhas Gasosa – que só de lembrar do seu sabor, me vem água na boca.

A caracterização das várias etnias envolvidas na trama, suas religiões, festas e costumes é um resgate do Caldeirão de Raças, que somos nós brasileiros.

As suas personagens femininas de forte personalidade, são marcadores da diversidade de raças que formaram a nossa gente:

Maria Preta, “negra, corpo cheio de curvas, rosto não tão bonito, mas selvagem, viçoso e exótico.”

Zefa Mestra, ruiva, a menina dos cabelos fogo, e curvas delineadas.

Olívia, cabocla de beleza selvagem, com cabelos negros e lisos que vão até a cintura e com longa franja, que parece uma Índia.

Nem mesmo da raça cigana tão presente no nosso imaginário, você esqueceu. E através da “Cigana Lolô”,  traz à nossa lembrança o medo e o fascínio por aquelas mulheres e homens de vida errante que povoaram nossa infância com seus vestidos de cores fortes, muitas pulseiras e colares dourados, suas danças e músicas e que por dinheiro queriam  ler o futuro nas nossas mãos.

Na história das Juremas e seu significado mítico, descubro no seu livro o quão perto de nós, em Acais e Alhandra este ritual é/era praticado. E vejo a nossa mitologia nativa e fascinante, da qual já tomara conhecimento  através das Danças Circulares que trabalham com as mais diversas tradições. Em muitas delas – como é o caso do “Juremar”, das danças africanas ou mesmo na Mandala de Tara de teor budista –, o foco maior é o resgate do feminino em seus diversos aspectos. Nestas ocasiões tomamos conhecimento da riqueza imensa de nossas tradições nativas e daquelas vindas de fora como a africana, europeia; lembrando-nos que muito antes dos homens terem todo o controle sobre as mulheres, fato tão bem retratado no seu livro, existiu um tempo em que o matriarcado dominava e daí provem grande parte da riqueza da nossa história tão bem representada em algumas lendas.  Terminando de ler seu livro corro para explorar um pouco mais desta riqueza mítica no livro de Maria Lalla Cy – Juremar Yacy Uaruá, que adquirira no último encontro de danças do Juremar.  Logo de início encontro “…conhecemos muito pouco sobre as deidades formadoras de nossa identidade cultural. Cy é a grande mãe brasileira e como tal agrega todos os aspectos do feminino criativo e da natureza exuberante do matriarcado Pindorama. Até então, eu não sabia nada sobre um matriarcado primitivo aqui no Brasil”. Ela continua dizendo que “cabe a nós fazer com que essa Sabedoria não seja tratada como um conjunto de lendas (….) e sim como um saber vivo, que pode e deve ser atualizado(…). E, como somos frutos de miscigenação, desde sempre, mestres em alquimia cultural, aqui neste Juremar, celebramos a unidade na diversidade de todas as faces da Deusa, honrando a sabedoria de todos que caminharam sobre a terra!”. Seu livro Acais, portanto, chega até mim como parte deste resgate, de quem somos nós.

Finalmente me chamou atenção a perspicácia da autora em colocar o final do romance nas mãos de uma Zefa Mestra já desgastada pelo tempo com lapsos de memória o que deixa nas mãos do leitor a fantasia de decidir, de imaginar como teria sido na realidade o final da história.

Ao terminar a leitura, volto mais uma vez a relê-lo para melhor captar todos os detalhes e já fico na expectativa de novas histórias que certamente virão.

Parabéns, Valquíria!!!

Grande abraço,

Elba Lins

 

“De roupa vermelha,

Colares dourados,

Tu giras.

Na dança,

Na vida,

Ao redor de mim,

Tu giras.

Tu queres saber

Da minha vida.

Tu queres me dar

O teu amor…

Mas tu giras,

E queres dinheiro,

As minhas moedas,

Só para me dizer,

Olhando minhas mãos,

Que eu te desejo.

Tu giras,

Ao redor de mim

Tu giras,

Na minha cabeça

Que gira.

Tu danças pra mim,

Tu giras.

Sou louco por ti,

Que gira,

Que vem até mim

E na dança do amor,

Giramos.”

 

 

(“Cigana – À Cigana Lolô”. Elba Lins – 19/12/2016. Após leitura de Acais, de Valquiria Lins)

 

 

“Tu és pura filha,

Da terra selvagem

De nome Brasil

De Pindorama

Fruto primitivo

Que chega até mim.

Vem, em visão sublime

Nos vapores da cacheira

És minha Vênus,

Afrodite nascendo

Das espumas sutis.

Em ti, vejo riquezas

Ainda escondidas

Dos olhos dos brancos

Teu cabelo negro

Minha noite sem fim

Teu corpo suave

Matriz geradora

Que vem até mim.”

 

 

(“Índia – À Cabocla Olívia, A Flor da Mata”. Elba Lins – 18/12/2016. Após leitura de Acais, de Valquíria Lins)

 

“Negra te vejo de longe

E eu do lado de cá

Miro teu sorriso branco

Um farol a me guiar.

 

Teu corpo preto retinto

Tuas ancas a balançar

Me sinto num tombadilho

Vendo o balanço do mar.

 

Tua dança quando olho

Já me faz aproximar

Tambores que me enlouquecem

Em transe pareço entrar.”

 

(“Negra – À Maria Preta”. Elba Lins – 06/12/2016. Após leitura de Acais, de Valquiria Lins)

 

“Enquanto danças

Teu cabelo de fogo

Rodopia em chamas

Fogueira que brilha

Faíscas que me atiçam

Que chegam até mim.

 

Não resisto ao teu chamado

E encosto em teus cabelos.

Que caem em rubras cascatas

Que queimam meu corpo inteiro.

 

Já sinto meu sexo em brasa

Que aflito espera o teu

Incêndio descontrolado

Teu fogo agora sou eu.”

