Amarel@ Mang@ | Vinícius Gomes*

Nascemorre

Haroldo de Campos, 1958

 

 

            Constituida pelos numerais zero e um, em diferentes tons de amarelo, verde e vermelho. Amarel@ Mang@ foi elaborada em 14 de fevereiro de 2012, com auxílio de alguns dos inúmeros editores de texto e imagem disponíveis nos diversos sistemas operacionais de computadores. Para ser mais exato, sua criação levou exatos 45 minutos, tempo destinado para a escolha da imagem e efetivação de alterações textuais e visuais. Segundo Santaella (1998, p.170), “a função do programador infográfico é, na medida em que a computação existe, produzir mudança nas imagens, um manipulador, sujeito antecipador e ubíquo”.

            A escolha do título, Amarel@ Mang@, permite diversas leituras: amarelo mango, amarela manga, amarelO mangA, amarelA mangO. Poema de inspiração verbivocovisual e tecnológica, perceptível inicialmente nos arrobas (@) e na imagem icónica de uma fruta, passível de apresentação textual ambígua entre manga (português) e mango (inglês), amarelo e amarela. As alterações de Ø (zero) e 1 (um) que compõem a imagem por letras que formam a frase ‘AmareloManga’ foram criadas aleatoriamente na vertical, horizontal, e por vezes na diagonal, alterando a sequência de maiúsculas e minúsculas, permutando as grafias do numeral Ø(zero) pelo  grafema O (ó/ô) e “L” por “1” e vice-versa. Se analisarmos as construções possíveis teremos: amarelo, manga, amare, mangamar, amarel1m, amareloma, mangaama, amareloma, amare1o1mangaam, elomanga, am0, onga, ma, rel, ama,  0m0, olmanga, marel10manga. Além da assinatura digital da obra.

            Nascemorre, poema concreto criado por Haroldo de Campos, aproxima e traduz bastante a ideia inicial ao desenvolver Amarel@ Mang@. A semântica do nascer e morrer é uma possível reflexão ao poema visual apresentado em Amarel@ Mang@; que não existe de maneira concreta, sendo apenas uma representação aqueiropoética (não realizada pela mão do homem) de uma imagem capturada na rede mundial de computadores e transformada através de softwares.

            Uma vez que a imagem da manga, se assim podemos nomeá-la, passa por uma desconstrução virtual para ser traduzida em números, cores, e letras, ainda podemos considerá-la uma fruta? Lembremos que Santaella (1998) menciona Peirce (CP 2.323) em: “O objeto de uma representação pode ser qualquer coisa existente, perceptível, apenas imaginável, ou mesmo não suscetível de ser imaginada”.

            Nascer, morrer, renascer, desnacer, remorrer, desmorrer de Nascemorre (Haroldo de Campos), tornam-se signos conflituosos se aplicados à representação pictorica de Amarel@ Mang@. É uma questão de (não)existêncialidade do ‘poema virtual’ que está aberto a outras alterações por demais visualizadores ou até mesmo expurgado pelo hospedador da imagem, a empresa detentora dos direitos do Flickr: Yahoo Inc.

            O processo de captação da imagem utilizada em Amarel@ Mang@ ainda pode ser considerado fotográfico? Pressupõe-se que a fotografia da manga foi captada por meio de uma máquina de registro, por conexão dinâmica e captação física de fragmentos do mundo visível, ainda que tenha sido escolhida entre tantas outras imagens apresentadas pelo sistema de buscas do Google. Para Santaella (1998, p.157), imagens físicas são “imagens que dependem de uma máquina de registro”. Entretanto, a possibilidade de questionar se a fruta (manga) escolhida no Google foi produzida artesanalmente ou captada através de máquina(s) de registro(s) é quase nula. Apenas se sabe que o resultado final apresentado ao leitor/expectador é reflexo do casamento entre um computador e uma tela de vídeo (projetor/celular/tablet/etc.) que também pode ser transportado e apresentado por meio de impressão.

            Para elucidar a querela supramencionada, Santaella (1998, p.166) define o paradigma pós-fotográfico no qual: “o computador, por sua vez, embora também seja uma máquina, trata-se de uma máquina ótica, mas sobre um substrato simbólico: a informação. Na nova ordem visual, na nova economia simbólica instaurada pela infografia, o agente da produção não é mais um artista, que deixa na superfície de um suporte a marca da subjetividade e de sua habilidade, nem é um sujeito que age sobre o real, e que pode até transmutá-lo através de uma máquina, mas se trata agora, antes de tudo, de um programador cuja inteligência visual que se realiza na interação e complementaridade com os poderes da inteligência artificial.”

Referencias:   SANTAELLA, Lúcia. NÖTH, Winfried. Imagem, Cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras, 1998.

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* Texto e imagem enviados e autorizados pelo autor para serem publicados no blog de Patricia Tenório. Contato: niciusmatrix@gmail.com