 

(“Ruiva –  À Zefa Mestra,  A Cabelo de fogo”. Elba Lins – 06.12.2016. Após leitura de Acais, de Valquíria Lins)

 

 

 

Bernadete Bruto: bernadete.bruto@gmail.com

 

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Teoria da Viagem e o Caminho da Poesia

 

           

Todos os viajantes, escritores da viagem,

artistas do nomadismo, experimentam essa

evidência, pois todos iluminados, como

incendiados, incandescentes. (Michel Onfray)

Muito interessante a leitura do livro Teoria da Viagem: poética da geografia, pois pude constatar que existe uma dinâmica no processo de viagem, antes nunca pensada e que pude identificar essa ordem descrita, comparando com a minha produção anterior e posterior à viagem que realizei no período de 7 de fevereiro à 8 de março, como dever de casa do Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

Ainda que a produção tenha ocorrido dentro do livre arbítrio, consegui enquadrar o escrito dentro da teoria. Achei bem mais proveitoso ter escrito livremente e só depois comparar com a teoria. Acredito que este método foi benéfico para minha criatividade, considerando que a escrita fluiu com base no sentimento, liberta de ideias pré-concebidas, assim acredito.

Antes da viagem, escrevo sobre o lugar em que vivo minha condição errante dentro da cidade, o gosto pelo movimento mesmo estando em casa como observamos nessa poesia anterior à partida:

 

Areias/Recife, 25 de Janeiro de 2017.

 

Mesmo caminho

 

O caminho é o mesmo

mas o olhar

modificou-se com o tempo

enxerga

a transitoriedade

daquela beleza

se encanta

e aprecia

Cotidianamente.

 

Nesta observação do caminho, a poetisa reflete o que Onfray explica com relação ao tempo: Quando põe o pé na estrada, ele obedece a uma força que, surgida do ventre e do âmago do inconsciente, lança-o no caminho, dando-lhe impulso e abrindo-lhe o mundo como um fruto caro, exótico e raro. (Pg. 15)

Apesar de certa resistência à mudança, que a própria viagem requer, já existe a consciência da condição do futuro movimento, o gérmen da viagem, que Onfray afirma estar enraizado na Gênese da errância: a maldição; genealogia da eterna viagem: a expiação – donde a anterioridade de uma falta sempre grudada no indivíduo. (Pgs. 11 e 12)

 

BR-101/Recife, 30 de janeiro de 2017

 

Citadina

 

Não quero uma casa no campo

pra lá

somente a passeio

nem quero uma casa na praia

naquele lugar

ainda passo um veraneio.

Quero permanecer na cidade

como esta velha árvore

fincada

não quero ser transplantada!

Gosto dessa mistura

de toda loucura

das grandes cidades.

 

Também, de outro modo, já se pode notar que acontece nas poesias escritas em vésperas da viagem, o que Onfray aponta:  A ausência de casa, de terra, de chão, supõe, a montante, um gesto deslocado, um sofrimento causado por Deus. (Pg. 12) Pois como ele afirma: Viajar solicita uma abertura passiva e generosa a emoções que advêm de um lugar a ser tomado em sua brutalidade primitiva. (Pg. 59)

 

Areias/ Recife, 30 de janeiro de 2017

 

Saudades do Sol

 

Já sinto saudades do sol

calor que me fortalece

luz iluminando minha vida

viajo do interno para o externo

nessas voltas ao redor do sol

já penso no retorno

meu corpo bronzeando

abandonando o cachecol

 

Rua Afonso Celso/ Recife, 7 de Fevereiro de 2017

 

Mulher Repartida

 

Dividida sempre

entre o inverno e o verão

entre o frio e quente

passado e presente

um coração se reparte

encontrando o bom

em cada parte

 

Entretanto como a viagem estava certa, para o local onde reside meu filho, nora e neta e com uma missão definida, não podendo escolher, o tempo, nem o momento para viajar. Fiquei sujeita àquilo que Onfray indica: o determinismo genealógico se impõe. Não escolhemos os lugares de predileção, somos requisitados por eles. (Pg. 20, grifo nosso).

Durante a viagem, no período que Onfray denomina de entremeio, observamos haver muito de experiência sensorial, como ele diz: No entremeio, quando os referenciais de civilização desaparecem, o corpo tende a reencontrar seus movimentos naturais e obedece mais ardentemente à soberania dos ritmos biológicos. (Pg. 38) Talvez por isso, por estar em um movimento diferente do que costumo ter no meu país, a poesia daquele período adquiriu este ritmo:

 

Vancouver, 15 de fevereiro de 2017

 

Impassível mente

 

Acompanha esta árvore

Ao teu lado

Oh, alma!

Impassível

No inverno

No verão

Árvore que deixa acontecer

Como deve a alma ser

Na chuva

Na neve

Perante cada estação

De inverno a verão

Impassível mente

 

Tempo ZEN

 

Tudo aqui

À distancia

É calma

É silencio

E a vida passa

Devagar

Sem pressa

A toda hora

Aqui e agora.

 

Com relação ao movimento de retorno da viagem, Onfray nos apresenta que há um outro entremeio: depois do tempo ascendente do desejo, depois do tempo excitante do acontecimento, chega o momento descendente de retorno. (Pg. 85) Nessa linha, encontro as poesias escritas sobre saudade:

 

Vancouver, 4 de Março de 2017

 

Saudades Canadense ano 3

 

Toda vez

Naquela hora

Na despedida

Acontece

Sem medida

A alma se abre em duas

A desaguar

sem cerimônia

Toda saudade

 

(Em 8 de Março de 2017)

 

Alma Repartida

 

Dia da partida

Coração aberto

Lágrimas nos olhos

A saudade inundando

Toda uma vida…

 

Como observa Onfray e consigo identificar nas poesias escritas durante a viagem: Não nos separamos do nosso ser, que nos habita e acompanha à maneira de uma sombra. Nas viagens, esse ser quer e vê, ordena e decide. (Pgs. 63 e 64)

Assim, depois dessa exposição maciça ao estrangeiro, pudemos constatar o que Onfray pressagia: Na fadiga do retorno preparam-se as sínteses por vir. (Pg. 91) O que me faz buscar nas minhas anotações, algum tempo após a viagem, a seguinte poesia:

 

Monteiro/Recife, 16 de Março de 2017.

 

No Campo

 

Aquela que vê

(e também lê)

Não é a mesma

depende

do tempo

do olhar

desse movimento

sempre

menos da mente

mais do que sente

 

Essa mesma poesia corrobora a observação de Onfray de que o nômade-artista sabe e vê como visionário, compreende e capta sem explicações, por impulso natural. (Pg. 61)

Por tudo isso, chegamos à conclusão que o caminho a seguir pelo escritor/poeta deve ser muito mais intuitivo e livre, cabendo à teoria oferecer um embasamento necessário, enriquecendo seu trabalho, sem embotar o processo criativo. Portanto, da mesma forma que existe uma Teoria da Viagem, também há o Caminho da Poesia. Este é percorrido nas profundezas do ser, produzindo o que há de mais puro, acredito, quando em sintonia com a música de seu coração:

 

Caminhando pelo Mundo (*)

 

Não vos digo

Que tudo que falo

Eu sigo…

Apenas garanto

Pelos sons das palavras pratico

Persigo a razão

Para qual existo

E acredito

Por isso mesmo

Insisto

Persisto

E prossigo.

 

Bernadete Bruto

 

Recife, 22 de Março de 2017.

 

* Poesia retirada do livro: Querido Diário Peregrino, de Bernadete Bruto, pg. 126.

** Foto da Viagem ao Canadá Fevereiro em 7  de fevereiro de 2017.

 

 

 

 

 

 

Índex* – Fevereiro, 2017

Cercada

Por animais

Eu me acordo em

Fevereiro

*

Lembro

Da menina de óculos

E meias

Até os joelhos

No primeiro

Dia de aula

*

Ela me diz

Algum segredo

Em voz baixa

Eu presto

Atenção

Para captá-lo

No ar

Para sorver

Na ponta

Dos dedos

O que fui

Outrora

Moldar em

Barro

E transmutar

Em personagem

*

Já fui

Princesa

Sacerdotiza

E jornalista

Agora sou

Uma simples

Escritora

A catar

Conchinhas de palavras

No mar aberto

De Maracaípe

(“Álbum de família”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 01/02/17, 06h02)

A Imaginação se irmana com a Prosa e a Poesia, Crítica e Ficção, Vida e Arte no Índex de Fevereiro, 2017, no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

“A louca da casa”, de Rosa Montero: Possíveis Escritas Criativas | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil) com Fernando de Mendonça (SP/PE – Brasil), Erasmo de Roterdam (Holanda), Ariano Suassuna (PB/PE – Brasil) e Cecília Almeida Salles (SP – Brasil).

Anco Márcio Tenório Vieira (PE – Brasil) | O vagão rosa.

Diego Mendes Souza (PI – Brasil) | Tinteiros rilkeanos.

Elba Lins (PB/PE – Brasil) | Impressões sobre o livro “O amante”, de Marguerite Duras.

Isabelle Macor (França) | “Lecteur d’emprentes digitales”/”Czytinik linii papilarnych”, Ewa Lipska (Polônia).

Jacques Rimbeboim (PE – Brasil) | Homenagem a Guita Charifker (PE – Brasil) com Abelardo da Hora (PE – Brasil).

Luiz Ruffato (MG/SP – Brasil) | “Redemoinho” & “Inferno Provisório”.

Marly Mota (PE – Brasil) | Homenagem a Luzilá Gonçalves (PE – Brasil) com Lourival Holanda (PE – Brasil).

Poeta de Meia-Tigela (CE – Brasil) | “acidade” digital.

Agradeço o carinho e participação, a próxima postagem será em 26 de Março, 2017, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – February, 2017

Surrounded

By animals

I wake up at

February

*

I remember

The girl with glasses

And socks

Up to the knees

In the first

Class day

*

She tells me

Some secret

In a low voice

I pay

Attention

To capture it

Up in the air

To drink

At the tip

Of the fingers

What I was

Once

Mold in

Clay

And transmute

In character

*

I was already

Princess

Priestess

And a journalist

Now I am

A simple

Writer

Picking up

Little shells of words

On the open sea

Of Maracaípe

(“Family Album”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 02/01/17, 06h02)

 

Imagination joins with Prose and Poetry, Criticism and Fiction, Life and Art in the Index of February, 2017, in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

“The madwoman of the house”, by Rosa Montero: Possible Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil) with Fernando de Mendonça (SP/PE – Brasil), Erasmus of Rotterdam (Netherlands), Ariano Suassuna (PB/PE – Brasil) and Cecília Almeida Salles (SP – Brasil).

Anco Márcio Tenório Vieira (PE – Brasil) | The pink wagon.

Diego Mendes Souza (PI – Brasil) | Rilkean ink cartridges.

Elba Lins (PB/PE – Brazil) | Impressions on the book “The Lover”, by Marguerite Duras.

Isabelle Macor (France) | “Lecteur d’emprentes digitales”/”Czytinik linii papilarnych”, Ewa Lipska (Poland).

Jacques Rimbeboim (PE – Brasil) | Homage to Guita Charifker (PE – Brasil) with Abelardo da Hora (PE – Brasil).

Luiz Ruffato (MG/SP – Brasil) | “Swirl” & “Provisional Hell”.

Marly Mota (PE – Brasil) | Homage to Luzilá Gonçalves (PE – Brasil) with Lourival Holanda (PE – Brasil).

Poet of Half-Bowl (CE – Brasil) | Digital “acidade”.

 

Thank you for the affection and participation, the next post will be on March 26, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Imaginação Livre no Mar Aberto de Maracaípe, PE – Brasil. The Free Imagination in the Open Sea of Maracaípe, PE – Brasil.

“A louca da casa”, de Rosa Monteiro: Possíveis Escritas Criativas | Patricia (Gonçalves) Tenório

09 a 10 de fevereiro, 2016

 

A dupla

Existem certos livros (e filmes) que nos assombram, nos atormentam a ponto de adiarmos o instante inaugural de leitura.

“Não sei por que demoro tanto a ler certos livros. Talvez por temer um abismo, pressentir uma perda de mim, uma perda do centro, uma desestruturação de meu ser. Isso aconteceu, por exemplo, com O Mar, de John Banville. Lembro de tomar o livro por diversas vezes, trazê-lo para junto de mim, para a mesa de cabeceira, mas algo que eu adivinhava na capa, ou na orelha, ou na pequena resenha do livro me impedia de abrir a primeira página e lê-lo de um fôlego só, horas e horas sem parar, e conseguir escrever no meu diário, ainda tomada pela emoção da leitura, que “uma espécie de vazio se instala em mim”.”[1]

O mesmo acontece com A louca da casa (2003), da escritora e jornalista espanhola, nascida em Madri, Rosa Montero (1951). Recebi de uma amiga das letras e da vida, a poeta e escritora Elba Lins, no lançamento de A menina do olho verde, em maio de 2016. Maio de 2016. Daqui a uns dias faz um ano. E me recusei esse tempo inteiro a tomá-lo nas mãos, “trazê-lo para junto de mim” e “lê-lo de um fôlego só”.

Investigo.

Composto por dezenove capítulos, Montero vai nos guiando por sua arte do escrever bem, um escrever bem quando “a louca da casa” toma conta de nosso ser, preenche plenamente nosso ser e podemos revelar a nossa verdade com todas as células.

“Sempre pensei que a narrativa é a arte primordial dos seres humanos. Para ser, temos que nos narrar, e nessa conversa sobre nós mesmos há muitíssima conversa fiada: nós nos mentimos, nos imaginamos, nos enganamos. O que contamos hoje sobre a nossa infância não tem nada a ver com o que contaremos dentro de vinte anos.”[2]

Desde a epígrafe, Rosa nos alerta das possibilidades do que está escrevendo. “Para Martina, que é e não é. / E que, não sendo, muito me ensinou.” Martina, supostamente, é a irmã gêmea de Rosa. Uma irmã gêmea tão diferente que bem poderia ser inventada, bem poderia ser uma personagem da escritora espanhola, que se autodenomina “a louca da casa”.

O título por si só é bem esclarecedor. “Caiu de paraquedas” para a autora vindo de uma frase de Santa Teresa, quando esta afirma que a “imaginação” é a louca da casa, e fica em um lugar escondido do nosso ser.  Lá para o final do livro, Montero faz uma retrospectiva na qual descobre que o texto não é somente sobre a literatura, mas sobre a imaginação, a loucura… Mas deixemos para “o final do texto” a descoberta dos verdadeiros temas de Rosa…

 

As máximas

Se pudéssemos organizar em máximas (mas de maneira aleatória, que faz sentido para mim, e o mais breve possível) para o “escrever bem” os inúmeros capítulos de A louca da casa – ato que, tenho certeza, muito incomodaria a autora, mas que tomo a licença poética para tentar descobrir o porquê dessa minha paralisia, desse meu congelamento diante de uma possível “dupla” ––, se pudermos organizar em máximas, quem sabe encontrássemos em cada capítulo…

1) “Nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos”;[3]

2) “O escritor está sempre escrevendo”;[4]

3) “Ninguém vai se lembrar da maioria de nós dentro de alguns séculos”;[5]

4) “Medo de concretizar a ideia, de aprisioná-la, deteriorá-la, mutilá-la”;[6]

5) “A literatura é um caminho de conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas, não de respostas”;[7]

6) “O romance se dá numa região turva e escorregadia; em torno de um romance sempre acontecem as coisas mais estranhas. Como, por exemplo, as coincidências”;[8]

7) “Por que um escritor perde o rumo?”;[9]

8) “Mas não creio que seja um assunto apenas literário; realmente, acho que o ambiente fraternal é o primeiro lugar onde você se mede como pessoa; para ser você mesmo, é preciso sê-lo, de algum modo, contra seus irmãos”;[10]

9) “Os romances são os sonhos da Humanidade, sonhos diurnos que o romancista tem de olhos abertos”;[11]

10) “Será que no fundo da nossa consciência sabemos que a paixão amorosa é um invento, um produto da nossa imaginação, uma fantasia? E que, portanto, essa dor que nos abrasa é de alguma maneira irreal?”[12]

11) a) “Isto é a escrita: o esforço de transcender a individualidade e a miséria humana, a ânsia de nos unir aos outros num todo, o desejo de sobrepor-nos à escuridão, à dor, ao caos e à morte”;[13]

b) “A poesia aspira à perfeição; o ensaio, à exatidão; o drama, à ordem estrutural. O romance é o único território literário em que reinam a mesma imprecisão e falta de limites que reinam na existência humana. É um gênero sujo, híbrido, agitado.”[14]

12) “Lembro da primeira vez em que percebi que a morte existia. Eu devia ter uns cinco anos e estava lendo O gigante egoísta, o lindo conto infantil de Oscar Wilde. […] E morrer, percebi de repente, era não estar em lugar algum. […] Imagino que esta foi mais uma das razões pelas quais virei escritora”;[15]

13) “Detesto a narrativa utilitária e militante, os romances feministas, ecologistas, pacifistas ou qualquer outro ista que se possa pensar, porque escrever para passar uma mensagem trai a função primordial da narrativa, seu sentido essencial, que é o da busca do sentido. Escreve-se, então, para aprender, para saber; e não é possível empreender essa viagem de conhecimentos levando previamente as respostas”;[16]

14) “O escritor, como qualquer outro artista, tenta dar uma espiada para fora das fronteiras dos seus conhecimentos, da sua cultura, das convenções sociais; tenta explorar o informe e o ilimitado, e esse território desconhecido se parece muito com a loucura”;[17]

15) “De modo que a imaginação não só pode vencer a morte (ou pelo menos conquistar um adiamento da pena), mas também nos cura, nos sana, nos torna melhores e mais felizes”;[18]

16) “Porque eu não acredito na existência de musas. Em primeiro lugar, penso que o sussurro da criatividade, o murmúrio do daimon e dos brownies é sempre conquistado na base do esforço (como dizia Picasso, que a inspiração te pegue trabalhando); e também estou convencida de que os musos e musas mais eficientes não são os verdadeiros amados, e sim as ilusões passionais. Quer dizer, a pura fabulação. Quanto mais longínquo, mais frustrado, mais impossível, mais irreal, mais inventado for o relacionamento sentimental, mais reaviva a imaginação, enfim, enquanto a realidade pura e dura, o ruído imediato da própria vida, é péssima influência literária”;[19]

17) “De fato, quando transcorre certo tempo, digamos vinte anos, de alguma coisa que lembro, às vezes é difícil distinguir se vivi aquilo, ou se sonhei, imaginei, ou talvez escrevi ( o que mostra, por outro lado, toda a força da fantasia: a vida imaginária também é vida)”;[20]

18) “Em geral, os seres humanos não se permitem outros delírios, mas aceitam o amoroso. A alienação passageira da paixão é uma doidice socialmente admitida. É uma válvula de escape que nos permite continuar sendo equilibrados em todo o resto”;[21]

19) “Talvez tenhamos dentro de nós outras possibilidades de ser; talvez até mesmo as desenvolvamos de algum modo, inventando e deformando o passado mil e uma vezes. Talvez cada um dos acontecimentos da nossa existência pudesse ter acontecido de dez maneiras diferentes”.[22]

 

Os diálogos

Michel de Montaigne (1533-1592) já dizia nos seus Ensaios[23] que escrevemos por cima do que já escrevemos – lembro do palimpsesto –, e o que escrevemos não tem nada de original: nos citamos uns aos outros.

Que me perdoe Montaigne, mas seria preciso retornarmos aos gregos, antes até mesmo de Sócrates e Platão, antes dos Pré-socráticos, ao primeiro ser humano que (ins)escreveu símbolos nas cavernas, tentando se comunicar uns com os outros, para sermos originais. Mas precisamos nos dizer, precisamos colocar para fora aquilo que somos para dentro, ou ao menos investigar o que somos para dentro no intuito de nos conhecermos mais e melhor.

E é com esse intuito que teço aguns diálogos com essa escritora espanhola que se auto-denomina A louca da casa, e que, tão loucamente, eu me sinto irmã.

Dialogo.

ROSA – “Nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos”.

PATRICIA – Uma das maneiras de registrar o que ocorre no processo criativo encontra-se nos diários, blocos de anotações, …, o que a doutora em Linguística Aplicada e Estudos de Línguas da PUCSP, Cecília Almeida Salles, em Gesto inacabado: processo de criação artística,[24] chama de “registros de experimentação”.

ROSA – “O escritor está sempre escrevendo”.

PATRICIA – Não me canso de repetir – e a repetição leva à elaboração – as máximas do poeta, romancista, dramaturgo, crítico de arte paraibano radicado em Recife, PE, Ariano Suassuna (1927-2014), no seu Iniciação à Estética,[25] quando afirma que não basta a Forma, ou a imaginação criadora; é preciso a Técnica, ou estudo contínuo; e o Ofício, ou trabalho diário, para que o artista – e aqui tomamos o(a) escritor(a) – transforme em obra de arte e não mero artesanato o que tem em suas mãos.

ROSA – “A literatura é um caminho de conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas, não de respostas”.

PATRICIA – Se eu pudesse eleger um único tema para as minhas investigações seria tentar responder à grande Pergunta, uma Pergunta Essencial: até onde o escritor pode transitar na Teoria sem perder a Ficção? A Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico é esse grande desafio ao nos alimentarmos de Teoria para fazer Poesia, de Crítica para tecer Ficção, de Vida para moldar o barro da Arte.[26]

ROSA – “O escritor, como qualquer outro artista, tenta dar uma espiada para fora das fronteiras dos seus conhecimentos, da sua cultura, das convenções sociais; tenta explorar o informe e o ilimitado, e esse território desconhecido se parece muito com a loucura”

PATRICIA – De maneira oblíqua, tento dialogar com a questão da loucura e do conhecimento ao mesmo tempo. Penso que escrever é como se fosse lapidar um vidro em estado bruto, opaco a princípio, pois não nos conhecemos bem. Com o aprofundamento da escrita e do auto-conhecimento que ela nos fornece, vamos lapidando e lapidando esse vidro opaco de nós mesmos, até chegarmos ao cristal, puro, transparente, o mais próximo possível de nossa essência – porque nunca conseguimos atingir a nossa essência plenamente, apenas “vemos em parte” o que um dia “veremos face a face”, já nos dizia o apóstolo Paulo. E por estarmos tão próximos de nossa essência, por quase “roçá-la”, não nos contentamos com pouco, nunca mais aceitaremos menos do que desejamos. E isso é um risco imenso. É para “os poucos, os loucos, os bons” – já nos dizia Hermann Hesse.

Quanto à Loucura, escrevi um texto sobre o Elogio à Loucura, de Erasmo de Roterdam, e um dos trechos que mais me fascina é quando Erasmo trata do Amor-Paixão, um dos quatro temas – como prometi no início deste breve estudo: literatura, imaginação, loucura e amor – que Rosa Montero trata no seu A louca da casa, e que farei uma relação com o filme La La Land, de Damien Chazelle.[27]

 

O amor

Uma atendente de cafeteria que sonha em ser atriz. Um músico que sonha em ter um clube de jazz próprio. Sonhos que se misturam, se entrelaçam, na direção da maior das loucuras do ser humano: a loucura do amor.

Quando iniciei este breve estudo, falei de livros “que nos assombram, nos atormentam a ponto de adiarmos o instante inaugural de leitura”. Feito O Mar, de John Banville. Feito Um Detalhe em H e 23 de Novembro, de Fernando de Mendonça. Feito A louca da casa, de Rosa Montero. Mas tive o cuidado de pôr entre parênteses os filmes, e no caso de La La Land ocorreu comigo exatamente o contrário do que acontece com “certos livros”.

Fui levada, por acaso, por meu filho caçula, em um domingo de janeiro, 2016. E já é a segunda vez que o assisto, e a obsessão persiste, a paixão continua.

– “O amor tem razões que a própria razão desconhece” – já dizia William Shakespeare.

E Rosa Montero afirma que o Amor-Paixão é a única Loucura que é permitida – e incentivada, vide os Dias de Namorados, etc – pela sociedade.

ROSA – “Porque eu não acredito na existência de musas. Em primeiro lugar, penso que o sussurro da criatividade, o murmúrio do daimon e dos brownies é sempre conquistado na base do esforço (como dizia Picasso, que a inspiração te pegue trabalhando); e também estou convencida de que os musos e musas mais eficientes não são os verdadeiros amados, e sim as ilusões passionais. Quer dizer, a pura fabulação. Quanto mais longínquo, mais frustrado, mais impossível, mais irreal, mais inventado for o relacionamento sentimental, mais reaviva a imaginação, enfim, enquanto a realidade pura e dura, o ruído imediato da própria vida, é péssima influência literária”.

E Erasmo (Desidério) de Roterdam confirma no seu Elogio à Loucura, feito citei acima, e ele escreve abaixo.

“De fato, quem ama com ardor não vive mais em si mesmo, vive no objeto que ele ama; e, quanto mais se afasta de si mesmo para ligar-se a este objeto, mais ele sente aumentar sua alegria e sua felicidade. Ora, não é louco o homem quando seu espírito, elevando-se acima da matéria, parece sair do corpo para delirar? De outro modo, o que significariam estas expressões vulgares: Ele está fora de si… caia em si… ele voltou a si…? Enfim, quanto mais perfeito é o amor, maior a loucura e mais sensível a felicidade.”[28]

E Rosa se repete na narração dos possíveis encontros com M., um ator de Hollywood – qualquer semelhança com o sonho de Mia em La La Land não é coincidência, pois não acredito em coincidências –, feito uma obsessão, feito as possibilidades de Aristóteles na sua Poética, feito a escrita compulsiva deste texto em dois dias, ou um poema que escrevi diante do infinito mar, um poema que ofereço daqui, do outro lado do Oceano Atlântico, para A louca da casa Rosa Montero, que, feito Martina, bem poderia ser minha irmã.

Ofereço.

 

Cercada

Por animais

Eu me acordo em

Fevereiro

 

Lembro

Da menina de óculos

E meias

Até os joelhos

No primeiro

Dia de aula

 

Ela me diz

Algum segredo

Em voz baixa

Eu presto

Atenção

Para captá-lo

No ar

Para sorver

Na ponta

Dos dedos

O que fui

Outrora

Moldar em

Barro

E transmutar

Em personagem

 

Já fui

Princesa

Sacerdotiza

E jornalista

Agora sou

Uma simples

Escritora

A catar

Conchinhas de palavras

No mar aberto

De Maracaípe

 

(“Álbum de família”, Patricia (Gonçalves) Tenório,[29] 01/02/17, 06h02)

 

_________________________________________________________

(1) Vide “Sobre Um Detalhe em H, de Fernando de Mendonça” (http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4809) e “A Epifania em Fernando de Mendonça” (http://www.patriciatenorio.com.br/?p=5923), 19/06/2013 e 04/01/2015, respectivamente.

(2) MONTERO, Rosa. A louca da casa. Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2015, p. 8.

(3) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 8.

(4) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 12.

(5) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 21.

(6) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 32.

(7) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 39.

(8) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 45.

(9) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 51.

(10) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 64.

(11) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 75.

(12) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 81.

(13) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 96.

(14) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 100.

(15) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 102, itálico da edição, colchetes nossos.

(16) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 109.

(17) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 122.

(18) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 129.

(19) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 137, itálico da edição.

(20) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 141.

(21) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 150.

(22) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 166.

(23) MONTAIGNE, Michel Eyquem de. Ensaios. Tradução: Sérgio Millet. Precedido de Montaigne – o homem e a obra, de Pierre Moreau. 2ª ed. Brasília: Editora Universitade de Brasília, Hucitec, 1987, p. 352.

(24) SALLES, Cecilia Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: FAPESP: Annablume, 1998, p. 18.

(25) SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002, pp. 235-240.

(26) Vide “A perda da aura nas Fotografias para imaginar, de Gilberto Perin (e a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico)”, http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7095, de 30/10/2015.

(27) La La Land. La La Land – Cantando Estações. 2016. EUA. 128 min. Direção: Damien Chazelle. Com Ryan Gosling, Emma Stone, John Legend, entre outros.

(28) DESIDÉRIO, Erasmo. Elogio da loucura. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, (1508 in) 2011), p. 131, itálico da edição.

(29)  Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados: O major – eterno é o espírito2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Em 2016 publicou Vinte e um/Veintiuno (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Acaba de ingressar (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) no Doutorado em Escrita Criativa. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

Anco Márcio Tenório Vieira* | O vagão rosa**

Destinando às usuárias do metrô do Recife um dos seus vagões, a CBTU pareceu tomar uma solução sensata para coibir a violência e o assédio sexual contra as mulheres. Na verdade, a “solução” apenas alimenta velhos estereótipos, preconceitos e mostra a falência da nossa segurança pública. Vejamos.

Ao segregar as usuárias em um “vagão rosa”, a CBTU não só está reafirmando o caráter “indefeso” e “frágil” atribuído à mulher, como reiterando, de modo sutil, o discurso machista e misógino de que ela é incapaz de se defender dos seus “algozes”. Logo, como elas poderiam comandar empresas, assumir cargos de chefia dentro do Estado ou mesmo ser respeitadas em espaços que são tradicionalmente tidos como masculinos? Por outro lado, a “solução” dada pela CBTU encerra um contraditório: se as mulheres representam 56% dos usuários do metrô e como um vagão não é suficiente para transportar todas elas, particularmente nos seus horários de pico (das 6:00-8:30 e das 17:30-19:30), como ficam as passageiras que precisam viajar nos vagões destinados aos homens, se não há ninguém para protegê-las? Ora, se elas também podem viajar nos vagões destinados aos homens, então isso significa dizer que essas mulheres, contrariando o estereótipo que lhes é imputado de sexo “indefeso” e “frágil”, são adultas e capazes de se protegerem?

Outro ponto a frisar, é que como ainda não se aboliu o livre-arbítrio, muito menos vivemos em um Estado totalitário que diz como devemos viver ou nos locomover, apesar de certos “moralistas” que adorariam regrar como deveríamos proceder até na alcova, creio que o direito de escolher o vagão que melhor lhe aprouver é uma decisão que apenas e somente cabe à mulher decidir. Logo, ao optar por não viajar nos vagões que lhe são destinados, essa mulher, caso fosse assediada sexualmente, seria responsabilizada por ser a agente provocadora? Ou seja, mais uma vez, ela, a vítima, é que seria culpada?

Por fim, duas derradeiras perguntas: essa “solução cidadã” também se estenderá aos ônibus e aos demais espaços públicos, a exemplo de ruas, cinemas, teatros, escolas, hospitais, restaurantes e shoppings? As questões da segurança e da urbanidade se resolvem construindo espaços-bolhas para as vítimas do machismo, da misoginia e da homofobia, ou passa por enfrentarmos com as armas da educação (sem hipocrisia nem falso moralismo religioso), a violência de gênero nas escolas, fábricas, empresas e instituições públicas?

Creio que nenhuma sociedade é forte e saudável se ela prefere promover antes a segregação do que o enriquecedor convívio entre os diferentes, principalmente quando os segregados respondem, no caso, por mais da metade da sua população. Ao recorrer à segregação de gêneros, essa sociedade não apenas revela o quão efêmera é, como atesta que fracassou em seu projeto civilizatório e caminha a passos largos para a completa barbárie.

 

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* Anco Márcio Tenório Vieira é professor no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, e seus escritos bem parecem contos urbanos. Contato:  ancovieira@yahoo.com.br

** Publicado no Diário de Pernambuco em 14/02/2017.

Elba Lins | Impressões sobre o livro “O amante”, de Marguerite Duras

———- Mensagem encaminhada ———-
De: “Elba Lins” <elbalins@gmail.com>
Data: 7 de jan de 2017 14:05
Assunto: IMPRESSÕES SOBRE O LIVRO – O AMANTE, de MARGUERITE DURAS
Para: <confrariamulheres@googlegroups.com>
Cc:
Olá, amigos da Confraria,

Aproveito para mandar minhas impressões sobre o livro O AMANTE, de MARGUERITE DURAS

Já havia lido A Dor e O Amante há muito tempo atrás, sem no entanto, ter dedicado tempo a saber mais sobre a autora ou analisar a obra com profundidade.

Volto a ler O Amante e me encanto com a densidade do texto de Marguerite Duras. Nele existe tanto sentimento, tanta dor, tantas coisas não ditas, quase ditas ou enfim ditas; que me sinto transportada para um clima diferente. De repente estou escrevendo sobre tensões, sobre mágoas, medos e dores e buscando dentro de mim os meus próprios demônios interiores, tão forte o contexto do romance.

Ao escrever impressões sobre um livro procuro me restringir ao texto, fazer minhas próprias avaliações, constatações e somente depois buscar as críticas e comentários na Internet de forma a não me deixar “contaminar” por ideias que não são minhas. Depois de fazer isto, verifico quão divergentes ou alinhadas estão, em relação às demais. Ao ler O Amante para nossas discussões na Confraria, não resisti à curiosidade de logo buscar mais informações sobre a obra e a vida de M. Duras. É incrível e instigante tudo o que consegui ler sobre ela. É o  tipo de escritora que nos leva a querer ler toda a sua obra e pesquisar o que se escreveu sobre ela; mesmo sabendo que um mergulho nesta vida de tanta densidade irá influenciar os nossos  próprios sentimentos.

Consegui na Internet alguns textos para ajudar no entendimento da obra de Duras e coloco os títulos para quem se interessar:

* SILÊNCIO E REVELAÇÃO NA ESCRITA DE MARGUERITE DURAS – Karina Ceribelli ROY*

* O TEXTO DE MARGUERITE DURAS (1) -Celina Moreira de Mello – Universidade Federal do Rio de Janeiro

* A ESCRITURA CORRENTE DE MARGUERITE DURAS*- Celina Moreira de Mello -Universidade Federal do Rio de Janeiro

Destaco alguns pontos que me chamaram atenção nestes artigos:

– É dito que a obra de Duras pode ser dividida em uma fase da Indochina e outra fase da Índia.

– Mesmo apresentando diferentes histórias, no fundo o enredo básico das obras de Duras são sua infância na Indochina, sua família e os romances de casais em crise. Existem muitos pontos de confluência entre suas obras.

– Uma curiosidade – ela não gostou da versão cinematográfica do seu romance, O Amante.

–  Ao longo do tempo, muitas verdades vão aos poucos sendo explicitadas em seus romances, como se ela fosse retirando véus e mais véus de assuntos censurados. Finalmente, em O Amante, escrito após a morte da mãe e dos seus dois irmãos, Duras consegue falar de temas até então escondidos. É dito que alguns destes tabus só serão revelados no romance O Amante da China do Norte. Estes dois livros são caracterizados como suas obras mais autobiográficas. Entre estes tabus, estão o caso do amante com o qual M.D. se relacionou na adolescência e o suposto relacionamento incestuoso com seu irmão mais novo (no romance O Amante da China do Norte). Mas isto é assunto para o futuro. Também é questionado se houve algum evento incestuoso envolvendo o irmão mais velho.

– São feitos comentários sobre a forma contraditória com que ela fala da mãe, pois ao mesmo tempo que a cultua, a critica. Como, quando ela diz “…a porcaria da minha mãe, meu amor…”. ” acho que falei do amor que sentíamos por nossa mãe, mas não sei se falei do ódio…”

Depois de transitar pelas muitas opiniões sobre a obra de Duras teci alguns comentários sobre o livro O Amante.

– Logo no início do romance, é muito forte o texto onde ela fala sobre a mudança que ocorreu no seu rosto por volta dos seus dezoito anos. Comenta que tem um “um rosto destruído”. Na minha opinião tem mais correlação com seu irmão mais velho do que com o romance com o chinês. Sobre o trecho “Não, aconteceu alguma coisa quando eu tinha dezoito anos que fez surgir este rosto. Devia ser a noite. Eu tinha medo de mim, tinha medo de Deus. De dia, eu tinha menos medo, e a morte parecia menos pesada. Mas ela não deixava. Eu queria matar meu irmão mais velho (…) e sobretudo para salvar meu irmão mais moço (…) dessa lei representada por ele, decretada por ele, um ser humano, e que era uma lei animal …” Senti que existe ainda muita coisa não dita, muitos fantasmas noturnos que ainda não viram a luz do dia. Não sei se serão finalmente abordados n’ O Amante da China do Norte.

– Quando volta a falar no seu rosto e no papel que o álcool e o desejo ocupou na sua vida mesmo antes de conhecer o gozo, ela diz ” Tudo começou para mim, por este rosto visionário, extenuado, esses olhos pisados antes do tempo, antes da experiência.” Me pergunto, que experiência foi esta que no texto ela chega a colocar em itálico, dando uma conotação de mistério.

– Parece que existia nela uma extrema segurança sobre o desejo que, já na faixa dos doze anos sabia despertar nos homens. ” Faz três anos que os brancos também me olham (…) e os amigos de minha mãe me convidam (…) na hora em que suas esposas estão jogando tênis no Clube Esportivo. Eu poderia me iludir, acreditar que sou bela (…). Mas sei que não é uma questão de beleza (…). Eu pareço o que quero parecer…”

É contraditório o comportamento da mãe, seja quando o diretor da escola diz que sua filha é a primeira em francês e ela fica “descontente porque não são os filhos os primeiros em francês”, seja quando “percebe o chapéu masculino e o sapato de lamê dourado (…) ” e mesmo assim ” não só aceita essa palhaçada, essa falta de decoro (…) como esta falta de decoro lhe agrada”. Quando a família sai para jantar com o chinês tudo é contraditório, eles saem, jantam, bebem, dançam sem entretanto dirigir a palavra ao anfitrião. No pensionato, ao mesmo tempo que pede que as saídas da filha não sejam controladas a mãe lhe bate por desconfiar que está se relacionando com o chinês.

– Já que não espera dos filhos homens a solução dos problemas financeiros, a mãe fecha os olhos para a atitude da menina e para sua forma de vestir-se. “Resta essa menina que cresce e que talvez um dia saiba como fazer entrar dinheiro em casa. É por esta razão, e ela não sabe disso, que a mãe permite que a filha saia com esta roupa de prostituta infantil”. 

Sobre os sentimentos pelo chinês – acho que além do desejo e do interesse financeiro, existia, embora não explicitada, uma identificação, um gostar de ficar perto, de conversar (embora nunca sobre eles próprios), uma certeza de se sentir acolhida. O choro da jovem no navio de partida e na cena final, nos dá a ideia deste amor  “…aquela irrupção da música de Chopin sob o céu iluminado de cintilações. (…) E a jovem tinha se levantado (…) e depois havia chorado porque tinha pensado naquele homem de Cholen e de repente não tinha certeza se o havia amado com um amor do qual não se apercebera porque ele tinha se perdido na história como a água na areia e agora ela só o reencontrava nesse instante em que a música se lançava ao mar”. Este, entretanto, foi um romance natimorto. Sentimos que ela foge para não se sentir aprisionada a um amor que tiraria toda independência. Um outro agravante, o chinês é fraco e embora se dissesse apaixonado por ela, estava preso ao dinheiro do pai. “Ele chora muito porque não encontra forças para amar além do medo. Seu heroísmo sou eu, sua servidão é o dinheiro do pai”. Estas várias percepções certamente pesaram nas suas escolhas para o futuro, já que desde cedo sabia o que queria – ser escritora, deixar a família para trás, fugir de todo aquele pesadelo familiar.

– O quarto em que ela encontra com o chinês está sempre cheio de personagens, os irmãos, a mãe, o pai, Hélène Lagonelle… e a todos eles, ela parece envolver durante o sexo com o chinês. Vai ser um prato cheio para as psicólogas e psicanalistas do grupo, já espero ansiosa por seus debates.

É um livro que a cada leitura descobre-se novos pontos a serem analisados.

Tomo a liberdade de enviar para vocês um dos textos que escrevi durante a leitura do romance O Amante:

A Solidão encontrou o Amor e sem saber que ele era o falso amor, se deixou seduzir e ser invadida pela Paixão.

A partir daí, ela não era mais a Solidão, era um ser apaixonado, escravizado.

Por medo de perder o estado de graça, de cair na desgraça, se deixou massacrar.

Se fez dependente, de uma palavra, de um gesto…

Suplicava amor,
Mendigava paixão,
Se tornou loucura.

E onde ficou seu orgulho, que a deixava aqui, ouvindo impropérios?

Que não lhe permitia fugir da vergonha, da loucura,

De percorrer ruas vazias em busca do que pensava amor

Ela agora trazia no corpo e na alma as marcas deste Amor/Desamor.
Que durou dias, meses, anos…
Até que a força do hábito a fez optar

E mudar outra vez o seu nome, para Solidão.

( “Da Loucura” – Elba Lins, 02.01.2017. Durante a leitura de O Amante, de Marguerite Duras)